|
|
|
Carta Encíclica
DOMINUM ET VIVIFICANTEM
do Sumo Pontífice João Paulo II
sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do Mundo
Veneráveis Irmãos e Amados
Filhos e Filhas: Saúde e Bênção Apostólica!
INTRODUÇÃO
1. A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n'Aquele
"que é Senhor e dá a vida". É o que ela
proclama no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano,
do nome dos dois Concílios - de Niceia (a. 325) e de Constantinopla
(a. 381) - nos quais foi formulado ou promulgado. Nele se acrescenta também
que o Espírito Santo "falou pelos Profetas".
São palavras que a Igreja recebe da própria fonte da sua
fé, Jesus Cristo. Com efeito, segundo o Evangelho de São
João, o Espírito Santo é-nos dado com a vida nova,
como Jesus anuncia e promete no dia solene da festa dos Tabernáculos:
"Quem tem sede, venha a mim; e beba quem crê em mim. Como diz
a Escritura, do seu seio fluirão rios de água viva"(1).
E o Evangelista explica: "Jesus dizia isso referindo-se ao Espírito,
que haveriam de receber os que n'Ele acreditassem"(2). É a
mesma analogia da água usada por Jesus no diálogo com a
Samaritana, quando fala de "uma nascente de água a jorrar
para a vida eterna"(3), e no colóquio com Nicodemos, quando
anuncia a necessidade de um novo nascimento "pela água e pelo
Espírito" para "entrar no Reino de Deus"(4).
A Igreja, portanto, instruída pelas palavras de Cristo, indo beber
à experiência do Pentecostes e da própria "história
apostólica", proclama desde o início a sua fé
no Espírito Santo, como n'Aquele que dá a vída, Aquele
no qual o imperscrutável Deus uno e trino se comunica aos homens,
constituindo neles a nascente da vida eterna.
2. Esta fé, professada ininterruptamente pela Igreja, precisa de
ser incessantemente reavivada e aprofundada na consciência do Povo
de Deus. Neste último século isso aconteceu por mais de
uma vez: desde Leão XIII, que publicou a Carta Encíclica
Divinum illud munus (a. 1897), inteiramente dedicada ao Espírito
Santo, a Pio XII, que na Encíclica Mystici Corporis (a. 1943) se
referiu de novo ao Espírito Santo como sendo princípio vital
da Igreja, na qual opera conjuntamente com a Cabeça do Corpo Místico,
Cristo(5), até ao Concílio Ecuménico Vaticano II,
que fez notar a necessidade de uma renovada atenção à
doutrina sobre o Espírito Santo, como acentuava o Papa Paulo VI:
"À cristologia e especialmente à eclesiologia do Concílio
deve seguir-se um estudo renovado e um culto renovado do Espírito
Santo, precisamente como complemento indispensável do ensino conciliar"(6).
Na nossa época, portanto, mais uma vez somos chamados pela fé
da Igreja, fé antiga e sempre nova, a aproximar-nos do Espírito
Santo como Aquele que dá a vida. Neste ponto, podemos contar com
a ajuda e serve-nos também de estímulo a herança
comum com as Igrejas orientais; estas preservaram cuidadosamente as riquezas
extraordinárias do ensino dos Padres sobre o Espírito Santo.
Também por isso podemos dizer que um dos mais importantes acontecimentos
eclesiais dos últimos anos foi o XVI centenário do I Concílio
de Constantinopla, celebrado contemporaneamente em Constantinopla e em
Roma na solenidade do Pentecostes de 1981. O Espírito Santo, tendo-se
meditado na altura sobre o mistério da Igreja, apareceu então
mais nitidamente como Aquele que indica os caminhos que levam à
união dos cristãos, ou melhor, como a fonte suprema desta
unidade, que provém do próprio Deus e à qual São
Paulo deu uma expressão particular, com aquelas palavras que se
usam frequentemente para dar início à Liturgia eucarística:
"A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai
e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco"(7).
Nesta exortação tiveram o seu ponto de partida e inspiração,
em certo sentido, as precedentes Encíclicas Redemptor hominis e
Dives in misericordia, as quais celebram o acontecimento da nossa salvação,
que se realizou no Filho, mandado pelo Pai ao mundo, "para que o
mundo seja salvo por seu intermédio"(8) e "toda a língua
confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus
Pai"(9). Dessa mesma exortação nasce agora a presente
Encíclica sobre o Espírito Santo, que procede do Pai e do
Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Pessoa divina,
Ele está no coração da fé cristã e
é a fonte e a força dinâmica da renovação
da Igreja(10). Ela foi haurida, ademais, das profundezas da herança
do Concílio. Os textos conciliares, efectivamente, em virtude do
seu ensino sobre a Igreja em si mesma e sobre a Igreja no mundo, estimulam-nos
a perscrutar cada vez mais o mistério trinitário do próprio
Deus, seguindo o itinerário evangélico, patrístico
e litúrgico: ao Pai - por Cristo - no Espírito Santo.
Deste modo, a Igreja responde também a certos apelos profundos,
que julga ler no coração dos homens de hoje: uma nova descoberta
de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito, como
foi apresentado por Jesus à Samaritana; a necessidade de adorá-lo
"em espírito e verdade"(11); a esperança de encontrar
nele o segredo do amor e a força de uma "nova criação"(12):
sim, precisamente Aquele que dá a vida.
A Igreja sente-se chamada para esta missão de anunciar o Espírito,
ao mesmo tempo que, juntamente com toda a família humana se aproxima
do final do segundo Milénio depois de Cristo. Tendo como cenário
um céu e uma terra que "passarão", ela sabe bem
que adquirem uma particular eloquência as "palavras que não
hão-de passar"(13), São as palavras de Cristo sobre
o Espírito Santo, fonte inexaurível da "água
a jorrar para a vida eterna"(14), como verdade e graça salvadoras.
A Igreja quer reflectir sobre estas palavras; ela deseja chamar a atenção
daqueles que crêem e de todos os homens para essas mesmas palavras,
enquanto se vai preparando para celebrar - come se dirá mais adiante
- o grande Jubileu, com que se assinalará a passagem do segundo
para o terceiro Milénio cristão.
As considerações que se seguem, naturalmente, não
pretendem perlustrar, de maneira exaustiva, toda a riquíssima doutrina
sobre o Espírito Santo, nem favorecer qualquer solução
de questões ainda em aberto. Elas têm como finalidade principal
desenvolver na Igreja aquela consciência com que ela "é
impelida pelo mesmo Espírito Santo a cooperar para que se realize
o desígnio de Deus, que constituiu Cristo princípio de salvação
para o mundo inteiro"(15).
I
O ESPÍRITO DO PAI E DO FILHO DADO À IGREJA
1. Promessa e revelação de Jesus durante a Ceia pascal
3. Quando já estava iminente para Jesus Cristo o tempo de deixar
este mundo, ele anunciou aos Apóstolos "um outro Consolador"(16).
O evangelista São João, que estava presente, escreve que,
durante a Ceia pascal no dia anterior à sua paixão e morte,
Jesus se dirigiu a eles com estas palavras: "Tudo o que pedirdes
em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho ...
Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um outro Consolador, para estar
convosco para sempre, o Espírito da verdade"(17).
É precisamente a este Espírito da verdade que Jesus chama
o Paráclito - e Parákletos quer dizer "consolador",
e também "intercessor", ou "advogado". E diz
que é "um outro" Consolador, o segundo, porque ele mesmo,
Jesus Cristo, é o primeiro Consolador(18), sendo o primeiro portador
e doador da Boa Nova. O Espírito Santo vem depois dele a graças
a ele, para continuar no mundo, mediante a Igreja, a obra da Boa Nova
da salvação. Desta continuação da sua obra
por parte do Espírito Santo, Jesus fala mais de uma vez durante
o mesmo discurso de despedida, preparando os Apóstolos, reunidos
no Cenáculo, para a sua partida, isto é, para a sua paixão
e morte na Cruz.
As palavras, a que faremos aqui referência, encontram-se no Evangelho
de São João. Cada uma delas acrescenta um certo conteúdo
novo ao anúncio e à promessa acima referidos. E, ao mesmo
tempo, elas estão encadeadas intimamente entre si, não só
pela perspectiva dos mesmos acontecimentos, mas também pela perspectiva
do mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o qual
talvez em nenhuma outra passagem da Sagrada Escritura tenha uma expressão
tão relevante como aqui.
4. Pouco depois do anúncio acima referido, Jesus acrescenta: "Mas
o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu
nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo
o que eu vos disse"(19). O Espírito Santo será o Consolador
dos Apóstolos e da Igreja, sempre presente no meio deles - ainda
que invisível - como mestre da mesma Boa Nova que Cristo anunciou.
Aquele "ensinará" ... e "recordará"
significa não só que Ele, da maneira que lhe é própria,
continuará a inspirar a divulgação do Evangelho da
salvação, mas também que ajudará a compreender
o significado exacto do conteúdo da mensagem de Cristo; que Ele
assegurará a continuidade e identidade de compreensão dessa
mensagem, no meio das condições e circunstâncias mutáveis.
Por conseguinte, o Espírito Santo fará com que perdure sempre
na Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos ouviram do seu Mestre.
5. Para transmitirem a Boa Nova da salvação, os Apóstolos
estarão associados de uma maneira particular ao Espírito
Santo. Eis como Jesus continua a falar: "Quando vier o Consolador,
que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade que
procede do Pai, ele dará testemunho de mim. E também vós
dareis testemunho de mim, porque estais comigo desde o princípio"(20).
Os Apóstolos foram as testemunhas directas, oculares. Eles "ouviram"
e "viram com os próprios olhos", "contemplaram",
e até mesmo "tocaram com as próprias mãos"
Cristo, como se exprime numa outra passagem o mesmo evangelista São
João(21). Este seu testemunho humano, ocular e "histórico"
a respeito de Cristo andará ligado ao testemunho do Espírito
Santo: "Ele dará testemunho de mim". É no testemunho
do Espírito da verdade que o testemunho humano dos Apóstolos
encontrará o seu mais forte sustentáculo. E, em seguida,
encontrará nele também o recôndito fundamento interior
da sua continuação entre as gerações dos discípulos
e dos confessores de Cristo, que se irão sucedendo ao longo dos
séculos.
Sendo o próprio Jesus Cristo a suprema e mais completa revelação
de Deus à humanidade, é o testemunho do Espírito
que inspira, garante e convalida a sua fiel transmissão na pregação
e nos escritos apostólicos(22), enquanto o testemunho dos Apóstolos
lhe proporciona a expressão humana na Igreja e na história
da humanidade.
6. Isto é posto em evidência também pela estreita
correlação de conteúdo e de intenção
com o anúncio e a promessa que acabámos de mencionar, que
se encontra nas palavras que vêm a seguir no texto de São
João: "Teria ainda muitas coisas para vos dizer, mas por agora
não estais em condições de as comprender. Quando,
porém, Ele vier, o Espírito da verdade, guiar-vos-á
para toda a verdade; porque Ele não falará por si mesmo,
mas de tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão
para vir"(23).
Com as palavras precedentes Jesus apresenta o Consolador, o Espírito
da verdade, como Aquele que "ensinará e recordará",
como Aquele que "dará testemunho" dele; agora diz: "Ele
vos guiará para toda a verdade". Este "guiar para toda
a verdade", em relação com aquilo que "os Apóstolos
por agora não estão em condições de compreender",
está necessariamente em ligação com o despojamento
de Cristo, por meio da sua paixão e morte de Cruz, que então,
quando ele pronunciava estas palavras, já estava iminente.
Mas, em seguida, torna-se bem claro que aquele "guiar para a toda
a verdade" está em ligação não apenas
com o "scandalum crucis" [o escandalo da cruz], mas também
com tudo o que Cristo "fez e ensinou"(24). Com efeito, o mysterium
Christi na sua globalidade exige a fé, porquanto é ela que
introduz o homem oportunamente na realidade do mistério revelado.
O "guiar para toda a verdade" realiza-se, pois, na fé
e mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e
é fruto da sua acção no homem. O Espírito
Santo deve ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do espírito
humano. Isto é válido para os Apóstolos, as testemunhas
oculares que devem levar doravante a todos os homens o anúncio
do que Cristo "fez e ensinou" e, especialmente, da sua Cruz
e da sua Ressurreição. Numa perspectiva mais ampla e distante
no tempo, isto é valido também para todas as gerações
dos discípulos e dos confessores do Mestre, uma vez que deverão
aceitar com fé e confessar com desassombro o mistério de
Deus operante na história do homem, o mistério revelado
que explica o sentido dessa mesma história.
7. Na economia da salvação, portanto, entre o Espírito
Santo e Cristo subsiste uma ligação íntima, em virtude
da qual o Espírito da verdade opera na história do homem
como "um outro Consolador", assegurando de modo duradouro a
transmissão e a irradiação da Boa Nova revelada por
Jesus de Nazaré. Por isso, no Espírito Santo Paráclito,
o qual continua incessantemente no mistério e na actividade da
Igreja a presença histórica do Redentor sobre a terra e
a sua obra salvífica, resplandece a glória de Cristo, como
atestam as palavras de São João que vêm a seguir:
"Ele (isto é, o Espírito) glorificar-me-á, porque
receberá do que é meu para vo-lo anunciar"(25). Com
estas palavras é confirmado, mais uma vez, tudo o que disseram
os enunciados precedentes: "ensinará ... recordará
..., dará testemunho". A suprema e completa auto-revelação
de Deus, que se realizou em Cristo - tendo dado testemunho dela a pregação
dos Apóstolos - continuará a ser manifestada na Igreja mediante
a missão do Consolador invisível, o Espírito da verdade.
Quanto esta missão (do Espírito) esteja intimamente ligada
com a missão de Cristo e quanto plenamente ela vá haurir
na mesma missão de Cristo - consolidando e desenvolvendo na história
os seus frutos salvíficos - é expresso pelo verbo "receber":
"receberá do que é meu para vo-lo anunciar". E
Jesus, como que para explicar a palavra "receber", pondo em
evidência claramente a unidade divina e trinitária da fonte,
acrescenta: "Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso eu disse
que Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar"(26).
Recebendo "do que é meu", Ele vai, por isso mesmo, haurir
"daquilo que é do Pai".
Assim, à luz daquele "receberá" podem ser explicadas
ainda as outras palavras sobre o Espírito Santo, pronunciadas por
Jesus no Cenáculo antes da Páscoa, que são palavras
significativas: "É melhor para vós que eu vá,
porque se eu não fôr, o Consolador não virá
a vós; mas, se eu for, ensiar-vo-lo-ei. E quando Ele tiver vindo
convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justica e
quanto ao juízo"(27). Será conveniente voltar a estas
palavras, com uma reflexão à parte.
2. Pai, Filho e Espírito Santo
8. É característica do texto joanino que o Pai, o Filho
e o Espírito Santo sejam nomeados claramente como Pessoas, a primeira
distinta da segunda e da terceira e estas também distintas entre
si. Jesus fala do Espírito Consolador, usando por mais de uma vez
o pronome pessoal "Ele". E, ao mesmo tempo, em todo o discurso
de despedida, torna manifestos aqueles vínculos que unem reciprocamente
o Pai, o Filho e o Paráclito. Assim, "o Espírito ...
procede do Pai"(28) e o Pai "dá" o Espírito(29).
O Pai "envia" o Espírito em nome do Filho(30), o Espírito
"dá testemunho" do Filho(31). O Filho pede ao Pai que
envie o Espírito Consolador(32); mas, além disso, afirma
e promete, em relação com a sua "partida" mediante
a Cruz: "Quando eu fôr, vo-lo enviarei"(33). Portanto,
o Pai envia o Espírito Santo com o poder da sua paternidade, como
enviou o Filho(34); mas, ao mesmo tempo, envia-o, com o poder da Redenção
realizada por Cristo - e neste sentido o Espírito Santo é
enviado também pelo Filho: "enviar-vo-lo-ei".
Aqui neste ponto, é preciso notar que, se todas as outras promessas
feitas no Cenáculo anunciavam a vinda do Espírito Santo
para depois da partida de Cristo, a que é referida por São
João no capítulo 16 vv. 7-8 inclui e acentua claramente
a relação de interdependência, que se poderia dizer
causal, entre as manifestações de um e de outro: "Quando
eu fôr, enviar-vo-lo-ei". O Espírito Santo virá
na condição de Cristo partir, mediante a Cruz: virá
não só em seguida, mas por causa da Redenção
realizada por Cristo, por vontade e obra do Pai.
9. Assim no discurso da Ceia pascal de despedida, atinge-se - por assim
dizer - o ápice da revelação trinitária. Ao
mesmo tempo, encontramo-nos no limiar de eventos definitivos e de palavras
supremas, que por fim se traduzirão no grande mandato missionário,
dirigido aos Apóstolos e, mediante eles, à Igreja: "ide,
portanto, e ensinai todas as gentes", mandato que contém,
em certo sentido, a fórmula trinitária do Baptismo: "baptizando-as
em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo"(35). A fórmula
reflecte o mistério íntimo de Deus, da vida divina, que
é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, divina unidade da Trindade.
O discurso de despedida pode ser lido como uma preparação
especial para esta fórmula trinitária, na qual se exprime
o poder vivificante do Sacramento, que opera a participação
na vida de Deus uno e trino, porque confere a graça santificante
ao homem, como dom sobrenatural. Por meio dela o homem é chamado
e "tornado capaz" de participar na imperscrutável vida
de Deus.
10. Na sua vida íntima Deus "é Amor"(36), amor
essencial, comum às três Pessoas divinas: amor pessoal é
o Espírito Santo, como Espírito do Pai e do Filho. Por isso
ele "perscruta as profundezas de Deus"(37), como Amor-Dom incriado.
Pode dizer-se que, no Espírito Santo, a vida íntima de Deus
uno e trino se torna totalmente dom, permuta de amor recíproco
entre as Pessoas divinas; e ainda, que no Espírito Santo Deus "existe"
à maneira de Dom. O Espírito Santo é a expressão
pessoal desse doar-se, desse ser-amor(38). É Pessoa-Amor. É
Pessoa-Dom. Temos aqui uma riqueza insondável da realidade e um
aprofundamento inefável do conceito de pessoa em Deus, que só
a Revelação divina nos dá a conhecer.
Ao mesmo tempo, o Espírito Santo, enquanto consubstancial ao Pai
e ao Filho na divindade, é Amor e Dom (incriado) do qual deriva
como de uma fonte (fons vívus) toda a dádiva em relação
às criaturas (dom criado): a doação da existência
a todas as coisas, mediante a criação; e a doação
da graça aos homens, mediante toda a economia da salvação.
Como escreve o Apóstolo São Paulo: "O amor de Deus
foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito
Santo, que nos foi dado"(39).
3. O dar-se salvífico de Deus no Espírito Santo
11. O discurso de despedida de Cristo, durante a Ceia pascal, está
em particular conexão com este "dar" e "dar-se"
do Espírito Santo. No Evangelho de São João descobre-se
como que a "lógica" mais profunda do mistério
salvífico, contido no eterno desígnio de Deus, qual expansão
da inefável comunhão do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. É a "lógica" divina, que leva do mistério
da Trindade ao mistério da Redenção do mundo em Jesus
Cristo. A Redenção realizada pelo Filho nas dimensões
da história terrena do homem - consumada aquando da sua "partida",
por meio da Cruz e da Ressurreição - é, ao mesmo
tempo, transmitida ao Espírito Santo com todo o seu poder salvífico:
transmitida Àquele que "receberá do que é meu"(40).
As palavras do texto joanino indicam que, segundo o desígnio divino,
a "partida" de Cristo é condição indispensável
para o "envio" e para a vinda do Espírito Santo; mas
dizem também que começa então a nova autocomunicação
salvífica de Deus, no Espírito Santo.
12. É um novo princípio em relação ao primeiro:
àquele princípio primigénio do dar-se salvífico
de Deus, que se identifica com o próprio mistério da criação.
Com efeito, lemos já nas primeiras palavras do Livro do Génesis:
"No princípio criou Deus o céu e a terra ..., e o espírito
de Deus (ruah Elohim) adejava sobre as águas"(41). Este conceito
bíblico de criação comporta não só
o chamamento à existência do próprio ser do cosmos,
ou seja, o dom da existência, mas comporta também a presença
do Espírito de Deus na criação, isto é, o
início do comunicar-se salvífico de Deus às coisas
que cria. Isto aplica-se, antes de mais, quanto ao homem, o qual foi criado
à imagem e semelhança de Deus: "Façamos o homem
à nossa imagem, à nossa semelhança"(42). "Façamos":
poderá, acaso, dizer-se que o plural, usado aqui pelo Criador ao
referir-se a si mesmo, insinua já, de algum modo, o mistério
trinitário, a presença da Santíssima Trindade na
obra da criação do homem? O leitor cristão, que já
conheça a revelação deste mistério, pode descobrir
um seu reflexo também nessas palavras. Em todo o caso, o conteúdo
do Livro do Génesis permite-nos ver na criação do
homem o primeiro princípio do dom salvífico de Deus, na
medida daquela "imagem e semelhança" de si mesmo, por
Ele outorgada ao homem.
13. Parece, portanto, que as palavras pronunciadas por Jesus no discurso
de despedida devem ser relidas também em conexão com aquele
"princípio" tão longínquo, mas fundamental,
que conhecemos pelo Livro do Génesis. "Se eu não for,
o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei".
Ao referir-se à sua "partida" como condição
da "vinda" do Consolador, Cristo relaciona o novo princípio
da comunicação salvífica de Deus no Espírito
Santo com o mistério da Redenção. Este é um
novo princípio antes de mais nada, porque entre o primeiro princípio
e toda a história do homem - a começar da queda original
- se interpôs o pecado, que está em contradição
com a presença do Espírito de Deus na criação
e está, sobretudo, em contradição com a comunicação
salvífica de Deus ao homem. São Paulo escreve que, precisamente
por causa do pecado, "a criação ... foi submetida à
caducidade..., geme e sofre no seu conjunto as dores do parto até
ao presente" e "aguarda ansiosamente e revelação
dos filhos de Deus"(43).
14. Por isso Jesus Cristo diz no Cenáculo: "É bem para
vós que eu vá ..."; "Se eu fôr, enviar-vo-lo-ei"(44).
