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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL
CHRISTIFIDELES LAICI
DE SUA SANTIDADE
O PAPA JOÃO PAULO II
SOBRE VOCAÇÃO E MISSÃO DOS LEIGOS
NA IGREJA E NO MUNDO
Aos Bispos,
Aos Sacerdotes e aos Diáconos,
Aos Religiosos e às Religiosas,
A todos os Fiéis Leigos,
INTRODUÇÃO
1. Os fiéis leigos, cuja " vocação e missão
na Igreja e no mundo a vinte anos do Concílio Vaticano II "
foi tema do Sínodo dos Bispos de 1987, pertencem àquele
Povo de Deus que é representado na imagem dos trabalhadores da
vinha, de que fala o Evangelho de Mateus: " O Reino dos Céus
é semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar
trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por
dia e mandou-os para a vinha " (Mt 20, 1-2).
A parábola do Evangelho abre aos nossos olhos a imensa vinha do
Senhor e a multidão de pessoas, homens e mulheres, que Ele chama
e envia para trabalhar nela. A vinha é o mundo inteiro (cf. Mt
13, 8), que deve ser transformado segundo o plano de Deus em ordem ao
advento definitivo do Reino de Deus.
Ide vós também a minha vinha
2. " Ao sair pelas nove horas da manhã, viu outros, que estavam
ociosos, e disse-lhes: "Ide vós também para a minha
vinha" " (Mt 20, 3-4).
O convite do Senhor Jesus " Ide vós também para a minha
vinha " continua, desde esse longínquo dia, a fazer-se sentir
ao longo da história: dirige-se a todo o homem que vem a este mundo.
Nos nossos dias, a Igreja do Concílio Vaticano II, numa renovada
efusão do Espírito de Pentecostes, amadureceu uma consciência
mais viva da sua natureza missionária e ouviu de novo a voz do
seu Senhor que a envia ao mundo como " sacramento universal de salvação
".(1)
Ide vós também. A chamada não diz respeito apenas
aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se
aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são
pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para
a Igreja e para o mundo. Lembra-o S. Gregório Magno que, ao pregar
ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha:
" Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos,
e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que
faz e veja se trabalha na vinha do Senhor ".(2)
De um modo especial o Concílio, com o seu riquíssimo património
doutrinal, espiritual e pastoral, dedicou páginas maravilhosas
à natureza, dignidade, espiritualidade, missão e responsabilidade
dos fiéis leigos. E os Padres conciliares, feitos eco do chamamento
de Cristo, convidaram todos os fiéis leigos, homens e mulheres,
a trabalhar na Sua vinha: " O sagrado Concílio pede instantemente
no Senhor a todos os leigos que respondam com decisão de vontade,
ânimo generoso e disponibilidade de coração à
voz de Cristo, que nesta hora os convida com maior insistência,
e ao impulso do Espírito Santo. De modo particular os mais novos
tomem como dirigido a si próprios este chamamento e recebam-no
com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor
que, por meio deste sagrado Concílio, mais uma vez convida todos
os leigos a que se unam a Ele cada vez mais intimamente, e, sentindo como
próprio o que é d'Ele (cf. Fil 2, 5), se associem à
Sua missão salvadora. 11 Ele quem de novo os envia a todas as cidades
e lugares aonde Ele há-de chegar (cf. Lc 10, 1) ".(3)
Ide vós também para a minha vinha. Mais uma vez estas palavras
ecoaram espiritualmente durante a celebração do Sínodo
dos Bispos, realizado em Roma de 1 a 30 de Outubro de 1987. Trilhando
os caminhos do Concílio e abrindo-se à luz das experiências
pessoais e comunitárias de toda a Igreja, os Padres, enriquecidos
por Sínodos precedentes, abordaram de forma específica e
ampla o tema: a vocação e a missão dos leigos na
Igreja e no mundo.
Nessa Assembleia de Bispos esteve presente uma qualificada representação
de fiéis leigos, homens e mulheres, que deram um precioso contributo
aos trabalhos do Sínodo, como publicamente foi reconhecido na homilia
de encerramento: " Demos graças pelo facto de no decorrer
do Sínodo, pudemos, não só alegrar-nos pela participação
dos leigos (auditores e auditrices) mas ainda mais porque o desenvolvimento
dos debates sinodais nos permitiu escutar a voz dos convidados, os representantes
do laicado, provenientes de todas as partes do mundo, dos diversos Países,
e nos permitiu aproveitar as suas experiências, os seus conselhos,
as sugestões que promanam do seu amor pela causa comum ".(4)
De olhos postos no pós-Concílio, os Padres sinodais puderam
constatar como o Espírito tem continuado a rejuvenescer a Igreja,
suscitando novas energias de santidade e de participação
em tantos fiéis leigos. Prova-o, entre outras coisas, o novo estilo
de colaboração entre sacerdotes, religiosos e fiéis
leigos; a participação activa na liturgia, no anúncio
da Palavra de Deus e na catequese; a multiplicidade de serviços
e de tarefas confiadas aos fiéis leigos e por eles assumidas; o
radioso florescimento de grupos, associações e movimentos
de espiritualidade e de empenhamento laicais; a participação
cada vez maior e significativa das mulheres na vida da Igreja, e o progresso
da sociedade.
Ao mesmo tempo, o Sínodo acentuou como o caminho pós-conciliar
dos fiéis leigos não tem estado isento de dificuldades e
de perigos. Em especial podem recordar-se duas tentações,
de que nem sempre souberam desviar-se: a tentação de mostrar
um exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por
forma a chegarem frequentemente a uma prática abdicação
das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social,
económico, cultural e político; e a tentação
de legitimar a indevida separação entre a fé e a
vida, entre a aceitação do Evangelho e a acção
concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas.
Ao longo dos seus trabalhos, o Sínodo fez constante referência
ao Concílio Vaticano II, cuja doutrina sobre o laicado, à
distância de vinte anos, se revelou de surpreendente actualidade
e, por vezes, de alcance profético: essa doutrina é capaz
de iluminar e de guiar as respostas que hoje devem dar-se aos novos problemas.
Com efeito, o desafio que os Padres sinodais aceitaram foi o de indicar
os caminhos concretos para que a maravilhosa " teoria " sobre
o laicado, expressa pelo Concílio, possa converter-se numa autêntica
" praxe " eclesial. Há, pois, uma série de problemas
que se impõem por uma sua certa " novidade ", de tal
forma que se podem chamar de pós-conciliares, ao menos em sentido
cronológico: os Padres sinodais justamente lhes dedicaram especial
atenção durante o seu debate e reflexão. Entre esses
problemas contam-se os que se referem aos ministérios e aos serviços
eclesiais confiados ou que deverão confiar-se aos fiéis
leigos, a difusão e o crescimento de novos " movimentos "
ao lado de outras formas agregativas de leigos, o lugar e a função
da mulher tanto na Igreja como na sociedade.
Os Padres sinodais, no encerramento dos seus trabalhos, realizados com
tanto empenho, competência e generosidade, manifestaram-me o desejo
e fizeram-me o pedido de, na altura conveniente, oferecer a Igreja universal
um documento conclusivo sobre os fiéis leigos.(5)
Esta Exortação Apostólica pós-sinodal pretende
valorizar toda a riqueza dos trabalhos sinodais, desde os Lineamenta ao
Instrumentum laboris, desde a relação introdutória
às intervenções de cada Bispo e de cada leigo, à
relação de síntese após o debate em aula,
desde os debates e relações dos " círculos menores
" às " proposições " finais. Assim,
o presente documento não se situa paralelamente ao Sínodo,
mas constitui a sua fiel e coerente expressão, é o fruto
de um trabalho colegial para cujo resultado final contribuíram
o Conselho de Secretaria do Sínodo e a própria Secretaria.
Criar e alimentar uma tomada de consciência mais decidida do dom
e da responsabilidade que todos os fiéis leigos, e cada um deles
em particular, têm na comunhão e na missão da Igreja
é o objectivo que se propõe a presente Exortação.
As urgências actuais do mundo: porque estais aqui o dia inteiro
inactivos?
3. O significado fundamental deste Sínodo e, consequentemente,
o seu fruto mais precioso, é que os fiéis leigos escutem
o chamamento de Cristo para trabalharem na Sua vinha, para tomar parte
viva, consciente e responsável na missão da Igreja, nesta
hora magnífica e dramática da história, no limiar
do terceiro milénio.
Novas situações, tanto eclesiais como sociais, económicas,
políticas e culturais, reclamam hoje, com uma força toda
particular, a acção dos fiéis leigos. Se o desinteresse
foi sempre inaceitável, o tempo presente torna-o ainda mais culpável.
Não é lícito a ninguém ficar inactivo.
Retomemos a leitura da parábola evangélica: " Ao sair
novamente pelas cinco horas, encontrou outros que ali estavam e disse-lhes:
"Porque ficais aqui o dia inteiro inactivos?" Eles responderam-lhe:
"Porque ninguém nos contratou". Disse-lhes ele: "Ide
vós também para a minha vinha" " (Mt 20, 6-7).
Não há lugar para o ócio, uma vez que é tanto
o trabalho que a todos espera na vinha do Senhor. O proprietário
insiste ainda mais no seu convite: " Ide vós também
para a minha vinha ".
A voz do Senhor ressoa sem dúvida no íntimo do próprio
ser de cada cristão, que, graças à fé e aos
sacramentos da iniciação cristã, torna-se imagem
de Jesus Cristo, insere-se na Igreja como seu membro vivo e é sujeito
activo da sua missão de salvação. A voz do Senhor,
porém, também se faz sentir através dos acontecimentos
históricos da Igreja e da humanidade, como nos lembra o Concílio:
" O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido
pelo Espírito do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se
por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações,
que compartilha juntamente com os homens de hoje, quais são os
verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus. Pois
a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o
desígnio divino acerca da vocação integral do homem
e, dessa forma, orienta o espírito para soluções
plenamente humanas ".(6)
Temos pois de encarar de frente este nosso mundo, com os seus valores
e problemas, as suas ânsias e esperanças, as suas conquistas
e fracassos: um mundo, cujas situações económicas,
sociais, políticas e culturais, apresentam problemas e dificuldades
mais graves do que o que foi descrito pelo Concílio na Constituição
pastoral Gaudium et spes.(7) É esta, todavia, a vinha, é
este o campo no qual os fiéis leigos são chamados a viver
a sua missão. Jesus quer que eles, como todos os Seus discípulos,
sejam sal da terra e luz do mundo (cfr. Mt 5, 13-14). Mas qual é
o rosto actual da " terra " e do " mundo ", de que
os cristãos devem ser " sal " e " luz "?
É deveras grande a diversidade das situações e das
problemáticas que existem hoje no mundo, aliás caracterizadas
por uma aceleração crescente de mudança. Por isso,
é absolutamente necessário precaver-se contra generalizações
e simplificações indevidas. Podem, todavia, individuar-se
algumas linhas de tendência que emergem na sociedade actual. Como
crescem juntos no campo evangélico o joio e o bom trigo, assim
na história, teatro quotidiano de uma prática, muitas vezes
contraditória, da liberdade humana, encontram-se, lado a lado,
por vezes profundamente emaranhados entre si, o mal e o bem, a injustiça
e a justiça, a angústia e a esperança.
Secularismo e necessidade religiosa
4. Como não pensar na persistente difusão do indiferentismo
religioso e do ateísmo nas suas mais variadas formas, particularmente
naquela que hoje talvez é a mais espalhada, a do secularismo? Embriagado
pelas conquistas prodigiosas de um progresso científico-técnico
e, sobretudo, fascinado pela mais antiga e sempre nova tentação
de querer tornar-se como Deus (cfr. Gn 3, 5), através do uso de
uma liberdade sem limites, o homem corta as raízes religiosas que
mergulham no seu coração: esquece-se de Deus, considera-O
vazio de significado para a sua existência, recusa-O, prostrando-se
em adoração diante dos mais diversos " ídolos
".
É verdadeiramente grave o fenómeno actual do secularismo:
não atinge apenas os indivíduos, mas, de certa forma, comunidades
inteiras, como já observava o Concílio: " Multidões
cada vez maiores praticamente se separam da religião ".(8)
Repetidas vezes eu mesmo recordei o fenómeno da descristianização
que atinge os povos cristãos de velha data e que exige, sem mais
delongas, uma nova evangelização.
E, todavia, a aspiração e a necessidade religiosas não
poderão extinguir-se de todo. A consciência de cada homem,
quando tem a coragem de encarar as interrogações mais sérias
da existência humana, especialmente a do sentido do viver, do sofrer
e do morrer, não pode deixar de fazer sua a palavra de verdade
que Santo Agostinho gritou: " Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso
coração inquieta-se enquanto não descansar em Ti
".(9) O mesmo mundo de hoje também o atesta, manifestando
de formas cada vez mais amplas e vivas a abertura para uma visão
espiritual e transcendente da vida, o despertar da procura religiosa,
o regresso ao sentido do sagrado e à oração, a exigência
de liberdade na invocação do Nome do Senhor.
A pessoa humana: dignidade espezinhada e exaltada
5. Pensemos também nas múltiplas violações
a que hoje é submetida a pessoa humana. O ser humano, quando não
é visto e amado na sua dignidade de imagem viva de Deus (cfr. Gn
1, 26), fica exposto às mais humilhantes e aberrantes formas de
" instrumentalização ", que o tornam miseravelmente
escravo do mais forte. E o " mais forte " pode revestir-se dos
mais variados nomes: ideologia, poder económico, sistemas políticos
desumanos, tecnocracia científica, invasão dos " mass-média
". Mais uma vez nos encontramos diante de multidões de pessoas,
nossos irmãos e irmãs, cujos direitos fundamentais são
violados, também em nome de uma excessiva tolerância e até
da clara injustiça de certas leis civis: o direito à vida
e à integridade, o direito à casa e ao trabalho, o direito
à familia e à procriação responsável,
o direito de participar na vida pública e política, o direito
à liberdade de consciência e de profissão de fé
religiosa.
Quem poderá contar as crianças não nascidas por terem
sido mortas no seio das suas mães, as crianças abandonadas
e maltratadas pelos próprios pais, as crianças que crescem
sem afecto e sem educação? Em certos países populações
inteiras são despojadas de casa e de trabalho, faltam-lhes os meios
absolutamente indispensáveis para levar uma vida digna de seres
humanos, e são privadas até do necessário para a
sua subsistência. Enormes manchas de pobreza e de miséria,
ao mesmo tempo física e moral, erguem-se ao lado das grandes metrópoles
e ferem de morte grupos humanos inteiros.
Mas o carácter sagrado da pessoa não pode ser anulado, embora
muitas vezes seja desprezado e violado: tendo o seu fundamento inabalável
em Deus Criador e Pai, o carácter sagrado da pessoa volta a afirmar-se,
de novo e sempre.
Daí, a difusão cada vez mais vasta e a afirmação
cada vez mais vigorosa do sentido da dignidade pessoal de todo o ser humano.
Uma corrente benéfica já alastra e permeia todos os povos
da terra, tornando-os cada vez mais conscientes da dignidade do homem:
ele não pode ser uma " coisa " ou um " objecto ",
de que nos servimos, mas é sempre e apenas um " sujeito ",
dotado de consciência e de liberdade, chamado a viver de forma responsável
na sociedade e na história, orientado para os valores espirituais
e religiosos.
Tem-se dito que o nosso é o tempo dos " humanismos ":
uns, pela sua matriz ateia e secularista, acabam paradoxalmente por mortificar
e anular o homem; outros humanismos, invés, exaltam-no até
ao ponto de atingirem formas de verdadeira e própria idolatria,
outros, enfim, reconhecem justamente a grandeza e a miséria do
homem, exprimindo, defendendo e favorecendo a sua dignidade integral.
Sinal e fruto destas correntes humanistas é a crescente necessidade
da participação. Sem dúvida, este é um dos
traços característicos da humanidade de hoje, um autêntico
" sinal dos tempos " que está a amadurecer em diversos
campos e em diversas direcções: no campo, sobretudo, das
mulheres e do mundo dos jovens e na direcção da vida, não
só familiar e escolar, mas também cultural, económica,
social e política. Tornar-se protagonistas e, em certa medida,
criadores de uma nova cultura humanista, é uma exigência
ao mesmo tempo universal e individual.(10)
Conflituosidade e paz
6. Não se pode, por fim, esquecer um outro fenómeno que
caracteriza a humanidade actual: talvez como nunca na sua história,
a humanidade é todos os dias profundamente ferida e dilacerada
pela conflituosidade. Trata-se de um fenómeno pluriforme, que se
distingue do pluralismo legítimo das mentalidades e das iniciativas
e que se manifesta na infeliz contraposição das pessoas,
dos grupos, categorias, nações e blocos de nações.
É uma contraposição que assume formas de violência,
de terrorismo, de guerra. Mais uma vez, mas em proporções
imensamente ampliadas, diversos sectores da humanidade actual, querendo
demonstrar a sua " omnipotência ", renovam a insensata
experiência da construção da " torre de Babel
" (cfr. Gn 11, 1-9), a qual, porém, gera confusão,
luta, desagregação e opressão. E a família
humana é assim dramaticamente desarticulada e dilacerada no seu
seio.
Por outro lado, não se pode suprimir de modo algum a aspiração
dos indivíduos e dos povos ao inestimável bem da paz na
justiça. A bem-aventurança evangélica: " Bem-aventurados
os construtores da paz " (Mt 5, 9) encontra nos homens do nosso tempo
um novo e significativo eco: hoje populações inteiras vivem,
sofrem e trabalham para conseguir a paz e a justiça. A participação
de tantas pessoas e grupos na vida da sociedade é o caminho que
hoje mais se percorre para que a paz se torne de desejo em realidade.
Neste caminho encontramos tantos fiéis leigos generosamente empenhados
no campo social e político, nas mais variadas formas, tanto institucionais
como de voluntariado e de serviço aos últimos.
Jesus Cristo, a esperança da humanidade
7. Este é o vasto e atribulado campo que se depara aos trabalhadores
que o proprietário mandou trabalhar na sua vinha.
Neste campo está presente e operante a Igreja, todos nós,
pastores e fiéis, sacerdotes, religiosos e leigos. As situações
que foram aqui recordadas atingem profundamente a Igreja: esta, em parte,
é condicionada por elas, embora não esmagada nem tão
pouco vencida, pois o Espírito Santo, que é a sua alma,
a conforta na sua missão.
A Igreja sabe que todos os esforços que a humanidade está
a envidar em favor da comunhão e da participação,
não obstante todas as dificuldades, atrasos e contradições
devidas às limitações humanas, ao pecado e ao Maligno,
têm plena resposta na acção de Jesus Cristo, Redentor
do homem e do mundo.
A Igreja sabe que foi mandada por Ele como " sinal e instrumento
da íntima união com Deus e da unidade de todo o género
humano ".(11)
Apesar de tudo, portanto, a humanidade pode ter esperança e deve
ter esperança: o Evangelho vivo e pessoal, Jesus Cristo em pessoa,
é a " notícia " nova e portadora de alegria que
a Igreja cada dia anuncia e testemunha a todos os homens.
Neste anúncio e neste testemunho os fiéis leigos têm
um lugar original e insubstituível: por meio deles a Igreja de
Cristo torna-se presente nos mais diversos sectores do mundo, como sinal
e fonte de esperança e de amor.
I
EU SOU A VIDEIRA E VÓS OS RAMOS
A dignidade dos fiéis leigos na Igreja-Mistério
O Mistério da vinha
8. A Bíblia emprega a imagem da vinha de muitas maneiras e com
diversos significados: ela serve particularmente para exprimir o mistério
do Po vo de Detus. Nesta perspectiva mais interior, os fiéis leigos
não são simplesmente os agricultores que trabalham na vinha,
mas são parte dessa mesma vinha: " Eu sou a videira, vós
os ramos ", diz Jesus (Jo 15, 5).
Já no Antigo Testamento os profetas recorriam à imagem da
vinha para indicar o povo eleito. Israel é a vinha de Deus, a obra
do Senhor, a alegria do Seu coração: " Eu tinha-te
plantado como vinha predilecta " (Jer 2, 21); " A tua mãe
era como uma videira plantada à beira das águas. Era fecunda
e rica em sarmentos, graças à abundancia de água
" (Ez 19, 10); " O meu amado possuía uma vinha numa colina
fértil. Cavou-a, tirou-lhe as pedras, e plantou-a com varas escolhidas...
" (Is 5, 2).
Jesus retoma o símbolo da vinha e dele se serve para revelar alguns
aspectos do Reino de Deus: " Um homem plantou uma vinha, cercou-a
de uma sebe, cavou nela um lagar e edificou uma torre, depois arrendou-a
a uns vinhateiros e partiu para longe " (Mc 12, 1; cf. Mt 21, 28
ss).
O evangelista João convida-nos a penetrar em profundidade e introduz-nos
na descoberta do mistério da vinha: esta é o símbolo
e a figura, não só do povo de Deus, mas do próprio
Jesus. Ele é a cepa e nós, os discípulos, somos os
ramos; Ele é a " verdadeira videira ", à qual
estão vitalmente ligados os ramos (cf. Jo 15, 1 ss.).
O Concílio Vaticano II, referindo as várias imagens bíblicas
que iluminam o mistério da Igreja, usa novamente a imagem da videira
e das vides: " Cristo é a videira verdadeira que dá
vida e fecundidade às vides, isto é, a nós, que por
meio da Igreja permanecemos n'Ele e sem o qual nada podemos fazer (Jo
15, 1-5) ".(12) A própria Igreja é, portanto, a vinha
evangélica. É mistério, porque o amor e a vida do
Pai, do Filho e do Espírito Santo são o dom totalmente gratuito
oferecido a todos aqueles que nasceram da água e do Espírito
(cf. Jo 3, 5), chamados a reviver a mesma comunhão de Deus e a
manifestá-la e a comunicá-la na história (missão):
" Naquele dia - diz Jesus - conhecereis que Eu estou no Pai e vós
em Mim e Eu em vós " (Jo 14, 20).
Assim, só no interior do mistério da Igreja como mistério
de comunhão se revela a " identidade " dos fiéis
leigos, a sua original dignidade. E só no interior dessa dignidade
se podem definir a sua vocação e a sua missão na
Igreja e no mundo.
Quem são os fiéis leigos
9. Os Padres sinodais justamente sublinharam a necessidade de se delinear
e propor uma descrição positiva da vocação
e da missão dos fiéis leigos, aprofundando o estudo da doutrina
do Concílio Vaticano II à luz, tanto dos mais recentes documentos
do Magistério como da experiência da mesma vida da Igreja
guiada pelo Espírito Santo.(13)
Ao responder à pergunta " quem são os fiéis
leigos ", o Concílio, ultrapassando anteriores interpretações
prevalentemente negativas, abriu-se a uma vissão decididamente
positiva e manifestou o seu propósito fundamental ao afirmar a
plena pertença dos fiéis leigos à Igreja e ao seu
mistério e a índole peculiar da sua vocação,
a qual tem como específico " procurar o Reino de Deus tratando
das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus ".(14) " Por
leigos - assim os descreve a Constituição Lumen gentium
- entendem se aqui todos os cristãos que não são
membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja,
isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Baptismo,
constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo,
do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, exercem
pela parte que lhes toca, na Igreja e no mundo, a missão de todo
o povo cristão ".(15)
Já Pio XII, dizia: " Os fiéis, e mais propriamente
os leigos, encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja;
para eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade humana.
Por isso, eles, e sobretudo eles, devem ter uma consciência, cada
vez mais clara, não só de pertencerem à Igleja, mas
de ser a Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis sobre a
terra sob a guia do Crefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão
com ele. Eles são a Igreja... ".(16)
Segundo a imagem bíblica da vinha, os fiéis leigos, como
todos os outros membros da Igreja, são vides radicadas em Cristo,
a verdadeira videira, que torna as vides vivas e vivificantes.
A inserção em Cristo através da fé e dos sacramentos
da iniciação cristã é a raiz primeira que
dá origem à nova condição do cristão
no mistério da Igreja, que constitui a sua mais profunda "
fisionomia " e que está na base de todas as vocações
e do dinamismo da vida cristã dos fiéis leigos: em Jesus
Cristo morto e ressuscitado o baptizado torna-se uma " nova criatura
" (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17), uma criatura purificada do pecado e vivificada
pela graça.
Assim, só descobrindo a misteriosa riqueza que Deus dá ao
cristão no santo Baptismo é possível delinear a "
figura " do fiel leigo.
O Baptismo e a novidade cristã
10. Não é um exagero dizer-se que toda a existência
do fiel leigo tem por finalidade levá-lo a descobrir a radical
novidade cristã que promana do Baptismo, sacramento da fé,
a fim de poder viver as suas exigências segundo a vocação
que recebeu de Deus. Para descrever a " figura " do fiel.leigo,
vamos agora considerar de forma explícita e mais directa, entre
outros, estes três aspectos fundamentais: o Baptismo regenera-nos
para a vida dos fiIbos de Deus, une-nos a Jesus Cristo e ao Seu Corpo
que é a Igreja, unge-nos no Espírito Santo, constituindo-nos
templos espirituais.
Filhos no Filho
11. Recordemos as palavras que Jesus disse a Nicodemos: " Em verdade,
em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito
não pode entrar no Reino de Deus " (Jo 3, 5). O santo Baptismo
é, pois, um novo nascimento, é uma regeneração.
É mesmo a pensar neste aspecto do dom baptismal que o apóstolo
Pedro irrompe no canto: " Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo, que na Sua grande misericórdia nos regenerou pela
ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos para uma esperança
viva, para uma herança incorruptível, que não pode
contaminar-se, e imarcessível " (1 Ped 1, 3-4). Para Pedro,
os cristãos são aqueles que foram " regenerados, não
de uma semente corruptível, mas incorruptível: pela palavra
de Deus viva e eterna " (1 Ped 1, 23).
Com o santo Baptismo tornamo-nos fiIhos de Deus no Seu Unigenito Filho,
Jesus Cristo. Ao sair das águas da sagrada fonte, todo o cristão
ouve de novo aquela voz que um dia se fez ouvir nas margens do rio Jordão:
" Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti pus todo o Meu enlevo
" (Lc 3, 22), e compreende ter sido associado ao Filho predilecto,
tornando-se filho de adopção (cf. Gal 4, 4-7) e irmão
de Cristo. Realiza-se, assim, na história de cada um o desígnio
eterno do Pai: " Aqueles que de antemão conheceu, também
os predestinou para serem conformes à imagem do Seu Filho, a fim
de que Este seja o Primogenito de muitos irmãos " (Rom 8,
29).
É o Espírito Santo que constitui os baptizados em filhos
de Deus e, ao mesmo tempo, membros do corpo de Cristo. Paulo recorda-o
aos cristãos de Corinto: " Foi num só Espírito
que todos nós fomos baptizados, a fim de formarmos um só
corpo " (1 Cor 12, 13), de forma que o apóstolo pode dizer
aos fiéis leigos: " Sois agora corpo de Cristo e Seus membros,
cada um na parte que lhe toca " (1 Cor 12, 27); " Que vós
sois filhos prova-o o facto que Deus mandou aos nossos corações
o Espírito do Seu Filho " (Gal 4, 6; cf. Rom 8, 15-16).
Um só corpo em Cristo
12. Regenerados como " filhos no Filho ", os baptizados são
inseparavelmente " membros de Cristo e membros do corpo da Igreja
", como ensina o Concílio de Florença.(17)
O Baptismo significa e realiza uma incorporação, mística
mas real, no corpo crucificado e glorioso de Jesus. Através do
sacramento Jesus une o baptizado à Sua morte para uni-lo à
Sua ressurreição (Rom 6, 3-5), despoja-o do " homem
velho " e reveste-o do " homem novo ", isto é, de
Si mesmo: " Todos os que fostes baptizados em Cristo - proclama o
apóstolo Paulo - vos revestistes de Cristo " (Gal 3, 27; cf.
Ef 4, 22-24; Col 3, 9-10). Daí resulta que " nós, embora
sendo muitos, constituimos um só corpo em Cristo " (Rm 12,
5).
Reencontramos nas palavras de Paulo o eco fiel da doutrina do próprio
Jesus, que revelou a unidade misteriosa dos Seus discípulos com
Ele e entre si, apresentando-a como imagem e prolongamento daquela arcana
comunhão que une o Pai ao Filho e o Filho ao Pai no vínculo
amoroso do Espírito (cf. Jo 17, 21). Trata-se da mesma unidade
de que fala Jesus quando usa a imagem da videira e das vides: " Eu
sou a videira, vós as vides " (Jo 15, 5), uma imagem que ilumina,
não apenas a profunda intimidade dos discípulos com Jesus,
mas também a comunhão vital dos discípulos entre
si: todos eles vides da única Videira.
