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Carta Encíclica
FIDES ET RATIO
do Sumo Pontífice
João Paulo II
aos Bispos da Igreja Católica
sobre as relações entre fé e razão
Venerados Irmãos no Episcopado: saúde e Bênção
Apostólica!
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas
asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação
da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o
desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O
conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também
à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33,18; Sal 27/26,8-9;
63/62,2-3; Jo 14,8; 1Jo 3,2).
Introdução
"Conhece-te a ti mesmo"
1. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever
um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se
progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um
caminho que se realizou - nem podia ser de outro modo - no âmbito
da autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade
e o mundo, tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo
tempo que nele se torna cada vez mais premente a questão do sentido
das coisas e da sua própria existência. O que chega a ser
objeto do nosso conhecimento, torna-se por isso mesmo parte da nossa vida.
A recomendação "conhece-te a ti mesmo" estava
esculpida no dintel do templo de Delfos, para testemunhar uma verdade
basilar que deve ser assumida como regra mínima de todo o homem
que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela
sua qualificação de "homem", ou seja, enquanto
"conhecedor de si mesmo".
Aliás, basta um simples olhar pela história antiga para
ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas partes
da terra, animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais
que caracterizam o percurso da existência humana: "Quem sou
eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que
existirá depois desta vida?" Estas perguntas encontram-se
nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas
e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e
Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam
ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides
e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão
e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte
comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração
do homem: da resposta a tais perguntas depende efetivamente a orientação
que se imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este caminho
de pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade
última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas
do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é "o caminho, a verdade
e a vida" (Jo 14,6). De entre os vários serviços que
ela deve oferecer à humanidade, há um cuja responsabilidade
lhe cabe de modo absolutamente peculiar: é a diaconia da verdade1.
Por um lado, esta missão torna a comunidade crente participante
do esforço comum que a humanidade realiza para alcançar
a verdade2, e, por outro, obriga-a a empenhar-se no anúncio das
certezas adquiridas, ciente todavia de que cada verdade alcançada
é apenas mais uma etapa rumo àquela verdade plena que se
há de manifestar na última revelação de Deus:
"Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então
veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita, então
conhecerei exatamente" (1Cor 13,12).
3. Variados são os recursos que o homem possui para progredir no
conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência.
De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico
é colocar a questão do sentido da vida e esboçar
a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade.
O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, "amor à
sabedoria". Efetivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se
quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas
e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo
da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se
sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua
razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai dando, se integrem
num horizonte que evidencia a complementaridade das diferentes culturas
onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia teve na formação
e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos esquecer
a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber
a existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui
a sua própria sabedoria natural, que tende, como autêntica
riqueza das culturas, a exprimir-se e a maturar em formas propriamente
filosóficas. Prova da verdade de tudo isto é a existência
duma forma basilar de conhecimento filosófico, que perdura até
aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios postulados
em que as várias legislações nacionais e internacionais
se inspiram para regular a vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum único
termo, se escondem significados diferentes. Por isso, é necessária
uma explicitação preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir
a verdade última da existência, o homem procura adquirir
aqueles conhecimentos universais que lhe permitam uma melhor compreensão
de si mesmo e progredir na sua realização. Os conhecimentos
fundamentais nascem da maravilha que nele suscita a contemplação
da criação: o ser humano enche-se de encanto ao descobrir-se
incluído no mundo e relacionado com outros seres semelhantes, com
quem partilha o destino. Parte daqui o caminho que o levará, depois,
à descoberta de horizontes de conhecimentos sempre novos. Sem tal
assombro, o homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a pouco, incapaz de
uma existência verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do intelecto humano permite elaborar,
através da atividade filosófica, uma forma de pensamento
rigoroso, e assim construir, com coerência lógica entre as
afirmações e coesão orgânica dos conteúdos,
um conhecimento sistemático. Graças a tal processo, alcançaram-se,
em contextos culturais diversos e em diferentes épocas históricas,
resultados que levaram à elaboração de verdadeiros
sistemas de pensamento. Historicamente isto gerou muitas vezes a tentação
de identificar uma única corrente com o pensamento filosófico
inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma certa
"soberba filosófica", que pretende arvorar em leitura
universal a própria perspectiva e visão imperfeita. Na realidade,
cada sistema filosófico, sempre no respeito da sua integridade
e livre de qualquer instrumentalização, deve reconhecer
a prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao qual
deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não obstante a mudança
dos tempos e os progressos do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos
filosóficos, cuja presença é constante na história
do pensamento. Pense-se, só como exemplo, nos princípios
de não-contradição, finalidade, causalidade, e ainda
na concepção da pessoa como sujeito livre e inteligente,
e na sua capacidade de conhecer Deus, a verdade, o bem; pense-se, além
disso, em algumas normas morais fundamentais que geralmente são
aceites por todos. Estes e outros temas indicam que, para além
das correntes de pensamento, existe um conjunto de conhecimentos, nos
quais é possível ver uma espécie de patrimônio
espiritual da humanidade. É como se nos encontrássemos perante
uma filosofia implícita, em virtude da qual cada um sente que possui
estes princípios, embora de forma genérica e não
refletida. Estes conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa
medida por todos, deveriam constituir uma espécie de ponto de referência
para as diversas escolas filosóficas. Quando a razão consegue
intuir e formular os princípios primeiros e universais do ser,
e deles deduzir correta e coerentemente conclusões de ordem lógica
e deontológica, então pode-se considerar uma razão
reta, ou, como era chamada pelos antigos, "orthòs logos, recta
ratio".
5. A Igreja, por sua vez, não pode deixar de apreciar o esforço
da razão na consecução de objetivos que tornem cada
vez mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê, na
filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à
existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda
indispensável para aprofundar a compreensão da fé
e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda.
Na sequência de iniciativas análogas dos meus Predecessores,
desejo também eu debruçar-me sobre esta atividade peculiar
da razão. Faço-o movido pela constatação,
sobretudo em nossos dias, de que a busca da verdade última aparece
muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida,
o grande mérito de ter concentrado a sua atenção
sobre o homem. Partindo daí, uma razão cheia de interrogativos
levou por diante o seu desejo de conhecer sempre mais ampla e profundamente.
Desta forma, foram construídos sistemas de pensamento complexos,
que deram os seus frutos nos diversos âmbitos do conhecimento, favorecendo
o progresso da cultura e da história. A antropologia, a lógica,
as ciências da natureza, a história, a linguística,
de algum modo todo o universo do saber foi abarcado. Todavia, os resultados
positivos alcançados não devem levar a transcurar o fato
de que essa mesma razão, porque ocupada a investigar de maneira
unilateral o homem como objeto, parece ter-se esquecido de que este é
sempre chamado a voltar-se também para uma realidade que o transcende.
Sem referência a esta, cada um fica ao sabor do livre arbítrio,
e a sua condição de pessoa acaba por ser avaliada com critérios
pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado experimental,
na errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica.
Foi assim que a razão, sob o peso de tanto saber, em vez de exprimir
melhor a tensão para a verdade, curvou-se sobre si mesma, tornando-se
incapaz, com o passar do tempo, de levantar o olhar para o alto e de ousar
atingir a verdade do ser. A filosofia moderna, esquecendo-se de orientar
a sua pesquisa para o ser, concentrou a própria investigação
sobre o conhecimento humano. Em vez de se apoiar sobre a capacidade que
o homem tem de conhecer a verdade, preferiu sublinhar as suas limitações
e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo,
que levaram a investigação filosófica a perder-se
nas areias movediças dum ceticismo geral. E, mais recentemente,
ganharam relevo diversas doutrinas que tendem a desvalorizar até
mesmo aquelas verdades que o homem estava certo de ter alcançado.
A legítima pluralidade de posições cedeu o lugar
a um pluralismo indefinido, fundado no pressuposto de que todas as posições
são equivalentes: trata-se de um dos sintomas mais difusos, no
contexto atual, de desconfiança na verdade. E esta ressalva vale
também para certas concepções de vida originárias
do Oriente: é que negam à verdade o seu carácter
exclusivo, ao partirem do pressuposto de que ela se manifesta de modo
igual em doutrinas diversas ou mesmo contraditórias entre si. Neste
horizonte, tudo fica reduzido a mera opinião. Dá a impressão
de um movimento ondulatório: enquanto, por um lado, a razão
filosófica conseguiu avançar pela estrada que a torna cada
vez mais atenta à existência humana e às suas formas
de expressão, por outro tende a desenvolver considerações
existenciais, hermenêuticas ou linguísticas, que prescindem
da questão radical relativa à verdade da vida pessoal, do
ser e de Deus. Como consequência, despontaram, não só
em alguns filósofos mas no homem contemporâneo em geral,
atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos
cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de
verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as
perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida
humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se
poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões.
6. Credenciada pelo fato de ser depositária da revelação
de Jesus Cristo, a Igreja deseja reafirmar a necessidade da reflexão
sobre a verdade. Foi por este motivo que decidi dirigir-me a vós,
venerados Irmãos no Episcopado, com quem partilho a missão
de anunciar "abertamente a verdade" (2Cor 4,2), e dirigir-me
também aos teólogos e filósofos a quem compete o
dever de investigar os diversos aspectos da verdade, e ainda a quantos
andam à procura duma resposta, para comunicar algumas reflexões
sobre o caminho que conduz à verdadeira sabedoria, a fim de que
todo aquele que tiver no coração o amor por ela possa tomar
a estrada certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para
a sua fadiga e também satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes de mais, pela certeza de que os Bispos,
como assinala o Concílio Vaticano II, são "testemunhas
da verdade divina e católica" 3. Por isso, testemunhar a verdade
é um encargo que nos foi confiado a nós, os Bispos; não
podemos renunciar a ele, sem faltar ao ministério que recebemos.
Reafirmando a verdade da fé, podemos restituir ao homem de hoje
uma genuína confiança nas suas capacidades cognoscitivas
e oferecer à filosofia um estímulo para poder recuperar
e promover a sua plena dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a escrever estas reflexões
Na carta encíclica "Veritatis Splendor", chamei a atenção
para "algumas verdades fundamentais da doutrina católica que,
no contexto atual, correm o risco de serem deformadas ou negadas"4.
Com este novo documento, desejo continuar aquela reflexão, concentrando
a atenção precisamente sobre o tema da verdade e sobre o
seu fundamento em relação com a fé. De fato, não
se pode negar que este período, de mudanças rápidas
e complexas, deixa sobretudo os jovens, a quem pertence e de quem depende
o futuro, na sensação de estarem privados de pontos de referência
autênticos. A necessidade de um alicerce sobre o qual construir
a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente,
principalmente quando se é obrigado a constatar o caráter
fragmentário de propostas que elevam o efêmero ao nível
de valor, iludindo assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro
sentido da existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase
até à borda do precipício, sem saber o que os espera.
Isto depende também do fato de, às vezes, quem era chamado
por vocação a exprimir em formas culturais o fruto da sua
reflexão, ter desviado o olhar da verdade, preferindo o sucesso
imediato ao esforço duma paciente investigação sobre
aquilo que merece ser vivido. A filosofia, que tem a grande responsabilidade
de formar o pensamento e a cultura através do apelo perene à
busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação
originária. É por isso que senti a necessidade e o dever
de intervir sobre este tema, para que, no limiar do terceiro milênio
da era cristã, a humanidade tome consciência mais clara dos
grandes recursos que lhe foram concedidos, e se empenhe com renovada coragem
no cumprimento do plano de salvação, no qual está
inserida a sua história.
Capítulo I
A Revelação da Sabedoria de Deus
1. Jesus, Revelador do Pai
7. Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a
consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua
origem no próprio Deus (cf. 2Cor 4,1-2). O conhecimento que ela
propõe ao homem, não provém de uma reflexão
sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra
de Deus (cf. 1Tes 2,13). Na origem do nosso ser crentes existe um encontro,
único no seu gênero, que assinala a abertura de um mistério
escondido durante tantos séculos (cf. 1Cor 2,7; Rom 16,25-26),
mas agora revelado: "Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria,
revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade
(cf. Ef 1, 9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado,
têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes
da natureza divina"5. Trata-se de uma iniciativa completamente gratuita,
que parte de Deus e vem ao encontro da humanidade para a salvar. Enquanto
fonte de amor, Deus deseja dar-Se a conhecer, e o conhecimento que o homem
adquire d'Ele leva à plenitude qualquer outro conhecimento verdadeiro
que a sua mente seja capaz de alcançar sobre o sentido da própria
existência.
8. Retomando quase literalmente a doutrina presente na constituição
"Dei Filius" do Concílio Vaticano I e tendo em conta
os princípios propostos pelo Concílio de Trento, a constituição
"Dei Verbum" do Vaticano II continuou aquele caminho plurissecular
de compreensão da fé, refletindo sobre a Revelação
à luz da doutrina bíblica e de toda a tradição
patrística. No primeiro Concílio do Vaticano, os Padres
tinham sublinhado o caráter sobrenatural da revelação
de Deus. A crítica racionalista que então se fazia sentir
contra a fé, baseada em teses erradas mas muito difusas, insistia
sobre a negação de qualquer conhecimento que não
fosse fruto das capacidades naturais da razão. Isto obrigara o
Concílio a reafirmar vigorosamente que, além do conhecimento
da razão humana, por sua natureza, capaz de chegar ao Criador,
existe um conhecimento que é peculiar da fé. Este conhecimento
exprime uma verdade que se funda precisamente no fato de Deus que Se revela,
e é uma verdade certíssima porque Deus não Se engana
nem quer enganar6.
9. Por isso, o Concílio Vaticano I ensina que a verdade alcançada
pela via da reflexão filosófica e a verdade da Revelação
não se confundem, nem uma torna a outra supérflua: "Existem
duas ordens de conhecimento, diversas não apenas pelo seu princípio,
mas também pelo objeto. Pelo seu princípio, porque, se num
conhecemos pela razão natural, no outro fazêmo-lo por meio
da fé divina; pelo objeto, porque, além das verdades que
a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os
mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos
se nos forem revelados do Alto"7. A fé, que se fundamenta
no testemunho de Deus e conta com a ajuda sobrenatural da graça,
pertence efetivamente a uma ordem de conhecimento diversa da do conhecimento
filosófico. De fato, este assenta sobre a percepção
dos sentidos, sobre a experiência, e move-se apenas com a luz do
intelecto. A filosofia e as ciências situam-se na ordem da razão
natural, enquanto a fé, iluminada e guiada pelo Espírito,
reconhece na mensagem da salvação a "plenitude de graça
e de verdade" (cf. Jo 1,14) que Deus quis revelar na história,
de maneira definitiva, por meio do seu Filho Jesus Cristo (cf. 1Jo 5,9;
Jo 5,31-32).
10. No Concílio Vaticano II, os Padres, fixando a atenção
sobre Jesus revelador, ilustraram o carácter salvífico da
revelação de Deus na história e exprimiram a sua
natureza do seguinte modo: "Em virtude desta revelação,
Deus invisível (cf. Col 1,15; 1Tim 1,17), na riqueza do seu amor,
fala aos homens como amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com
eles (cf. Bar 3,38), para os convidar e admitir à comunhão
com Ele. Esta economia da Revelação realiza-se por meio
de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de
tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação,
manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras;
e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério
nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus
como a respeito da salvação dos homens manifesta-se-nos,
por esta Revelação, em Cristo, que é simultaneamente
o mediador e a plenitude de toda a revelação" 8.
11. Assim, a revelação de Deus entrou no tempo e na história.
Mais, a encarnação de Jesus Cristo realiza-se na "plenitude
dos tempos" (Gal 4,4). À distância de dois mil anos
deste acontecimento, sinto o dever de reafirmar intensamente que, "no
cristianismo, o tempo tem uma importância fundamental" 9. Com
efeito, é nele que tem lugar toda a obra da criação
e da salvação, e sobretudo merece destaque o fato de que,
com a encarnação do Filho de Deus, vivemos e antecipamos
desde já aquilo que se seguirá ao fim dos tempos (cf. Heb
1,2).
A verdade que Deus confiou ao homem a respeito de Si mesmo e da sua vida
insere-se, portanto, no tempo e na história. Sem dúvida,
aquela foi pronunciada uma vez por todas no mistério de Jesus de
Nazaré. Afirma-o, com palavras muito expressivas, a constituição
"Dei Verbum": "Depois de ter falado muitas vezes e de muitos
modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são
os últimos, através de seu Filho (Heb 1,1-2). Com efeito,
enviou o seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os
homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima
de Deus (cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado como
homem para os homens, "fala, portanto, as palavras de Deus"
(Jo 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou
realizar (cf. Jo 5,36; 17,4). Por isso, Ele - vê-l'O a Ele é
ver o Pai (cf. Jo 14,9) -, com toda a sua presença e manifestação
da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com
a sua morte e gloriosa ressurreição, e enfim, com o envio
do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho
divino a Revelação" 10.
Assim, a história constitui um caminho que o Povo de Deus há
de percorrer inteiramente, de tal modo que a verdade revelada possa exprimir
em plenitude os seus conteúdos, graças à ação
incessante do Espírito Santo (cf. Jo 16,13). Ensina-o também
a constituição "Dei Verbum", quando afirma que
"a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para
a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras
de Deus" 11.
12. A história torna-se, assim, o lugar onde podemos constatar
a ação de Deus em favor da humanidade. Ele vem ter conosco,
servindo-Se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil
de verificar, ou seja, o nosso contexto cotidiano, fora do qual não
conseguiríamos entender-nos.
A encarnação do Filho de Deus permite ver realizada uma
síntese definitiva que a mente humana, por si mesma, nem sequer
poderia imaginar: o Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento,
Deus assume o rosto do homem. Deste modo, a verdade expressa na revelação
de Cristo deixou de estar circunscrita a um restrito âmbito territorial
e cultural, abrindo-se a todo o homem e mulher que a queira acolher como
palavra definitivamente válida para dar sentido à existência.
Agora todos têm acesso ao Pai, em Cristo; de fato, com a sua morte
e ressurreição, Ele concedeu-nos a vida divina que o primeiro
Adão tinha rejeitado (cf. Rom 5,12-15). Com esta Revelação,
é oferecida ao homem a verdade última a respeito da própria
vida e do destino da história: "Na realidade, o mistério
do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece
verdadeiramente", afirma a constituição "Gaudium
et Spes" 12. Fora desta perspectiva, o mistério da existência
pessoal permanece um enigma insolúvel. Onde poderia o homem procurar
resposta para questões tão dramáticas como a dor,
o sofrimento do inocente e a morte, a não ser na luz que dimana
do mistério da paixão, morte e ressurreição
de Cristo?
2. A razão perante o mistério
13. Entretanto, não se pode esquecer que a Revelação
permanece envolvida no mistério. Jesus, com toda a sua vida, revela
seguramente o rosto do Pai, porque Ele veio para manifestar os segredos
de Deus13; e contudo, o conhecimento que possuímos daquele rosto,
está marcado sempre pelo caráter parcial e limitado da nossa
compreensão. Somente a fé permite entrar dentro do mistério,
proporcionando uma sua compreensão coerente.
O Concílio ensina que, "a Deus que revela, é devida
a obediência da fé"14. Com esta breve mas densa afirmação,
é indicada uma verdade fundamental do cristianismo. Diz-se, em
primeiro lugar, que a fé é uma resposta de obediência
a Deus. Isto implica que Ele seja reconhecido na sua divindade, transcendência
e liberdade suprema. Deus que Se dá a conhecer na autoridade da
sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade
dos conteúdos que revela. Pela fé, o homem presta assentimento
a esse testemunho divino. Isto significa que reconhece plena e integralmente
a verdade de tudo o que foi revelado, porque é o próprio
Deus que o garante. Esta verdade, oferecida ao homem sem que ele a possa
exigir, insere-se no horizonte da comunicação interpessoal
e impele a razão a abrir-se a esta e a acolher o seu sentido profundo.
É por isso que o ato pelo qual nos entregamos a Deus, sempre foi
considerado pela Igreja como um momento de opção fundamental,
que envolve a pessoa inteira. Inteligência e vontade põem
em ação o melhor da sua natureza espiritual, para consentir
que o sujeito realize um ato no pleno exercício da sua liberdade
pessoal15. Na fé, portanto, não basta a liberdade estar
presente, exige-se que entre em ação. Mais, é a fé
que permite a cada um exprimir, do melhor modo, a sua própria liberdade.
Por outras palavras, a liberdade não se realiza nas opções
contra Deus. Na verdade, como poderia ser considerado um uso autêntico
da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que permite a realização
de si mesmo? No acreditar é que a pessoa realiza o ato mais significativo
da sua existência; de fato, nele a liberdade alcança a certeza
da verdade e decide viver nela.
Em auxílio da razão, que procura a compreensão do
mistério, vêm também os sinais presentes na Revelação.
Estes servem para conduzir mais longe a busca da verdade e permitir que
a mente possa autonomamente investigar inclusive dentro do mistério.
De qualquer modo, se, por um lado, esses sinais dão maior força
à razão, porque lhe permitem pesquisar dentro do mistério
com os seus próprios meios, de que ela justamente se sente ciosa,
por outro lado, impelem-na a transcender a sua realidade de sinais para
apreender o significado ulterior de que eles são portadores. Portanto,
já há neles uma verdade escondida, para a qual encaminham
a mente e da qual esta não pode prescindir sem destruir o próprio
sinal que lhe foi proposto.
Chega-se, assim, ao horizonte sacramental da Revelação e
de forma particular ao sinal eucarístico, onde a união indivisível
entre a realidade e o respectivo significado permite identificar a profundidade
do mistério. Na Eucaristia, Cristo está verdadeiramente
presente e vivo, atua pelo seu Espírito, mas, como justamente diz
S. Tomás, "nada vês nem compreendes, mas te afirma a
fé mais viva, para além das leis da Terra. Sob espécies
diferentes, que não passam de sinais, é que está
o dom de Deus"16. Temos um eco disto mesmo nas seguintes palavras
do filósofo Pascal: "Como Jesus Cristo passou despercebido
no meio dos homens, assim a sua verdade permanece, entre as opiniões
comuns, sem diferença exterior. O mesmo se dá com a Eucaristia
relativamente ao pão comum" 17.
Em resumo, o conhecimento da fé não anula o mistério;
torna-o apenas mais evidente e apresenta-o como um fato essencial para
a vida do homem: Cristo Senhor, "na própria revelação
do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe
a sua vocação sublime"18, que é participar no
mistério da vida trinitária de Deus19.
14. A doutrina do primeiro e segundo Concílio do Vaticano abre
um horizonte verdadeiramente novo também ao saber filosófico.
A Revelação coloca dentro da história um ponto de
referência de que o homem não pode prescindir, se quiser
chegar a compreender o mistério da sua existência; mas, por
outro lado, este conhecimento apela constantemente para o mistério
de Deus que a mente não consegue abarcar, mas apenas receber e
acolher na fé. Entre estes dois momentos, a razão possui
o seu espaço peculiar que lhe permite investigar e compreender,
sem ser limitada por nada mais que a sua finitude ante o mistério
infinito de Deus.