A "partida" de Cristo mediante a Cruz tem a potência da
Redenção; e isto significa também uma nova presença
do Espírito de Deus na criação: o novo princípio
do comunicar-se de Deus ao homem no Espírito Santo. "Porque
vós sois seus filhos, Deus enviou aos vossos corações
o Espírito do seu Filho que clama: Abbá! Pai!" - escreve
o apóstolo São Paulo, na Carta aos Gálatas(45). O
Espírito Santo é o Espírito do Pai, como testemunham
as palavras do discurso de despedida, no Cenáculo. Ele é,
simultaneamente, o Espírito do Filho: é o Espírito
de Jesus Cristo, como viriam a testemunhar os Apóstolos e, de modo
particular, Paulo de Tarso(46). No facto de enviar este Espírito
"aos nossos corações" começa a realizar-se
o que "a própria criação aguarda ansiosamente"
como lemos na Carta aos Romanos.
O Espírito Santo vem "à custa" da "partida"
de Cristo. Se essa "partida", anunciada no Cenáculo,
causava a tristeza dos Apóstolos(47), - a qual devia atingir o
seu ponto culminante na paixão e na morte de Sexta-Feria Santa
- contudo, a mesma "tristeza havia de converter-se em alegria"(48).
Cristo, efectivamente, inserirá na sua "partida" redentora
a glória da ressurreição e da ascensão ao
Pai. Portanto, a tristeza através da qual transparece a alegria,
é a parte que cabe aos Apóstolos na conjuntura da "partida"
do seu Mestre, uma partida "benéfica", porque graças
a ela havia de vir um outro "Consolador"(49). À custa
da Cruz, operadora da Redenção, vem o Espírito Santo,
pelo poder de todo o mistério pascal de Jesus Cristo; e vem para
permanecer com os Apóstolos desde o dia de Pentecostes, para permanecer
com a Igreja e na Igreja e, mediante ela, no mundo.
Deste modo, realiza-se definitivamente aquele novo princípio da
comunicação de Deus uno e trino no Espírito Santo,
por obra de Jesus Cristo, Redentor do homem e do mundo.
4. O Messias, "ungido com o Espírito Santo"
15. Realizou-se também cabalmente a missão do Messias, isto
é, daquele que recebera a plenitude do Espírito Santo, em
favor do Povo eleito por Deus e de toda a humanidade. "Messias",
literalmente, significa "Cristo", isto é, "Ungido";
e na história da salvação significa "ungido
com o Espírito Santo". Esta era a tradição profética
do Antigo Testamento. Atendo-se a ela, Simão Pedro, em casa de
Cornélio, diria: "Vós conheceis o que aconteceu por
toda a Judeia... depois do baptismo pregado por João: como Deus
ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré"(50).
Destas palavras de São Pedro, e de muitas outras semelhantes(51),
é preciso remontar, antes de mais, à profecia de Isaías,
algumas vezes chamada "o quinto evangelho", ou então
"o evangelho do Antigo Testamento". Isaías, fazendo alusão
à vinda dum personagem misterioso, que a revelação
neotestamentária identificará em Jesus, liga a sua pessoa
e a sua missão a uma acção particular do Espírito
de Deus - Espírito do Senhor. São estas as palavras do Profeta:
"Despontará um rebento do tronco de Jessé,
e um renovo brotará da sua raiz.
Sobre ele pousará o espírito do Senhor,
espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de conhecimento e de temor de Deus,
o no temor do Senhor está a sua inspiração"(52).
Este texto é importante para toda a pneumatologia do Antigo Testamento,
porque constitui como que uma ponte entre o antigo conceito bíblico
do "espírito", entendido primeiro que tudo como "sopro
carismático", e o "Espírito" como pessoa
e como dom, dom para a pessoa. O Messias da estirpe de David ("do
tronco de Jessé") é precisamente essa pessoa, sobre
a qual "pousará" o Espírito do Senhor. É
evidente que, neste caso, não se pode falar ainda da revelação
do Paráclito; todavia, com essa alusão velada à figura
do futuro Messias, abre-se, por assim dizer, o caminho que, uma vez demandado,
vai preparando a revelação plena do Espírito Santo
na unidade do mistério trinitário, a qual se tornará
manifesta, finalmente, na Nova Aliança.
16. Esse caminho é o próprio Messias. Na Antiga Aliança
a unção tinha-se tornado o símbolo externo do dom
do Espírito. O Messias, bem mais do que qualquer outro personagem
ungido na Antiga Aliança, é o único grande Ungido
pelo próprio Deus. É o ungido no sentido de possuir a plenitude
do Espírito de Deus. Ele mesmo será também o mediador
para ser concedido este Espírito a todo o Povo. Com efeito, são
do mesmo Profeta estas outras palavras:
"O espírito do Senhor Deus está sobre mim,
Porque o Senhor consagrou-me com a unção;
enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,
a pensar as feridas dos corações quebrantados,
a proclamar a redenção para os cativos,
a libertação para os prisioneiros,
a promulgar o ano de misericórdia do Senhor"(53).
O Ungido é também enviado "com o Espírito do
Senhor":
"Agora o Senhor Deus
me envia juntamente com o seu espírito"(54).
Segundo o Livro de Isaías, o Ungido e o Enviado juntamente com
o Espírito do Senhor é também o eleito Servo do Senhor,
sobre o qual repousa o Espírito de Deus:
"Eis o meu servo que eu amparo
o meu eleito, no qual a minha alma pôs a sua complacência;
fiz repousar sobre ele o meu espírito"(55).
Como é sabido, o Servo do Senhor é revelado no Livro de
Isaías como o verdadeiro Homem das dores: o Messias que sofre pelos
pecados do mundo(56). E, simultaneamente, é ele mesmo Aquele cuja
missão produzirá para toda a humanidade verdadeiros frutos
de salvação:
"Ele levará o direito às nações ..."(57)
e tornar-se-á "a aliança do povo à luz das nações
..."(58); "para que leve a minha salvação até
aos confins da terra"(59).
Porque:
"O meu Espírito, que desceu sobre ti
e as palavras que te pus na boca
não se apartarão dos teus lábios
nem da boca da tua descendência
nem da boca dos descendentes dos teus descendentes,
diz o Senhor, desde agora e para sempre"(60).
Os textos proféticos que acabam de ser apresentados devem ser lidos
por nós à luz do Evangelho; o Novo Testamento, por sua vez,
adquire um esclarecimento particular da admirável luz contida nestes
textos vétero-testamentários. O Profeta apresenta o Messias
como aquele que vem com o Espírito Santo, como aquele que possui
em si a plenitude deste Espírito; e, ao mesmo tempo, é portador
d'Ele para os outros, para Israel, para todas as nações,
para toda a humanidade. A plenitude do Espírito de Deus é
acompanhada por múltiplos dons, os bens da salvação,
destinados de modo particular aos pobres e aos que sofrem - a todos aqueles
que abrem os seus corações a esses dons: isso acontece,
algumas vezes mediante as experiências dolorosas da própria
existência; mas, primeiro que tudo, por aquela disponibilidade interior
que vem da fé. O velho Simeão, "homem justo e piedoso",
com o qual estava o Espírito Santo, teve a intuição
disso, no momento da apresentação de Jesus no Templo, quando
vislumbrou n'Ele a "salvação preparada em favor de
todos os povos" à custa do grande sofrimento - a Cruz - que
ele deveria vir a abraçar juntamente com sua Mãe(61). Disso
tinha também e ainda melhor a intuição a Virgem Maria,
que havia concebido do Espírito Santo(62), quando meditava no seu
coração os "mistérios" do Messias, ao qual
estava associada(63).
17. É conveniente sublinhar, aqui neste ponto, que o "espírito
do Senhor", que "se pousa" sobre o futuro Messias, é,
claramente, antes de mais nada um dom de Deus para a pessoa deste Servo
do Senhor. Mas ele não é uma pessoa isolada e independente,
pois opera por vontade do Senhor, com o poder da sua decisão ou
escolha. Se bem que à luz dos textos de Isaías a obra salvífica
do Messias, Servo do Senhor, inclua a acção do Espírito
que se desenrola mediante ele próprio, todavia no seu contexto
vétero-testamentário não é sugerida a distinção
dos sujeitos ou das Pessoas divinas, tais como subsistem no mistério
trinitário e serão reveladas depois no Novo Testamento.
Quer em Isaías, quer em todo o Antigo Testamento, a personalidade
do Espírito Santo acha-se completamente escondida: escondida na
revelação do único Deus, bem como no anúncio
profético do futuro Messias.
18. No início da sua actividade messiânica, Jesus Cristo
socorrer-se-á deste anúncio, contido nas palavras de Isaías.
Isso aconteceria na cidade de Nazaré, onde ele tinha transcorrido
trinta anos de vida, na casa de José, o carpinteiro, ao lado de
Maria, a Virgem sua Mãe. Quando lhe foi dada a ocasião de
tomar a palavra na Sinagoga, tendo abrido o Livro de Isaías, encontrou
a passagem em que está escrito: "O Espírito do Senhor
está sobre mim; por isso me consagrou com a unção";
e depois de ter lido este texto, disse aos presentes: "Cumpriu-se
hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir"(64). Deste
modo, confessou e proclamou ser Aquele que "foi ungido" pelo
Pai, ser o Messias, isto é, Aquele no qual tem a sua morada o Espírito
Santo como dom do próprio Deus, Aquele que possui a plenitude deste
Espírito, Aquele que marca o "novo princípio"
do dom que Deus concede à humanidade no Espírito Santo.
5. Jesus de Nazaré, "elevado" no Espírito Santo
19. Embora Jesus não seja recebido como Messias na sua terra de
Nazaré, todavia, ao iniciar a sua actividade pública, a
sua missão messiânica no Espírito Santo foi revelada
ao Povo por João Batista, filho de Zacarias e de Isabel. Ele anuncia,
junto do Jordão, a vinda do Messias e administra o baptismo de
penitência. Ele diz: "Eu baptizo-vos com água, mas vai
chegar quem é mais forte do que eu, a quem eu não sou digno
nem sequer de desatar as correias das sandálias: ele baptizar-vos-á
com o Espírito Santo e com o fogo"(65).
João Baptista anuncia o Messias - Cristo, não apenas como
Aquele que "vem" com o Espírito Santo, mas como Aquele
que também "é portador" do Espírito Santo,
como seria melhor revelado por Jesus no Cenáculo. João torna-se,
quanto a isto, o eco fiel das palavras de Isaías; palavras que,
proferidas pelo antigo Profeta, diziam respeito ao futuro, ao passo que
no seu ensino, nas margens do Jordão, constituem a introdução
imediata à nova realidade messiânica. João é
não só profeta, mas também mensageiro: é o
precursor de Cristo. Aquilo que ele anuncia realiza-se diante dos olhos
de todos. Jesus de Nazaré vem ao Jordão para receber, também
ele, o baptismo de penitência. A vista do recém-chegado,
João proclama: "Aí está o Cordeiro de Deus,
que vai tirar o pecado do mundo"(66). E diz isso por inspiração
do Espírito Santo(67) dando testemunho do cumprimento da profecia
de Isaías. Ao mesmo tempo confessa a fé na missão
redentora de Jesus de Nazaré. Nos lábios de João
Baptista as palavras "Cordeiro de Deus" encerram uma afirmação
da verdade quanto ao Redentor, não menos significativa que as palavras
usadas por Isaías: "Servo do Senhor".
Deste modo, com o testemunho de João junto do Jordão, Jesus
de Nazaré, rejeitado pelos próprios conterrâneos,
é elevado aos olhos de Israel como Messias, ou seja "Ungido"
com o Espírito Santo. E o testemunho de João Baptista é
corroborado por um outro testemunho de ordem superior, mencionado pelos
três Evangelhos Sinópticos. Com efeito, quando todo o povo
tinha sido baptizado e no momento em que Jesus, recebido o baptismo, estava
em oração, "abriu-se o céu e o Espírito
Santo desceu sobre ele em forma corporal, como uma pomba"(68); e,
simultaneamente, ouviou-se uma voz vinda do céu que dizia: Este
é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências"(69).
É uma teofania trinitária, que dá testemunho da exaltação
de Cristo, por ocasião do baptismo no Jordão. Ela não
só confirma o testemunho de João Baptista, mas revela uma
dimensão ainda mais profunda da verdade acerca de Jesus de Nazaré
como Messias. Ou seja: o Messias é o Filho muito amado do Pai.
A sua exaltação solene não se reduz à missão
messiânica do "Servo do Senhor". A luz da teofania do
Jordão, esta exaltação alcança o mistério
da própria Pessoa do Messias. Ele é exaltado porque é
o Filho da complacência divina. A voz do Alto diz: "o meu Filho".
20. A teofania do Jordão ilumina somente de modo fugaz o mistério
de Jesus de Nazaré, cuja actividade será toda ela desenvolvida
com a presença do Espírito Santo(70). Este mistério
viria a ser gradualmente desvendado e confirmado por Jesus, mediante tudo
o que "fez e ensinou"(71). Atendo-nos à linha deste ensino
e dos sinais messiânicos realizados pelo mesmo Jesus, antes do discurso
de despedida no Cenáculo, encontramos acontecimentos e palavras
que constituem momentos particularmente importantes dessa revelação
progressiva. Assim o evangelista São Lucas, que já tinha
apresentado Jesus "cheio de Espírito Santo" e "conduzido
pelo Espírito ao deserto"(72). faz-nos cientes de que, após
o regresso dos setenta e dois discípulos da missão que lhes
fora confiada pelo Mestre(73), enquanto eles cheios de alegria lhe relatavam
os frutos do seu trabalho, nesse mesmo "momento Jesus exultou de
alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: "Eu
te dou graças, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque
escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste
aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do Teu agrado"(74).
Jesus exulta pela paternidade divina: exulta porque lhe foi dado revelar
esta paternidade; exulta, por fim, por uma como que irradiação
e special da me sma paternidade divina sobre os "pequeninos".
E o Evangelista qualifica tudo isto como uma "exultação
no Espírito Santo".
Esta "exultação" impele Jesus, em certo sentido,
a dizer ainda algo mais. Ouçamos: "Todas as coisas me foram
entregues por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão
o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o
Filho o quiser revelar"(75).
21. Aquilo que durante a teofania do Jordão veio, por assim dizer,
"do exterior", do Alto, aqui provém "do interior",
isto é, do mais íntimo do ser que é Jesus. É
uma outra revelação do Pai e do Filho, unidos no Espírito
Santo. Jesus fala só da paternidade de Deus e da própria
filiação; não fala directamente do Espírito
que é Amor e, por isso, união do Pai e do Filho. Não
obstante, aquilo que ele diz do Pai e de Si-Filho brota daquela plenitude
do Espírito que está nele mesmo e se derrama no seu coração,
impregna o seu próprio "Eu", inspira e vivifica, a partir
da profundeza do que Ele é, a sua acção. Daqui esse
seu "exultar no Espírito Santo". A união de Cristo
com o Espírito Santo, da qual Ele tem uma consciência perfeita,
exprime-se nessa "exultação", que torna "perceptível",
de certa maneira, a sua fonte recôndita. Dá-se assim uma
especial manifestação e exaltação próprias
do Filho do Homem, de Cristo-Messias, cuja humanidade pertence à
Pessoa do Filho de Deus, substancialmente uno com o Espírito Santo
na divindade.
Na magnífica confissão da paternidade de Deus, Jesus de
Nazaré manifesta-se também a si mesmo, o seu "Eu"
divino: Ele é efectivamente, o Filho "da mesma substância"
(consubstancial); e, por isso, "ninguém conhece quem é
o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho,
aquele Filho que "por nós, homens, e para nossa salvação"
se fez homem, "por obra do Espírito Santo" e nasceu de
uma virgem, cujo nome era Maria.
6. Cristo:Ressuscitado disse: "Recebei o Espírito Santo"
22. É São Lucas que, graças à sua narração,
nos leva a aproximar-nos, o máximo que é possível,
da verdade contida no discurso do Cenáculo. Jesus de Nazaré,
"elevado" no Espírito Santo, ao longo desse discurso
e colóquio, manifesta-se como Aquele que é "portador"
do Espírito, como Aquele que o deve trazer e "dar" aos
Apóstolos e à Igreja à custa da sua "partida"
mediante a Cruz.
Com o verbo "trazer", aqui, quere-se dizer, primeiro que tudo,
"revelar". No Antigo Testamento, desde o Livro do Génesis,
o Espírito de Deus foi dado a conhecer, de alguma maneira, antes
de mais como "sopro" de Deus que dá a vida, como "um
sopro vital" sobrenatural. No Livro de Isaías é apresentado
como um "dom" para a pessoa do Messias, como Aquele que repousa
sobre ele, para ser, de dentro, o guia de toda a sua actividade salvífica.
Junto do Jordão, o anúncio de Isaías revestiu-se
de uma forma concreta: Jesus de Nazaré é aquele que vem
com o Espírito Santo e o "traz" como dom peculiar da
sua própria Pessoa, para efundi-lo através da sua humanidade:
"Ele vos baptizará no Espírito Santo". (76) No
Evangelho de São Lucas é confirmada e enriquecida esta revelação
do Espírito Santo, como fonte íntima da vida e da acção
messiânica de Jesus Cristo.
À luz daquilo que o mesmo Jesus diz no discurso do Cenáculo,
o Espírito Santo é revelado de um modo novo e mais amplo.
Ele é não só o dom à Pessoa (à Pessoa
do Messias), mas é também uma Pessoa-Dom! Jesus anuncia
a sua vinda como a de "um outro Consolador", o qual, sendo o
Espírito da verdade, guiará os Apóstolos e a Igreja
"a toda a verdade". (77) Isto realizar-se-á em virtude
da particular comunhão entre o Espírito Santo e Cristo:
"há-de receber do que é meu para vo-lo anunciar".
(78) Esta comunhão tem a sua fonte primária no Pai: "Tudo
quanto o Pai tem é meu; por isso eu vos disse que Ele há-de
receber do que é meu para vo-lo anunciar". (79) Provindo do
Pai, o Espírito Santo é enviado de junto do Pai. (80) O
Espírito Santo foi enviado, primeiro, como dom para o Filho que
se fez homem, para se cumprirem as profecias messiânicas. Depois
da "partida" de Cristo, do Filho, segundo o texto joanino, o
Espírito Santo "virá" directamente - é
a sua nova missão - para consumar a obra do Filho. Deste modo,
será Ele quem levará à realização plena
a nova era da história da salvação.
23. Encontramo-nos no limiar dos acontecimentos pascais. Vai completar-se
a nova e definitiva revelação do Espírito Santo como
Pessoa que é o Dom, precisamente neste momento. Os eventos pascais
- a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo -
são também o tempo da nova vinda do Espírito Santo,
como Paráclito e Espírito da verdade. Eles constituem o
tempo do "novo princípio" da comunicação
de Si mesmo da parte de Deus uno e trino à humanidade, no Espírito
Santo por obra de Cristo Redentor. Este novo princípio é
a Redenção do mundo: "Com efeito, Deus amou de tal
modo o mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito". (81) Ao "dar"
o Filho, no dom do Filho, já se exprime a essência mais profunda
de Deus, o qual, sendo Amor, é a fonte inexaurível da dádiva.
No dom concedido pelo Filho completam-se a revelação e a
dádiva do Amor eterno: o Espírito Santo, que nas profundezas
imperscrutáveis da divindade é uma Pessoa-Dom, por obra
do Filho, isto é, mediante o mistério pascal de Cristo,
é dado de uma maneira nova aos Apóstolos e à Igreja
e, por intermédio deles, à humanidade e ao mundo inteiro.
24. A expressão definitiva deste mistério dá-se no
dia da Ressurreição. Neste dia, Jesus de Nazaré,
"nascido da descendência de David segundo a carne" - como
escreve o apóstolo São Paulo - é "constituído
Filho de Deus com todo o poder, segundo o Espírito de santificação,
mediante a ressurreição dos mortos". (82) Pode dizer-se,
assim, que a "elevação" messiânica de Cristo
no Espírito Santo atingiu o seu auge na Ressurreição,
quando ele se revelou como Filho de Deus, "cheio de poder".
E este poder, cujas fontes jorram da imperscrutável comunhão
trinitária, manifesta-se, antes de mais nada, pelo duplo feito
de Cristo Ressuscitado: realizar, por um lado, a promessa de Deus já
expressa pela boca do Profeta: "Dar-vos-ei um coração
novo ... porei dentro de vós um espírito novo, o meu espírito";
(83) e cumprir, por outro lado, a sua própria promessa, feita aos
Apóstolos com estas palavras: "Quando eu for, vo-lo enviarei".
(84) É Ele: o Espírito da verdade, o Paráclito enviado
por Cristo Ressuscitado para nos transformar e fazer de nós a sua
própria imagem de Ressuscitado. (85)
Sucedeu que "na tarde desse dia, que era o primeiro da semana, depois
do sábado, estando fechadas as portas do lugar onde se encontravam
os discípulos, por medo dos judeus, veio Jesus, colocou-se no meio
deles e disse-lhes: "A paz seja convosco". Dito isto, mostrou-lhes
as mãos e o lado. E os discípulos ficaram cheios de alegria
ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: "A paz seja convosco!
Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós".
Dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: " Recebei o Espírito
Santo"". (86)
Todos os pormenores deste texto-chave do Evangelho de São João
têm o seu significado, especialmente se os relermos em conexão
com as palavras pronunciadas por Cristo no mesmo Cenáculo, no início
dos acontecimentos pascais. Estes eventos - o triduum sacrum de Jesus,
que o "Pai consagrou com a unção e enviou ao mundo"
- tiveram a sua consumação. Cristo, que "tinha entregado
o espírito" sobre a Cruz, (87) como Filho do homem e Cordeiro
de Deus, uma vez ressuscitado, vai ter com os Apóstolos para "soprar
sobre eles" com aquele poder de que fala a Carta aos Romanos. (88)
A vinda do Senhor enche de alegria os presentes: "A sua tristeza
converte-se em alegria", (89) como Ele já lhes tinha prometido
antes da sua paixão. E sobretudo verifica-se o anúncio principal
do discurso de despedida: Cristo ressuscitado, como que dando início
a uma nova criação, "traz" aos Apóstolos
o Espírito Santo. Trá-lo à custa da sua "partida";
dá-lhes o Espírito como que através das feridas da
sua crucifixão: "mostrou-lhes as mãos e o lado".