Templos vivos e santos do Espírito
13. Usando uma outra imagem, a do edifício, o apóstolo Pedro
define os baptizados como " pedras vivas " edificadas sobre
Cristo, a " pedra angular ", e destinadas à " construção
de um edifício espiritual " (1 Ped 2, 4 ss.). A imagem introduz-nos
num outro aspecto da novidade baptismal, e que o Concílio Vaticano
II assim apresenta: " Pela regeneração e pela unção
do Espírito Santo, os baptizados são consagrados para serem
uma morada espiritual ".(18)
O Espírito Santo " unge " o baptizado, imprime-lhe a
Sua marca indelével (cf. 2 Cor 1, 21-22) e faz dele templo espiritual,
isto é, enche-o com a santa presença de Deus, graças
à união e à conformação com Jesus Cristo.
Com esta espiritual " unção ", o cristão
pode, por sua vez, repetir as palavras de Jesus: " O Espírito
do Senhor está sobre mim: por isso, me ungiu e me enviou para anunciar
a Boa Nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos,
e aos cegos o recobrar da vista, para mandar em liberdade os oprimidos
e proclamar um ano de graça do Senhor " (Lc 4, 18-19; Is 61,
1-2). Assim, com a efusão baptismal e crismal o baptizado torna-se
participante na mesma missão de Jesus Cristo, o Messias Salvador.
Partipantes no múnus sacerdotal, profético e real de Jesus
Cristo
14. Dirigindo-se aos baptizados como a crianças recém-nascidas,
o apóstolo Pedro escreve: " Agarrando-vos a Ele pedra viva,
rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus, vós
também, quais pedras vivas, sois usados na construção
de um edifício espiritual, por meio de um sacerdócio santo,
cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão
agradáveis a Deus, por Jesus Cristo... Vós, porém,
sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação
santa, o povo que Deus adquiriu para anunciar as maravilhas d'Aquele que
vos chamou das trevas à Sua luz admirável ... " (1
Ped 2, 4-5. 9).
Eis um novo aspecto da graça e da dignidade baptismal: os fiéis
leigos participam, por sua vez, no tríplice múnus - sacerdotal,
profético e real - de Jesus Cristo. Trata-se de um aspecto que
a tradição viva da Igreja nunca esqueceu, como resulta,
por exemplo, da explicação que Santo Agostinho deu do Salmo
26. Escreve ele: " David foi ungido rei. Naquele tempo ungiam-se
apenas o rei e o sacerdote. Nessas duas pessoas prefigurava-se o futuro
único rei e sacerdote, Cristo (daí que "Cristo"
venha de "crisma"). Não foi, porém, ungido apenas
a nossa Cabeça, mas fomos ungidos também nós, Seu
corpo... Por isso, a unção diz respeito a todos os cristãos,
quando no tempo do Antigo Testamento pertencia apenas a duas pessoas.
Deduz-se claramente sermos nós o corpo de Cristo, do facto de sermos
todos ungidos e de todos sermos n'Ele "cristos" e Cristo, porque,
de certa forma, a Cabeça e o corpo formam o Cristo na sua integridade
".(19)
Nas pisadas do Concílio Vaticano II,(20) propus-me, desde o início
do meu serviço pastoral, exaltar a dignidade sacerdotal, profética
e real de todo o Povo de Deus, afirmando: " Aquele que nasceu da
Virgem Maria, o Filho do carpinteiro - como o julgavam - o Filho do Deus
vivo, como confessou Pedro, veio para fazer de todos nós "um
reino de sacerdotes". O Concílio Vaticano II recordou-nos
o mistério deste poder e o facto de que a missão de Cristo
- Sacerdote, Profeta-Mestre, Rei - continua na Igreja. Todos, todo o Povo
de Deus participa nesta tríplice missão ".(21)
Com esta Exortação mais uma vez convido os fiéis
leigos a reler, a meditar e a assimilar com inteligência e com amor
a rica e fecunda doutrina do Concílio sobre a sua participação
no tríplice múnus de Cristo.(22) Eis agora em síntese
os elementos essenciais dessa doutrina.
Os fiéis leigos participam no múnus sacerdotal, pelo qual
Jesus se ofereceu a Si mesmo sobre a Cruz e continuamente Se oferece na
celebração da Eucaristia para glória do Pai e pela
salvação da humanidade. Incorporados em Cristo Jesus, os
baptizados unem-se a Ele e ao Seu sacrifício, na oferta de si mesmos
e de todas as suas actividades (cf. Rom 12, 1-2). Ao falar dos fiéis
leigos, o Concílio diz: " Todos os seus trabalhos, orações
e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho
de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se forem feitos
no Espírito, e as próprias incomodidades da vida, suportadas
com paciência, se tornam em outros tantos sacrifícios espirituais,
agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cf. 1 Ped 2, 5); sacrifícios
estes que são piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com a
oblação do corpo do Senhor, na celebração
da Eucaristia. E deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente,
como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo ".(23)
A participação no múnus profético de Cristo,
" que, pelo testemunho da vida e pela força da palavra, proclamou
o Reino do Pai ",(24) habilita e empenha os fiéis leigos a
aceitar, na fé, o Evangelho e a anunciá-lo com a palavra
e com as obras, sem medo de denunciar corajosamente o mal. Unidos a Cristo,
o " grande profeta " (Lc 7, 16), e constituidos no Espírito
" testemunhas " de Cristo Ressuscitado, os fiéis leigos
tornam-se participantes quer do sentido de fé sobrenatural da Igreja
que " não pode errar no crer "(25) quer da graça
da palavra (cf. Act 2, 17-18; Ap 19,10); eles são igualmente chamados
a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho na sua vida quotidiana,
familiar e social, e a manifestar, com paciência e coragem, nas
contradições da época presente, a sua esperança
na glória " também por meio das estruturas da vida
secular ".(26)
Ao pertencerem a Cristo Senhor e Rei do universo, os fiéis leigos
participam no Seu múnus real e por Ele são chamados para
o serviço do Reino de Deus e para a sua difusão na história.
Vivem a realeza cristã, sobretudo no combate espiritual para vencerem
dentro de si o reino do pecado (cf. Rom 6, 12), e depois, mediante o dom
de si, para servirem, na caridade e na justiça, o próprio
Jesus presente em todos os seus irmãos, sobretudo nos mais pequeninos
(cf. Mt 25, 40).
Mas os fiéis leigos são chamados de forma particular a restituir
à criação todo o seu valor originário. Ao
ordenar as coisas criadas para o verdadeiro bem do homem, com uma acção
animada pela vida da graça, os fiéis leigos participam no
exercício do poder com que Jesus Ressuscitado atrai a Si todas
as coisas e as submete, com Ele mesmo, ao Pai, por forma a que Deus seja
tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28; Jo 12, 32).
A participação dos fiéis leigos no tríplice
múnus de Cristo Sacerdote, Profeta e Rei encontra a sua raiz primeira
na unção do Baptismo, o seu desenvolvimento na Confirmação
e a sua perfeição e sustento dinamico na Eucaristia. É
uma participação que se oferece a cada um dos fiéis
leigos, mas enquanto formam o único corpo do Senhor. Com efeito,
é a Igreja que Jesus enriquece com os Seus dons, qual Seu Corpo
e Sua Esposa. Assim, os indivíduos participam no tríplice
múnus de Cristo enquanto membros da Igreja, como claramente ensina
o apóstolo Pedro, que define os baptizados como " raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo que Deus
adquiriu " (1 Ped 2, 9). Precisamente por derivar da comunhão
eclesial, a participação dos fiéis leigos no tríplice
múnus de Cristo exige ser vivida e actuada na comunhão e
para o crescimento da mesma comunhão. Escrevia Santo Agostinho:
" Como chamamos a todos cristãos em virtude do místico
crisma, assim a todos chamamos sacerdotes porque são membros do
único Sacerdote ".(27)
Os fiéis leigos e a índole secular
15. A novidade cristã é o fundamento e o título da
igualdade de todos os baptizados em Cristo, de todos os membros do Povo
de Deus: " Comum é a dignidade dos membros, pela regeneração
em Cristo, comum a graça dos filhos, comum a vocação
à perfeição; uma só salvação,
uma só esperança e indivisa caridade ".(28) Em virtude
da comum dignidade baptismal, o fiel leigo é corresponsável,
juntamente com os ministros ordenados e com os religiosos e as religiosas,
da missão da Igreja.
Mas a comum dignidade baptismal assume no fiel leigo uma modalidade que
o distingue, sem todavia o separar, do presbítero, do religioso
e da religiosa. O Concílio Vaticano II apontou a índole
secular como sendo essa modalidade: " A índole secular é
própria e peculiar dos leigos ".(29)
Precisamente para se entender de forma completa, adequada e específica
a condição eclesial do fiel leigo, é preciso aprofundar
o alcance teológico da índole secular, á luz do plano
salvífico de Deus e do mistério da Igreja.
Como dizia Paulo VI, a Igreja " tem uma autêntica dimensão
secular, inerente á sua íntima natureza e missão,
cuja raiz mergulha no mistério do Verbo encarnado e que se concretiza
de formas diversas para os seus membros ".(30)
A Igreja, com efeito, vive no mundo, embora não seja do mundo (cf.
Jo 17, 16) e é enviada para dar continuidade à obra redentora
de Jesus Cristo, a qual, " visando por natureza salvar os homens,
compreende também a instauração de toda a ordem temporal
".(31)
É verdade que todos os membros da Igreja participam na sua dimensão
secular, mas de maneiras diferentes. Nomeadamente a participação
dos fiéis leigos tem uma sua modalidade de actuação
e de função, que, segundo o Concílio, lhes é
" própria e peculiar ": tal modalidade é indicada
na expressão " índole secular ".(32)
Efectivamente, o Concílio descreve a condição secular
dos fiéis leigos indicando-a, antes de mais, como o lugar onde
lhes é dirigida a chamada de Deus: " Aí são
chamados por Deus ".(33) Trata-se de um " lugar " descrito
em termos dinâmicos: os fiéis leigos " vivem no século,
isto é, empenhados em toda a qualquer ocupação e
actividade terrena e nas condições ordinárias da
vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência
".(34) Os fiéis leigos são pessoas que vivem a vida
normal no mundo, estudam, trabalham, estabelecem relações
amigáveis, sociais, profissionais, culturais, etc. O Concílio
considera essa sua condição não simplesmente como
um dado exterior e ambiental, mas como uma realidade destinada a encontrar
em Jesus Cristo a plenitude do seu significado.(35) Mais, atesta que:
" O próprio Verbo encarnado quis participar da vida social
dos homens... Santificou os laços sociais e, antes de mais, os
familiares, fonte da vida social, e submeteu-Se livremente às leis
do Seu país. Quis levar a vida de um operário do Seu tempo
e da Sua terra ". (36)
O " mundo " torna-se assim o ambiente e o meio da vocação
cristã dos fiéis leigos, pois também ele está
destinado a dar glória a Deus Pai em Cristo. O Concílio
pode, então, indicar qual o sentido próprio e peculiar da
vocação divina dirigida aos fiéis leigos. Estes não
são chamados a deixar o lugar que ocupam no mundo. O Baptismo não
os tira de modo nenhum do mundo, como sublinha o apóstolo Paulo:
" Irmãos, fique cada um de vós diante de Deus na condição
em que estava quando foi chamado " (1 Cor 7, 24); mas confia-lhes
uma vocação que diz respeito a essa mesma condição
intra-mundana: pois, os fiéis leigos " são chamados
por Deus para que aí, exercendo o seu próprio ofício,
inspirados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação
do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem
Cristo aos outros, antes de mais, pelo testemunho da própria vida,
pela irradiação da sua fé, esperança e caridade
".(37) Dessa forma, o estar e o agir no mundo são para os
fiéis leigos uma realidade, não só antropológica
e sociológica, mas também e especificamente teológica
e eclesial, pois, é na sua situação intra-mundana
que Deus manifesta o Seu plano e comunica a especial vocação
de " procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e
ordenando-as segundo Deus ".(38)
E foi precisamente nesta linha que os Padres sinodais afirmaram: "
A índole secular do fiel leigo não deve, pois, definir-se
apenas em sentido sociológico, mas sobretudo em sentido teológico.
A característica secular é vista á luz do acto criador
e redentor de Deus, que confiou o mundo aos homens e às mulheres,
para tomarem parte na obra da criação, libertarem a mesma
criação da influência do pecado e santificarem a si
mesmos no matrimónio ou na vida celibatária, na família,
no emprego e nas várias actividades sociais ".(39)
A condição eclesial dos fiéis leigos é radicalmente
definida pela sua novidade cristã e caracterizada pela sua índole
secular.(40)
As imagens evangélicas do sal, da luz e do fermento, emboram se
refiram indistintamente a todos os discípulos de Jesus, têm
uma específica aplicação nos fiéis leigos.
São imagens maravilhosamente significativas, porque falam, não
só da inserção profunda e da participação
plena dos fiéis leigos na terra, no mundo, na comunidade humana,
mas também e, sobretudo, da novidade e da originalidade de uma
inserção e de uma participação destinadas
à difusão do Evangelho que salva.
Chamados à santidade
16. A dignidade do fiel leigo revela-se em plenitude quando se considera
a primeira e fundamental vocação que o Pai, em Jesus Cristo
por meio do Espírito Santo, dirige a cada um deles: a vocação
à santidade, isto é, à perfeição da
caridade. O santo é o testemunho mais esplêndido da dignidade
conferida ao discípulo de Cristo.
Sobre a universal vocação à santidade, o Concílio
Vaticano II teve palavras sobremaneira luminosas. Pode dizer-se que foi
precisamente esta a primeira incumbência confiada a todos os filhos
e filhas da Igreja por um Concílio que se quis para a renovação
evangélica da vida cristã. (41) Tal incumbência não
é uma simples exortação moral, mas uma exigência
do mistério da Igreja, que não se pode suprimir: a Igreja
é a Vinha escolhida, por meio da qual as vides vivem e crescem
com a mesma linfa santa e santificadora de Cristo; é o Corpo místico,
cujos membros participam da mesma vida de santidade da Cabeça que
é Cristo; é a Esposa amada do Senhor Jesus que a Si mesmo
Se entregou para a santificar (cf. Ef 5, 25 ss.). O Espírito que
santificou a natureza humana de Jesus no seio virginal de Maria (cf. Lc
1, 35) é o mesmo Espírito que habita e actua na Igreja para
lhe comunicar a santidade do Filho de Deus feito homem.
Hoje como nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da
renovação evangélica, acolhendo com generosidade
o convite apostólico de " ser santos em todas as acções
". O Sínodo extraordinário de 1985, a vinte anos do
encerramento do Concílio, insistiu com oportunidade sobre essa
urgência: " Sendo a Igreja em Cristo um mistério, ela
deve ser vista como sinal e instrumento de santidade... Os santos e santas
foram sempre fonte e origem de renovação nas circunstâncias
mais difíceis em toda a história da Igreja. Hoje temos muitíssima
falta de santos, que devemos pedir com assiduidade ".(42)
Todos na Igreja, precisamente porque são seus membros, recebem
e, por conseguinte, partilham a comum vocação à santidade.
A título pleno, sem diferença alguma dos outros membros
da Igreja, a essa vocação são chamados os fiéis
leigos: " Todos os fiéis, de qualquer estado ou ordem, são
chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição
da caridade "; (43) " Todos os fiéis são convidados
e têm por obrigação tender à santidade e à
perfeição do próprio estado ".(44)
A vocação à santidade mergulha as suas raízes
no Baptismo e volta a ser proposta pelos vários sacramentos, sobretudo
pelo da Eucaristia: revestidos de Jesus Cristo e impregnados do Seu Espírito,
os cristãos são " santos " e, por isso, são
habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na santidade
de todo o seu operar. O apóstolo Paulo não se cansa de advertir
todos os cristãos para que vivam " como convém a santos
" (Ef 5, 3).
A vida segundo o Espírito, cujo fruto é a santificação
(Rom 6, 22; cf. Gal 5, 22), suscita e exige de todos e de cada um dos
baptizados o seguimento e imitação de Jesus Cristo, no acolhimento
das Suas Bem-aventuranças, na escuta e meditação
da Palavra de Deus, na consciente e activa participação
na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração
individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça,
na prática do mandamento do amor em todas as circunstancias da
vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os pequeninos, os
pobres e os doentes.
Santificar-se no mundo
17. A vocação dos fiéis leigos à santidade
comporta que a vida segundo o Espírito se exprima de forma peculiar
na sua inserção nas realidades temporais e na sua participação
nas actividades terrenas. É ainda o apóstolo que adverte:
" Tudo quanto fizerdes por palavras e obras, fazei tudo no nome do
Senhor Jesus, dando, por meio d'Ele, graças a Deus Pai " (Col
3, 17). Aplicando as palavras do apóstolo aos fiéis leigos,
o Concílio afirma categoricamente: " Nem os cuidados familiares
nem outras ocupações profanas devem ser alheias à
vida espiritual ".(45) Por sua vez, os Padres sinodais afirmaram:
" A unidade de vida dos fiéis leigos é de enorme importância,
pois, eles têm que se santificar na normal vida profissional e social.
Assim, para que possam responder à sua vocação, os
fiéis leigos devem olhar para as atividades da vida quotidiana
como uma ocasião de união com Deus e de cumprimento da Sua
vontade, e também como serviço aos demais homens, levando-os
à comunhão com Deus em Cristo ". (46)
A vocação à santidade deverá ser compreendida
e vivida pelos fiéis leigos, antes de mais, como sendo uma obrigação
exigente a que não se pode renunciar, como um sinal luminoso do
infinito amor do Pai que os regenerou para a Sua vida de santidade. Tal
vocação aparece então como componente essencial e
inseparável de nova vida baptismal e, por conseguinte, elemento
constitutivo da sua dignidade. Ao mesmo tempo, a vocação
à santidade anda intimamente ligada à missão e à
responsabilidade confiadas aos fiéis leigos na Igreja e no mundo.
Com efeito, a própria santidade já vivida, que deriva da
participação na vida de santidade da Igreja, representa
o primeiro e fundamental contributo para a edificação da
própria Igreja, como " Comunhão dos Santos ".
Um cenário maravilhoso se abre aos olhos iluminados pela fé:
o de inúmeros fiéis leigos, homens e mulheres, que, precisamente
na vida e nas ocupações do dia a dia, muitas vezes inobservados
ou até incompreendidos e ignorados pelos grandes da terra, mas
vistos com amor pelo Pai, são obreiros incansáveis que trabalham
na vinha do Senhor, artífices humildes e grandes - certamente pelo
poder da graça de Deus - do crescimento do Reino de Deus na história.
A santidade é, portanto, um pressuposto fundamental e uma condição
totalmente insubstituível da realização da missão
de salvação na Igreja. A santidade da Igreja é a
fonte secreta e a medida infalível da sua operosidade apostólica
e do seu dinamismo missionário. Só na medida em que a Igreja,
Esposa de Cristo, se deixa amar por Ele e O ama, é que ela se torna
Mãe fecunda no Espírito.
Retomemos mais uma vez a imagem bíblica: o rebentar e o alastrar
das vides dependem da sua inserção na videira. " Como
a vide não pode dar fruto por si mesma se não estiver na
videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em
Mim. Eu sou a videira, vós as vides. Quem permanece em Mim e Eu
nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer "
(Jo 15, 4-5).
É natural recordar aqui a solene proclamação de fiéis
leigos, homens e mulheres, como Beatos e Santos, feita durante o mês
do Sínodo. Todo o Povo de Deus, e os fiéis leigos em particular,
podem ter agora novos modelos de santidade e novos testemunhos de virtudes
heróicas vividos nas condições comuns e ordinárias
da existência humana. Como disseram os Padres sinodais: " As
Igrejas locais e, sobretudo, as chamadas Igrejas mais jovens deverão
procurar diligentemente entre os próprios membros aqueles homens
e mulheres que prestaram nessas condições (as condições
quotidianas do mundo e o estado conjugal) o testemunho da santidade e
que podem servir de exemplo aos demais, a fim de, se for o caso, os proporem
para a beatificação e canonização ".(47)
Ao concluir estas reflexões, destinadas a definir a condição
eclesial do fiel leigo, vem-me à mente a célebre recomendação
de São Leão Magno: " Agnosce, o Christiane, dignitatem
tuam! ".(48) É a mesma advertência de São Máximo,
Bispo de Turim: " Considerai a honra que vos foi feita neste mistério!
".(49) Todos os baptizados são convidados a ouvir de novo
as palavras de Santo Agostinho: " Alegremo-nos e agradeçamos:
tornámo-nos não só cristãos, mas Cristo...!
Maravilhai-vos e alegrai-vos: Cristo nos tornámos ".(50)
A dignidade cristã, fonte da igualdade de todos os membros da Igreja,
garante e promove o espírito de comunhão e de fraternidade
e, ao mesmo tempo, torna-se o segredo e a força do dinamismo apostólico
e missionário dos fiéis leigos. É uma dignidade exigente,
a dignidade dos trabalhadores que o Senhor chamou para a Sua vinha: "
Incumbe a todos os leigos - lemos no Concílio - a magnífica
tarefa de trabalhar para que o desígnio de salvação
atinja cada vez mais os homens de todos os tempos e de toda a terra ".(51)
II
TODOS RAMOS DA ÚNICA VIDEIRA
A participação dos fiéis leigos na vida da Igreja-Comunhão
O Mistério da Igreja-Comunhão
18. Ouçamos de novo as palavras de Jesus: " Eu sou a verdadeira
videira e o meu Pai é o agricultor ... Permanecei em Mim e Eu em
vós " (Jo 15, 1-4).
Nestas simples palavras é-nos revelada a misteriosa comunhão
que vincula em unidade o Senhor e os discípulos, Cristo e os baptizados:
uma comunhão viva e vivificante, pela qual os cristãos deixam
de pertencer a si mesmos, tornando-se propriedade de Cristo, como as vides
ligadas à videira.
A comunhão dos cristãos com Jesus tem por modelo, fonte
e meta a mesma comunhão do Filho com o Pai no dom do Espírito
Santo: unidos ao Filho no vínculo amoroso do Espírito, os
cristãos estão unidos ao Pai.
Jesus prossegue: " Eu sou a videira e vós os ramos "
(Jo 15, 5). Da comunhão dos cristãos com Cristo brota a
comunhão dos cristãos entre si: todos são ramos da
única Videira, que é Cristo. Para o Senhor Jesus esta comunhão
fraterna é o maravilhoso reflexo e a misteriosa participação
na vida íntima de amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Jesus reza por esta comunhão: " Que todos sejam um só,
como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também
eles estejam em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste
" (Jo 17, 21).
Esta comunhão é o próprio mistério da Igreja,
como nos recorda o Concílio Vaticano II na célebre frase
de São Cipriano: " A Igreja universal aparece como "um
povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo"
".(52) Para esse mistério da Igreja-Comunhão somos
habitualmente chamados, quando, no início da celebração
eucarística, o sacerdote nos recebe com a saudação
do apóstolo Paulo: " A graça do Senhor Jesus Cristo,
o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com
todos vós " (2 Cor 13, 13).
Depois de ter esboçado a " figura " dos fiéis
leigos na sua dignidade, devemos agora reflectir sobre a sua missão
e responsabilidade na Igreja e no mundo: mas estas só podem ser
compreendidas de forma adequada no contexto vivo da Igreja-Comunhão.
O Concílio e a eclesiologia de comunhão
19. Esta é a idéia central que a Igreja deu de si no Concílio
Vaticano II, como no-lo recorda o Sínodo extraordinário
de 1985, celebrado a vinte anos do acontecimento conciliar: " A eclesiologia
da comunhão é a idéia central e fundamental nos documentos
do Concílio. A Koinonia-comunhão, fundada na Sagrada Escritura,
é tida em grande honra na Igreja antiga e nas Igrejas orientais
até aos nossos dias. Por isso, muito se tem feito desde o Concílio
Vaticano II para que a Igreja como comunhão seja entendida de maneira
mais clara e traduzida de modo mais concreto na vida. Que significa a
complexa palavra "comunhão"? Trata-se fundamentalmente
de comunhão com Deus por Jesus Cristo no Espírito Santo.
Tem-se esta comunhão na Palavra de Deus e nos Sacramentos. O Baptismo
é a porta e o fundamento da comunhão na Igreja. A Eucaristia
é a fonte e o ápice de toda a vida cristã (cf. LG
11). A comunhão do corpo de Cristo eucarístico significa
e produz, isto é, edifica a íntima comunhão de todos
os fiéis no Corpo de Cristo que é a Igreja (1 Cor 10, 16)
".(53)
Logo a seguir ao Concílio, Paulo VI assim se dirigia aos fiéis:
" A Igreja é uma comunhão. Que significa neste caso
comunhão? Vamos ao parágrafo do catecismo que fala da sanctorum
communionem, a comunhão dos santos. Igreja significa comunhão
dos santos. E comunhão dos santos quer dizer uma dupla participação
vital: a incorporação dos cristãos na vida de Cristo
e a circulação dessa mesma caridade em todo o tecido dos
fiéis, neste mundo e no outro. União a Cristo e em Cristo;
e união entre os cristãos, na Igreja ".
As imagens bíblicas com que o Concílio se propôs introduzir-nos
na contemplação do mistério da Igreja, realçam
a realidade da Igreja-comunhão na sua inseparável dimensão
de comunhão dos cristãos com Cristo e de comunhão
dos cristãos entre si. São as imagens do redil, do rebanho,
da videira, do edifício espiritual, da cidade santa.(55) É
sobretudo a imagem do corpo apresentada pelo apóstolo Paulo, cuja
doutrina brota fresca e atraente em tantas páginas do Concílio.(56)
Por sua vez, o Concílio reportando-se à história
inteira da salvação, volta a propor a imagem da Igreja como
Povo de Deus: " Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não
individualmente, excluída qualquer ligação entre
eles, mas constituindo-os em povo que O reconhecesse na verdade e O servisse
santamente ".(57) Já nas suas primeiras linhas, a Constituição
Lumen gentium compendia de forma admirável essa doutrina, ao escrever:
" A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou seja, o
sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade
de todo o género humano ".(58)
A realidade da Igreja-Comunhão é, pois, parte integrante,
representa mesmo o conteúdo central do " mistério ",
ou seja, do plano divino da salvação da humanidade. Por
isso, a comunhão eclesial não pode ser adequadamente interpretada,
se é entendida como uma realidade simplesmente sociológica
e psicológica. A Igreja-Comunhão é o povo "
novo ", o povo " messiânico ", o povo que "
tem por cabeça Cristo ... por condição a dignidade
e a liberdade dos filhos de Deus... por lei o novo mandamento de amar
como o próprio Cristo nos amou... por fim o Reino de Deus... (e
é) constituído por Cristo numa comunhão de vida,
de caridade e de verdade ".(59) Os laços que unem os membros
do novo Povo entre si - e antes de mais com Cristo - não são
os da " carne " e do " sangue ", mas os do espírito,
mais precisamente, os do Espírito Santo, que todos os baptizados
recebem (cf. Jl 3, 1).
Com efeito, aquele Espírito que desde a eternidade vincula a única
e indivisa Trindade, aquele Espírito que " na plenitude do
tempo " (Gal 4, 4) une indissoluvelmente a carne humana ao Filho
de Deus, esse mesmo e idêntico Espírito torna-se, ao longo
das gerações cristãs, a fonte ininterrupta e inesgotável
da comunhão na Igreja e da Igreja.
Uma comunhão orgânica: diversidade e complementariedade
20. A comunhão eclesial configura-se, mais precisamente, como uma
comunhão " orgânica ", análoga à
de um corpo vivo e operante: ela, de facto, caracteriza-se pela presença
simultânea da diversidade e da complementariedade das vocações
e condições de vida, dos ministérios, carismas e
responsabilidades. Graças a essa diversidade e complementariedade,
cada fiel leigo encontra-se em relação com todo o corpo
e dá-lhe o seu próprio contributo.
Sobre a comunhão orgânica do Corpo místico de Cristo
insiste com muita ênfase o apóstolo Paulo, cuja doutrina
tão rica podemos reencontrar na síntese que o Concílio
esboçou: Jesus Cristo - lemos na Constituição Lumen
gentium -, " comunicando o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos,
chamados de entre todos os povos, como que o Seu Corpo místico.
Nesse corpo a vida de Cristo difunde-se nos crentes... Como todos os membros
do corpo humano, apesar de serem muitos, formam no entanto um só
corpo, assim também os fiéis em Cristo (cf. 1 Cor 12, 12).