A Revelação introduz, portanto, na nossa história
uma verdade universal e última que leva a mente do homem a nunca
mais se deter; antes, impele-a a ampliar continuamente os espaços
do próprio conhecimento até sentir que realizou tudo o que
estava ao seu alcance, sem nada descurar. Ajuda-nos, nesta reflexão,
uma das inteligências mais fecundas e significativas da história
da humanidade, à qual obrigatoriamente fazem referência a
filosofia e a teologia: Santo Anselmo. Na sua obra, "Proslogion",
o Arcebispo de Cantuária exprime-se assim: "Detendo-me com
frequência e atenção a pensar neste problema, sucedia
umas vezes que me parecia estar para agarrar o que buscava, outras vezes,
pelo contrário, furtava-se completamente ao meu pensamento; até
que finalmente, desesperado de o poder achar, decidi deixar de procurar
algo que me era impossível encontrar. Mas, quando quis afastar
de mim tal pensamento para que a sua ocupação da minha mente
não me alheasse de outros problemas de que podia tirar algum proveito,
foi então que começou a apresentar-se cada vez mais teimoso.
(...) Mas, pobre de mim, um dos pobres filhos de Eva, longe de Deus, o
que é que comecei a fazer e o que é que consegui? O que
é que visava e a que ponto cheguei? A que é que aspirava
e por que é que suspiro? (...) Ó Senhor, Vós não
sois apenas algo acerca do qual não se pode pensar nada de maior
(non solum es quo maius cogitari nequit), mas sois maior de tudo o que
se possa pensar (quiddam maius quam cogitari possit) (...). Se não
fôsseis o que sois, poder-se-ia pensar algo maior do que Vós,
mas isso é impossível" 20.
15. A verdade da revelação cristã, que se encontra
em Jesus de Nazaré, permite a quem quer que seja perceber o "mistério"
da própria vida. Enquanto verdade suprema, ao mesmo tempo que respeita
a autonomia da criatura e a sua liberdade, obriga-a a abrir-se à
transcendência. Aqui, a relação entre liberdade e
verdade atinge o seu máximo grau, podendo-se compreender plenamente
esta palavra do Senhor: "Conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á"
(Jo 8,32).
A revelação cristã é a verdadeira estrela
de orientação para o homem, que avança por entre
os condicionalismos da mentalidade imanentista e os reducionismos duma
lógica tecnocrática; é a última possibilidade
oferecida por Deus, para reencontrar em plenitude aquele projeto primordial
de amor que teve início com a criação. Ao homem ansioso
de conhecer a verdade - se ainda é capaz de ver para além
de si mesmo e levantar os olhos acima dos seus próprios projetos
- é-lhe concedida a possibilidade de recuperar a genuína
relação com a sua vida, seguindo a estrada da verdade. Podem-se
aplicar a esta situação as seguintes palavras do Deuteronômio:
"A lei que hoje te imponho não está acima das tuas
forças nem fora do teu alcance. Não está no céu,
para que digas: 'Quem subirá por nós ao céu e no-la
irá buscar?' Não está tão pouco do outro lado
do mar, para que digas: 'Quem atravessará o mar para no-la buscar
e no-la fazer ouvir para que a observemos?' Não, ela está
muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração;
e tu podes cumpri-la" (30,11-14). Temos um eco deste texto no famoso
pensamento do filósofo e teólogo Santo Agostinho: "Noli
foras ire, in te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas"21.
À luz destas considerações, impõe-se uma primeira
conclusão: a verdade que a Revelação nos dá
a conhecer não é o fruto maduro ou o ponto culminante dum
pensamento elaborado pela razão. Pelo contrário, aquela
apresenta-se com a característica da gratuidade, obriga a pensá-la,
e pede para ser acolhida, como expressão de amor. Esta verdade
revelada é a presença antecipada na nossa história
daquela visão última e definitiva de Deus, que está
reservada para quantos acreditam n'Ele ou O procuram de coração
sincero. Assim, o fim último da existência pessoal é
objeto de estudo quer da filosofia, quer da teologia. Embora com meios
e conteúdos diversos, ambas apontam para aquele "caminho da
vida" (Sal 16/15,11) que, segundo nos diz a fé, tem o seu
termo último de chegada na alegria plena e duradoura da contemplação
de Deus Uno e Trino.
Capítulo II
"Credo ut Intellegam"
1. "A sabedoria sabe e compreende todas as coisas" (Sab 9,11)
16. Quão profunda seja a ligação entre o conhecimento
da fé e o da razão, já a Sagrada Escritura no-lo
indica com elementos de uma clareza surpreendente. Comprovam-no sobretudo
os Livros Sapienciais. O que impressiona na leitura, feita sem preconceitos,
dessas páginas da Sagrada Escritura é o fato de estes textos
conterem não apenas a fé de Israel, mas também o
tesouro de civilizações e culturas já desaparecidas.
Como se de um desígnio particular se tratasse, o Egito e a Mesopotâmia
fazem ouvir novamente a sua voz, e alguns traços comuns das culturas
do Antigo Oriente ressurgem nestas páginas ricas de intuições
singularmente profundas.
Não é por acaso que o autor sagrado, ao querer descrever
o homem sábio, o apresenta como aquele que ama e busca a verdade:
"Feliz o homem que é constante na sabedoria, e que discorre
com a sua inteligência; que repassa no seu coração
os caminhos da sabedoria, e que penetra no conhecimento dos seus segredos;
vai atrás dela como quem lhe segue o rasto, e permanece nos seus
caminhos; olha pelas suas janelas, e escuta às suas portas; repousa
junto da sua morada, e fixa um pilar nas suas paredes; levanta a sua tenda
junto dela, e estabelece ali agradável morada; coloca os seus filhos
debaixo da sua proteção, e ele mesmo morará debaixo
dos seus ramos; à sua sombra estará defendido do calor,
e repousará na sua glória" (Sir 14,20-27).
Para o autor inspirado, como se vê, o desejo de conhecer é
uma característica comum a todos os homens. Graças à
inteligência, é dada a todos, crentes e descrentes, a possibilidade
de "saciarem-se nas águas profundas" do conhecimento
(cf. Prov 20,5). Seguramente, no Antigo Israel, o conhecimento do mundo
e dos seus fenômenos não se realizava pela via da abstração,
como já o fazia o filósofo jônico ou o sábio
egípcio. E menos ainda podia o bom israelita conceber o conhecimento
nos parâmetros próprios da época moderna, mais propensa
à subdivisão do saber. Apesar disso, o mundo bíblico
fez confluir, para o grande mar da teoria do conhecimento, o seu contributo
original.
Qual? O caráter peculiar do texto bíblico reside na convicção
de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento
da razão e o da fé. O mundo e o que nele acontece, assim
como a história e as diversas vicissitudes da nação
são realidades observadas, analisadas e julgadas com os meios próprios
da razão, mas sem deixar a fé alheia a este processo. Esta
não intervém para humilhar a autonomia da razão,
nem para reduzir o seu espaço de ação, mas apenas
para fazer compreender ao homem que, em tais acontecimentos, se torna
visível e atua o Deus de Israel. Assim, não é possível
conhecer profundamente o mundo e os fatos da história, sem ao mesmo
tempo professar a fé em Deus que neles atua. A fé aperfeiçoa
o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos,
a presença operante da Providência. A tal propósito,
é significativa uma expressão do livro dos Provérbios:
"A mente do homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor
quem dirige os seus passos" (16, 9). É como se dissesse que
o homem, pela luz da razão, pode reconhecer a sua estrada, mas
percorrê-la de maneira decidida, sem obstáculos e até
ao fim, ele só o consegue se, de ânimo reto, integrar a sua
pesquisa no horizonte da fé. Por isso, a razão e a fé
não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade
de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus.
17. Não há motivo para existir concorrência entre
a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu
espaço próprio de realização. Aponta nesta
direcção o livro dos Provérbios, quando exclama:
"A glória de Deus é encobrir as coisas, e a glória
dos reis é investigá-las" (25, 2). Deus e o homem estão
colocados, em seu respectivo mundo, numa relação única.
Em Deus reside a origem de tudo, n'Ele se encerra a plenitude do mistério,
e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário,
compete o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está
a sua nobreza. Um novo ladrilho é colocado neste mosaico pelo Salmista,
quando diz: "Quão insondáveis para mim, ó Deus,
vossos pensamentos! Quão imenso o seu número! Quisera contá-los,
são mais que as areias; se pudesse chegar ao fim, estaria ainda
convosco" (139/138,17-18). O desejo de conhecer é tão
grande e comporta tal dinamismo que o coração do homem,
ao tocar o limite intransponível, suspira pela riqueza infinita
que se encontra para além deste, por intuir que nela está
contida a resposta cabal para toda a questão ainda sem resposta.
18. Podemos, pois, dizer que Israel, com a sua reflexão, soube
abrir à razão o caminho para o mistério. Na revelação
de Deus, pôde sondar em profundidade aquilo que a razão estava
procurando alcançar sem o conseguir. A partir desta forma mais
profunda de conhecimento, o Povo Eleito compreendeu que a razão
deve respeitar algumas regras fundamentais, para manifestar do melhor
modo possível a própria natureza. A primeira regra é
ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que não
permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não
se pode percorrer tal caminho com o orgulho de quem pensa que tudo seja
fruto de conquista pessoal; a terceira regra funda-se no "temor de
Deus", de quem a razão deve reconhecer tanto a transcendência
soberana como o amor solícito no governo do mundo.
Quando o homem se afasta destas regras, corre o risco de falimento e acaba
por encontrar-se na condição do "insensato". Segundo
a Bíblia, nesta insensatez encerra-se uma ameaça à
vida. É que o insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas,
mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas realidades
essenciais. E isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf. Prov
1,7) e de assumir uma atitude correta para consigo mesmo e o ambiente
circundante. Quando, depois, chega a afirmar que "Deus não
existe" (cf. Sal 14/13,1), isso revela, com absoluta clareza, quanto
seja deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele da
verdade plena a respeito das coisas, da sua origem e do seu destino.
19. Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns textos importantes, que
iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor sagrado fala de
Deus que Se dá a conhecer também através da natureza.
Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande
parte, com o saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem,
com a sua inteligência, é capaz de "conhecer a constituição
do universo e a força dos elementos (...), o ciclo dos anos e a
posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos
dos animais ferozes" (Sab 7,17.19-20), por outras palavras, que o
homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um passo
em frente muito significativo. Retomando o pensamento da filosofia grega,
à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que, raciocinando
precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: "Pela grandeza
e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento
do seu Autor" (Sab 13,5). Reconhece-se, assim, um primeiro nível
da revelação divina, constituído pelo maravilhoso
"livro da natureza"; lendo-o com os meios próprios da
razão humana, pode-se chegar ao conhecimento do Criador. Se o homem,
com a sua inteligência, não chega a reconhecer Deus como
criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta
de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela
sua vontade livre e pelo seu pecado.
20. Nesta perspectiva, a razão é valorizada, mas não
superexaltada. O que ela alcança pode ser verdade, mas só
adquire pleno significado se o seu conteúdo for situado num horizonte
mais amplo, o da fé: "O Senhor é quem dirige os passos
do homem; como poderá o homem compreender o seu próprio
destino?" (Prov 20, 24). A fé, segundo o Antigo Testamento,
liberta a razão, na medida em que lhe permite alcançar coerentemente
o seu objeto de conhecimento e situá-lo naquela ordem suprema onde
tudo adquire sentido. Em resumo, pela razão o homem alcança
a verdade, porque, iluminado pela fé, descobre o sentido profundo
de tudo e, particularmente, da própria existência. Justamente,
pois, o autor sagrado coloca o início do verdadeiro conhecimento
no temor de Deus: "O temor do Senhor é o princípio
da sabedoria" (Prov 1,7; cf. Sir 1,14).
2. "Adquire a sabedoria, adquire a inteligência" (Prov
4,5)
21. Segundo o Antigo Testamento, o conhecimento não se baseia apenas
numa atenta observação do homem, do mundo e da história,
mas supõe como indispensável também uma relação
com a fé e os conteúdos da Revelação. Aqui
se concentram os desafios que o Povo Eleito teve de enfrentar e a que
deu resposta. Ao refletir sobre esta sua condição, o homem
bíblico descobriu que não se podia compreender senão
como "ser em relação": relação consigo
mesmo, com o povo, com o mundo e com Deus. Esta abertura ao mistério,
que provinha da Revelação, acabou por ser, para ele, a fonte
dum verdadeiro conhecimento, que permitiu à sua razão aventurar-se
em espaços infinitos, recebendo inesperadas possibilidades de compreensão.
Segundo o autor sagrado, o esforço da investigação
não estava isento da fadiga causada pelo embate nas limitações
da razão. Sente-se isso mesmo, por exemplo, nas palavras com que
o livro dos Provérbios denuncia o cansaço provado ao tentar
compreender os misteriosos desígnios de Deus (cf. 30,1-6). Todavia,
apesar da fadiga, o crente não desiste. E a força para continuar
o seu caminho rumo à verdade provém da certeza de que Deus
o criou como um "explorador" (cf. Coel 1,13), cuja missão
é não deixar nada sem tentar, não obstante a contínua
chantagem da dúvida. Apoiando-se em Deus, o crente permanece, em
todo o lado e sempre, inclinado para o que é belo, bom e verdadeiro.
22. S. Paulo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, ajuda-nos
a avaliar melhor quanto seja incisiva a reflexão dos Livros Sapienciais.
Desenvolvendo com linguagem popular uma argumentação filosófica,
o Apóstolo exprime uma verdade profunda: através da criação,
os "olhos da mente" podem chegar ao conhecimento de Deus. Efetivamente,
através das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu
"poder" e a sua "divindade" (cf. Rom 1,20). Deste
modo, é atribuída à razão humana uma capacidade
tal que parece quase superar os seus próprios limites naturais:
não só ultrapassa o âmbito do conhecimento sensorial,
visto que lhe é possível refletir criticamente sobre o mesmo,
mas, raciocinando a partir dos dados dos sentidos, pode chegar também
à causa que está na origem de toda a realidade sensível.
Em terminologia filosófica, podemos dizer que, neste significativo
texto paulino, está afirmada a capacidade metafísica do
homem.
Segundo o Apóstolo, no projeto originário da criação
estava prevista a capacidade de a razão ultrapassar comodamente
o dado sensível para alcançar a origem mesma de tudo: o
Criador. Como resultado da desobediência com que o homem escolheu
colocar-se em plena e absoluta autonomia relativamente Àquele que
o tinha criado, perdeu tal facilidade de acesso a Deus criador.
O livro do Gênesis descreve de maneira figurada esta condição
do homem, quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden, tendo
no centro "a árvore da ciência do bem e do mal"
(2,17). O símbolo é claro: o homem não era capaz
de discernir e decidir, por si só, aquilo que era bem e o que era
mal, mas devia apelar-se a um princípio superior. A cegueira do
orgulho iludiu os nossos primeiros pais de que eram soberanos e autônomos,
podendo prescindir do conhecimento vindo de Deus. Nesta desobediência
original, eles implicaram todo o homem e mulher, causando à razão
traumas sérios que haveriam de dificultar-lhe, daí em diante,
o caminho para a verdade plena. Agora a capacidade humana de conhecer
a verdade aparece ofuscada pela aversão contra Aquele que é
fonte e origem da verdade. O próprio apóstolo S. Paulo nos
revela como, por causa do pecado, os pensamentos dos homens se tornaram
"vãos" e os seus arrazoados tortuosos e falsos (cf. Rom
1,21-22). Os olhos da mente deixaram de ser capazes de ver claramente:
a razão foi progressivamente ficando prisioneira de si mesma. A
vinda de Cristo foi o acontecimento de salvação que redimiu
a razão da sua fraqueza, libertando-a dos grilhões onde
ela mesma se tinha algemado.
23. Deste modo, a relação do cristão com a filosofia
requer um discernimento radical. No Novo Testamento, especialmente nas
cartas de S. Paulo, aparece claramente este dado: a contraposição
entre "a sabedoria deste mundo" e a sabedoria de Deus revelada
em Jesus Cristo. A profundidade da sabedoria revelada rompe o círculo
dos nossos esquemas de reflexão habituais, que não são
minimamente capazes de exprimi-la de forma adequada.
O início da primeira carta aos Coríntios apresenta radicalmente
este dilema. O Filho de Deus crucificado é o acontecimento histórico
contra o qual se desfaz toda a tentativa da mente para construir, sobre
razões puramente humanas, uma justificação suficiente
do sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que desafia
qualquer filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de
fato, qualquer tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a
mera lógica humana está destinada à falência.
"Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde
está o investigador deste século? Porventura, Deus não
considerou louca a sabedoria deste mundo?" (1Cor 1,20) - interroga-se
enfaticamente o Apóstolo. Para aquilo que Deus quer realizar, não
basta a simples sabedoria do homem sábio, requer-se um passo decisivo
que leve ao acolhimento duma novidade radical: "O que é louco
segundo o mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios
(...). O que é vil e desprezível no mundo, é que
Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são,
para destruir as que são" (1Cor 1,27-28). A sabedoria do homem
recusa ver na própria fragilidade o pressuposto da sua força;
mas S. Paulo não hesita em afirmar: "Quando me sinto fraco,
então é que sou forte" (2Cor 12,10). O homem não
consegue compreender como possa a morte ser fonte de vida e de amor, mas
Deus, para revelar o mistério do seu desígnio salvador,
escolheu precisamente o que a razão considera "loucura"
e "escândalo". Usando a linguagem dos filósofos
do seu tempo, Paulo chega ao clímax da sua doutrina e do paradoxo
que quer exprimir: "Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que nada
são, para destruir as que são" (cf. 1Cor 1,28). Para
exprimir o caráter gratuito do amor revelado na cruz de Cristo,
o Apóstolo não tem medo de usar a linguagem mais radical
que os filósofos empregavam nas suas reflexões a respeito
de Deus. A razão não pode esgotar o mistério de amor
que a Cruz representa, mas a Cruz pode dar à razão a resposta
última que esta procura. S. Paulo coloca, não a sabedoria
das palavras, mas a Palavra da Sabedoria como critério, simultaneamente,
de verdade e de salvação.
Por conseguinte, a sabedoria da Cruz supera qualquer limite cultural que
se lhe queira impor, obrigando a abrir-se à universalidade da verdade
de que é portadora. Como é grande o desafio lançado
à nossa razão e como são enormes as vantagens que
terá, se ela se render! A filosofia, que por si mesma já
é capaz de reconhecer a necessidade do homem se transcender continuamente
na busca da verdade, pode, ajudada pela fé, abrir-se para, na "loucura"
da Cruz, acolher como genuína a crítica a quantos se iludem
de possuir a verdade, encalhando-a nas sirtes dum sistema próprio.
A relação entre a fé e a filosofia encontra, na pregação
de Cristo crucificado e ressuscitado, o escolho contra o qual pode naufragar,
mas também para além do qual pode desembocar no oceano ilimitado
da verdade. Aqui é evidente a fronteira entre a razão e
a fé, mas torna-se claro também o espaço onde as
duas se podem encontrar.
Capítulo III
"Intellego ut Credam"
1. Caminhar à procura da verdade
24. Nos Atos dos Apóstolos, o evangelista Lucas narra a chegada
de Paulo a Atenas, numa das suas viagens missionárias. A cidade
dos filósofos estava cheia de estátuas, que representavam
vários ídolos; e chamou-lhe a atenção um altar,
que Paulo prontamente aproveitou como motivo e base comum para iniciar
o anúncio do querigma: "Atenienses - disse ele -, vejo que
sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade
e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar
com esta inscrição: 'Ao Deus desconhecido'. Pois bem! O
que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio" (At 17,22-23).
Partindo daqui, S. Paulo fala-lhes de Deus enquanto criador, como Aquele
que tudo transcende e a tudo dá vida. Depois continua o seu discurso,
dizendo: "Fez a partir de um só homem, todo o gênero
humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência
dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim de que
os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo, mesmo
tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós"
(At 17,26-27).
O Apóstolo põe em destaque uma verdade que a Igreja sempre
guardou no seu tesouro: no mais fundo do coração do homem,
foi semeado o desejo e a nostalgia de Deus. Recorda-o a liturgia de Sexta-feira
Santa, quando, convidando a rezar pelos que não crêem, diz:
"Deus eterno e onipotente, criastes os homens para que Vos procurem,
de modo que só em Vós descansa o seu coração"22.
Existe, portanto, um caminho que o homem, se quiser, pode percorrer; o
seu ponto de partida está na capacidade de a razão superar
o contingente para se estender até ao infinito.
De vários modos e em tempos diversos, o homem demonstrou que conseguia
dar voz a este seu desejo íntimo. A literatura, a música,
a pintura, a escultura, a arquitetura e outras realizações
da sua inteligência criadora tornaram-se canais de que ele se serviu
para exprimir esta sua ansiosa procura. Mas foi sobretudo a filosofia
que, de modo peculiar, recolheu este movimento, exprimindo, com os meios
e segundo as modalidades científicas que lhe são próprias,
este desejo universal do homem.
25. "Todos os homens desejam saber"23, e o objeto próprio
deste desejo é a verdade. A própria vida cotidiana demonstra
o interesse que tem cada um em descobrir, para além do que ouve,
a realidade das coisas. Em toda a criação visível,
o homem é o único ser que é capaz não só
de saber, mas também de saber que sabe, e por isso se interessa
pela verdade real daquilo que vê. Ninguém pode sinceramente
ficar indiferente quanto à verdade do seu saber. Se descobre que
é falso, rejeita-o; se, pelo contrário, consegue certificar-se
da sua verdade, sente-se satisfeito. É a lição que
nos dá Santo Agostinho, quando escreve: "Encontrei muitos
com desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém
que quisesse ser enganado"24. Considera-se, justamente, que uma pessoa
alcançou a idade adulta, quando consegue discernir, por seus próprios
meios, entre aquilo que é verdadeiro e o que é falso, formando
um juízo pessoal sobre a realidade objetiva das coisas. Está
aqui o motivo de muitas pesquisas, particularmente no campo das ciências,
que levaram, nos últimos séculos, a resultados tão
significativos, favorecendo realmente o progresso da humanidade inteira.
E a pesquisa é tão importante no campo teórico, como
no âmbito prático: ao referir-me a este, desejo aludir à
procura da verdade a respeito do bem que se deve realizar. Com efeito,
graças precisamente ao agir ético, a pessoa, se atuar segundo
a sua livre e reta vontade, entra pela estrada da felicidade e encaminha-se
para a perfeição. Também neste caso, está
em questão a verdade. Reafirmei esta convicção na
carta encíclica "Veritatis Splendor": "Não
há moral sem liberdade (...). Se existe o direito de ser respeitado
no próprio caminho em busca da verdade, há ainda antes a
obrigação moral grave para cada um de procurar a verdade
e de aderir a ela, uma vez conhecida"25.