É em virtude da mesma crucifixão que Ele lhes diz: "Recebei
o Espírito Santo".
Estabelece-se assim uma íntima ligação entre o envio
do Filho e o do Espírito Santo. Não existe envio do Espírito
Santo (depois do pecado original) sem a Cruz e a Ressurreição:
"Se eu não for, não virá a vós o Consolador".
(90) Estabelece-se também uma íntima ligação
entre a missão do Espírito Santo e a missão do Filho
na Redenção. Esta missão do Filho, num certo sentido,
tem o seu "cumprimento" na Redenção. A missão
do Espírito Santo "vai haurir" algo da Redenção:
"Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar".
(91) A Redenção é totalmente operada pelo Filho,
como o Ungido, que veio e agiu com o poder do Espírito Santo, oferecendo-se
por fim em sacrifício supremo no madeiro da Cruz. E esta Redenção,
ao mesmo tempo, é constantemente operada nos corações
e nas consciências humanas - na história do mundo - pelo
Espírito Santo, que é o "outro Consolador".
7. O Espírito Santo e o tempo da Igreja
25. "Consumada a obra que o Pai tinha confiado ao Filho sobre a terra"
(cf. Jo 17, 4), no dia do Pentecostes foi enviado o Espírito Santo
para santificar continuamente a Igreja, e, assim, os que viessem a acreditar
tivessem, mediante Cristo, acesso ao Pai num só Espírito"
(cf. Ef 2, 18). Este é o Espírito da vida, a fonte de água
que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4, 14; 7, 38-39); é Aquele
por meio do qual o Pai dá novamente a vida aos homens, mortos pelo
pecado, até que um dia ressuscite em Cristo os seus corpos mortais
(cf.Rom 8, 10-11)". (92)
É deste modo que o Concílio Vaticano II fala do nascimento
da Igreja no dia de Pentecostes. Este acontecimento constitui a manifestação
definitiva daquilo que já se tinha realizado no mesmo Cenáculo
no Domingo da Páscoa. Cristo Ressuscitado veio e foi "portador"
do Espírito Santo para os Apóstolos. Deu-lho dizendo: "Recebei
o Espírito Santo". Isso que aconteceu então no interior
do Cenáculo, "estando as portas fechadas", mais tarde,
no dia do Pentecostes, viria a manifestar-se publicamente diante dos homens.
Abrem-se as portas do Cenáculo e os Apóstolos dirigem-se
aos habitantes e peregrinos, que tinham vindo a Jerusalém por ocasião
da festa, para dar testemunho de Cristo com o poder do Espírito
Santo. E assim se realiza o anúncio de Jesus: "Ele dará
testemunho de mim: e também vós dareis testemunho de mim,
porque estivestes comigo desde o princípio". (93)
Num outro documento do Concílio Vaticano II lemos: "Sem dúvida
que o Espírito Santo estava já a operar no mundo, antes
ainda que Cristo fosse glorificado. Contudo, foi no dia de Pentecostes
que ele desceu sobre os discípulos, para permanecer com eles eternamente
(cf. Jo 14, 16); e a Igreja apareceu publicamente diante da multidão
e teve o seu início a difusão do Evangelho entre os pagãos,
através da pregação".(94)
O tempo da Igreja teve início com a "vinda", isto é,
com a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, reunidos
no Cenáculo de Jerusalém juntamente com Maria, a Mãe
do Senhor. (95) O tempo da Igreja teve início no momento em que
as promessas e os anúncios, que tão explicitamente se referiam
ao Consolador, ao Espírito da verdade, começaram a verificar-se
sobre os Apóstolos, com potência e com toda a evidência,
determinando assim o nascimento da Igreja. Disto falam em muitas passagens
e amplamente os Actos dos Apóstolos, dos quais nos resulta que,
segundo a consciência da primitiva comunidade - da qual São
Lucas refere as certezas - o Espírito Santo assumiu a orientação
invisível - mas de algum modo "perceptível" -
daqueles que, depois da partida do Senhor Jesus, sentiam profundamente
o terem ficado órfãos. Com a vinda do Espírito eles
sentiram-se capazes de cumprir a missão que lhes fora confiada.
Sentiram-se cheios de fortaleza. Foi isto precisamente que o Espírito
Santo operou neles; e é isto que Ele continua a operar na Igreja,
mediante os seus sucessores. Com efeito, a graça do Espírito
Santo, que os Apóstolos, pela imposição das mãos,
transmitiram aos seus colaboradores, continua a ser transmitida na Ordenação
episcopal. Os Bispos, por sua vez, depois tornam participantes desse dom
espiritual os ministros sagrados, pelo sacramento da Ordem; e providenciam
ainda para que, mediante o sacramento da Confirmação, sejam
fortalecidos com ele todos os que tiverem renascido pela água e
pelo Espírito Santo. E assim se perpetua na Igreja de certo modo,
a graça do Pentecostes.
Como escreve o Concílio, "o Espírito Santo habita na
Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf.
1 Cor 3, 16; 6, 19); e neles ora e dá testemunho da sua adopção
filial (cf. Gál 4, 6; Rom 8, 15-16. 26). Ele introduz a Igreja
no conhecimento de toda a verdade (cf. Jo 16, 13), unifica-a na comunhão
e no ministério, edifica-a e dirige-a com os diversos dons hierárquicos
e carismáticos e enriquece-a com os seus frutos (cf. Et 4, 11-12;
1 Cor 12, 4; Gál 5, 22). Faz ainda com que a Igreja se mantenha
sempre jovem, com a força do Evangelho, renova-a continuamente
e leva-a à perfeita união com o seu Esposo". (96)
26. As passagens que acabamos de recordar, da Constituição
Conciliar Lumen Gentium, dizem-nos que, com a vinda do Espírito
Santo, começou o tempo da Igreja. Dizem-nos ainda que este tempo,
o tempo da Igreja, continua. Perdura através dos séculos
e das gerações. No nosso século, neste período
em que a humanidade se tem vindo a aproximar do termo do segundo Milénio
depois de Cristo, este "tempo da Igreja" teve uma sua particular
expressão no Concílio Vaticano II, como Concílio
do nosso século. Sabe-se, com efeito, que ele foi, de maneira especial,
um Concílio "eclesiológico": um Concílio
sobre o tema da Igreja. Ao mesmo tempo, porém, o ensino deste Concílio
é essencialmente "pneumatológico": impregnando
da verdade sobre o Espírito Santo, como alma da Igreja. Podemos
dizer que no seu rico magistério o Concílio Vaticano II
contém praticamente tudo o "que o Espírito diz às
Igrejas" (97) em função da presente fase da história
da salvação.
Seguindo como guia ao Espírito da verdade e dando testemunho juntamente
com Ele, o Concílio ofereceu uma especial confirmação
da presença do Espírito Santo Consolador. Tornou-o, em certo
sentido, novamente "presente" na nossa época difícil.
A luz desta convicção, compreende-se melhor a grande importância
de todas as iniciativas que têm em vista a actuação
do Concílio Vaticano II, do seu magistério e da sua linha
pastoral e ecuménica. É neste sentido que devem ser bem
consideradas e avaliadas as Assembleias do Sínodo dos Bispos que
se foram sucedendo e que tiveram em vista fazer com que os frutos da Verdade
e do Amor - os frutos autênticos do Espírito Santo - se tornem
um bem duradouro do Povo de Deus na sua peregrinação terrena
ao longo dos séculos. É indispensável este trabalho
da Igreja, visando a avaliação e a consolidação
dos frutos salvíficos do Espírito, doados generosamente
no Concílio. Para alcançar este objectivo é necessário
saber "discerni-los" com atenção de tudo aquilo
que, contrariamente, possa provir sobretudo do "príncipe deste
mundo". (98) Este discernimento é tanto mais necessário,
na realização da obra do Concílio, quanto é
um facto que este se abriu de modo muito amplo ao mundo contemporâneo,
como o demonstram claramente as importantes Constituições
conciliares Gaudium et spes e Lumen gentium.
Lemos, com efeito, na Constituição pastoral: "Eles
(os discípulos de Cristo) são uma comunidade de homens,
congregados em Cristo e que são guiados pelo Espírito Santo
na sua peregrinação para o Reino do Pai; e são portadores
de uma mensagem de salvação, que devem comunicar a todos.
É por isso que a mesma comunidade dos cristãos se sente
real e intimamente solidária com o género humano e com a
sua história". (99) "A Igreja sabe muito bem que só
Deus, a quem ela serve, satisfaz os desejos mais profundos do coração
humano, o qual nunca se sacia plenamente só com os bens terrestres".
(100) "O Espírito de Deus... dirige com admirável providencia,
o curso dos tempos e renova a face da terra". (101)
II
O ESPÍRITO QUE CONVENCE O MUNDO QUANTO AO PECADO
1. Pecado, justiça e juízo
27. Quando Jesus, durante o discurso de despedida no Cenáculo,
anuncia a vinda do Espírito Santo "à custa" da
própria partida e promete: "Quando eu for, vo-lo enviarei",
precisamente nesse contexto, acrescenta: "E Ele, quando vier, convencerá
o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo".
(102) O mesmo Consolador e Espírito da verdade - que fora prometido
como Aquele que "ensinará" e "recordará",
como Aquele que "dará testemunho" e como Aquele que "guiará
para toda a verdade" - é anunciado agora, com as palavras
citadas, como Aquele que "convencerá o mundo quanto ao pecado,
quanto à justiça e quanto ao juízo".
Parece ser também significativo o contexto. Jesus relaciona este
anúncio do Espírito Santo com as palavras que indicam a
própria "partida", mediante a Cruz, e que, mais ainda,
realçam a necessidade da mesma "partida": "É
melhor para vós que eu vá; porque, se eu não for,
o Consolador não virá a vós". (103)
Mas o que conta mais é a explicação que Jesus acrescenta
a estas três palavras: pecado, justiça e juízo. Com
efeito, diz assim: "Ele convencerá o mundo quanto ao pecado,
quanto à justiça e quanto ao juízo. Quanto ao pecado,
porque não crêem em mim; quanto à justiça,
porque eu vou para o Pai e não me vereis mais; e quanto ao juízo,
porque o príncipe deste mundo já está juIgado".
(104) No pensamento de Jesus, o pecado, a justiça e o juízo
têm um sentido bem preciso, diverso daquele que alguém pretendesse,
porventura, atribuir a tais palavras, independentemente da explicação
de Quem fala. Esta explicação indica também como
deve ser entendido aquele "convencer o mundo", que é
próprio da acção do Espírito Santo. Aqui têm
importância: quer o significado de cada palavra, quer o facto de
Jesus as ter unido entre si na mesma frase.
"O pecado", nesta passagem, significa a incredulidade que Jesus
encontrou no meio dos "seus", a começar pelos próprios
conterrâneos de Nazaré. Significa a rejeição
da sua missão, que levará os homens a condená-lo
à morte. Quando fala, em seguida, da "justiça",
Jesus parece ter em mente aquela justiça definitiva, que o Pai
lhe fará, revestindo-o da glória da ressurreição
e da ascensão ao céu: "Vou para o Pai". No contexto
do "pecado" e da "justiça" assim entendidos,
"o juízo" significa, por sua vez, que o Espírito
da verdade demonstrará a culpa do "mundo" na condenação
de Jesus à morte de Cruz. No entanto, Cristo não veio ao
mundo somente para o julgar e condenar: Ele veio para o salvar. (105)
O convencer quanto ao pecado e quanto à justiça tem como
finalidade a salvação do mundo, a salvação
dos homens. É esta verdade, precisamente, que parece ser acentuada
pela afirmação de que "o juízo" afecta
somente o "príncipe deste mundo", isto é, Satanás,
aquele que, desde o princípio explora a obra da criação
contra a salvação, contra a aliança e a união
do homem com Deus: ele "já está julgado" desde
o princípio. Se o Espírito Consolador deve convencer o mundo,
exactamente quanto ao juízo, é para continuar nele a obra
salvífica de Cristo.
28. Queremos agora concentrar a nossa atenção principalmente
nesta missão do Espírito Santo, qual é a de "convencer
o mundo quanto ao pecado", mas respeitando, ao mesmo tempo, o contexto
geral das palavras de Jesus no Cenáculo. O Espírito Santo,
que assume do Filho a obra da Redenção do mundo, assume
por isso mesmo a função de o "convencer quanto ao pecado"
em ordem à salvação. Este convencer realiza-se em
constante referência à "justiça", isto é,
à salvação definitiva em Deus, à efectivação
da economia que tem como centro Cristo crucificado e glorificado. E esta
economia salvífica de Deus subtrai, em certo sentido, o homem ao
"juízo, isto é, à condenação,
com que foi punido o pecado de Satanás, "príncipe deste
mundo", aquele que, por causa do seu pecado, se tornou "dominador
deste mundo tenebroso". (106) É assim que, mediante esta referência
ao "juízo", se patenteiam vastos horizontes para a compreensão
do "pecado", bem como da "justiça". O Espírito
Santo, mostrando o pecado na economia da salvação, tendo
como fundo a Cruz de Cristo, (dir-se-ia "o pecado salvado"),
leva também a compreender como a sua missão é a de
"convencer" mesmo quanto ao pecado que já foi definitivamente
julgado ("o pecado condenado").
29. Todas as palavras pronunciadas pelo Redentor no Cenáculo, nas
vésperas da sua Paixão, se inscrevem no tempo da Igreja.
Em primeiro lugar, as palavras que se referem ao Espírito Santo,
como Paráclito e Espírito da verdade: elas inscrevem-se,
de um modo sempre novo, em cada geração e em cada época.
Isto é confirmado, quanto ao nosso século, pelo conjunto
dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição
pastoral "Gaudium et spes". Muitas passagens deste documento
indicam claramente que o Concílio, abrindo-se à luz do Espírito
da verdade, se apresenta como o depositário autêntico dos
anúncios e das promessas feitas por Cristo aos Apóstolos
e à Igreja no discurso da despedida; de modo particular, daquele
anúncio segundo o qual o Espírito Santo deve "convencer
o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo".
Isto é indicado já no texto em que o mesmo Concílio
explica como entende o "mundo": ele "tem diante dos olhos
o mundo dos homens, ou seja, a inteira familia humana, no contexto de
todas aquelas realidades no meio das quais ela vive; o mundo que é
teatro da história do género humano, marcado pelos esforços
do homem, pelas suas derrotas e pelas suas vitórias; o mundo que
os cristãos acreditam ser criado e conservado pelo amor do Criador;
mundo caído, sem dúvida, sob a escravidão do pecado,
mas libertado por Cristo crucificado e ressuscitado, com a derrota do
Maligno, a fim de ser transformado e poder alcançar, segundo os
desígnios de Deus, a própria realização".
(107) Em conexão com este texto, muito sintético, é
necessário ler na mesma Constituição as outras passagens
em que se procura mostrar, com todo o realismo da fé, a situação
do pecado no mundo contemporâneo e também explicar a sua
essência, partindo de diversos pontos de vista. (108)
Quando Jesus, nas vésperas da Páscoa, fala do Espírito
Santo como d'Aquele que "convencerá o mundo quanto ao pecado",
por um lado, deve dar-se a esta sua afirmação o alcance
mais vasto possível, uma vez que ela abrange todo o conjunto dos
pecados na história da humanidade; mas, por outro lado, quando
Jesus explica que este pecado consiste no facto de que "não
crêem" n'Ele, tal alcance parece limitar-se àqueles
que rejeitaram a sua missão messiânica de Filho do homem,
condenando-o à morte de Cruz. Entretanto, é difícil
deixar de notar como este alcance, mais "reduzido" e circunscrito
historicamente do significado do pecado, se alarga até assumir
uma amplidão universal, em virtude da universalidade da obra da
Redenção que se realizou por meio da Cruz. A revelação
do mistério da Redenção abre os caminhos para uma
compreensão assim, na qual todos os pecados que se cometeram, em
qualquer lugar e em qualquer momento, são referidos à Cruz
de Cristo, incluindo indirectamente, portanto, também o pecado
dos que "não acreditaram n'Ele", condenando o mesmo Jesus
Cristo à morte de Cruz.
É a partir deste indispensável ponto de vista que nos importa
voltar agora ao acontecimento do Pentecostes.
2. O testemunho do dia de Pentecostes
30. No dia de Pentecostes, teve a sua mais exacta e directa confirmação
aquilo que fora anunciado por Cristo no discurso da despedida; em particular,
o anúncio de que estamos a tratar "O Consolador ... convencerá
o mundo quanto ao pecado". Nesse dia, sobre os Apóstolos congregados
no mesmo Cenáculo em oração, juntamente com Maria,
Mãe de Jesus, desceu o Espírito Santo prometido, como lemos
nos Actos dos Apóstolos: "Todos ficaram cheios de Espírito
Santo e começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito
lhes concedia que se exprimissem" (109) "reconduzindo desse
modo à unidade as raças dispersas e oferecendo ao Pai as
primícias de todas as nações". (110)
Aparece clara, aqui, a relação entre o anúncio feito
por Cristo e este acontecimento. Entrevemos nele o primeiro e fundamental
cumprimento da promessa do Paráclito. Este, enviado pelo Pai, vem
"depois" da partida de Cristo, "à custa" da
mesma. Trata-se de uma partida, primeiro, mediante a morte de Cruz; e
depois, passados quarenta dias após a ressurreição,
mediante a ascenção ao Céu. Nesse momento da ascensão,
Jesus deu ainda aos Apóstolos ordem "de não se afastarem
de Jerusalém, mas de esperarem lá a realização
da promessa do Pai"; "sereis baptizados no Espírito Santo,
dentro de não muitos dias"; "recebereis uma força
do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis
minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e
até aos confins da terra". (111)
Estas últimas palavras condensam um eco, ou uma recordação,
do anúncio feito no Cenáculo. E no dia de Pentecostes esse
anúncio realiza-se com toda a exactidão. Agindo sob o influxo
do Espírito Santo, recebido pelos Apóstolos quando estavam
em oração no Cenáculo, São Pedro apresenta-se
e fala diante de uma multidão de pessoas de diferentes línguas,
reunidas para a festa. Proclama aquilo que, de certeza, não teria
tido a coragem de dizer anteriormente: "Homens de Israel,... Jesus
de Nazaré - homem acreditado por Deus junto de vós, com
milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós
por seu intermédio... depois de vos ser entregue, segundo o desígnio
determinado e a presciência de Deus, vós o pregastes na Cruz,
por mão de ímpios e o matastes. Mas Deus ressuscitou-o,
libertando-o das angústias da morte, pois não era possível
que Ele ficasse sob o seu domínio". (112)
Jesus tinha predito e prometido: "Ele (o Espírito Santo)...
dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho
de mim". No primeiro discurso de São Pedro em Jerusalém,
de forma bem clara tem o seu início esse testemunho: o testemunho
a respeito de Cristo, crucificado e ressuscitado. O testemunho do Espírito
Paráclito e dos Apóstolos. E no próprio conteúdo
desse primeiro testemunho, o Espírito da verdade, pela boca de
São Pedro, "convence o mundo quanto ao pecado": convence-o,
antes de mais, quanto àquele pecado que é a rejeição
de Cristo, até à sua condenação à morte,
até à Cruz no Gólgota. Repetir-se-ão as proclamações
de conteúdo análogo, segundo o texto dos Actos dos Apóstolos,
noutras ocasiões e em diversos lugares. (113)
31. A partir deste primeiro testemunho do Pentecostes, a acção
do Espírito da verdade, que "convence o mundo quanto ao pecado"
da rejeição de Cristo, anda ligada de modo orgânico
com o testemunho que deve ser dado do mistério pascal: do mistério
do Crucificado e do Ressuscitado. E nesta conexão o mesmo "convencer
quanto ao pecado" revela a própria dimensão salvífica.
Trata-se, de facto, de um "convencimento" que tem como finalidade
não a mera acusação do mundo nem, menos ainda, apenas
a sua condenação; Jesus Cristo veio ao mundo não
para o julgar e condenar, mas sim para o salvar. (114) Isto é bem
salientado já neste primeiro discurso, quando São Pedro
exclama: "Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que
Deus constituiu como Senhor e Messias, esse Jesus que vós crucificastes".
(115) E, em seguida, quando as pessoas presentes perguntaram a São
Pedro e aos Apóstolos: "que havemos de fazer, irmãos?",
o mesmo São Pedro respondeu-lhes: "Convertei-vos e peça
cada um o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos
seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo".
(116)
Deste modo, o "convencer quanto ao pecado" torna-se conjuntamente
um convencer quanto à remissão dos pecados, pelo poder do
Espírito Santo. São Pedro, no seu discurso em Jerusalém,
exorta à conversão, como Jesus exortava os seus ouvintes
no início da sua actividade messiânica. (117) A conversão
exige a convicção do pecado e contém em si o juízo
interior da consciência; e este, sendo uma comprovação
da acção do Espírito da verdade no íntimo
do homem, torna-se ao mesmo tempo o novo princípio da generosa
dádiva da graça e do Amor: "Recebei o Espírito
Santo". (118) Assim, neste "convencer quanto ao pecado",
descobrimos uma dupla dádiva: o dom da verdade da consciência,
com o dom da certeza da redenção. O Espírito da Verdade
é o Consolador.
O convencer quanto ao pecado, mediante o ministério do anúncio
apostólico na Igreja nascente, é referido - sob o impulso
do Espírito derramado no Pentecostes - ao poder redentor de Cristo
crucificado e ressuscitado. Assim se verifica a promessa relativa ao Espírito
Santo, feita antes da Páscoa: "Ele receberá do que
é meu, para vo-lo anunciar". Por conseguinte, durante o evento
do Pentecostes, quando São Pedro fala do pecado daqueles que "não
acreditaram" (119) e entregaram a uma morte ignominiosa Jesus de
Nazaré, ele dá testemunho da vitória sobre o pecado;
uma vitória que se consumou, em certo sentido, mediante o maior
pecado que o homem podia cometer: a morte de Jesus, Filho de Deus, consubstancial
ao Pai! De modo análogo, pois, como a morte do Filho de Deus vence
a morte humana: "Ero mors tua, o mors" [ó morte, eu hei-de
ser a tua morte], (12O) assim o pecado de ter crucificado o Filho de Deus
"vence" o pecado humano! Vence aquele pecado que se consumou
em Jerusalém, na Sexta-feira Santa, como também cada pecado
do homem. Com efeito, ao maior pecado da parte do homem corresponde, no
coração do Redentor, a oblação do supremo
amor, que supera o mal de todos os pecados dos homens. Com base nesta
certeza, a Igreja, na Liturgia romana, não hesita em repetir todos
os anos, durante a Vigília pascal, "O felix culpa!" [Ó
ditosa culpa!], no anúncio da Ressurreição que o
diácono faz com o canto do "Exultet".
