Excelente, veja
então:
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Esta avó Catarina viria a ser decisiva na minha vida.
Desde que me disse como nasci, devo tê-la considerado uma deusa tutelar.
Aos quinze anos e nove meses passei a morar em sua casa, o que nos aproximou
cada vez mais. Controladora dos meus prematuros namoros, assim se
indemnizava pelas libertinagens do seu Falecido. Não que o meu aspecto físico
ou a minha índole introvertida me tornassem um símile desse avô semimítico
que só vi em fotografias de família: olhos azul-escuros e vivaços,
estatura meã, o ventre testemunhando os abusos da mesa e do álcool, têmporas
cedo esbranquiçadas, orelhas agigantadas, atentas à música do mundo que
ele tanto amava. No fundo dos seus olhos transparecia uma sombra qualquer,
quem sabe se pressentimento da morte precoce, a onze de junho de mil
novecentos e cinquenta e cinco, dia de S.
Barnabé; ou pena de deixar a vida
que lhe foi generosa e leve. A brincar, ganhava dinheiro e amizades. Uma
vez, subindo de carro a Rua do Carmo, vendeu o seu descapotável a um amigo
que, também de automóvel, descia no outro sentido. O assunto ficou
arrumado em três penadas, sem que nenhum deles se apeasse, com a segurança
que transforma em vencedores aqueles que em si confiam.
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Ao contrário de meu avô, a incerteza é mais forte em
mim. E de boémio pouco tenho. Em comum, só uma ambígua atracção pelo
desconhecido, e o gosto pelo risco. Gosto a que minha mãe também cedeu, ao
fugir de casa com um marinheiro capaz de ser seu pai. Essa traição ao amor
paterno terá levado o coração do meu avô a desfazer-se lentamente, até
parar por desistência. Tinha eu ano e meio quando ele morreu. Recordo
apenas, vagamente, a teimosa tristeza de minha mãe, que passava dias sem
falar, fechada sobre si, mais entregue ao luto que a própria Catarina, a
qual, quando nos visitava, nunca vinha de preto. Assim que a avó chegava, o
mundo mudava de cor. Dormíamos no mesmo quarto ela contava-me histórias,
passeava comigo, punha o meu mimo em dia. Sobretudo procurava convencer-me a
começar a falar. Porque os mutismos de Joana encontraram em mim um zeloso
discípulo: embora desse mostras de entender o que me diziam, eu não
pronunciava nem um som, quanto mais uma palavra. Nas vãs tentativas de
conversar comigo, Catarina recorria à narrativa do meu aparecimento, por
ter esgotado todos os temas. Mas a verdade pode surgir da mentira repetida.
O meu bilhete de identidade marca a data de vinte de janeiro de mil
novecentos e cinquenta e quatro para o meu nascimento, filho de João de
Castro e de Joana Correia de Castro, natural da freguesia de Colares,
concelho de Sintra. Nome completo: Sebastião Correia de Castro. Que nem me
desagrada, porque não soa mal.
A minha história
preferida é:
A do rei D.
Sebastião?
ou
A do meu nascimento?
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