Por isso, é necessário que os valores escolhidos e procurados
na vida sejam verdadeiros, porque só estes é que podem aperfeiçoar
a pessoa, realizando a sua natureza. Não é fechando-se em
si mesmo que o homem encontra esta verdade dos valores, mas abrindo-se
para a receber mesmo de dimensões que o transcendem. Esta é
uma condição necessária para que cada um se torne
ele mesmo e cresça como pessoa adulta e madura.
26. Ao princípio, a verdade apresenta-se ao homem sob forma interrogativa:
A vida tem um sentido? Para onde se dirige? À primeira vista, a
existência pessoal poderia aparecer radicalmente sem sentido. Não
é preciso recorrer aos filósofos do absurdo, nem às
perguntas provocatórias que se encontram no livro de Jó
para duvidar do sentido da vida. A experiência cotidiana do sofrimento,
pessoal e alheio, e a observação de muitos fatos, que à
luz da razão se revelam inexplicáveis, bastam para tornar
iniludível um problema tão dramático como é
a questão do sentido da vida26. A isto se deve acrescentar que
a primeira verdade absolutamente certa da nossa existência, para
além do fato de existirmos, é a inevitabilidade da morte.
Perante um dado tão desconcertante como este, impõe-se a
busca de uma resposta exaustiva. Cada um quer, e deve, conhecer a verdade
sobre o seu fim. Quer saber se a morte será o termo definitivo
da sua existência, ou se algo permanece para além da morte;
se pode esperar uma vida posterior, ou não. É significativo
que o pensamento filosófico tenha recebido, da morte de Sócrates,
uma orientação decisiva que o marcou durante mais de dois
milênios. Certamente não é por acaso que os filósofos,
perante a realidade da morte, sempre voltam a pôr-se este problema,
associado à questão do sentido da vida e da imortalidade.
27. A tais questões, não pode esquivar-se ninguém
- nem o filósofo, nem o homem comum. E, da resposta que se lhes
der, deriva uma orientação decisiva da investigação:
a possibilidade, ou não, de alcançar uma verdade universal.
Por si mesma qualquer verdade, mesmo parcial, se realmente é verdade,
apresenta-se como universal e absoluta. Aquilo que é verdadeiro
deve ser verdadeiro sempre e para todos. Contudo, para além desta
universalidade, o homem procura um absoluto que seja capaz de dar resposta
e sentido a toda a sua pesquisa: algo de definitivo, que sirva de fundamento
a tudo o mais. Por outras palavras, procura uma explicação
definitiva, um valor supremo, para além do qual não existam,
nem possam existir, ulteriores perguntas ou apelos. As hipóteses
podem seduzir, mas não saciam. Para todos, chega o momento em que,
admitam-no ou não, há necessidade de ancorar a existência
à uma verdade reconhecida como definitiva, que forneça uma
certeza livre de qualquer dúvida.
Os filósofos procuraram, ao longo dos séculos, descobrir
e exprimir tal verdade, criando um sistema ou uma escola de pensamento.
Mas, para além dos sistemas filosóficos, existem outras
expressões nas quais o homem procura formular a sua "filosofia":
trata-se de convicções ou experiências pessoais, tradições
familiares e culturais, ou itinerários existenciais vividos sob
a autoridade de um mestre. A cada uma destas manifestações,
subjaz sempre vivo o desejo de alcançar a certeza da verdade e
do seu valor absoluto.
2. Os diferentes rostos da verdade do homem
28. Há que reconhecer que a busca da verdade nem sempre se desenrola
com a referida transparência e coerência de raciocínio.
Muitas vezes, as limitações naturais da razão e a
inconstância do coração ofuscam e desviam a pesquisa
pessoal. Outros interesses de várias ordens podem sobrepor-se à
verdade. Acontece também que o próprio homem a evite, quando
começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências.
Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que preside
à sua existência. Com efeito, nunca poderia fundar a sua
vida sobre a dúvida, a incerteza ou a mentira; tal existência
estaria constantemente ameaçada pelo medo e a angústia.
Assim, pode-se definir o homem como aquele que procura a verdade.
29. É impensável que uma busca, tão profundamente
radicada na natureza humana, possa ser completamente inútil e vã.
A própria capacidade de procurar a verdade e fazer perguntas implica
já uma primeira resposta. O homem não começaria a
procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse absolutamente
inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma
resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De fato,
assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista,
depois de ter uma intuição, se lança à procura
da explicação lógica e empírica dum certo
fenômeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início,
de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido com os
insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial,
só porque não alcançou o seu objetivo; dirá
antes, e justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada.
O mesmo deve valer também para a busca da verdade no âmbito
das questões últimas. A sede de verdade está tão
radicada no coração do homem que, se tivesse de prescindir
dela, a sua existência ficaria comprometida. Basta observar a vida
de todos os dias para constatar como dentro de cada um de nós se
sente o tormento de algumas questões essenciais e, ao mesmo tempo,
se guarda na alma, pelo menos, o esboço das respectivas respostas.
São respostas de cuja verdade estamos convencidos, até porque
notamos que não diferem substancialmente das respostas a que muitos
outros chegaram. Por certo, nem toda a verdade adquirida possui o mesmo
valor; todavia, o conjunto dos resultados alcançados confirma a
capacidade que o ser humano, em princípio, tem de chegar à
verdade.
30. Convém, agora, fazer uma rápida menção
das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades
que assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação
da experiência: esta é a ordem própria da vida cotidiana
e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades
de caráter filosófico, que o homem alcança através
da capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem
as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes
também na filosofia; estão contidas nas respostas que as
diversas religiões oferecem, nas suas tradições,
às questões últimas27. Quanto às verdades
filosóficas, é necessário especificar que não
se limitam só às doutrinas, por vezes efêmeras, dos
filósofos profissionais. Como já disse, todo o homem é,
de certa forma, um filósofo e possui as suas próprias concepções
filosóficas, pelas quais orienta a sua vida. De diversos modos,
consegue formar uma visão global e uma resposta sobre o sentido
da própria existência: e, à luz disso, interpreta
a própria vida pessoal e regula o seu comportamento. É aqui
que deveria colocar-se a questão da relação entre
as verdades filosófico-religiosas e a verdade revelada em Jesus
Cristo. Antes de responder a tal questão, é preciso ter
em conta outro dado da filosofia.
31. O homem não foi criado para viver sozinho. Nasce e cresce numa
família, para depois se inserir, pelo seu trabalho, na sociedade.
Assim a pessoa aparece integrada, desde o seu nascimento, em várias
tradições; delas recebe não apenas a linguagem e
a formação cultural, mas também muitas verdades nas
quais acredita quase instintivamente. Entretanto, o crescimento e a maturação
pessoal implicam que tais verdades possam ser postas em dúvida
e avaliadas através da atividade crítica própria
do pensamento. Isto não impede que, uma vez passada esta fase,
aquelas mesmas verdades sejam "recuperadas" com base na experiência
feita ou em virtude de sucessiva ponderação. Apesar disso,
na vida duma pessoa, são muito mais numerosas as verdades simplesmente
acreditadas que aquelas adquiridas por verificação pessoal.
Na realidade, quem seria capaz de avaliar criticamente os inumeráveis
resultados das ciências, sobre os quais se fundamenta a vida moderna?
Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo de informações,
recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por princípio,
são aceitas como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer novamente
todos os caminhos de experiência e pensamento, pelos quais se foram
acumulando os tesouros de sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto,
o homem, ser que busca a verdade, é também aquele que vive
de crenças.
32. Cada um, quando crê, confia nos conhecimentos adquiridos por
outras pessoas. Neste ato, pode-se individualizar uma significativa tensão:
por um lado, o conhecimento por crença apresenta-se como uma forma
imperfeita de conhecimento, que precisa de se aperfeiçoar progressivamente
por meio da evidência alcançada pela própria pessoa;
por outro lado, a crença é muitas vezes mais rica, humanamente,
do que a simples evidência, porque inclui a relação
interpessoal, pondo em jogo não apenas as capacidades cognoscitivas
do próprio sujeito, mas também a sua capacidade mais radical
de confiar noutras pessoas, iniciando com elas um relacionamento mais
estável e íntimo.
Importa sublinhar que as verdades procuradas nesta relação
interpessoal não são primariamente de ordem empírica
ou de ordem filosófica. O que se busca é sobretudo a verdade
da própria pessoa: aquilo que ela é e o que manifesta do
seu próprio íntimo. De fato, a perfeição do
homem não se reduz apenas à aquisição do conhecimento
abstrato da verdade, mas consiste também numa relação
viva de doação e fidelidade ao outro. Nesta fidelidade que
leva à doação, o homem encontra plena certeza e segurança.
Ao mesmo tempo, porém, o conhecimento por crença, que se
fundamenta na confiança interpessoal, tem a ver também com
a verdade: de fato, acreditando, o homem confia na verdade que o outro
lhe manifesta.
Quantos exemplos se poderiam aduzir para ilustrar este dado! O primeiro
que me vem ao pensamento é o testemunho dos mártires. Com
efeito, o mártir é a testemunha mais genuína da verdade
da existência. Ele sabe que, no seu encontro com Jesus Cristo, alcançou
a verdade a respeito da sua vida, e nada nem ninguém poderá
jamais arrancar-lhe esta certeza. Nem o sofrimento, nem a morte violenta
poderão fazê-lo retroceder da adesão à verdade
que descobriu no encontro com Cristo. Por isso mesmo é que, até
agora, o testemunho dos mártires atrai, gera consenso, é
escutado e seguido. Esta é a razão pela qual se tem confiança
na sua palavra: descobre-se neles a evidência dum amor que não
precisa de longas demonstrações para ser convincente, porque
fala daquilo que cada um, no mais fundo de si mesmo, já sente como
verdadeiro e que há tanto tempo procurava. Em resumo, o mártir
provoca em nós uma profunda confiança, porque diz aquilo
que já sentimos e torna evidente aquilo que nós mesmos queríamos
ter a força de dizer.
33. Deste modo, foi possível completar progressivamente os dados
do problema. O homem, por sua natureza, procura a verdade. Esta busca
não se destina apenas à conquista de verdades parciais,
físicas ou científicas; não busca só o verdadeiro
bem em cada um das suas decisões. Mas a sua pesquisa aponta para
uma verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se,
por conseguinte, de algo que não pode desembocar senão no
absoluto28. Graças às capacidades de que está dotado
o seu pensamento, o homem pode encontrar e reconhecer uma tal verdade.
Sendo esta vital e essencial para a sua existência, chega-se a ela
não só por via racional, mas também através
de um abandono fiducial a outras pessoas que possam garantir a certeza
e autenticidade da verdade. A capacidade e a decisão de confiar
o próprio ser e existência a outra pessoa constituem, sem
dúvida, um dos atos antropologicamente mais significativos e expressivos.
É bom não esquecer que também a razão, na
sua busca, tem necessidade de ser apoiada por um diálogo confiante
e uma amizade sincera. O clima de suspeita e desconfiança, que
por vezes envolve a pesquisa especulativa, ignora o ensinamento dos filósofos
antigos, que punham a amizade como um dos contextos mais adequados para
o reto filosofar.
Do que ficou dito conclui-se que o homem se encontra num caminho de busca,
humanamente infindável: busca da verdade e busca duma pessoa em
quem poder confiar. A fé cristã vem em sua ajuda, dando-lhe
a possibilidade concreta de ver realizado o objetivo dessa busca. De fato,
superando o nível da simples crença, ela introduz o homem
naquela ordem da graça que lhe consente participar no mistério
de Cristo, onde lhe é oferecido o conhecimento verdadeiro e coerente
de Deus Uno e Trino. Deste modo, em Jesus Cristo, que é a Verdade,
a fé reconhece o apelo último dirigido à humanidade,
para que possa tornar realidade o que experimenta como desejo e nostalgia.
34. Esta verdade, que Deus nos revela em Jesus Cristo, não está
em contraste com as verdades que se alcançam filosofando. Pelo
contrário, as duas ordens de conhecimento conduzem à verdade
na sua plenitude. A unidade da verdade já é um postulado
fundamental da razão humana, expresso no princípio de não-contradição.
A Revelação dá a certeza desta unidade, ao mostrar
que Deus criador é também o Deus da história da salvação.
Deus que fundamenta e garante o caráter inteligível e racional
da ordem natural das coisas, sobre o qual os cientistas se apóiam
confiadamente29, é o mesmo que Se revela como Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo. Esta unidade da verdade, natural e revelada, encontra a
sua identificação viva e pessoal em Cristo, como recorda
o apóstolo Paulo: "A verdade que existe em Jesus" (Ef
4,21; cf. Col 1,15-20). Ele é a Palavra eterna, na qual tudo foi
criado, e ao mesmo tempo é a Palavra encarnada que, com toda a
sua pessoa30, revela o Pai (cf. Jo 1,14.18). Aquilo que a razão
humana procura "sem o conhecer" (cf. At 17, 23), só pode
ser encontrado por meio de Cristo: de fato, o que n'Ele se revela é
a "verdade plena" (cf. Jo 1,14-16) de todo o ser que, n'Ele
e por Ele, foi criado e, por isso mesmo, n'Ele encontra a sua realização
(cf. Col 1,17).
35. Tendo estas considerações gerais como pano de fundo,
é necessário agora examinar, de maneira mais direta, a relação
entre a verdade revelada e a filosofia. Tal relação requer
uma dupla consideração, visto que a verdade que nos vem
da Revelação tem de ser, simultaneamente, compreendida pela
luz da razão. Só nesta dupla acepção é
que será possível especificar a justa relação
da verdade revelada com o saber filosófico. Por isso, vamos considerar,
em primeiro lugar, as relações entre a fé e a filosofia
ao longo da história, donde será possível individualizar
alguns princípios, que constituem os pontos de referência
aos quais recorrer para estabelecer a correta relação entre
as duas ordens de conhecimento.
Capítulo IV
A Relação entre a Fé e a Razão
1. As etapas significativas do encontro entre a fé e a razão
36. Os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão
se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas
do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com
"alguns filósofos epicuristas e estóicos" (17,18).
A análise exegética do discurso no Areópago evidenciou
repetidas alusões a idéias populares, predominantemente
de origem estóica. Certamente isso não se deu por acaso;
os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos,
não podiam citar apenas "Moisés e os profetas"
nos seus discursos, mas tinham de servir-se também do conhecimento
natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf.
Rom 1,19-21; 2,14-15; At 14,16-17). Como, porém, na religião
pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria (cf.
Rom 1,21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso
ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto,
aos mitos e cultos mistéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência
divina.
De fato, um dos cuidados que mais a peito tiveram os filósofos
do pensamento clássico, foi purificar de formas mitológicas
a concepção que os homens tinham de Deus. Bem sabemos que
a religião grega, como grande parte das religiões cósmicas,
era politeísta, chegando a divinizar até coisas e fenômenos
da natureza. As tentativas do homem para compreender a origem dos deuses
e, nestes, a do universo tiveram a sua primeira expressão na poesia.
As teogonias permanecem, até hoje, o primeiro testemunho desta
investigação do homem. Os pais da filosofia tiveram por
missão mostrar a ligação entre a razão e a
religião. Estendendo o olhar para os princípios universais,
deixaram de contentar-se com os mitos antigos e procuraram dar fundamento
racional à sua crença na divindade. Embocou-se assim uma
estrada que, saindo das antigas tradições particulares,
levava a um desenvolvimento que correspondia às exigências
da razão universal. O fim que tal desenvolvimento tinha em vista
era a verificação crítica daquilo em que se acreditava.
A primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção
da divindade. As superstições acabaram por ser reconhecidas
como tais, e a religião, pelo menos em parte, foi purificada pela
análise racional. Foi nesta base que os Padres da Igreja instituíram
um diálogo fecundo com os filósofos antigos, abrindo a estrada
ao anúncio e à compreensão do Deus de Jesus Cristo.
37. Quando se menciona este movimento de aproximação dos
cristãos à filosofia, é obrigatório recordar
também a cautela com que eles olhavam outros elementos do mundo
cultural pagão, como, por exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto
sabedoria prática e escola de vida, podia facilmente ser confundida
com um conhecimento de tipo superior, esotérico, reservado a poucos
iluminados. É, sem dúvida, as especulações
esotéricas deste gênero que pensa S. Paulo, quando adverte
os Colossenses: "Vede que ninguém vos engane com falsas e
vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos
elementos do mundo, e não em Cristo" (2,8). Como são
atuais estas palavras do Apóstolo, quando as referimos às
diversas formas de esoterismo que hoje se difundem mesmo entre alguns
crentes, privados do necessário sentido crítico! Seguindo
as pegadas de S. Paulo, outros escritores dos primeiros séculos,
particularmente Santo Ireneu e Tertuliano, puseram reservas a uma orientação
cultural que pretendia subordinar a verdade da Revelação
à interpretação dos filósofos.
38. Como vemos, o encontro do cristianismo com a filosofia não
foi fácil nem imediato. A exercitação desta e a frequência
das respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros cristãos
como transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e
mais urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado,
que havia de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor
à conversão do coração e ao pedido do Batismo.
De qualquer modo, isso não significa que ignorassem a obrigação
de aprofundar a compreensão da fé e suas motivações;
antes pelo contrário. É injusta e pretextuosa a crítica
de Celso, quando acusa os cristãos de serem gente "iletrada
e rude"31. A explicação deste seu desinteresse inicial
tem de ser procurada noutro lado. Na realidade, o encontro com o Evangelho
oferecia uma resposta tão satisfatória à questão
do sentido da vida, até então insolúvel, que frequentar
os filósofos parecia-lhes uma coisa sem interesse e, em certos
aspectos, superada.
Isto é, hoje, ainda mais claro, se se pensa ao contributo dado
pelo cristianismo, quando defende o acesso à verdade como um direito
universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o cristianismo
tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os homens
diante de Deus. A primeira consequência deste conceito registou-se
no tema da verdade, ficando decididamente superado o caráter elitista
que a sua busca tinha no pensamento dos antigos: se o acesso à
verdade é um bem que permite chegar a Deus, todos devem estar em
condições de poder percorrer esta estrada. As vias para
chegar à verdade continuam a ser muitas; mas, dado que a verdade
cristã tem valor salvífico, cada uma delas só pode
ser percorrida se conduzir à meta final, ou seja, à revelação
de Jesus Cristo.
Como pioneiro dum encontro positivo com o pensamento filosófico,
sempre marcado por um prudente discernimento, há que recordar S.
Justino. Apesar da grande estima que continuava a ter pela filosofia grega
depois da sua conversão, afirmava decidida e claramente que tinha
encontrado, no cristianismo, "a única filosofia segura e vantajosa"32.
De forma semelhante, Clemente de Alexandria chamava ao Evangelho "a
verdadeira filosofia"33, e, em analogia com a lei mosaica, via a
filosofia como uma instrução propedêutica à
fé cristã34 e uma preparação ao Evangelho35.
Uma vez que "a filosofia anela por aquela sabedoria que consiste
na retidão da alma e da palavra e na pureza da vida, está
aberta à sabedoria e tudo faz para a alcançar. No nosso
meio, designam-se por filósofos os que amam a sabedoria que é
criadora e mestra de tudo, isto é, o conhecimento do Filho de Deus"
36. Segundo este pensador alexandrino, a filosofia grega não tem
como primeiro objetivo completar ou corroborar a verdade cristã;
a sua função é, sobretudo, a defesa da fé:
"A doutrina do Salvador é perfeita em si mesma e não
precisa de apoio, porque é a força e a sabedoria de Deus.
A filosofia grega não torna mais forte a verdade com o seu contributo,
mas, porque torna impotente o ataque da sofística e desarma os
assaltos traiçoeiros contra a verdade, foi justamente chamada sebe
e muro de vedação da vinha"37.
39. Entretanto, na história deste desenvolvimento, é possível
constatar a assunção crítica do pensamento filosófico
por parte dos pensadores cristãos. No meio dos primeiros exemplos
encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra os
ataques lançados pelo filósofo Celso, ele recorre à
filosofia platônica para argumentar e responder-lhe. Citando vários
elementos do pensamento platônico, começa a elaborar uma
primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a designação
mesma de teologia e a sua concepção como discurso racional
sobre Deus ainda estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia
aristotélica, por exemplo, o termo designava a parte mais nobre
e o verdadeiro apogeu do discurso filosófico. Mas, à luz
da revelação cristã, o que anteriormente indicava
uma doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado
totalmente novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para
exprimir a verdadeira doutrina acerca de Deus. Este pensamento cristão
novo, que estava a desenvolver-se, servia-se da filosofia, mas ao mesmo
tempo tendia a distinguir-se nitidamente dela. A história revela
que o próprio pensamento platônico, quando foi assumido pela
teologia, sofreu profundas transformações, especialmente
em conceitos como a imortalidade da alma, a divinização
do homem e a origem do mal.
40. Nesta obra de cristianização do pensamento platônico
e neoplatônico, merecem menção particular os Padres
Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo
Agostinho. O grande Doutor ocidental contactara diversas escolas filosóficas,
mas todas o tinham desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da fé
cristã, então teve a força de realizar aquela conversão
radical a que os filósofos anteriormente contactados não
tinham conseguido induzi-lo. Ele mesmo refere o motivo: "Preferindo
a doutrina católica, já sentia, então, que era mais
razoável e menos enganoso sermos obrigados a crer o que não
demonstrava, quer houvesse prova, mesmo que esta não estivesse
ao alcance de qualquer pessoa, quer a não houvesse. Seria isto
mais sensato do que zombarem da crença os maniqueístas,
apoiados em temerária promessa de ciência, para depois nos
mandarem acreditar em inúmeras fábulas tão absurdas
que as não podiam provar"38. Quanto aos platônicos,
que ocupavam lugar privilegiado nos pontos de referimento de Agostinho,
este censurava-os porque, embora conhecessem o fim para onde se devia
tender, tinham, porém, ignorado o caminho que lá conduzia:
o Verbo encarnado39. O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a primeira grande
síntese do pensamento filosófico e teológico, nela
confluindo correntes do pensamento grego e latino. Também nele
a grande unidade do saber, que tinha o seu fundamento no pensamento bíblico,
acabou por ser confirmada e sustentada pela profundidade do pensamento
especulativo. A síntese feita por Santo Agostinho permanecerá
como a forma mais elevada de reflexão filosófica e teológica
que o Ocidente, durante séculos, conheceu. Com uma história
pessoal intensa e ajudado por uma admirável santidade de vida,
ele foi capaz de introduzir, nas suas obras, muitos dados que, apelando-se
à experiência, antecipavam já futuros desenvolvimentos
de algumas correntes filosóficas.
