B U R E A U    D O S   S E G R E D O S   P Ú B L I C O S

 

 

 

 

Comunalismo

Das Origens ao Século XX

 

4. Eckhart, Irmãos do Espírito Livre

5. João Wycliffe, A Rebelião dos Camponeses na Inglaterra

6. Hus, As Guerras Hussitas, Tabor

 

4. Eckhart, Irmãos do Espírito Livre

São Francisco não é apenas o mais atraente de todos os santos cristãos, ele é o cristão mais atraente, admirado pelos budistas, ateus, pessoas completamente seculares, modernas, comunistas, para quem a figura do próprio Cristo é menos atrativa. Em parte devido à sentimentalização de sua lenda viva e de seus companheiros nos primeiros dias da ordem. Muitas pessoas hoje que colocam sua imagem no jardim não sabem coisa alguma dele exceto que fez uma oração aos pássaros, escreveu um hino ao sol, e chamava o burro de irmão. Estas pequenas informações são importantes porque são sinais de uma sensibilidade revolucionária — incidentalmente, uma revolução metafísica da qual certamente o próprio São Francisco não tinha consciência. Tratava-se de uma noção de realização completa tanto no aspecto místico como emocional, uma noção exterior, um fato antagônico à principal tradição judaico-cristã.

“Eu sou o que sou” — o Deus do judaísmo é o único ser auto-suficiente. Toda a realidade que podemos saber é contingente, criada a partir do nada, e consequentemente, uma categoria inferior de realidade. Diante do "completo outro", a alma contingente pode, no final das contas, apenas reagir com medo e tremor.

Se Deus é imanente no mundo e se a insondável Trindade teve sua Segunda Pessoa tornada um camarada humano, o mundo está carregado por e com alegria. “And honde by honde then shulle us take / And joy and bliss shulle we mak / For the Devil of Hell man haght forsak / And Christ Our Lord is made our mate” como diz o poema medieval inglês escrito por um franciscano anônimo. Não se trata de uma questão de doutrina. Os filósofos alexandrinos e escolásticos da Igreja tinham desenvolvido uma concepção sensata de deidade para o mundo. Trata-se de uma questão de sensibilidade religiosa.

Muitos outros antes dele reivindicavam um retorno à vida do Jesus histórico e de seus companheiros, mas ninguém antes de São Francisco pregara aquela vida, tanto a vida de Cristo como o Cristo em vida, carregado de uma intensa e permanente alegria. No final de sua vida, São Francisco, extasiado em oração, teria suas mãos, pés e dorso marcados por estigmas, como feridas da crucificação, em uma transposição de pura alegria.

Seja como filósofo ou como pregador, São Francisco simplesmente ensinou as virtudes de uma vida renovada, ele teria sido apenas mais um entre muitos, e suas palavras teriam sido objeto de controvérsias, modificação, ou negação. Mas ele viveu uma vida nova, mais intensamente que qualquer outro e sempre com uma manifesta alegria, e ele juntou um bando de companheiros que também compartilharam e manifestaram aquela vida.

Parece que foi um completo acidente sua aceitação por parte da Igreja, e a permissão papal para a fundação de sua ordem. Houve outros pequenos bandos de homens pobres tentando viver a vida dos evangelhos naqueles mesmos anos, mas foram condenados. Se Pedro Waldo tivesse a sorte de encontrar funcionários mais simpáticos na hierarquia da Igreja ele poderia ocupar o lugar de São Francisco. Certamente, sua mensagem original tinha muito mais consistência.

A Igreja permitiu o estabelecimento da ordem franciscana porque satisfazia uma necessidade imediata. Os movimentos heréticos pululavam por toda parte por volta do final do século XII; e a velha organização monástica, embora sofrendo drásticas reformas, não pôde satisfazer as necessidades das quais estes movimentos eram um sintoma. O monasticismo beneditino havia não apenas se tornado rico como seus abades que participavam da estrutura do poder, mas seu relacionamento com a sociedade se invertera, tornara-se centrípeto. O mundo secular existia para eles, não eles para o mundo. O franciscanismo era dinamicamente centrífugo, como se diz na gíria contemporânea, estava contra a corrente, o mesmo curso tomado pelo próprio Evangelho.

