...........................O CORAÇÃO Meus caros Doutorandos: 

Permitam-me, senhores, mudar a seqüência natural deste meu discurso; permitam, caros afilhados, que eu inverta a hierarquia desta minha oração; que eu fale, primeiro, do acessório e só depois do principal; que eu fale, antes, do periférico e só depois do central. Deixem, que antes de falar de vocês, motivo e centro desta reunião, eu fale de mim.

E peço-lhes que entendam que não faço isso só para atender a um cabotinismo grotesco, ou satisfazer um personalismo imodesto. Faço porque gostaria, nesta ultima vez em que lhes falo como a um grupo, antes que vocês se dispersem, antes de formalizar os meus atos e a minha despedida, eu gostaria de lhes dar um testemunho. Testemunho de quem, há 30 anos, num dia de verão como este, perante uma assembléia em tudo semelhante à de hoje, depois de fazer o juramento  milenar que vocês acabaram de fazer, recebeu, das mãos de um Diretor de Faculdade, o diploma que o autorizava a exercer a medicina. E a medicina foi não só exercida, mas vivida em uma plenitude, como clínico e professor, intensamente em largueza e profundidade. E após esses anos, ao fim dessa longa jornada de trabalho e emoções, depois de ter ganho da vida mais do que imaginara ganhar e ter perdido mais que ousara imaginar, eu posso lhes dizer que a medicina é uma profissão que vale a pena ser vivida. Que depois de tanto tempo ela é capaz de despertar o mesmo entusiasmo, o mesmo encantamento dos primeiros anos; o mesmo desafio frente ao mundo imenso de coisas desconhecidas, que cada vez mais se estuda; a mesma excitação quase lúdica na interpretação dos sinais e sinto mas, em sua tradução em termos de dinâmica psicobiológica; o mesmo assombro e humildade frente aos estreitos limites que separam o sofrimento da alegria, a doença da saúde, a vida e a morte.

E lhes digo mais: ser médico não é apenas ter uma profissão. É mais que isso: medicina e uma filosofia de vida, um modo peculiar de ver o homem, uma perspectiva própria do mundo, e, talvez, até mesmo, uma outra visão de Deus.

É verdade que muita coisa mudou nestes 30 anos. A medicina mudou um pouco; mudou muito, no entanto, a sociedade que agora os recebe.

Hoje, vivemos tempos difíceis; tempos de turbulências e inquietude, anos de incerteza e desesperança. Há uma crise maior, planetária, na qual se insere a crise nacional, de tonalidades próprias. E dentro dessa crise geral, há outra, particular, que atinge a medicina como classe e a nós, médicos, como pessoas. Interesses econômicos de grandes grupos, má política administrativa e imprensa sensacionalista, vem desfigurando a imagem do médico, tirando-lhe o caráter de profissional liberal, sujeitando-o a subempregos mal assalariados e responsabilizando-o. Por falhas que não são de ordem médica mas, sim, decorrentes da má estrutura e do mau funcionamento da sociedade em que vivemos.

Medicina é, fundamentalmente, ciência aplicada. É a arte de prevenir doenças, recuperar saúde, promover o bem-estar do homem através de conhecimentos científicos e tecnologia. Mas a medicina não existe por si só, no meio do nada, no vazio. Ela existe em função da sociedade na qual atua e da qual sofre influência. Sendo assim, é natural que só possa ir bem, quando os outros setores responsáveis pelo desenvolvimento desse meio social funcionem ben.

Toda sociedade depende, para seu equilíbrio e desenvolvimento, de 4 sistemas que se superpõem, se entrelaçam e se influenciam mutuamente: o biológico, o político, o econômico e o cultural . Se um desses setores vai mal, os outros sofrem os seus efeitos. Infelizmente, vivemos, e vocês se formam - num tempo - lugar em que são notórios os desacertos políticos, desastrosa a economia e muito pobre o panorama cultural. Face a isso, inevitavelmente, a medicina não pode ir bem. É difícil manter um nível bom, quando as verbas para as escolas são escassas, quando as boas residências são poucas, quando a medicina previdenciária mostra falhas gritantes e se torna massificada, industrializada, despersonalizando o relacionamento médico-paciente, fundamental para o bom exercício da arte médica.