Também na edificação do Corpo de Cristo existe diversidade
de membros e de funções.
É um mesmo Espírito que distribui os Seus vários
dons segundo a Sua riqueza da Igreja (cf. 1 Cor 12, 1-11). Entre estes
dons, sobressai a graça dos Apóstolos, a cuja autoridade
o mesmo Espírito submete também os carismáticos (cf.
1 Cor 14). O mesmo Espírito, unificando o corpo por Si e pela Sua
força e pela conexão interna dos membros, produz e promove
a caridade entre os fiéis. Daí que, se algum membro padece,
todos os membros sofrem juntamente (cf. 1 Cor 12, 26) ".60
É sempre o único e idêntico Espírito o princípio
dinâmico da variedade e da unicidade na e da Igreja. Lemos de novo
na Constituição Lumen gentium: " E para que sem cessar
nos renovemos n'Ele (Cristo) (cf. Ef 4, 23), deu-nos do Seu Espírito,
o qual, sendo um e o mesmo na cabeça e nos membros, unifica e move
o corpo inteiro, a ponto de os Santos Padres compararem a Sua acção
à que o princípio vital, ou alma, desempenha no corpo humano
".61 E numa outra passagem, particularmente densa e preciosa para
podermos compreender a " organicidade " própria da comunhão
eclesial, também no seu aspecto de constante crescimento para a
comunhão perfeita, o Concílio escreve: " O Espírito
habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num
templo (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19) e dentro deles ora e dá testemunho
da adopção de filhos (cf. Gal 4, 6; Rom 8, 15-16. 26). A
Igreja, que Ele conduz à verdade total (cfr. Jo 16, 13) e unifica
na comunhão e no ministério, enriquece-a Ele e guia-a com
diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com
os Seus frutos (cf. Ef 4, 11-12; 1 Cor 12, 4; Gal 5, 22). Pela força
do Evangelho rejuvenesce a Igreja e renova-a continuamente e leva-a à
união perfeita com o seu Esposo. Porque o Espírito e a Esposa
dizem ao Senhor Jesus: "Vem!" (cf. Ap 22, 17) ".(62)
A comunhão eclesial é, portanto, um dom, um grande dom do
Espírito Santo, que os fiéis leigos são chamados
a acolher com gratidão e, ao mesmo tempo, a viver com profundo
sentido de responsabilidade. Isso é concretamente realizado através
da sua participação na vida e na missão da Igreja,
a cujo serviço os fiéis leigos colocam os seus variados
e complementares ministérios e carismas.
O fiel leigo " não pode nunca fechar-se em si mesmo, isolando-se
espiritualmente da comunidade, mas deve viver num contínuo intercâmbio
com os outros, com um vivo sentido de fraternidade, na alegria de uma
igual dignidade e no empenho em fazer frutificar ao mesmo tempo o imenso
tesouro recebido em herança. O Espírito do Senhor dá-lhe,
como aos outros, múltiplos carismas, convida-o a diferentes ministérios
e funções, recorda-lhe, como também recorda aos outros
em relação a ele, que tudo o que o distingue não
é um suplemento de dignidade, mas uma especial e complementar habilitação
para o serviço... Deste modo os carismas, os ministérios,
as funções e os serviços do fiel leigo existem na
comunhão e para a comunhão. São riquezas complementares
em favor de todos, sob a sábia orientação dos Pastores
".(63)
Os Ministérios e os carismas, dons do Espírito à
Igreja
21. O Concílio Vaticano II apresenta os ministérios e os
carismas como dons do Espírito Santo em ordem à edificação
do Corpo de Cristo e à Sua missão de salvação
no mundo.64 A Igreja, com efeito, é dirigida e guiada pelo Espírito
que distribui diversos dons hierárquicos e carismáticos
a todos os baptizados, chamando-os a ser, cada qual a seu modo, activos
e corresponsáveis.
Vamos agora considerar os ministérios e os carismas em referência
directa aos fiéis leigos e à sua participação
na vida da Igreja-Comunhão.
Ministérios, ofícios e funções
Os ministérios presentes e operantes na Igreja são todos,
embora de diferentes modalidades, uma participação no mesmo
ministério de Jesus Cristo, o bom Pastor que dá a vida pelas
Suas ovelhas (cf. Jo 10, 11), o servo humilde e totalmente sacrificado
para a salvação de todos (cf. Mc 10, 45). Paulo é
sobremaneira explícito sobre a constituição ministerial
das Igrejas apostólicas. Na Primeira Carta aos Coríntios
escreve: " Alguns, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar como
apóstolos, em segundo lugar como profetas, em terceiro lugar como
mestres ... " (1 Cor 12, 28). Na Carta aos Efésios lemos:
" A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida
do dom de Cristo ... A uns, Ele constituiu apóstolos; a outros,
profetas; a outros evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento
dos santos, para a obra do ministério, para a edificação
do Corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da
fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito,
à medida da estatura completa de Cristo " (Ef 4, 7.11-13;
cf. Rom 12, 4 8). Como resulta destes e de outros textos do Novo Testamento,
os ministérios, bem como os dons e as funções eclesiais,
são variados.
Os ministérios derivados da Ordem
22. Na Igreja encontramos, em primeiro lugar, os ministérios ordenados,
isto é, os ministérios que derivam do sacramento da Ordem.
O Senhor Jesus, com efeito, escolheu e instituiu os Apóstolos -
semente do Povo da nova Aliança e origem da sagrada Hierarquia,65
com o mandato de fazer discípulos de todas as gentes (cf. Mt 28,
19), de formar e de guiar o povo sacerdotal. A missão dos Apóstolos,
que o Senhor Jesus continua a confiar aos pastores (Bispos, Presbíteros,
Diáconos) do Seu povo, é um verdadeiro serviço, a
que a Sagrada Escritura significativamente denomina " diakonia ",
isto é, serviço, ministério. Os ministros recebem
de Cristo Ressuscitado o carisma do Espírito Santo, na ininterrupta
sucessão apostólica, através do sacramento da Ordem:
d'Ele recebem a autoridade e o poder sagrado para servirem a Igreja, agindo
" in persona Christi Capitis " (66) (na pessoa de Cristo Cabeça)
e reuni-la no Espírito Santo por meio do Evangelho e dos Sacramentos.Os
ministérios ordenados, antes de o serem para aqueles que os recebem,
são uma imensa graça para a vida e para a missão
da Igreja inteira. Exprimem e realizam uma participação
no sacerdócio de Jesus Cristo que se diferencia, não só
em grau mas também em essência, da participação
dada no Baptismo a todos os fiéis. Por outro lado, o sacerdócio
ministerial, como recordou o Concílio Vaticano II, é essencialmente
finalizado no sacerdócio real de todos os fiéis e para ele
ordenado.(67)
Por isso, a fim de assegurar e de aumentar a comunhão na Igreja,
em especial no âmbito dos diversos e complementares ministérios,
os pastores devem reconhecer que o seu ministério é radicalmente
ordenado para o serviço de todo o Povo de Deus (cf. Heb 5, 1),e
os fiéis leigos, pela sua parte, devem reconhecer que o sacerdócio
ministerial é absolutamente necessário para a sua vida e
para a sua participação na missão da Igreja.(68)
Ministérios ofícios e funções dos leigos
23. A missão salvífica da Igreja no mundo realiza-se, não
só pelos ministros, que o são em virtude do sacramento da
Ordem, mas também por todos os fiéis leigos: estes, com
efeito, por força da sua condição baptismal e da
sua vocação específica, na medida própria
e cada um, participam no múnus sacerdotal, profético e real
de Cristo.
Por isso, os pastores devem reconhecer e promover os ofícios e
as funções dos fiéis leigos, que têm o seu
fundamento sacramental no Baptismo e na Confirmação, bem
como, para muitos deles, no Matrimónio.
E, quando a necessidade ou a utilidade da Igreja o pedir, os pastores
podem, segundo as normas estabelecidas pelo direito universal, confiar
aos fiéis leigos certos ofícios e certas funções
que, embora ligadas ao seu próprio ministério de pastores,
não exigem, contudo, o carácter da Ordem. O Código
de Direito Canónico escreve: " Onde as necessidades da Igreja
o aconselharem, por falta de ministros, os leigos, mesmo que não
sejam leitores ou acólitos, podem suprir alguns ofícios,
como os de exercer o ministério da palavra, presidir às
orações litúrgicas, conferir o Baptismo e distribuir
a Sagrada Comunhão, segundo as prescrições do direito
".(69) Todavia, o exercício de semelhante tarefa não
transforma o fiel leigo em pastor: na realidade, o que constitui o ministério
não é a tarefa, mas a ordenação sacramental.
Só o sacramento da Ordem confere ao ministro ordenado uma peculiar
participação no ofício de Cristo, Chefe e Pastor,
e no Seu sacerdócio eterno.(70) A tarefa que se exerce como suplente
recebe a sua legitimidade, formalmente e imediatamente, da delegação
oficial que lhe dão os pastores e, no seu exercício concreto,
submete-se à direcção da autoridade eclesiástica.(71)
A recente Assembleia sinodal perspectivou um vasto e significativo panorama
da situação eclesial acerca dos ministérios, ofícios
e funções dos baptizados. Os Padres manifestaram vivo apreço
pelo notável contributo apostólico dos fiéis leigos,
homens e mulheres, pelos seus carismas e por toda a sua acção
em favor da evangelização, da santificação
e da animação cristã das realidades temporais. Ao
mesmo tempo, foi muito apreciado o seu serviço ordinário
nas comunidades eclesiais e a sua generosa disponibilidade para a suplência
em situações de emergência e de necessidades crónicas.(72)
Na sequência da renovação litúrgica promovida
pelo Concílio, os próprios fiéis leigos, tomando
mais viva consciência das tarefas que lhes pertencem na assembleia
litúrgica e na sua preparação, tornaram-se largamente
disponíveis no seu desempenho: a celebração litúrgica,
com efeito, é uma acção sagrada, não só
do clero, mas de toda a assembleia. É, portanto, natural que as
tarefas que não são exclusivas dos ministros ordenados,
sejam desempenhadas pelos fiéis leigos.(73) Torna-se assim espontânea
a passagem de um efectivo envolvimento dos fiéis leigos na acção
litúrgica para o anúncio da Palavra de Deus e para a cura
pastoral.(74)
Na mesma Assembleia sinodal, porém, não faltaram, ao lado
dos positivos, pareceres críticos sobre o uso indiscriminado do
termo " ministério ", a confusão e o nivelamento
entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial, a pouca
observância de leis e normas eclesiásticas, a interpretação
arbitrária do conceito de " suplência ", uma certa
tolerância por parte da própria autoridade legítima,
a " clericalização " dos fiéis leigos e
o risco de se criar de facto uma estrutura eclesial de serviço,
paralela à fundada no sacramento da Ordem.
Precisamente para obviar tais perigos, os Padres sinodais insistiram na
necessidade de serem expressas com clareza, até na própria
terminologia,(75) quer a unidade de missão da Igreja, em que participam
todos os baptizados, quer a diversidade substancial do ministério
dos pastores, radicado no sacramento da Ordem, em relação
com os outros ofícios e as outras funções eclesiais,
radicados nos sacramentos do Baptismo e da Confirmação.
É, pois, necessário, em primeiro lugar, que os pastores,
ao reconhecer e ao conferir aos fiéis leigos os vários ministérios,
ofícios e funções, tenham o máximo cuidado
em instrui-los sobre a raiz baptismal destas tarefas. Igualmente, os pastores
deverão zelar para que se evite um recurso fàcil e abusivo
a presumíveis " situações de emergência
" ou de " necessária suplência ", onde objectivamente
não existam ou onde é possível remediar com uma programação
pastoral mais racional.
Os vários ofícios e funções que os fiéis
leigos podem legitimamente desempenhar na liturgia, na transmissão
da fé e nas estruturas pastorais da Igreja, deverão ser
exercidos em conformidade com a sua específica vocação
laical, diferente da dos ministros sagrados. Nesse sentido, a Exortação
Evangelii nuntiandi, que teve tanto e tão benéfico mérito
em estimular a diversificada colaboração dos fiéis
leigos na vida e na missão evangelizadora da Igreja, lembra que
" o campo próprio da sua actividade evangelizadora é
o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social
e da economia, como também o da cultura, das ciências e das
artes, da vida internacional, dos "mass-media" e, ainda, outras
realidades abertas para a evangelização, como sejam, o amor,
a família, a educação das crianças e dos adolescentes,
o trabalho profissional e o sofrimento. Quantos mais leigos houver impregnados
do Evangelho, responsáveis em relação a tais realidades
e comprometidos claramente nas mesmas, competentes para as promover e
conscientes de que é necessário fazer desabrochar a sua
capacidade cristã, muitas vezes escondida e asfixiada, tanto mais
essas realidades, sem nada perderem ou sacrificarem do próprio
coeficiente humano, mas patenteando uma dimensão transcendente
para o além, não raro desconhecida, se virão a encontrar
ao serviço da edificação do Reino de Deus e, por
conseguinte, da salvação em Jesus Cristo ".(76)
Durante os trabalhos do Sínodo, os Padres dedicaram bastante atenção
ao Leitorado e ao Acolitado. Enquanto, no passado, eles existiam na Igreja
Latina apenas como etapas espirituais do itinerário para os ministérios
ordenados, com o Motu Próprio de Paulo VI, Ministeria quaedam (15
de Agosto de 1972) eles adquiriram uma própria autonomia e estabilidade,
bem como uma sua possível destinação aos próprios
fiéis leigos, se bem que exclusivamente para os homens. No mesmo
sentido se expressou o novo Código de Direito Canónico.(77)
Agora, os Padres sinodais manifestaram o desejo de que " o Motu Próprio
" Ministeria quaedam " fosse revisto, tendo em conta o uso das
Igrejas locais e sobretudo indicando os critérios segundo os quais
se devam escolher os destinatários de cada ministério ".(78)
Em tal sentido foi constituida expressamente uma comissão, não
só para responder a este desejo manifestado pelos Padres sinodais,
mas tambem e ainda mais para estudar de modo aprofundado os diversos problemas
teológicos, litúrgicos, jurídicos e pastorais levantados
pelo actual grande florescimento de ministérios confiados aos fiéis
leigos.
Esperando que a Comissão conclua o seu estudo, para que a praxe
eclesial dos ministérios confiados aos fiéis leigos resulte
ordenada e frutuosa, deverão ser fielmente respeitados por todas
as Igrejas particulares os princípios teológicos atrás
recordados, em particular a diversidade essencial entre o sacerdócio
ministerial e o sacerdócio comum e, consequentemente, a diversidade
entre os ministérios derivados do Sacramento da Ordem e os ministérios
derivados dos sacramentos do Baptismo e da Confirmação.
Os carismas
24. O Espírito Santo, ao confiar à Igreja-Comunhão
os diversos ministérios, enriquece-a com outros dons e impulsos
especiais, chamados carismas. Podem assumir as mais variadas formas, tanto
como expressão da liberdade absoluta do Espírito que os
distribui, como em resposta às múltiplas exigências
da história da Igreja. A descrição e a classificação
que os textos do Novo Testamento fazem desses dons são um sinal
da sua grande variedade: " A manifestação do Espírito
é dada a cada um para proveito comum. A um, o Espírito dá
uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo
o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito;
a outro, o dom das curas, nesse único Espírito; a outro,
o operar milagres; a outro, a profecia; a outro, o descernimento dos espíritos;
a outro, o falar diversas línguas e a outro ainda o interpretar
essas línguas " (1 Cor 12, 7-10; cfr. 1 Cor 12, 4-6.28-31;
Rom 12, 6-8; 1 Ped 4, 10-11).
Os carismas, sejam extraordinários ou simples e humildes, são
graças do Espírito Santo que têm, directa ou indirectamente,
uma utilidade eclesial, ordenados como são à edificação
da Igreja, ao bem dos homens e às necessidades do mundo.
Também aos nossos dias não falta o florescerer de diversos
carismas entre os fiéis leigos, homens e mulheres. São dados
ao indivíduo, mas também podem ser partilhados por outros
e de tal modo perseveram no tempo como uma herança preciosa e viva,
que gera uma afinidade espiritual entre as pessoas. Precisamente em referência
ao apostolado dos leigos, o Concílio Vaticano II escreve: "
Para exercerem este apostolado, o Espírito Santo, que opera a santificação
do Povo de Deus por meio do ministério e dos sacramentos, concede
também aos fiéis dons particulares (cfr. 1 Cor 12, 7), "distribuindo-os
por cada um conforme Lhe apraz" (cfr. 1 Cor 12, 7-11), a fim de que
"cada um ponha ao serviço dos outros a graça que recebeu",
e todos actuem "como bons administradores da multiforme graça
de Deus" (1 Ped 4, 10), para a edificação, no amor,
do corpo todo (cfr. Ef 4, 6)".(79)
Na lógica da originária doação donde derivam,
os dons do Espírito Santo exigem que todos aqueles que os receberam
os exerçam para o crescimento de toda a Igreja, como no-lo recorda
o Concílio.(80)
Os carismas devem ser recebidos com gratidão: tanto da parte de
quem os recebe, como da parte de todos na Igreja. Com efeito, eles são
uma especial riqueza de graça para a vitalidade apostólica
e para a santidade de todo o Corpo de Cristo: uma vez que sejam dons verdadeiramente
provenientes do Espírito e se exerçam em plena conformidade
com os autênticos impulsos do Espírito. Nesse sentido, torna-se
sempre necessário o discernimento dos carismas. Na verdade, como
disseram os Padres sinodais, " a acção do Espírito
Santo, que sopra onde quer, nem sempre é fácil de se descobrir
e de se aceitar. Sabemos que Deus actua em todos os fiéis cristãos
e estamos conscientes dos benefícios que provêm dos carismas,
tanto para os indivíduos como para toda a comunidade cristã.
Todavia, também temos consciência da força do pecado
e dos seus esforços para perturbar e confundir a vida dos fiéis
e da comunidade.(81)
Por isso, nenhum carisma está dispensado da sua referência
e dependência dos Pastores da Igreja. O Concílio escreve
com palavras claras: " O juízo acerca da sua (dos carismas)
autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na Igreja
e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito,
mas julgar tudo e conservar o que é bom (cfr. 1 Tes 5, 12 e 19-21),(82)
de modo que todos os carismas concorram, na sua diversidade e complementariedade,
para o bem comum.(83)
A partipação dos fiéis leigos na vida da Igreja
25. Os fiéis leigos participam na vida da Igreja, não só
pondo em acção os seus ministérios e carismas, mas
também de muitas outras formas.
Essa participação encontra a sua primeira e necessária
expressão na vida e missão das Igrejas particulares, das
Dioceses, nas quais " está verdadeiramente presente e actua
a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica ".(84)
Igrejas particulares e Igreja Universal
Com vista a uma adequada participação na vida da Igreja,
é absolutamente urgente que os fiéis leigos tenham uma ideia
clara e precisa da Igreja particular na sua originária ligação
com a Igreja universal. A Igreja particular não é o produto
de uma espécie de fragmentação da Igreja universal,
nem a Igreja universal resulta do simples somatório das Igrejas
particulares; mas um laço vivo, essencial e perene as une entre
si, enquanto a Igreja universal existe e se manifesta nas Igrejas particulares.
Por isso, o Concílio afirma que as Igrejas particulares "
são formadas à imagem da Igreja universal, das quais e pelas
quais existe a Igreja católica, una e única ".(85)
O mesmo Concílio incita fortemente os fiéis leigos a viver
operosamente a sua pertença à Igreja particular, assumindo
simultaneamente um respiro cada vez mais " católico ":
" Cultivem constantemente - lemos no Decreto sobre o apostolado dos
leigos - o sentido da Diocese, de que a Paróquia é como
que uma célula, e estejam sempre prontos, à voz do seu pastor,
a juntar as suas forças às iniciativas diocesanas. Mas,
para responder às necessidade das cidades e das regiões
rurais, não confinem a sua cooperação aos limites
da Paróquia ou da Diocese, mas esforcem-se por estendê-la
ao âmbito interparoquial, interdiocesano, nacional ou internacional.
Tanto mais que a crescente migração dos povos, o incremento
de relações mútuas e a facilidade de comunicações
já não permitem que parte alguma da sociedade permaneça
fechada em si. Assim, devem interessar-se pelas necessidades do Povo de
Deus disperso por toda a Terra ".(86)
O recente Sínodo pediu, nesse sentido, que se favorecesse a criação
dos Conselhos Pastorais diocesanos, a que se deveria recorrer conforme
as oportunidades. Trata-se, na verdade, da principal forma de colaboração
e de diálogo, bem como de discernimento, a nível diocesano.
A participação dos fiéis leigos nestes Conselhos
poderá aumentar o recurso à consulta, e o princípio
da colaboração - que em determinados casos também
é de decisão - e encontrará uma aplicação
mais vasta e mais incisiva.(87)
A participação dos fiéis leigos nos Sínodos
diocesanos e nos Concílios particulares, provinciais ou plenários,
está contemplada no Código de Direito Canónico; (88)
poderá contribuir para a comunhão e para a missão
eclesial da Igreja particular, tanto no seu próprio âmbito,
como em relação com as demais Igrejas particulares da Província
eclesiástica ou da Conferência Episcopal.
As Conferências Episcopais são chamadas a descobrir a forma
mais oportuna de desenvolver, a nível nacional ou regional, a consulta
e a colaboração dos fiéis leigos, homens e mulheres:
assim se poderão examinar bem os problemas comuns e melhor se manifestará
a comunhão eclesial de todos.(89)
A paróquia
26. A comunhão eclesial, embora possua sempre uma dimensão
universal, encontra a sua expressão mais imediata e visível
na Paróquia: esta é a última localização
da Igreja; é, em certo sentido, a própria Igreja que vive
no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas.(90)
É necessário que todos redescubramos, na fé, a verdadeira
face da Paróquia, ou seja, o próprio " mistério
" da Igreja presente e operante nela: embora, por vezes, pobre em
pessoas e em meios, e outras vezes dispersa em territórios vastíssimos
ou quase desaparecida no meio de bairros modernos populosos e caóticos,
a Paróquia não é principalmente uma estrutura, um
território, um edifício, mas é sobretudo " a
família de Deus, como uma fraternidade animada pelo espírito
de unidade ",(91) é " uma casa de família, fraterna
e acolhedora ",(92) é a " comunidade de fiéis
".(93) Em definitivo, a Paróquia está fundada sobre
uma realidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística.(94)
Isso significa que ela é uma comunidade idónea para celebrar
a Eucaristia, na qual se situam a raiz viva do seu edificar-se e o vínculo
sacramental do seu estar em plena comunhão com toda a Igreja. Essa
idoneidade mergulha no facto de a Paróquia ser uma comunidade de
fé e uma comunidade orgânica, isto é, constituída
pelos ministros ordenados e pelos outros cristãos, na qual o pároco
- que representa o Bispo diocesano - (95) é o vínculo hierárquico
com toda a Igreja particular.
É deveras imenso o trabalho da Igreja nos nossos dias e, para realizá-lo,
a Paróquia sozinha não pode bastar. Por isso, o Código
de Direito Canónico prevê formas de colaboração
entre paróquias no âmbito do território (96) e recomenda
ao Bispo o cuidado de todas as categorias de fiéis, até
das que não são atingidas pelo cuidado pastoral ordinário.(97)
De facto, muitos lugares e formas de presença e de acção
são absolutamente necessários para levar a palavra e a graça
do Evangelho às variadas condições de vida dos homens
de hoje, e muitas outras funções de irradiação
religiosa e de apostolado do ambiente, no campo cultural, social, educativo,
profissional, etc., não podem ter como centro ou ponto de partida
a Paróquia. Todavia, a Paróquia ainda hoje vive uma fase
nova e prometedora. Como dizia Paulo VI, no início do seu Pontificado,
dirigindo-se ao Clero romano: " Acreditamos simplemente que esta
antiga a venerada estrutura da Paróquia tem uma missão indispensável
de grande actualidade: pertence-lhe criar a primeira comunidade do povo
cristão, iniciar e reunir o povo na expressão normal da
vida litúrgica, conservar e reanimar a fé nas pessoas de
hoje, dar-lhes a escola da doutrina salvadora de Cristo, praticar no sentir
e na acção a humilde caridade das obras boas e fraternas
".(98)
Os Padres sinodais, por sua vez, debruçaram-se cuidadosamente sobre
a situação actual de muitas paróquias, pedindo para
elas uma mais decidida renovação: " Muitas Paróquias,
tanto nas zonas urbanas como em terras de missão, não conseguem
funcionar plena e efectivamente por falta de meios materiais ou de homens
ordenados, ou também pela excessiva extensão geográfica
e pela especial condição de alguns cristãos (como,
por exemplo, os refugiados e os emigrantes). Para que tais Paróquias
sejam verdadeiramente comunidades cristãs, as autoridades locais
devem favorecer:
a. a adaptação das estruturas paroquiais à ampla
flexibilidade concedida pelo Direito Canónico, sobretudo ao promover
a participação dos leigos nas responsabilidades pastorais;
b. as pequenas comunidades eclesiais de base, também chamadas comunidades
vivas, onde os fiéis possam comunicar entre si a Palavra de Deus
e exprimir-se no serviço e no amor; estas comunidades são
autênticas expressões da comunhão eclesial e centros
de evangelização, em comunhão com os seus Pastores
... ".(99)
Para a renovação das paróquias e para melhor assegurar
a sua eficácia operativa devem favorecer-se também formas
institucionais de cooperação entre as diversas paróquias
de um mesmo território.
O empenhamento apostólico na paróquia
27. Necessário se torna agora considerar mais de perto a comunhão
e a participação dos fiéis leigos na vida da Paróquia.
Nesse sentido deve chamar-se a atenção de todos os fiéis
leigos, homens e mulheres, para uma observação tão
verdadeira, significativa e estimulante, feita pelo Concílio: "
No seio das comunidades da Igreja - lemos no Decreto sobre o apostolado
dos leigos - a sua acção é tão necessária
que, sem ela, o próprio apostolado dos pastores não pode
conseguir, na maior parte das vezes, todo o seu efeito ".(100) Esta
é uma afirmação radical que, evidentemente, deve
ser vista à luz da " eclesiologia de comunhão ":
sendo diferentes e complementares, os ministérios e os carismas
são todos necessários para o crescimento da Igreja, cada
um segundo a própria modalidade.
Os fiéis leigos devem convencer-se cada vez mais do particular
significado que tem o empenhamento apostólico na sua Paróquia.
É ainda o Concílio que com autoridade o sublinha: "
A Paróquia dá-nos um exemplo claro de apostolado comunitário
porque congrega numa unidade toda a diversidade humana que aí se
encontra e insere essa diversidade na universalidade da Igreja. Habituem-se
os leigos a trabalhar na Paróquia intimamente unidos aos seus sacerdotes,
a trazer para a comunidade eclesial os próprios problemas e os
do mundo e as questões que dizem respeito à salvação
dos homens, para que se examinem e resolvam com o concurso de todos. Habituem-se
a prestar auxílio a toda a iniciativa apostólica e missionária
da sua comunidade eclesial na medida das próprias forças
".(101)
O acento posto pelo Concílio na análise e na solução
dos problemas pastorais " com o contributo de todos " deve encontrar
o seu progresso adequado e estruturado na valorização cada
vez mais convicta, ampla e decidida, dos Conselhos pastorais paroquiais,
nos quais justamente insistiram os Padres sinodais.(102)
Nas actuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem
fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão
eclesial no seio das suas paróquias e para o despertar do impulso
missionário em ordem aos não crentes e, mesmo, aos crentes
que tenham abandonado ou arrefecido a prática da vida cristã.
A Paróquia, sendo a Igreja colocada no meio das casas dos homens,
vive e actua profundamente integrada na sociedade humana e intimamente
solidária com as suas aspirações e os seus dramas.
Frequentemente, o contexto social, sobretudo em certos países e
ambientes, é violentemente sacudido por forças de desagregação
e de desumanização: o homem pode encontrar-se perdido e
desorientado, mas no seu coração permanece o desejo, cada
vez maior, de poder sentir e cultivar relações mais fraternas
e humanas. A resposta a esse desejo pode ser dada pela Paróquia,
quando esta, graças à participação viva dos
fiéis leigos, se mantém coerente com a sua originária
vocação e missão: ser no mundo " lugar "
da comunhão dos crentes e, ao mesmo tempo, " sinal "
e " instrumento " da vocação de todos para a comunhão;
numa palavra, ser a casa que se abre para todos e que está ao serviço
de todos, ou, como gostava de dizer o Papa João XXIII, o fontanário
da aldeia a que todos acorrem na sua sede.