41. De diversas formas, pois, os Padres do Oriente e do Ocidente entraram
em relação com as escolas filosóficas. Isto não
significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem com
os sistemas a que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: "Que
têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?"40,
é um sintoma claro da consciência crítica com que
os pensadores cristãos encararam, desde as origens, o problema
da relação entre a fé e a filosofia, vendo-o globalmente,
tanto nos seus aspectos positivos como nas suas limitações.
Não eram pensadores ingênuos. Precisamente porque viviam
de forma intensa o conteúdo da fé, eles conseguiam chegar
às formas mais profundas da reflexão. Por isso, é
injusto e redutivo limitar o seu trabalho a mera transposição
das verdades de fé para categorias filosóficas. Eles fizeram
muito mais; conseguiram explicitar plenamente aquilo que resultava ainda
implícito e preliminar no pensamento dos grandes filósofos
antigos41. Estes, conforme já disse, tiveram a função
de mostrar o modo como a razão, livre dos vínculos externos,
podia escapar do beco sem saída dos mitos, para melhor se abrir
à transcendência. Uma razão purificada e reta era
capaz de se elevar aos níveis mais elevados da reflexão,
dando fundamento sólido à percepção do ser,
do transcendente e do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade operada pelos Padres. Acolheram a razão
na sua plena abertura ao absoluto e, nela, enxertaram a riqueza vinda
da Revelação. O encontro não foi apenas questão
de culturas, uma das quais talvez seduzida pelo fascínio da outra;
mas verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro entre a criatura
e o seu Criador. Ultrapassando o fim mesmo para o qual inconscientemente
tendia por força da sua natureza, a razão pôde alcançar
o sumo bem e a suma verdade na pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem
as filosofias, os Padres não tiveram medo de reconhecer tanto os
elementos comuns como as diferenças que aquelas apresentavam relativamente
à Revelação. A percepção das convergências
não ofuscava neles o reconhecimento das diferenças.
42. Na teologia escolástica, o papel da razão educada filosoficamente
torna-se ainda mais notável sob o impulso da interpretação
anselmiana do "intelectus fidei". Segundo o santo Arcebispo
de Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência
à investigação própria da razão. De
fato, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre
os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não
é idônea. A sua tarefa é, antes, saber encontrar um
sentido, descobrir razões que a todos permitam alcançar
algum entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo sublinha
o fato de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que
ama: quanto mais ama, mais deseja conhecer. Quem vive para a verdade,
tende para uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior
por aquilo que conhece, embora admita que ainda não fizera tudo
aquilo que estaria no seu desejo: "Ad te videndum factus sum; et
nondum feci propter quod factus sum"42. Assim, o desejo da verdade
impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como que
embevecida pela constatação de que a sua capacidade é
sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada aqui, porém,
a razão é capaz de descobrir onde está o termo do
seu caminho: "Penso efetivamente que, quem investiga uma coisa incompreensível,
se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a máxima
certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar,
pela inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há
de tão incompreensível e inefável como aquilo que
está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja essência
suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões
necessárias, ainda que a inteligência não o possa
penetrar de forma a conseguir traduzi-lo em palavras claras, nem por isso
vacila minimamente o fundamento da sua certeza. Com efeito, se uma reflexão
anterior compreendeu de maneira racional que é incompreensível
(rationabiliter comprehendit incomprehensibile esse) o modo como a sabedoria
suprema sabe aquilo que fez (...) , quem explicará como ela mesma
se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada pode
saber?"43.
Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia fundamental entre o conhecimento
filosófico e o conhecimento da fé: a fé requer que
o seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez
a razão, no apogeu da sua indagação, admite como
necessário aquilo que a fé apresenta.
2. A novidade perene do pensamento de S. Tomás de Aquino
43. Neste longo caminho, ocupa um lugar absolutamente especial S. Tomás,
não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também
pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe
e hebreu do seu tempo. Numa época em que os pensadores cristãos
voltavam a descobrir os tesouros da filosofia antiga, e mais diretamente
da filosofia aristotélica, ele teve o grande mérito de colocar
em primeiro lugar a harmonia que existe entre a razão e a fé.
A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus:
argumentava ele; por isso, não se podem contradizer entre si44.
Indo mais longe, S. Tomás reconhece que a natureza, objeto próprio
da filosofia, pode contribuir para a compreensão da revelação
divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a
e confia nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à
perfeição45, assim também a fé supõe
e aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé, fica
liberta das fraquezas e limitações causadas pela desobediência
do pecado, e recebe a força necessária para elevar-se até
ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhando
o caráter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não
esqueceu o valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar
profundamente e especificar o sentido de tal racionabilidade. Efetivamente,
a fé é de algum modo "exercitação do
pensamento"; a razão do homem não é anulada
nem humilhada, quando presta assentimento aos conteúdos de fé;
é que estes são alcançados por decisão livre
e consciente46.
Precisamente por este motivo é que S. Tomás foi sempre proposto
pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de
fazer teologia. Neste contexto, apraz-me recordar o que escreveu o meu
Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, por ocasião do sétimo
centenário da morte do Doutor Angélico: "Sem dúvida,
S. Tomás possuiu, no máximo grau, a coragem da verdade,
a liberdade de espírito quando enfrentava os novos problemas, a
honestidade intelectual de quem não admite a contaminação
do cristianismo pela filosofia profana, mas tão pouco defende a
rejeição apriorística desta. Por isso, passou à
história do pensamento cristão como um pioneiro no novo
caminho da filosofia e da cultura universal. O ponto central é
como que a essência da solução que ele deu ao problema
novamente posto da contraposição entre razão e fé,
com a genialidade do seu intuito profético, foi o da conciliação
entre a secularidade do mundo e a radicalidade do Evangelho, evitando,
por um lado, aquela tendência anti-natural que nega o mundo e seus
valores, mas, por outro, sem faltar às exigências supremas
e inabaláveis da ordem sobrenatural"47.
44. Entre as grandes intuições de S. Tomás, conta-se
a de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como
sapiência, a ciência humana. Desde as primeiras páginas
da "Summa Theologiae"48, o Aquinate quis mostrar o primado daquela
sapiência que é dom do Espírito Santo e que introduz
no conhecimento das realidades divinas. A sua teologia permite compreender
a peculiaridade da sapiência na sua ligação íntima
com a fé e o conhecimento de Deus: conhece por co-naturalidade,
pressupõe a fé e chega a formular retamente o seu juízo
a partir da verdade da própria fé: "A sapiência
elencada entre os dons do Espírito Santo é distinta da mencionada
entre as virtudes intelectuais. De fato, esta segunda adquire-se pelo
estudo; aquela, pelo contrário, "provém do alto",
como diz S. Tiago. Mas é também distinta da fé, porque
esta aceita a verdade divina tal como é, enquanto é próprio
do dom da sapiência julgar segundo a verdade divina"49.
Mas, ao reconhecer a prioridade desta sapiência, o Doutor Angélico
não esquece a existência de mais duas formas complementares
de sabedoria: a filosófica, que se baseia sobre a capacidade que
tem o intelecto, dentro dos próprios limites naturais, de investigar
a realidade; e a sabedoria teológica, que se fundamenta na Revelação
e examina os conteúdos da fé, alcançando o próprio
mistério de Deus.
Intimamente convencido de que "omne verum a quocumque dicatur a Spiritu
Sancto est"50, S. Tomás amou desinteressadamente a verdade.
Procurou-a por todo o lado onde pudesse manifestar-se, colocando em relevo
a sua universalidade. Nele, o Magistério da Igreja viu e apreciou
a paixão pela verdade; o seu pensamento, precisamente porque se
mantém sempre no horizonte da verdade universal, objetiva e transcendente,
atingiu "alturas que a inteligência humana jamais poderia ter
pensado"51. É, pois, com razão que S. Tomás
pode ser definido "apóstolo da verdade"52. Porque se
consagrou sem reservas à verdade, no seu realismo soube reconhecer
a sua objetividade. A sua filosofia é verdadeiramente uma filosofia
do ser, e não do simples aparecer.
3. O drama da separação da fé e da razão
45. Quando surgiram as primeiras universidades, a teologia começou
a relacionar-se mais diretamente com outras formas da pesquisa e do saber
científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás, embora admitindo
uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia,
foram os primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências
a autonomia de que precisavam para se debruçar eficazmente sobre
os respectivos campos de investigação. Todavia, a partir
da baixa Idade Média, essa distinção legítima
entre os dois conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta
separação. Devido ao espírito excessivamente racionalista
de alguns pensadores, radicalizaram-se as posições, chegando-se,
de fato, a uma filosofia separada e absolutamente autônoma dos conteúdos
da fé. Entre as várias consequências de tal separação,
sobressai a difidência cada vez mais forte contra a própria
razão. Alguns começaram a professar uma desconfiança
geral, cética ou agnóstica, quer para reservar mais espaço
à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência
racional à mesma.
Em resumo, tudo o que o pensamento patrístico e medieval tinha
concebido e atuado como uma unidade profunda, geradora dum conhecimento
capaz de chegar às formas mais altas da especulação,
foi realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa
de um conhecimento racional, separado e alternativo da fé.
46. As radicalizações mais influentes são bem conhecidas
e visíveis, sobretudo na história do Ocidente. Não
é exagerado afirmar que boa parte do pensamento filosófico
moderno se desenvolveu num progressivo afastamento da revelação
cristã até chegar explicitamente à contraposição.
No século passado, este movimento tocou o seu apogeu. Alguns representantes
do idealismo procuraram, de diversos modos, transformar a fé e
os seus conteúdos, inclusive o mistério da morte e ressurreição
de Jesus Cristo, em estruturas dialéticas racionalmente compreensíveis.
Mas a esta concepção, opuseram-se diversas formas de humanismo
ateu, elaboradas filosoficamente, que apontaram a fé como prejudicial
e alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão. Não
tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base
a projetos que desembocaram, no plano político e social, em sistemas
totalitários traumáticos para a humanidade.
No âmbito da investigação científica, foi-se
impondo uma mentalidade positivista, que não apenas se afastou
de toda a referência à visão cristã do mundo,
mas sobretudo deixou cair qualquer alusão à visão
metafísica e moral. Por causa disso, certos cientistas, privados
de qualquer referimento ético, correm o risco de não manterem,
ao centro do seu interesse, a pessoa e a globalidade da sua vida. Mas,
alguns deles, cientes das potencialidades contidas no progresso tecnológico,
parecem ceder à lógica do mercado e ainda à tentação
dum poder demiúrgico sobre a natureza e o próprio ser humano.
Como consequência da crise do racionalismo, apareceu o nihilismo.
Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio
sobre os nossos contemporâneos. Os seus seguidores defendem a pesquisa
como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de
alcançar a meta da verdade. Na interpretação nihilista,
a existência é somente uma oportunidade para sensações
e experiências onde o efêmero detém o primado. O nihilismo
está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não
se deve assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é
fugaz e provisório.
47. Por outro lado, é preciso não esquecer que, na cultura
moderna, foi alterada a própria função da filosofia.
De sabedoria e saber universal que era, foi-se progressivamente reduzindo
a uma das muitas áreas do saber humano; mas, sob alguns dos seus
aspectos, ficou reduzida a um papel completamente marginal. Entretanto,
foram-se consolidando sempre mais outras formas de racionalidade, pondo
assim em evidência o caráter marginal do saber filosófico.
Em vez de apontarem para a contemplação da verdade e a busca
do fim último e do sentido da vida, essas formas de racionalidade
são orientadas, ou pelo menos orientáveis, como "razão
instrumental" ao serviço de fins utilitaristas, de prazer
ou de poder.
Quanto seja perigoso absolutizar esta estrada, fi-lo notar já na
minha primeira carta encíclica, ao escrever: "O homem de hoje
parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz, ou seja,
pelo resultado do trabalho das suas mãos e, ainda mais, pelo resultado
do trabalho da sua inteligência e das tendências da sua vontade.
Os frutos desta multiforme atividade do homem, com grande rapidez e de
modo muitas vezes imprevisível, passam a ser não tanto objeto
de "alienação", no sentido de que são simplesmente
tirados àqueles que os produzem, como sobretudo, pelo menos parcialmente,
num círculo consequente e indireto dos seus efeitos, tais frutos
voltam-se contra o próprio homem. Eles são de fato dirigidos,
ou podem sê-lo, contra o homem. Nisto parece consistir o ato principal
do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão
mais ampla e universal. Assim, o homem vive mergulhado cada vez mais no
medo. Teme que os seus produtos, naturalmente não todos nem a maior
parte, mas alguns e precisamente aqueles que encerram uma especial porção
da sua genialidade e da sua iniciativa, possam ser voltados de maneira
radical contra si mesmo"53.
Na sequência destas transformações culturais, alguns
filósofos, abandonando a busca da verdade por si mesma, assumiram
como único objetivo a obtenção da certeza subjetiva
ou da utilidade prática. Em consequência, deu-se o obscurecimento
da verdadeira dignidade da razão, impossibilitada de conhecer a
verdade e de procurar o absoluto.
48. Assim, o dado saliente desta última parte da história
da filosofia é a constatação duma progressiva separação
entre a fé e a razão filosófica. É verdade
que, observando bem, mesmo na reflexão filosófica daqueles
que contribuíram para ampliar a distância entre fé
e razão, se manifestam às vezes germens preciosos de pensamento
que, se aprofundados e desenvolvidos com mente e coração
reto, podem fazer descobrir o caminho da verdade. Estes germens de pensamento
podem-se encontrar, por exemplo, nas profundas análises sobre a
percepção e a experiência, a imaginação
e o inconsciente, sobre a personalidade e a intersubjetividade, a liberdade
e os valores, o tempo e a história. Inclusive o tema da morte pode
tornar-se, para todo o pensador, um severo apelo a procurar dentro de
si mesmo o sentido autêntico da própria existência.
Todavia isto não pode fazer esquecer a necessidade que a atual
relação entre fé e razão tem de um cuidadoso
esforço de discernimento, porque tanto a razão como a fé
ficaram reciprocamente mais pobres e débeis. A razão, privada
do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com
o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão,
pôs em maior evidência o sentimento e a experiência,
correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É ilusório
pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé
goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo
de ser reduzida a um mito ou superstição. Da mesma maneira,
uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta
não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade
do ser.
À luz disto, creio justificado o meu apelo veemente e incisivo
para que a fé e a filosofia recuperem aquela unidade profunda que
as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no respeito da
recíproca autonomia. Ao desassombro (parresia) da fé deve
corresponder a audácia da razão.
Capítulo V
Intervenções do Magistério em Matéria Filosófica
1. O discernimento do Magistério como diaconia da verdade
49. A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem
canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras54.
A razão profunda desta reserva está no fato de que a filosofia,
mesmo quando entra em relação com a teologia, deve proceder
segundo os seus métodos e regras; caso contrário, não
haveria garantia de permanecer orientada para a verdade, tendendo para
a mesma através dum processo racionalmente controlável.
Pouca ajuda daria uma filosofia que não agisse à luz da
razão, segundo princípios próprios e específicas
metodologias. Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que goza a filosofia,
há que individualizá-la no fato de a razão estar
orientada, por sua natureza, para a verdade e dotada em si mesma dos meios
necessários para a alcançar. Uma filosofia, ciente deste
seu "estatuto constitutivo", não pode deixar de respeitar
as exigências e evidências próprias da verdade revelada.
E, todavia, vimos, na história, os extravios e erros em que várias
vezes incorreu o pensamento filosófico, sobretudo moderno. Não
é função nem competência do Magistério
intervir para colmar as lacunas dum discurso filosófico carente.
Mas, já é sua obrigação reagir, de forma clara
e vigorosa, quando teses filosóficas discutíveis ameaçam
a reta compreensão do dado revelado e quando se difundem teorias
falsas e sectárias que semeiam erros graves, perturbando a simplicidade
e a pureza da fé do povo de Deus.
50. Por conseguinte, o Magistério eclesiástico pode, e deve,
exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico
sobre filosofias e afirmações que contradigam a doutrina
cristã55. Ao Magistério compete, antes de mais, indicar
os pressupostos e as conclusões filosóficas que são
incompatíveis com a verdade revelada, formulando assim as exigências
que, do ponto de vista da fé, se impõem à filosofia.
Além disso, no desenvolvimento do saber filosófico, surgiram
diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao Magistério
a responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade
ou incompatibilidade das concepções de base, defendidas
por essas escolas, com as exigências próprias da palavra
de Deus e da reflexão teológica.
A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode existir, num sistema filosófico,
de incompatível com a sua fé. Na verdade, muitos conteúdos
filosóficos - relativos, por exemplo, a Deus, ao homem, à
sua liberdade e ao seu comportamento ético -, têm a ver diretamente
com a Igreja, porque tocam na verdade revelada que ela guarda. Quando
nós, Bispos, realizamos o referido discernimento, temos a obrigação
de ser "testemunhas da verdade", no cumprimento dum serviço
humilde, mas firme, que todo o filósofo devia prezar, em benefício
da reta ratio, ou seja, da razão que reflete corretamente sobre
a verdade.
51. Em todo o caso, tal discernimento não deve ser visto primariamente
de forma negativa, como se a intenção do Magistério
fosse eliminar ou reduzir qualquer possibilidade de mediação;
ao contrário, as suas intervenções visam em primeiro
lugar suscitar, promover e encorajar o pensamento filosófico. Os
filósofos são, aliás, os primeiros a compreender
a exigência de autocrítica, de correção de
eventuais erros, e a necessidade de ultrapassar os limites demasiado estreitos
em que a sua reflexão foi concebida. De modo particular, deve-se
considerar que a verdade é uma só, embora as suas expressões
acusem os vestígios da história e sejam, além disso,
obra duma razão humana ferida e enfraquecida pelo pecado. Daqui
se conclui que nenhuma forma histórica da filosofia pode, legitimamente,
ter a pretensão de abraçar a totalidade da verdade ou de
possuir a explicação cabal do ser humano, do mundo e da
relação do homem com Deus.
E hoje, com esta multiplicação de sistemas, métodos,
conceitos e argumentos filosóficos, muitas vezes extremamente fragmentários,
impõe-se ainda com maior urgência um discernimento crítico
à luz da fé. Este discernimento não é fácil,
porque, se já é custoso reconhecer as capacidades naturais
e inalienáveis da razão com as suas limitações
constitutivas e históricas, mais problemático ainda se pode
tornar às vezes o discernimento de cada uma das propostas filosóficas
para verificar, do ponto de vista da fé, o que apresentam de válido
e fecundo e o que existe nelas de errado ou perigoso. De qualquer modo,
a Igreja sabe que os "tesouros da sabedoria e da ciência"
estão escondidos em Cristo (Col 2,3); por isso, ela intervém,
estimulando a reflexão filosófica, para que não se
obstrua a estrada que leva ao conhecimento do mistério.
52. Não foi só recentemente que o Magistério da Igreja
interveio para manifestar o seu pensamento a respeito de determinadas
doutrinas filosóficas. A título de exemplo, basta recordar,
no decurso dos séculos, as tomadas de posição acerca
das teorias que defendiam a preexistência das almas56, e ainda sobre
as diversas formas de idolatria e esoterismo supersticioso, contidas em
teses astrológicas57; sem esquecer os textos mais sistemáticos
contra algumas teses do averroísmo latino, incompatíveis
com a fé cristã58.
Se a palavra do Magistério se fez ouvir mais frequentemente a partir
da segunda metade do século passado, foi porque, naquele período,
numerosos católicos sentiram o dever de contrapor uma filosofia
própria às várias correntes do pensamento moderno.
Daqui resultou, para o Magistério da Igreja, a obrigação
de vigiar a fim de que tais filosofias não degenerassem, por sua
vez, em formas errôneas e negativas. Acabaram assim censurados os
dois extremos: dum lado, o fideísmo59 e o tradicionalismo radical60,
pela sua falta de confiança nas capacidades naturais da razão;
e, do outro, o racionalismo61 e o ontologismo62, porque atribuíam
à razão natural aquilo que apenas se pode conhecer pela
luz da fé. Os conteúdos positivos deste debate foram formalizados
na constituição dogmática "Dei Filius",
por meio da qual um concílio ecumênico - o Vaticano I - intervinha,
pela primeira vez e de forma solene, sobre as relações entre
razão e fé. A doutrina contida neste texto marcou, intensa
e positivamente, a investigação filosófica de muitos
crentes e constitui ainda hoje um ponto normativo de referência
para uma correta e coerente reflexão cristã neste âmbito
particular.
53. Mais do que teses filosóficas isoladas, as tomadas de posição
do Magistério ocuparam-se da necessidade do conhecimento racional
- e por conseguinte, em última análise, do conhecimento
filosófico - para a compreensão da fé. O Concílio
Vaticano I, sintetizando e confirmando solenemente os ensinamentos que
o Magistério pontifício tinha proposto aos fiéis
de maneira ordinária e constante, pôs em evidência
como são inseparáveis e ao mesmo tempo irredutíveis
entre si o conhecimento natural de Deus e a Revelação, a
razão e a fé. O Concílio partia da exigência
fundamental - pressuposta também pela Revelação -
da cognoscibilidade natural da existência de Deus, princípio
e fim de todas as coisas63, para concluir com a solene afirmação
já citada: "Existem duas ordens de conhecimento, distintas
não apenas pelo seu princípio, mas também pelo seu
objeto"64. É que era preciso afirmar, contra qualquer forma
de racionalismo, a distinção entre os mistérios da
fé e as conclusões filosóficas, e ainda a transcendência
e precedência daqueles sobre estas; por outro lado, contra as tentações
fideístas, tornava-se necessário corroborar a unidade da
verdade e também o contributo positivo que o conhecimento racional
pode, e deve, dar para o conhecimento da fé: "Mas, embora
a fé esteja acima da razão, não poderá existir
nunca uma verdadeira divergência entre fé e razão,
porque o mesmo Deus que revela os mistérios e comunica a fé,
foi quem colocou também, no espírito humano, a luz da razão.
E Deus não poderia negar-Se a Si mesmo, pondo a verdade em contradição
com a verdade"65.
54. Neste século, o Magistério voltou várias vezes
ao mesmo assunto, alertando contra a tentação racionalista.
É neste horizonte que se devem colocar as intervenções
do Papa S. Pio X, pondo em relevo como, na base do modernismo, havia posições
filosóficas de linha fenomenista, agnóstica e imanentista66.
E não se pode esquecer a importância que teve a rejeição
católica da filosofia marxista e do comunismo ateu67.
Sucessivamente, o Papa Pio XII fez ouvir a sua voz quando, na carta encíclica
"Humani Generis", preveniu contra interpretações
errôneas que andavam ligadas com as teses do evolucionismo, do existencialismo
e do historicismo. Explicava ele que estas teses não foram elaboradas
nem eram propostas por teólogos, mas tinham a sua origem "fora
do redil de Cristo"68; acrescentava, porém, que tais extravios
não deviam ser liminarmente rejeitados, mas examinados criticamente:
"Ora, estas tendências, que se afastam em medida desigual da
reta via, não podem ser ignoradas ou transcuradas pelos filósofos
e teólogos católicos, que têm o grave dever de defender
a verdade divina e humana, e de fazê-la penetrar na mente dos homens.