Pode ser fácil tratar uma doença num indivíduo bem alimentado, mas torna-se muito difícil fazê-lo em populações carentes, subnutridas, de pouca cultura e que vivem em ambientes de precárias condições higiênicas; não é difícil prescrever um remédio e pedir ao paciente que o tome `as refeições; mas é extremamente penoso notar que o doente não tem dinheiro para comprar o medicamento e, muitas vezes, não tem nem mesmo as refeições em que tomá-lo. É muito difícil trazer tranqüilidade a homens que não têm emprego ou, se o tem, temem perdê-lo.

O alto custo de vida, o baixo nível salarial, a violência, a descrença nos homens públicos, a incerteza quanto ao dia de amanhã, somam angustias a angustia existencial, própria do ser humano.

São situações anômalas que podem trazer desequilibrio e doença. No entanto, são doenças resultantes da administração política e econômica, do pobre ambiente rural; doenças desencadeadas pelos desacertos de nossa civilização, verdadeiras socioses, contra as quais o médico, sozinho, pouco ou nada pode fazer. Porém, com frequência, as falhas do sistema são atribuídas à medicina.

São tempos difíceis, inquietos, paradoxais. E nós médicos, que participamos dessa sociedade, que vivemos meio social, do qual somos, ao mesmo tempo, espelho e cal deita, sentimos os seus efeitos não apenas no plano profissional, mas também como pessoas. A perspectiva de se fazer medicina liberal, as dificuldades para e aperfeiçoamento, o cansaço resultante do trabalho ativo em subempregos, a impossibilidade de se obterem resultados em uma população intranqüila, de poucos recursos, tem influído no animo dos médicos sendo com que eles duvidem do valor de sua profissão, tirem os méritos de uma medicina que lhes parece irreal, utópica, difícil de ser praticada.

Em medicina, mesmo quando se dispõe de boas condições de trabalho, os resultados obtidos podem não ser bons.Isso é uma condição inerente à medicina, que é uma ciência em evolução e não oferece resposta a todas as questões, e mostra-se incompetente para resolver a grande maioria dos problemas que afligem o homem. É ciência viva em que os conceitos a respeito das doenças mudam com freqüência, em que as drogas e procedimentos terapêuticos aparecem e somem rapidamente, sem deixar saldo positivo, e são substituídos por outros que, após algum tempo, podem ter o mesmo destino dos que os precederam. Diariamente somos atropelados por uma avalanche de informações cientificas, nem sempre isentas de interesse econômico ou promocional, por um sem número de drogas que não apresentam nada de vantajoso ou mesmo de novidade. Todo dia aparecem fatos novos que amanhã já se mostram ultrapassados, de nenhum valor. Isso cria no médico, especialmente no recém-formado, uma certa confusão e desconfiança do valor da medicina. Na medicina, entretanto, existem 2 tipos de verdade: uma, transitória, muitas vezes fugaz e que diz respeito a medicina como ciência.

A cultura médica, vasta e admirável, é feita de conhecimentos incompletos e verdades fragmentárias que a cada dia que passa se modificam, se aclaram, se aprimoram. Por isso, embora tenha fé no que sei e acredite fazer hoje o melhor que posso, tenho consciência de que isso não é tudo: sou presa da obsessão da dúvida e me anima sempre a esperança de que amanhã vou saber mais e terei mais o que oferecer aos meus pacientes. E essa visão é fundamental porque em medicina, e na própria vida, a esperança, seja mais importante que a fé.

Mas há outra verdade que é permanente e se mostra a mesma em todos os tempos e lugares em que a medicina tem sido exercida. É a medicina como arte. O dom que o médico tem de perceber, falar, agir e transformar em bem-estar para seu semelhante, aquilo que aprendeu como ciência e técnica. É misturar o frio conhecimento científico à boa dose de emoção, amor, habilidade e fazer com que se possa, mesmo quando não há cura, trazer um pouco de paz e conforto àqueles que em nos confiaram e faze-los sentir, fraternalmente, que não estão sós em seu sofrimento.

O que marca e destaca uma civilização não é a sua ciência mas, sim, a sua arte . Com o médico, o mesmo acontece. O que o qualifica e distingue não é o grau de sua ciência mas sim, a sua arte. E esta se mostra imutável. Hoje, como antigamente, as qualidades fundamenteis para exercer a medicina são es mesmas: disposição para o trabalho e estudo, bom senso, sensibilidade e compaixão pelo sofrimento do próximo.