Formas de participação na vida da Igreja
28. Os fiéis leigos, juntamente com os sacerdotes, os religiosos
e as religiosas, formam o único Povo de Deus e Corpo de Cristo.
Ser " membros " da Igreja nada tira ao facto de cada cristão
ser um ser " único e irrepetível ", antes, garante
e promove o sentido mais profundo da sua unicidade e irrepetibilidade,
enquanto é fonte de verdade e de riqueza para a Igreja inteira.
Nesse sentido, Deus, em Jesus Cristo, chama cada qual pelo próprio
e inconfundível nome. O convite do Senhor: " Ide vós
também para a minha vinha " dirige-se a cada um pessoalmente
e soa: " Vem também tu para a minha vinha "!
Assim, cada um na sua unicidade e irrepetibilidade, com o seu ser e o
seu agir, põe-se ao serviço do crescimento da comunhão
eclesial, como, por sua vez, recebe singularmente e faz sua a riqueza
comum de toda a Igreja. Esta é a " Comunhão dos Santos
", que nós professamos no Credo: o bem de todos torna-se o
bem de cada um e o bem de cada um torna-se o bem de todos. " Na santa
Igreja - escreve São Gregório Magno - cada um é apoio
dos outros e os outros são seu apoio ".(103)
Formas pessoais de participação
É absolutamente necessário que cada fiel leigo tenha sempre
viva consciência de ser um " membro da Igreja ", a quem
se confia um encargo original insubstituível e indelegável,
que deverá desempenhar para o bem de todos. Numa tal perspectiva,
assume todo o seu significado a afirmação conciliar sobre
a necessidade absoluta do apostolado de cada pessoa: " O apostolado
individual que deriva com abundância da fonte de uma vida verdadeiramente
cristã (cf. Jo 4, 14), é origem e condição
de todo o apostolado dos leigos, mesmo do associado, e nada o pode substituir.
A este apostolado, sempre e em toda a parte proveitoso e em certas circunstâncias
o único conveniente e possível, são chamados e, por
isso, obrigados todos os leigos, de qualquer condição, ainda
que não se lhes proporcione ocasião ou possibilidade de
cooperar nas associações ".(104)
No apostolado individual existem grandes riquezas que precisam de ser
descobertas em ordem a uma intensificação do dinamismo missionário
de cada fiel leigo. Com essa forma de apostolado, a irradiação
do Evangelho pode tornar-se mais capilar, chegando a tantos lugares e
ambientes quanto os que estão ligados à vida quotidiana
e concreta dos leigos. Trata-se, além disso, de uma irradiação
constante, estando ligada à contínua coerência da
vida pessoal com a fé; e também de uma irradiação
particularmente incisiva, porque, na total partilha das condições
de vida, do trabalho, das dificuldades e esperanças dos irmãos,
os fiéis leigos podem atingir o coração dos seus
vizinhos, amigos ou colegas, abrindo-o ao horizonte total, ao sentido
pleno da existência: a comunhão com Deus e entre os homens.
Formas agregativas de participação
29. A comunhão eclesial, já presente e operante na acção
do indivíduo, encontra uma expressão específica no
operar associado dos fiéis leigos, isto é, na acção
solidária que eles desenvolvem ao participar responsavelmente na
vida e na missão da Igreja.
Nestes tempos mais recentes, o fenómeno da agregação
dos leigos entre si assumiu formas de particular variedade e vivacidade.
Se na história da Igreja tal fenómeno representou sempre
uma linha constante, como o provam até aos nossos dias as várias
confrarias, as ordens terceiras e os diversos sodalícios, ele recebeu,
todavia, um notável impulso nos tempos modernos que têm visto
o nascer e o irradiar de múltiplas formas agregativas: associações,
grupos, comunidades, movimentos. Pode falar-se de uma nova era agregativa
dos fiéis leigos. Com efeito, " ao lado do associativismo
tradicional e, por vezes, nas suas próprias raízes, brotaram
movimentos e sodalícios novos, com fisionomia e finalidade específicas:
tão grande é a riqueza e a versatilidade de recursos que
o Espírito infunde no tecido eclesial e tamanha é a capacidade
de iniciativa e a generosidade do nosso laicado ".(105)
Estas agregações de leigos aparecem muitas vezes bastante
diferentes umas das outras em vários aspectos, como a configuração
exterior, os caminhos e métodos educativos e os campos operativos.
Encontram, porém, as linhas de uma vasta e profunda convergência
na finalidade que as anima: a de participar responsavelmente na missão
da Igreja de levar o Evangelho de Cristo, qual fonte de esperança
para o homem e de renovação para a sociedade.
A agregação dos fiéis leigos por motivos espirituais
e apostólicos brota de várias fontes e vai ao encontro de
diversas exigências: exprime, de facto, a natureza social da pessoa
e obedece ao imperativo de uma mais vasta e incisiva eficácia operativa.
Na verdade, a incidência " cultural " fonte e estímulo
e, simultaneamente, fruto e sinal de todas as demais transformações
do ambiente e da sociedade, só se pode alcançar com a acção,
não tanto dos indivíduos, mas de um " sujeito social
", isto é, com a acção de um grupo, de uma comunidade,
de uma associação, de um movimento. E isso é particularmente
verdade no contexto de um a sociedade pluralista e fragmentada - como
é, em tantas partes do mundo, a actual - e perante os problemas
tornados enormemente complexos e difíceis. Por outro lado, sobretudo
num mundo secularizado, as várias formas agregativas podem representar
para muitos uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã coerente,
com as exigências do Evangelho e de um empenhamento missionário
e apostólico.
Para além destes motivos, a razão profunda que justifica
e exige o agregar-se dos fiéis leigos é de ordem teológica:
uma razão eclesiológica, como abertamente reconhece o Concílio
Vaticano II, ao apontar o apostolado associado como um " sinal da
comunhão e da unidade da Igreja em Cristo ".(106)
É um " sinal " que deve manifestar-se nas relações
de " comunhão ", tanto no interior como no exterior das
várias formas agregativas, no mais vasto contexto da comunidade
cristã. É a própria razão eclesiológica
apontada que explica, por um lado o " direito " de agregação
próprio dos fiéis leigos e, por outro, a necessidade de
" critérios " de discernimento sobre a autenticidade
eclesial das suas formas agregativas.
Antes de mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa
dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro
e próprio direito que não deriva de uma espécie de
" concessão " da autoridade, mas que promana do Baptismo,
qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem activamente
na comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é
muito explícito a este propósito: " Respeitada a devida
relação com a autoridade eclesiástica, os leigos
têm o direito de fundar associações, dirigi-las e
dar nome às já existentes ".(107) E o recente Código
textualmente diz: " Os fiéis podem livremente fundar e dirigir
associações para fins de caridade ou de piedade, ou para
fomentar a vocação cristã no mundo, e reunir-se para
alcançar em comum esses mesmos fins ".(108)
Trata-se de uma liberdade reconhecida e garantida pela autoridade eclesiástica
e que deve ser exercida sempre e só na comunhão da Igreja:
nesse sentido o direito dos fiéis leigos em agregar-se é
essencialmente relativo à vida de comunhão e missão
e à própria Igreja.
Critérios de eclesialidade para as agregações laicais
30. É sempre na perspectiva da comunhão e da missão
da Igreja e não, portanto, em contraste com a liberdade associativa,
que se comprende a necessidade de claros e precisos critérios de
discernimento e de reconhecimento das agregações laicais,
também chamados " critérios de eclesialidade ".
Como critérios fundamentais para o discernimento de toda e qualquer
agregação dos fiéis leigos na Igreja, podem considerar-se
de forma unitária, os seguintes:
· O primado dado à vocação de cada cristão
à santidade, manifestado " nos frutos da graça que
o Espírito produz nos fiéis "(109) como crescimento
para a plenitude da vida cristã e para a perfeição
da caridade.(110)
Nesse sentido, toda e qualquer agregação de fiéis
leigos é chamada a ser sempre e cada vez mais instrumento de santidade
na Igreja, favorecendo e encorajando " uma unidade mais íntima
entre a vida prática dos membros e a própria fé ".(111)
· A responsabilidade em professar a fé católica,
acolhendo e proclamando a verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre
o homem, em obediência ao Magistério da Igreja, que autenticamente
a interpreta. Por isso, toda a agregação de fiéis
leigos deve ser lugar de anúncio e de proposta da fé e de
educação na mesma, no respeito pelo seu conteúdo
integral.
· O testemunho de uma comunhão sólida e convicta,
em relação filial com o Papa, centro perpétuo e visivel
da unidade da Igreja universal,(112) e com o Bispo " princípio
visível e fundamento da unidade " da Igreja particular,(113)
e na " estima recíproca entre todas as formas de apostolado
na Igreja ".(114)
A comunhão com o Papa e com o Bispo é chamada a exprimir-se
na disponibilidade leal em aceitar os seus ensinamentos doutrinais e orientações
pastorais. A comunhão eclesial exige, além disso, que se
reconheça a legítima pluralidade das formas agregativas
dos fiéis leigos na Igreja e, simultaneamente, a disponibilidade
para a sua recíproca colaboração.
· A conformidade e a participação na finalidade apostólica
da Igreja, que é a evangelização e a santificação
dos homens e a formação cristã das suas consciências,
de modo a conseguir permear de espírito evangélico as várias
comunidades e os vários ambientes ".(115)
Nesta linha, exige-se de todas as formas agregativas de fiéis leigos,
e de cada uma deles, um entusiasmo missionário que as torne, sempre
e cada vez mais, sujeitos de uma nova evangelização.
· O empenho de uma presença na sociedade humana que, à
luz da doutrina social da Igreja, se coloque ao serviço da dignidade
integral do homem.
Assim, as agregações dos fiéis leigos devem converter-se
em correntes vivas de participação e de solidariedade para
construir condições mais justas e fraternas no seio da sociedade.
Os critérios fundamentais acima expostos encontram a sua verificação
nos frutos concretos que acompanham a vida e as obras das diversas formas
associativas, tais como: o gosto renovado pela oração, a
contemplação, a vida litúrgica e sacramental; a animação
pelo florescimento de vocações ao matrimónio cristão,
ao sacerdócio ministerial, à vida consagrada; a disponibilidade
em participar nos programas e nas atividades da Igreja, tanto a nível
local como nacional ou internacional; o empenhamento catequético
e a capacidade pedagógica de formar os cristãos; o impulso
em ordem a uma presença cristã nos vários ambientes
da vida social e a criação e animação de obras
caritativas, culturais e espirituais; o espírito de desapego e
de pobreza evangélica em ordem a uma caridade mais generosa para
com todos; as conversões à vida cristã ou o regresso
à comunhão por parte de baptizados " afastados ".
O serviço dos Pastores para a comunhão
31. Os Pastores na Igreja, mesmo perante possíveis e compreensíveis
dificuldades de algumas formas agregativas e perante novas formas, que
se vão impondo, não podem abdicar do serviço da sua
autoridade, não apenas pelo bem da Igreja, mas até pelo
bem dessas mesmas agregações laicais. Nesse sentido, eles
devem acompanhar a sua acção de discernimento com a orientação
e, sobretudo, com o encorajamento em ordem a um crescimento das agregações
dos fiéis leigos na comunhão e na missão da Igreja.
É sem dúvida oportuno que algumas novas associações
e alguns novos movimentos, pela sua difusão, muitas vezes, nacional
e até internacional, venham a receber um reconhecimento oficial,
uma aprovação explícita da competente autoridade
eclesiástica. Nesse sentido, já dizia o Concílio:
" O apostolado dos leigos admite diversos modos de relação
com a Hierarquia, segundo as suas várias formas e seus objectivos...
Certas formas de apostolado dos leigos são, de diversos modos,
expressamente reconhecidas pela Hierarquia. Além disso, a autoridade
eclesiástica, tendo em conta as exigências do bem da Igreja,
pode escolher de entre as várias associações e iniciativas
apostólicas com um fim directamente espiritual, algumas em particular,
e promovê-las de um modo especial, assumindo sobre elas uma maior
responsabilidade ".(116)
Entre as várias formas de apostolado dos leigos, que têm
uma particular relação com a Hierarquia, os Padres sinodais
expressamente mencionaram vários movimentos e associações
de Acção Católica, onde " os leigos se associam
livremente de forma orgânica e estável, sob o impulso do
Espírito Santo, na comunhão com o Bispo e com os sacerdotes,
de forma a poderem servir, no estilo próprio da sua vocação,
com um método particular, o crescimento de toda a comunidade cristã,
os projectos pastorais e a animação evangélica de
todos os âmbitos da vida, com fidelidade e operosidade ".(117)
Foi confiado ao Pontifício Conselho dos Leigos o encargo de elaborar
um elenco das associações que recebem a aprovação
oficial da Santa Sé e de definir, em colaboração
com o Secretariado da Unidade dos Cristãos, as condições
segundo as quais se pode aprovar uma associação ecuménica,
onde a maioria seja católica ao lado de uma minoria não
católica, estabelecendo também em que casos se não
pode dar parecer positivo.(118)
Todos, Pastores e fiéis, temos a obrigação de favorecer
e de alimentar constantemente os vínculos e as relações
fraternas de estima, cordialidade e colaboração entre as
várias formas agregativas de leigos. Só assim, a riqueza
dos dons e dos carismas que o Senhor nos dá pode dar o seu contributo
fecundo e ordenado para a edificação da casa comum: "
Para se edificar solidariamente a casa comum, é preciso, além
do mais, depor todo o espírito de antagonismo e de disputa, e que
a competição se faça, antes, na estima mútua
(cf. Rom 12, 10), na recíproca anticipação do afecto
e na vontade de colaboração, com a paciência, a abertura
de visão, a disponibilidade para o sacrifício, que isso,
por vezes, pode comportar ".(119)
Voltamos de novo às palavras de Jesus: " Eu sou a videira
e vós as vides " (Jo 15, 5), para darmos graças a Deus
pelo grande dom da comunhão eclesial, que reflecte no tempo a comunhão
eterna e inefável do amor de Deus Uno e Trino. A consciência
do dom deve ser acompanhada de um grande sentido de responsabilidade:
trata-se, com efeito, de um dom que, à semelhança do talento
evangélico, deve ser posto a render numa vida de crescente comunhão.
Ser responsáveis do dom da comunhão significa, antes de
mais, empenharmo-nos na vitória sobre toda a tentação
de divisão e de contraposição que ameaça a
vida e o empenhamento apostólico dos cristãos. O grito de
dor e de estranheza do apóstolo Paulo: " Refiro-me ao facto
de cada um de vós dizer: "Eu sou de Paulo", "Eu,
porém, sou de Apolo", "E eu sou de Cefas", "E
eu de Cristo"! Foi Cristo por ventura dividido? " (1 Cor 1,
12, 13) continua a ecoar como repreensão pelas " feridas feitas
ao Corpo de Cristo ". Ressoem, antes, como apelo persuasivo estas
outras palavras do apóstolo: " Exorto-vos, irmãos,
no nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a serdes unânimes no falar,
para que não haja divisões entre vós, mas vivais
em perfeita união de pensamento e de propósitos " (1
Cor 1, 10).
Assim, a vida de comunhão, eclesial torna-se um sinal para o mundo
e uma força de atracção que leva à fé
em Cristo: " Como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti,
que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que
Tu me enviaste " (Jo 17, 21). Dessa maneira, a comunhão abre-se
para a missão e converte-se ela própria em missão.
III
CONSTITUI-VOS PARA IRDES E DARDES FRUTO
A corresponsabilidade dos fiéis leigos na Igreja-Missão
Comunhão missionária
32. Retomemos a imagem bíblica da videira e dos ramos. Ela leva-nos,
de forma imediata e espontânea, à consideração
da fecundidade e da vida. Radicados e vivificados pela videira, os ramos
são chamados a dar fruto: " Eu sou a videira e vós
os ramos. Quem permanece em Mim e Eu nele dá muito fruto "
(Jo 15, 5). Dar fruto é uma exigência essencial da vida cristã
e eclesial. Quem não dá fruto não permanece na comunhão:
" Toda a vide que em Mim não dá fruto (o Meu Pai) corta-a
" (Jo 15, 2).
A comunhão com Jesus, donde promana a comunhão dos cristãos
entre si, é condição absolutamente indispensável
para dar fruto: " Sem Mim não podeis fazer nada " (Jo
15, 5). E a comunhão com os outros é o fruto mais lindo
que as vides podem dar: ela é, na verdade, um dom de Cristo e do
Seu Espírito.
Ora, a comunhão gera comunhão e reveste essencialmente a
forma de comunhão missionária. Jesus, de facto, diz aos
Seus discípulos: " Não fostes vós que Me escolhestes;
fui Eu que vos escolhi e vos constituí para irdes e dardes fruto
e para que o vosso fruto permaneça " (Jo 15, 16).
A comunhão e a missão estão profundamente ligadas
entre si, compenetram-se e integram-se mutuamente, ao ponto de a comunhão
representar a fonte e, simultaneamente, o fruto da missão: a comunhão
é missionária e a missão é para a comunhão.
É sempre o único e mesmo Espírito que convoca e une
a Igreja e que a manda pregar o Evangelho " até aos confins
da terra " (Act 1, 8). Por sua vez, a Igreja sabe que a comunhão,
recebida em dom, tem um destino universal. Assim, a Igreja sente-se devedora
à humanidade inteira e a cada um dos homens do dom recebido do
Espírito, que derrama nos corações dos crentes a
caridade de Jesus Cristo, força prodigiosa de coesão interna
e, ao mesmo tempo, de expansão externa. A missão da Igreja
deriva da sua própria natureza, tal como Cristo a quis: ser "
sinal e instrumento ... de unidade de todo o género humano ".(120)
Essa missão tem por finalidade dar a conhecer a todos e fazer com
que todos vivam a " nova " comunhão que, no Filho de
Deus feito homem, entrou na história do mundo. Nesse sentido, o
testemunho do evangelista João já define, de forma irrevocável,
a meta beatificante para onde se encaminha toda a missão da Igreja:
" O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também
vós tenhais comunhão connosco. A nossa comunhão é
com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo " (1 Jo 1, 3).
Ora, no contexto da missão da Igreja o Senhor confia aos fiéis
leigos, em comunhão com todos os outros membros do Povo de Deus,
uma grande parte de responsabilidade. Tinham disso plena consciência
os Padres do Concílio Vaticano II: " Os sagrados Pastores
conhecem, com efeito, perfeitamente quanto os leigos contribuem para o
bem de toda a Igreja. Pois eles próprios sabem que não foram
instituídos por Jesus Cristo para se encarregarem por si sós
de toda a missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que
o seu cargo sublime consiste em pastorear de tal modo os fiéis
e de tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que todos,
cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum ".(121)
Essa consciência reapareceu, depois, com renovada clareza e com
maior vigor, em todos os trabalhos do Sínodo.
Anunciar o Evangelho
33. Os fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja,
têm por vocação e por missão anunciar o Evangelho:
para essa obra foram habilitados e nela empenhados pelos sacramentos da
iniciação cristã e pelos dons do Espírito
Santo.
Leiamos um texto claro e denso do Concílio Vaticano II: "
Porque participam no múnus sacerdotal, profético e real
de Cristo, os leigos têm parte activa na vida e na acção
da Igreja... Fortalecidos pela participação activa na vida
litúrgica da comunidade, empenham-se nas obras apostólicas
da mesma. Conduzem à Igreja os homens que porventura andem longe,
cooperam intensamente na comunicação da Palavra de Deus,
sobretudo pela actividade catequética, e tornam mais eficaz, com
o contributo da sua competência, a cura de almas e até a
administração dos bens da Igreja ".(122)
Ora, é na evangelização que se concentra e se desenrola
toda a missão da Igreja, cujo percurso histórico se faz
sob a graça e ordem de Jesus Cristo: " Ide por todo o mundo
e pregai o Evangelho a toda a criatura... Eis que Eu estou convosco todos
os dias até ao fim do mundo " (Mt 16, 15; cf. Mt 28, 20).
" Evangelizar - escreve Paulo VI - é a graça e a vocação
própria da Igreja, a sua identidade mais profunda ".(123)
Com a evangelização, a Igreja é construída
e plasmada como comunidade de fé: mais precisamente, como comunidade
de uma fé confessada na adesão à Palavra de Deus,
celebrada nos Sacramentos e vivida na caridade, como alma da existência
moral cristã. Com efeito, a " boa nova " tende a suscitar
no coração e na vida do homem a conversão e a adesão
pessoal a Jesus Cristo Salvador e Senhor; dispõe ao Baptismo e
à Eucaristia e consolida-se no propósito e na realização
da nova vida segundo o Espírito.
Sem dúvida, a ordem de Jesus: " Ide e pregai o Evangelho "
conserva sempre a sua validade e está cheia de uma urgência
que não passa. Todavia, a situação actual, não
só do mundo mas também de tantas partes da Igreja, exige
absolutamente que à palavra de Cristo se preste uma obediência
mais pronta e generosa. Todo o discípulo é chamado em primeira
pessoa; nenhum discípulo pode eximir-se a dar a sua própria
resposta: " Ai de mim se não evangelizar " (1 Cor 9,
16).
Chegou a hora de nos lançarmos numa nova evangelização
34. Países inteiros e nações, onde a religião
e a vida cristã foram em tempos tão prósperas e capazes
de dar origem a comunidades de fé viva e operosa, encontram-se
hoje sujeitos a dura prova, e, por vezes, até são radicalmente
transformados pela contínua difusão do indiferentismo, do
secularismo e do ateísmo. É o caso, em especial, dos países
e das nações do chamado Primeiro Mundo, onde o bem-estar
económico e o consumismo, embora à mistura com tremendas
situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem
viver " como se Deus não existisse ". Ora, a indiferença
religiosa e a total insignificância prática de Deus nos problemas,
mesmo graves, da vida não são menos preocupantes e subversivos
do que o ateismo declarado. E também a fé cristã,
mesmo sobrevivendo em algumas manifestações tradicionais
e ritualistas, tende a desaparecer nos momento mais significativos da
existência, como são os momentos do nascer, do sofrer e do
morrer. Daí que se levantem interrogações e enigmas
tremendos, que, ao ficarem sem resposta, expõem o homem contemporâneo
à desilusão desconfortante e à tentação
de eliminar a mesma vida humana que levanta esses problemas.
Noutras regiões ou nações, porém, conservam-se
bem vivas ainda tradições de piedade e de religiosidade
popular cristã; mas, esse património moral e espiritual
corre hoje o risco de esbater-se sob o impacto de múltiplos processos,
entre os quais sobressaem a secularização e a difusão
das seitas. Só uma nova evangelização poderá
garantir o crescimento de uma fé límpida e profunda, capaz
de converter tais tradições numa força de liberdade
autêntica.
É urgente, sem dúvida, refazer em toda a parte o tecido
cristão da sociedade humana. Mas, a condição é
a de se refazer o tecido cristão das próprias comunidades
eclesiais que vivem nesses países e nessas nações.
Ora, os fiéis leigos, por força da sua participação
no múnus profético de Cristo, estão plenamente envolvidos
nessa tarefa da Igreja. Pertence-lhes, em particular, dar testemunho de
como a fé cristã, mais ou menos conscientemente. ouvida
e invocada por todos, seja a única resposta plenamente válida
para os problemas e as esperanças que a vida põe a cada
homem e a cada sociedade. Será isso possível, se os fiéis
leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e
a vida, refazendo na sua quotidiana actividade em família, no trabalho
e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra inspiração
e força para se realizar em plenitude.
Repito mais uma vez a todos os homens contemporâneos o grito apaixonado
com que iniciei o meu serviço pastoral: " Não tenhais
medo! Abri, ou antes, escancarai as portas a Cristo! Abri ao Seu poder
salvador os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como
os políticos, os vastos campos da cultura, da civilização,
do progresso. Não tenhais medo! Cristo sabe bem "o que está
dentro do homem". Só Ele o sabe! Hoje em dia muito frequentemente
o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo
do seu ânimo e do seu coração. Muito frequentemente
se encontra incerto acerca do sentido da sua vida sobre esta Terra. E
sucede que é invadido pela dúvida que se transforma em desespero.
Permiti, pois, - peço-vos e vo-lo imploro com humildade e confiança
- deixai que Cristo fale ao homem. Só Ele tem palavras de vida;
sim, de vida eterna ".(124)
Escancarar a porta a Cristo, acolhê-l'O no espaço da própria
humanidade, não é, de modo algum, ameaça para o homem,
mas antes, é a única estrada a percorrer, se quisermos reconhecer
o homem na sua verdade total e exaltá-lo nos seus valores.
A síntese vital que os fiéis leigos souberem fazer entre
o Evangelho e os deveres quotidianos da vida será o testemunho
mais maravilhoso e convincente de que não é o medo, mas
a procura e a adesão a Cristo, que são o factor determinante
para que o homem viva e cresça, e para que se alcancem novas formas
de viver mais conformes com a dignidade humana.
O homem é amado por Deus! Este é o mais simples e o mais
comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao homem. A
palavra e a vida de cada cristão podem e devem fazer ecoar este
anúncio: Deus ama-te, Cristo veio por ti, para ti Cristo é
" Caminho, Verdade, Vida " (Jo 14, 6)!
Esta nova evangelização, dirigida, não apenas aos
indivíduos mas a inteiras faixas de população, nas
suas diversas situações, ambientes e culturas, tem por fim
formar comunidades eclesiais maduras, onde, a fé desabroche e realize
todo o seu significado originário de adesão à pessoa
de Cristo e ao Seu Evangelho, de encontro e de comunhão sacramental
com Ele, de existência vivida na caridade e no serviço.
Os fiéis leigos têm a sua parte a desempenhar na formação
de tais comunidades eclesiais, não só com uma participação
activa e responsável na vida comunitária e, portanto, com
o seu insubstituível testemunho, mas também com o entusiasmo
e com a acção missionária dirigida a quantos não
crêem ainda ou já não vivem a fé recebida no
Baptismo.
Em relação às novas gerações, os fiéis
leigos devem dar um precioso contributo, necessário como nunca,
com uma obra sistemática de catequese: Os Padres sinodais acolheram
com gratidão o trabalho dos catequistas, reconhecendo que eles
" têm uma tarefa de grande importância na animação
das comunidades edesiais ".(125) É verdade que os pais cristãos
são os primeiros e insubstituíveis catequistas dos próprios
filhos, habilitados que o foram para isso pelo sacramento do Matrimónio,
mas, ao mesmo tempo, devemos todos ter consciência do direito que
assiste a todo o baptizado de ser instruído, educado, acompanhado
na fé e na vida cristã.
Ide por todo o mundo
35. A Igreja, ao aperceber-se e ao viver a urgência actual de uma
nova evangelização, não pode eximir-se da missão
permanente de levar o Evangelho a quantos - e são milhões
e milhões de homens e mulheres - não conhecem ainda a Cristo
Redentor do homem. Esta é a tarefa mais especificamente missionária
que Jesus confiou e continua todos os dias a confiar à Sua Igreja.
A acção dos fiéis leigos, que, aliás, nunca
faltou neste campo, aparece hoje cada vez mais necessária e preciosa.
Na verdade, a ordem do Senhor " Ide por todo o mundo " continua
a encontrar muitos leigos generosos, prontos a deixar o seu ambiente de
vida, o seu trabalho, a sua região ou pátria, para ir, ao
menos por um certo tempo, para zonas de missão. Mesmo casais cristãos,
a exemplo de Áquila e Priscila (cfr. Act 18; Rom 16, 3 s.), oferecem
o confortante testemunho de amor apaixonado por Cristo e pela Igreja com
a sua presença activa em terras de missão. Autêntica
presença missionária é também a daqueles que,
vivendo por vários motivos em países ou ambientes onde a
Igreja ainda não foi estabelecida, dão o testemunho da sua
fé.
Mas, o problema missionário apresenta-se hoje à Igreja com
tal amplitude e gravidade que só se todos os membros da Igreja
o assumirem de forma verdadeiramente solidária e responsável,
tanto singularmente como em comunidade, é que se poderá
confiar numa resposta mais eficaz.
O convite que o Concílio Vaticano II dirigiu às Igrejas
particulares conserva todo o seu valor, ou antes, reclama hoje um acolhimento
mais amplo e mais decidido: " A Igreja particular, devendo representar
na forma mais perfeita a Igreja universal, tenha plena consciência
de ser enviada também àqueles que não acreditam em
Cristo ".(126)
A Igreja deve dar hoje um grande passo em frente na sua evangelização,
deve entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário.