O centro do evangelismo de São Francisco foi sua noção de pobreza como uma virtude. Ele começou sua carreira religiosa doando literalmente tudo que possuía, cobrindo-se com uma túnica rota, e pregando aos pobres. Tal pobreza assumira a forma de uma penitência ascética como o jejum, um disciplinador da alma. Para o ermitão no deserto a questão da pobreza era dolorosa. Para São Francisco ela era um estilo de vida feliz.

Para São Boaventura, o primeiro grande teólogo e filósofo franciscano, a virtude da pobreza era secundária, mas um meio à virtude primária da caridade. Para São Francisco a pobreza era a condição da perfeição interior. Era pelo copo transparente, puro, desembaçado das distrações da propriedade, que a alma poderia ver Deus, não como um vulto, mas cara-a-cara. No grande mural de Giotto, São Francisco casa-se com a Pobreza, a serva de Deus. A Virgem Maria era a serva de Deus. O misticismo de São Francisco e posteriormente a pobreza dos espiritualistas franciscanos assumiram o significado de uma perfeita receptividade da alma a Deus.

Trata-se de um evangelho purulento que, ensinado aos pobres, não faz outra coisa senão torná-los satisfeitos com sua condição. Tanto o Estado como a Igreja ostentavam uma insaciável opulência e luxúria — possível apenas, naturalmente, pelo trabalho dos pobres. Embora o cristianismo de São Francisco possa ser chamado de cristianismo imediato, sem escatologia, sem apocalipse, tal cristianismo na realidade interioriza a escatologia dos Evangelhos. As últimas coisas representavam a relação imediata do homem com o homem e do homem com Deus. Assim, do ponto de vista lógico, os ouvintes de São Francisco poderiam tomar uma simples, embora delicada conclusão. Se houvesse uma sobra econômica, essa sobra econômica pertenceria aos pobres. Essa unidade em torno da alegria da revelação possibilitou uma unidade em virtude da pobreza realçada na comunidade, resolvendo trezentos anos de movimentos heréticos.

Quando São Francisco fundou sua ordem ele visava formar um pequeno grupo de camaradas totalmente dedicados, um grupo pequeno o bastante para uma comunhão perfeita, base de acordo, e objetivos comuns. Tratava-se apenas de doze irmãos quando o Papa Inocêncio III aprovou a ordem e seus primeiros regulamentos em 1209. Dez anos depois esparramou-se por toda a Europa e pela Terra Santa. O conjunto integral não mais se restringia na minúscula Igreja da Portiúncula de Assis, mas estava representado por delegados, funcionários administrativos centrais, e autoridades provincianas. Mas o evangelho original de São Francisco era incompatível com delegação de autoridade e mesmo antes da morte do fundador, poderosas facções passaram a defender alterações nos princípios originais. A Ordem dos Frades Menores foi a própria repetição da história do cristianismo.

Um dos clichês da classe política e dos executivos estadunidenses é “eu apenas modelo minha vida pelo Sermão do Monte”, algo que eles obviamente jamais leram. O Sermão do Monte e a evangelização original de São Francisco representam uma eterialização, uma interiorização apocalíptica, uma escatologia ética. Foi qualificada como uma impossibilidade ética, e com razão, no sentido de que nenhuma ordem social inventada por uma organização religiosa ou política poderia vingar se fosse colocada em prática.

São Francisco estava atento com as coisas que estavam acontecendo e quando ele estava à morte escreveu um testamento insistindo na preservação literal dos princípios e teses originais e proibindo qualquer iniciativa papal para alterá-los. Mas a ordem abandonara o companheirismo da pobreza com a alegria, a comunhão, e tornara-se uma instituição, esparramando-se até os mais distantes rincões do mundo Ocidental, transformando-se num dos principais bastiães do papado e da estrutura de poder da Igreja. Logo após sua morte a ordem apelou ao papa, seu testamento foi esquecido e a pobreza foi definida em termos puramente simbólicos, legalistas. A ordem permitiu o uso da propriedade pelos fiduciários escolhidos pelo papa. Foi o início de uma luta que durou por duas gerações dentro da ordem, e que depois continuou fora dela, e finalmente fora da Igreja, para restaurar a vida original da pobreza mística.

