Podem os computadores ligados a redes ajudar os jornalistas a fazerem melhor as suas reportagens? Podem, sim senhor. Agora, a telemática só por si não opera milagres. Não basta carregar em botões e esperar que a papa apareça toda feita.
Até à popularização da Internet em Portugal não fazia grande sentido falar em reportagem assistida por computador. Hoje, a possibilidade de se consultar, à distância de cidades, países e continentes, bancos de dados enormes, bibliotecas inteiras e mesmo especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento torna actual esta disciplina, para a qual os anglo-saxões já arranjaram uma sigla: CAR (Computer-Assisted Reporting).
A reportagem assistida por computador consiste no uso de computadores para a recolha de informações destinadas à elaboração das notícias. Ora, isto só é possível se o jornalista deixar de encarar o seu PC de trabalho como uma mera máquina de escrever sofisticada.
Mas é igualmente necessário que as empresas, para além de equiparem as redacções com material adequado, se empenhem em preparar os seus profissionais para o manejo de terminais ligados a redes como, por exemplo, a Internet.
Vencidas estas barreiras, que já não são poucas, estarão criadas as condições para uma melhoria dos produtos jornalísticos oferecidos aos leitores, ouvintes e telespectadores. Porque, se for bem utilizada, a informação recolhida «on-line» pode servir para enriquecer as notícias, os artigos de opinião e mesmo as reportagens.
«Muita, se não a maior parte, da reportagem depende no conhecimento e uso dos computadores. Saber como ter acesso e como utilizar bases de dados é essencial para os jornalistas do futuro», diz o professor da Universidade de Miami Bruce Garrison, autor de um livro sobre este assunto, intitulado «Computer-Assisted Reporting».
Os mais cépticos podem agora argumentar: isto é muito bonito, mas onde vão os jornalistas portugueses buscar dados e documentação de interesse, nomeadamente a organismos públicos nacionais? De facto, esta é uma das maiores barreiras que se colocam actualmente.
Quase toda a administração pública portuguesa tem pânico de tudo o que cheire a sistemas abertos e partilha de informação. E vai ser assim, infelizmente, por muitos e bons anos. Mas era bom que se começasse a fazer um esforço no sentido oposto, por parte de ministérios, direcções-gerais, institutos, câmaras e outros organismos públicos.
Nos Estados Unidos, e apesar de certas falhas, a sociedade tem sido inundada por uma torrente de arquivos públicos e privados, com o devido tratamento informático. Bases de dados sobre todos os aspectos ligados à vida dos cidadãos são diariamente compilados e postos à disposição de todos. Entre eles, os jornalistas.
Estes profissionais não se têm feito rogados. Recorrendo a computadores ligados a redes, conseguem dados que seria mais difícil ou impossível obter de outro modo. Foi o caso de um repórter de Atlanta que, em 1989, ganhou o prémio Pulitzer, o mais alto galardão do jornalismo norte-americano, por uma série de artigos de fundo nos quais denunciava atitudes racistas de bancos no empréstimo de dinheiro a negros. Bill Dedman contagiou colegas de profissão. Nos anos seguintes, houve mais Pulitzer para reportagens assistidas por computador.
Apesar disso, o número de profissionais aptos a trabalharem com estas ferramentas electrónicas continua a ser baixo. O principal problema, se excluírmos os irremediáveis alérgicos aos bits, é a falta de treino profissional. E quem não treina não ganha.