Num mundo que, com o encurtar das distâncias, se torna sempre mais
pequeno, as comunidades eclesiais devem ligar-se entre si, trocar energias
e meios, empenhar-se juntas na missão, única e comum, de
anunciar e de viver o Evangelho. " As Igrejas ditas mais jovens -
disseram os Padres sinodais - têm necessidade da força das
mais antigas, enquanto que estas precisam do testemunho e do entusiasmo
das mais jovens, de forma que cada Igreja beneficie das riquezas das outras
Igrejas ".(127)
Nesta nova etapa, a formação, não só do clero
local mas também de um laicado maduro e responsável, coloca-se
nas novas Igrejas como elemento essencial e obrigatório da plantatio
Ecclesiae.(128) Dessa forma, as próprias comunidades evangelizadas
lançam-se para novas paragens do mundo a fim de responderem, também
elas, à missão de anunciar e testemunhar o Evangelho de
Cristo.
Os fiéis leigos, com o exemplo da sua vida e com a própria
acção, podem favorecer o melhoramento das relações
entre os adeptos dasdiferentes religiões, como oportunamente observaram
os Padres sinodais: " Hoje, a Igreja vive em toda a parte entre homens
de religiões diferentes. Todos os fiéis, especialmente os
leigos que vivem no meio de povos de outras religiões, tanto nas
terras de origem como em terras de emigração, devem constituir
para estes um sinal do Senhor e da Sua Igreja, de maneira adaptada às
circunstâncias de vida de cada lugar. O diálogo entre as
religiões tem uma importância fundamental, pois conduz ao
amor e ao respeito recíproco, elimina, ou ao menos, atenua os preconceitos
entre os adeptos das várias religiões e promove a unidade
e a amizade entre os povos ".(129)
Para evangelizar o mundo são necessários, antes de mais,
os evangelizadores. Por isso, todos, a começar pelas famílias
cristãs, devem sentir a responsabilidade de favorecer o despertar
e o amadurecer de vocações especificamente missionárias,
tanto sacerdotais e religiosas como laicais, recorrendo a todos os meios
oportunos e sem nunca esquecer o meio privilegiado da oração,
conforme a própria palavra do Senhor Jesus: " A seara é
grande, mas os trabalhadores são poucos. Rezai, poi, ao dono da
seara que mande trabalhadores para a sua seara! " (Mt 9, 37-38).
Viver o Evangelho servindo a pessoa e a sociedade
36. Ao anunciar e ao acolher o Evangelho na força do Espírito,
a Igreja torna-se comunidade evangelizada e evangelizadora e, precisamente
por isso, faz-se serva dos homens. Nela, os fiéis leigos participam
na missão de servir a pessoa e a sociedade. É verdade que
a Igreja tem como fim supremo o Reino de Deus, do qual ela " constitui
na terra o gérmen e o início ",(130) e, portanto, está
inteiramente consagrada à glorificação do Pai. Mas,
o Reino é fonte de libertação plena e de salvação
total para os homens: com estes, portanto, a Igreja caminha e vive, real
e intimamente solidária com a sua história.
Tendo recebido o encargo de manifestar ao mundo o mistério de Deus,
que brilha em Jesus Cristo, ao mesmo tempo, a Igreja descobre o homem
ao homem, esclarece-o acerca do sentido da sua existência, abre-o
à verdade total acerca dele e do seu destino.(l31) Nesta perspectiva,
a Igreja é chamada, em virtude da sua própria missão
evangelizadora, a servir o homem. Tal serviço tem a sua raiz primeiramente
no facto prodigioso e empolgante de que, " com a encarnação,
o Filho de Deus uniu-se de certa forma a todo o homem ".(132)
Por isso, o homem " é o primeiro caminho que a Igreja deve
percorrer no desempenho da sua missão: ele é o caminho primeiro
e fundamental da Igreja, caminho traçado pelo próprio Cristo,
caminho que imutavelmente passa através do mistério da Encarnação
e da Redenção ".(133)
Precisamente neste sentido se pronunciou repetidas vezes e com singular
clareza e vigor o Concílio Vaticano II nos seus diversos documentos.
Releiamos um texto particularmente iluminador da Constituição
Gaudium et spes: " A Igreja, ao procurar o seu fim salvífico
próprio, não se limita a comunicar ao homem a vida divina;
espalha sobre todo o mundo os reflexos da sua luz, sobretudo enquanto
cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a coesão da
sociedade e dá um sentido mais profundo à quotidiana atividade
dos homens. A Igreja pensa, assim, que por meio de cada um dos seus membros
e por toda a sua comunidade, muito pode ajudar para tornar mais humana
a família dos homens e a sua história ".(134)
Neste contributo à família dos homens, de que é responsável
a Igreja inteira, cabe aos fiéis leigos um lugar de relevo, em
razão da sua " índole secular ", que os empenha,
com modalidades próprias e insubstituíveis, na animação
cristã da ordem temporal.
Promover a dignidade da pessoa
37. Descobrir e ajudar a descobrir a dignidade inviolável de cada
pessoa humana constitui uma tarefa essencial, diria mesmo em certo sentido,
a tarefa central e unificadora do serviço que a Igreja, e nela
os fiéis leigos, são chamados a prestar à família
dos homens.
De todas as criaturas terrenas, só o homem é " pessoa
", sujeito consciente e livre e, precisamente por isso, " centro
e vértice " de tudo o que existe sobre a terra.(135)
A dignidade pessoal é o bem mais precioso que o homem tem, graças
ao qual ele transcende em valor todo o mundo material. A palavra de Jesus:
" Que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua
alma? " (Mc 8, 36) implica uma afirmação antropológica
luminosa e estimulante: o homem vale não por aquilo que "
tem " - mesmo que ele possuísse o mundo inteiro - mas por
aquilo que " é ". Não são tanto os bens
do mundo que contam, mas o bem da pessoa, o bem que é a própria
pessoa.
A dignidade da pessoa aparece em todo o seu fulgor, quando se consideram
a sua origem e o seu destino: criado por Deus à Sua imagem e semelhança
e remido pelo sangue preciosíssimo de Cristo, o homem é
chamado a tornar-se " filho no Filho " e templo vivo do Espírito,
e tem por destino a vida eterna da comunhão beatífica com
Deus. Por isso, toda a violação da dignidade pessoal do
ser humano clama por vingança junto de Deus e torna-se ofensa ao
Criador do homem.
Em virtude da sua dignidade pessoal, o ser humano é sempre um valor
em si e por si, e exige ser considerado e tratado como tal, e nunca ser
considerado e tratado como um objecto que se usa, um instrumento, uma
coisa.
A dignidade pessoal constitui o fundamento da igualdade de todos os homens
entre si. Daí, a absoluta recusa de todas as mais variadas formas
de discriminação que, infelizmente, continuam a dividir
e a humilhar a família humana, desde as raciais e económicas
às sociais e culturais, das políticas às geográficas,
etc. Toda a discriminação é uma injustiça
absolutamente intolerável, não tanto pelas tensões
e conflitos que pode gerar no tecido social, quanto pela desonra feita
à dignidade da pessoa: não só à dignidade
daquele que é vítima da injustiça, mas ainda mais
à daquele que pratica essa injustiça.
Fundamento da igualdade de todos os homens entre si, a dignidade pessoal
é, ao mesmo tempo, o fundamento da participação e
da solidariedade dos homens entre si: o diálogo e a comunhão
têm a sua raiz última naquilo que os homens " são
", antes e mais ainda do que naquilo que eles " têm ".
A dignidade pessoal é propriedade indestrutível de cada
ser humano. É fundamental compreender-se toda a força que
irrompe desta afirmação, que se baseia na unicidade e na
irrepetibilidade de toda a pessoa. Dela deriva que o indivíduo
seja irredutível a tudo o que o queira esmagar e anulá-lo
no anonimato da colectividade, da instituição, da estrutura,
do sistema. A pessoa, na sua individualidade, não é um número,
não é o anel de uma cadeia, nem uma peça da engrenagem
de um sistema. A afirmação mais radical e exaltante do valor
de cada ser humano foi feita pelo Filho de Deus ao encarnar no seio de
uma mulher. E disto continua a falar-nos o Natal cristão.(136)
Venerar o inviolável direito à vida
38. O reconhecimento efectivo da dignidade pessoal de cada ser humano
exige o respeito, a defesa e a promoção dos direitos da
pessoa humana. Trata-se de direitos naturais, universais e invioláveis:
ninguém, nem o indivíduo, nem o grupo, nem a autoridade,
nem o Estado, pode modificar e muito menos eliminar esses direitos que
emanam do próprio Deus.
Ora, a inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta
do próprio Deus, tem a sua primeira e fundamental expressão
na inviolabilidade da vida humana. É totalmente falsa e ilusória
a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos direitos humanos
- como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao
trabalho, à família e à cultura, - se não
se defende com a máxima energia o direito à vida, como primeiro
e fontal direito, condição de todos os outros direitos da
pessoa.
A Igreja nunca se deu por vencida perante todas as violações
que o direito à vida, que é próprio de cada ser humano,
tem sofrido e continua a sofrer, tanto por parte dos indivíduos
como mesmo até por parte das próprias autoridades. O titular
desse direito é o ser humano, em todas as fases do seu desenvolvimento,
desde a concepção até à morte natural, e em
todas as suas condições, tanto de saúde como de doença,
de perfeição ou de deficiência, de riqueza ou de miséria.
O Concílio Vaticano II afirma abertamente: " Tudo quanto se
opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio,
genocídio, aborto, a integridade da pessoa humana, como as mutilações,
os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias
consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como
as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias,
as deportações, a escravidão, a prostituição,
o comércio de mulheres e de jovens; e também as condições
degradantes de trabalho, em que os operários são tratados
como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis;
todas estas coisas e outras semelhantes são, sem dúvida,
infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana,
desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que as padecem, e
ofendem gravemente a honra devida ao Criador ".(137)
Ora, se a todos pertencem a missão e a responsabilidade de reconhecer
a dignidade pessoal de cada ser humano e de defender o seu direito à
vida, certos fiéis leigos são a isso chamados por um título
particular: são os pais, os educadores, os agentes da saúde
e todos os que detêm o poder económico e político.
Ao aceitar amorosa e generosamente toda a vida humana, sobretudo se fraca
e doente, a Igreja vive hoje um momento fundamental da sua missão,
tanto mais necessária quanto mais avassaladora se tornou uma "
cultura de morte ". De facto, " a Igreja firmemente acredita
que a vida humana, mesmo se fraca e sofredora, é sempre um dom
maravilhoso do Deus da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo,
que ensombram o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada
vida humana ela consegue descobrir o esplendor daquele " Sim ",
daquele " Amen ", que é o próprio Cristo (cf.
2 Cor 1, 19; Ap 3, 14). Ao "não" que avassala e aflige
o mundo, contrapõe esse vivo "Sim", defendendo dessa
maneira o homem e o mundo daqueles que ameaçam e mortificam a vida
".(138) Pertence aos fiéis leigos, que mais directamente ou
por vocação ou por profissão se ocupam do acolher
a vida, tornar concreto e eficaz o "sim" da Igreja à
vida humana.
Nas fronteiras da vida humana abrem-se hoje novas possibilidades e responsabilidades
com o enorme progresso das ciências biológicas e médicas,
aliado ao surpreendente poder tecnológico: o homem, com efeito,
é já capaz, não só de " observar "
mas também de " manipular " a vida humana no seu início
e nas primeiras fases de seu desenvolvimento.
A consciência moral da humanidade não pode ficar alheia ou
indiferente perante os passos gigantescos dados por uma força tecnológica
que consegue ter um domínio cada vez mais vasto e profundo sobre
os dinamismos que presidem à procriação e às
primeiras fases do desenvolvimento da vida humana. Talvez nunca como hoje
e neste campo, a sabedoria se revela como única ancora de salvação,
para que o homem, na investigação científica e na
aplicada, possa agir sempre com inteligência e com amor, isto é,
no respeito, diria mesmo na veneração, da inviolável
dignidade pessoal de todo o ser humano, desde o primeiro instante da sua
existência. Isso acontece quando, usando meios lícitos, a
ciência e a técnica se empenham na defesa da vida e na cura
da doença, desde os inícios, recusando, no entanto, - pela
própria dignidade da investigação - intervenções
que se tornem perturbadoras do património genético do indivíduo
e da geração humana.(139)
Os fiéis leigos que, a qualquer título ou a qualquer nível,
se empenham na ciência e na técnica, bem como na esfera médica,
social, legislativa e económica, devem corajosamente enfrentar
os "desafios " que lhes lançam os novos problemas da
bioética. Como disseram os Padres sinodais, " os cristãos
devem exercer a sua responsabilidade como donos da ciência e da
tecnologia, não como seus escravos ... Em ordem a esses "desafios"
morais, que estão para serem lançados pela nova e imensa
força da tecnologia e que põem em perigo, não só
os direitos fundamentais dos homens, mas a própria essência
biológica da espécie humana, é da máxima importância
que os leigos cristãos - com a ajuda de toda a Igreja - tomem a
peito o enquadramento da cultura nos princípios de um humanismo
autêntico, de forma que a promoção e a defesa dos
direitos do homem possam encontrar fundamento dinâmico e seguro
na sua própria essência, aquela essência que a pregação
evangélica revelou aos homens ".(140)
É urgente que todos, hoje, estejam alertados para o fenómeno
da concentração do poder, e, em primeiro lugar, do poder
tecnológico. Tal concentração tende, com efeito,
a manipular, não só a essência biológica, mas
também os conteúdos da própria consciência
dos homens e os seus padrões de vida, agravando, assim, a discriminação
e a marginalização de povos inteiros.
Livres de invocar o nome do Senhor
39. O respeito da dignidade pessoal, que comporta a defesa e a promoção
dos direitos humanos, exige que se reconheça a dimensão
religiosa do homem. Não se trata de uma exigência meramente
" confessional ", mas sim, de uma exigência que mergulha
a sua raiz inextirpável na própria realidade do homem. A
relação com Deus é, na verdade, elemento constitutivo
do próprio " ser " e " existir " do homem:
é em Deus que nós " vivemos, nos movemos e existimos
" (Act 17, 28). Se nem todos acreditam nesta verdade, todos os que
dela estão convencidos têm o direito de serem respeitados
na sua fé e nas opções de vida, individual e comunitária,
que dela derivam. Este é o direito à liberdade de consciência
e à liberdade religiosa, cujo efectivo reconhecimento está
entre os bens mais elevados e entre os deveres mais graves de todo o povo
que queira verdadeiramente assegurar o bem da pessoa e da sociedade: "
A liberdade religiosa, exigência insuprimível da dignidade
de todos e de cada um dos homens, constitui uma pedra angular do edifício
dos direitos humanos; e, portanto, é um factor in substituível
do bem das pessoas e de toda a sociedade, assim como da realização
pessoal de cada um. Disto resulta, consequentemente, que a liberdade das
pessoas consideradas individualmente e das comunidades professarem e praticarem
a própria religião é um elemento essencial da convivência
pacífica dos homens ... O direito civil e social à liberdade
religiosa, ao atingir a esfera mais íntima do espírito,
torna-se ponto de referência e, de certo modo, a medida dos outros
direitos fundamentais ".(141)
O Sínodo não se esqueceu dos muitos irmãos e irmãs
que ainda não gozam desse direito e que têm de enfrentar
dificuldades, marginalizações, sofrimentos, perseguições
e, por vezes, a morte por causa da confissão da fé. São,
na sua maioria, irmãos e irmãs do laicado cristão.
O anúncio do Evangelho e o testemunho cristão da vida no
sofrimento e no martírio são o ápice do apostolado
dos discípulos de Cristo, assim como o amor ao Senhor Jesus até
ao dom da própria vida constitui uma fonte de fecundidade extraordinária
para a edificação da Igreja. A mística videira mostra,
assim, a sua vitalidade, como sublinhava Santo Agostinho: " Mas essa
videira, como fora preanunciado pelos Profetas e pelo próprio Senhor,
que espalhava pelo mundo inteiro as suas vides carregadas de fruto, tanto
mais vicejava quanto mais a regava o abundante sangue dos mártires
".(142)
A Igreja inteira sente-se profundamente grata com esse exemplo e com esse
dom: desses seus filhos ela tira razões para renovar o seu impulso
de vida santa e apostólica.
Nesse sentido, os Padres sinodais consideraram seu especial dever "
agradecer àqueles leigos que vivem quais incansáveis testemunhas
da fé, em união fiel com a Sé Apostólica,
apesar das restrições à liberdade e da falta de ministros
sagrados. Eles jogam tudo, até a própria vida. Dessa maneira,
os leigos dão testemunho de uma propriedade essencial da Igreja:
a Igreja de Deus nasce da graça de Deus e a forma mais sublime
de o manifestar é o martírio ".(143)
Quanto até aqui dissemos sobre o respeito pela dignidade pessoal
e sobre o reconhecimento dos direitos humanos, prende-se, sem dúvida,
com a responsabilidade de cada cristão, de cada homem. Mas, devemos
imediatamente sublinhar como isso se revista hoje de uma dimensão
mundial: trata-se, de facto, de uma questão que já atinge
grupos humanos inteiros, até povos inteiros, que são violentamente
espezinhados nos seus direitos fundamentais. Daí, aquelas formas
de desigualdade de progresso entre os diversos Mundos que na recente Encíclica
Sollicitudo rei socialis foram abertamente denunciadas.
O respeito pela pessoa humana ultrapassa a exigência de uma moral
individual e coloca-se como critério de base, quase como pilar
fundamental, na estruturação da própria sociedade,
sendo a sociedade inteiramente finalizada para a pessoa.
Assim, intimamente ligada à responsabilidade de servir a pessoa
põe-se a responsabilidade de servir a sociedade, qual tarefa geral
daquela animação cristã da ordem temporal a que os
fiéis leigos são chamados segundo as modalidades próprias
e específicas.
A família, primeiro espaço para o empenhamento social
40. A pessoa humana tem uma natural e estrutural dimensão social
enquanto é chamada, desde o seu íntimo, à comunhão
com os outros e à doação aos outros: " Deus,
que cuida paternamente de todos, quis que os homens formassem uma só
família e se tratassem entre si com espirito de irmãos ".(144)
E, assim, a sociedade, fruto e sinal da sociabilidade do homem, mostra
a sua verdade plena ao constituir-se comunhão de pessoas.
Dá-se interdependência e reciprocidade entre a pessoa e a
sociedade: tudo o que for feito em favor da pessoa é também
serviço feito à sociedade, e tudo o que for realizado em
favor da sociedade reverte-se em benefício da pessoa. Por isso,
o empenhamento apostólico dos fiéis leigos na ordem temporal
adquire sempre e de forma indissolúvel um significado de serviço
ao homem indivíduo na sua unicidade e irrepetibilidade e um significado
de serviço a todos os homens.
Ora, a primeira e originária expressão da dimensão
social da pessoa é o casal e a família: " Deus não
criou o homem para o deixar sozinho; desde o princípio "homem
e mulher os criou" (Gn 1, 27) e a sua união constitui a primeira
expressão de comunhão de pessoas ".(145) Jesus mostrou-se
preocupado em restituir ao casal a sua inteira dignidade (Mt 19, 3-9)
e à família a sua própria solidez (Mt 19, 4-6); São
Paulo mostrou a relação profunda do matrimónio com
o mistério de Cristo e da Igreja (Ef 5, 22-4, 6; Col 3,18-21; cf.
1 Ped 3,1-7).
O casal e a família constituem o primeiro espaço para o
empenhamento social dos fiéis leigos. Trata-se de um empenho que
só poderá ser desempenhado adequadamente na convicção
do valor único e insubstituível da família para o
progresso da sociedade e da própria Igreja.
Berço da vida e do amor, onde o homem " nasce " e "
cresce ", a família é a célula fundamental da
sociedade. Deve reservar-se a essa comunidade uma solicitude privilegiada,
sobretudo quando o egoísmo humano, as campanhas contra a natalidade,
as políticas totalitárias, e também as situações
de pobreza e de miséria física, cultural e moral, bem como
a mentalidade edonista e consumista conseguem extinguir as fontes da vida,
e onde as ideologias e os diversos sistemas, aliados a formas de desinteresse
e de falta de amor, atentam contra a função educativa própria
da família.
É urgente, portanto, realizar uma acção vasta, profunda
e sistemática, apoiada não só na cultura, mas também
nos meios económicos e nos instrumentos legislativos, destinada
a assegurar à família a sua função de ser
o lugar primário da " humanização " da
pessoa e da sociedade.
A acção apostólica dos fiéis leigos consiste,
antes de mais, em tornar a família consciente da sua identidade
de primeiro núcleo social de base e do seu papel original na sociedade,
para que a própria família se torne cada vez mais protagonista
activa e responsável do seu crescimento e da sua participação
na vida social. Dessa forma, a família poderá e deverá
exigir de todos, a começar pelas autoridades públicas, o
respeito por aqueles direitos que, salvando a família, salvam a
mesma sociedade.
O que se escreveu na Exortação Familiaris consortio sobre
a participação no progresso da sociedade (146) e o que a
Santa Sé, a convite do Sínodo dos Bispos de 1980, formulou
com a " Carta dos Direitos da Família " representa um
programa operativo completo e orgânico para todos os fiéis
leigos que, a qualquer título, estão interessados na promoção
dos valores e das exigências da família: um programa cuja
realização deve impor-se com tanta maior urgência
e decisão quanto mais graves se fazem as ameaças à
estabilidade e à fecundidade da família e quanto mais forte
e sistemática se tornar a tentativa de marginalizar a família
e de a esvaziar do seu peso social.
Como a experiência ensina, a civilização e a solidez
dos povos dependem sobretudo da qualidade humana das próprias famílias.
Assim, a acção apostólica em favor da família
adquire um valor social incomparável. A Igreja, por sua parte,
está profundamente convencida disso, bem sabendo que " o futuro
da humanidade passa através da família ".(147)
A caridade, alma e sustentáculo da solidariedade
41. O serviço feito à sociedade exprime-se e concretiza-se
de variadíssimas maneiras: desde as livres e informais às
institucionais, desde a ajuda dada aos indivíduos à que
se destina aos vários grupos e comunidades de pessoas.
Toda a Igreja, como tal, é directamente chamada ao serviço
da caridade: " A santa Igreja, assim como nos seus primeiros tempos,
juntando a "ágape" à ceia eucarística,
se mostrava toda unida à volta de Cristo pelo vínculo da
caridade, assim em todos os tempos se pode reconhecer por este sinal do
amor. E alegrando-se com as realizações alheias, ela reserva
para si, como dever e direito próprios, que não pode alienar,
as obras de caridade. Por isso, a misericórdia para com os pobres
e enfermos e as chamadas obras de caridade e de mútuo auxílio
para socorrer as múltiplas necessidades humanas são pela
Igreja honradas de modo especial " (148) A caridade para com o próximo,
nas expressões antigas e sempre novas das obras de misericórdia
corporais e espirituais, representa o conteúdo mais imediato, comum
e habitual da animação cristã da ordem temporal que
constitui o empenho específico dos fiéis leigos.
Com a caridade para com o próximo, os fiéis leigos vivem
e manifestam a sua participação na realeza de Jesus Cristo,
isto é, no poder do Filho do homem que " não veio para
ser servido, mas para servir " (Mc 10, 45): vivem e manifestam essa
realeza na forma mais simples que é possível a todos e sempre
e, ao mesmo tempo, na forma mais digna, pois a caridade é o dom
mais alto que o Espírito dá em ordem à edificação
da Igreja (1 Cor 13, 13) e ao bem da humanidade. A caridade, com efeito,
anima e sustenta a solidariedade activa que olha para a totalidade das
necessidades do ser humano.
Uma caridade assim, actuada não só pelos indivíduos,
mas também, de forma solidária, pelos grupos e pelas comunidades,
é e será sempre necessária: nada e ninguém
a pode e poderá substituir, nem sequer as múltiplas instituições
e iniciativas públicas, que também se esforçam por
dar resposta às carências - muitas vezes hoje tão
graves e generalizadas - de uma população. Paradoxalmente,
essa caridade é tanto mais necessária quanto mais as instituições,
ao tornarem-se complexas na organização e pretendendo gerir
todos os espaços disponíveis, acabam por se esvaziar devido
ao funcionalismo impessoal, à burocracia exagerada, aos interesses
privados injustos e ao desinteresse fácil e generalizado.
Precisamente neste contexto, continuam a aparecer e a espalhar-se, sobretudo
nas sociedades organizadas, diversas formas de voluntariado que se traduzem
numa multiplicidade de serviços e de obras. Se for vivido na sua
verdade de serviço desinteressado ao bem das pessoas, especialmente
as mais carecidas e as mais abandonadas dos próprios serviços
sociais, o voluntariado deve ser visto como sendo uma importante expressão
de apostolado, onde os fiéis leigos, homens e mulheres, desempenham
um papel de primeiro plano.
Todos destinatários e protagonistas da política
42. A caridade que ama e serve a pessoa nunca poderá estar dissociada
da justiça: uma e outra, cada qual à sua maneira, exigem
o pleno reconhecimento efectivo dos direitos da pessoa, a que é
ordenada a sociedade com todas as suas estruturas e instituições.(149)
Para animar cristãmente a ordem temporal, no sentido que se disse
de servir a pessoa e a sociedade, os fiéis leigos não podem
absolutamente abdicar da participação na " política
", ou seja, da múltipla e variada acção económica,
social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover organica
e institucionalmente o bem comum. Como repetidamente afirmaram os Padres
sinodais, todos e cada um têm o direito e o dever de participar
na política, embora em diversidade e complementariedade de formas,
níveis, funções e responsabilidades. As acusações
de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção
que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento,
da classe dominante ou partido político, bem como a opinião
muito difusa de que a política é um lugar de necessário
perigo moral, não justificam minimamente nem o cepticismo nem o
absenteismo dos cristãos pela coisa pública.
Pelo contrário, é muito significativa a palavra do Concílio
Vaticano II: " A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se
dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo,
ao serviço dos homens ".(150)
Uma política em favor da pessoa e da sociedade tem o seu critério
de base na busca do bem comum, como bem de todos os homens e do homem
todo, bem oferecido e garantido para ser livre e responsavelmente aceite
pelas pessoas, tanto individualmente como em grupo " A comunidade
política - lemos na Constituição Gaudium et spes
- existe precisamente em vista do bem comum; nele ela encontra a sua completa
justificação e significado e dele deriva o seu direito natural
e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições
de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações
alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição
".(151)
Além disso, uma política em favor da pessoa e da sociedade
encontra a sua linha constante de acção na defesa e na promoção
da justiça, entendida como " virtude " para a qual todos
devem ser educados e como " força " moral que apoia o
empenho em favorecer os direitos e os deveres de todos e de cada um, na
base da dignidade pessoal do ser humano.
No exercício do poder político é fundamental o espírito
de serviço, único capaz de, ao lado da necessária
competência e eficiência, tornar " transparente "
ou " limpa " a actividade dos homens políticos, como
aliás o povo justamente exige. Isso pressupõe a luta aberta
e a decidida superação de certas tentações,
tais como, o recurso à deslealdade e à mentira, o desperdício
do dinheiro público em vantagem de uns poucos e com miras de clientela,
o uso de meios equívocos ou ilícitos para a todo o custo
conquistar, conservar e aumentar o poder.
Os fiéis leigos empenhados na política devem certamente
respeitar a autonomia das realidades terrenas, rectamente entendida, como
lemos na Constituição Gaudium et spes: " É de
grande importância, sobretudo onde existe uma sociedade pluralista,
que se tenha uma concepção exacta das relações
entre a comunidade política e a Igreja, e ainda que se distingam
claramente as actividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo,
desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua
consciência de cristãos, e aquelas que eles exercem em nome
da Igreja e em união com os seus pastores. A Igreja que, em razão
da sua missão e competência, de modo algum se confunde com
a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político
determinado, é, ao mesmo tempo, o sinal e salvaguarda da transcendência
da pessoa humana ",(152) Simultaneamente - e hoje sente-se-o com
urgência e responsabilidade - os fiéis leigos devem dar testemunho
daqueles valores humanos e evangélicos que estão intimamente
ligados à própria actividade política, como a libertade
e a justiça, a solidariedade, a dedicação fiel e
desinteressada ao bem de todos, o estilo simples de vida, o amor preferencial
pelos pobres e pelos últimos. Isso exige que os fiéis leigos
sejam cada vez mais animados de uma real participação na
vida da Igreja e iluminados pela sua doutrina social. Para isso poder-lhes-á
ser de apoio e de ajuda a familiaridade com as comunidades cristãs
e com os seus Pastores.(153)
Estilo e meio de realizar uma política que tenha em vista o verdadeiro
progresso humano é a solidariedade: esta pede a participação
activa e responsável de todos na vida política, desde os
cidadãos individualmente aos vários grupos, sindicatos e
partidos: todos e cada um somos simultaneamente destinatários e
protagonistas da política. Neste campo, como escrevi na Encíclica
Sollicitudo rei socialis, a solidariedade " não é um
sentimento de vaga compaixão ou de enternecimento superficial pelos
males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo
contrário, é a determinação firme e perseverante
de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um,
porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por
todos ".(154)
A solidariedade política deve hoje actuar-se num horizonte que,
superando uma simples nação ou um simples bloco de nações,
assuma uma dimensão mais propriamente continental e mundial.