Pelo contrário, devem conhecer bem estas opiniões, quer
porque as doenças não podem ser curadas, se primeiro não
são bem conhecidas, quer porque algumas vezes mesmo nas afirmações
falsas se esconde um pouco de verdade, quer finalmente porque os próprios
erros forçam a nossa mente a investigar e a perscrutar, com maior
diligência, certas verdades filosóficas e teológicas"69.
Por último, também a Congregação da Doutrina
da Fé, no cumprimento do seu múnus específico ao
serviço do magistério universal do Romano Pontífice70,
teve de intervir para sublinhar o perigo que comportava a assunção
acrítica, feita por alguns teólogos da libertação,
de teses e metodologias provenientes do marxismo71.
Vemos assim que, no passado, o Magistério exerceu reiteradamente
e sob diversas modalidades o discernimento em matéria filosófica.
Aquilo que os meus Venerados Predecessores enunciaram, constitui um contributo
precioso que não pode ser esquecido.
55. Se observarmos a situação atual, constatamos que os
problemas retornam, mas com peculiaridades novas. Já não
se trata de questões que interessam apenas a indivíduos
ou grupos, mas de convicções tão generalizadas no
ambiente que se tornam, em certa medida, mentalidade comum. Tal é,
por exemplo, a desconfiança radical na razão, que evidenciam
as conclusões mais recentes de muitos estudos filosóficos.
De várias partes ouviu-se falar, a este respeito, de "fim
da metafísica": querem que a filosofia se contente com tarefas
mais modestas, tais como a mera interpretação dos fatos
ou apenas a investigação sobre determinados campos do saber
humano ou das suas estruturas.
Também, na teologia, voltam a assomar as tentações
de outrora. Por exemplo, em algumas teologias contemporâneas comparece
novamente um certo racionalismo, principalmente quando asserções,
consideradas filosoficamente fundadas, são tomadas como normativas
para a investigação teológica. Isto sucede sobretudo
quando o teólogo, por falta de competência filosófica,
se deixa condicionar de modo acrítico por afirmações
que já entraram na linguagem e cultura corrente, mas carecem de
suficiente base racional72.
Não faltam também perigosas recaídas no fideísmo,
que não reconhece a importância do conhecimento racional
e do discurso filosófico para a compreensão da fé,
melhor, para a própria possibilidade de acreditar em Deus. Uma
expressão, hoje generalizada, desta tendência fideísta
é o "biblicismo", que tende a fazer da leitura da Sagrada
Escritura, ou da sua exegese, o único referencial da verdade. Assim,
acaba-se por identificar a palavra de Deus só com a Sagrada Escritura,
anulando deste modo a doutrina da Igreja que o Concílio Ecumênico
Vaticano II expressamente reafirmou. Com efeito, a constituição
"Dei Verbum", depois de recordar que a palavra de Deus está
presente tanto nos textos sagrados como na Tradição73, afirma
sem rodeios: "A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura
constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado
à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos
seus Pastores na doutrina dos Apóstolos"74. Portanto, a Sagrada
Escritura não constitui, para a Igreja, a sua única referência;
a "regra suprema da sua fé" 75 provém efetivamente
da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição,
a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade
tal que os três não podem subsistir de maneira independente
76.
Além disso, não se deve subestimar o perigo que existe quando
se quer individualizar a verdade da Sagrada Escritura com a aplicação
de uma única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese
mais ampla que permita o acesso, em união com toda a Igreja, ao
sentido pleno dos textos. Os que se dedicam ao estudo da Sagrada Escritura
nunca devem esquecer que as diversas metodologias hermenêuticas
têm também na sua base uma concepção filosófica:
é preciso examiná-las com grande discernimento, antes de
as aplicar aos textos sagrados.
Outras formas de fideísmo latente podem-se identificar na pouca
consideração que é reservada à teologia especulativa,
e ainda no desprezo pela filosofia clássica, de cujas noções
provieram os termos para exprimir tanto a compreensão da fé
como as próprias formulações dogmáticas. O
Papa Pio XII, de veneranda memória, alertou contra este esquecimento
da tradição filosófica e abandono das terminologias
tradicionais77.
56. Constata-se, enfim, uma generalizada desconfiança relativamente
a asserções globais e absolutas sobretudo da parte de quem
pensa que a verdade resulte do consenso, e não da conformidade
do intelecto com a realidade objetiva. Compreende-se que, num mundo subdividido
em tantos campos de especializações, se torne difícil
reconhecer aquele sentido total e último da vida que tradicionalmente
a filosofia procurava. Mas nem por isso posso, à luz da fé
que reconhece em Jesus Cristo tal sentido último, deixar de encorajar
os filósofos, cristãos ou não, a terem confiança
nas capacidades da razão humana e a não prefixarem metas
demasiado modestas à sua investigação filosófica.
A lição da história deste milênio, quase a
terminar, testemunha que a estrada a seguir é esta: não
perder a paixão pela verdade última, nem o anseio de pesquisa,
unidos à audácia de descobrir novos percursos. É
a fé que incita a razão a sair de qualquer isolamento e
a abraçar de bom grado qualquer risco por tudo o que é belo,
bom e verdadeiro. Deste modo, a fé torna-se advogada convicta e
convincente da razão.
2. Solicitude da Igreja pela filosofia
57. O Magistério, porém, não se limitou a pôr
em destaque os erros e desvios das doutrinas filosóficas. Mas,
com igual cuidado, quis confirmar os princípios fundamentais para
uma genuína renovação do pensamento filosófico,
indicando mesmo percursos concretos a seguir. Nesta linha, o Papa Leão
XIII, com a carta encíclica "Aeterni Patris", realizou
um passo de alcance verdadeiramente histórico na vida da Igreja.
Efetivamente aquela constitui, até ao dia de hoje, o único
documento pontifício dedicado, a esse nível, inteiramente
à filosofia. O grande Pontífice retomou e desenvolveu a
doutrina do Concílio Vaticano I sobre a relação entre
fé e razão, mostrando como o pensamento filosófico
é um contributo fundamental para a fé e para a ciência
teológica78. Passado mais de um século, muitas indicações,
lá contidas, nada perderam do seu interesse tanto do ponto de vista
prático como pedagógico; a primeira de todas é a
que diz respeito ao valor incomparável da filosofia de S. Tomás.
A reposição do pensamento do Doutor Angélico era
vista pelo Papa Leão XIII como a melhor estrada para se recuperar
um uso da filosofia conforme às exigências da fé.
S. Tomás, escrevia ele, "ao mesmo tempo que, como é
devido, distingue perfeitamente a fé da razão, une-as a
ambas com laços de amizade recíproca: conserva os direitos
próprios de cada uma e salvaguarda a sua dignidade"79.
58. São conhecidas as felizes consequências que teve este
convite pontifício. Os estudos sobre o pensamento de S. Tomás
e de outros autores escolásticos receberam novo incentivo. Foi
dado um forte impulso aos estudos históricos, de que resultou uma
nova descoberta das riquezas do pensamento medieval, até então
amplamente desconhecidas, e constituíram-se novas escolas tomistas.
Com a aplicação da metodologia histórica, fizeram-se
grandes progressos no conhecimento da obra de S. Tomás, e muitos
foram os estudiosos que corajosamente introduziram a tradição
tomista nas discussões dos problemas filosóficos e teológicos
daquele tempo. Os teólogos católicos mais influentes deste
século, a cuja reflexão e pesquisa muito deve o Concílio
Vaticano II, são filhos de tal renovação da filosofia
tomista. E assim a Igreja pôde, no decurso do século XX,
dispor dum vigoroso grupo de pensadores, formados na escola do Doutor
Angélico.
59. Contudo, a renovação tomista e neotomista não
foi o único sinal de retoma do pensamento filosófico na
cultura de inspiração cristã. Já antes, e
contemporâneamente ao convite do Papa Leão XIII, tinham surgido
vários filósofos católicos que, valendo-se de correntes
de pensamento mais recentes e com uma metodologia própria, geraram
obras filosóficas de grande influência e valor duradouro.
Houve quem tivesse organizado sínteses de nível tão
alto que nada tinham a invejar aos grandes sistemas do idealismo, e quem
pusesse as bases epistemológicas para uma nova exposição
da fé, à luz de uma renovada compreensão da consciência
moral; houve quem tivesse elaborado uma filosofia que, partindo da análise
da imanência, abria o caminho para o transcendente, e quem tentasse
traduzir as exigências da fé no horizonte da metodologia
fenomenológica. Em suma, partindo de diversas perspectivas, continuou-se
a elaborar formas de reflexão filosófica, que visavam manter
viva a grande tradição do pensamento cristão na unidade
de fé e razão.
60. O Concílio Ecumênico Vaticano II, por sua vez, apresenta
uma doutrina muito rica e fecunda a propósito da filosofia. Não
posso esquecer, sobretudo no contexto desta carta encíclica, que
um capítulo inteiro da constituição "Gaudium
et Spes" constitui uma espécie de compêndio de antropologia
bíblica, fonte de inspiração também para a
filosofia. Naquelas páginas, trata-se do valor da pessoa humana
criada à imagem de Deus, indicam-se os motivos da sua dignidade
e superioridade relativamente ao resto da criação, e mostra-se
a capacidade transcendente da sua razão80. Na referida Constituição
conciliar, considera-se também o problema do ateísmo e denunciam-se,
juntamente com suas causas, os erros desta visão filosófica,
sobretudo no que diz respeito à dignidade inalienável da
pessoa e da sua liberdade81. E um profundo significado filosófico
reveste também o ponto culminante daquelas páginas, que
transcrevia já na minha primeira carta encíclica, a "Redemptor
Hominis", e mantive como um dos pontos de referência constante
no meu magistério: "Na realidade, o mistério do homem
só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente.
Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura do futuro, isto
é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria
revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela
o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime"82.
O Concílio ocupou-se também do estudo da filosofia, ao qual
se devem dedicar os candidatos ao sacerdócio; são recomendações
que se podem generalizar a todo o ensino cristão. Afirma-se num
dos documentos conciliares: "As disciplinas filosóficas sejam
ensinadas de forma que os alunos possam adquirir, antes de mais, um conhecimento
sólido e coerente do homem, do mundo e de Deus, apoiados num patrimônio
filosófico perenemente válido, tendo em conta as investigações
filosóficas dos tempos atuais"83.
Estas diretrizes foram depois retomadas e especificadas em outros documentos
do Magistério, com o intuito de garantir uma sólida formação
filosófica sobretudo àqueles que se preparam para os estudos
teológicos. Também eu sublinhei, em várias ocasiões,
a importância desta formação filosófica para
todos os que, um dia, terão de enfrentar, na vida pastoral, as
questões do mundo atual e individualizar as causas de determinados
comportamentos, a fim de lhes dar pronta resposta84.
61. Se foi necessário intervir, em diversas circunstâncias,
sobre este tema, reiterando o valor das intuições do Doutor
Angélico e insistindo a favor da aquisição do seu
pensamento, isso ficou a dever-se também ao fato de não
terem sido sempre observadas as diretrizes do Magistério, com a
solicitude desejada. De fato, nos anos posteriores ao Concílio
Vaticano II, pôde observar-se, em muitas escolas católicas,
um certo declínio nesta matéria, devido à menor estima
sentida não apenas pela filosofia escolástica, mas pelo
estudo da filosofia em geral. Com surpresa e mágoa, tenho de constatar
que vários teólogos compartilham este desinteresse pelo
estudo da filosofia.
Na base desta indiferença, há diversas razões. Em
primeiro lugar, aquela falta de confiança na razão que se
manifesta em grande parte da filosofia contemporânea, abandonando
em larga escala a investigação metafísica das questões
últimas do homem para concentrar a sua atenção sobre
problemas particulares e regionais, às vezes puramente formais.
Depois, há que acrescentar o equívoco que se gerou sobretudo
a respeito das "ciências humanas". O Concílio Vaticano
II afirmou, várias vezes, o valor positivo da pesquisa científica
para um conhecimento mais profundo do mistério do homem85. Mas,
o convite dirigido aos teólogos para conhecerem estas ciências
e, se vier a propósito, aplicá-las corretamente nos seus
estudos, não deve ser interpretado como uma implícita autorização
para marginalizar a filosofia, pondo-a de parte na formação
pastoral e na "praeparatio fidei". E, finalmente, não
se pode esquecer o interesse novamente sentido pela inculturação
da fé. Em particular, a vida das jovens Igrejas permitiu descobrir,
ao lado de formas elevadas de pensamento, a presença de múltiplas
expressões de sabedoria popular. Isto constitui um autêntico
patrimônio de cultura e de tradições. Todavia, o estudo
dos costumes tradicionais deve ser acompanhado simultaneamente pela pesquisa
filosófica. Será esta que possibilitará fazer sobressair
os traços positivos da sabedoria popular, criando a necessária
ligação com o anúncio do Evangelho86.
62. Desejo insistir novamente que o estudo da filosofia reveste um caráter
fundamental e indispensável na estrutura dos estudos teológicos
e na formação dos candidatos ao sacerdócio. Não
é por acaso que o currículo dos estudos teológicos
é antecedido por um período de tempo especialmente consagrado
ao estudo da filosofia. Esta decisão, confirmada pelo Concílio
Ecumênico Lateranense V87, tem as suas raízes na experiência
maturada durante a Idade Média, quando foi posta em relevo a importância
de uma harmonia construtiva entre o saber filosófico e o teológico.
Esta organização dos estudos influenciou, facilitou e promoveu,
embora de forma indireta, uma boa parte do progresso da filosofia moderna.
Temos um exemplo significativo na influência exercida pelas "Disputationes
Metaphysicae" de Francisco Suárez, que eram seguidas até
mesmo nas universidades luteranas da Alemanha. Pelo contrário,
o abandono desta metodologia foi causa de graves carências, tanto
na formação sacerdotal como na investigação
teológica. Basta considerar, por exemplo, como a sua negligência
no âmbito do pensamento e da cultura moderna levou ao encerramento
de toda a forma de diálogo ou à recepção indiscriminada
de qualquer filosofia.
Nutro profunda esperança de que estas dificuldades serão
superadas mercê de uma sábia formação filosófica
e teológica, que nunca deve faltar na Igreja.
63. Em virtude das razões aduzidas, senti a urgência de confirmar,
por meio desta carta encíclica, o grande interesse que a Igreja
tem pela filosofia; ou melhor, a ligação íntima do
trabalho teológico com a investigação filosófica
da verdade. Daqui nasce o dever que o Magistério tem de discernir
e estimular um pensamento filosófico que não esteja em dissonância
com a fé. A minha missão é propor alguns princípios
e pontos de referência, que considero necessários para se
poder instaurar uma relação harmoniosa e eficaz entre a
teologia e a filosofia. À luz deles, será possível
discernir com maior clareza se e como deve a teologia relacionar-se com
os diversos sistemas ou asserções filosóficas que
o mundo atual apresenta.
Capítulo VI
Interação da Teologia com a Filosofia
1. A ciência da fé e as exigências da razão
filosófica
64. A palavra de Deus destina-se a todo o homem, de qualquer época
e lugar da terra; e o homem, por natureza, é filósofo. Por
sua vez, a teologia, enquanto elaboração reflexiva e científica
da compreensão da palavra divina à luz da fé, não
pode deixar de recorrer às filosofias que vão surgindo ao
longo da história, tanto para algumas das suas formas de proceder
como para realizar funções mais específicas. Sem
pretender indicar aos teólogos metodologias particulares - porque
tal não compete ao Magistério -, desejo, porém, lembrar
algumas funções próprias da teologia, onde, por causa
da própria natureza da Palavra revelada, se exige o recurso ao
pensamento filosófico.
65. A teologia está organizada, enquanto ciência da fé,
à luz de um duplo princípio metodológico: "auditus
fidei" e "intellectus fidei". Com o primeiro, recolhe os
conteúdos da Revelação tal como se foram explicitando
progressivamente na Sagrada Tradição, na Sagrada Escritura
e no Magistério vivo da Igreja88. Pelo segundo, a teologia quer
responder às exigências próprias do pensamento, através
da reflexão especulativa.
Quanto à preparação para um correto "auditus
fidei", a filosofia proporciona à teologia a sua ajuda peculiar,
quando examina a estrutura do conhecimento e da comunicação
pessoal, e sobretudo as várias formas e funções da
linguagem. Igualmente importante é a contribuição
da filosofia para uma compreensão mais coerente da Tradição
eclesial, das intervenções do Magistério e das sentenças
dos grandes mestres da teologia: estes, de fato, exprimem-se frequentemente
por conceitos e formas de pensamento conotados com determinada tradição
filosófica. Neste caso, pede-se ao teólogo não só
que exponha conceitos e termos através dos quais a Igreja possa
refletir e elaborar a sua doutrina, mas que conheça profundamente
também os sistemas filosóficos que tenham, porventura, influenciado
as noções e a terminologia, a fim de se chegar a interpretações
corretas e coerentes.
66. Relativamente ao "intellectus fidei", importa considerar,
antes de mais, que a Verdade divina, "que nos é proposta nas
Sagradas Escrituras, interpretadas corretamente pela doutrina da Igreja"89
goza de uma inteligibilidade própria, logicamente tão coerente
que se deve propor como um autêntico saber. O "intellectus
fidei" explicita esta verdade, não só quando investiga
as estruturas lógicas e conceituais das proposições
em que se articula a doutrina da Igreja, mas também e sobretudo
quando põe em realce o significado salvífico de tais proposições
para o indivíduo e para a humanidade. É pelo conjunto destas
proposições que o crente chega a conhecer a história
da salvação, que culmina na pessoa de Jesus Cristo e no
seu mistério pascal; ele participa deste mistério, com a
sua adesão de fé.
A teologia dogmática deve ser capaz de articular o sentido universal
do mistério de Deus, Uno e Trino, e da economia da salvação,
quer de modo narrativo, quer sobretudo de forma argumentativa. Por outras
palavras, deve fazê-lo mediante expressões conceituais, formuladas
de modo crítico e universalmente acessível. De fato, sem
o contributo da filosofia não seria possível ilustrar certos
conteúdos teológicos como, por exemplo, a linguagem sobre
Deus, as relações pessoais no seio da Santíssima
Trindade, a ação criadora de Deus no mundo, a relação
entre Deus e o homem, a identidade de Cristo que é verdadeiro Deus
e verdadeiro homem. E o mesmo se diga de diversos temas da teologia moral,
onde é preciso recorrer, de imediato, a conceitos como lei moral,
consciência, liberdade, responsabilidade pessoal, culpa, etc., cuja
definição provém da ética filosófica.
Por isso, é necessário que a razão do crente tenha
um conhecimento natural, verdadeiro e coerente das coisas criadas, do
mundo e do homem, que são também objeto da revelação
divina; mais ainda, ela deve ser capaz de articular este conhecimento
de maneira conceitual e argumentativa. Assim, a teologia dogmática
especulativa pressupõe e implica uma filosofia do homem, do mundo
e, mais radicalmente, do próprio ser, fundada sobre a verdade objetiva.
67. A teologia fundamental, pelo seu próprio caráter de
disciplina que tem por função dar razão da fé
(cf. 1Ped 3,15), deverá procurar justificar e explicitar a relação
entre a fé e a reflexão filosófica. Já o Concílio
Vaticano I, reafirmando o ensinamento paulino (cf. Rom 1,19-20), chamara
a atenção para o fato de existirem verdades que se podem
conhecer de modo natural e, consequentemente, filosófico. O seu
conhecimento constitui um pressuposto necessário para acolher a
revelação de Deus. Quando a teologia fundamental estuda
a Revelação e a sua credibilidade com o relativo ato de
fé, deverá mostrar como emergem, à luz do conhecimento
pela fé, algumas verdades que a razão, autonomamente, já
encontra ao longo do seu caminho de pesquisa. A essas verdades, a Revelação
confere-lhes plenitude de sentido, orientando-as para a riqueza do mistério
revelado, onde encontram o seu fim último. Basta pensar, por exemplo,
ao conhecimento natural de Deus, à possibilidade de distinguir
a revelação divina de outros fenômenos, ou ao conhecimento
da sua credibilidade, à capacidade que tem a linguagem humana de
falar, de modo significativo e verdadeiro, mesmo do que ultrapassa a experiência
humana. Por todas estas verdades, a mente é levada a reconhecer
a existência de uma via realmente propedêutica à fé,
que pode desembocar no acolhimento da Revelação, sem faltar
minimamente aos seus próprios princípios e autonomia90.
Da mesma forma, a teologia fundamental deverá manifestar a compatibilidade
intrínseca entre a fé e a sua exigência essencial
de se explicitar através de uma razão capaz de dar com plena
liberdade o seu consentimento. Assim, a fé saberá "mostrar
plenamente o caminho a uma razão em busca sincera da verdade. Deste
modo a fé, dom de Deus, apesar de não se basear na razão,
decerto não pode existir sem ela; ao mesmo tempo, surge a necessidade
de que a razão se fortifique na fé, para descobrir os horizontes
aos quais, sozinha, não poderia chegar"91.
68. A teologia moral tem, possivelmente, uma necessidade ainda maior do
contributo filosófico. Na Nova Aliança, a vida humana está
efetivamente muito menos regulada por prescrições do que
na Antiga. A vida no Espírito conduz os crentes a uma liberdade
e responsabilidade que ultrapassam a própria Lei. No entanto, o
Evangelho e os escritos apostólicos não deixam de propor
ora princípios gerais de conduta cristã, ora ensinamentos
e preceitos específicos; para aplicá-los às circunstâncias
concretas da vida individual e social, o cristão tem necessidade
de valer-se plenamente da sua consciência e da força do seu
raciocínio. Por outras palavras, a teologia moral deve recorrer
a uma visão filosófica correta tanto da natureza humana
e da sociedade, como dos princípios gerais duma decisão
ética.
69. Talvez se possa objetar que, na situação atual, o teólogo,
mais do que à filosofia, deveria recorrer à ajuda de outras
formas do saber humano, concretamente à história e sobretudo
às ciências, de que todos admiram os progressos extraordinários
recentemente alcançados. Outros, impelidos por uma maior sensibilidade
à relação entre fé e culturas, defendem que
a teologia deveria dar preferência às sabedorias tradicionais,
em vez de uma filosofia de origem grega e eurocêntrica. Outros ainda,
partindo duma concepção errada do pluralismo de culturas,
negam simplesmente o valor universal do património filosófico
abraçado pela Igreja.
Os aspectos sublinhados, já presentes aliás na doutrina
conciliar92, contêm uma parte de verdade. O referimento às
ciências, útil em muitos casos porque permite um conhecimento
mais completo do objeto de estudo, não deve, porém, fazer
esquecer a necessidade que há da mediação de uma
reflexão tipicamente filosófica, crítica e aberta
ao universal, solicitada também por um fecundo intercâmbio
entre as culturas. A minha preocupação é pôr
em destaque o dever de não se ficar pelo caso isolado e concreto,
descuidando assim a tarefa primária que é manifestar o caráter
universal do conteúdo de fé. Além disso, não
se deve esquecer que a peculiar contribuição do pensamento
filosófico permite discernir, tanto nas diversas concepções
da vida como nas culturas, "não o que os homens pensam, mas
qual é a verdade objetiva"93. Não as diversas opiniões
humanas, mas somente a verdade pode servir de ajuda à filosofia.
