Os novos jornalistas

Hélder Bastos, JN, 16 de Junho, 1996
Até há bem pouco tempo, os jovens saídos das escolas de jornalismo não tinham de fazer grandes contas à vida. Iam para um jornal, uma rádio, uma televisão. Só que agora vêem ganhar terreno uma área que baralha as velhas fronteiras do jornalismo: os empregos multimedia.

Qualquer pessoa faz uma ideia mínima do tipo de trabalho levado a cabo por jornalistas na redacção de um diário ou de uma estação de TV. Já se tornará mais complicado imaginar as tarefas de profissionais cujo principal instrumento de trabalho é um computador, capaz de processar quantidades gigantescas de texto, fotografia, vídeo e som, ligado a milhões de outros terminais espalhados pelo planeta Terra.

Os já chamados ciberjornalistas ou jornalistas multimedia, conforme as preferências, estão a implantar-se fortemente em países como os Estados Unidos, cuja aposta neste sector faz o Velho Continente parecer uma múmia paralítica.

Em parte, é o resultado de investimentos significativos feitos pelas empresas jornalísticas em novos suportes, como é o caso da rede Internet.

Jornais, revistas, rádios e televisões lançaram-se de cabeça nas edições «on line» dos seus produtos principais, ultrapassando, deste modo, as fronteiras físicas dos seus próprios países. Para isso precisaram de recrutar jornalistas aptos a trabalharem no ciberespaço. O palavrão designa, grosso modo, o espaço virtual que está para além de cada terminal de computador.

O salto implicou também um afastamento de certas concepções ligadas ao jornalismo tradicional: «A mudança significou um abandono da tradição, uma nova maneira de pensar e de editar, incluindo a incorporação de audio e vídeo nas peças», explicou, à American Journalism Review, um dos editores da revista electrónica HotWired. Pete Danko leva tão a sério o ciberjornalismo que tem um autocolante na sua secretária com a seguinte frase: «Já não estamos mais no mundo dos jornais».

Uma diferença básica entre as redacções tradicionais e uma redacção como a da HotWired reside no facto de os jornalistas desta revista, especializada em temas relacionados com a Internet, nunca saírem em serviço de reportagem, como se diz na gíria jornalística. Isto acontece porque toda a recolha de informações é feita na própria rede (mais de 30 milhões de utilizadores, em mais de 150 países, etc.), onde desembocam, diariamente, milhões de novos documentos.

Saber onde estão determinados dados sobre este ou aquele assunto, confirmar a sua veracidade e depois escolher entre milhares de ficheiros diponíveis aqueles que mais interessam são um quebra-cabeças diário para os ciberjornalistas. O excesso de informação pode parecer uma tremenda lotaria. Mas também pode transformar-se num pesadelo de complicada digestão.

O jornalismo multimedia, por outro lado, exige das empresas jornalísticas uma postura diferente relativamente ao aspecto da contratação.

A um candidato ao lugar de redactor num jornal electrónico, por exemplo, exige-se, no mínimo, que indique no currículo o endereço da sua página pessoal (Home Page) na Internet, que possua mais massa cinzenta do que meras capacidades técnicas, que tenha capacidade imaginativa suficiente para explorar todas as possibilidades oferecidas pela conjugação do texto, imagem, fotos, gráficos, sons e vídeo.

Mais: mesmo a candidatos a jornalistas «tradicionais» em redacções «tradicionais» começa a ser exigido o domínio do trabalho em redes de computadores.

Há alguns anos, ninguém se imaginava jornalista sem a sua querida «azert» ou «hcesar» à mão de matraquear. Hoje, não há notícias sem computadores. Amanhã dificilmente alguém poderá arriscar-se a trabalhar sem rede. 1

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