32. Ninguém pode, todavia, "convencer o mundo", o homem
e a consciência humana quanto a esta verdade inefável a não
ser Ele mesmo, o Espírito da Verdade. Ele é o Espírito,
que "perscruta as profundezas de Deus". (121) Diante do mistério
do pecado, é preciso perscrutar "as profundezas de Deus"
até onde for possível. Não basta perscrutar a consciência
humana, como mistério íntimo do homem; mas é imprescindível
penetrar no mistério íntimo de Deus, naquelas "profundezas
de Deus" que se resumem na síntese: "ao Pai - no Filho
- por meio do Espírito Santo". É exactamente o Espírito
Santo que as "perscruta"; e a elas vai buscar a resposta de
Deus ao pecado do homem. Com essa resposta encerra-se o processo de "convencer
quanto ao pecado", como o acontecimento do Pentecostes põe
em evidência.
Convencendo o "mundo" do pecado do Gólgota, da morte
do Cordeiro inocente, como aconteceu no dia do Pentecostes, o Espírito
Santo convence também de todos os pecados cometidos em qualquer
lugar e em qualquer momento na história do homem: Ele, com efeito,
fez ver a sua conexão com a Cruz de Cristo. O "convencer"
é a demonstração do mal do pecado, de qualquer pecado,
em relação com a Cruz de Cristo. O pecado, quando mostrado
com esta relação, é reconhecido em toda dimensão
do mal que lhe é própria, como "mysterium iniquitatis"
[o mistério da iniquidade] (122) que em si mesmo contém
e esconde. O homem não conhece esta dimensão - não
a pode conhecer absolutamente, separando-a da Cruz de Cristo. Por isso,
não pode ser "convencido" quanto a ela se não
pelo Espírito Santo: Espírito da verdade, mas também
Consolador.
O pecado, de facto, mostrado em relação com a Cruz de Cristo,
é identificado simultaneamente na plena dimensão do "mysterium
pietatis" [mistério da piedade], (123) como foi indicado na
Exortação Apostólica pós-sinodal Reconciliatio
et Paenitentia. (124) O homem também não conhece, de maneira
nenhuma, esta dimensão do pecado fora da Cruz de Cristo. E também
não pode ser dela "convencido" se não pelo Espírito
Santo: por Aquele que "perscruta as profundezas de Deus".
3. O testemunho do princípio: a realidade original do pecado
33. A dimensão do pecado a que acabamos de aludir é a mesma
que encontramos no testemunho do "princípio" anotado
no Livro do Génesis: (125) no pecado que, segundo a Palavra de
Deus revelada, constitui o princípio e a raiz de todos os outros.
Encontramos-nos perante a realidade original do pecado na história
do homem, ao mesmo tempo que na globalidade da economia da salvação.
Pode dizer-se que nesse pecado tem início o "mistério
da iniquidade"; mas que o mesmo é também o pecado em
relação ao qual o poder redentor do "mistério
da piedade" se torna particularmente transparente e eficaz. É
o que exprime São Paulo, quando contrapõe à "desobediência"
do primeiro Adão a "obediência" de Cristo, o segundo
Adão: "a obediência até à morte".
(126)
Atendo-nos ao testemunho do princípio, o pecado na sua realidade
original verifica-se na vontade - e na consciência - do homem, primeiro
que tudo como "desobediência"; isto é, como oposição
da vontade do homem à vontade de Deus. Esta desobediência
original pressupõe a rejeição ou, pelo menos, o afastamento
da verdade contida na Palavra de Deus, que cria o mundo. Esta Palavra
é o próprio Verbo, que estava "no princípio
junto de Deus", que "era Deus" e sem o qual "coisa
alguma foi feita de tudo o que existe", porque o "mundo foi
feito por meio d'Ele". (127) É o Verbo, que é também
Lei eterna, fonte de toda a lei, que regula o mundo e especialmente os
actos humanos. Portanto, quando Jesus Cristo, na véspera da sua
Paixão, fala do pecado daqueles que "não acreditam
n'Ele", nestas suas palavras, repassadas de sofrimento, há
como que uma alusão longínqua àquele pecado que,
na sua forma original, se iriscreve obscuramente no próprio mistério
da criação. Aquele que fala é, de facto, não
só o Filho do homem, mas também Aquele que é "o
Primogénito de toda a criatura", "porque n'Ele foram
criadas todas as coisas: ... criadas por Ele, para Ele estão orientadas
todas as coisas". (128) À luz desta verdade, compreende-se
que a "desobediência", no mistério do princípio,
pressupõe, em certo sentido, a mesma "não-fé",
aquele mesmo "não acreditaram", que se repetirá
em relação ao mistério pascal. Como dizíamos,
trata-se da rejeição ou, pelo menos, do afastamento da verdade
contida na Palavra do Pai. Esta rejeição exprime-se, na
prática, como "desobediência", por um acto realizado
como efeito da tentação, que provém do "pai
da mentira". (129) Na raiz do pecado humano está, portanto,
a mentira como radical rejeição da verdade contida no Verbo
do Pai, mediante o qual se exprime a omnipotência amorosa do Criador:
a omnipotencia e conjuntamente o amor "de Deus Pai, Criador do céu
e da terra".
34. "O Espírito de Deus", que segundo a descrição
bíblica da criação, "adejava sobre as águas",
(130) indica o mesmo "Espírito que perscruta as profundezas
de Deus": perscruta as profundezas do Pai e do Verbo-Filho no mistério
da criação. Não é somente a testemunha directa
do seu recíproco amor, do qual deriva a criação,
mas Ele próprio é esse Amor. Ele mesmo, como Amor, é
o eterno Dom incriado. N'Ele está a fonte e o início de
toda a boa dádiva para as criaturas. O testemunho do princípio,
que encontramos em toda a Revelação, começando pelo
Livro do Génesis, é unânime quanto a este ponto. Criar
quer dizer chamar do nada à existência; portanto, criar quer
dizer doar a existência. E se o mundo visível foi criado
para o homem, é ao homem, portanto, que o mundo é doado.
(131) E, simultaneamente, o mesmo homem recebe na sua própria humanidade,
como dom, uma especial "imagem e semelhança" de Deus.
Isto significa estar dotado não só de racionalidade e liberdade,
como propriedade constitutiva da natureza humana, mas também de
capacidade, desde o princípio, para uma relação pessoal
com Deus, como "eu" e "tu" e, por conseguinte, capacidade
de aliança, que se verificará com a comunicação
salvífica de Deus ao homem. Com este pano de fundo da "imagem
e semelhança de Deus", "o dom do Espírito"
significa, afinal, chamamento à amizade, na qual as transcendentes
"profundezas de Deus", são abertas, de algum modo, à
participação por parte do homem. O Concílio Vaticano
II ensina: "Deus invisível (cf. Col 1, 15; 1 Tim 1, 17), na
riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo
15, 14-15) e conversa com eles (cf. Bar 3, 38), para os convidar e os
admitir à comunhão com Ele". (132)
35. Por conseguinte, o Espírito, que "perscruta todas as coisas,
até mesmo as profundezas de Deus", conhece desde o princípio
"os segredos do homem". (133) Exactamente por isto, só
Ele pode plenamente "convencer quanto ao pecado" que se verificou
no princípio, aquele pecado que é raiz de todos os outros
e o foco de irradiação da pecaminosidade do homem na terra,
que jamais se extingue. O Espírito da verdade conhece a realidade
originária do pecado, causado na vontade do homem por obra do "pai
da mentira" - daquele que já "está julgado".
(134) O Espírito Santo convence, pois, o mundo quanto ao pecado
em relação com este "juízo"; mas constantemente
orientando no sentido da "justiça", que foi revelada
ao homem juntamente com a Cruz de Cristo: mediante a "obediência
até à morte". (135)
Somente o Espírito Santo pode convencer do pecado dos primórdios
do ser humano, exactamente Ele que é o Amor do Pai e do Filho,
Ele que é Dom, enquanto o pecado do princípio humano consiste
na mentira e na recusa do Dom e do Amor, os quais decidem do princípio
do mundo e do homem.
36. Segundo o testemunho do princípio - que encontramos na Escritura
e na Tradição, em continuidade com a primeira (e também
mais completa) descrição no Livro do Génesis - o
pecado na sua forma originária é entendido como "desobediência",
o que significa simples e directamente transgressão de uma proibição
feita por Deus. (136) Mas, à luz de todo o contexto, é também
evidente que as raízes desta desobediência devem ser procuradas
em profundidade na real situação do homem, globalmente considerada.
Chamado à existência, o ser humano - homem e mulher - é
uma criatura. A "imagem de Deus", que consiste na racionalidade
e na liberdade, denota a grandeza e a dignidade do sujeito humano, que
é pessoa. Mas este sujeito pessoal, não obstante isso, é
sempre uma criatura: na sua existência e essência depende
do Criador. Segundo o Livro do Génesis, "a árvore do
conhecimento do bem e do mal" devia exprimir e lembrar constantemente
ao homem o "limite" intransponível para um ser criado.
É neste sentido que deve ser entendida a proibição
da parte de Deus: o Criador proíbe ao homem e à mulher comerem
os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal. As palavras
da instigação, ou seja da tentação, como está
formulada no texto sagrado, induzem a transgredir essa proibição
- isto é, a superar o "limite": "Quando o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e tornar-vos-eis como Deus ("como
deuses"), conhecendo o bem e o mal". (137)
A "desobediência" significa precisamente "passar
além" daquele "limite", que permanece intransponível
para a vontade e liberdade do homem, como ser criado. O Deus Criador é,
de facto, a única e definitiva fonte da ordem moral no mundo por
Ele criado. O homem não pode por si mesmo decidir o que é
bom e o que é mau - não pode "conhecer o bem e o mal,
como Deus". Sim, no mundo criado, Deus permanece a primeira e soberana
fonte para decidir sobre o bem e o mal, mediante a íntima verdade
do ser, a qual é reflexo do Verbo, eterno Filho, consubstancial
ao Pai. Ao homem, criado à imagem de Deus, o Espírito Santo
concede como dom a consciência, a fim de que nela a imagem possa
reflectir fielmente o seu modelo, que é, a um tempo, a própria
Sabedoria e a Lei eterna, fonte da ordem moral no homem e no mundo. A
"desobediência", como dimensão originária
do pecado, significa recusa desta fonte, pela pretensão da parte
do homem de se tornar fonte autónoma e exclusiva para decidir sobre
o bem e o mal. O Espírito que "perscruta as profundezas de
Deus" e que, ao mesmo tempo, é para o homem a luz da consciência
e a fonte da ordem moral, conhece em toda a sua amplitude esta dimensão
do pecado, que se inscreve no mistério do princípio humano.
E não cessa de "convencer o mundo" disso mesmo em relação
com a Cruz de Cristo no Gólgota.
37. Segundo o testemunho do princípio, Deus na criação
revelou-se a si mesmo como omnipotência, que é Amor. Simultaneamente,
revelou ao homem que, como "imagem e semelhança" do seu
Criador, ele é chamado a participar na verdade e no amor. Esta
participação significa uma vida em união com Deus,
que é a "vida eterna". (138) Mas o homem, sob a influência
do "pai da mentira" afastou-se desta participação.
Em que medida? Não, certamente, na medida do pecado de um espírito
puro, na medida do pecado de Satanás. O espírito humano
é incapaz de atingir uma tal medida. (139) Na própria descrição
do Génesis, é fácil notar a diferença de grau
entre o sopro do mal por parte daquele que é pecador (ou seja,
permanece no pecado) "desde o princípio" (140) e que
já "está julgado", (141) e o mal da desobediência
da parte do homem.
Esta desobediência, todavia, significa sempre um voltar as costas
a Deus e, num certo sentido, o fechar-se da liberdade humana em relação
a Ele. Significa também certa abertura desta liberdade - da consciência
e da vontade humanas - para com aquele que é o "pai da mentira".
Este acto de opção consciente não é só
"desobediência", mas traz consigo também uma certa
adesão à motivação contida na primeira instigação
ao pecado e incessantemente renovada ao longo de toda a história
do homem sobre a face da terra: "Deus sabe que no dia, em que o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo
o bem e o mal".
Encontramo-nos aqui exactamente no centro do que poderia chamar-se o "anti-Verbo",
isto é, "a antiverdade". Com efeito, é falseada
a verdade do homem: de quem é o homem e de quais são oslimites
intransponíveis do seu ser e da sua liberdade. Esta "antiverdade"
é possível porque é ao mesmo tempo "falseada"
completamente a verdade sobre quem é Deus. Deus criador passa a
ser colocado em estado de suspeição, ou, melhor dito, em
estado de acusação directamente, na consciência da
criatura. Pela primeira vez na história do homem, aparece o perverso
"génio da suspeição". Ele procura "falsear"
o próprio Bem, o Bem absoluto, que exactamente na obra da criação
se manifestou como o Bem que se doa de modo inéfavel: como "bonum
diffusivum sui", como Amor criador. Quem poderia "convercer"
plenamente "do pecado" isto é, dessa motivação
da desobediência originária do homem, se não Aquele
único que é o Dom e a fonte de toda a dádiva, se
não o Espírito, que "perscruta as profundezas de Deus"
e é o Amor do Pai e do Filho?
38. Realmente, apesar de tudo o que testemunha a criação
e a economia salvífica a ela inerente, o espírito das trevas
(142) é capaz de mostrar Deus como inimigo da própria criatura;
e, primeiro que tudo, como inimigo do homem, como fonte de perigo e de
ameaça para o homem. Deste modo, é enxertado por Satanás
na psicologia do homem o gérmen da oposição relativamente
Aquele que, "desde o princípio", há-de ser considerado
como inimigo do homem - e não como Pai. O homem é desafiado
para se tornar adversário de Deus!
A análise do pecado na sua dimensão originária indica
que, da parte do "pai da mentira", ao longo da história
da humanidade irá dar-se uma constante pressão para a rejeição
de Deus por parte do homem, até ao ódio: "amor sui
usque ad contemptum Dei" [amor de si mesmo até ao desprezo
de Deus] como se exprime Santo Agostinho. (143) O homem será propenso
a ver em Deus, antes de mais nada, uma limitação para si
próprio e não a fonte da sua libertação e
a plenitude do bem. Vemos isto confirmado na época moderna, quando
as ideologias ateias tendem a desarraigar a religião, baseando-se
no pressuposto de que ela determinaria a "alienação"
radical do homem, como se este fosse expropriado da sua humanidade quando,
ao aceitar a ideia de Deus, lhe atribui a Ele aquilo que pertence ao homem
e exclusivamente ao homem! Daqui nasce um processo de pensamento e de
práxis histórico-sociológica, em que a rejeição
de Deus chegou até à declaração da sua "morte",
o que é um absurdo: conceitual e verbal! Mas a ideologia da "morte
de Deus" ameaça sobretudo o homem, como indica o Concílio
Vaticano II, quando, ao analisar a questão da "autonomia das
coisas temporais", escreve: "A criatura sem o Criador perde
o sentido... Mais ainda, o esquecimento de Deus faz com que a própria
criatura se obscureça". (144) A ideologia da "morte de
Deus", pelos seus efeitos, facilmente demonstra ser, tanto no plano
da teoria como no de prática, a ideologia da "morte do homem".
4. O Espírito que transforma o sofrimento em amor salvífico
39. "O Espírito, que perscruta as profundezas de Deus",
foi chamado por Jesus, no discurso do Cenáculo, o Paráclito.
Ele, de facto, desde o princípio "é invocado"
(145) para "convencer o mundo quanto ao pecado".É invocado,
de modo definitivo, por meio da Cruz de Cristo. Convencer do pecado quer
dizer demonstrar o mal nele contido. Isto equivale a desvendar o "mysterium
iniquitatis" [mistério da iniquidade]. Não é
possível atingir o mal do pecado em toda a sua dolorosa realidade
sem "perscrutar as profundezas de Deus". O obscuro mistério
do pecado apareceu no mundo, desde o princípio, no quadro da referência
ao Criador da liberdade humana. E apareceu como um acto da vontade da
criatura-homem contrário à vontade de Deus: contrário
a vontade salvífica de Deus; ou melhor, manifestou-se em oposição
à verdade, com base na mentira já definitivamente "julgada"
- mentira que colocou em estado de acusação, em estado de
permanente suspeição o próprio Amor criador e salvífico.
O homem seguiu o "pai da mentira", pondo-se contra o Pai da
vida e o Espírito da verdade.
O "convencer quanto ao pecado", portanto, não deveria
significar também revelar o sofrimento, revelar a dor, inconcebível
e inexprimível, que, por causa do pecado, o Livro Sagrado, na sua
visão antropomórfica, parece entrever nas "profundezas
de Deus" e, em certo sentido, no próprio coração
da inefável Trindade? A Igreja, inspirando-se na Revelação,
crê e professa que o pecado é of ensa a Deus. O que é
que, na imperscrutável intimidade do Pai, do Verbo e do Espírito
Santo, corresponde a esta "ofensa", a esta recusa do Espírito
que é Amor e Dom? A concepção de Deus, como ser necessariamente
perfeitíssimo, exclui, por certo, em Deus, qualquer espécie
de sofrimento, derivante de carências ou feridas; mas nas "profundezas
de Deus" há um amor de Pai que, diante do pecado do homem,
reage, segundo a linguagem bíblica, até ao ponto de dizer:
"Estou arrependido de ter criado o homem". (146) "o Senhor
viu que a maldade dos homens era grande sobre a terra ... E o Senhor arrependeu-se
de ter criado o homem sobre a terra ... O Senhor disse: "Estou arrependido
de os ter feito"". (147) Mas o Livro Sagrado, mais frequentemente,
fala-nos de um Pai que experimenta compaixão pelo homem, como que
compartilhando a sua dor. Esta imperscrutável e indizível
"dor" de Pai, em definitivo, gerará sobretudo a admirável
economia do amor redentor em Jesus Cristo, para que, através do
"mistério da piedade", o amor possa revelar-se mais forte
do que o pecado, na história do homem. Para que prevaleça
o"Dom"!
O Espírito Santo, que, segundo as palavras de Jesus, "convence
quanto ao pecado", é o Amor do Pai e do Filho; e, como tal,
é o Dom trinitário e, simultaneamente, a eterna fonte de
toda a dádiva divina às criaturas. N'Ele, precisamente,
nós podemos conceber como que personificada e actuada de uma maneira
transcendente a virtude da misericórdia, que a tradição
patrística e teológica, na linha do Antigo e do Novo Testamento,
atribui a Deus. No homem, a misericórdia inclui a dor e a compaixão
pelas misérias do próximo. Em Deus, o Espírito que
é Amor faz com que a consideração do pecado humano
se traduza em novas dádivas do amor salvífico. D'Ele, na
unidade com o Pai e o Filho, nasce a economia da salvação,
que enche a história do homem com os dons da Redenção.
Se o pecado, rejeitando o amor, gerou o "sofrimento" do homem
que, de algum modo, se estendeu a toda a criação, (148)
o Espírito Santo entrará no sofrimento humano e cósmico
com uma nova efusão de amor, que redimirá o mundo. E nos
lábios de Jesus Redentor, em cuja humanidade se concretiza o "sofrimento
de Deus", ressoará com frequência uma palavra em que
se manifesta o Amor eterno e cheio de misericórdia: "Misereor"
(tenho compaixão). (149) Assim, "o convencer quanto ao pecado",
por parte do Espírito Santo, torna-se um manifestar diante da criação
"submetida à caducidade" e, sobretudo, no mais íntimo
das conciências humanas, que o pecado é vencido pelo sacrifício
do Cordeiro de Deus: este tornou-se "até à morte"
o servo obediente que, reparando a desobediência do homem, opera
a redenção do mundo. É deste modo, que o Espírito
da verdade, o Paráclito, "convence quanto ao pecado".
40. O valor redentor do sacrifício de Cristo é expresso
com palavras muito significativas pelo autor da Epístola aos Hebreus,
o qual, depois de ter recordado os sacrifícios da Antiga Aliança,
em que "o sangue dos cordeiros e dos touros ... santifica quanto
à pureza da carne", acrescenta: "Quanto mais o sangue
de Cristo, em virtude de um Espírito eterno se ofereceu a si mesmo
sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência
das obras mortas, para servir o Deus vivo!". (150) Embora conscientes
de que outras interpretações são possíveis,
as nossas considerações sobre a presença do Espírito
Santo em toda a vida de Cristo levam-nos a reconhecer neste texto como
que um convite a reflectir sobre a presença do mesmo Espírito
também no sacrifício redentor do Verbo Incarnado.
Reflictamos primeiro sobre as palavras iniciais que tratam deste sacrifício;
depois, separadamente, sobre a "purificação da consciência"
que ele opera. Trata-se de facto, de um sacrifício oferecido "em
virtude de" (=por obra de) um Espírito eterno", que dele
"recebe" a força do "convencer quanto ao pecado"
em ordem à salvação. É o mesmo Espírito
Santo de que Jesus Cristo será "portador" para os Apóstolos
no dia da sua ressurreição, segundo a promesa do Cenáculo,
apresentando-se a eles com as feridas da crucifixão, e que lhes
"dará" "para a remissão dos pecados":
"Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados,
ser-lhes-ão perdoados". (151)
Nós sabemos que "Deus ungiu com o Espírito Santo e
com o poder a Jesus de Nazaré", como dizia Simão Pedro
em casa do centurião Cornélio. (152) Conhecemos o mistério
pascal da sua "partida", segundo o Evangelho de Sao João.
As palavras da Epístola aos Hebreus explicam-nos, agora, de que
maneira Cristo "se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus",
e como fez isto "em virtude de um Espírito eterno". No
sacrifício do Filho do homem, o Espírito Santo está
presente e age tal como agia na sua concepção, na sua vinda
ao mundo, na sua vida oculta e no seu ministério público.