70. Além do mais, o tema da relação com as culturas
merece uma reflexão específica, apesar de necessariamente
não exaustiva, pelas implicações que daí derivam
para as vertentes filosófica e teológica. O processo de
encontro e comparação com as culturas é uma experiência
que a Igreja viveu desde os começos da pregação do
Evangelho. O mandato de Cristo aos discípulos para irem, a toda
a parte "até aos confins do mundo" (At 1,8), transmitir
a verdade revelada por Ele, fez com que a comunidade cristã pudesse
bem cedo dar-se conta da universalidade do anúncio e dos obstáculos
resultantes da diversidade das culturas. Um trecho da carta de S. Paulo
aos cristãos de Éfeso oferece uma válida ajuda para
compreender como a Comunidade Primitiva enfrentou este problema. Escreve
o Apóstolo: "Agora porém, vós, que outrora estáveis
longe, pelo Sangue de Cristo vos aproximastes. Ele é a nossa paz,
Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade
que os separava" (2,13-14).
Iluminada por este texto, a nossa reflexão pode debruçar-se
sobre a transformação que se operou nos gentios quando abraçaram
a fé. As barreiras que separam as diversas culturas caem diante
da riqueza da salvação, realizada por Cristo. Agora, em
Cristo, a promessa de Deus torna-se uma oferta universal: não limitada
já à dimensão particular de um povo, da sua língua
ou dos seus costumes, mas alargada a todos, como um patrimônio ao
qual cada um pode livremente ter acesso. Dos mais diversos lugares e tradições,
todos são chamados, em Cristo, a participar na unidade da família
dos filhos de Deus. Cristo faz com que dois povos se tornem "um só".
Os que "estavam longe" ficaram "próximo", graças
à novidade gerada pelo mistério pascal. Jesus abate os muros
de divisão e realiza a unificação, de um modo original
e supremo, por meio da participação no seu mistério.
Esta unidade é tão profunda que a Igreja pode dizer com
S. Paulo: "Já não sois hóspedes nem peregrinos,
mas sois concidadãos dos santos e membros da família de
Deus" (Ef 2, 19).
Nesta asserção tão simples, está contida uma
grande verdade: o encontro da fé com as diversas culturas deu vida
a uma nova realidade. Na verdade, quando as culturas estão profundamente
radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o testemunho da
abertura, própria do homem, ao universal e à transcendência.
É por isso que elas apresentam perspectivas distintas da verdade,
que são de evidente utilidade para o homem, porque lhe fazem vislumbrar
valores capazes de tornar a sua existência sempre mais humana94.
Por outro lado, na medida em que evocam os valores das tradições
antigas, as culturas trazem consigo - embora de modo implícito,
mas nem por isso menos real - a referência à manifestação
de Deus na natureza, como se viu antes nos textos sapienciais e no ensinamento
de S. Paulo.
71. Uma vez que as culturas estão intimamente relacionadas com
os homens e a sua história, partilham das mesmas dinâmicas
do tempo humano. E, consequentemente, registam transformações
e progressos com os encontros que os homens promovem e com as recíprocas
transmissões dos seus modelos de vida. As culturas alimentam-se
com a comunicação de valores, e a sua vitalidade e subsistência
dependem da sua capacidade de permanecerem abertas para acolher a novidade.
Como se explicam tais dinâmicas? Todo o homem está integrado
numa cultura; depende dela, e sobre ela influi. É simultaneamente
filho e pai da cultura onde está inserido. Em cada manifestação
da sua vida, o homem traz consigo algo que o caracteriza no meio da criação:
a sua constante abertura ao mistério e o seu desejo inexaurível
de conhecimento. Em consequência, cada cultura traz gravada em si
mesma e deixa transparecer a tensão para uma plenitude. Pode-se,
portanto, dizer que a cultura contém em si própria a possibilidade
de acolher a revelação divina.
Também o modo como os cristãos vivem a fé, está
imbuído da cultura do ambiente circundante, e vai progressivamente
contribuindo, por sua vez, para modelar as características do mesmo.
Os cristãos transmitem, a cada cultura, a verdade imutável
que Deus revelou na história e na cultura de um povo. Ao longo
dos séculos, continua a reproduzir-se o mesmo fenômeno testemunhado
pelos peregrinos presentes em Jerusalém, no dia de Pentecostes.
Ao escutarem os Apóstolos, perguntavam-se: "Mas quê!
Essa gente que está a falar não é da Galiléia?
Que se passa, então, para que cada um de nós os ouça
falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes
da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto
e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das
regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, judeus
e prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los anunciar nas
nossas línguas as maravilhas de Deus!" (At 2,7-11). O anúncio
do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de cada um dos destinatários
a adesão da fé, não os impede de conservar a própria
identidade cultural. Isto não provoca qualquer divisão,
pois o povo dos batizados distingue-se por uma universalidade que é
capaz de acolher todas as culturas, fazendo com que aquilo que nelas está
implícito se desenvolva até à sua explanação
plena na verdade.
Em consequência disto, uma cultura nunca pode servir de critério
de juízo e, menos ainda, de critério último de verdade
a respeito da revelação de Deus. O Evangelho não
é contrário a esta ou àquela cultura, como se quisesse,
ao encontrar-se com ela, privá-la daquilo que lhe pertence, e a
obrigasse a assumir formas extrínsecas que lhe são estranhas.
Pelo contrário, o anúncio que o crente leva ao mundo e às
culturas é uma forma real de libertação de toda a
desordem introduzida pelo pecado e, simultaneamente, uma chamada à
verdade plena. Neste encontro, as culturas não são privadas
de nada, antes são estimuladas a abrirem-se à novidade da
verdade evangélica, de que recebem impulso para novos progressos.
72. O fato da missão evangelizadora ter encontrado em primeiro
lugar no seu caminho a filosofia grega, não constitui de forma
alguma impedimento para outros relacionamentos. Hoje, à medida
que o Evangelho entra em contato com áreas culturais que estiveram
até agora fora do âmbito de irradiação do cristianismo,
novas tarefas se abrem à inculturação. Colocam-se
à nossa geração problemas análogos aos que
a Igreja teve de enfrentar nos primeiros séculos.
O meu pensamento vai espontaneamente até às terras do Oriente,
tão ricas de tradições religiosas e filosóficas
muito antigas. Entre elas, ocupa um lugar especial a Índia. Um
grande ímpeto espiritual leva o pensamento indiano a procurar uma
experiência que, libertando o espírito dos condicionamentos
de tempo e espaço, tenha valor de absoluto. No dinamismo desta
busca de libertação, situam-se grandes sistemas metafísicos.
Compete aos cristãos de hoje, sobretudo aos da Índia, a
tarefa de extrair deste rico patrimônio os elementos compatíveis
com a sua fé, para se obter um enriquecimento do pensamento cristão.
Nesta obra de discernimento, que tem a sua fonte de inspiração
na declaração conciliar "Nostra Aetate", deverão
ter em consideração um certo número de critérios.
O primeiro é a universalidade do espírito humano, cujas
exigências fundamentais são idênticas nas mais distintas
culturas. O segundo, derivado do anterior, consiste no seguinte: quando
a Igreja entra em contato com grandes culturas que nunca tinha encontrado
antes, não pode pôr de parte o que adquiriu pela inculturação
no pensamento greco-latino. Rejeitar uma tal herança seria contrariar
o desígnio providencial de Deus, que conduz a sua Igreja pelos
caminhos do tempo e da história. Aliás, este critério
é válido para a Igreja de todos os tempos - também
para a Igreja de amanhã, que se sentirá enriquecida com
as aquisições resultantes do encontro em nossos dias com
as culturas orientais, e desta herança há de tirar, por
sua vez, indicações novas para entrar frutuosamente em diálogo
com as culturas que a humanidade fizer florir no seu caminho rumo ao futuro.
Em terceiro lugar, há de precaver-se por não confundir a
legítima reivindicação de especificidade e originalidade
do pensamento indiano, com a idéia de que uma tradição
cultural deve enclausurar-se na sua diferença e afirmar-se pela
sua oposição às outras tradições -
idéia essa que seria contrária precisamente à natureza
do espírito humano.
O que fica dito para a Índia, vale também para a herança
das grandes culturas da China, do Japão e demais países
da Ásia, bem como das riquezas das culturas tradicionais da África,
transmitidas sobretudo por via oral.
73. À luz destas considerações, a justa relação
que se deve instaurar entre a teologia e a filosofia há de ser
pautada por uma reciprocidade circular. Quanto à teologia, o seu
ponto de partida e fonte primeira terá de ser sempre a palavra
de Deus revelada na história, ao passo que o objetivo final só
poderá ser uma compreensão cada vez mais profunda dessa
mesma palavra por parte das sucessivas gerações. Visto que
a palavra de Deus é Verdade (cf. Jo 17,17), uma melhor compreensão
dela só tem a beneficiar com a busca humana da verdade, ou seja,
o filosofar, no respeito das leis que lhe são próprias.
Não se trata simplesmente de utilizar, no raciocínio teológico,
qualquer conceito ou parcela dum sistema filosófico; o fato decisivo
é que a razão do crente exerce as suas capacidades de reflexão
na busca da verdade, dentro dum movimento que, partindo da palavra de
Deus, procura alcançar uma melhor compreensão da mesma.
É claro, de resto, que a razão, movendo-se dentro destes
dois pólos - palavra de Deus e melhor conhecimento desta -, encontra-se
prevenida, e de algum modo guiada, para evitar percursos que poderiam
conduzi-la fora da Verdade revelada e, em última análise,
fora pura e simplesmente da verdade; mais ainda, ela sente-se estimulada
a explorar caminhos que, sozinha, nem sequer suspeitaria de poder percorrer.
Esta relação de reciprocidade circular com a Palavra de
Deus enriquece a filosofia, porque a razão descobre horizontes
novos e inesperados.
74. A prova da fecundidade de tal relação é oferecida
pela própria vida de grandes teólogos cristãos que
se distinguiram também como grandes filósofos, deixando
escritos de tamanho valor especulativo que justificam ser colocados ao
lado dos grandes mestres da filosofia antiga. Isto é válido
tanto para os Padres da Igreja, de entre os quais há que citar
pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S. Agostinho, como
para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande tríade
formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino. A relação
entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também
na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes,
de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens
como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne
Gilson, Edith Stein, e, no âmbito oriental, estudiosos com a estatura
de Vladimir S. Solov'ev, Pavel A. Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir
N. Losskij. Ao referir estes autores, ao lado dos quais outros nomes poderiam
ser citados, não tenciono obviamente dar aval a todos os aspectos
do seu pensamento, mas apenas propô-los como exemplos significativos
de um caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis
vantagens da sua confrontação com os dados da fé.
Uma coisa é certa: a consideração do itinerário
espiritual destes mestres não poderá deixar de contribuir
para o avanço na busca da verdade e na utilização
dos resultados conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que
esta grande tradição filosófico-teológica
encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem
da Igreja e da humanidade.
2. Diferentes estádios da filosofia
75. Como consta da história das relações entre a
fé e a filosofia, apontada acima brevemente, podem distinguir-se
diversos estádios da filosofia relativamente à fé
cristã. O primeiro é a filosofia totalmente independente
da revelação evangélica: é o estádio
da filosofia, existente historicamente nas épocas que precederam
o nascimento do Redentor, e, mesmo depois dele, nas regiões onde
o Evangelho ainda não chegou. Nesta situação, a filosofia
apresenta a legítima aspiração de ser um empreendimento
autônomo, ou seja, que procede segundo as suas próprias leis,
valendo-se simplesmente das forças da razão. Embora cientes
dos graves limites devidos à debilidade congênita da razão
humana, uma tal aspiração deve ser apoiada e fortalecida.
De fato, o trabalho filosófico, como busca da verdade no âmbito
natural, pelo menos implicitamente permanece aberto ao sobrenatural.
E, mesmo quando é o próprio discurso teológico que
se serve de conceitos e argumentações filosóficas,
a exigência de correta autonomia do pensamento há de ser
respeitada. Com efeito, a argumentação conduzida segundo
rigorosos critérios racionais é garantia para a obtenção
de resultados universalmente válidos. Também aqui se verifica
o princípio segundo o qual a graça não destrói,
mas aperfeiçoa a natureza: a anuência de fé, que envolve
a inteligência e a vontade, não destrói mas aperfeiçoa
o livre arbítrio do crente, que acolhe em si próprio o dado
revelado.
Desta exigência em si mesma correta, afasta-se nitidamente a teoria
da chamada filosofia "separada", sustentada por vários
filósofos modernos. Mais do que afirmação da justa
autonomia do filosofar, ela constitui a reivindicação duma
auto-suficiência do pensamento que é claramente ilegítima:
rejeitar as contribuições de verdade vindas da revelação
divina significa efetivamente impedir o acesso a um conhecimento mais
profundo da verdade, danificando precisamente a filosofia.
76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que muitos
designam com a expressão filosofia cristã. A denominação,
em si mesma, é legítima, mas não deve dar margem
a equívocos: com ela, não se pretende aludir a uma filosofia
oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal não é
uma filosofia. Com aquela designação, deseja-se sobretudo
indicar um modo cristão de filosofar, uma reflexão filosófica
concebida em união vital com a fé. Por conseguinte, não
se refere simplesmente a uma filosofia elaborada por filósofos
cristãos que, na sua pesquisa, quiseram não contradizer
a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar
todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico
que não seriam alcançados sem a contribuição,
direta ou indireta, da fé cristã.
Assim, a filosofia cristã contém dois aspectos: um subjetivo,
que consiste na purificação da razão por parte da
fé. Esta, enquanto virtude teologal, liberta a razão da
presunção - uma típica tentação a que
os filósofos facilmente estão sujeitos. Já S. Paulo
e os Padres da Igreja, e mais recentemente filósofos, como Pascal
e Kierkegaard, a estigmatizaram. Com a humildade, o filósofo adquire
também a coragem para enfrentar algumas questões que dificilmente
poderia resolver sem ter em consideração os dados recebidos
da Revelação. Basta pensar, por exemplo, aos problemas do
mal e do sofrimento, à identidade pessoal de Deus e à questão
acerca do sentido da vida, ou, mais diretamente, à pergunta metafísica
radical: "Porque existe o ser?".
Temos, depois, o aspecto objetivo, que diz respeito aos conteúdos:
a Revelação propõe claramente algumas verdades que,
embora sejam acessíveis à razão por via natural,
possivelmente nunca seriam descobertas por ela, se tivesse sido abandonada
a si própria. Colocam-se, neste horizonte, questões como
o conceito de um Deus pessoal, livre e criador, que tanta importância
teve para o progresso do pensamento filosófico e, de modo particular,
para a filosofia do ser. Pertence ao mesmo âmbito a realidade do
pecado, tal como é vista pela luz da fé, e que ajuda a filosofia
a enquadrar adequadamente o problema do mal. Também a concepção
da pessoa como ser espiritual é uma originalidade peculiar da fé:
o anúncio cristão da dignidade, igualdade e liberdade dos
homens influiu seguramente sobre a reflexão filosófica,
realizada pelos filósofos modernos. Nos tempos mais recentes, pode-se
mencionar a descoberta da importância que tem, também para
a filosofia, o acontecimento histórico, centro da revelação
cristã. Não foi por acaso que aquele se tornou perene de
uma filosofia da história, que se apresenta como um novo capítulo
da busca humana da verdade.
Entre os elementos objetivos da filosofia cristã, inclui-se também
a necessidade de explorar a racionalidade de algumas verdades expressas
pela Sagrada Escritura, tais como a possibilidade de uma vocação
sobrenatural do homem, e também o próprio pecado original.
São tarefas que induzem a razão a reconhecer que existe
a verdade e o racional, muito para além dos limites estreitos onde
ela seria tentada a encerrar-se. Estas temáticas ampliam, de fato,
o âmbito do racional.
Ao refletirem sobre estes conteúdos, os filósofos não
se tornaram teólogos, já que não procuraram compreender
e ilustrar as verdades da fé a partir da Revelação;
continuaram a trabalhar no seu próprio terreno e com a sua metodologia
puramente racional, mas alargando a sua investigação a novos
âmbitos da verdade. Pode-se dizer que, sem este influxo estimulante
da palavra de Deus, boa parte da filosofia moderna e contemporânea
não existiria. O dado mantém toda a sua relevância,
mesmo diante da constatação decepcionante de não
poucos pensadores destes últimos séculos que abandonaram
a ortodoxia cristã.
77. Outro estádio significativo da filosofia verifica-se quando
é a própria teologia que chama em causa a filosofia. Na
verdade, a teologia sempre teve, e continua a ter, necessidade da contribuição
filosófica. Realizado pela razão crítica à
luz da fé, o trabalho teológico pressupõe e exige,
ao longo de toda a sua pesquisa, uma razão conceitual e argumentativamente
educada e formada. Além disso, a teologia precisa da filosofia
como interlocutora, para verificar a inteligibilidade e a verdade universal
das suas afirmações. Não foi por acaso que os Padres
da Igreja e os teólogos medievais assumiram, para tal função
explicativa, filosofias não cristãs. Este fato histórico
indica o valor da autonomia que a filosofia conserva mesmo neste terceiro
estádio, mas mostra igualmente as transformações
necessárias e profundas que ela deve sofrer.
É precisamente no sentido de uma contribuição indispensável
e nobre que a filosofia foi chamada, desde a Idade Patrística,
"ancilla theologiae". De fato, o título não foi
atribuído para indicar uma submissão servil ou um papel
puramente funcional da filosofia relativamente à teologia; mas
no mesmo sentido em que Aristóteles falava das ciências experimentais
como "servas" da "filosofia primeira". A expressão,
hoje dificilmente utilizável devido aos princípios de autonomia
antes mencionados, foi usada ao longo da história para indicar
a necessidade da relação entre as duas ciências e
a impossibilidade de uma sua separação.
Se o teólogo se recusasse a utilizar a filosofia, arriscar-se-ia
a fazer filosofia sem o saber e a fechar-se em estruturas de pensamento
pouco idôneas à compreensão da fé. Se o filósofo,
por sua vez, excluísse todo o contato com a teologia, ver-se-ia
na obrigação de apoderar-se por conta própria dos
conteúdos da fé cristã, como aconteceu com alguns
filósofos modernos. Tanto num caso como noutro, surgiria o perigo
da destruição dos princípios básicos de autonomia
que cada ciência justamente quer ver garantidos.
O estádio da filosofia agora considerado, devido às implicações
que comporta na compreensão da Revelação, está,
como acontece com a teologia, mais diretamente colocado sob a autoridade
do Magistério e do seu discernimento, como expus mais acima. Das
verdades de fé derivam, efetivamente, determinadas exigências
que a filosofia deve respeitar, quando entra em relação
com a teologia.
78. À luz destas reflexões, é fácil compreender
porque tenha o Magistério louvado reiteradamente os méritos
do pensamento de S. Tomás, e o tenha proposto como guia e modelo
dos estudos teológicos. O que interessava não era tomar
posição sobre questões propriamente filosóficas,
nem impor a adesão a teses particulares; o objetivo do Magistério
era, e continua a ser, mostrar como S. Tomás é um autêntico
modelo para quantos buscam a verdade. De fato, na sua reflexão,
a exigência da razão e a força da fé encontraram
a síntese mais elevada que o pensamento jamais alcançou,
enquanto soube defender a novidade radical trazida pela Revelação,
sem nunca humilhar o caminho próprio da razão.
79. Ao explicitar melhor os conteúdos do Magistério precedente,
é minha intenção, nesta última parte, indicar
algumas exigências que a teologia - e, ainda antes, a palavra de
Deus - coloca, hoje, ao pensamento filosófico e às filosofias
atuais. Como já assinalei, o filósofo deve proceder segundo
as próprias regras e basear-se sobre os próprios princípios;
todavia, a verdade é uma só. A Revelação,
com os seus conteúdos, não poderá nunca humilhar
a razão nas suas descobertas e na sua legítima autonomia;
a razão, por sua vez, não deverá perder nunca a sua
capacidade de interrogar-se e de interrogar, consciente de não
poder arvorar-se em valor absoluto e exclusivo. A verdade revelada, projetando
plena luz sobre o ser a partir do esplendor que lhe vem do próprio
Ser subsistente, iluminará o caminho da reflexão filosófica.
Em resumo, a revelação cristã torna-se o verdadeiro
ponto de enlace e confronto entre o pensar filosófico e o teológico,
no seu recíproco intercâmbio. Espera-se, pois, que teólogos
e filósofos se deixem guiar unicamente pela autoridade da verdade,
para que seja elaborada uma filosofia de harmonia com a palavra de Deus.
Esta filosofia será o terreno de encontro entre as culturas e a
fé cristã, o espaço de entendimento entre crentes
e não crentes. Ajudará os crentes a convencerem-se mais
intimamente de que a profundidade e a autenticidade da fé saem
favorecidas quando esta se une ao pensamento e não renuncia a ele.
Mais uma vez, encontramos nos Padres a lição que nos guia
nesta convicção: "Crer, nada mais é senão
pensar consentindo [...]. Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e
pensando crê [...]. A fé, se não for pensada, nada
é"95. Mais: "Se se tira o assentimento, tira-se a fé,
pois, sem o assentimento, realmente não se crê"96.
Capítulo VII
Exigências e Tarefas Atuais
1. As exigências irrenunciáveis da palavra de Deus
80. A Sagrada Escritura contém, de forma explícita ou implícita,
toda uma série de elementos que permite alcançar uma perspectiva
de notável densidade filosófica acerca do homem e do mundo.
Os cristãos foram gradualmente tomando consciência da riqueza
contida naquelas páginas sagradas. Delas se conclui que a realidade
que experimentamos, não é o absoluto: não é
incriada, nem se autogerou. Só Deus é o Absoluto. Nas páginas
da Bíblia, o homem é visto como "imago Dei", que
contém indicações precisas sobre o seu ser, a sua
liberdade e a imortalidade do seu espírito. Uma vez que o mundo
criado não é autosuficiente, qualquer ilusão de autonomia
que ignore a essencial dependência de Deus de toda criatura - incluindo
o homem - leva a dramas que destroem a busca racional da harmonia e do
sentido da existência humana.
Também o problema do mal moral - a forma mais trágica do
mal - é considerado na Bíblia, dizendo-nos que este não
pode ser reduzido a uma mera deficiência devida à matéria,
mas é uma ferida que provém de uma manifestação
desordenada da liberdade humana. Finalmente, a palavra de Deus apresenta
o problema do sentido da existência e revela a resposta para o mesmo,
encaminhando o homem para Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que
realiza em plenitude a existência humana. Poder-se-iam ainda explicitar
outros aspectos da leitura do texto sagrado; de qualquer modo, o que sobressai
é a rejeição de toda a forma de relativismo, materialismo,
panteísmo.