O fruto da actividade política solidária, a que todos tanto
aspiram, e, todavia, sempre tão imperfeito, é a paz. Os
fiéis leigos não podem ficar indiferentes, estranhos e indolentes
diante de tudo o que negue ou comprometa a paz: violência e guerra,
tortura e terrorismo, campos de concentração, militarização
da política, corrida aos armamentos, ameaça nuclear. Antes,
como discípulos de Cristo " Príncipe da paz "
(Is 9, 5) e " Nossa Paz " (Ef 2, 14), os fiéis leigos
devem assumir o dever de serem " construtores de paz " (Mt 5,
9), tanto com a conversão do " coração ",
como com a acção em favor da verdade, da liberdade, da justiça
e da caridade que são os fundamentos irrenunciáveis da paz.(155)
Colaborando com todos aqueles que procuram verdadeiramente a paz e servindo-se
dos específicos organismos e instituições nacionais
e internacionais, os fiéis leigos deverão promover uma capilar
acção educativa destinada a neutralizar a dominante cultura
do egoísmo, do ódio, da vingança e da inimizade e
a desenvolver a cultura da solidariedade a todos os níveis. Tal
solidariedade, com efeito, " é caminho para a paz e simultaneamente
para o progresso ".(156) Nesta ordem de ideias, os Padres sinodais
convidaram todos os cristãos a recusar formas inaceitáveis
de violência, a promover comportamentos de diálogo e de paz
e a empenhar-se na instauração de uma ordem social e internacional
justa.157
Pôr o homem no centro da vida económico-social
43. O serviço prestado à sociedade pelos fiéis leigos
tem um seu momento essencial na questão económico-social,
cuja chave é dada pela organização do trabalho.
A gravidade actual de tais problemas, individuada no panorama do progresso
e segundo a proposta de solução oferecida pela doutrina
social da Igreja, foi recordada recentemente na Encíclica Sollicitudo
rei socialis, que quero vivamente recomendar a todos, em especial aos
fiéis leigos.
Entre os principios fundamentais da doutrina social da Igreja encontra-se
o do destino universal dos bens: os bens da terra são, no desígnio
de Deus, oferecidos a todos os homens e a cada um deles como meio do desenvolvimento
de uma vida autenticamente humana. A propriedade privada que, precisamente
por isso, possui uma intrínseca função social, está
ao serviço desse destino. Concretamente o trabalho do homem e da
mulher representa o instrumento mais comum e mais imediato para o progresso
da vida económica, instrumento que constitui simultaneamente um
direito e um dever de cada homem.
Tudo isto faz parte, de modo particular, da missão dos fiéis
leigos. O fim e o critério da sua presença e da sua acção
são, em termos gerais, formulados pelo Concílio Vaticano
II: " Também na vida económica e social se devem respeitar
e promover a dignidade e a vocação integral da pessoa humana
e o bem de toda a sociedade. Com efeito, o homem é o protagonista,
o centro e o fim de toda a vida económico-social ".(158)
No contexto das importantes transformações em curso no mundo
da economia e do trabalho, os fiéis leigos, empenhem-se em primeira
linha na solução dos gravíssimos problemas do crescente
desemprego, lutando em favor de uma mais rápida superação
das numerosas injustiças que provêm de deficientes organizações
do trabalho, transformando o lugar de trabalho numa comunidade de pessoas
respeitadas na sua subjectividade e no seu direito à participação,
desenvolvendo novas formas de solidariedade entre aqueles que tomam parte
no trabalho comum, fomentando novos tipos de empresariedade e revendo
os sistemas de comércio, de finança e de intercambios tecnológicos.
Em vista de tais objectivos, os fiéis leigos deverão executar
o seu trabalho com competência profissional, com honestidade humana,
espírito cristão, como meio da própria santificação,(159)
segundo o convite explícito do Concílio: " Com o seu
trabalho, o homem sustenta de ordinário a própria vida e
a dos seus; por meio dele se une e serve os seus irmãos, pode exercer
uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação
divina. Mais ainda, sabemos que, oferecendo a Deus o seu trabalho, o homem
se associa à obra redentora de Cristo, o qual conferiu ao trabalho
uma dignidade sublime, trabalhando com as suas próprias mãos
em Nazaré ".(160)
Em relação com a vida económico-social e com o trabalho,
levanta-se hoje, de forma cada vez mais aguda, a chamada questão
" ecológica ". Sem dúvida, o homem recebeu do
próprio Deus a missão de " dominar " as coisas
criadas e de a cultivar o jardim " do mundo; mas, esta é uma
tarefa que o homem deve desempenhar no respeito pela imagem divina que
recebeu e, portanto, com inteligência e com amor: deve sentir-se
responsável pelos dons que Deus lhe deu e continuamente lhe dá.
O homem tem nas suas mãos um dom para transmitir - e, possivelmente,
mesmo melhorado - às gerações futuras, também
elas destinatárias dos dons do Senhor: " O domínio
conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto,
nem se pode falar de liberdade de "usar e abusar" ou de dispor
das coisas como melhor agrade. A limitação imposta pelo
mesmo Criador, desde o princípio, e expressa simbolicamente com
a proibição de "comer o fruto da árvore"
(cf. Gn 2, 16 s.), mostra com suficiente clareza que, nas relações
com a natureza visível, nós estamos submetidos a leis, não
só biológicas mas também morais, que não podem
impunemente ser transgredidas. Uma justa concepção do desenvolvimento
não pode prescindir destas considerações - relativas
ao uso dos elementos da natureza, às possibilidades de renovação
dos recursos e às consequências de uma industrialização
desordenada - as quais propõem uma vez mais à nossa consciência
a dimensão moral, que deve distinguir o desenvolvimento ".(161)
Evangelizar a cultura e as culturas do homem
44. O serviço à pessoa e à sociedade humana exprime-se
e realiza-se através da criação e transmissão
da cultura, que, especialmente nos nossos dias, constitui uma das mais
graves tarefas da convivência humana e da evolução
social. A luz do Concílio, entendemos por " cultura "
todos aqueles " meios com que o homem afina e usa os seus múltiplos
dons de alma e de corpo; procura submeter ao seu poder, com o saber e
o trabalho, o próprio cosmos; torna mais humana a vida social,
tanto na família como em toda a sociedade civil, com o progresso
do costume e das instituições; enfim, no decorrer do tempo,
exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam
de proveito a muitos e mesmo a humanidade inteira, as suas grandes experiências
espirituais e as suas aspirações ".(162)
Nesse sentido, a cultura deve ser considerada como o bem comum de cada
povo, a expressão da sua dignidade, liberdade e criatividade; o
testemunho do seu percurso histórico. Em particular, só
dentro e através da cultura, é que a fé cristã
se torna histórica e criadora de história.
Perante o progresso de uma cultura que aparece divorciada não só
da fé cristã mas até dos próprios valores
humanos,(163) bem como perante uma certa cultura científica e tecnológica
incapaz de dar resposta à premente procura de verdade e de bem
que arde no coração dos homens, a Igreja tem plena consciência
da urgência pastoral de se dar à cultura uma atenção
toda especial.
Por isso, a Igreja pede aos fiéis leigos que estejam presentes,
em nome da coragem e da criatividade intelectual, nos lugares privilegiados
da cultura, como são o mundo da escola e da universidade, os ambientes
da investigação científica e técnica, os lugares
da criação artística e da reflexão humanística.
Tal presença tem como finalidade não só o reconhecimento
e a eventual purificação dos elementos da cultura existente,
criticamente avaliados, mas também a sua elevação,
graças ao contributo das originais riquezas do Evangelho e da fé
cristã. O que o Concílio Vaticano II escreve sobre a relação
entre o Evangelho e a cultura representa um facto histórico constante
e, simultaneamente, um ideal de acção de singular actualidade
e urgência; é um programa empenhativo que se impõe
à responsabilidade pastoral da Igreja inteira e, nela, à
responsabilidade específica dos fiés leigos: " A boa
nova de Cristo renova continuamente a vida e a cultura do homem decaído,
combate e elimina os erros e males nascidos da permanente sedução
e ameaça do pecado. Purifica sem cessar e eleva os costumes dos
povos ... Desse modo, a Igreja, só com realizar a própria
missão, já com isso mesmo estimula e ajuda a civilização
e, com a sua actividade, também a litúrgica, educa o homem
para a liberdade interior ".(164)
Merecem ser aqui ouvidas de novo certas expressões particularmente
significativas da Exortação Evangelii nuntiandi de Paulo
VI: " A Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potência
divina da Mensagem que proclama (cfr. Rom 1, 16; 1 Cor 1, 18; 2, 4), procura
converter, ao mesmo tempo, a consciência pessoal e colectiva dos
homens, a actividade a que se dedicam e a vida e o meio concreto que lhes
são próprios. Estratos da humanidade que se transformam:
para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços
geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores
em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar
pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores
que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes
inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em
contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação.
Poder-se-ia exprimir tudo isto dizendo: importa evangelizar - não
de maneira decorativa, como que aplicando uma verniz superficial, mas
de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes
- a cultura e as culturas do homem ... A ruptura entre o Evangelho e a
cultura é, sem dúvida, o drama da nossa época, como
o foi também de outras épocas. Importa, assim, envidar todos
os esforços no sentido de uma generosa evangelização
da cultura, ou, mais exactamente, das culturas ".(165)
O caminho que hoje se privilegia para a criação e a transmissão
da cultura é o dos instrumentos da comuniçacão social.(166)
Também o mundo dos " mass-media ", na sequência
do acelerado progresso das inovações e da influência,
ao mesmo tempo planetária e capilar, sobre a formação
da mentalidade e do costume, constitui uma nova fronteira da missão
da Igreja. Em particular, a responsabilidade profissional dos fiéis
leigos neste campo, exercida, tanto a título pessoal como através
de iniciativas e instituições comunitárias, deve
ser reconhecida em todo o seu valor e apoiada com mais adequados recursos
materiais, intelectuais e pastorais.
No uso e na recepção dos instrumentos de comunicação,
tornam-se urgentes tanto uma acção educativa em ordem ao
sentido crítico, animado da paixão pela verdade, como uma
acção de defesa da liberdade, do respeito pela dignidade
pessoal, da elevação da autêntica cultura dos povos,
com a recusa, firme e corajosa, de toda a forma de monopolização
e de manipulação.
Não deve ficar por esta acção de defesa a responsabilidade
pastoral dos fiéis leigos: em todos os caminhos do mundo, também
nos principais da imprensa, do cinema, da rádio, da televisão
e do teatro, deve anunciar-se o Evangelho que salva.
IV
OS TRABALHADORES DA VINHA DO SENHOR
Bons administradores da multiforme graça de Deus
A variedade das vocações
45. Segundo a parábola evangélica, o " proprietário
" chama os trabalhadores para a sua vinha nas várias horas
do dia: alguns, ao amanhecer; outros, às nove da manhã;
outros ainda, por volta do meio dia e das três da tarde; os últimos,
cerca das cinco (cf. Mt 20, 1 ss.). Ao comentar esta página do
Evangelho, São Gregório Magno interpreta as várias
horas da chamada relacionando-as com as idades da vida: " É
possível aplicar a diversidade das horas - escreve ele - às
diversas idades do homem. O amanhecer pode certamente representar, nesta
nossa interpretação, a infância. A hora tércia,
por sua vez, pode entender-se como sendo a adolescência: o sol dirige-se
para o alto do céu, isto é, cresce o ardor da idade. A hora
sexta é a juventude: o sol está como que no zénite
do céu, isto é, nesta idade reforça-se a plenitude
do vigor. A idade adulta representa a hora nona, porque, como o sol declina
do seu alto, assim esta idade começa a perder o ardor da juventude.
A hora undécima é a idade daqueles que se encontram muito
avançados nos anos... Os trabalhadores são, portanto, chamados
para a vinha em horas diferentes, como a querer significar que à
santidade de vida um é chamado durante a infância, um outro
na juventude, um outro quando adulto e um outro na idade mais avançada
".(167)
Podemos também tomar e alargar o comentário de São
Gregório Magno referindo-o à extraordinária variedade
de presenças na Igreja, todas e cada uma chamadas a trabalhar para
o advento do Reino de Deus segundo a diversidade de vocações
e da situações, carismas e ministérios. Trata-se
de uma variedade ligada, não só à idade, mas também
à diferença de sexo e à diversidade dos dons, como
igualmente às vocações e às condições
de vida; é uma variedade que torna mais viva e concreta a riqueza
da Igreja.
Jovens, crianças, idosos
Os jovens, esperança da Igreja
46. O Sínodo quis prestar uma atenção especial aos
jovens. E justamente. Em tantos países do mundo, eles representam
a metade de toda a população e, muitas vezes, a metade numérica
do próprio Povo de Deus que vive nesses países. Já
sob esse ponto de vista, os jovens constituem uma força excepcional
e são um grande desafio para o futuro da Igreja. Nos jovens, efectivamente,
a Igreja lê o seu caminho para o futuro que a espera e encontra
a imagem e o convite daquela alegre juventude com que o Espírito
de Cristo constantemente a enriquece. Nesse sentido, o Concílio
definiu os jovens como " esperança da Igreja ".(168)
Na carta que escrevi aos jovens e às jovens do mundo, a 31 de Março
de 1985, lê-se: " A Igreja olha para os jovens; antes, a Igreja,
de um modo especial, vê-se a si mesma nos jovens, em todos vós
e, ao mesmo tempo, em cada uma e em cada um de vós. Foi assim desde
o princípio, desde os tempos apostólicos. As palavras de
São João na sua Primeira Carta podem dar disso um especial
testemunho: "Escrevo a vós, jovens, porque vencestes o maligno.
Escrevi-vos a vós, filhinhos, porque conhecestes o Pai... Escrevi-vos
a vós, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus habita em
vós" (1 Jo 2, 13 ss.)... Na nossa geração, ao
fim do segundo milénio depois de Cristo, também a Igreja
vê-se a si mesma nos jovens ".(169) P> Os jovens não
devem ser considerados simplesmente como o objecto da solicitude pastoral
da Igreja: são de facto e devem ser encorajados a ser sujeitos
activos, protagonistas da evangelização e artífices
da renovação social.(170) A juventude é o tempo de
uma descoberta particularmente intensa do próprio " eu "
e do próprio " projecto de vida ", é o tempo de
um crescimento que deve realizar-se " em sabedoria, idade e graça
diante de Deus e dos homens " (Lc 2, 52).
Como disseram os Padres sinodais, " a sensibilidade dos jovens intui
profundamente os valores da justiça, da não-violência
e da paz. O seu coração está aberto à fraternidade,
à amizade e à solidariedade. Deixam-se mobilizar ao máximo
em favor das causas que concernem a qualidade da vida e a conservação
da natureza. Mas, estão eles também cheios de inquietações,
de desilusões, angústias e receios do mundo, para além
das tentações próprias do seu estado ".(171)
A Igreja deve reviver o amor de predilecção que Jesus mostrou
ao jovem do Evangelho: " Jesus, olhando para ele, amou-o " (Mc
10, 21). Por isso, a Igreja não se cansa de anunciar Jesus Cristo,
proclamar o Seu Evangelho como a única e superabundante resposta
às mais radicais aspirações dos jovens, como a proposta
forte e entusiasta de um seguimento pessoal (" vem e segue-Me"
[Mc 10, 21]), que comporta a vivência do amor filial de Jesus pelo
Pai e a participação na salvação da humanidade.
A Igreja tem tantas coisas para dizer aos jovens, e os jovens tem tantas
coisas a dizer à Igreja. Este diálogo recíproco,
que deverá fazer-se com grande cordialidade, clareza e coragem,
favorecerá o encontro e o intercâmbio das gerações,
e será fonte de riqueza e de juventude para a Igreja e para a sociedade
civil. Na sua mensagem aos jovens o Concílio diz: " A Igreja
olha para vós com confiança e amor... Ela é a verdadeira
juventude do mundo... Olhai para ela e nela encontrareis o rosto de Cristo
".(172)
As crianças e o reino dos céus
47. As crianças são, certamente, o alvo do amor delicado
e generoso do Senhor Jesus: a elas reserva a Sua bênção
e, ainda mais, assegura-lhes o Reino dos céus (cf. Mt 19, 13-15;
Mc 10, 14). Em particular, Jesus exalta o papel activo que as crianças
têm no Reino de Deus: são o símbolo eloquente e a
esplêndida imagem daquelas condições morais e espirituais
que são essenciais para se entrar no Reino de Deus e para viver
a sua lógica de total abandono ao Senhor: " Em verdade vos
digo: se não vos converterdes e não vos tornardes como as
crianças, não entrareis no Reino dos céus. Pois quem
se tornar pequenino como esta criança será grande no Reino
dos céus. E quem acolher uma só destas crianças em
Meu nome, acolhe-Me a Mim " (Mt 18, 3-5; cf. Lc 9, 48).
As crianças são a lembrança constante de que a fecundidade
missionária da Igreja tem a sua raiz vivificadora, não nos
meios e nos merecimentos humanos, mas no dom totalmente gratuito de Deus.
A vida de inocência e de graça das crianças, e também
os sofrimentos injustos de que são vítimas, são,
em virtude da cruz de Cristo, um enriquecimento espiritual para elas e
para toda a Igreja: devemos todos tornar mais viva e grata consciência
desse facto.
Deve reconhecer-se, além disso, que também à idade
da infância e da adolescência se abrem preciosas possibilidades
operativas tanto para a edificação da Igreja como para a
humanização da sociedade. O que o Concílio diz sobre
a presença benéfica e construtiva dos filhos no seio da
família " Igreja doméstica ": " Os filhos,
como membros vivos da família, também contribuem à
sua maneira para a santificação dos pais ",(173) deve
repetir-se acerca das crianças em relação à
Igreja particular e universal. Já o observava João Gerson,
teólogo e educador do século xv, para quem " as crianças
e os adolescentes não são por nada uma parte insignificante
na Igreja ".(174)
Os idosos e o dom da sabedoria
48. As pessoas idosas, muitas vezes injustamente tidas por inúteis
se não mesmo um peso insuportável, lembro que a Igreja lhes
pede e delas espera que continuem a sua missão apostólica
e missionária, que não só é possível
e obrigatória, mas, de certo modo, tornada específica e
original também nessa idade.
A Bíblia gosta de apresentar o idoso como o símbolo da pessoa
cheia de sabedoria e de temor de Deus (cf. Sir 25, 4-6). Nesse sentido,
o " dom " do idoso poderia identificar-se com o de ser, na Igreja
e na sociedade, a testemunha da tradição da fé (cf.
Sl 44, 2; Ex 12, 26-27), o mestre de vida (cf. Sir 6, 34; 8, 11-12), o
obreiro da caridade.
Hoje, o número crescente de idosos nos vários países
do mundo e a cessação anticipada da actividade profissional
e activa abrem um novo espaço ao trabalho apostólico dos
idosos: é um trabalho que deverá ser assumido superando
decididamente a tentação de se refugiar nostalgicamente
num passado que não volta mais ou de, por motivo das dificuldades
encontradas, fugir dos empenhos presentes para o mundo das constantes
novidades; e consciencializando-se sempre mais de que a sua função
na Igreja e na sociedade não tem absolutamente paragens por razões
de idade, mas tão só modalidades novas. Como diz o Salmista:
" Até na velhice darão frutos, conservarão a
sua seiva e o seu frescor, para anunciar quão justo é o
Senhor " (Sl 92, 15-16). Repito o que disse durante a celebração
do Jubileu dos Idosos: " A entrada na terceira idade deve considerar-se
um privilégio: não apenas porque nem todos têm a sorte
de atingir essa meta, mas também e sobretudo porque esse é
o tempo das possibilidades concretas de pensar melhor no passado, de conhecer
e viver com maior profundidade o mistério pascal, de se tornar,
na Igreja, exemplo para todo o Povo de Deus... Apesar da complexidade
dos problemas que tendes para resolver, as forças que progressivamente
se vão enfraquecendo, e apesar das insuficiências das organizações
sociais, os atrasos da legislação oficial, as incompreensões
de uma sociedade egoísta, vós não estais nem deveis
sentir-vos à margem da vida da Igreja, elementos passivos de um
mundo em movimento excessivo, mas sujeitos activos de um período
humanamente e espiritualmente fecundo da existência humana. Tendes
ainda uma missão para cumprir, um contributo a dar. Segundo o plano
divino, cada ser humano é uma vida em crescimento, desde a primeira
centelha da existência até ao último respiro ".(175)
Mulheres e homens
49. Os Padres sinodais dedicaram uma atenção especial à
condição e ao papel da mulher, num dúplice objectivo:
reconhecer e convidar a que todos e mais uma vez reconheçam o indispensável
contributo da mulher na edificação da Igreja e no progresso
da sociedade; e elaborar, além disso, uma análise mais específica
acerca da participação da mulher na vida e na missão
da Igreja.
Reportando-se a João XXIII, que vê na tomada de consciência
por parte da mulher da própria dignidade e no acesso das mulheres
às actividades públicas um sinal dos nossos tempos,(176)
os Padres do Sínodo afirmaram repetida e veementemente, perante
as mais variadas formas de descriminação e de marginalização
a que se submete a mulher pela simples razão de ser mulher, a urgência
de defender e de promover a dignidade pessoal da mulher e, portanto, a
sua igualdade com o homem.
Se a todos na Igreja e na sociedade pertence esta tarefa, em particular
pertence às mulheres, que devem sentir-se empenhadas como protagonistas
em primeira linha. Há ainda um enorme esforço a fazer, em
muitas partes do mundo e em diversos ambientes, para se destruir aquela
injusta e deletéria mentalidade que considera o ser humano como
uma coisa, como um objecto de compra e venda, um instrumento do interesse
egoísta ou de puro prazer, tanto mais que a primeira vítima
dessa mentalidade é precisamente a própria mulher. Pelo
contrário, só o claro reconhecimento da dignidade pessoal
da mulher constitui o primeiro passo a dar-se para promover a sua plena
participação, tanto na vida eclesial como na social e pública.
Deve dar-se uma resposta mais ampla e decisiva à exigência
feita na Exortação Familiaris consortio acerca das múltiplasdescriminações
de que são vítimas as mulheres: " que por parte de
todos se empreenda uma acção pastoral específica,
mais vigorosa e incisiva, para debelá-las definitivamente, por
forma a alcançar a plena estima da imagem de Deus que brilha em
todos os seres humanos, nenhum excluído ".(177) Na mesma linha,
os Padres sinodais afirmaram: " A Igreja, como expressão da
sua missão, deve opor-se firmemente a todas as formas de discriminação
e de abuso das mulheres ".(178) E ainda: " A dignidade da mulher,
gravemente ferida na opinião pública, deve ser recuperada
através do respeito efectivo dos direitos da pessoa humana e da
prática da doutrina da Igreja ".(179)
Em particular, sobre a participacão activa e responsável
na vida e na missão da Igreja, sublinhe-se como já o Concílio
Vaticano II tenha sido deveras explícito em reclamá-lo:
" Já que, nos nossos dias, as mulheres tomam cada vez mais
parte activa em toda a vida da sociedade, reveste-se de grande importância
uma sua mais larga participação nos vários campos
do apostolado da Igreja ".(180)
A consciência de que a mulher, com os dons e as funções
que lhe são próprias, tem uma vocação específica
própria cresceu e aprofundou-se no período pós -
conciliar, encontrando a sua inspiração mais original no
Evangelho e na história da Igreja. Para o crente, com efeito, o
Evangelho, isto é, a palavra e o exemplo de Jesus Cristo, continua
a ser o ponto de referência necessário e decisivo: e é
deveras fecundo e inovador também para o actual momento histórico.
Embora não tendo sido chamadas para o apostolado próprio
dos Doze e, portanto, para o sacerdócio ministerial, muitas mulheres
acompanham Jesus no Seu ministério e dão assistência
ao grupo dos Apóstolos (cfr. Lc 8, 2-3); estão presentes
ao pé da Cruz (Lc 23, 49); assistem à sepultura de Jesus
(cfr. Lc 23, 55) e, na madrugada de Páscoa, recebem e transmitem
o anúncio da ressurreição (cfr. Lc 24, 1-10); rezam
com os Apóstolos no Cenáculo à espera do Pentecostes
(Act 1, 14).
Na peugada do Evangelho, a Igreja das origens diferenciou-se da cultura
do tempo e confia à mulher tarefas ligadas à evangelização.
Nas suas Cartas, o apóstolo Paulo cita, até pelo nome, numerosas
mulheres pelas suas variadas funções no seio e ao serviço
das primeiras comunidades eclesiais (cfr. Rom 16, 1-15; Fil 4, 2-3; Col
4, 15 e 1 Cor 11, 5; 1 Tim 5, 16). " Se o testemunho dos Apóstolos
fundamenta a Igreja - disse Paulo VI - o das mulheres contribui para alimentar
a fé das comunidades cristãs ".(181)
E como nas origens, assim na evolução sucessiva, a Igreja
teve sempre, mesmo se de modos diferentes e com diversas acentuações,
mulheres que desempenharam um papel, por vezes decisivo, e realizaram
tarefas de considerável valor para a própria Igreja. É
uma história de imensa operosidade, o mais das vezes humilde e
escondida, mas nem por isso menos decisiva para o crescimento e para a
santidade da Igreja. É necessário que essa história
continue e, mesmo, se alargue e intensifique perante a crescente e universal
consciência da dignidade pessoal da mulher e da sua vocação,
bem como perante a urgência de uma " nova evangelização
" e de uma maior " humanização " das relações
sociais.
Recolhendo a herança do Concílio Vaticano II, onde se reflecte
a mensagem do Evangelho e da história da Igreja, os Padres do Sínodo
formularam, entre outras, esta clara " recomendação
": " É necessário que a Igreja, pela sua vida
e pela sua missão, reconheça todos os dons das mulheres
e dos homens e os traduza em prática ".(182) E ainda: "
Este Sínodo proclama que a Igreja exige o reconhecimento e a utilização
de todos esses dons, experiências e aptidões dos homens e
das mulheres para que a sua missão se torne mais eficaz (cfr. Congregação
da Doutrina da Fé, Instructio de libertate christiana et liberatione,
72) ".(183)
Fundamentos antropológicos e teológicos
50. A condição para assegurar a justa presença da
mulher na Igreja e na sociedade é a análise mais penetrante
e mais cuidada dos fundamentos antropológicos da condicão
masculina e feminina, de forma a determinar a identidade pessoal própria
da mulher na sua relação de diversidade e de recíproca
complementariedade com o homem, não só no que se refere
às posições que deve manter e às funções
que deve desempenhar, mas também e mais profundamente no que concerne
a sua estrutura e o seu significado pessoal. Os Padres sinodais sentiram
vivamente essa exigência ao afirmarem que " os fundamentos
antropológicos e teológicos precisam ser estudados a fundo
em vista da solução dos problemas relativos ao verdadeiro
significado e à dignidade de ambos os sexos ".(184)
Empenhada na reflexão sobre os fundamentos antropológicos
e teológicos da condição feminina, a Igreja intervém
no processo histórico dos vários movimentos de promoção
da mulher e, descendo às próprias raízes do seu ser
pessoal, dá-lhe o seu mais precioso contributo. Mas, antes e sobretudo,
a Igreja entende com isso obedecer a Deus que, ao criar o homem "
à Sua imagem ", " homem e mulher os criou " (Gn
1, 27); e assim entende responder à chamada de Deus que a convida
a conhecer, a admirar e a viver o Seu desígnio. É um desígnio
que foi " no princípio " indelevelmente impresso no próprio
ser da pessoa humana - homem e mulher - e, portanto, nas suas estruturas
significativas e nos seus dinamismos profundos. É precisamente
esse desígnio, sapientíssimo e amoroso, que deve ser explorado
em toda a riqueza do seu conteúdo: é a riqueza que desde
o " princípio " se veio progressivamente manifestando
e actuando ao longo de toda a história da salvação
e que culminou na " plenitude do tempo ", quando " Deus
mandou o Seu Filho, nascido de mulher " (Gal 4, 4). Essa " plenitude
" continua na história: a leitura do desígnio de Deus
acerca da mulher é feita continuamente e deverá continuar
a fazer-se na fé da Igreja, graças também à
vida que tantas mulheres cristãs viveram. Sem esquecer o contributo
que podem dar as várias ciências humanas e as diferentes
culturas: estas, graças a um discernimento iluminado, poderão
ajudar a intuir e a definir os valores e as exigências que pertencem
à essência perene da mulher e os que estão ligados
à evolução histórica das próprias culturas.
