Correcto!

Aqui sou o conquistador

Sento-me diante desta paisagem, contemplo esta teimosa natureza idêntica a si mesma e indiferente aos homens tão mutáveis. Uma espécie de paz me faz aceitar quem quer que eu seja, como sou, sem mais. Se reflicto, logo as questões voltam a galope, mais assustadas pela sua nenhuma utilidade. Vá lá, digo de mim para mim, vê se te acalmas. Que te importam as diferenças físicas, por vária gente notadas, em relação aos pais que te geraram, ou que só te adoptaram? Que interessam parecenças dessas? Que teus pais fossem morenos, altos, de feições e narizes compridos enquanto tu és louro, entroncado, de olhos claros, curto o nariz, redonda a cara, a boca de carnudos lábios, o de baixo descaído como o de Catarina – que valor terá isso? Com tua avó és vagamente parecido, no feitio complicado, na imaginação que perde o pé à realidade. Mas nem estas poucas semelhanças garantem quaisquer laços de sangue. Ela é sólida, inabalável, ombruda e de altivo porte, mulher-homem, salvo na fragilidade por detrás do olhar. O desdém que mostrava pela gente metia-me tal respeito que, na infância, não conseguia olhá-la de frente. Parece ter tido um carácter oposto ao do marido. Como as razões amorosas não seguem as leis da lógica, viveram um casamento sem história, ou seja, feliz.

Não conheci meu avô, que se chamava João como meu pai. João Correia, para ser mais exacto. Sei que era irreverente e ágil nas piadas, de um humor imparável, sempre disposto a rir e a fazer rir. Deixou uma auréola de pândego e versado em todos os géneros de farras. Ficavam famosas as festas em que ele convidava ou era convidado, a avaliar pelas mitológicas peripécias de que me restam ecos. Num jantar em sua casa, um amigo elogiou-lhe uma vez a gravata de seda às riscas. Logo João se levantou da mesa, foi à cozinha e, cinco ou dez minutos depois, voltou com uma omeleta impecável, tendo dentro a gravata cortada aos bocados.

Suponho que o férreo temperamento da mulher lhe terá acentuado a vocação boémia. Quando ele voltava de madrugada, bem bebido e excessivamente bem-educado, porque o vinho o tornava refinado, Catarina escondia a sua ira por detrás das mansas palavras, nessa manha que as mulheres de árabe ancestralidade usam com suma arte. Ela própria me diria, anos mais tarde, quanto se orgulhava do domínio que exerceu sobre o marido, e me recomendava cautela para que não me acontecesse o mesmo, se caísse na asneira de casar. Expliquei-lhe então que as minhas pulsões não me permitiriam dedicar-me a uma mulher apenas, e nunca em regime exclusivo. Aí recebi o seu beneplácito, com alguns conselhos práticos.

De quem me vinha o gosto pelo risco e pelo desconhecido?

De meu pai?

ou

De meu avô?

 

 

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