Segundo a Epístola aos Hebreus, na caminhada para a sua "partida",
através do Getsémani e do Gólgota, o próprio
Jesus Cristo se abriu totalmente na sua humanidade à acção
do Espírito-Paráclito que, do sofrimento, faz emergir o
eterno amor salvífico. Ele, portanto, foi "atendido pela sua
piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obedecer pelos sofrimentos
suportados". (153) Deste modo, a Epístola demonstra como a
humanidade, submetida ao pecado nos descendentes do primeiro Adão,
se tornou em Jesus Cristo perfeitamente submetida a Deus e a ele unida,
e, ao mesmo tempo, cheia de misericórdia para com os homens. Aparece
assim uma nova humanidade que, em Jesus Cristo, mediante o sofrimento
da Cruz, retornou ao amor, traído por Adão com o pecado.
Esta nova humanidade reencontra-se na mesma fonte divina do dom original:
no Espírito que "perscruta ... as profundezas de Deus"
e que é ele próprio Amor e Dom.
O Filho de Deus, Jesus Cristo - como homem - , na oração
ardente da Sua paixão, permitiu ao Espírito Santo, que já
tinha penetrado até ao mais profundo a sua humanidade, transformá-la
num sacrifício perfeito mediante o acto da sua morte, como vítima
de amor na Cruz. Foi Ele, sozinho, quem fez esta oblação.
Como único Sacerdote, "ofereceu-se a si mesmo sem mácula
a Deus". (154) Na sua humanidade Ele era digno de se tornar um tal
sacrifício, porque Ele só era "sem mácula".
Mas ofereceu-o "em virtude de um Espírito eterno": o
que equivale a dizer que o Espírito Santo agiu de um modo especial
nesta autodoação absoluta do Filho do homem, para transformar
o sofrimento em amor redentor.
41. No antigo Testamento, por mais de uma vez se fala do "fogo do
céu", que queimava as oferendas apresentadas pelos homens.
(155) Por analogia, pode dizer-se que o Espírito Santo é
"fogo do céu" que age no mais profundo do mistério
da Cruz. Provindo do Pai, Ele encaminha para o Pai o sacrifício
do Filho, introduzindo-o na divina realidade da comunhão trinitária.
Se o pecado gerou o sofrimento, agora o sofrimento de Deus em Cristo crucificado
adquire, pelo Espírito Santo, a sua plena expressão humana.
Encontramo-nos assim diante de um mistério paradoxal de amor: em
Cristo, sofre um Deus rejeitado pela sua própria criatura: "Não
crêem em mim!"; mas, ao mesmo tempo, à profundeza deste
sofrimento - e indirectamente à profundeza do próprio pecado
"de não ter acreditado" - o Espírito Santo vai
buscar uma nova medida do dom feito ao homem e à criação
desde o princípio. Nas profundezas do mistério da Cruz está
operante o Amor, que reconduz o homem a participar novamente na vida,
que está no próprio Deus.
O Espírito Santo como Amor e Dom desce, em certo sentido, ao próprio
coração do sacrifício que é oferecido na Cruz.
Referindo-nos à tradição bíblica podemos dizer:
Ele consuma este sacrifício com o fogo do Amor, que une o Filho
ao Pai na comunhão trinitária. E dado que o sacrifício
da Cruz é um acto próprio de Cristo, também neste
sacrifício Ele "recebe" o Espírito Santo. E recebe-o
de tal modo, que depois Ele mesmo - e Ele somente com Deus Pai - o pode
"dar" aos Apóstolos, à Igreja e à humanidade.
Ele só o "envia" de junto do Pai. (156) Ele só
se apresenta diante dos Apóstolos reunidos no Cenáculo,
"sopra sobre eles" e diz: "Recebei o Espírito Santo.
Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados",
(157) como tinha preanunciado João Baptista: "Ele baptizar-vos-á
com o Espírito Santo e com O fogo". (158) Com estas palavras
de Jesus o Espírito Santo é revelado e ao mesmo tempo é
tornado presente como Amor que está operante no mais profundo do
mistério pascal, como fonte do poder salvífico da Cruz de
Cristo, como Dom da vida nova e eterna.
Esta verdade sobre o Espírito Santo é expressa quotidianamente
na Liturgia romana, quando o Sacerdote, antes da comunhão, profere
estas palavras significativas: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus
vivo, que, por vontade do Pai, cooperando o Espírito Santo, destes
vida ao mundo pela vossa morte ...". E na Oração Eucarística
III, referindo-se à mesma economia salvífica, o Sacerdote
pede a Deus que o Espírito Santo "faça de nós
uma of erenda permanente" que lhe seja agradável.
5. "O sangue que purifica a consciência"
42. Dissémos que, no ponto culminante do mistério pascal,
o Espírito Santo é definitivamente revelado e tornado presente
de uma maneira nova. Cristo ressuscitado diz aos Apóstolos: "Recebei
o Espírito Santo". Deste modo, é revelado o Espírito
Santo, porque as palavras de Cristo constituem a confirmação
das promessas e dos anúncios do discurso do Cenáculo. E
por isso mesmo o Paráclito é tornado presente de uma maneira
nova. Ele, na realidade, actuava já desde o início no mistério
da criação e ao longo de toda a história da Antiga
Aliança de Deus com o homem. A sua acção foi plenamente
confirmada pela missão do Filho do homem como Messias, que veio
pelo poder do Espírito Santo. No ápice da missão
messiânica de Jesus, o Espírito Santo torna-Se presente no
mistério pascal em toda a sua subjectividade divina: como Aquele
que deve continuar agora a obra salvífica radicada no sacrifício
da Cruz. Esta obra, sem dúvida, foi confiada por Jesus a homens:
aos Apóstolos e à Igreja. No entanto, nestes homens e por
meio deles, o Espírito Santo permanece o transcendente sujeito
protagonista da realização desta obra, no espírito
do homem e na história do mundo: Ele, o Paráclito invisível
e, simultaneamente, omnipresente! O Espírito que "sopra onde
quer". (159)
As palavras pronunciadas por Cristo ressuscitado, no "primeiro dia
depois do sábado", dão particular relevo à presença
do Paráclito-Consolador, como Aquele que "convence o mundo
quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo".
Só com esta referência se explicam, efectivamente, as palavras
que Jesus põe em relação directa com o "dom"
do Espírito Santo aos Apóstolos. Ele diz: "Recebei
o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados,
ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão
retidos". (160) Jesus assim confere aos Apóstolos o poder
de perdoar os pecados, para que eles o transmitam aos seus sucessores
na Igreja. Todavia, este poder, concedido aos homens, pressupõe
e inclui a acção salvífica do Espírito Santo.
Tornando-Se "luz dos corações" (161) - isto é,
das consciências - o Espírito Santo "convence quanto
ao pecado", ou seja, leva o homem a conhecer o seu mal e, ao mesmo
tempo, orienta-o para o bem. Graças à multiplicidade dos
seus dons - pelo que Ele é invocado como o "septiforme"
- o poder salvífico de Deus pode atingir toda a espécie
de pecados do homem. Na realidade, como diz São Boaventura, "todos
os males são destruídos, ao mesmo tempo que são proporcionados
todos os bens". (162)
Sob o influxo do Consolador, realiza-se, portanto, a conversão
do coração humano, que é a condição
indispensável para o perdão dos pecados. Sem uma verdadeira
conversão, que implica uma contrição interior, e
sem um sincero e firme propósito de mudança, os pecados
permanecem "não-perdoados" (retidos), como diz Jesus
e, com Ele, toda a Tradição da Antiga e da Nova Aliança.
Com efeito, as primeiras palavras pronunciadas por Jesus no início
do Seu ministério, segundo o Evangelho de São Marcos, são
as seguintes: "Convertei-vos e acreditai no Evangelho". (163)
Temos uma confirmação desta exortação no "convencer
quanto ao pecado" que o Espírito Santo empreende, de uma maneira
nova, em virtude da Redenção operada pelo Sangue do Filho
do homem. Por esta razão a Epístola aos Hebreus afirma que
este "sangue purifica a consciência". (164) Portanto,
este sangue abre ao Espírito Santo, em certo sentido, o caminho
para o íntimo do homem, isto é, para o santuário
das consciências humanas.
43. O Concílio Vaticano II recordou a doutrina católica
sobre a consciência, ao falar da vocação do homem
e, em particular, da dignidade da pessoa humana. É a consciência,
precisamente, que determina de modo específico essa dignidade.
Ela, efectivamente, é "o centro mais secreto do homem, o santuário
onde ele se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa no seu íntimo".
Voz que, claramente ... "ressoa aos ouvidos do coração:
faz isto, evita aquilo". Tal capacidade de ordenar o bem e proibir
o mal, inserida pelo Criador no homem é a propriedade principal
do sujeito pessoal. Mas, ao mesmo tempo, "no fundo da sua consciência
o homem descobre a presença de uma lei, que ele não impôs
a si mesmo, mas à qual deve obedecer". (165) A consciência,
portanto, não é uma fonte autónoma e exclusiva para
decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário,
nela está inscrito profundamente um princípio de obediência
relacionado com a norma objectiva, que fundamenta e condiciona a conformidade
das suas decisões com os mandamentos e as proibições
que estão na base do comportamento humano, como já transparece
naquela página do Livro do Génesis, a que fizemos referência.
(166) Precisamente neste sentido, a consciência é o "santuário
íntimo" onde "a voz de Deus se faz ouvir". E é
a "voz de Deus" sempre, mesmo quando o homem reconhece exclusivamente
nela o princípio da ordem moral de que humanamente não se
pode duvidar, eventualmente sem referência directa ao Criador: a
consciência encontra sempre o seu fundamento e a sua justificação
nesta referência.
O "convencer quanto ao pecado", sob o influxo do Espírito
da verdade, de que fala o Evangelho, não pode realizar-se no homem
por outro meio que não seja o da consciência. Se a consciência
for recta, ela servirá "para resolver segundo a verdade os
problemas morais, que se apresentam tanto na vida individual, como na
vida social". Então, "as pessoas e os grupos sociais
estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se
com as normas objectivas da moralidade". (167)
O fruto da consciência recta é, primeiro que tudo, o chamar
pelo seu nome o bem e a mal, como faz, por exemplo, a mesma Constituição
pastoral a que acabámos de aludir: "Tudo aquilo que se opõe
à própria vida, como sejam os homicídios de qualquer
espécie, os genocídios, os abortos, a eutanásia e
mesmo o suicídio voluntário; tudo aquilo que constitui uma
violação da integridade da pessoa humana, como sejam as
mutilações, as torturas morais ou físicas, as pressões
psicológicas; tudo aquilo que ofende a dignidade do homem, como
sejam as condições infra-humanas de vida, as prisões
arbitrárias, as deportações, a escravatura, a prostituição,
o comércio de mulheres e de jovens, ou ainda as condições
de trabalho degradantes, que reduzem os operários a meros instrumentos
de lucro, sem ter em conta a sua personalidade livre e responsável".
E, depois de ter chamado pelo seu nome os múltiplos pecados tão
frequentes e difundidos no nosso tempo, acrescenta: "Todas estas
coisas e outras semelhantes são, na verdade, uma infâmia;
ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram
mais os que a elas se entregam do que aqueles que sofrem a injúria;
e ofendem gravemente a honra devida ao Criador". (168)
Ao chamar pelo nome os pecados que mais desonram o homem, e demonstrando
que eles são um mal moral que influi negativamente sobre qualquer
balanço do progresso da humanidade, o Concílio apresenta
tudo isso como uma etapa "de uma luta dramática entre o bem
e o mal, entre a luz e as trevas", que caracteriza "toda a vida
humana, quer individual quer colectiva". (169) A Assembleia do Sínodo
dos Bispos de 1983, sobre a reconciliação e a penitência,
apresentou ainda em termos mais precisos o significado pessoal e social
do pecado do homem. (170)
44. No Cenáculo, na véspera da sua Paixão, e depois
na tarde da Páscoa, Jesus Cristo apelou para o Espírito
Santo como para Aquele que testemunha que na história da humanidade
o pecado continua a existir. Todavia, o pecado está submetido ao
poder salvífico da Redenção. O "convencer o
mundo quanto ao pecado" é algo que não pára
pelo facto de ele ser chamado com o seu nome e identificado por aquilo
que é, em toda extensão da sua natureza. Ao convencer o
mundo quanto ao pecado, o Espírito da verdade encontra-se com a
voz das consciências humanas.
Dessa maneira se chega a por à mostra as raízes do pecado,
que se encontram no íntimo do homem, como também evidencia
a Constituição pastoral já citada: "Na verdade,
os desequilíbrios de que sofre o mundo contemporâneo estão
ligados com un desequilíbrio mais fundamental, que se enraíza
no coração do homem. São muitos os elementos que
se combatem no próprio homem. Por um lado, como criatura, ele experimenta
as suas múltiplas limitações; por outro lado, sente-se
ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído
por muitas solicitações, ele vê-se a todo o momento
constrangido a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda,
fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz
o que desejaria fazer". (171) O texto conciliar faz aqui referência
às palavras de São Paulo que são bem conhecidas.
(172)
O "convencer quanto ao pecado", que acompanha a consciência
humana todas as vezes que ela reflecte em profundidade sobre si mesma
, leva, pois, à descoberta das raízes do mesmo pecado no
homem, como também dos condicionamentos da própria consciência
no curso da história. Reencontramos assim a realidade originária
do pecado, da qual já falamos. O Espírito Santo "convence
quanto ao pecado" em relação ao mistério do
princípio, indicando o facto de que o homem é um ser-criado
e que, portanto, está em total dependência ontológica
e ética do Criador, e recordando, ao mesmo tempo, a condição
pecadora hereditária da natureza humana. Mas o Espírito
Santo-Consolador "convence quanto ao pecado" sempre em relação
com a Cruz de Cristo. Nesta relação, o cristianismo rejeita
toda a "fatalidade" do pecado. "Um duro combate contra
os poderes das trevas atravessa, com efeito, toda a história humana;
começado nas origens do mundo, durará, como diz o Senhor,
até ao último dia", conforme ensina o Concílio.
(173) "Mas o Senhor em pessoa veio para libertar o homem e dar-lhe
a força". (174) O homem, portanto, longe de se deixar "enredar"
na sua condição de pecador, apoiando-se na voz da própria
consciência, "deve combater sem tréguas para aderir
ao bem; nem pode conseguir a sua unidade interior se não a preço
de grandes esforços e com a ajuda da graça de Deus".
(175) O Concílio justamente encara o pecado como factor da ruptura,
que pesa tanto sobre a vida pessoal como sobre a vida social do homem;
mas, ao mesmo tempo, recorda vigorosamente a possibilidade da vitória.
45. O Espírito da verdade, que "convence o mundo quanto ao
pecado", encontra-se com os esforços da consciência
humana, de que falam os textos conciliares de maneira muito sugestiva.
Estes esforços da consciência determinam também os
caminhos das conversões humanas: voltar as costas ao pecado, para
reconstruir a verdade e o amor no próprio coração
do homem. Sabe-se que a consciência não só manda ou
proíbe, mas julga à luz das ordens e proibições
interiores. Ela é também a fonte dos remorsos: o homem sofre
interiormente por causa do mal cometido. Não será este sofrimento
como que um eco longínquo daquele "arrependimento por ter
criado o homem", que o Livro Sagrado, com uma linguagem antropomórfica,
atribui a Deus? Um eco daquela "reprovação" que,
inscrevendo-se no "coração" da Santíssima
Trindade, se traduz na dor da Cruz, na obediência de Cristo até
à morte, em virtude do amor eterno? Quando o Espírito da
verdade, que "convence o mundo quanto ao pecado", permite à
consciência humana participar naquela dor, então a dor da
consciência torna-se particularmente profunda, mas também
particularmente salvífica. E assim, mediante um acto de contrição
perfeita, opera-se a conversão autêntica do coração:
é a "metánoia" evangélica.
Os esforços do coração humano, os esforços
da consciência, graças aos quais se opera esta "metánoia"
ou conversão, são o reflexo do processo pelo qual a reprovação
é transformada em amor salvífico, que sabe sofrer. O dispensador
escondido desta força de salvação é o Espírito
Santo: Ele, que é chamado pela Igreja "luz das consciências",
penetra e enche as "profundezas dos corações"
humanos. (176) Mediante esta conversão no Espírito Santo,
o homem abre-se ao perdão e à remissão dos pecados,
como testemunham as palavras pronunciadas por Jesus na tarde da Páscoa.
E em todo este admirável dinamismo da conversão-remissão,
é comSrmada a verdade daquilo que escreve Santo Agostinho sobre
o mistério do homem, ao comentar as palavras do Salmo: "Um
abismo chama outro abismo". (177) É exactamente em relação
a esta "profundidade abissal" do homem, da consciência
humana, que se cumpre a missão do Filho e do Espírito Santo.
O Espírito Santo "vem" em virtude da "partida"
de Cristo no mistério pascal; vem em cada caso concreto de conversão-remissão,
em virtude do sacrifício da Cruz: nele, realmente, "o sangue
de Cristo... purifica a nossa consciência das obras mortas, para
servir o Deus vivo". (178) Cumprem-se assim, continuamente, as palavras
sobre o Espírito Santo apresentado como "um outro Consolador",
as palavras dirigidas no Cenáculo aos Apóstolos e indirectamente
a todos: "Vós o conheceis porque Ele habita entre vós
e em vós estará". (179)
6. O pecado contra o Espírito Santo
46. Tendo em conta tudo o que temos vindo a dizer até agora, tornam-se
mais compreensíveis algumas outras palavras impressionantes e surpreendentes
de Jesus. Poderemos designá-las como as palavras do "não-perdão".
São-nos referidas pelos Sinópticos, a propósito de
um pecado particular, que é chamado "blasfêmia contra
o Espírito Santo". Elas foram expressas na tríplice
redacção dos Evangelistas do seguinte modo:
São Mateus: "Todo o pecado e blasfêmia serão
perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo
não será perdoada. E àquele que falar contra o Filho
do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, a quem falar contra o Espírito
Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro".
(180)
São Marcos: "Aos filhos dos homens serão perdoados
todos os pecados e todas as blasfêmias que proferirem; todavia,
quem blasfemar contra o Espírito Santo, jamais terá perdão,
mas será réu de pecado eterno". (181)
São Lucas: "E a todo aquele que disser uma palavra contra
o Filho do homem, perdoar-se-á; mas a quem tiver blasfemado contra
o Espírito Santo, não lhe será perdoado". (182)
Porquê a "blasfêmia" contra o Espírito Santo
é imperdoável? Em que sentido entender esta "blasfemia"?
Santo Tomás de Aquino responde que se trata da um pecado "imperdoável
por sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças
aos quais é concedida a remissão dos pecados". (183)
Segundo uma tal exegese, a "blasfêmia" não consiste
propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste,
antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece
ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do
sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se "convencer
quanto ao pecado", que provém do Espírito Santo e tem
carácter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a "vinda"
do Consolador: aquela "vinda" que se efectuou no mistério
da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo:
o Sangue que "purifica a consciência das obras mortas".
Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão
dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue
permanece nas "obras mortas", no pecado. E a "blasfêmia
contra o Espírito Santo" consiste exactamente na recusa radical
de aceitar esta remissão, de que Ele é o dispensador íntimo
e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada
na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito
Santo não pode ser perdoado nem nesta vida nem na futura, é
porque esta "não-remissão" está ligada,
como à sua causa, à "não-penitência",
isto é, à recusa radical a converter-se. Isto equivale a
uma recusa radical de ir até às fontes da Redenção;
estas, porém, permanecem "sempre" abertas na economia
da salvação, na qual se realiza a missão do Espírito
Santo. Este tem o poder infinito de haurir destas fontes: "receberá
do que é meu", disse Jesus. Deste modo, Ele completa nas almas
humanas a obra da Redenção, operada por Cristo, distribuindo
os seus frutos. Ora a blasfêmia contra o Espírito Santo é
o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso "direito"
de perseverar no mal - em qualquer pecado - e recusa por isso mesmo a
Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível
da sua parte a própria conversão e também, consequentemente,
a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não
importante para a sua vida. É uma situação de ruína
espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não
permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou
e abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências
e da remissão dos pecados.
47. A acção do Espírito da verdade, que tende ao
salvífico "convencer quanto ao pecado", encontra no homem
que esteja em tal situação uma resistência interior,
uma espécie de impermeabilidade da consciência. um estado
de alma que se diria endurecido em razão de uma escolha livre:
é aquilo que a Sagrada Escritura repetidamente designa como "dureza
de coração". (184) Na nossa época, a esta atitude
da mente e do coração corresponde talvez a perda do sentido
do pecado, à qual dedica muitas páginas a Exortação
Apostólica Reconciliatio et Paenitentia. (185) Já o Papa
Pio XII tinha afirmado que "o pecado do século é a
perda do sentido do pecado". (186) E esta perda vai de par com a
"perda do sentido de Deus". Na Exortação acima
citada, lemos: "Na realidade, Deus é a origem e o fim supremo
do homem, e este leva consigo um gérmen divino. Por isso, é
a realidade de Deus que desvenda e ilumina o mistério do homem.
É inútil, pois, esperar que ganhe consistência um
sentido do pecado no que respeita ao homem e aos valores humanos, quando
falta o sentido da ofensa cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro
sentido do pecado". (187)
É por isso que a Igreja não cessa de implorar de Deus a
graça de que não venha a faltar nunca a rectidão
nas consciências humanas, que não se embote a sua sensibilidade
sã diante do bem e do mal. Esta rectidão e esta sensibilidade
estão profundamente ligadas à acção íntima
do Espírito da verdade. Sob esta luz, adquirem particular eloquência
as exortações do Apóstolo: "Não extingais
o Espírito!". "Não contristeis o Espírito
Santo!". (188) Mas sobretudo, a Igreja não cessa de implorar,
com todo o fervor, que não aumente no mundo o pecado designado
no Evangelho por "blasfêmia contra o Espírito Santo";
e, mais ainda, que ele se desvie da alma dos homens - e como repercussão,
dos próprios meios e das diversas expressões da sociedade
- deixando espaço para a abertura das consciências, necessária
para a acção salvífica do Espírito Santo.
A Igreja implora que o perigoso pecado contra o Espírito Santo
ceda o lugar a uma santa di sponibilidade para aceitar a missão
do Consolador, quando Ele vier para "convencer o mundo quanto ao
pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo".