O homem, com sua inteligência e inventividade, criou condições para fazer um mundo tranqüilo, bonito, feliz. A produção de alimentos é suficiente para todos; engenhosidade industrial é capaz de proporcionar conforto e lazer com menos trabalho; a medicina e a higiene têm condições para tornar o homem mais saudável e reduzir os seus males. As distâncias foram vencidas, a comunicação é instantânea. Há cultura, música, poesia, toda ume arte capaz de encantar o espírito, fazê-lo vibrar e entrar em consonância com a grande alma comum do universo. Mas, na realidade, a história. não corre assim. "A cobiça envenenou e alma do homem ... levantou no mundo e muralha do ódio. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e ternura ".

O mundo atual se mostra intranqüilo, amedrontado, cheio de homens cansados, insatisfeitos, que morrem ou se mutilam em acidentes de trânsito e que se agridem mutuamente; homens tomados pela neurose, pela hipertensão, por doenças cardiovasculares, doenças e situações geradas pelo desenvolvimento, pelo chamado progresso dessa mescla civilização. Mundo incoerente em que a palavra tem sentido ambíguo, em que se fala incessantemente de paz e se pratica guerra com uma brutalidade e extensão nunca vistas; mundo em que se prega a fraternidade e a tônica do comportamento social é o egoísmo; sociedade que gira em torno do eu, quando deveria fazê-lo em torno do nós.

A história do homem tem sido uma seqüência de atos de ambição, egoísmo e insensatez, tem sido um pesadelo do qual queremos mas não pudemos, ainda, acordar.

É verdade que são as idéias que fazem o progresso do mundo, mas a condição de bem-estar e felicidade dependem mais da esfera afetiva que da intelectual.

O homem dominou bem a ciência das coisas, mas se mostra atrasado em relação às suas emoções e ao seu comportamento. Há uma brecha enorme, um vazio, que cada vez mais se amplia, entre o mundo intelectual e o sensitivo, e que o homem até agora não soube, preencher. A sociedade criada pela inteligência é artificial e não satisfaz as necessidades mais profundas de sua alma afetiva. A medida que o progresso avança, a vida vai se tornando cada vez mais complexa e difícil de ser vivida.

Júlio Cortazar compara a vida ao jogo da amarelinha. Jogo em que nos mesmos estabelecemos as regras, fazemos as riscas no chão, escolhemos, jogamos a malha e vamos saltando, ora de um jeito, ora de outro, até alcançarmos o céu, o que significa vencer. Mas nós, homens, fizemos as regras ficarem tão complicadas, tornamos o jogo tão difícil, que quando se consegue aprender a jogá-lo e se está- em condições de fazê-lo com facilidade, o esforço despendido foi tão grande, o homem se encontra de tal modo esgotado, que o jogo não mais lhe desperta interesse e jogar não lhe causa prazer.

Há na Tanzânia, na África Orienta1, uma lenda curiosa a respeito do monte Kilimanjaro. O Kilimanjaro é uma montanha imensa, com quase 6.000 metros de a1tura, o topo eternamente gelado, e que, por causa de suas encostas escarpadas, de seu tamanho, do clima inóspito da região, se torna quase inacessível. Diz a lenda, que no a1to do Kilimanjaro havia um tesouro fabuloso, capaz de trazer a felicidade para quem o conseguisse. Muitos e muitos aventureiros se lançaram a sua conquista mas, ou desistiram ou se perderam durante a escalada, sem nunca terem conseguido vencer o seu desafio. Alguém, movido por essa mesma ambição, trabalhou arduamente, de modo paciente e obstinado durante longos anos; gastou a juventude e grande parte da vida em preparativos e lançou-se à caminhada, em busca do tão cobiçado tesouro. Enfrentou o frio e o vento; pairou perigosamente sobre abismos imensos; sentiu a morte brotar do fundo de precipícios; viu homens que perderam a razão durante a caminhada, vagarem sem rumo, como sombras, pela vastidão da montanha. Teve medo e cansaço mas, com obstinação e esforço inauditos, conseguiu chegar ao topo da montanha.. E ao atingi-lo, para sua surpresa e decepção, nada ali encontrou que valesse a pena. No tão sonhado topo do Kilimanjaro havia apenas solidão, o vento, o frio e a carcaça enregelada de um tigre.