A convicção fundamental desta "filosofia" presente
na Bíblia é que a vida humana e o mundo têm um sentido
e caminham para a sua plenitude, que se verifica em Jesus Cristo. O mistério
da Encarnação permanecerá sempre o centro de referência
para se poder compreender o enigma da existência humana, do mundo
criado, e mesmo de Deus. A filosofia encontra, neste mistério,
os desafios extremos, porque a razão é chamada a assumir
uma lógica que destrói as barreiras onde ela mesma corre
o risco de se fechar. Somente aqui, porém, o sentido da existência
alcança o seu ponto culminante. Com efeito, torna-se inteligível
a essência íntima de Deus e do homem: no mistério
do Verbo encarnado, são salvaguardadas a natureza divina e a natureza
humana, com sua respectiva autonomia, e simultaneamente manifesta-se aquele
vínculo único que as coloca em mútuo relacionamento,
sem confusão97.
81. Deve ter-se em conta que um dos dados mais salientes da nossa situação
atual consiste na "crise de sentido". Os pontos de vista, muitas
vezes de caráter científico, sobre a vida e o mundo multiplicaram-se
tanto que estamos efetivamente assistindo à afirmação
crescente do fenômeno da fragmentação do saber. É
precisamente isto que torna difícil e frequentemente vã
a procura de um sentido. E, mais dramático ainda, neste emaranhado
de dados e de fatos, em que se vive e que parece constituir a própria
trama da existência, tantos se interrogam se ainda tem sentido pôr-se
a questão do sentido. A pluralidade das teorias que se disputam
a resposta, ou os diversos modos de ver e interpretar o mundo e a vida
do homem não fazem senão agravar esta dúvida radical,
que facilmente desemboca num estado de ceticismo e indiferença
ou nas diversas expressões do nihilismo.
Em consequência disto, o espírito humano fica muitas vezes
ocupado por uma forma de pensamento ambíguo, que o leva a encerrar-se
ainda mais em si próprio, dentro dos limites da própria
imanência, sem qualquer referência ao transcendente. Privada
da questão do sentido da existência, uma filosofia incorreria
no grave perigo de relegar a razão para funções meramente
instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca da verdade.
Para estar em consonância com a palavra de Deus ocorre, antes de
mais, que a filosofia volte a encontrar a sua dimensão sapiencial
de procura do sentido último e global da vida. Esta primeira exigência,
por sinal, constitui um estímulo utilíssimo para a filosofia
se conformar com a sua própria natureza. Deste modo, ela não
será apenas aquela instância crítica decisiva que
indica, às várias partes do saber científico, o seu
fundamento e os seus limites, mas representará também a
instância última de unificação do saber e do
agir humano, levando-os a convergirem para um fim e um sentido definitivos.
Esta dimensão sapiencial é ainda mais indispensável
hoje, uma vez que o imenso crescimento do poder técnico da humanidade
requer uma renovada e viva consciência dos valores últimos.
Se viesse a faltar a estes meios técnicos a sua orientação
para um fim não meramente utilitarista, poderiam rapidamente revelar-se
desumanos e transformar-se mesmo em potenciais destrutores do gênero
humano98.
A palavra de Deus revela o fim último do homem, e dá um
sentido global à sua ação no mundo. Por isso, ela
convida a filosofia a empenhar-se na busca do fundamento natural desse
sentido, que é a religiosidade constitutiva de cada pessoa. Uma
filosofia que quisesse negar a possibilidade de um sentido último
e global, seria não apenas imprópria, mas errônea.
82. De resto, este papel sapiencial não poderia ser desempenhado
por uma filosofia que não fosse, ela própria, um autêntico
e verdadeiro saber, isto é, debruçado não só
sobre os aspectos particulares e relativos - sejam eles funcionais, formais
ou úteis - da realidade, mas sobre a verdade total e definitiva
desta, ou seja, sobre o próprio ser do objeto de conhecimento.
Daqui, uma segunda exigência: verificar a capacidade do homem chegar
ao conhecimento da verdade; mais, um conhecimento que alcance a verdade
objetiva por meio daquela "adaequatio rei et intellectus", a
que se referem os Doutores da Escolástica99. Esta exigência,
própria da fé, foi explicitamente reafirmada pelo Concílio
Vaticano II: "A inteligência, de fato, não se limita
ao domínio dos fenômenos; embora, em consequência do
pecado, esteja parcialmente obscurecida e debilitada, ela é capaz
de atingir com certeza a realidade inteligível"100.
Uma filosofia, radicalmente fenomenista ou relativista, revelar-se-ia
inadequada para ajudar no aprofundamento da riqueza contida na palavra
de Deus. De fato, a Sagrada Escritura sempre pressupõe que o homem,
mesmo quando culpável de duplicidade e mentira, é capaz
de conhecer e captar a verdade clara e simples. Nos Livros Sagrados, e
de modo particular no Novo Testamento, encontram-se textos e afirmações
de alcance propriamente ontológico. Os autores inspirados, com
efeito, quiseram formular afirmações verdadeiras, isto é,
capazes de exprimir a realidade objetiva. Não se pode dizer que
a tradição católica tenha cometido um erro, quando
entendeu alguns textos de S. João e de S. Paulo como afirmações
sobre o ser mesmo de Cristo. Ora, quando a teologia procura compreender
e explicar estas afirmações, tem necessidade do auxílio
duma filosofia que não renegue a possibilidade de um conhecimento
objetivamente verdadeiro, embora sempre passível de aperfeiçoamento.
Isto vale também para os juízos da consciência moral,
que a Sagrada Escritura supõe ser objetivamente verdadeiros101.
83. As duas exigências, já referidas, implicam uma terceira:
ocorre uma filosofia de alcance autenticamente metafísico, isto
é, capaz de transcender os dados empíricos para chegar,
na sua busca da verdade, a algo de absoluto, definitivo, básico.
Trata-se duma exigência implícita tanto no conhecimento de
tipo sapiencial, como de caráter analítico; de modo particular,
é uma exigência própria do conhecimento do bem moral,
cujo fundamento último é o sumo Bem, o próprio Deus.
Não é minha intenção falar aqui da metafísica
enquanto escola específica ou particular corrente histórica;
desejo somente afirmar que a realidade e a verdade transcendem o elemento
factível e empírico, e quero reivindicar a capacidade que
o homem possui de conhecer esta dimensão transcendente e metafísica
de forma verdadeira e certa, mesmo se imperfeita e analógica. Neste
sentido, a metafísica não deve ser vista como alternativa
à antropologia, pois é precisamente ela que permite dar
fundamento ao conceito da dignidade da pessoa, assente na sua condição
espiritual. De modo particular, a pessoa constitui um âmbito privilegiado
para o encontro com o ser e, consequentemente, com a reflexão metafísica.
Em toda a parte onde o homem descobre a presença dum apelo ao absoluto
e ao transcendente, lá se abre uma fresta para a dimensão
metafísica do real: na verdade, na beleza, nos valores morais,
na pessoa do outro, no ser, em Deus. Um grande desafio, que nos espera
no final deste milênio, é saber realizar a passagem, tão
necessária como urgente, do fenômeno ao fundamento. Não
é possível deter-se simplesmente na experiência; mesmo
quando esta exprime e manifesta a interioridade do homem e a sua espiritualidade,
é necessário que a reflexão especulativa alcance
a substância espiritual e o fundamento que a sustenta. Portanto,
um pensamento filosófico que rejeitasse qualquer abertura metafísica,
seria radicalmente inadequado para desempenhar um papel de mediação
na compreensão da Revelação.
A palavra de Deus alude continuamente a realidades que ultrapassam a experiência
e até mesmo o pensamento do homem; mas, este "mistério"
não poderia ser revelado, nem a teologia poderia de modo algum
torná-lo inteligível102, se o conhecimento humano se limitasse
exclusivamente ao mundo da experiência sensível. Por isso,
a metafísica constitui uma intermediária privilegiada na
pesquisa teológica. Uma teologia, privada do horizonte metafísico,
não conseguiria chegar além da análise da experiência
religiosa, não permitindo ao "intellectus fidei" exprimir
coerentemente o valor universal e transcendente da verdade revelada.
Se insisto tanto na componente metafísica, é porque estou
convencido de que este é o caminho obrigatório para superar
a situação de crise que aflige atualmente grandes setores
da filosofia e, desta forma, corrigir alguns comportamentos errados, difusos
na nossa sociedade.
84. A importância da instância metafísica torna-se
ainda mais evidente, quando se considera o progresso atual das ciências
hermenêuticas e das diferentes análises da linguagem. Os
resultados alcançados por estes estudos podem ser muito úteis
para a compreensão da fé, enquanto manifestam a estrutura
do nosso pensar e falar, e o sentido presente na linguagem. Existem, porém,
especialistas destas ciências que tendem, nas suas pesquisas, a
deter-se no modo como se compreende e exprime a realidade, prescindindo
de verificar a possibilidade de a razão descobrir a essência
da mesma. Como não individualizar neste comportamento uma confirmação
da crise de confiança, que a nossa época está a atravessar,
acerca das capacidades da razão? Além disso, quando estas
teses, baseando-se em convicções apriorísticas, tendem
a ofuscar os conteúdos da fé ou a negar a sua validade universal,
então não só humilham a razão, mas colocam-se
por si mesmas fora de jogo. De fato, a fé pressupõe claramente
que a linguagem humana seja capaz de exprimir de modo universal - embora
em termos analógicos, mas nem por isso menos significativos - a
realidade divina e transcendente103. Se assim não fosse, a palavra
de Deus, que é sempre palavra divina em linguagem humana, não
seria capaz de exprimir nada sobre Deus. A interpretação
desta Palavra não pode remeter-nos apenas de uma interpretação
para outra, sem nunca nos fazer chegar a uma afirmação absolutamente
verdadeira; caso contrário, não haveria revelação
de Deus, mas só a expressão de noções humanas
sobre Ele e sobre aquilo que presumivelmente Ele pensa de nós.
85. Bem sei que, aos olhos de muitos dos que atualmente se entregam à
pesquisa filosófica, podem parecer árduas estas exigências
postas pela palavra de Deus à filosofia. Por isso mesmo, retomando
aquilo que, já há algumas gerações, os Sumos
Pontífices não cessam de ensinar e que o próprio
Concílio Vaticano II confirmou, quero exprimir vigorosamente a
convicção de que o homem é capaz de alcançar
uma visão unitária e orgânica do saber. Esta é
uma das tarefas que o pensamento cristão deverá assumir
durante o próximo milênio da era cristã. A subdivisão
do saber, enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a
consequente fragmentação do seu sentido, impede a unidade
interior do homem de hoje. Como poderia a Igreja deixar de preocupar-se?
Os Pastores recebem esta função sapiencial diretamente do
Evangelho, e não podem eximir-se do dever de concretizá-la.
Considero que todos os que atualmente desejam responder, como filósofos,
às exigências que a palavra de Deus põe ao pensamento
humano, deveriam elaborar o seu raciocínio sobre a base destes
postulados, numa coerente continuidade com aquela grande tradição
que, partindo dos antigos, passa pelos Padres da Igreja e os mestres da
escolástica até chegar a englobar as conquistas fundamentais
do pensamento moderno e contemporâneo. Se conseguir recorrer a esta
tradição e inspirar-se nela, o filósofo não
deixará de se mostrar fiel à exigência de autonomia
do pensamento filosófico.
Neste sentido, é muito importante que, no contexto atual, alguns
filósofos se façam promotores da descoberta do papel determinante
que tem a tradição para uma forma correta de conhecimento.
De fato, o recurso à tradição não é
uma mera lembrança do passado; mas constitui sobretudo o reconhecimento
dum patrimônio cultural que pertence a toda a humanidade. Poder-se-ia
mesmo dizer que somos nós que pertencemos à tradição,
e por isso não podemos dispor dela a nosso bel-prazer. É
precisamente este enraizamento na tradição que hoje nos
permite poder exprimir um pensamento original, novo e aberto para o futuro.
Esta observação é ainda mais pertinente para a teologia,
não só porque ela possui a Tradição viva da
Igreja como fonte originária104, mas também porque ela,
em virtude disso mesmo, deve ser capaz de recuperar quer a profunda tradição
teológica que marcou as épocas precedentes, quer a tradição
perene daquela filosofia que, pela sua real sabedoria, conseguiu superar
as fronteiras do espaço e do tempo.
86. A insistência sobre a necessidade duma estreita relação
de continuidade entre a reflexão filosófica atual e a reflexão
elaborada na tradição cristã visa prevenir do perigo
que se esconde em algumas correntes de pensamento, hoje particularmente
difusas. Embora brevemente, considero oportuno deter-me sobre elas, para
pôr em relevo os seus erros e consequentes riscos para a atividade
filosófica.
A primeira aparece sob o nome de ecletismo, termo com o qual se designa
o comportamento de quem, na pesquisa, na doutrina e na argumentação,
mesmo teológica, costuma assumir idéias tomadas isoladamente
de distintas filosofias, sem se preocupar com a sua coerência e
conexão sistemática, nem com o seu contexto histórico.
Deste modo, a pessoa fica impossibilitada de discernir entre a parte de
verdade de um pensamento e aquilo que nele pode ser errado ou inadequado.
Também é possível individualizar uma forma extrema
de ecletismo no abuso retórico dos termos filosóficos, às
vezes praticado por alguns teólogos. Este gênero de instrumentalização
não favorece a busca da verdade, nem educa a razão - tanto
teológica, como filosófica - a argumentar de forma séria
e científica. O estudo rigoroso e profundo das doutrinas filosóficas,
da linguagem que lhes é peculiar, e do contexto onde surgiram,
ajuda a superar os riscos do ecletismo e permite uma adequada integração
daquelas na argumentação teológica.
87. O ecletismo é um erro de método, mas poderia também
ocultar em si as teses próprias do historicismo. Para compreender
corretamente uma doutrina do passado, é necessário que esteja
inserida no seu contexto histórico e cultural. Diversamente, o
historicismo toma como sua tese fundamental estabelecer a verdade duma
filosofia com base na sua adequação a um determinado período
e função histórica. Deste modo nega-se, pelo menos
implicitamente, a validade perene da verdade. O que era verdade numa época,
afirma o historicista, pode já não sê-lo em outra.
Em resumo, a história do pensamento, para ele, reduz-se a uma espécie
de achado arqueológico, a que recorre a fim de pôr em evidência
posições do passado, em grande parte já superadas
e sem significado para o tempo presente. Ora, apesar de a formulação
estar de certo modo ligada ao tempo e à cultura, deve-se considerar
que a verdade ou o erro nela expressos podem ser, não obstante
a distância espaço-temporal, reconhecidos e avaliados como
tais.
Na reflexão teológica, o historicismo tende a maior parte
das vezes a apresentar-se sob uma forma de "modernismo". Com
a justa preocupação de tornar o discurso teológico
atual e assimilável para o homem contemporâneo, faz-se apenas
uso das asserções e termos filosóficos mais recentes,
descuidando exigências críticas que, à luz da tradição,
dever-se-iam eventualmente colocar. Esta forma de modernismo, pelo simples
fato de trocar a atualidade pela verdade, revela-se incapaz de satisfazer
as exigências de verdade a que a teologia é chamada a dar
resposta.
88. Outro perigo a ser considerado é o cientificismo. Esta concepção
filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de
conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências
positivas, relegando para o âmbito da pura imaginação
tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético
e estético. No passado, a mesma idéia aparecia expressa
no positivismo e no neopositivismo, que consideravam destituídas
de sentido as afirmações de caráter metafísico.
A crítica epistemológica desacreditou esta posição;
mas, vemo-las agora renascer sob as novas vestes do cientificismo. Na
sua perspectiva, os valores são reduzidos a simples produtos da
emotividade, e a noção de ser é posta de lado para
dar lugar ao fato puro e simples. A ciência, prepara-se assim para
dominar todos os aspectos da existência humana, através do
progresso tecnológico. Os sucessos inegáveis no âmbito
da pesquisa científica e da tecnologia contemporânea contribuíram
para a difusão da mentalidade cientificista, que parece não
conhecer fronteiras, quando vemos como penetrou nas diversas culturas
e as mudanças radicais que aí provocou.
Infelizmente, deve-se constatar que o cientificismo considera tudo o que
se refere à questão do sentido da vida como fazendo parte
do domínio do irracional ou da fantasia. Ainda mais decepcionante
é a perspectiva apresentada por esta corrente de pensamento a respeito
dos outros grandes problemas da filosofia que, quando não passam
simplesmente ignorados, são analisados com base em analogias superficiais,
destituídas de fundamentação racional. Isto leva
ao empobrecimento da reflexão humana, subtraindo-lhe aqueles problemas
fundamentais que o animal "rationale" se tem colocado constantemente,
desde o início da sua existência sobre a terra. Na mesma
linha, ao pôr de lado a crítica que nasce da avaliação
ética, a mentalidade cientificista conseguiu fazer com que muitos
aceitassem a idéia de que aquilo que se pode realizar tecnicamente,
torna-se por isso mesmo também moralmente admissível.
89. Portador de perigos não menores é o pragmatismo, atitude
mental própria de quem, ao fazer as suas opções,
exclui o recurso a reflexões abstratas ou a avaliações
fundadas sobre princípios éticos. As consequências
práticas, que derivam desta linha de pensamento, são notáveis.
De modo particular, tem vindo a ganhar terreno uma concepção
da democracia que não contempla o referimento a fundamentos de
ordem axiológica e, por isso mesmo, imutáveis: a admissibilidade,
ou não, de determinado comportamento é decidida com base
no voto da maioria parlamentar105. A consequência de semelhante
posição é clara: as grandes decisões morais
do homem ficam efetivamente subordinadas às deliberações
que os órgãos institucionais vão assumindo pouco
a pouco. Mais, a própria antropologia fica fortemente condicionada
com a proposta de uma visão unidimensional do ser humano, da qual
se excluem os grandes dilemas éticos e as análises existenciais
sobre o sentido do sofrimento e do sacrifício, da vida e da morte.
90. As teses examinadas até aqui conduzem, por sua vez, a uma concepção
mais geral, que parece constituir, hoje, o horizonte comum de muitas filosofias
que não querem saber do sentido do ser. Estou a referir-me à
leitura nihilista, que é a rejeição de qualquer fundamento
e simultaneamente a negação de toda a verdade objetiva.
O nihilismo, antes mesmo de estar em contraste com as exigências
e os conteúdos próprios da palavra de Deus, é negação
da humanidade do homem e também da sua identidade. De fato, é
preciso ter em conta que o olvido do ser implica inevitavelmente a perda
de contato com a verdade objetiva e, consequentemente, com o fundamento
sobre o qual se apoia a dignidade do homem. Deste modo, abre-se espaço
à possibilidade de apagar, da face do homem, os traços que
revelam a sua semelhança com Deus, conduzindo-o progressivamente
a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero da solidão.
Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão
pretender torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham
juntas, ou juntas miseravelmente perecem106.
91. Ao comentar as correntes de pensamento acima lembradas, não
foi minha intenção apresentar um quadro completo da situação
atual da filosofia: aliás, esta dificilmente poderia ser integrada
numa visão unitária. Faço questão de assinalar
que a herança do saber e da sabedoria se enriqueceu efetivamente
em diversos campos. Basta citar a lógica, a filosofia da linguagem,
a epistemologia, a filosofia da natureza, a antropologia, a análise
profunda das vias afetivas do conhecimento, a perspectiva existencial
aplicada à análise da liberdade. Por outro lado, a afirmação
do princípio de imanência, que está no âmago
da pretensão racionalista, suscitou, a partir do século
passado, reações que levaram a pôr radicalmente em
questão postulados considerados indiscutíveis. Nasceram
assim correntes irracionalistas, ao mesmo tempo que a crítica punha
em evidência a inutilidade da exigência de auto-fundamentação
absoluta da razão.
A nossa época foi definida por certos pensadores como a época
da "pós-modernidade". Este termo, não raramente
usado em contextos muito distanciados entre si, designa a aparição
de um conjunto de fatores novos, que, pela sua extensão e eficácia,
se revelaram capazes de determinar mudanças significativas e duradouras.
Assim, o termo foi primeiramente usado no campo de fenômenos de
ordem estética, social, tecnológica. Depois, estendeu-se
ao âmbito filosófico, permanecendo, porém, marcado
por certa ambiguidade, quer porque a avaliação do que se
define como "pós-moderno" é umas vezes positivo
e outras negativo, quer porque não existe consenso sobre o delicado
problema da delimitação das várias épocas
históricas. Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de
pensamento que fazem referência à pós-modernidade
merecem adequada atenção. Segundo algumas delas, de fato,
o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria
finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido,
sob o signo do provisório e do efêmero. Muitos autores, na
sua crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as devidas
distinções, contestam inclusive as certezas da fé.
De algum modo, este nihilismo encontra confirmação na terrível
experiência do mal que caracterizou a nossa época. O otimismo
racionalista que via na história o avanço vitorioso da razão,
fonte de felicidade e de liberdade, não pôde resistir face
à dramaticidade de tal experiência, a ponto de uma das maiores
ameaças, neste final de século, ser a tentação
do desespero.
Verdade é que uma certa mentalidade positivista continua a defender
a ilusão de que, graças às conquistas científicas
e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar
por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino.
2. Tarefas atuais da teologia
92. Enquanto compreensão da Revelação, a teologia,
nas sucessivas épocas históricas, sempre sentiu como próprio
dever escutar as solicitações das várias culturas,
para permeá-las depois, através duma coerente conceitualização,
com o conteúdo da fé. Também hoje lhe compete uma
dupla tarefa. Por um lado, deve cumprir a missão que o Concílio
Vaticano II lhe confiou: renovar as suas metodologias, tendo em vista
um serviço mais eficaz à evangelização. Nesta
perspectiva, como não pensar às palavras pronunciadas pelo
Sumo Pontífice João XXIII, na abertura do Concílio?
Dizia ele: "Correspondendo à viva expectativa de quantos amam
sinceramente a religião cristã, católica e apostólica,
é necessário que esta doutrina seja conhecida mais ampla
e profundamente e que nela sejam instruídas e formadas mais plenamente
as consciências; é preciso que esta doutrina certa e imutável,
que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada segundo
as exigências do nosso tempo"107.
Mas, por outro lado, a teologia deve manter o olhar fixo sobre a verdade
última que lhe foi confiada por meio da Revelação,
não se contentando nem se detendo em etapas intermédias.
O teólogo recorde-se de que o seu trabalho corresponde "ao
dinamismo interior próprio da fé" e que o objeto específico
da sua indagação é "a Verdade, o Deus vivo e
o seu desígnio de salvação revelado em Jesus Cristo"108.