A facção que queria restabelecer a obediência aos princípios originais e ao testamento de São Francisco foram conhecidos como zelotes ou espirituais. Provavelmente eles nunca representaram mais do que uma minúscula parcela da ordem. Tanto a maioria moderada, como as agremiações, e a facção originalmente conduzida por Elias de Cortona, pretendiam transformar a ordem em uma instituição monástica como qualquer outra, com graduações, poder, e grandes propriedades. Essa luta só teve um desfecho quando João XXII estabeleceu o acompanhamento de observadores, o que permitiu a prática de uma pobreza mascarada por uma [eventual] escassa utilização da propriedade. Enquanto isso muitos dos espirituais aprofundaram ainda mais seu antagonismo como o corpo principal da ordem, até que finalmente romperam em um novo movimento, o fraticelli, que acabou condenado como herege.

Sem conseguir tornar-se maioria na ordem, os espirituais logo começaram a atrair os laicos, passando a formar grupos de terceiro escalão que se subordinariam somente a eles. A influencia popular dos espirituais expandiu-se para dentro dos conventos tornando-se cada vez mais mundano e finalmente corrupto. Antes de Chaucer a ordem dos Frades Menores já tinha a fama de corrupta, por não praticarem aquilo que publicamente prometiam, tornando-se um alvo preferido à sátira. Os seguidores seculares dos espirituais aparentemente eram bem comuns em Provença, onde se juntaram em pequenas comunidades organizadas e onde no princípio foram chamados de béguines. Esse termo provavelmente foi derivado dos Albigenses, em memória da mais antiga heresia, da destruição da cultura provençal e contra as Cruzadas, fatos que certamente contribuíram para o crescimento do movimento.

Nesse meio tempo um novo e explosivo ingrediente entrou na ideologia dos espirituais e de seus seguidores. Administrativamente encurralados e sem a perspectiva de mudar o establishment, tornaram-se apocalípticos.

No século anterior Joaquim de Fiore (1132-1202), um abade de Cistercia, escrevera uma série de interpretações dos livros apocalípticos da Bíblia. Ele dividiu a história da humanidade em três períodos: a era do Pai, sob a lei judaica; a era do Filho, sob o Evangelho; e a era da vinda do Espírito Santo, quando toda lei será abolida, porque todos os homens, imersos em contemplação, agiriam apenas de acordo com a vontade de Deus, uma espécie de utopia de monges contemplativos, o Evangelho perpétuo de um eterno Sabbath sagrado. Este quadro bastante simples foi mais tarde meticulosamente elaborado por uma imensa literatura anônima atribuída a Joaquim, mas principalmente escrita por espirituais.

A mistura dos componentes, vida de Cristo, vida de São Francisco, com o apocalipcismo de Joaquim funcionou como uma mistura de oxigênio com hidrogênio. Antes e depois de São Francisco, o Jesus histórico exerceu um pequeno papel na religião medieval da Igreja estabelecida, ou seja, Cristo não passava de uma figura ritualística, um homem que gerou o Natal e a cruz da Páscoa. Os espirituais franciscanos, da mesma forma que todos os movimentos que se originaram dele, foram intensamente evangélicos, coisa que se tornou possível devido ao crescimento da alfabetização, especificamente pela leitura da Bíblia e da literatura devocional. A pobreza foi o assunto central na luta contra a ordem e o papado. Para os espirituais a pobreza esteve presente não apenas na vida de Cristo e de seus apóstolos mas também na inocência e na alegria de São Francisco; e tais coisas eram um prenúncio da felicidade do reino que viria após o término do apocalipse. São Francisco e posteriormente Pedro João Olivi, um franciscano que interpretou o Livro da Revelação, segundo os espirituais, tornaram-se reais figuras do apocalipse: São Francisco, representava o anjo do sexto selo, Oliver representava o anjo cujo rosto era como o sol. A essência dos princípios franciscanos era a pobreza, não obstante, o papado condenou a doutrina de que Cristo e os apóstolos viviam em absoluta pobreza, diante desses fatos, para os espirituais, o papa passou a representar o anticristo.

Os espirituais, os béguines de Provença, e os fraticellis, não acreditavam que Cristo e os apóstolos mantinham seus bens em comum; eles acreditavam que eles não possuíam bem algum. A pobreza daqueles mendicantes franciscanos era absoluta. Dia após dia eles viviam de esmolas. Como o advento da pobreza na ordem constituía sua pedra fundamental, João XXII errara de uma forma patente, portanto, o papa não era infalível. Estas foram as conclusões mais duradouras da controvérsia.