Como nos recorda o Concílio Vaticano II, " a Igreja afirma
que por baixo de todas as mudanças há muita coisa que não
muda, por ter o seu fundamento último em Cristo, que é sempre
o mesmo: ontem, hoje e nos séculos (cfr. Heb 13, 8) " (185)
Sobre os fundamentos antropológicos e teológicos da dignidade
pessoal da mulher debruça-se a Carta Apostólica sobre a
dignidade e a vocação da mulher. O documento que retoma,
continua e especifica as reflexões da catequese das Quartas-Feiras,
dedicada, por muito tempo, à " teologia do corpo ", pretende
ser, ao mesmo tempo, o cumprimento de uma promessa feita na encíclica
Redemptoris mater (186) e a resposta ao pedido dos Padres sinodais.
A leitura da Carta Mulieris dignitatem, também pelo seu carácter
de meditação bíblico-teológica, poderá
ser um estímulo para todos, homens e mulheres, e em particular
para os que cultivam as ciências humanas e as disciplinas teológicas,
a fim de se avançar no estudo crítico e aprofundar sempre
mais, na base da dignidade pessoal do homem e da mulher e da sua recíproca
relação, os valores e os dons específicos da feminidade
e da masculinidade, não apenas a nível da vivência
social, mas também e sobretudo da existência cristã
e eclesial.
A meditação sobre os fundamentos antropológicos e
teológicos da condição da mulher deve iluminar e
guiar a resposta cristã à pergunta tão comum e, por
vezes, tão aguda, sobre o "espaço " que a mulher
pode e deve ter na Igreja e na sociedade.
Da palavra e do comportamento de Cristo, que são normativos para
a Igreja, resulta com grande clareza que nenhuma discriminação
existe no plano da relação com Cristo, no qual " não
há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em
Cristo Jesus " (Gal 3, 28) e no plano da participação
na vida e na santidade da Igreja, como muito bem afirma a profecia de
Joel realizada no Pentecostes: " Eu derramarei o Meu espírito
sobre cada homem e profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas
" (Jl 2, 28; cf. Act 2, 17 ss.). Como se lê na Carta Apostólica
sobre a dignidade e a vocação da mulher: " Ambos -
a mulher como o homem - são objecto, em igual medida, da dádiva
da verdade divina e do amor no Espírito Santo. Ambos recebem as
Suas "visitas" salvadoras e santificadoras ".(187)
Missão na Igreja e no mundo
51. Quanto, pois, à participação na missão
apostólica da Igreja, não há dúvida de que,
por força do Baptismo e do Crisma, a mulher - como o homem - torna-se
participante no tríplice múnus de Jesus Cristo Sacerdote,
Profeta e Rei e, portanto, é habilitada e vocacionada para o apostolado
fundamental da Igreja: a evangelização. Por outra parte,
precisamente na realização desse apostolado, a mulher é
chamada a pôr em prática os seus " dons " próprios:
antes de mais, o dom que é a sua própria dignidade pessoal,
através da palavra e do testemunho de vida; os dons, portanto,
relacionados com a sua vocação feminina.
Para participar na vida e na missão da Igreja, a mulher não
pode receber o sacramento da Ordem e, por isso, não pode desempenhar
as funções próprias do sacerdócio ministerial.
Esta é uma disposição que a Igreja sempre encontrou
na clara vontade, totalmente livre e soberana, de Jesus Cristo que chamou
apenas homens para Seus apóstolos; (188) uma disposição
que pode encontrar luz na relação entre Cristo Esposo e
a Igreja Esposa.(189) Estamos na esfera da função e não
na da dignidade e da santidade. Deve, na verdade, afirmar-se: " Embora
a Igreja possua uma estrutura "hierárquica", essa estrutura,
todavia, está totalmente ordenada para a santidade dos membros
em Cristo ".(190)
Mas, como já dizia Paulo VI, se " nós não podemos
mudar o comportamento de Nosso Senhor nem a chamada que Ele dirigiu às
mulheres, devemos, porém, reconhecer e promover o papel da mulher
na sua missão evangelizadora e na vida da comunidade cristã
".(191)
É absolutamente necessário que se passe do reconhecimento
teórico da presença activa e responsável da mulher
na Igreja à realização prática. E é
neste claro sentido que deverá ler-se a presente Exortação
que se dirige aos fiéis leigos, com a deliberada e repetida especificação
" homens e mulheres ". Também o novo Código de
Direito Canónico contém múltiplas disposições
sobre a participação da mulher na vida e na missão
da Igreja: são disposições que precisam de ser mais
comummente conhecidas e de serem postas em prática, embora segundo
as diversas sensibilidades culturais e oportunidades pastorais, com maior
celeridade e resolução.
Veja-se, por exemplo, a participação das mulheres nos Conselhos
pastorais diocesanos e paroquiais, assim como nos Sínodos diocesanos
e nos Concílios particulares. Nesse sentido, os Padres sinodais
escreveram: " As mulheres participem na vida da Igreja sem discriminação
alguma, também nas consultas e na elaboração de decisões
".(192) E ainda: " As mulheres, que já têm tanta
importância na transmissão da fé e na prestação
de serviços de toda a espécie na vida da Igreja, devem ser
associadas à preparação dos documentos pastorais
e das iniciativas missionárias e devem ser reconhecidas como cooperadoras
da missão da Igreja na família, na profissão e na
comunidade civil ".(193)
No âmbito mais específico da evangelização
e da catequese, deverá promover-se com maior força a função
particular que a mulher tem na transmissão da fé, não
só na família, mas também nos mais variados lugares
educativos e, em termos mais vastos, em tudo o que concerne o acolhimento
da Palavra de Deus, a sua compreensão e a sua comunicação,
também através do estudo, da investigação
e da docência da teologia.
Ao desempenhar a sua tarefa de evangelização, a mulher sentirá
mais viva a necessidade de ser evangelizada. Assim, com " os olhos
iluminados pela fé " (cf. Ef 1, 18), a mulher poderá
distinguir entre o que verdadeiramente responde à sua dignidade
pessoal e à sua vocação e tudo o que, talvez sob
o pretexto dessa " dignidade " e em nome da " liberdade
" e do " progresso ", faz com que a mulher não contribua
para o fortalecimento dos verdadeiros valores, mas, pelo contrário,
se torne responsável da degradação moral das pessoas,
dos ambientes e da sociedade. Realizar um tal " discernimento "
é uma urgência histórica inadiável e, ao mesmo
tempo, uma possibilidade e uma exigência que derivam da participação
no múnus profético de Cristo e da Sua Igreja por parte da
mulher cristã. O " discernimento ", de que fala muitas
vezes o apóstolo Paulo, não consiste apenas numa avaliação
das realidades e dos acontecimentos à luz da fé; é
também uma decisão concreta e um empenhamento operativo,
não só no ambito da Igreja, mas também no da sociedade
humana.
Pode afirmar-se que todos os problemas do mundo contemporâneo, de
que já falava a segunda parte da Constituição conciliar
Gaudium et spes e que com o tempo não foram por nada resolvidos
nem atenuados, devem contar com a presença e o empenho das mulheres
e, precisamente, com o seu contributo típico e insubstituível.
Em particular, duas grandes tarefas confiadas à mulher merecem
ser novamente postas à atenção de todos.
A tarefa, antes de mais, de dar plena dignidade à vida matrimonial
e à maternidade. Novas possibilidades se abrem hoje à mulher
para uma compreensão mais profunda e para uma realização
mais rica dos valores humanos e cristãos implicados na vida conjugal
e na experiência da maternidade: o próprio homem - o marido
e o pai - pode superar formas episódicas e unilaterais de absentismo
ou de presença, mais, pode envolver-se em novas e significativas
relações de comunhão interpessoal, precisamente graças
à intervenção inteligente, amorosa e decisiva da
mulher.
E, depois, a tarefa de assegurar a dimensão moral da cultura, isto
é, a dimensão de uma cultura digna do homem, da sua vida
pessoal e social. O Concílio Vaticano II parece relacionar a dimensão
moral da cultura com a participação dos leigos no múnus
real de Cristo: " Os leigos, também pela união das
próprias forças, devem sanear às estruturas e as
condições do mundo, se elas porventura propendem a levar
ao pecado, de tal modo que todas se conformem às normas da justiça
e, antes, ajudem ao exercício das virtudes, em vez de o estorvarem.
Agindo assim, informarão de valor moral a cultura e as obras do
homem ".(194)
A medida que a mulher participar activa e responsavelmente na função
das instituições, de que depende a salvaguarda do primado
devido aos valores humanos na vida das comunidades políticas, as
palavras do Concílio acima citadas abrirão um importante
campo de apostolado da mulher: em todas as dimensões da vida dessas
comunidades, desde a dimensão sócio-económica à
sócio-política, devem respeitar-se e promover-se a dignidade
pessoal da mulher e a sua vocação específica: no
âmbito não só individual, mas também comunitário;
não apenas em formas deixadas à liberdade responsável
das pessoas, mas igualmente em formas garantidas por leis civis justas.
" Não é bom que o homem esteja só: vou dar-lhe
um auxiliar semelhante a ele " (Gn 2, 18). A mulher Deus Criador
confiou o homem. Sem dúvida, o homem foi confiado a cada homem,
mas de modo particular à mulher, porque precisamente a mulher parece
possuir, graças à experiência especial da sua maternidade,
uma sensibilidade específica para com o homem e para com tudo o
que constitui o seu verdadeiro bem, a começar pelo valor fundamental
da vida. São tão grandes as possibilidades e as responsabilidades
da mulher neste campo, numa época em que o progresso da ciência
e da técnica nem sempre é inspirado a pautado pela verdadeira
sabedoria, com o risco inevitável de " desumanizar "
a vida humana, sobretudo quando ela exige um amor mais intenso e uma aceitação
mais generosa!
A participação da mulher na vida da Igreja e da sociedade,
através dos seus dons, constitui, ao mesmo tempo, a estrada necessária
para a sua realização pessoal - na qual justamente tanto
se insiste - e o contributo original da mulher para o enriquecimento da
comunhão eclesial e para o dinamismo apostólico do Povo
de Deus.
Nesta perspectiva deve considerar-se a presença também do
homem ao lado da mulher.
Compresença e colaboração dos homens e das mulheres
52. Não faltou na aula sinodal a voz daqueles que manifestaram
o receio de que uma excessiva insistência sobre a condição
e o papel das mulheres pudesse levar a um inaceitável esquecimento:
nomeadamente em relação aos homens. Na verdade, várias
situações eclesiais devem lamentar a ausência ou a
presença demasiado fraca dos homens, uma parte dos quais abdica
das próprias responsabilidades eclesiais, deixando-as ao cuidado
exclusivo das mulheres, como, por exemplo, a participação
na oração litúrgica na Igreja, a educação
e, em especial, a catequese dos próprios filhos e das outras crianças,
a presença em encontros religiosos e culturais, a colaboração
em iniciativas caritativas e missionárias.
Torna-se, assim, uma urgência pastoral conseguir-se a presença
coordenada dos homens e das mulheres para se tornar mais completa, harmónica
e rica a participação dos fiéis leigos na missão
salvadora da Igreja.
A razão fundamental que exige e explica a presença simultânea
e a colaboração dos homens e das mulheres não é
unicamente, como se sublinhou acima, a maior expressividade e eficácia
da acção pastoral da Igreja; nem, tão pouco, o simples
dado sociológico de uma convivência humana que é naturalmente
feita de homens e de mulheres. É, sobretudo, o desígnio
originário do Criador, que desde o " princípio "
quis o ser humano como " unidade de dois ", quis o homem e a
mulher como primeira comunidade de pessoas, raiz de todas as outras comunidades
e, simultaneamente, como " sinal " daquela comunhão interpessoal
de amor que constitui a misteriosa vida íntima de Deus Uno e Trino.
Precisamente por isso, o modo mais comum e capilar e, ao mesmo tempo,
fundamental, para assegurar essa presença coordenada e harmónica
de homens e de mulheres na vida e na missão da Igreja, é
o exercício das tarefas e das responsabilidades do casal e da família
cristã, no qual transparece e se comunica a variedade das diversas
formas de amor e de vida: a forma conjugal, paterna e materna, filial
e fraterna. Lemos na Exortação Familiaris consortio: "
Se a família cristã é comunidade, cujos laços
são renovados por Cristo através da fé e dos sacramentos,
a sua participação na missão da Igreja deve processar-se
segundo uma modalidade comunitária: juntos, portanto, os cônjuges
enquanto casal, os pais e os filhos enquanto família, devem prestar
o seu serviço à Igreja e ao mundo ... A família cristã
edifica, assim, o Reino de Deus na história, mediante aquelas mesmas
realidades quotidianas que dizem respeito à sua condição
de vida e a identificam: é, portanto, no amor conjugal e familiar
- vivido na sua extraordinária riqueza de valores e de exigências
de totalidade, unicidade, fidelidade e fecundidade - que se exprime e
se realiza a participação da família cristã
no múnus profético, sacerdotal e real de Jesus Cristo e
da Sua Igreja ".(195)
Colocando-se nesta perspectiva, os Padres sinodais recordaram o significado
que o sacramento do Matrimónio deve assumir na Igreja e na sociedade
a fim de iluminar e inspirar todas as relações entre o homem
e a mulher. Nesse sentido, reafirmaram " a urgente necessidade de
cada cristão viver e anunciar a mensagem de esperança contida
na relação entre o homem e a mulher. O sacramento do Matrimónio,
que consagra esta relação na sua forma conjugal e a revela
como sinal da relação de Cristo com a Sua Igreja, encerra
uma doutrina de grande importância para a vida da Igreja; essa doutrina
deve atingir, por meio da Igreja, o mundo de hoje; todas as relações
entre o homem e a mulher se devem alimentar desse espírito. A Igreja
deve utilizar tais riquezas de forma ainda mais plena ".(196) Os
próprios Padres justamente sublinharam que " a estima da virgindade
e o respeito pela maternidade devem ambos ser recuperados ":(197)
uma vez mais, para o florescer de vocações diferentes e
complementares no contexto vivo da comunhão eclesial e ao serviço
do seu constante crescimento.
Doentes e atribulados
53. O homem é destinado à alegria, mas todos os dias experimenta
variadíssimas formas de sofrimento e de dor. Na sua mensagem final,
os Padres sinodais dirigiram-se aos homens e às mulheres atingidos
pelas mais diversas formas de sofrimento e de dor, com estas palavras:
" Vós, os abandonados e marginalizados pela nossa sociedade
de consumo: doentes, diminuídos físicos, pobres, famintos,
emigrados, refugiados, prisioneiros, desempregados, crianças abandonadas,
pessoas sozinhas e idosas; vós, vítimas da guerra e de toda
a espécie de violência da nossa sociedade permissiva. A Igreja
participa no vosso sofrimento que conduz ao Senhor, que vos associa à
Sua Paixão redentora e vos faz viver à luz da Sua Ressurreição.
Contamos convosco para ensinar ao mundo inteiro o que é o amor.
Faremos tudo o que nos é possível para que encontreis o
lugar a que tendes direito na sociedade e na Igreja ".(198)
No contexto de um mundo tão vasto como é o do sofrimento
humano, consideramos em especial os que são vítimas da doença
nas suas diversas formas: com efeito, os doentes são a expressão
mais frequente e mais comum do sofrer humano.
A todos e a cada um se dirige a chamada do Senhor: também os doentes
são mandados como trabalhadores para a Sua vinha. O peso que fatiga
os membros do corpo e que perturba a serenidade da alma, em vez de os
impedir de trabalhar na vinha, convida-os a viver a sua vocação
humana e cristã e a participar no crescimento do Reino de Deus
com modalidades novas e mesmo preciosas. As palavras do apóstolo
Paulo devem tornar-se o seu programa e, ainda mais, a luz que faz brilhar
aos seus olhos o significado de graça da sua situação:
" Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo,
em favor do Seu corpo, que é a Igreja " (Col 1, 24). Precisamente
ao fazer tal descoberta, o apóstolo encontrou a alegria: "
Por isso, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vossa causa "
(Col 1, 24). Do mesmo modo, muitos doentes podem tornar-se veículo
da " alegria do Espírito Santo em muitas tribulações
" (1 Tes 1, 6) e ser testemunhas da Ressurreição de
Jesus. Como afirmou um diminuído físico na sua intervenção
na aula sinodal, " é de grande importância sublinhar
o facto de que os cristãos que vivem em situações
de doença, dor e velhice, não são convidados por
Deus apenas a unir a sua dor à Paixão de Cristo, mas também
a receber desde já em si mesmos e a transmitir aos outros a força
da renovação e a alegria de Cristo ressuscitado (cf. 2 Cor
4, 10-11; 1 Ped 4, 13; Rom 8, 18 ss.) ".(199)
Por sua parte - como se lê na Carta Apostólica Salvifici
doloris - " a Igreja, que nasce do mistério da redenção
na Cruz de Cristo, deve procurar encontrar-se com o homem, de modo especial,
na estrada do seu sofrimento. Nesse encontro, o homem "torna-se o
caminho da Igreja", sendo este um dos caminhos mais importantes ".(200)
Ora, o homem que sofre é caminho da Igreja, por ser, antes de mais,
caminho do próprio Cristo, o bom Samaritano que " não
passa adiante ", mas " se compadece, aproxima-se ... liga-lhe
as feridas ... e cuida dele " (Lc 10, 32-34).
A comunidade cristã continuamente escreve, de século em
século, na imensa multidão das pessoas que estão
doentes e que sofrem, a parábola evangélica do bom Samaritano,
revelando e comunicando o amor de Jesus Cristo que cura e que consola.
Fê-lo mediante o testemunho da vida religiosa consagrada ao serviço
dos doentes e mediante a acção incansável de todos
os operadores de saúde. Hoje, também nos próprios
hospitais e casas de saúde católicos, geridos por pessoal
religioso, torna-se cada vez mais numerosa e, por vezes, até total
e exclusiva a presença dos fiéis leigos, homens e mulheres:
eles mesmo, médicos, enfermeiros, operadores de saúde, voluntários,
são chamados a tornar-se a imagem viva de Cristo e da Sua Igreja
no amor para com os doentes e os que sofrem.
Ação pastoral renovada
54. É necessário que esta preciosissima herança,
que a Igreja recebeu de Jesus Cristo " médico do corpo e do
espírito ",(201) não só não esmoreça,
mas se valorize e enriqueça cada vez mais com a recuperação
e o decidido arrojo de uma acção pastoral em favor dos doentes
e dos que sofrem. Deve ser uma acção capaz de garantir e
promover atenção, proximidade, presença, escuta,
diálogo, partilha e ajuda concreta ao homem, nos momentos em que,
por causa da doença e do sofrimento, são postas à
prova não só a sua confiança na vida mas também
a sua própria fé em Deus e no Seu amor de Pai. Este esforço
pastoral tem a sua expressão mais significativa na celebração
sacramental com e em favor dos doentes, como fortaleza na dor e na fraqueza,
esperança no desespero, lugar de encontro e de festa.
Um dos objectivos fundamentais desta renovada e intensificada acção
pastoral, que não pode deixar de envolver, e de forma coordenada,
todos os componentes da comunidade eclesial, é considerar o doente,
o diminuído fisico, o que sofre, não simplesmente objecto
do amor e do serviço da Igreja, mas sim, sujeito activo e responsável
da obra de evangelização e de salvação. Nesta
perspectiva, a Igreja tem uma boa nova a dar no seio da sociedade e da
cultura que, tendo perdido do sofrer humano, " censuram " todo
o discurso sobre essa dura realidade da vida. E a boa nova consiste no
anúncio de que o sofrer pode ter também um significado positivo
para o homen e para a própria sociedade, chamado, como é,
a tornar-se uma forma de participação no sofrimento salvífico
de Cristo e na Sua alegria de Ressuscitado e, portanto, uma força
de santificação e de edificação da Igreja.
O anúncio dessa boa nova será crível, quando não
ficar simplesmente nos lábios, mas passar para o testemunho da
vida, tanto em todos aqueles que com amor cuidam dos doentes, dos diminuídos
físicos, dos que sofrem, como nestes mesmos, tornados cada vez
mais conscientes e responsáveis do seu lugar e da sua missão
na Igreja e para a Igreja.
A renovada meditação da Carta Apostólica Salvifici
doloris, de que recordamos as linhas conclusivas, poderá ser de
grande utilidade para que a " civilização do amor "
consiga dar flores e frutos no vasto mundo da dor humana: " É
preciso, portanto, que aos pés da Cruz do Calvário se juntem
idealmente todos os que, sofrendo, acreditam em Cristo e, de modo particular,
aqueles que sofrem por causa da sua fé n'Ele, que foi crucificado
e que ressuscitou, para que a oferta dos seus sofrimentos apresse o cumprimento
da oração do mesmo Salvador pela unidade de todos (cf. Jo
17, 11. 21-22). Juntem-se lá também os homens de boa vontade,
pois na Cruz está o "Redentor do homem", o Homem das
dores, que carregou em si os sofrimentos físicos e morais dos homens
de todos os tempos, para que no amor possam encontrar o sentido salvador
do seu sofrimento e as respostas válidas para todas as suas interrogações.
Com Maria, Mãe de Cristo, que estava ao pé da Cruz (cf.Jo
19, 25), nos detemos junto de todas as cruzes do homem de hoje... E pedimos
a vós, todos os que sofreis, que nos apoieis. Precisamente a vós,
que sois fracos, pedimos que vos torneis uma fonte de força para
a Igreja e para a humanidade. No terrível combate entre as forças
do bem e as do mal, de que nos dá espectáculo o nosso mundo
contemporâneo, vença o vosso sofrimento em união com
a Cruz de Cristo! ".(202)
Estados de vida e vocações
55. Trabalhadores da vinha são todos os membros do Povo de Deus:
os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os fiéis leigos,
todos simultaneamente objecto e sujeito da comunhão da Igreja e
da participação na sua missão de salvação.
Todos e cada um trabalham na única e comum vinha do Senhor com
carismas e com ministérios diferentes e complementares.
Já ao nível do ser, ainda antes do nível do agir,
os cristãos são vides da única fecunda videira que
é Cristo, são membros vivos do único Corpo do Senhor
edificado na força do Espírito. A nível do ser: não
significa apenas através da vida de graça e de santidade,
que é a primeira e a mais rica fonte da fecundidade apostólica
e missionária da santa Madre Igreja; mas significa também
através do estado de vida que caracteriza os sacerdotes, os religiosos
e as religiosas, os membros dos Institutos seculares, os fiéis
leigos.
Na Igreja-Comunhão os estados de vida encontram-se de tal maneira
interligados que são ordenados uns para os outros. Comum, direi
mesmo único, é, sem dúvida, o seu significado profundo:
o de constituir a modalidade segundo a qual se deve viver a igual dignidade
cristã e a universal vocação à santidade na
perfeição do amor. São modalidades, ao mesmo tempo,
diferentes e complementares, de modo que cada uma delas tem uma sua fisionomia
original e inconfundível e, simultaneamente, cada uma delas se
relaciona com as outras e se põe ao seu serviço.
Assim, o estado de vida laical tem na índole secular a sua especificidade
e realiza um serviço eclesial ao testemunhar e ao lembrar, à
sua maneira, aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, o
significado que as coisas terrenas e temporais têm no desígnio
salvífico de Deus. Por sua vez, o sacerdócio ministerial
representa a garantia permanente da presença sacramental de Cristo
Redentor nos diversos tempos e lugares.
O estado religioso testemunha a índole escatológica da Igreja,
isto é, a sua tensão para o Reino de Deus, que é
prefigurado e, de certo modo, antecipado e pregustado nos votos de castidade,
pobreza e obediência.
Todos os estados de vida, tanto no seu conjunto como cada um deles em
relação com os outros, estão ao serviço do
crescimento da Igreja, são modalidades diferentes que profundamente
se unem no " mistério de comunhão " da Igreja
e que dinamicamente se coordenam na sua única missão.
Desse modo, o único e idêntico mistério da Igreja
revela e revive, na diversidade dos estados de vida e na variedade das
vocações, a riqueza infinita do mistério de Jesus
Cristo. Como gostam de repetir os Padres, a Igreja é como um campo
de fascinante e maravilhosa variedade de ervas, plantas, flores e frutos.
Santo Ambrósio escreve: " Um campo produz muitos frutos, mas
melhor é o que está cheio de frutos e de flores. Pois bem,
o campo da Santa Igreja é fecundo nuns e noutras. Aqui, podes ver
as pérolas da virgindade dar flores; ali, dominar a austera viuvez
como as florestas na planície; além, a rica sementeira das
núpcias abençoadas pela Igreja encher os grandes celeiros
do mundo com abundantes colheitas, e os lagares do Senhor Jesus extravasar
como de frutos de viçosa videira, frutos de que são ricas
as núpcias cristãs ".(203)
As várias vocações laicais
56. A rica variedade da Igreja encontra uma sua ulterior manifestação
no seio de cada estado de vida. Assim, dentro do estado de vida laical
há lugar para várias " vocações ",
isto é, diversos caminhos espirituais e apostólicos que
dizem respeito a cada fiel leigo. No trilho de uma vocação
laical " comum " florescem vocações laicais "
particulares ". Neste âmbito podemos lembrar também
a experiência espiritual que recentemente amadureceu na Igreja com
o desabrochar de diversas formas de Institutos seculares: aos fiéis
leigos, e também aos próprios sacerdotes, abre-se a possibilidade
de professar os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência
por meio dos votos ou das promessas, conservando plenamente a própria
condição laical e clerical.(204) Como observaram os Padres
sinodais, " o Espírito Santo suscita também outras
formas de doação de si mesmos, a que se entregam pessoas
que permanecem inteiramente na vida laical ". (205)
Podemos concluir, relendo uma linda página de São Francisco
de Sales, o qual promoveu tanto a espiritualidade dos leigos.(206) Falando
da " devoção ", ou seja, da perfeição
cristã ou " vida segundo o Espírito ", ele apresenta
de uma forma simples e esplêndida a vocação de todos
os cristãos à santidade e, ao mesmo tempo, a forma específica
com que cada cristão a realiza: " Na criação
Deus ordenou às plantas que produzissem os seus frutos, cada uma
" segundo a própria espécie" (Gn 1, 11). A mesma
ordem dá aos cristãos, que são as plantas vivas da
Sua Igreja, para produzirem frutos de devoção, cada um segundo
o seu estado e a sua condição. A devoção deve
ser praticada de forma diferente pelo cavalheiro, pelo operário,
pelo doméstico, pelo príncipe, pela viúva, pela mulher
solteira e pela casada. Isso não basta, é preciso também
conciliar a prática da devoção com as forças,
os empenhos e os deveres de cada pessoa... É um erro, uma heresia
mesmo, excluir do ambiente militar, da oficina dos operários, da
corte dos príncipes, das casas dos cônjuges, a prática
da devoção. É verdade, Filoteia, que a devoção
puramente contemplativa, monástica e religiosa só pode ser
vivida nesses estados, mas, além destes três tipos de devoção,
há muitos outros capazes de tornar perfeitos os que vivem em condições
seculares. Por isso, onde quer que nos encontremos, podemos e devemos
aspirar à vida perfeita ".(207)
Colocando-se na mesma linha, o Concílio Vaticano II escreve: "
Esta espiritualidade dos leigos deverá assumir características
especiais, conforme o estado de matrimónio e familiar, de celibato
ou viuvez, situação de enfermidade, actividade profissional
e social. Não deixem, por isso, de cultivar assiduamente as qualidades
e dotes condizentes a essas situações, e utilizar os dons
por cada um recebidos do Espírito Santo ".(208)
O que vale para as vocações espirituais vale também,
e de certa forma com maior razão, para as infinitas modalidades
várias com que todos e cada um dos membros da Igreja são
trabalhadores da vinha do Senhor, edificando o Corpo místico de
Cristo. Na verdade, cada um é chamado pelo seu nome, na unicidade
e irrepetibilidade da sua história pessoal, a dar o próprio
contributo para o advento do Reino de Deus. Nenhum talento, nem mesmo
o mais pequeno, pode ser enterrado ou deixado inutilizado (cf. Mt 25,
24-27).
O apóstolo Pedro adverte-nos: " cada qual viva segundo o carisma
que recebeu, colocando-o ao serviço dos outros, como bons administradores
da multiforme graça de Deus " (1 Ped 4, 10).