Essas duas histórias querem mostrar que não faz sentido alguém passar a mocidade e boa parte de vida em preocupações e trabalhos excessivos, esperando atingir, mais tarde, um lugar de destaque, segurança econômica e social, para então viver e ser feliz; querem mostrar que a vida deve ser vivida à medida que ela se apresenta, e que é insensato ficar à espera de um tempo-espaço futuro para, então se realizarem os sonhos. Mais importante que alcançar uma . posição, é a maneira como se vive, como se percorre a estrada;. o que importa é o caminho e não a chegada ." Viver não é preparar-se para viver" , "porque aprender a viver é o viver mesmo". É tirar alegria do cotidiano e descobrir beleza no dia-a-dia; e viver o momento que passa, sem pressa, sucesso, sem fim; e partilhar com o amigo a hora presente e não depender do futuro para ser feliz. É ter o bom senso para perceber que na vida, as coisas aparentemente sem importância são aquelas que de fato importam. É saber caminhar, ver a paisagem, recolocar uma pedra para, tornar mais fácil a passagem dos que vêm depois; é sentir a brisa, ouvir o pássaro, notar a flor e, se tiver vontade de oferecê-la a uma pessoa querida, que o faça, de preferencia, sem a colher. É viver bem o momento presente e sentir que esse momento é eterno, pois traz em si o que vem e o que passou. E viver bem não é necessariamente morar no bairro mais elegante da cidade, ter 4 carros na garagem, gozar prestígio social ou ser expoente em sua profissão. Viver bem não significa exatamente ter sucesso, na acepção que a sociedade confere a essa termo.

A vida pode ser bem mais simples e mais gostosa de ser vivida, quando se consegue escapar ao ritmo alucinante e aos padrões duvidosos que o mundo atual nos apresenta; quando se tem uma profissão e se a exerce de modo competente e responsável; quando se consegue ficar coerente consigo mesmo e se desenvolve de maneira harmônica os 3 estratos que compõem a personalidade do homem: o orgânico , o psíquico e o espiritual; quando se consegue ajustar os frutos da inteligência aos anseios da alma afetiva, alma que os antigos chamaram de pneuma e diziam nascer do coração. E uma vez atingido o equilíbrio somato-psico-pneumático o homem será capaz de entrar em comunhão com o que o ambiente que o cerca e, desse modo, estará em condições de preencher a brecha que se criou entre as maravilhas do cérebro e belezas do coração.

Quem passa a vida em trabalhos e preocupações excessivos esperando hora e lugar para viver e ser feliz, corre o risco de, no momento em que atingir essa posição, no momento em que chegar ao topo do seu Kilimanjaro, nada ali encontrar, além do cansaço, o vento, o frio ou o esqueleto de um tigre.

Há um grupo de pessoas nesta assembléia, além de vocês, caros doutorandos, que merece a nossa homenagem. São os seus pais. Pelo esforço despendido, pelas preocupações, pelo desvelo com que acompanharam todos os seus passos, a nossa homenagem e admiração.

E eu gostaria de lhes dizer que partilho com eles a esperança de que sejam realizados os seus sonhos. Não necessariamente todos eles, pois, em geral, os sonhos sonhados pelos pais para os seus filhos são muitíssimo maiores que as suas necessidades. Mas que se realizem aqueles, suficientes para torná-los felizes e que a medicina lhes dê, pelo menos, aquilo que de bom ela me deu. E eu gostaria de dizer, também, neste momento, que sinto pena, amorosamente eu sinto pena daqueles pais que sonharam esses mesmos sonhos mas não viveram o bastante para ver este momento.

Por último, eu quero agradecer.

Terem me escolhido para paraninfo, me trouxe uma grande alegria. Para os que envelhecem, o contato com gente moça é vitalizante. Conhecê-los, conviver com vocês, foi muito gostoso. É uma convivência que renova idéias, atualiza vocabulário e serve de feedback para o que se faz; é um estímulo para o estudo, trabalho e é, até mesmo, motivação de vida. Se esta homenagem que vocês me prestam tem algum sentido de retribuição, ela foi desnecessária pois o que vocês me deram, o bem e a alegria que na convivência com vocês me proporcionou foi muito maior do que as poucas lições de clinica que eu lhes dei. Por tudo isto, obrigado pela homenagem, pelo estímulo, pela convivência e, em especial, obrigado, muito obrigado pelo amor de vocês.

fim

PROF. DR. HUDSON HUBNER FRANÇA

SOROCABA, 14 de dezembro de 1984

 

Copyright  XXIXª TURMA

1998-1999, Brazil 

Todos direitos reservados  

Inicio Integrantes Homenageados Histórico Showmed Intermed  CAVB
Formatura Fotos Comentários Bandeira Repúblicas Notícias links médicos E-mail
Hosted by www.Geocities.ws

1