O uso da riqueza papal por parte de fiduciários e de ordens escolhidas pelo papa significava que ele dispunha do crédito através da imensa riqueza de um fundo de reserva. Em seu exílio em Avignon o papado continuamente pedia dinheiro emprestado. No ápice da controvérsia, João XXII rompeu as conexões com a Igreja e com o Evangelho e promulgou a doutrina da sacralização da propriedade. A Igreja foi alinhada ao lado da propriedade, do poder, do domínio, explicitamente e com estas mesmas palavras, como nunca tinha sido determinado antes. No curso do debate entre João XXII, o filósofo William de Occam, e o ex-lider da ordem, Michael de Cesena, originalmente um conventual, os debatedores trouxeram à tona algumas questões fundamentais. Se o uso e não a posse da propriedade era permitido, como ficava a questão do dinheiro? E sobre a bolsa de Judas? Os debatedores atingiram em cheio as implicações do significado do dinheiro e da propriedade, em sua mais pura essência. Novamente, se a propriedade é uma coisa ruim, quem detém a propriedade e permite seu uso é, por conseguinte, um não cristão. Os usuários são parasitários e culpados de cumplicidade. Então uma sociedade verdadeiramente cristã aboliria completamente a propriedade. Ao posicionar-se contra a criação de uma ordem religiosa devotada à pobreza total, ao auto-sacrifício, ao evangelismo, à crescente popularidade do misticismo, à exigência de uma vida laica em uma comunidade dedicada a tais objetivos, a Igreja viu-se diante de um impasse.

As contínuas supressões papais e a proibição da formação de qualquer nova ordem religiosa pelo Quarto Concílio Luterano funcionou como um derrame de glóbulos de mercúrio, resultando numa metástase de comunidades místicas leigas livres do controle e mesmo do conhecimento eclesiástico, comunidades que se espalharam por toda a sociedade. As comunidades e grupos tornaram-se completamente secretas e suas convicções ocultas. As comunidades béguines se espalharam por toda Europa, especialmente na Renolândia e ao norte da França, onde os homens eram conhecidos por béguines e as mulheres como béghards. Muitas delas eram comunidades de pessoas seculares que desejavam viver juntos, dedicar suas vidas à oração, contemplação, trabalho comum, e devoção. Algumas não passaram de favelas, outras se tornaram grupos de devoção mística, mas permeando todas elas, movendo-se como células de um novo crescimento, estavam os Irmãos do Espírito Livre.

As doutrinas dos Irmãos do Espírito Livre lembram as heresias do primeiro século do cristianismo. Pela contemplação mística, ensinavam, o homem une-se a Deus, une-se de tal forma que ele é Deus, e eleva-se acima de todas as leis, igrejas e ritos criados por Deus para o homem comum, então pode fazer tudo o que deseja. Unido com Deus o pecado torna-se impossível ao místico, portanto ele pode fazer tudo aquilo que deseja. Roubo, mentira, especial licença sexual, tudo é permitido; a oração e todas as observâncias religiosas são inúteis. Funciona como uma imagem refletida em um espelho irregular, uma mística e uma moral distorcida. Tais práticas não são únicas no cristianismo. Simultaneamente, os sufis também pregavam a mesma doutrina quando foram perseguidos e crucificados na Pérsia. O hinduísmo, budismo e o zen americano contemporâneo também produziram a mesma distorção.

Os Irmãos do Espírito Livre citavam passagens como de Santo Agostinho, “o amor faz o que você quiser”, de São Paulo, “onde o espírito de Deus está, há liberdade” (II Cor. 2:17), e a teologia mística dos grandes místicos renanos Meister Eckhart, Tauler, e Suso. Além disso havia o misticismo oculto, erótico, dos alquimistas espirituais. Arnold de Villanova e outros líderes da nova espiritualidade eram alquimistas.

Os Irmãos do Espírito Livre não se colocaram como um movimento organizado, funcionavam como um corpo difuso de esotéricos, satisfeitos em operar dentro da Igreja e no movimento das comunidades místicas seculares. Eles deixaram poucos registros em sua passagem exceto quando eram capturados por seus inimigos, ou em testemunho extraído sob tortura quando eram julgados. Dos agnósticos até os mormons, a Igreja sempre acusou os hereges de prática de orgias de sexualidade desenfreada. Os Irmãos do Espírito Livre aparentemente eram viciados nessa prática; os testemunhos são unânimes e este aspecto sempre é central. É impossível determinar se estas orgias eram simples passatempos ou ritos em um culto de erotismo místico. Elas parecem ter sido extremamente comuns.