48. Jesus, no seu discurso de despedida, uniu estes três domínios
do "convencer", como componentes da missão do Paráclito:
o pecado, a justiça e o juízo. Eles indicam o âmbito
do "mistério da piedade", que na história do homem
se opõe ao pecado, ao mistério da iniquidade. (189) Por
um lado, como se exprime Santo Agostinho, está o "amor de
si mesmo levado até ao desprezo de Deus"; por outro, "o
amor de Deus até ao desprezo de si mesmo". (190) A Igreja
continuamente eleva a sua oração e presta o seu serviço,
para que a história das consciências e a história
das sociedades, na grande família humana, não se rebaixem
voltando-se para o pólo do pecado, com a rejeição
dos mandamentos de Deus "até ao desprezo do mesmo Deus";
mas, pelo contrário, se elevem no sentido do amor em que se revela
o Espírito que dá a vida.
Aqueles que se deixam "convencer quanto ao pecado" pelo Espírito
Santo, deixam-se também convencer quanto "à justiça
e quanto ao juízo". O Espírito da verdade que vem em
auxílio dos homens e das consciências humanas, para conhecerem
a verdade do pecado, ao mesmo tempo faz com que conheçam a verdade
da justiça que entrou na história do homem com a vinda de
Jesus Cristo. Deste modo, aqueles que, "convencidos quanto ao pecado",
se convertem sob a acção do Consolador, são, em certo
sentido, conduzidos para fora da órbita do "juízo":
daquele "juízo" com o qual "o Príncipe deste
mundo já está julgado". (191) A conversão, na
profundidade do seu mistério divino-humano, significa a ruptura
de todos os vínculos com os quais o pecado prende o homem, no conjunto
do "mistério da iniquidade". Aqueles que se convertem,
portanto, são conduzidos para fora da órbita do "juízo"
pelo Espírito Santo", e introduzidos na justiça, que
se encontra em Cristo Jesus, e está n'Ele porque a "recebe
do Pai", (192) como um reflexo da santidade trinitária. Esta
justiça é a do Evangelho e da Redenção, a
justiça do Sermão da Montanha e da Cruz, que opera a "purificação
da consciência" mediante o Sangue do Cordeiro. É a justiça
que o Pai faz ao Filho e a todos aqueles que Lhe estão unidos na
verdade e no amor.
Nesta justiça o Espírito Santo, Espírito do Pai e
do Filho, que "convence o mundo quanto ao pecado", revela-se
e torna-se presente no homem, como Espírito de vida eterna.
III
O ESPÍRITO QUE DÁ A VIDA
1. Motivo do Jubileu do ano 2000: Cristo, "que foi concebido do Espírito
Santo"
49. O pensamento e o coração da Igreja voltam-se para o
Espírito Santo, neste final do século XX e na perspectiva
do terceiro Milénio depois da vinda de Jesus Cristo ao mundo, ao
mesmo tempo que começamos a olhar para o grande Jubileu, com o
qual a mesma Igreja irá celebrar o acontecimento. Essa vinda, de
facto, coloca-se na escala do tempo humano, como um acontecimento que
pertence à história do homem sobre a terra. A medida do
tempo, usada comummente, determina os anos, os séculos e os milénios,
segundo decorrem antes ou depois do nascimento de Cristo. Mas é
necessário ter presente também que este acontecimento significa,
para nós cristãos, segundo o Apóstolo, a "plenitude
dos tempos", (193) porque, nele, a história do homem foi completamente
penetrada pela "medida" do próprio Deus: uma presença
transcendente no "nunc", no Hoje eterno. "Aquele que é,
que era e que há-de-vir"; Aquele que é "o Alfa
e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o
Fim". (194) "Com efeito, Deus amou tanto o mundo que lhe deu
o seu Filho unigénito, para que todo aquele que n'Ele crer não
pereça mas tenha a vida eterna". (195) "Ao chegar a plenitude
dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher... para que nós
recebêssemos a adopção de filhos". (196) E esta
Incarnação do Filho-Verbo deu-se "por obra do Espírito
Santo".
Os dois Evangelistas, aos quais ficámos a dever a narração
do nascimento e da infância de Jesus de Nazaré, exprimem-se
da mesma maneira sobre este ponto. Segundo São Lucas, perante a
anunciação do nascimento de Jesus, Maria pergunta: "Como
se realizará isso se eu não conheço homem?"
E recebe esta resposta: "O Espírito Santo descerá sobre
ti e a potência do Altíssimo te cobrirá com a sua
sombra. Por isso, aquele que vai nascer será santo e chamar-se-á
Filho de Deus". (197)
São Mateus narra directamente: "Ora o nascimento de Jesus
foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes
de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito
Santo". (198) José, perturbado por este estado de coisas,
recebeu num sonho a seguinte explicação: "Não
temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é
obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho,
a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo
dos seus pecados". (199)
Assim, a Igreja professa desde as suas origens o mistério da Incarnação,
mistério-chave da sua fé, referindo-se ao Espírito
Santo. O Símbolo dos Apóstolos exprime-se deste modo: "O
qual foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu de Maria Virgem".
Não diversamente atesta o Símbolo Niceno-Costantinopolitano:
"Incarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria
e se fez homem".
"Por obra do Espírito Santo" fez-se homem Aquele que
a Igreja, com as palavras do mesmo Símbolo, proclama ser consubstancial
ao Pai: "Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
gerado, não criado". Fez-se homem "incarnando no seio
da Virgem Maria". Eis o que se cumpriu "ao chegar a plenitude
dos tempos".
50. O grande Jubileu, com que se concluirá o segundo Milénio,
para o qual a Igreja se está a preparar já, tem directamente
um perfil cristológico: trata-se, efectivamente, de celebrar o
nascimento de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, porém, ele tem um perfil
pneumatológico, dado que o mistério da Incarnação
se realizou "por obra do Espírito Santo". "Operou-o"
aquele Espírito que - consubstancial ao Pai e ao Filho - é,
no mistério absoluto de Deus uno e trino, a Pessoa-Amor, o Dom
incriado, que é fonte eterna de toda a dádiva que provém
de Deus na ordem da criação, o princípio directo
e, em certo sentido, o sujeito da autocomunicação de Deus
na ordem da graça. O mistério da Incarnação
constitui o ápice da dádiva suprema, dessa autocomunicação
de Deus.
Com efeito, a concepção e o nascimento de Jesus Cristo são
a obra maior realizada pelo Espírito Santo na história da
criação e da salvação: a graça suprema
- "a graça da união" - fonte de todas as outras
graças, como explica Santo Tomás. (200) O grande Jubileu
relaciona-se com esta graça e também, se penetrarmos na
sua profundidade, com o artífice desta obra, a Pessoa do Espírito
Santo.
À "plenitude dos tempos" corresponde, efectivamente,
uma particular plenitude da autocomunicação de Deus uno
e trino no Esptrito Santo. Foi "por obra do Espírito Santo"
que se realizou o mistério da união hipostática,
ou seja, da união da natureza divina com a natureza humana, da
divindade e da humanidade, na única Pessoa do Verbo-Filho. Quando
Maria, no momento da anunciação, pronuncia o seu "fiat":
"Faça-se em mim segundo a tua palavra", (201) ela concebe
de modo virginal um homem, o Filho do homem, que é o Filho de Deus.
Graças a esta "humanização" do Verbo-Filho,
a autocomunicação de Deus atinge a sua plenitude definitiva
na história da criação e da salvação.
Esta plenitude adquire uma densidade particular e uma eloquência
muito expressiva no texto do Evangelho de São João: "O
Verbo fez-se carne". (202) A Incarnação de Deus-Filho
significa que foi assumida à unidade com Deus não apenas
a natureza humana, mas também, nesta, em certo sentido, tudo o
que é "carne": toda a humanidade, todo o mundo visível
e material. A Incarnação, por conseguinte, tem também
um significado cósmico, uma dimensão cósmica. O "gerado
antes de toda criatura", (203) ao incarnar-se na humanidade individual
de Cristo, une-se, de algum modo, com toda a realidade do homem, que também
é "carne" (204) e, nela, com toda a "carne",
com toda a criação.
51. Tudo isto se realiza "por obra" do Espírito Santo;
e, por conseguinte, faz parte do conteúdo do grande Jubileu futuro.
A Igreja não pode preparar-se para esse Jubileu de outro modo que
não seja no Espírito Santo. Aquilo que "na plenitude
dos tempos" se realizou por obra do Espírito Santo, só
por sua obra pode emergir agora da memória da Igreja. É
por sua obra, que isso pode tornar-se presente na nova fase da história
do homem sobre a terra: o ano 2000 depois do nascimento de Cristo.
O Espírito Santo, que com a sombra da sua potência cobriu
o corpo virginal de Maria, dando assim início à maternidade
divina nela, ao mesmo tempo tornou o seu coração perfeitamente
obediente pelo que respeita àquela autocomunicação
de Deus, que superava qualquer conceito e todas as faculdades do homem.
"Bem-aventurada aquela que acreditou": (205) assim foi saudada
Maria, pela sua parente Isabel, também ela "cheia do Espírito
Santo".(206) Nas palavras de saudação àquela
que "acreditou" parece delinear-se um contraste longínquo
(mas, na realidade, muito próximo) com relação a
todos aqueles de quem Cristo dirá que "não acreditaram".
(207) Maria entrou na história da salvação do mundo
mediante a obediência da fé. E a fé, na sua essência
mais profunda, é a abertura do coração humano diante
do Dom: diante da autocomunicação de Deus no Espírito
Santo. São Paulo escreve: "O Senhor é espírito,
e onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade".
(208) Quando Deus uno e trino se abre ao homem no Espírito Santo,
esta sua "abertura" revela e, ao mesmo tempo, doa à criatura-homem
a plenitude da liberdade. Esta plenitude manifesta-se de um modo sublime
na fé de Maria, pela sua "obediência de fé";
(209) sim, verdadeiramente, "bem-aventurada aquela que acreditou"!
2. Motivo do Jubileu: manifestou-se a graça
52. No mistério da Incarnação, a obra do Espírito,
"que dá a vida", atinge o seu vértice. Não
é possível dar a vida, que está em Deus de um modo
pleno, senão fazendo dela a vida de um Homem, como é Cristo
na sua humanidade personalizada pelo Verbo na união hipostática.
Ao mesmo tempo, com o mistério da Incarnação jorra,
de um modo novo, a fonte dessa vida divina na história da humanidade:
o Espírito Santo. O Verbo "gerado antes de toda a criatura",
torna-se "o primogénito entre muitos irmãos" (210)
e torna-se assim também a cabeça do Corpo que é a
Igreja - que nascerá da Cruz e será revelada no dia do Pentecostes
- e, na Igreja, a cabeça da humanidade: dos homens de cada nação,
de todas as raças, de todos os países e culturas, de todas
as línguas e continentes, todos eles chamados à salvação.
"O Verbo fez-se carne, (aquele Verbo no qual) estava a vida e a vida
era a luz dos homens... A quantos o receberam deu-lhes o poder de se tornarem
filhos de Deus". (211) Mas tudo isto se realizou e se realiza incessantemente
"por obra do Espírito Santo".
"Filhos de Deus" são, com efeito - como ensina o Apóstolo
- "todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus".
(212) A filiação pela adopção divina nasce
nos homens sobre a base do mistério da Incarnação;
e, portanto, graças a Cristo, que é o Filho eterno. Todavia,
o nascer ou renascer dá-se quando Deus Pai "envia aos nossos
coracões o Espírito do seu Filho". (213) É então
que, na verdade, "recebemos o espírito de adopção
filial, pelo qual bradamos: "Abbá, ó Pai!"".
(214) Portanto, esta filiação divina, enxertada na alma
humana com a graça santificante, é obra do Espírito
Santo. "O próprio Espírito atesta ao nosso espírito
que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos igualmente herdeiros:
herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo". (215) A graça
santificante é no homem o princípio e a fonte da vida nova:
vida divina, sobrenatural.
A dádiva desta vida nova é como que a resposta definitiva
de Deus ao grito do Salmista, no qual ecoa, de certo modo, a voz de todas
as criaturas: "Se enviais o vosso Espírito, serão criados
e renovais a face da terra". (216) Aquele que, no mistério
da criação, dá ao homem e ao cosmos a vida sob as
suas múltiplas formas, visíveis e invisíveis, renova-a
ainda pelo mistério da Incarnação. A criação
é assim completada pela Incarnação e, desde esse
momento, penetrada pelas forças da Redenção, que
investem a humanidade e a criação inteira. É o que
nos diz São Paulo, cuja visão cósmico-teológica
parece retomar os termos do antigo Salmo: a criação "aguarda
ansiosamente a revelação dos filhos de Deus", (217)
ou seja, daqueles que Deus, tendo-os "conhecido desde sempre",
também os "predestinou para serem conformes à imagem
do seu Filho". (218) Dá-se, assim, uma "adopção
filial" sobrenatural dos homens, da qual é origem o Espírito
Santo, Amor e Dom. Como tal Ele é dado com prodigalidade aos homens.
E na superabundâcia do Dom incriado tem início, no coração
de cada homem, aquele particular dom criado, mediante o qual os homens
"se tornam participantes da natureza divina". (219) Deste modo,
a vida humana é impregnada pela participação na vida
divina e adquire também ela uma dimensão divina, sobrenatural.
Tem-se assim a vida nova, pela qual, como participantes do mistério
da Incarnação, "os homens ... têm acesso ao Pai
no Espírito Santo". (220) Existe, pois, uma estreita dependência
de causalidade entre o Espírito, que dá a vida, e a graça
santificante, com aquela vitalidade sobrenatural multiforme que dela deriva
no homem: entre o Espírito incriado e o espírito humano
criado.
53. Pode dizer-se que tudo isto é abrangido no âmbito do
grande Jubileu, acima mencionado. Com efeito, impõe-se ir além
da dimensão histórica do facto, considerado somente à
superficie. É necessário chegar a atingir, no próprio
conteúdo cristológico do facto, a dimensão pneumatológica,
abarcando com o olhar da fé o conjunto dos dois milénios
da acção do Espírito da verdade, o qual, ao longo
dos séculos, indo haurir do tesouro da Redenção de
Cristo, foi dando aos homens a vida nova, realizando neles "a adopção
filial" no Filho unigénito e santificando-os, de tal modo
que eles podem repetir com São Paulo: "Recebemos o Espírito
que vem de Deus". (221)
Mas ao considerar este motivo do Jubileu, não é possível
limitar-se aos dois mil anos decorridos desde o nascimento de Cristo.
Énecessário retroceder no tempo, abarcar toda a acção
do Espírito Santo mesmo antes de Cristo, desde o princípio,
em todo o mundo e, especialmente, na economia da Antiga Aliança.
Esta acção, de facto, em todos os lugares e em todos os
tempos, ou antes, em cada homem, desenrolou-se segundo o eterno desígnio
de salvação, no qual ela anda estreitamente unida ao mistério
da Incarnação e da Redenção; este mistério
já tinha exercido a sua influência naqueles que acreditavam
em Cristo que havia de vir. Isto é atestado, de modo particular,
na Epístola aos Efésios. (222) A graça, portanto,
comporta um carácter cristológico e, conjuntamente, um carácter
pneumatológico, que se realiza sobretudo naqueles que expressamente
aderem a Cristo: "N'Ele (em Cristo) ... fostes marcados com o selo
do Espírito Santo, que fora prometido, o qual é o penhor
da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção".
(223)
No entanto, sempre na perspectiva do grande Jubileu, também devemos
alargar as nossas vistas para mais longe, "para o largo", conscientes
de que "o vento sopra onde quer", segundo a imagem usada por
Jesus no colóquio con Nicodemos. (224) O Concílio Vaticano
II, centrando a atenção sobretudo no tema da Igreja, recorda-nos
a acção do Espírito Santo mesmo "fora"
do corpo visível da Igreja. Ele fala precisamente de "todos
os homens de boa vontade, no coração dos quais invisivelmente
opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação
última do homem é realmente uma só, a saber, a divina,
nós devemos manter que o Espírito Santo oferece a todos,
de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados
ao mistério pascal". (225)
54. "Deus é espírito, e os seus adoradores em espírito
e verdade é que devem adorá-lo". (226) Jesus pronunciou
estas palavras num outro dos seus colóquios: aquele que teve com
a Samaritana. O grande Jubileu, que será celebrado no final deste
Milénio e no início do seguinte, deve constituir um forte
apelo dirigido a todos aqueles que "adoram a Deus em espírito
e verdade". Deve ser para todos uma ocasião especial para
meditar no mistério de Deus uno e trino que, em si mesmo, é
absolutamente transcendente em relação ao mundo, de modo
especial em relação ao mundo visível; é, na
realidade, Espírito absoluto: "Deus é espírito".
(227) Mas, simultaneamente e de um modo admirável, não só
está próximo deste mundo, mas está aí presente
e, em certo sentido, imanente, compenetra-o e vivifica-o por dentro. Isto
é válido, em especial, quanto ao homem: Deus está
no íntimo do seu ser, como pensamento, consciência e coração;
é uma realidade psicológica e ontológica que levava
Santo Agostinho, ao considerá-la, a dizer de Deus: "interior
intimo meo" [mais íntimo do que o meu íntimo]. (228)
Estas palavras ajudam-nos a compreender melhor as que Jesus dirigiu à
Samaritana: "Deus é espírito". Somente o Espírito
pode ser "mais íntimo do que o meu íntimo", quer
no ser quer na experiência espiritual; só o Espírito
pode ser a tal ponto imanente ao homem e ao mundo, permanecendo inviolável
e imutável na sua transcendência absoluta.
Mas, em Jesus Cristo, a presença divina no mundo e no homem manifestou-se
de uma maneira nova e sob forma visível. N'Ele, verdadeiramente,
"manifestou-se a graça". (229) O amor de Deus Pai, dom,
graça infinita e princípio de vida, tornou-se patente em
Cristo e, na sua humanidade, tornou-se "parte" do universo,
do género humano e da história. Esta "manifestação"
da graça na história do homem, mediante Jesus Cristo, realizou-se
por obra do Espírito Santo, que é o princípio de
toda a acção salvífica de Deus no mundo: Ele, "Deus
escondido", (230) que como Amor e Dom "enche o universo".
(231) Toda a vida da Igreja, tal como se irá manifestar no grande
Jubileu, significa um caminhar ao encontro de Deus escondido, ao encontro
do Espírito, que dá a vida.
3. O Espírito Santo no conflito interior do homem: a carne tem
desejos contrários aos do espírito e o espírito desejos
contrários aos da carne
55. Da história da salvação resulta, infelizmente,
que essa proximidade e presença de Deus ao homem e ao mundo, essa
admirável "condescendência" do Espírito,
depara, na nossa realidade humana, com resistência e oposição.
Como são eloquentes, sob este ponto de vista as palavras proféticas
daquele ancião, chamado Simeão, que, "movido pelo Espírito",
veio ao Templo de Jerusalém, para anunciar, diante do recém-nascido
de Belém, que "Ele é destinado a ser ocasião
de queda e de ressurgimento para muitos em Israel, a ser sinal de contradição".
(232) A oposição a Deus, que é Espírito invisível,
nasce já, em certa medida, no plano da radical diversidade do mundo
em relação a Ele; ou seja, da "visibilidade" e
"materialidade" do mundo em confronto com Ele, que é
"invisível" e "Espírito, no sentido absoluto";
da sua essencial e inevitável imperfeição em confronto
com Ele, Ser perfeitíssimo. Mas a oposição torna-se
conflito, rebelião no campo ético, por causa do pecado que
se apodera do coração humano, no qual "a carne... tem
desejos contrários aos do espírito e o espírito desejos
contrários aos da carne". (233) O Espírito Santo deve
"convencer o mundo" quanto a este pecado, como dissemos.
É São Paulo quem descreve, de modo particularmente eloquente,
a tensão e a luta, que agitam o coração humano. "Eu
digo-vos - lemos na Epístola aos Gálatas - : Procedei segundo
o Espírito e não dareis satisfações aos desejos
da carne. Pois a carne tem desejos contrários aos do espírito,
e o espírito, desejos contrários aos da carne; há
oposição radical entre eles; é por isso que não
fazeis o que quereríeis". (234) No homem, porque é
um ser composto, espírito e corpo, já existe uma certa tensão,
trava-se uma certa luta de tendências entre o "espírito"
e a "carne". Mas esta luta, de facto, faz parte da herança
do pecado, é uma consequência do mesmo pecado e, simultaneamente,
uma sua confirmação. É algo que faz parte da experiência
quotidiana. Assim escreve o Apóstolo: "Ora, as obras da carne
são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem...
embriaguez, orgias e coisas semelhantes a estas". São os pecados
que se poderiam qualificar como "carnais". Mas o Apóstolo
ainda acrescenta outros: "inimizades, discórdias, ciúmes,
disputas, divisões, facciosismos, invejas". (235) Tudo isto
constitui "as obras da carne".
A estas obras, porém, que são indubitavelmente más,
São Paulo contrapõe "o fruto do Espírito",
que é "caridade, alegria, paz, paciência, benevolência,
bondade, fidelidade, mansidão e temperança". (236)
Do contexto, resulta com clareza que, para o Apóstolo, não
se trata de discriminar e condenar o corpo que, juntamente com a alma
espiritual, constitui a natureza do homem e a sua subjectividade pessoal.
Ele quis tratar sobretudo, das obras, ou melhor, das disposições
estáveis - virtudes e vícios - moralmente boas ou más,
que são fruto de submissão (no primeiro caso) ou, pelo contrário,
de resistência (no segundo caso) à acção salvífica
do Espírito Santo. Por isso o Apóstolo escreve: "Se,
portanto, vivemos pelo espírito, caminhemos também segundo
o espírito". (237) E numa outra passagem: "De facto,
os que vivem segundo a carne ocupam-se das coisas da carne; ao contrário,
os que vivem segundo o espírito ocupam-se das coisas do espírito".