V
PARA QUE DEIS MAIS FRUTO
A formação dos fiéis leigos
Amadurecer continuamente
57. A imagem evangélica da videira e dos ramos mostra-nos um outro
aspecto fundamental da vida e da missão dos fiéis leigos:
a chamada para crescer, amadurecer continuamente, dar cada vez mais fruto.
Como diligente agricultor, o Pai cuida da sua vinha. A presença
carinhosa de Deus é ardentemente invocada por Israel, que assim
reza: " Voltai, Deus dos exércitos, olhai do Céu e
vede e visitai esta vinha, protegei a cepa que a vossa mão direita
plantou, o rebento que cultivastes " (Sl 80, 15-16). O próprio
Jesus fala da obra do Pai: " Eu sou a verdadeira videira e o Meu
Pai é o agricultor. Toda a vide que em Mim não der fruto,
Ele corta-a, e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê
mais fruto " (Jo 15, 1-2).
A vitalidade das vides depende da sua ligação à videira,
que é Jesus Cristo: " Quem permanece em Mim e Eu nele, dá
muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer nada " (Jo 15,
5).
O homem é interpelado na sua liberdade pela chamada que Deus lhe
faz para crescer, amadurecer, dar fruto. Ele terá que responder,
terá que assumir a própria responsabilidade. É a
essa responsabilidade, tremenda e sublime, que aludem as palavras graves
de Jesus: " Se alguém não permanecer em Mim, será
lançado fora, como a vide, e secará; lançá-lo-ão
ao fogo e arderá " (Jo 15, 6).
Neste diálogo entre Deus que chama e a pessoa interpelada na sua
responsabilidade, situa-se a possibilidade, antes, a necessidade de uma
formação integral e permanente dos fiéis leigos,
a que os Padres sinodais justamente dedicaram grande parte do seu trabalho.
Em particular, depois de terem descrito a formação cristã
como " um contínuo processo pessoal de maturação
na fé e de configuração com Cristo, segundo a vontade
do Pai, sob a guia do Espírito Santo ", claramente afirmaram
que " a formação dos fiéis leigos deverá
figurar entre as prioridades da Diocese e ser colocada nos programas de
acção pastoral, de modo que todos os esforços da
comunidade (sacerdotes, leigos e religiosos) possam convergir para esse
fim ".(209)
Descobrir e viver a própria vocação e missão
58. A formação dos fiéis leigos tem como objectivo
fundamental a descoberta cada vez mais clara da própria vocação
e a disponibilidade cada vez maior para vivê-la no cumprimento da
própria missão.
Deus chama-me e envia-me como trabalhador para a Sua vinha; chama-me e
envia-me a trabalhar para o advento do Seu Reino na história: esta
vocação e missão pessoal define a dignidade e a responsabilidade
de cada fiel leigo e constitui o ponto forte de toda a acção
formativa, em ordem ao reconhecimento alegre e agradecido de tal dignidade
e ao cumprimento fiel e generoso de tal responsabilidade.
Com efeito, Deus, na eternidade, pensou em nós e amou-nos como
pessoas únicas e irrepetíveis, chamando cada um de nós
pelo próprio nome, como o bom Pastor que " chama pelo nome
as suas ovelhas " (Jo 10, 3). Mas, o plano eterno de Deus só
se revela a cada um de nós na evolução histórica
da nossa vida e das suas situações, e, portanto, só
gradualmente: num certo sentido, dia a dia.
Ora, para poder descobrir a vontade concreta do Senhor sobre a nossa vida,
são sempre indispensáveis a escuta pronta e dócil
da palavra de Deus e da Igreja, a oração filial e constante,
a referência a uma sábia e amorosa direcção
espiritual, a leitura, feita na fé, dos dons e dos talentos recebidos,
bem como das diversas situações sociais e históricas
em que nos encontramos.
Na vida de cada fiel leigo há, pois, momentos particularmente significativos
e decisivos para discernir o chamamento de Deus e para aceitar a missão
que Ele confia: entre esses momentos estão os da adolescência
e da juventude. Ninguém, todavia, esqueça que o Senhor,
como o proprietário em relação aos trabalhadores
da vinha, chama - no sentido de tornar concreta e pontual a Sua santa
vontade - a todas as horas de vida: por isso, a vigilância, qual
cuidadosa atenção à voz de Deus, é uma atitude
fundamental e permanente do discípulo.
Não se trata, no entanto, apenas de saber o que Deus quer de nós,
de cada um de nós, nas várias situações da
vida. É preciso fazer o que Deus quer: assim nos recorda a palavra
de Maria, a Mãe de Jesus, dirigida aos criados de Caná:
" Fazei o que Ele vos disser " (Jo 2, 5). E para agir em fidelidade
à vontade de Deus, precisa ser capazes e tornar-se cada vez mais
capazes. Sem dúvida, com a graça do Senhor, que nunca falta,
como diz São Leão Magno: " Dará a força
quem confere a dignidade! "; (210) mas também com a colaboração
livre e responsável de cada um de nós.
Eis a tarefa maravilhosa e empenhativa que espera por todos os fiéis
leigos, todos os cristãos, sem paragem alguma: conhecer cada vez
mais as riquezas da fé e do Baptismo e vivê-las em plenitude
crescente. O apóstolo Pedro, ao falar de nascimento e de crescimento
como sendo as duas etapas da vida cristã, exorta-nos: " Como
crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, para
que ele vos faça crescer para a salvação" (1
Ped 2,2).
Uma formação integral para viver em unidade
59. Ao descobrir e viver a própria vocação e missão,
os fiéis leigos devem ser formados para aquela unidade, de que
está assinalada a sua própria situação de
membros da Igreja e de cidadãos da sociedade humana.
Não pode haver na sua existência duas vidas paralelas: por
um lado, a vida chamada " espiritual ", com os seus valores
e exigências; e, por outro, a chamada vida " secular ",
ou seja, a vida da família, do trabalho, das relações
sociais, do empenhamento politico e da cultura. A vide, incorporada na
videira que é Cristo, dá os seus frutos em todos os ramos
da actividade e da existência. Pois, os vários campos da
vida laical entram todos no desígnio de Deus, que os quer como
o " lugar histórico ", em que se revela e se realiza
a caridade de Jesus Cristo para glória do Pai e ao serviço
dos irmãos. Toda a actividade, toda a situação, todo
o empenho concreto - como, por exemplo, a competência e a solidariedade
no trabalho, o amor e a dedicação na família e na
educação dos filhos, o serviço social e político,
a proposta da verdade na esfera da cultura - são ocasiões
providenciais de um " contínuo exercício da fé,
da esperança e da caridade ".(211)
O Concílio Vaticano II convidou todos os fiéis leigos a
viver esta unidade de vida, ao denunciar com energia a gravidade da ruptura
entre fé e vida, entre Evangelho e cultura: " O Concílio
exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que
procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito
do Evangelho. Erram os que, sabendo que não temos aqui na terra
uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que
podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que
a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo
a vocação própria de cada um ... O divórcio
que se nota em muitos entre a fé que professam e a sua vida quotidiana,
deve ser tido entre os mais graves erros do nosso tempo ".(212) Por
isso, afirmei que uma fé que não se torne cultura é
uma fé " não plenamente recebida, não inteiramente
pensada, nem fielmente vivida ".(213)
Aspectos da formação
60. Dentro desta síntese de vida situam-se os múltiplos
e coordenados aspectos da formação integral dos fiéis
leigos.
Não há dúvida de que a formação espiritual
deve ocupar um lugar privilegiado na vida de cada um, chamado a crescer
incessantemente na intimidade com Jesus Cristo, na conformidade com a
vontade do Pai, na dedicação aos irmãos, na caridade
e na justiça. Escreve o Concílio: a Esta vida de íntima
união com Cristo alimenta-se na Igreja com as ajudas espirituais
que são comuns a todos os fiéis, sobretudo a participação
activa na sagrada Liturgia, e os leigos devem socorrer-se dessas ajudas,
de modo que, ao cumprir com rectidão os próprios deveres
do mundo, nas condições normais da vida, não separem
da própria vida a união com Cristo, mas, desempenhando a
própria actividade segundo a vontade de Deus, cresçam nela
".(214)
A formação doutrinal dos fiéis leigos mostra-se hoje
cada vez mais urgente, não só pelo natural dinamismo de
aprofundar a sua fé, mas também pela exigência de
" racionalizar a esperança " que está dentro deles,
perante o mundo e os seus problemas graves e complexos. Tornam-se, desse
modo, absolutamente necessárias uma sistemática acção
de catequese, a dar-se gradualmente, conforme a idade e as várias
situações de vida, e uma mais decidida promoção
cristã da cultura, como resposta às eternas interrogações
que atormentam o homem e a sociedade de hoje.
Em particular, sobretudo para os fiéis leigos, de várias
formas empenhados no campo social e político, é absolutamente
indispensável uma consciência mais exacta da doutrina social
da Igreja, como repetidamente os Padres sinodais recomendaram nas suas
intervenções. Falando da participação política
dos fiéis leigos, assim se exprimiram: " Para que os leigos
possam realizar activamente este nobre propósito na política
(isto é, o propósito de fazer reconhecer e estimar os valores
humanos e cristãos), não são suficientes as exortações,
é preciso dar-lhes a devida formação da consciência
social, sobretudo acerca da doutrina social da Igreja, a qual contém
os princípios de reflexão, os critérios de julgar
e as directivas práticas (cf. Congregação para a
Doutrina da Fé, Instrução sobre liberdade cristã
e libertação, 72). Tal doutrina já deve figurar na
instrução catequética geral, nos encontros especializados
e nas escolas e universidades. A doutrina social da Igreja é, todavia,
dinâmica, isto é, adaptada às circunstâncias
dos tempos e lugares. É direito e dever dos pastores propor os
princípios morais, também sobre a ordem social, e é
dever de todos os cristãos dedicarem-se à defesa dos direitos
humanos; a participação activa nos partidos políticos
é, todavia, reservada aos leigos ".(215)
E, finalmente, no contexto da formação integral e unitária
dos fiéis leigos, é particularmente significativo, para
a sua acção missionária e apostólica, o crescimento
pessoal no campo dos valores humanos. Precisamente neste sentido, o Concílio
escreveu: " (os leigos) tenham também em grande conta a competência
profissional, o sentido da família, o sentido cívico e as
virtudes próprias da convivência social, como a honradez,
o espírito de justiça, a sinceridade, a amabilidade, a fortaleza
de ânimo, sem as quais nem sequer se pode dar uma vida cristã
autêntica ".(216)
Ao amadurecer a síntese orgânica da sua vida, que, simultaneamente,
é expressão da unidade do seu ser e condição
para o cumprimento eficaz da sua missão, os fiéis leigos
serão interiormente conduzidos e animados pelo Espírito
Santo, que é Espírito de unidade e de plenitude de vida.
Colaboradores de Deus educador
61. Quais são os lugares e os meios da formação dos
fiéis leigos? Quais as pessoas e as comunidades chamadas a desempenhar
a tarefa da formação integral e unitária dos fiéis
leigos?
Como a acção educativa humana está intimamente ligada
à paternidade e à maternidade, assim a formação
cristã encontra a sua raiz e força em Deus, O Pai que ama
e que educa os Seus filhos. Sim, Deus é o primeiro e o grande educador
do Seu Povo, como diz o maravilhoso passo do Cantico de Moisés:
" Encontrou-o numa região deserta, nas solidões ululantes
e selvagens; protegeu-o e velou por ele. Guardou-o como a menina dos Seus
olhos. Como a águia vela pela sua ninhada ou paira sobre os seus
filhos, Ele estendeu as Suas asas para o recolher e levou-o sobre as Suas
asas. Só o Senhor o conduz e nenhum Deus estranho o ajuda "
(Dt 32, 10-12; cf. 8, 5).
A acção educativa de Deus revela-se e cumpre-se em Jesus,
o Mestre, e atinge, por dentro, o coração de cada homem,
graças à presença dinâmica do Espírito.
A Igreja Mãe, tanto em si mesma, como nas suas diversas articulações
e expressões, é chamada a tomar parte na acção
educativa divina. Assim, os fiéis leigos são formados pela
Igreja e na Igreja, numa recíproca comunhão e colaboração
de todos os seus membros: sacerdotes, religiosos e fiéis leigos.
Desse modo, toda a comunidade eclesial, nos seus vários membros,
recebe a fecundidade do Espírito e nela colabora activamente. Nesse
sentido Metódio de Olimpo escrevia: " Os imperfeitos ... são
levados e formados, como no seio de uma mãe, pelos mais perfeitos,
a fim de serem gerados e nascerem para a grandeza e para a beleza da virtude
",(217) como acontece com Paulo, trazido e introduzido na Igreja
pelos perfeitos (na pessoa de Ananias) e tornando-se, depois, também
ele perfeito e fecundo de tantos filhos.
Educadora é, antes de mais, a Igreja universal, na qual o Papa
desempenha o papel de primeiro formador dos fiéis leigos. Cabe-lhe,
como sucessor de Pedro, o ministério de " confirmar na fé
os irmãos ", ensinando a todos os crentes os conteúdos
essenciais da vocação e missão cristã e eclesial.
Não só a sua palavra directa, mas também a sua palavra
veiculada pelos documentos dos vários Dicastérios da Santa
Sé devem ser recebidos pelos fiéis leigos com docilidade
e amor.
A Igreja una e universal está presente, nas várias partes
do mundo, nas Igrejas particulares. Em cada uma delas, o Bispo tem uma
responsabilidade pessoal em relação aos fiéis leigos,
que deve formar mediante o anúncio da Palavra, a celebração
da Eucaristia e dos sacramentos, a animação e a orientação
da sua vida cristã.
Dentro da Igreja particular ou diocese, encontra-se e actua a paróquia,
que tem um papel essencial na formação mais imediata e pessoal
dos fiéis leigos. Efectivamente, com uma relação
que pode atingir mais facilmente cada pessoa e cada grupo, a Paróquia
é chamada a educar os seus membros para a escuta da Palavra, para
o diálogo litúrgico e pessoal com Deus, para a vida de caridade
perfeita, permitindo-lhes compreender, de forma mais directa e concreta,
o sentido da comunhão eclesial e da responsabilidade missionária.
Depois, no seio de algumas Paróquias, sobretudo quando vastas e
dispersas, as pequenas comunidades eclesiais existentes podem dar uma
ajuda notável na formação dos cristãos, podendo
tornar mais capilares e incisivas a consciência e a experiência
da comunhão e da missão edesial. Uma ajuda pode ser dada,
como disseram os Padres sinodais, também por uma catequese pós-baptismal,
em forma de catecumenado, através de uma ulterior proposta de certos
conteúdos do " Ritual da Iniciação Cristã
dos Adultos ", destinados a permitir uma maior compreensão
e vivência das imensas e extraordinárias riquezas e da responsabilidade
do Baptismo recebido.(218)
Na fomação que os fiéis leigos recebem na diocese
e na Paróquia, especialmente em ordem ao sentido da comunhão
e da missão, tem particular importância a ajuda que os vários
membros da Igreja se dão reciprocamente: é uma ajuda que,
revela e simultaneamente realiza o mistério da Igreja Mãe
e Educadora. Os sacerdotes e os religiosos devem ajudar os fiéis
leigos na sua formação. Neste sentido, os Padres do Sínodo
convidaram os presbíteros e os candidatos às Ordens a "
prepararem-se diligentemente para serem capazes de favorecer a vocação
e a missão dos leigos ".(219) Por sua vez, os próprios
fiéis leigos podem e devem ajudar os sacerdotes e os religiosos
no seu caminho espiritual e pastoral.
Outros âmbitos educativos
62. Também a família cristã, enquanto " Igreja
doméstica ", constitui uma escola nativa e fundamental para
a formação da fé: o pai e a mãe recebem do
sacramento do Matrimónio a graça e o ministério da
educação cristã relativamente aos filhos, aos quais
testemunham e transmitem, simultaneamente, valores humanos e valores religiosos.
Ao aprenderem as primeiras palavras, os filhos aprendem também
a louvar a Deus, que sentem perto como Pai amoroso e providente; ao aprenderem
os primeiros gestos de amor, os filhos aprendem também a abrir-se
aos outros, recebendo no dom de si o sentido do viver humano. A própria
vida quotidiana de uma família autenticamente cristã constitui
a primeira " experiência de Igreja ", destinada a confirmar-se
e a progredir na gradual inserção activa e responsável
dos filhos na mais vasta comunidade eclesial e na sociedade civil. Quanto
mais os esposos e os pais cristãos crescerem na consciência
de que a sua " Igreja doméstica " participa na vida e
na missão da Igreja universal, tanto mais os filhos poderão
ser formados para o " sentido da Igreja " e experimentarão
a beleza de dedicar as suas energias ao serviço do Reino de Deus.
Lugares importantes de formação são também
as escolas e as universidades católicas, bem como os centros de
renovação espiritual que hoje se vão espalhando cada
vez mais. Como realçaram os Padres sinodais, no actual contexto
social e histórico, marcado por uma profunda transformação
cultural, já não basta a participação - sem
dúvida, sempre necessária e insubstituível - dos
pais cristãos na vida da escola; é preciso preparar fiéis
leigos que se dediquem à acção educativa como a uma
verdadeira e própria missão eclesial; é preciso formar
e desenvolver " comunidades educativas ", constituídas
por pais, professores, sacerdotes, religiosos e religiosas e representantes
dos jovens. E, para que a escola possa desempenhar dignamente a sua função
formativa, os fiéis leigos devem sentir-se empenhados em exigir
de todos e em promover para todos uma verdadeira liberdade de educação,
também mediante uma oportuna legislação civil.(220)
Os Padres sinodais tiveram palavras de estima e de encorajamento para
com todos os fiéis leigos, homens e mulheres, que com espírito
cívico e cristão desenvolvem uma acção educativa
na escola e nos institutos de formação. Realçaram,
além disso, a necessidade urgente de que os fiéis leigos,
mestres e professores nas várias escolas, católicas ou não,
sejam verdadeiras testemunhas do Evangelho, com o exemplo da vida, a competência
e a rectidão profissional, a inspiração cristã
do ensino, salvaguardada sempre - como é evidente - a autonomia
das várias ciências e disciplinas. É de singular importancia
que a investigação científica e técnica, levada
a cabo pelos fiéis leigos, seja orientada pelo critério
do serviço ao homem na totalidade dos seus valores e das suas exigências:
a esses fiéis leigos a Igreja confia a missão de tornar
a todos mais compreensível a íntima relação
entre fé e ciência, entre Evangelho e cultura humana.(221)
" Este Sínodo - lemos numa proposição - apela
para o papel profético das escolas e das universidades católicas
e louva a dedicação dos mestres e dos docentes, hoje na
grande maioria leigos, para que nos institutos de educação
católica possam formar homens e mulheres que sejam encarnação
do "mandamento novo". A presença simultânea de
sacerdotes e leigos, e também de religiosos e religiosas, dá
aos alunos uma imagem viva da Igreja e torna mais fácil o conhecimento
das suas riquezas (cf. Congregação da Educação
Católica, O leigo educador, testemunha da fé na escola)
".(222)
Também os grupos, as associações e os movimentos
têm o seu lugar na formação dos fiéis leigos:
têm, com efeito, a possibilidade, cada qual pelos próprios
métodos, de oferecer uma formação profundamente inserida
na própria experiência de vida apostólica, bem como
a oportunidade de integrar, concretizar e especificar a formação
que os seus adeptos recebem de outras pessoas e comunidades.
A formação reciprocamente recebida e dada por todos
63. A formação não é o privilégio de
uns poucos, mas sim um direito e um dever para todos. Os Padres sinodais
disseram a propósito: " Ofereça-se a todos a possibilidade
da formação, sobretudo aos pobres, que podem ser, também
eles, fonte de formação para todos ", e acrescentaram:
" Para a formação, usem-se meios aptos que ajudem cada
um a realizar a plena vocação humana e cristã ".(223)
Em vista de uma pastoral verdadeiramente incisiva e eficaz, deverá
fomentar-se, mesmo com a organização de cursos oportunos
ou escolas específicas, a formação dos formadores.
Formar aqueles que, por sua vez, deverão ocupar-se da formação
dos fiéis leigos, constitui uma exigência primária
para assegurar a formação geral e capilar de todos os fiéis
leigos.
Na acção formativa, particular atenção deverá
dar-se à cultura local, segundo explícito convite dos Padres
sinodais: " A formação dos cristãos terá
na máxima conta a cultura humana do lugar, a qual contribui para
a própria formação e ajudará a avaliar tanto
o valor inerente à cultura tradicional, como o proposto pela moderna.
Dê-se a devida atenção também às várias
culturas que possam coexistir num mesmo povo e numa mesma nação.
A Igreja, Mãe e Mestra dos povos, onde for caso disso, esforçar-se-á
por salvar a cultura das minorias que vivem nas grandes nações
".(224)
Na acção formativa, certas convicções tornam-se
particularmente necessárias e fecundas. Antes de mais, a convicção
de que não se dá formação verdadeira e eficaz
se cada qual não assumir e não desenvolver por si mesmo
a responsabilidade da formação, pois, esta configura-se
essencialmente como " auto-formação ".
A convicção, além disso, de que cada um de nós
é o termo e, simultaneamente, o princípio da formação:
quanto mais somos formados, mais sentimos a exigência de continuar
a melhorar a formação; assim como, quanto mais somos formados,
mais nos tornamos capazes de formar os outros.
De singular importância é a consciência de que a acção
formativa, ao recorrer com inteligência aos meios e aos métodos
das ciências humanas, é tanto mais eficaz quanto mais for
aberta à acção de Deus: só a vide que não
tem medo de se deixar podar pelo agricultor é que dá mais
fruto para si e para os outros.
Apelo e oração
64. Ao concluir este documento pós-sinodal, lanço, uma vez
mais, o convite do " proprietário ", de que nos fala
o Evangelho: Ide vós também para a minha vinha. Pode dizer-se
que o significado do Sínodo sobre a vocação e a missão
dos leigos está mesmo neste apelo que o Senhor Jesus faz a todos,
em especial aos fiéis leigos, homens e mulheres.
Os trabalhos sinodais constituíram para todos os que neles participaram
uma grande experiência espiritual: a de uma Igreja atenta, na luz
e na força do Espírito, em discernir e acolher o renovado
apelo do seu Senhor, no sentido de novamente propor ao mundo de hoje o
mistério da Sua comunhão e o dinamismo da Sua missão
de salvação, em particular, descobrindo o lugar e o papel
específicos dos fiéis leigos. O fruto, portanto, do Sínodo,
que esta Exortação pretende conseguir que seja o mais abundante
possível em todas as Igrejas espalhadas pele mundo, será
dado pela efectiva aceitação que o apelo do Senhor receber
por parte de todo o Povo de Deus e, nele, por parte dos fiéis leigos.
Por isso, dirijo a todos e a cada um, pastores e fiéis, a vivíssima
exortação de que nunca se cansem em manter desperta, antes,
enraízem cada vez mais na mente, no coração e na
vida a consciência eclesial, isto é, a consciência
de serem membros da Igreja de Jesus Cristo, participantes no seu mistério
de comunhão e na sua energia apostólica e missionária.
É de particular importância que todos os cristãos
tenham consciência da dignidade extraordinária que lhes foi
conferida no santo Baptismo: pela graça somos chamados a tornarmo-nos
filhos amados do Pai, membros incorporados em Jesus Cristo e na Sua Igreja,
templos vivos e santos do Espírito. Ouçamos de novo, com
comoção e gratidão, as palavras de João Evangelista:
" Com que amor nos amou o Pai, ao querer que fôssemos chamados
filhos de Deus. E, de facto, somo-lo " (1 Jo 3, 1).
Esta " novidade cristã " dada aos membros da Igreja,
ao constituir para todos a raiz da sua participação no múnus
sacerdotal, profético e real de Cristo e da sua vocação
à santidade no amor, exprime-se e realiza-se nos fiéis leigos
segundo " a índole secular " que lhes é própria
e peculiar.
A consciência eclesial comporta, juntamente com o sentido da comum
dignidade cristã, o sentido de pertencer ao mistério da
Igreja-Comunhão: este é um aspecto fundamental e decisivo
para a vida e para a missão da Igreja. A fervorosa oração
de Jesus na última ceia: " Ut unum sint! " deve tornar-se,
todos os dias, para todos e para cada qual, um exigente programa de vida
e de acção, a que não se pode renunciar.
O sentido vivo da comunhão eclesial, dom do Espirito que pede a
nossa resposta livre, terá como seu fruto precioso a valorização
harmónica na Igreja " una e católica " da rica
variedade das vocações e condições de vida,
dos carismas, dos ministérios e das tarefas e responsabilidades,
como também uma mais convicta e decidida colaboração
dos grupos, associações e movimentos de fiéis leigos
no cumprimento solidário da comum missão salvífica
da própria Igreja. Esta comunhão é já, em
si mesma, o primeiro grande sentido da presença de Cristo Salvador
no mundo e, ao mesmo tempo, favorece e estimula a directa acção
apostólica e missionária da Igreja.
Às portas do terceiro milénio, toda a Igreja, pastores e
fiéis, deve sentir mais forte a sua responsabilidade em obedecer
à ordem de Cristo: " Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho
a toda a criatura " (Mc 16, 15), renovando o seu impulso missionário.
Uma grande, empenhativa e magnifica tarefa é confiada à
Igreja: a de uma nova evangelização, de que o mundo actual
tem tanta necessidade. Os fiéis leigos devem sentir-se parte viva
e responsável desta tarefa, chamados como são a anunciar
e a viver o Evangelho ao serviço dos valores e das exigências
da pessoa e da sociedade.
O Sínodo dos Bispos, celebrado no mês de Outubro, durante
o Ano Mariano, confiou os seus trabalhos, de modo muito especial, à
intercessão de Maria Santíssima, Mãe do Redentor.
Agora, confio a essa mesma intercessão a fecundidade espiritual
dos frutos do Sínodo. A Virgem me dirijo no fim deste documento
pós-sinodal, em união com os Padres e os fiéis leigos
presentes no Sínodo e com todos os outros membros do Povo de Deus.
O apelo torna-se oração:
Ó Virgem santíssima,
Mãe de Cristo e Mãe da Igreja,
com alegria e admiração
nos unimos ao teu Magnificat,
ao teu canto de amor reconhecido.
Contigo damos graças a Deus,
" cuja misericórdia se estende
de geração em geração ",
pela maravilhosa vocação
e pela multiforme missão
dos fiéis leigos,
que Deus chamou pelo seu nome
para viverem em comunhão de amor
e de santidade com Ele
e para estarem fraternamente unidos
na grande família dos filhos de Deus,
enviados a irradiar a luz de Cristo
e a comunicar o fogo do Espírito,
em todo o mundo,
por meio da sua vida evangélica.
Virgem do Magnificat,
enche os seus corações
de gratidão e de entusiasmo
por essa vocação e per essa missão.
Tu que foste,
com humildade e magnanimidade,
" a serva do Senhor ",
dá-nos a tua mesma disponibilidade
para o serviço de Deus
e a salvação do mundo.
Abre os nossos corações
às imensas perspectivas
do Reino de Deus
e do anúncio do Evangelho
a toda a criatura.
No teu coração de mãe
estão presentes os tantos perigos
e os muitos males
que esmagam os homens e as mulheres
do nosso tempo.
Mas, estão presentes também
as tantas iniciativas de bem,
as grandes aspirações aos valores,
os progressos feitos
em dar abundantes frutos de salvação.
Virgem corajosa,
inspira-nos força de ânimo
e confiança em Deus,
para que saibamos vencer
todos os obstáculos que encontramos
no cumprimento da nossa missão.
Ensina-nos a tratar as realidades do mundo
com vivo sentido de responsabilidade cristã
e na alegre esperança
da vinda do Reino de Deus,
dos novos ceús e da nova terra.
Tu que estiveste no Cenáculo
com os Apóstolos em oração,
à espera da vinda do Espírito de Pentecostes,
invoca a Sua renovada efusão
sobre todos os fiéis leigos, homens e mulheres,
para que correspondam plenamente
à sua vocação e missão,
como vides da " verdadeira videira ",
chamados a dar " muito fruto "
para a vida do mundo.
Virgem Mãe,
guia-nos e apoia-nos para vivermos sempre
como autênticos filhos e filhas
da Igreja do teu Filho
e podermos contribuir para a implantação
da civilização da verdade e do amor sobre a terra,
segundo o desejo de Deus
e para a Sua glória.
Amém.
- Dado em Roma, junto de S. Pedro, em 30 de Dezembro, Festa da Sagrada
Família de Jesus, Maria e José, do Ano de 1988, décimo
primeiro do meu Pontificado.
  
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