Esta tarefa, que diz respeito em primeiro lugar à teologia, interpela
também a filosofia. De fato, a quantidade imensa de problemas,
que hoje aparece, requer um trabalho comum, embora desenvolvido com metodologias
diversas, para que a verdade possa novamente ser conhecida e anunciada.
A Verdade, que é Cristo, impõe-se como autoridade universal
que rege, estimula e faz crescer (cf. Ef 4,15) tanto a teologia como a
filosofia.
O fato de acreditar na possibilidade de se conhecer uma verdade universalmente
válida não é de forma alguma fonte de intolerância;
pelo contrário, é condição necessária
para um diálogo sincero e autêntico entre as pessoas. Só
com esta condição será possível superar as
divisões e percorrer juntos o caminho que conduz à verdade
total, seguindo por sendas que só Espírito do Senhor ressuscitado
conhece109. O modo como se configura hoje concretamente a exigência
de unidade, tendo em vista as tarefas atuais da teologia, é o que
desejo agora indicar.
93. O objetivo fundamental, que a teologia persegue, é apresentar
a compreensão da Revelação e o conteúdo da
fé. Assim, o verdadeiro centro da sua reflexão há
de ser a contemplação do próprio mistério
de Deus Uno e Trino. E a este chega-se refletindo sobre o mistério
da encarnação do Filho de Deus: sobre o fato de Ele Se fazer
homem e, depois, caminhar até à paixão e à
morte, mistério este que desembocará na sua gloriosa ressurreição
e ascensão à direita do Pai, donde enviará o Espírito
de verdade para constituir e animar a sua Igreja. Neste horizonte, a obrigação
primeira da teologia é a compreensão da "kenosi"
de Deus, mistério verdadeiramente grande para a mente humana, porque
lhe parece insustentável que o sofrimento e a morte possam exprimir
o amor que se dá sem pedir nada em troca. Nesta perspectiva, impõe-se
como exigência fundamental e urgente uma análise atenta dos
textos: os textos bíblicos primeiro, e depois os que exprimem a
Tradição viva da Igreja. A este respeito, surgem hoje alguns
problemas, novos só em parte, cuja solução coerente
não poderá ser encontrada sem o contributo da filosofia.
94. Um primeiro aspecto problemático refere-se à relação
entre o significado e a verdade. Como qualquer outro texto, também
as fontes que o teólogo interpreta transmitem, antes de mais, um
significado, que tem de ser individualizado e exposto. Ora, este significado
apresenta-se como a verdade acerca de Deus, que é comunicada pelo
próprio Deus por meio do texto sagrado. Assim, a linguagem de Deus
toma corpo na linguagem humana, comunicando a verdade sobre Ele mesmo
com aquela "condescendência" admirável que reflete
a lógica da Encarnação110 Por isso, ao interpretar
as fontes da Revelação, é necessário que o
teólogo se interrogue sobre qual seja a verdade profunda e genuína
que os textos querem comunicar, embora dentro dos limites da linguagem.
Quanto aos textos bíblicos, e em particular os Evangelhos, a sua
verdade não se reduz seguramente à narração
de simples acontecimentos históricos ou à revelação
de fatos neutros, como pretendia o positivismo historicista111. Pelo contrário,
esses textos expõem acontecimentos, cuja verdade está para
além da mera ocorrência histórica: está no
seu significado para e dentro da história da salvação.
Esta verdade adquire a sua plena explicitação na leitura
perene que a Igreja faz dos referidos textos ao longo dos séculos,
mantendo inalterado o seu significado originário. Portanto, é
urgente que se interroguem, filosoficamente também, sobre a relação
que há entre o fato e o seu significado; relação
essa que constitui o sentido específico da história.
95. A palavra de Deus não se destina apenas a um povo ou só
a uma época. De igual modo, também os enunciados dogmáticos
formulam uma verdade permanente e definitiva, ainda que às vezes
se possa notar neles a cultura do período em que foram definidos.
Surge, assim, a pergunta sobre como seja possível conciliar o caráter
absoluto e universal da verdade com o inevitável condicionamento
histórico e cultural das fórmulas que a exprimem. Como disse
anteriormente, as teses do historicismo não são defendíveis.
Pelo contrário, a aplicação de uma hermenêutica
aberta à questão metafísica é capaz de mostrar
como se passa das circunstâncias históricas e contingentes,
onde maturaram os textos, à verdade por eles expressa que está
para além desses condicionalismos.
Com a sua linguagem histórica e limitada, o homem pode exprimir
verdades que transcendem o fenômeno linguístico. De fato,
a verdade nunca pode estar limitada a um tempo, nem a uma cultura; é
conhecida na história, mas supera a própria história.
96. Esta consideração permite vislumbrar a solução
de outro problema: o da perene validade dos conceitos usados nas definições
conciliares. Já o meu venerado Predecessor Pio XII enfrentara a
questão, na carta encíclica "Humani Generis"112.
A reflexão sobre este assunto não é fácil,
porque tem-se de atender cuidadosamente ao sentido que as palavras adquirem
nas diversas culturas e nas diferentes épocas. Entretanto, a história
do pensamento mostra que certos conceitos básicos mantêm,
através da evolução e da variedade das culturas,
o seu valor cognoscitivo universal e, consequentemente, a verdade das
proposições que os exprimem113. Se assim não fosse,
a filosofia e as ciências não poderiam comunicar entre si,
nem ser recebidas por culturas diferentes daquelas onde foram pensadas
e elaboradas. O problema hermenêutico é real, mas tem solução.
O valor objetivo de muitos conceitos não exclui, aliás,
que o seu significado frequentemente seja imperfeito. A reflexão
filosófica poderia ser de grande ajuda neste campo. Possa ela prestar
o seu contributo particular no aprofundamento da relação
entre linguagem conceitual e verdade, e na proposta de caminhos adequados
para uma sua correta compreensão.
97. Se uma tarefa importante da teologia é a interpretação
das fontes, mais delicado e exigente ainda é o trabalho seguinte:
a compreensão da verdade revelada, ou seja, a elaboração
do "intellectus fidei". Como já aludi, o "intellectus
fidei" requer o contributo duma filosofia do ser que, antes de mais,
permita à teologia dogmática realizar adequadamente as suas
funções. O pragmatismo dogmático dos inícios
deste século, segundo o qual as verdades da fé nada mais
seriam do que regras de comportamento, foi já refutado e rejeitado114;
apesar disso, persiste sempre a tentação de compreender
estas verdades de forma puramente funcional. Neste caso, cair-se-ia num
esquema inadequado, redutivo e desprovido da necessária incisividade
especulativa. Por exemplo, uma cristologia que partisse unilateralmente
"de baixo", como hoje se costuma dizer, ou uma eclesiologia
elaborada unicamente a partir do modelo das sociedades civis dificilmente
poderiam evitar o perigo de tal reducionismo.
Se o "intellectus fidei" quer integrar toda a riqueza da tradição
teológica, tem de recorrer à filosofia do ser. Esta deverá
ser capaz de propor o problema do ser segundo as exigências e as
contribuições de toda a tradição filosófica,
incluindo a mais recente, evitando cair em estéreis repetições
de esquemas antiquados. No quadro da tradição metafísica
cristã, a filosofia do ser é uma filosofia dinâmica
que vê a realidade nas suas estruturas ontológicas, causais
e inter-relacionais. A sua força e perenidade derivam do fato de
se basear precisamente sobre o ato do ser, o que lhe permite uma abertura
plena e global a toda a realidade, superando todo e qualquer limite até
alcançar Aquele que tudo leva à perfeição115.
Na teologia, que recebe os seus princípios da Revelação
como nova fonte de conhecimento, esta perspectiva é confirmada
através da relação íntima entre fé
e racionalidade metafísica.
98. Idênticas considerações podem ser feitas a propósito
da teologia moral. A recuperação da filosofia é urgente
também para a compreensão da fé que diz respeito
ao agir dos crentes. Diante dos desafios que se levantam atualmente no
campo social, econômico, político e científico, a
consciência ética do homem desorientou-se. Na carta encíclica
"Veritatis Splendor", pus em evidência que muitos problemas
do mundo contemporâneo derivam de uma "crise em torno da verdade.
Perdida a idéia duma verdade universal sobre o bem, cognoscível
pela razão humana, mudou também inevitavelmente a concepção
de consciência: esta deixa de ser considerada na sua realidade original,
ou seja, como um ato da inteligência da pessoa, a quem cabe aplicar
o conhecimento universal do bem a uma determinada situação
e exprimir assim um juízo sobre a conduta justa a ter aqui e agora;
tende-se a conceder à consciência do indivíduo o privilégio
de estabelecer autonomamente os critérios do bem e do mal, e de
agir em consequência. Esta visão identifica-se com uma ética
individualista, na qual cada um se vê confrontado com a sua verdade,
diferente da verdade dos outros"116.
Ao longo de toda a encíclica agora citada, sublinhei claramente
o papel fundamental que compete à verdade no campo da moral. Ora
esta verdade, na maior parte dos problemas éticos mais urgentes,
requer, da teologia moral, uma cuidadosa reflexão que saiba pôr
em evidência as suas raízes na palavra de Deus. Para poder
desempenhar esta sua missão, a teologia moral deve recorrer a uma
ética filosófica que tenha em vista a verdade do bem, isto
é, uma ética que não seja subjetivista nem utilitarista.
Tal ética implica e pressupõe uma antropologia filosófica
e uma metafísica do bem. A teologia moral, valendo-se desta visão
unitária que está necessariamente ligada à santidade
cristã e à prática das virtudes humanas e sobrenaturais,
será capaz de enfrentar os vários problemas que lhe dizem
respeito - tais como a paz, a justiça social, a família,
a defesa da vida e do ambiente natural - de forma mais adequada e eficaz.
99. Na Igreja, o trabalho teológico está, primariamente,
ao serviço do anúncio da fé e da catequese117. O
anúncio, ou querigma, chama à conversão, propondo
a verdade de Cristo que tem o seu ponto culminante no Mistério
Pascal: na verdade, só em Cristo é possível conhecer
a plenitude da verdade que salva (cf. At 4,12; 1Tim 2,4-6).
Neste contexto, é fácil compreender a razão por que,
além da teologia, assuma também grande relevo a referência
à catequese: é que esta possui implicações
filosóficas que têm de ser aprofundadas à luz da fé.
A doutrina ensinada na catequese pretende formar a pessoa. Por isso a
catequese, que é também comunicação linguística,
deve apresentar a doutrina da Igreja na sua integridade118 mostrando a
ligação que ela tem com a vida dos crentes119. Realiza-se,
assim, uma singular união entre doutrina e vida, que é impossível
conseguir de outro modo. De fato, aquilo que se comunica na catequese
não é um corpo de verdades conceituais, mas o mistério
do Deus vivo120.
A reflexão filosófica muito pode contribuir para esclarecer
a relação entre verdade e vida, entre acontecimento e verdade
doutrinal, e sobretudo a relação entre verdade transcendente
e linguagem humanamente inteligível121. A reciprocidade que se
cria entre as disciplinas teológicas e os resultados alcançados
pelas diversas correntes filosóficas, pode traduzir-se numa real
fecundidade para a comunicação da fé e para uma sua
compreensão mais profunda.
Conclusão
100. Passados mais de cem anos da publicação da encíclica
"Aeterni Patris" de Leão XIII, à qual me referi
várias vezes nestas páginas, pareceu-me necessário
abordar novamente e de forma mais sistemática o discurso sobre
o tema da relação entre a fé e a filosofia. É
óbvia a importância que o pensamento filosófico tem
no progresso das culturas e na orientação dos comportamentos
pessoais e sociais. Embora isso nem sempre se note de forma explícita,
ele exerce também uma grande influência sobre a teologia
e suas diversas disciplinas. Por estes motivos, considerei justo e necessário
sublinhar o valor que a filosofia tem para a compreensão da fé,
e as limitações em que aquela se vê, quando esquece
ou rejeita as verdades da Revelação. De fato, a Igreja continua
profundamente convencida de que fé e razão "se ajudam
mutuamente" 122, exercendo, uma em prol da outra, a função
tanto de discernimento crítico e purificador, como de estímulo
para progredir na investigação e no aprofundamento.
101. Se detivermos o nosso olhar sobre a história do pensamento,
sobretudo no Ocidente, é fácil constatar a riqueza que sobreveio,
para o progresso da humanidade, do encontro da filosofia com a teologia
e do intercâmbio das suas respectivas conquistas. A teologia, que
recebeu o dom de uma abertura e originalidade que lhe permite existir
como ciência da fé, fez seguramente com que a razão
permanecesse aberta diante da novidade radical que a revelação
de Deus traz consigo. E isto foi, sem dúvida alguma, uma vantagem
para a filosofia, que, assim, viu abrirem-se novos horizontes apontando
para sucessivos significados que a razão está chamada a
aprofundar.
Precisamente à luz desta constatação, tal como reafirmei
o dever que tem a teologia de recuperar a sua genuína relação
com a filosofia, da mesma forma sinto a obrigação de sublinhar
que é conveniente para o bem e o progresso do pensamento que também
a filosofia recupere a sua relação com a teologia. Nesta,
encontrará não a reflexão de um mero indivíduo,
que, embora profunda e rica, sempre traz consigo as limitações
de perspectiva próprias do pensamento de um só, mas a riqueza
duma reflexão comum. De fato, quando indaga sobre a verdade, a
teologia, por sua natureza, é sustentada pela nota da eclesialidade123
e pela tradição do Povo de Deus, com sua riqueza multiforme
de conhecimentos e de culturas na unidade da fé.
102. Com tal insistência sobre a importância e as autênticas
dimensões do pensamento filosófico, a Igreja promove a defesa
da dignidade humana e, simultaneamente, o anúncio da mensagem evangélica.
Ora, para estas tarefas, não existe, hoje, preparação
mais urgente do que esta: levar os homens à descoberta da sua capacidade
de conhecer a verdade124 e do seu anseio pelo sentido último e
definitivo da existência. À luz destas exigências profundas,
inscritas por Deus na natureza humana, aparece mais claro também
o significado humano e humanizante da palavra de Deus. Graças à
mediação de uma filosofia que se tornou também verdadeira
sabedoria, o homem contemporâneo chegará a reconhecer que
será tanto mais homem quanto mais se abrir a Cristo, acreditando
no Evangelho.
103. Além disso, a filosofia é como que o espelho onde se
reflete a cultura dos povos. Uma filosofia que se desenvolve de harmonia
com a fé aceitando o estímulo das exigências teológicas,
faz parte daquela "evangelização da cultura" que
Paulo VI propôs como um dos objetivos fundamentais da evangelização125.
Pensando na nova evangelização, cuja urgência não
me canso de recordar, faço apelo aos filósofos para que
saibam aprofundar aquelas dimensões de verdade, bem e beleza, a
que dá acesso a palavra de Deus. Isto torna-se ainda mais wente,
ao considerar os desafios que o novo milênio parece trazer consigo:
eles tocam de modo particular as regiões e as culturas de antiga
tradição cristã. Este cuidado deve considerar-se
também um contributo fundamental e original para o avanço
da nova evangelização.
1Ð104. O pensamento filosófico é frequentemente o único
terreno comum de entendimento e diálogo com quem não partilha
a nossa fé. O movimento filosófico contemporâneo exige
o empenhamento solícito e competente de filósofos crentes
que sejam capazes de individuar as expectativas, possibilidades e problemáticas
deste momento histórico. Discorrendo à luz da razão
e segundo as suas regras, o filósofo cristão, sempre guiado
naturalmente pela leitura superior que lhe vem da palavra de Deus, pode
criar uma reflexão que seja compreensível e sensata mesmo
para quem ainda não possua a verdade plena que a revelação
divina manifesta. Este terreno comum de entendimento e diálogo
é ainda mais importante hoje, se se pensa que os problemas mais
urgentes da humanidade - como, por exemplo, o problema ecológico,
o problema da paz ou da convivência das raças e das culturas
- podem ter solução à luz duma colaboração
clara e honesta dos cristãos com os fiéis doutras religiões
e com todos os que, mesmo não aderindo a qualquer crença
religiosa, têm a peito a renovação da humanidade.
Afirmou-o o Concílio Vaticano II: "Por nossa parte, o desejo
de um tal diálogo, guiado apenas pelo amor pela verdade e com a
necessária prudência, não exclui ninguém: nem
aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda
conhecerem o seu Autor, nem aqueles que se opõem à Igreja
e, de várias maneiras, a perseguem"126. Uma filosofia, na
qual já resplandeça algo da verdade de Cristo, única
resposta definitiva aos problemas do homem127, será um apoio eficaz
para aquela ética verdadeira e simultaneamente universal de que,
hoje, a humanidade tem necessidade.
105. Não posso concluir esta carta encíclica sem dirigir
um último apelo, em primeiro lugar aos teólogos, para que
prestem particular atenção às implicações
filosóficas da palavra de Deus e realizem uma reflexão onde
sobressaia a densidade especulativa e prática da ciência
teológica. Desejo agradecer-lhes o seu serviço eclesial.
A estrita conexão entre a sabedoria teológica e o saber
filosófico é uma das riquezas mais originais da tradição
cristã no aprofundamento da verdade revelada. Por isso, exorto-os
a recuperarem e a porem em evidência o melhor possível a
dimensão metafísica da verdade, para desse modo entrarem
num diálogo crítico e exigente quer com o pensamento filosófico
contemporâneo, quer com toda a tradição filosófica,
esteja esta em sintonia ou em contradição com a palavra
de Deus. Tenham sempre presente a indicação de um grande
mestre do pensamento e da espiritualidade, S. Boaventura, que, ao introduzir
o leitor na sua obra "Itinerarium mentis in Deum", convidava-o
a ter consciência de que "a leitura não é suficiente
sem a compunção, o conhecimento sem a devoção,
a investigação sem o arrebatamento do enlevo, a prudência
sem a capacidade de abandonar-se à alegria, a atividade separada
da religiosidade, o saber separado da caridade, a inteligência sem
a humildade, o estudo sem o suporte da graça divina, a reflexão
sem a sabedoria inspirada por Deus"128.
Dirijo o meu apelo também a quantos têm a responsabilidade
da formação sacerdotal, tanto acadêmica como pastoral,
para que cuidem, com particular atenção, da preparação
filosófica daquele que deverá anunciar o Evangelho ao homem
de hoje, e mais ainda se se vai dedicar à investigação
e ao ensino da teologia. Procurem organizar o seu trabalho à luz
das prescrições do Concílio Vaticano II129 e sucessivas
determinações, que mostram a tarefa indeclinável
e urgente, que cabe a todos nós, de contribuir para uma genuína
e profunda comunicação das verdades da fé. Não
se esqueça a grave responsabilidade de uma preparação
prévia e condigna do corpo docente, destinado ao ensino da filosofia
nos Seminários e nas Faculdades Eclesiásticas130. É
necessário que uma tal docência possua a conveniente preparação
científica, proponha de maneira sistemática o grande patrimônio
da tradição cristã, e seja efetuada com o devido
discernimento face às exigências atuais da Igreja e do mundo.
106. O meu apelo dirige-se ainda aos filósofos e a quantos ensinam
a filosofia, para que, na esteira duma tradição filosófica
perenemente válida, tenham a coragem de recuperar as dimensões
de autêntica sabedoria e de verdade, inclusive metafísica,
do pensamento filosófico. Deixem-se interpelar pelas exigências
que nascem da palavra de Deus, e tenham a força de elaborar o seu
discurso racional e argumentativo de resposta a tal interpelação.
Vivam em permanente tensão para a verdade e atentos ao bem que
existe em tudo o que é verdadeiro. Poderão, assim, formular
aquela ética genuína de que a humanidade tem urgente necessidade,
sobretudo nestes anos. A Igreja acompanha com atenção e
simpatia as suas investigações; podem, pois, estar seguros
do respeito que ela nutre pela justa autonomia da sua ciência. De
modo particular, quero encorajar os crentes empenhados no campo da filosofia
para que iluminem os diversos âmbitos da atividade humana, graças
ao exercício de uma razão que se torna mais segura e perspicaz
com o apoio que recebe da fé.
Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra também aos
cientistas, que nos proporcionam, com as suas pesquisas, um conhecimento
sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica
dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas
de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado atingiu,
especialmente neste século, metas que não cessam de nos
maravilhar. Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento
a estes valorosos pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade
muito deve do seu progresso atual, sinto o dever de exortá-los
a prosseguir nos seus esforços, permanecendo sempre naquele horizonte
sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos
se unem os valores filosóficos e éticos, que são
manifestação característica e imprescindível
da pessoa humana. O cientista está bem cônscio de que "a
busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo
ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está
acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem
o acesso ao Mistério"131.
107. A todos peço para se debruçarem profundamente sobre
o homem, que Cristo salvou no mistério do seu amor, e sobre a sua
busca constante de verdade e de sentido. Iludindo-o, vários sistemas
filosóficos convenceram-no de que ele é senhor absoluto
de si mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o seu destino e o seu
futuro, confiando apenas em si próprio e nas suas forças.
Ora, esta nunca poderá ser a grandeza do homem. Para a sua realização,
será determinante apenas a opção de viver na verdade,
construindo a própria casa à sombra da Sabedoria e nela
habitando. Só neste horizonte da verdade poderá compreender,
com toda a clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e ao conhecimento
de Deus como suprema realização de si mesmo.
108. Por último, o meu pensamento dirige-se para Aquela que a oração
da Igreja invoca como Sede da Sabedoria. A sua vida é uma verdadeira
parábola, capaz de iluminar a reflexão que desenvolvi. De
fato, pode-se entrever uma profunda analogia entre a vocação
da bem-aventurada Virgem Maria e a vocação da filosofia
genuína. Como a Virgem foi chamada a oferecer toda a sua humanidade
e feminilidade para que o Verbo de Deus pudesse encarnar e fazer-Se um
de nós, também a filosofia é chamada a dar o seu
contributo racional e crítico para que a teologia, enquanto compreensão
da fé, seja fecunda e eficaz. E como Maria, ao prestar o seu consentimento
ao anúncio de Gabriel, nada perdeu da sua verdadeira humanidade
e liberdade, assim também o pensamento filosófico, quando
acolhe a interpelação que recebe da verdade do Evangelho,
nada perde da sua autonomia, antes vê toda a sua indagação
elevada à mais alta realização. Os santos monges
da antiguidade cristã tinham compreendido bem esta verdade, quando
designavam Maria como "a mesa intelectual da fé"132.
N'Ela, viam a imagem coerente da verdadeira filosofia, e estavam convencidos
de que deviam "philosophari in Maria".
Que a Sede da Sabedoria seja o porto seguro para quantos consagram a sua
vida à procura da sabedoria! O caminho para a sabedoria, fim último
e autêntico de todo o verdadeiro saber, possa ver-se livre de qualquer
obstáculo por intercessão d'Aquela que, depois de gerar
a Verdade e tê-La conservado no seu coração, comunicou-A
para sempre à humanidade inteira.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 14 de Setembro - Festa da Exaltação
da Santa Cruz - de 1998, vigésimo ano de Pontificado.
  
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