"Vós, porém ... viveis segundo o espírito se
é que o Espírito de Deus habita em vós". (238)
A contraposição que São Paulo estabelece entre a
vida "segundo o espírito" e a vida "segundo a carne"
dá origem a uma ulterior contraposição: entre a "vida"
e a "morte". "Os desejos da carne levam à morte,
enquanto que os desejos do Espírito levam à vida e à
paz". Daqui a advertência: "Se viverdes segundo a carne,
por certo morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras
do corpo, vivereis". (239)
Se pensarmos bem, estamos perante uma exortação a viver
na verdade, ou seja, segundo os ditames da consciência recta; e,
ao mesmo tempo, trata-se de uma profissão de fé no Espírito
da verdade, Aquele que dá a vida. O corpo, efectivamente, "está
morto por causa da pecado, mas o espírito vive por causa da justificação";
"portanto... somos devedores, mas não para com a carne para
vivermos segundo a carne". (240) Nós somos devedores sobretudo
para com Cristo, que no mistério pascal operou a nossa justificação,
obtendo-nos o Espírito Santo. "Na verdade, fomos comprados
por um alto preço". (241)
Nos textos de São Paulo sobrepõem-se e compenetram-se reciprocamente
a dimensão ontológica (a carne e o espírito), a dimensão
ética (o bem e o mal moral) e a dimensão pneumatológica
(a acção do Espírito Santo na ordem da graça).
As suas palavras (especialmente nas Epístolas aos Romanos e aos
Gálatas) levam-nos a conhecer e a sentir ao vivo o vigor daquela
tensão e daquela luta, que se trava no homem, entre a abertura
à acção do Espírito Santo e a resistência
e oposição a Ele, ao seu dom salvífico. Os termos
ou pólos em contraposição, aqui são: da parte
do homem, as suas limitações e pecaminosidade, pontos nevrálgicos
da sua realidade psicológica e ética; e, da parte de Deus,
o mistério do Dom, o incessante doar-se da vida divina no Espírito
Santo. A quem caberá a vitória? Aquele que souber acolher
o Dom.
56. Infelizmente, a resistência ao Espírito Santo, que São
Paulo sublinha, na dimensão interior e subjectiva, como tensão,
luta e rebelião que acontece no coração humano, assume,
nas várias épocas da história e, especialmente, na
época moderna, a sua dimensão exterior, concretizada no
conteúdo da cultura e da civilização, como sistema
filosófico, como ideologia e como programa de acção
e de formação dos comportamentos humanos. Esta dimensão
exterior encontra a sua expressão mais importante no materialismo,
tanto na sua forma teórica - enquanto sistema de pensamento - como
na sua forma prática, enquanto método de leitura e de avaliação
dos factos e, ainda, como programa dos comportamentos correspondentes.
O sistema que mais desenvolveu esta forma de pensamento, de ideologia
e de práxis, e que o levou às extremas consequências
no plano da acção foi o materialismo dialéctico e
histórico, ainda hoje reconhecido como substancia vital do marxismo.
Por princípio e de facto, o materialismo exclui radicalmente a
presença e a acção de Deus, que é espírito,
no mundo e, sobretudo, no homem, pela razão fundamental de que
não aceita a sua existência, sendo em si mesmo e no seu programa
um sistema ateu. O ateismo é fenómeno impressionante do
nosso tempo, ao qual o Concilio Vaticano II dedicou algumas páginas
significativas. (242) Embora não se possa falar do ateismo, de
modo unívoco, nem se possa reduzi-lo exclusivamente à filosofia
materialista - dado que existem várias espécies de ateismo
e talvez se possa afirmar que, com frequência, se usa a palavra
num sentido equívoco - o certo é que um verdadeiro materialismo,
no sentido próprio do termo tem um carácter ateu, quando
é entendido como teoria explicativa da realidade e assumido como
princípio-chave da acção pessoal e social. O horizonte
dos valores e dos fins do agir, que o materialismo determina, está
estreitamente ligado com a interpretação de toda a realidade
como "matéria". Se, por vezes, também fala do
"Espírito" e das "questões do espírito",
no campo, por exemplo da cultura ou da moral, fá-lo apenas enquanto
considera certos factos como derivados (epifenómenos) da matéria,
a qual, segundo este sistema é a única e exclusiva forma
do ser. Daqui se segue que, segundo esta interpretação,
a religião só pode ser entendida como uma espécie
de "ilusão idealista", que deve ser combatida dos modos
e com os métodos mais apropriados, conforme os lugares e as circunstancias
históricas, para eliminá-la da sociedade e do próprio
coração do homem.
Pode dizer-se, portanto, que o materialismo é o desenvolvimento
sistemático e coerente da "resistência" e oposição
denunciadas por São Paulo quando escreve: "A carne ... tem
desejos contrários aos do espirito". Esta realidade conflitual,
no entanto, é recíproca, como põe em realce o mesmo
Apóstolo, na segunda parte do seu aforismo: "o espírito
tem desejos contrários aos da carne". Quem quiser viver segundo
o Espírito , na aceitação e correspondência
à sua acção salvifica, não pode deixar de
rejeitar as tendências e pretensões, internas e externas,
da "carne", também na sua expressão ideológica
e histórica de "materialismo" anti-religioso. Sobre este
pano de fundo, tão característico do nosso tempo, devem
ser postos em evidência os "desejos do espírito"
na preparação para o grande Jubileu, como apelos que ecoam
na noite de um novo período de advento, no termo do qual, como
há dois mil anos, "todo o homem verá a salvação
de Deus". (243) Está nisto uma possibilidade e uma esperança,
que a Igreja confia aos homens de hoje. Ela sabe que o encontro ou o choque
entre os "desejos contrários ao espírito" - que
caracterizam tantos aspectos da civilização contemporânea,
especialmente em alguns dos seus ambientes - e os "desejos contrários
aos da carne" - com o facto de Deus se ter tornado próximo
de nós, com a sua Incarnação e com a comunicação
sempre nova de si mesmo no Espírito Santo - podem apresentar, em
muitos casos, um carácter dramático e virem a redundar,
talvez, em novas derrotas humanas. Mas a Igreja acredita firmemente que,
da parte de Deus, haverá sempre um comunicar-se salvífico,
uma vinda salvífica e, se for o caso, um salvífico "convencer
quanto ao pecado", por obra do Espírito.
57. Na contraposição paulina do "espírito"
e da "carne" encontra-se inscrita também a contraposição
da "vida" à "morte". Trata-se de um grave problema,
acerca do qual é necessário dizer, de imediato, que o materialismo,
como sistema de pensamento, em todas as suas versões, significa
a aceitação da morte como termo definitivo da existência
humana. Tudo o que é material é corruptível e, por
isso, o corpo humano (enquanto "animal") é mortal. Se
o homem, na sua essência, é simplesmente "carne",
então a morte permanece para ele uma fronteira e um termo intransponível.
Compreende-se assim como se possa dizer que a vida humana é exclusivamente
um "existir para morrer".
Deve acrescentar-se que, no horizonte da civilização contemporânea
- especialmente onde ela se apresenta mais desenvolvida, no sentido técnico-científico
- os vestígios e os sinais de morte tornaram-se particularmente
presentes e frequentes. Basta pensar na corrida aos armamentos e no perigo
que ela comporta de uma autodestruição nuclear. Por outro
lado, para todos se tem tornado cada vez mais manifesta a grave situação
de vastas regiões do nosso planeta, marcadas pela indigência
e pela fome, que são portadoras de morte. Não se trata só
de problemas meramente económicos; mas também e, acima de
tudo, de problemas éticos. E no entanto, no horizonte da nossa
época, adensam-se "sinais de morte" ainda mais sombrios:
difundiu-se o costume - que em algumas partes corre o risco de se tornar
como que uma instituição - de tirar a vida a seres humanos
ainda antes do seu nascimento, ou antes de atingirem o termo natural da
morte. E mais ainda: apesar de tantos esforços nobres em favor
da paz, deflagraram e prosseguem novas guerras, que privam da vida ou
da saúde centenas de milhares de seres humanos. E como não
recordar os atentados à vida humana por parte do terrorismo organizado,
até mesmo em escala internacional?
E isto, infelizmente, é só um esboço parcial e incompleto
do quadro de morte que está em vias de composição
na nossa época, ao mesmo tempo que nos vamos aproximando cada vez
mais do final do segundo Milénio cristão. Mas das tintas
sombrias da civilização materialista e, em particular, dos
"sinais de morte" que se multiplicam no quadro sociológico-histórico,
em que ela se desenvolveu, não se ergue, porventura, uma nova invocação,
mais ou menos consciente, ao Espírito que dá a vida? Em
todo o caso, mesmo independentemente da amplitude das esperanças
ou dos desesperos humanos, bem como das ilusões ou dos logros derivados
do desenvolvimento dos sistemas materialistas de pensamento e de vida,
permanece a certeza cristã de que o Espírito sopra onde
quer, de que nós possuímos "as primícias do
Espírito" e de que, por consequência, poderemos ter
de sujeitar-nos aos sofrimentos do tempo que passa, mas "gememos
em nós mesmos aguardando... a redenção do nosso corpo".
(244) ou seja, de todo o nosso ser humano, que é corporal e espiritual.
Sim, gememos, mas numa expectativa carregada de esperança indefectível,
porque Deus, que é Espírito, se aproximou precisamente deste
ser humano. Deus Pai enviou "o próprio Filho em carne semelhante
à carne pecadora e, para expiar o pecado, condenou o pecado na
carne". (245) No ponto culminante do mistério pascal, o Filho
de Deus, feito homem e crucificado pelos pecados do mundo, apresentou-se
no meio dos Apóstolos, após a Ressurreição,
soprou sobre eles e disse: "Recebei o Espírito Santo".
Este "sopro" continua sempre. E assim "o Espírito
vem em auxílio da nossa fraqueza". (246)
4. O Espírito Santo no fortalecimento do "homem interior"
58. O mistério da Ressurreição e do Pentecostes é
anunciado e vivido pela Igreja, herdeira e continuadora do testemunho
dos Apóstolos acerca da Ressurreição de Jesus Cristo.
Ela é a testemunha permanente desta vitória sobre a morte,
que revelou o poder do Espírito Santo e determinou a sua nova vinda,
a sua nova presença nos homens e no mundo. Com efeito, na Ressurreição
de Cristo, o Espírito Santo-Paráclito revelou-se sobretudo
como aquele que dá a vida: "Aquele que ressuscitou Cristo
dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por
meio do seu Espírito, que habita em vós". (247) Em
nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja anuncia a vida,
que se manifestou para além das fronteiras da morte, a vida que
é mais forte que a morte. Ao mesmo tempo, ela anuncia aquele que
dá esta vida: o Espírito vivificante; anuncia-o e coopera
com ele para dar a vida. Na verdade, "embora o... corpo esteja morto
por causa do pecado.... o espírito está vivo por causa da
justificação", (248) operada por Cristo Crucificado
e Ressuscitado. Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja
põe-se ao serviço da vida que provém do próprio
Deus, em estreita união com o Espírito e em humilde cooperação
com Ele.
Em razão precisamente desse serviço o homem torna-se de
maneira sempre nova o "caminho da Igreja", como já tive
ocasião de dizer na Encíclica sobre Cristo Redentor (249)
e repito agora nesta sobre o Espírito Santo. A Igreja, unida ao
Espírito Santo, está cônscia, mais do que ninguém,
do homem interior, dos traços que no homem são mais profundos
e essenciais, porque espirituais e incorruptíveis. É a este
nível que o Espírito enxerta a "raiz da imortalidade",
(250) da qual desponta a vida nova, ou seja, a vida do homem em Deus,
que, como fruto da divina autocomunicação salvífica
no Espírito Santo, só pode desenvolver-se e consolidar-se
sob a acção do mesmo Espírito. Por isso, o Apóstolo
dirige-se a Deus em favor dos fiéis, a quem declara: "Do bro
os joelhos diante do Pai ... que Ele vos conceda... que sejais poderosamente
corroborados, pelo seu Espírito, na vitalidade do homem interior".
(251)
Sob a influência do Espírito Santo, este homem interior,
quer dizer "espiritual", amadurece e fortalece-se. Graças
à comunicação divina, o espírito humano que
"conhece os segredos do homem" encontra-se com o "Espírito
que perscruta as profundezas do próprio Deus". (252) E neste
Espírito, que é o Dom eterno, Deus uno e trino abre-se ao
homem, ao espírito humano. O sopro recôndito do Espírito
divino faz com que o espírito humano, por sua vez se abra, diante
de Deus que se abre para ele, com desígnio salvífico e santificante.
Pelo dom da graça, que vem do Espírito Santo, o homem entra
"numa vida nova", é introduzido na realidade sobrenatural
da própria vida divina e torna-se "habitação
do Espírito Santo", "templo vivo de Deus". (253)
Com efeito, pelo Espírito Santo, o Pai e o Filho vêm a ele
e fazem nele a sua morada. (254) Na comunhão de graça com
a Santíssíma Trindade dilata-se "o espaço vital"
do homem, elevado ao nível sobrenatural da vida divina. O homem
vive em Deus e de Deus, vive "segundo o Espírito" e "ocupa-se
das coisas do Espírito".
59. A íntima relação com Deus, no Espírito
Santo, faz com que o homem também se compreenda de uma maneira
nova a si mesmo a à sua própria humanidade. É realizada,
assim, plenamente, aquela imagem e semelhança de Deus, que o homem
é desde o princípio. (255) Esta verdade íntima do
homem deve ser continuamente redescoberta à luz de Cristo, que
é o protótipo da relação com Deus; e, na mesma
verdade, deve ser igualmente redescoberta a razão de o homem não
poder "encontrar-se plenamente a não ser no dom sincero de
si mesmo", ao conviver com os outros homens, como escreve o Concílio
Vaticano II; isso acontece justamente por motivo da semelhança
com Deus, a qual "torna manifesto que o homem, é a única
criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma", com
a sua dignidade de pessoa, mas também com a sua abertura à
integração e à comunhão com os outros. (256)
O conhecimento efectivo e a realização plena desta verdade
do ser dão-se só por obra do Espírito Santo. O homem
aprende esta verdade de Jesus Cristo e põe-na em prática
na própria vida por obra do Espírito Santo, que Ele nos
deu.
Neste caminho - no caminho de um am adurecimento interior assim, que inclui
a descoberta plena do sentido da humanidade - Deus torna-se íntimo
ao homem e penetra, cada vez mais profundamente, em todo o mundo humano.
Deus uno e trino, que "existe" em si mesmo como realidade transcendente
de Dom interpessoal, ao comunicar-se no Espírito Santo como dom
ao homem, transforma o mundo humano, a partir de dentro, a partir do interior
dos corações e das consciências. Neste caminho, o
mundo, participante do Dom divino, torna-se - como ensina o Concílio
- "cada vez mais humano, cada vez mais profundamente humano",
(257) ao mesmo tempo que, nele, vai amadurecendo, através dos corações
e das consciências dos homens, o Reino no qual Deus será
definitivamente "tudo em todos", (258) como Dom e como Amor.
Dom e Amor: é esta a eterna potência do abrir-se de Deus
uno e trino ao homem e ao mundo, no Espírito Santo.
Na perspectiva do ano 2000 depois do nascimento de Cristo, importa conseguir
que um número cada vez maior de homens "possam encontrar-se
plenamente... através do dom sincero de si". Trata-se, pois,
de fazer com que, sob a acção do Espírito-Paráclito,
se realize, no nosso mundo, um processo de verdadeiro amadurecimento na
humanidade, na vida individual e na vida comunitária; foi em ordem
a isso que o próprio Jesus, "quando pedia ao Pai "que
todos sejam um, como eu e tu somos um" (Jo 17, 21-22) ... nos sugeriu
que existe uma certa semelhança entre a união das pessoas
divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na carídade".
(259) O Concílio insiste nesta verdade sobre o homem; e a Igreja
vê nela uma indicação particularmente vigorosa e determinante
das próprias tarefas apostólicas. Sendo o homem, de facto,
"o caminho da Igreja", este caminho passa através de
todo o mistério de Cristo, modelo divino do homem. Neste caminho,
o Espírito Santo, consolidando em cada um de nós "o
homem interior", faz com que o homem cada vez mais "se encontre
plenamente através do dom sincero de si". Pode afirmar-se
que nestas palavras da Constituição pastoral do Concílio
está resumida toda a antropologia cristã: a teoria e a prática
fundamentadas no Evangelho, onde o homem, descobrindo em si mesmo a pertença
a Cristo e, n'Ele, a própria elevação à dignidade
de "filho de Deus", compreende melhor também a sua dignidade
de homem, precisamente porque é o sujeito da aproximação
e da presença de Deus, o sujeito da condescendência divina,
na qual está incluída a perspectiva e até mesmo a
própria raiz da glorificação definitiva. Então
pode repetir-se, com verdade, que é "glória de Deus
o homem que vive, mas a vida do homem é a visão de Deus":
(260) o homem, ao viver uma vida divina, é a glória de Deus;
e o dispensador escondido desta vida e desta glória é o
Espírito Santo. Ele - afirma o grande Basílio - "simples
na sua essência, mas manifestando multiformemente a sua virtude...
difunde-se, sem sofrer diminuição alguma, e está
presente a cada um daqueles que o podem receber, como se existisse só
ele, ao mesmo tempo que infunde em todos a graça em plenitude".
(261)
60. Quando os homens descobrem, sob a influência do Paráclito,
esta dimensão divina do seu ser e da sua vida, quer como pessoas
quer como comunidades, estão em condições de libertar-se
dos diversos determinismos, que resultam principalmente das bases materialistas
do pensamento, da práxis e da sua relativa metodologia. Na nossa
época, estes factores conseguiram penetrar até ao mais íntimo
do homem, naquele santuário da consciência, onde o Espírito
Santo continuamente faz entrar a luz e a força da vida nova segundo
a "liberdade dos filhos de Deus". O amadurecimento do homem
nesta vida nova é impedido pelos condicionamentos e pressões,
que exercem sobre ele as estruturas e os mecanismos dominantes nos diversos
sectores da sociedade. Pode dizer-se que, em muitos casos, os factores
sociais, em vez de favorecerem o desenvolvimento e a expansão do
espírito humano, acabam por arrancá-lo à genuína
verdade do seu ser e da sua vida - sobre a qual vela o Espírito
Santo - para o sujeitar ao "príncipe deste mundo".
O grande Jubileu do ano 2000 contém, pois, uma mensagem de libertação
por obra do Espírito Santo, o único que pode ajudar as pessoas
e as comunidades a libertarem-se dos antigos e dos novos determinismos
- guiando-as com a "lei do Espírito que dá a vida em
Cristo Jesus" (262) - descobrindo e actuando, deste modo, a medida
plena da verdadeira liberdade do homem. Com efeito, - como escreve São
Paulo - "onde está o espírito do Senhor, aí
há liberdade". (263) Esta revelação da liberdade
e, por conseguinte, da verdadeira dignidade do homem, adquire uma particular
eloquência para os cristãos e para a Igreja em situações
de perseguição - quer em tempos passados quer actualmente:
porque as testemunhas da Verdade divina, neste caso, tornam-se uma comprovação
viva da acção do Espírito da verdade, presente no
coração e na consciência dos fiéis; e, não
poucas vezes, selam com o próprio martírio a suprema glorificação
da dignidade humana.
Mesmo nas condições normais da sociedade, os cristãos,
quando testemunhas da autêntica dignidade do homem, contribuem,
pela sua obediência ao Espírito Santo para a multiforme "renovação
da face da terra", colaborando com os seus irmãos em ordem
à realização e valorização de tudo
o que é bom, nobre e belo (264) no progresso actual da civilização,
da cultura, da ciência, da técnica e dos outros sectores
do pensamento e da actividade humana. E fazem-no como discípulos
de Cristo, o qual - escreve ainda o Concílio - "constituído
Senhor pel a sua ressurreição... actua no coração
dos homens pela virtude do seu Espírito, não só suscitando
neles o desejo do mundo futuro, mas, por isso mesmo, inspirando, purificando
e fortalecendo também as generosas aspirações com
as quais a família humana procura tornar mais humana a própria
vida e, para esse fim, submeter toda a terra". (265) Assim, eles
afirmam ainda mais a grandeza do homem, criado à imagem e semelhança
de Deus, grandeza que é iluminada pelo mistério da Incarnação
do Filho de Deus; este, na "plenitude dos tempos", por obra
do Espírito Santo, entrou na história e manifestou-se verdadeiro
homem: Ele, "gerado antes de toda a criatura" e "por meio
do qual existem todas as coisas e nós igualmente existimos".(266)
5. A Igreja, sacramento da íntima união com Deus
61. Aproximando-se o final do segundo Milénio, que deve recordar
a todos e como que tornar de novo presente o advento do Verbo quando chegou
a "plenitude dos tempos", a Igreja, uma vez mais, deseja penetrar
na própria essência da sua constituição divino-humana
e da sua missão, que lhe permite participar na missão messiânica
de Cristo, conforme o ensino e o projecto, que permanecem válidos,
do Concílio Vaticano II. Nesta mesma linha, podemos remontar até
ao Cenáculo, onde Jesus Cristo revela o Espírito Santo como
Paráclito, como Espírito da verdade, e fala da sua própria
"partida", mediante a Cruz, como condição necessária
para a "vinda" do mesmo Espírito. "É melhor
para vós que eu vá, porque se eu não for, o Consolador
não virá a vós; mas, se eu partir, enviar-vo-lo-ei".
(267) Vimos que este anúncio teve a sua primeira realização
já na tarde do dia de Páscoa e, em seguida, durante a celebração
do Pentecostes em Jerusalém: desde então para cá,
ele continua a realizar-se mediante a Igreja, na história da humanidade.
A luz deste anúncio adquire pleno significado também o que
Jesus disse, ainda no decorrer da última Ceia, a propósito
da sua nova "vinda". É significativo, de facto, que Ele
anuncie, no mesmo discurso do adeus, não só a sua partida,
mas também a sua nova vinda. Diz exactamente: "Não
vos deixarei órfãos; voltarei para junto de vós".
(268) E no momento da despedida definitiva, antes de subir ao céu,
repetirá, de uma forma ainda mais explícita: "E eis
que eu estou convosco"; e estou "todos os dias, até ao
fim do mundo". (269) Esta nova "vinda" de Cristo - este
seu vir continuamente para estar com os Apóstolos, com a Igreja,
este seu "estou convosco até ao fim do mundo" - não
modifica, certamente, o facto da sua "partida"; segue-se a ela,
depois de concluída a missão messiânica do mesmo Cristo
na terra; e dá-se no âmbito do preanunciado envio do Espírito
Santo e inscreve-se, por assim dizer, no íntimo da sua própria
missão. No entanto, realiza-se por obra do Espírito Santo,
o qual faz com que Cristo, que partiu, venha agora e sempre de uma maneira
nova. Este voltar de Cristo, por obra do Espírito Santo, e a sua
constante presença e acção na vida espiritual actualizam-se
na realidade sacramental. Nesta realidade, Cristo, que partiu na sua humanidade
visível, vem, está presente e actua na Igreja de uma forma
tão íntima, que faz dela o seu Corpo. E como tal, a Igreja
vive, opera e cresce "até ao fim do mundo". E tudo isto
se realiza por obra do Espírito Santo.
