Boa parte dos profissionais abana de horror quando ouve falar de expressões como "ciberjornalismo", "jornalismo digital", "pesquisa on-line" ou "reportagem assistida por computador". Imaginam logo cenas lancinantes saídas do "Aliens". Recordam algumas passagens vertiginosas do velhinho "1984", de Orwell. Ou pintam terroristas armados até aos dentes com «ratos» de computador.
A desconfiança em relação ao mundo digital emergente é muito grande. O desconhecimento é ainda maior, originando equívocos de toda a ordem. Aqueles que se têm em boa conta como intelectuais puros e duros soltam importâncias do género: "Não me diga que você também alinha nessas coisas?..."
Sempre que novas tecnologias se começam a impor massiva e globalmente, o tique é sempre o mesmo: desdenhar o mais possível. Veja-se o simples caso do telemóvel. Primeiro era para os ricos. Depois passou para a algibeira dos parolos. Agora é barato e de toda a gente e já não se fala mais nisso. Enfim...
A Internet, nomeadamente em Portugal, é estranhada da mesma maneira, apesar de ter já levado à criação de novos postos de trabalho, em particular para gente acabada de sair das universidades. Agora são precisos programadores,desenhadores, engenheiros e, claro, jornalistas preparados para trabalhar nesta rede de redes de computadores planetária, vista como precursora da chamada "auto-estrada da informação".
No caso particular do jornalismo, a Internet originou também movimento nas empresas do ramo. Em 1995, alguns jornais, revistas e rádios acordaram para as potencialidades da rede. Entre elas, a rapidez e flexibilidade na distribuição da informação. Certas empresas preferiram trabalhar em conjunto com organizações exteriores. Outras optaram por um esquema misto. O certo é que, nalguns casos, jornalistas foram chamados a lidar directamente com a Net e a trabalhar a partir dela. Assim nasceu o "jornalista da Web", como dizem os norte-americanos.
No entanto, neste capítulo, tudo tem andado à típica velocidade lusitana. Ou seja, devagar, já que o país é pequenino e o mercado pior ainda. A imaginação também não abunda, diga-se de passagem.
Aqui ao lado, "nuestros hermanos" navegam com outro "gás". Têm bons jornais digitais e professores universitários que publicam livros inteiros dedicados ao jornalismo electrónico. Se saltarmos para a Grã-Bretanha, melhor ainda. Mas o Velho Continente parece uma tartaruga dos Galápagos quando comparado com as lebres do Tio Sam. Mais ainda se tivermos em conta a produção de reflexão sobre esta nova vertente do jornalismo.
Em finais de 1995, mais de 400 jornalistas reuniram-se em Santa Clara, na Califórnia, para discutirem o futuro da sua profissão, conhecerem o que é isso de reportagem assistida por computador e esclarecerem-se quanto ao fenómeno Internet. Iniciativas do género tinham sido levadas a cabo anteriormente, um pouco por todo o país. "O que é um dado revelador das mudanças em curso, deixando entrever uma reconfiguração da prática jornalística tal como ela tem sido até agora vivida", escreveu, a propósito, Rui Trindade, no semanário Expresso.
De então para cá, muitos foram os artigos publicados, os debates realizados, as conferências produzidas sobre a matéria. Já deu para perceber que o jornalismo digital não é uma moda. É um passo em frente, goste-se ou não de novas tecnologias.
A propósito, vem aí mais uma conferência especial para "jornalistas da Web", integrada na "Interactive Newspapers 97". Está marcada para o próximo dia 15, num hotel de Houston, no Texas.
Especialistas norte-americanos, australianos, britânicos e outros vão abordar temas como "Ética
jornalística na Web", "Demografia interactiva","Standards e tecnologias da Web", "Criando
conteúdo atraente on-line","Usando a tecnologia como ferramenta da redacção" e "Legislação on-
line". Assustador, não é?