62. A expressão sacramental mais completa da "partida"
de Cristo, por meio do mistério da Cruz e da Ressurreição,
é a Eucaristia. Nela, todas as vezes que é celebrada, realiza-se
sacramentalmente, a sua vinda, a sua presença salvífica:
no Sacrifício e na Comunhão. Realiza-se por obra do Espírito
Santo e no ambito da sua própria missão. (270) Mediante
a Eucaristia, o Espírito Santo leva a efeito aquele "fortalecimento
do homem interior", de que fala a Epístola aos Efésios.
(271) Mediante a Eucaristia, as pessoas e as comunidades, sob a acção
do Paráclito-Consolador, aprendem a descobrir o sentido divino
da vida humana, lembrado pelo Concílio Vaticano II: aquele sentido,
pelo qual Jesus Cristo "revela plenamente o homem ao próprio
homem", sugerindo "uma certa semelhança entre a união
das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na
caridade". (272) Tal união exprime-se e realiza-se, de modo
particular, mediante a Eucaristia, na qual o homem, participando no sacrifício
de Cristo, que a celebração actualiza, aprende também
a "encontrar-se ... no dom ... de si", (273) na comunhão
com Deus e com os outros homens, seus irmãos.
Por isso, os primeiros cristãos, desde aqueles dias que se seguiram
à descida do Espírito Santo, "eram assíduos
à fracção do pão e à oração",
formando assim uma comunidade unida no ensino dos Apóstolos.(274)
"Reconheciam", desse modo, que o seu Senhor Ressuscitado, que
já subira aos céus, voltava ao meio deles, na comunidade
eucarística da Igreja e por meio dela.. Guiada pelo Espírito
Santo, a Igreja, desde os inícios, exprimiu-se e confirmou-se a
si mesma mediante a Eucaristia. E assim foi sempre, em todas as gerações
cristãs, até aos nossos dias, até a esta vigília
do completamento do segundo Milénio cristão. É certo
que temos de verificar, infelizmente, que este último Milénio
decorrido foi o Milénio das grandes separações entre
os cristãos. Por isso, todos aqueles que crêem em Cristo,
a exemplo dos Apóstolos, deverão pôr todo o empenho
em conformar o pensamento e as obras à vontade do Espírito
Santo, "princípio de unidade da Igreja", (275) a fim
de que todos os baptizados num só Espírito para constituir
um só corpo se redescubram irmãos, unidos na celebração
da mesma Eucaristia, "sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo
de caridade". (276)
63. A presença eucarística de Cristo - o seu sacramental
"eu estou convosco" - permite à Igreja descobrir, cada
vez mais profundamente o próprio mistério, como atesta toda
a eclesiologia do Concílio Vaticano II, segundo o qual "a
Igreja é em Cristo como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento
da íntima união com Deus e da unidade de todo o género
humano". (277) Como sacramento, a Igreja desenvolve-se sobre o fundamento
do mistério pascal da "partida" de Cristo, vivendo da
sua "vinda" sempre nova por obra do Espírito Santo, que
vai realizando a sua missão de Paráclito-Espírito
da verdade. É este precisamente o mistério essencial da
Igreja, como professa o Concílio.
Se em virtude da criação, Deus é Aquele em que todos
nós "vivemos, nos movemos e existimos", (278) o poder
da Redenção, por sua vez, perdura e desenvolve-se na história
do homem e do mundo como que num duplo ritmo, cuja fonte se encontra no
Pai eterno. Por um lado, é o "ritmo" da missão
do Filho, que veio ao mundo, nascendo de Maria Virgem por obra do Espírito
Santo; por outro lado, é também o "ritmo" da missão
do Espírito Santo, tal como foi revelado definitivamente por Cristo.
Por causa da "partida" do Filho, o Espírito Santo veio
e vem continuamente como Consolador e Espírito da verdade. No âmbito
da sua missão, como que no íntimo da presença invisível
do Espírito, o Filho, que "partira" no mistério
pascal, "vem" e está continuamente presente no mistério
da Igreja; e ora se oculta, ora se manifesta na sua história, mas
sem deixar de conduzir sempre o seu curso. Tudo isto acontece, de maneira
sacramental, por obra do Espírito Santo, o qual, indo haurir das
riquezas da Redenção de Cristo, continuamente dá
a vida. Tomando consciência cada vez mais viva deste mistério,
a Igreja apreende melhor a sua identidade, sobretudo como sacramento.
Assim acontece também porque, por vontade do seu Senhor, a Igreja
desempenha o seu ministério salvífico para com o homem por
meio dos diversos Sacramentos. O ministério sacramental, todas
as vezes que é realizado, comporta em si o mistério da "partida"
de Cristo mediante a Cruz e a Ressurreição, em virtude da
qu al vem o Espírito Santo. Vem e actua: "dá a vida".
Os Sacramentos, de facto, significam a graça e conferem a graça:
exprimem a vida e dão a vida. A Igreja é a dispensadora
visível dos sinais sagrados, enquanto o Espírito Santo age
nos mesmos como o dispensador invisível da vida que eles significam.
Em união com o Espírito está presente e age Cristo
Jesus.
64. Se a Igreja é "o sacramento da íntima união
com Deus", ela é tal em Jesus Cristo, em quem esta mesma união
se actua como realidade salvífica. Ela é tal em Jesus Cristo,
por obra do Espírito Santo. A plenitude da realidade salvífica,
que é Cristo na história, difunde-se, de modo sacramental,
pelo poder do Espírito Paráclito. Neste sentido o Espírito
Santo é o "outro Consolador", o novo Consolador, uma
vez que, pela sua acção, a Boa Nova toma corpo nas consciências
e nos corações humanos e expande-se na história.
Em tudo isto, é o Espírito Santo que dá a vida.
Quando empregamos a palavra "sacramento" em referência
à Igreja, devemos ter presente que a sacramentalidade da Igreja,
no texto conciliar, aparece distinta daquela que é própria
dos Sacramentos em sentido estrito. Lemos, efectivamente: "A Igreja
é ... como que um sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima
união com Deus". Mas o que conta e emerge do sentido analógico
em que a palavra é empregada nos dois casos é a relação
que a Igreja tem com o poder do Espírito Santo, que é o
único que dá a vida: a Igreja é sinal e instrumento
da presença e da acção do Espírito vivificante.
O Vaticano II acrescenta que a Igreja é "um sacramento ...
da unidade de todo o género humano". Trata-se, evidentemente,
da unidade que o género humano - em si mesmo diferenciado de muitos
modos - tem de Deus e em Deus. Ela radica-se no mistério da criação
e adquire uma dimensão nova no mistério da Redenção,
em ordem à salvação universal. Dado que Deus quer
"que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade",
(279) a Redenção compreende todos os homens e, de certo
modo, toda a criação. Nesta mesma dimensão universal
da salvação, o Espírito Santo actua, em virtude da
"partida" de Cristo. Por isso, a Igreja, radicada mediante o
seu próprio mistério na economia trinitária da salvação,
com toda a razão se compreende a si mesma como "sacramento
da unidade de todo o género humano". Ela tem consciência
de o ser pelo poder do Espírito Santo, de que ela é sinal
e instrumento na actuação do plano salvífico de Deus.
Deste modo se realiza a "condescendência" do Amor infinito
da Santíssima Trindade: Deus, Espírito invisível,
aproxima-se do mundo visível. Deus uno e trino comunica-se ao homem
no Espírito Santo, desde o princípio, graças à
sua "imagem e semelhança". Sob a acção
do mesmo Espírito, o homem e, por intermédio dele, o mundo
criado, redimido por Cristo, aproximam-se dos seus destinos definitivos
em Deus. A Igreja é "o sacramento, ou sinal, e o instrumento"
desta aproximação dos dois pólos da criação
e da Redenção, Deus e o homem. A mesma Igreja opera nos
entido de restabelecer e fortalecer a unidade do género humano
nas próprias raízes: na relação de comunhão
que o homem tem com Deus, como seu Criador, seu Senhor e seu Redentor.
É uma verdade fundada no ensino do Concílio, que podemos
meditar, explicar e aplicar, em toda a amplitude do seu significado ,
neste período da passagem do segundo para o terceiro Milénio
cristão. É grato para nós tomar consciência
cada vez mais viva do facto de que, dentro da acção desenvolvida
pela Igreja na história da salvação, inscrita na
história da humanidade, está presente e a agir o Espírito
Santo, Aquele que anima com o sopro da vida divina, a peregrinação
terrena do homem e faz convergir toda a criação, toda a
história, para o seu termo último, no oceano infinito de
Deus.
6. "O Espírito e a Esposa dizem: "Vem!""
65. O sopro da vida divina, o Espírito Santo, exprime-se e faz-se
ouvir, da forma mais simples e comum, na oração. É
belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze, aí está
presente o Espírito Santo sopro vital da oração.
É belo e salutar reconhecer que, se a oração se encontra
difundida por todo o universo, igualmente difundida é a presença
e a acção do Espírito Santo, que "insufla"
a oração no coração do homem em toda a gama
incomensurável das mais diversas situações e das
condições, umas vezes favoráveis, outras vezes contrárias
à vida espiritual e religiosa. Em muitos casos, sob a acção
do Espírito, a oração sobe do coração
do homem, apesar das proibições e das perseguições,
e mesmo malgrado as proclamações oficiais, afirmando o carácter
a-religioso ou até ateu na vida pública! A oração
continua a ser sempre a voz de todos os que aparentemente não têm
voz; e nesta voz ecoa, sem cessar, aquele "forte clamor" atribuído
a Cristo pela Epístola aos Hebreus. (280) A oração
é também a revelação do abismo que é
o coração do homem: uma profundidade que vem de Deus e que
somente Deus pode preencher, precisamente pelo Espírito Santo!
Lemos em São Lucas: "Se vós, portanto, embora sendo
maus, sabeis oferecer coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso
Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem!". (281)
O Espírito Santo é o Dom, que vem ao coração
do homem ao mesmo tempo que a oração. Na oração
Ele manifesta-se, antes de mais e acima de tudo, como o Dom, que "vem
em auxílio da nossa fraqueza". É o magnífico
pensamento desenvolvido por São Paulo na Epístola aos Romanos,
quando escreve: "Nós nem sequer sabemos o que devemos pedir
como nos convém; mas o próprio Espírito Santo intercede
por nós, com gemidos inexprimíveis". (282) Assim o
mesmo Espírito Santo não só nos leva a rezar, mas
também nos guia "de dentro" na oração,
suprindo à nossa insuficiência e remediando a nossa incapacidade
de rezar: está presente na nossa oração e confere-lhe
a dimensão divina. (283) "Aquele que perscruta os corações
(Deus) sabe quais são os desejos do Espírito, porque Ele
intercede pelos santos em conformidade com Deus". (284) A oração,
por obra do Espírito Santo, torna-se a expressão cada vez
mais amadurecida do homem novo que, através dela, participa na
vida divina.
A nossa época difícil tem particular necessidade da oração.
Se no decorrer da história, ontem como hoje, homens e mulheres
em grande número deram testemunho da importancia da oração
- consagrando-se ao louvor de Deus e à vida de oração,
sobretudo nos mosteiros, com grande proveito para a Igreja - nestes últimos
anos vai crescendo também o número das pessoas que, em movimentos
e grupos cada vez mais desenvolvidos, põem a oração
em primeiro lugar e nela procuram a renovação da vida espiritual.
Trata-se de um sintoma significativo e consolador, uma vez que desta experiência
tem derivado uma contribuição real para a retomada da oração
entre os fiéis, os quais, desse modo, foram ajudados a melhor considerarem
o Espírito Santo como Aquele que suscita nos corações
uma profunda aspiração à santidade.
Em muitas pessoas e em muitas comunidades amadurece a consciência
de que, mesmo com todo o progresso vertiginoso da civilização
técnico-científica e não obstante as reais conquistas
e as metas alcançadas, o homem está ameaçado, a humanidade
está ameaçada. Diante deste perigo, e mais ainda ao experimentar
a inquietude perante uma real decadência espiritual do homem, pessoas
individualmente e comunidades inteiras, como que guiados por um sentido
interior da fé, buscam a força capaz de erguer de novo o
homem, de o salvar de si mesmo, dos seus próprios erros e das ilusões
que tornam nocivas, muitas vezes, as suas próprias conquistas.
E assim descobrem a oração, na qual se manifesta o "Espírito
que vem em auxílio da nossa fraqueza". Deste modo, os tempos
em que vivemos aproximam do Espírito Santo muitas pessoas, que
retornam à oração. E eu confio que todas possam encontrar
no ensino da presente Encíclica alimento para a sua vida interior
e consigam fortalecer, sob a acção do Espírito Santo,
o seu empenho dé oração, em consonancia com a Igreja
e com o seu Magistério.
66. No meio dos problemas, das desilusões e das esperanças,
das deserções e dos retornos desta nossa época, a
Igreja continua fiel ao mistério do seu nascimento. Se é
um facto histórico que a Igreja saiu do Cenáculo no dia
do Pentecostes, também pode dizer-se que, em certo sentido, ela
nunca o abandonou. Espiritualmente, o acontecimento do Pentecostes não
pertence só ao passado: a Igreja está sempre no Cenáculo,
que traz no seu coração. A Igreja persevera na oração,
como os Apóstolos, juntamente com Maria, Mãe de Cristo,
e com aqueles que, em Jerusalém, constituíam o primeiro
núcleo da comunidade cristã e aguardavam, orando, a vinda
do Espírito Santo.
A Igreja persevera na oração com Maria. Esta união
da Igreja orante com a Mãe de Cristo faz parte do mistério
da mesma Igreja, desde os seus inícios: nós vemos Maria
presente neste mistério, como está presente no mistério
do seu Filho. O Concílio no-lo diz: "A Santíssima Virgem...
envolvida pela sombra do poder do Espírito Santo ... deu à
luz o Filho, que Deus estabeleceu como primogénito entre muitos
irmãos" (cf. Rom 8, 29), isto é, entre os fiéis,
em cuja regeneração e formação ela coopera
com amor materno". Ela, pelas suas "graças e funções
singulares... está intimamente unida à Igreja: é
figura da Igreja". (285) "A Igreja, contemplando a sua misteriosa
santidade e imitando a sua caridade, ... torna-se também ela mãe";
e "à imitação da Mãe do seu Senhor, conserva,
pela graça do Espírito Santo, virginalmente íntegra
a fé, sólida a esperança, sincera a caridade: também
ela (isto é, a Igreja) é virgem que guarda... a fé
jurada ao Esposo". (286)
Compreende-se, assim, o sentido profundo do motivo pelo qual a Igreja,
em união com a Virgem Maria, se volta continuamente como Esposa
para o seu divino Esposo, conforme atestam as palavras do Apocalipse,
citadas pelo Concílio: "O Espírito Santo e a Esposa
dizem ao Senhor Jesus: Vem!". (287) A oração da Igreja
é esta invocação incessante, na qual o Espírito
intercede por nós: de certo modo, Ele próprio pronuncia
essa invocação com a Igreja e na Igreja. O Espírito,
de facto, é dado à Igreja, a fim de que, pelo seu poder,
toda a comunidade do Povo de Deus, por mais ramificada que seja na sua
diversidade, se mantenha na esperança: naquela esperança
em que já "fomos salvos". (288) É a esperança
escatológica, a esperança da realização definitiva
em Deus, a esperança do Reino eterno, que se actua pela participação
na vida trinitária. O Espírito Santo, concedido aos Apóstolos
como Consolador, é o guarda e o animador desta esperanca no coração
da Igreja.
Na perspectiva do terceiro Milénio depois de Cristo, quando "o
Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: Vem!", esta sua
oração, como sempre, reveste-se de um denso alcance escatológico,
destinado a dar também plenitude de sentido à celebração
do grande Jubileu. É uma oração voltada para os destinos
salvíficos, para os quais o Espírito Santo abre os corações
com a sua acção, ao longo de toda a história do homem
sobre a terra. Ao mesmo tempo, porém, esta oração
orienta-se para um preciso momento da história, em que é
posta em relevo a nova "plenitude dos tempos", momento que soará
no ano 2000. A Igreja tenciona preparar-se para esse Jubileu no Espírito
Santo, tal como, pelo Espírito Santo foi preparada a Virgem de
Nazaré, em quem o Verbo se fez carne.
CONCLUSÃO
67. Queremos concluir estas considerações situando-nos no
coração da Igreja e no coração do homem. O
caminho da Igreja passa através do coração do homem,
porque nele está o lugar recôndito do encontro salvífico
com o Espírito Santo, com Deus escondido, e porque exactamente
aí o Espírito Santo se torna "nascente de água
que jorra para a vida eterna". (289) Ele chega aí, ao coração
do homem, como Espírito da verdade e como Consolador, Intercessor
e Advogado - especialmente quando o homem, ou a humanidade, se encontra
diante do juizo de condenação do "acusador", acerca
do qual no Apocalipse se afirma que "acusa os nossos irmãos
na presença do nosso Deus dia e noite". (290) O Espírito
Santo não cessa nunca de ser o guarda da esperança no coração
do homem: da esperança de todas as criaturas humanas, e especialmente
daquelas que "possuem as primícias do Espírito",
e "aguardam a redenção do seu corpo". (291)
O Espírito Santo, na sua misteriosa ligação de divina
comunhão com o Redentor do homem, é Quem dá continuidade
à sua obra: Ele recebe do que é de Cristo e transmite-o
a todos, entrando incessantemente na história do mundo através
do coração do homem. É aí que ele se torna
- como proclama a Sequência litúrgica da Solenidade do Pentecostes
- verdadeiro "pai dos pobres, distribuidor dos dons e luz dos corações";
torna-se: "hóspede amável das almas", que a Igreja
saúda, sem cessar, no limiar da intimidade de cada homem. Ele,
efectivamente, traz "descanso e refrigério" no meio dos
esforços, do trabalho dos braços e das mentes humanas; traz
"descanso" e "alívio" nas horas de calor ardente
do dia, no meio das preocupações, das lutas e dos perigos
de todas as épocas; e traz, por fim, a "consolação",
quando o coração humano chora e é tentado pelo desespero.
Por isso, a mesma Sequência litúrgica exclama: "Sem
a tua potência divina nada há no homem, nada que seja inocente".
Só o Espírito Santo, de facto, "convence do pecado",
do mal, com o objectivo de restabelecer o bem no homem e no mundo humano:
para "renovar a face da terra". Por isso, Ele realiza a purificação
de tudo o que "deturpa" o homem, de "tudo o que é
sórdido"; cura as feridas mesmo as mais profundas da existência
humana; transforma a aridez interior das almas em campos férteis
de graça e de santidade. O que é "duro - abranda-o",
o que é "frio - aquece-o", o que está "desencaminhado
- reconduze-o aos caminhos da salvação". (292)
Rezando assim, a Igreja professa sem cessar a sua fé: há
no nosso mundo criado um Espírito, que é um Dom incriado.
É o Espírito do Pai e do Filho: como o Pai e o Filho, Ele
é incriado, imenso, eterno, omnipotente, Deus e Senhor. (293) Este
Espírito de Deus "enche o universo", e tudo o que é
criado reconhece nele a fonte da própria identidade e nele encontra
a própria expressão trancendente, a ele se dirige e espera-o
e invoca-o com todo o seu ser. Para ele se volta, como Paráclito,
Espírito da verdade e do amor, o homem que vive de verdade e de
amor e que, sem a fonte da verdade e do amor, não pode viver. Para
ele se volta a Igreja, que é o coração da humanidade,
a fim de invocar para todos e a todos dispensar aqueles dons do Amor,
que por meio dele "foi derramado nos nossos corações".
(294) Para ele se volta a Igreja ao longo dos caminhos escarpados da peregrinação
do homem sobre a terra: e pede, pede incessantemente a rectidão
dos actos humanos, como sua obra; pede a alegria e a consolação,
que só ele, verdadeiro consolador, pode trazer descendo ao mais
profundo dos corações humanos; (295) pede a graça
das virtudes, que são merecedoras da glória celeste, pede
a salvação eterna, na comunicação plena da
vida divina, à qual o Pai eternamente "predestinou" os
homens, criados por amor à imagem e semelhança da Santíssima
Trindade.
A Igreja, com o seu coração, que inclui em si todos os corações
humanos, pede ao Espírito Santo a felicidade que só em Deus
tem a sua completa realização: a alegria que "ninguém
pode tirar", (296) a alegria que é fruto do amor e, portanto,
de Deus que "é Amor"; pede "a justiça, a
paz e a alegria no Espírito Santo", nas quais, segundo São
Paulo, consiste o "Reino de Deus". (297)
Também a paz é fruto do amor: a paz interior, que o homem
afadigado procura no íntimo do seu ser; a paz que a humanidade,
a família humana, os povos, as nações, os continentes
pedem com trepidante esperança de obtê-la, na perspectiva
da passagem do segundo ao terceiro Milénio cristão. Uma
vez que o caminho da paz passa, afinal, através do amor, e tende
a criar uma civilização do amor, a Igreja fixa o olhar naquele
que é o Amor do Pai e do Filho e, não obstante as ameaças
crescentes, não cessa de ter confiança, não deixa
de invocar e de servir a paz do homem sobre a terra. A sua confiança
fundamenta-se naquele que, sendo o Espírito-Amor, é também
o Espírito da paz, e não cessa de estar presente no nosso
mundo humano, no horizonte das consciências e dos corações
humanos, para "encher o universo" de amor e de paz.
Diante dele ajoelho-me, no final destas considerações, implorando
que, como Espírito do Pai e do Filho, nos conceda a todos a bênção
e a graça, que desejo transmitir, em nome da Santíssima
Trindade, aos filhos e filhas da Igreja e a toda a família humana.
- Dado em Roma, junto de São Pedro, a 18 de Maio, Solenidade do
Pentecostes, do ano de 1986, oitavo ano do meu Pontificado.
  
©2002,
Alfa&Ômega mídia cristã
|