Por um século, papas, bispos, e inquisidores, se ocuparam condenando e caçando-os por toda parte. Eles conseguiram existir dentro de uma sociedade supostamente fechada durante toda a Idade Média porque, na realidade, não eram tão fechados assim. Por mais incoerente que possa parecer, nas cidades despoliciadas da Renolândia e Países Baixos era fácil para uma comunidade ocupar uma casa e fingir ser uma associação legítima de leigos piedosos devotos à oração, leitura bíblica e trabalho. O único perigo eram os informantes, uma vez um informante admitiu sob juramento alguma coisa assim, foi envolvido e condenado por cumplicidade.

Este foi o principal problema enfrentado pela Igreja, separar o trigo do joio. O século XV testemunhou um tremendo crescimento de associações religiosas e comunidades fora das ordens regulares. Se a Igreja não as tivesse tolerado haveria, como sempre acontece, um turbilhão de revoltas. Como a vida e pregação de São Francisco representaram uma alteração de sensibilidade, essas novas comunidades representaram outra. Esta sensibilidade foi determinada de forma literária e teológica nos escritos dos místicos renanos, todos eles, de uma forma ou de outra, entraram em conflito com a Igreja, as proposições retiradas de seus ensinamentos foram condenadas. Nenhum deles recebeu qualquer título de santo, e apenas dois deles foram "abençoados"; embora muito populares, até nossos dias são apenas tolerados. O doutor do novo misticismo foi Meister Eckhart.

Paralelamente ao crescimento da filosofia escolástica a Igreja desenvolveu uma teologia mística, ortodoxa, sistemática. Começando por São Bernardo de Clairvaux, (1090-1153), o oponente inexorável de Abélard, e continuando com Hugh e Richard do monastério de São Victor em Paris e os franciscanos de São Boaventura (1221-1274), os grandes doutores místicos da Igreja tinham resistido à aristotelenização, de fato secularização, dos filósofos escolásticos. Suas raízes estavam no neoplatonismo de Santo Agostinho, e os escritos visionários foram atribuídos ao areopagita Dionisio, discípulo de São Paulo, e a João Scotus Erigena, o tradutor e posterior discípulo neoplatônico que viveu logo após Carlos Magno.

Todo esforço foi concentrado para solucionar o dilema representado pela experiência mística. Tal experiência trouxe consigo a convicção de uma realidade inquestionável. O místico em sua concepção de Deus esbarra no poder imbatível do fato empírico. A doutrina cristã diz que Deus criou o mundo a partir do nada. O homem é totalmente contingente, Deus é totalmente onipotente e auto-suficiente. Como ultrapassar esse limite pela experiência? De uma forma ou de outra todos os grandes místicos ortodoxos dispensaram esse último problema do conhecimento alegando que a alma detém um conhecimento primário de Deus. O conhecimento da realidade de Deus deriva dela. Conforme a descrição de São Boaventura a alma chega até Deus pelo amor através da escada das criaturas até que finalmente a alma descobre que o último degrau foi o primeiro, a scintilla animae, a centelha de Deus na alma não é apenas uma faculdade do conhecimento místico, ela participa diretamente do Ser divino. Este processo é delineado em um tom mais emocional e intensamente devocional pela retórica apaixonada de São Boaventura. Esse processo é básico e explícito na epistemologia de Richard de São Victor e mais ou menos implícito em São Bernardo. Naturalmente, esse assunto remonta ao próprio Platão em seu diálogo com Phaedo. É o conhecimento de Deus que proporciona o conhecimento das idéias. Esta tradição central da teologia mística nunca teve sua ortodoxia questionada porque ela sempre pareceu operar dentro do contexto do desenvolvimento escolástico. Mas a verdadeira situação foi bem outra. Seus expositores pertenciam a uma tradição puramente cristã, pelo menos essa foi a opinião geral, considerando que os partidários das idéias de Aristóteles tinham que defender sua versão pagã e sua filosofia secular árabe. Dessa forma São Tomas de Aquino e Duns Scotus ficaram na defensiva.

Meister Eckhart e seus descendentes trouxeram outra tradição peculiar para a Renolândia. Começando por Santa Hildegard de Bingen no princípio do século XII, Elizabete de Schönau, Elizabete da Hungria, Condessa da Turíngia no século XIII e Mechthild de Magdeburg, essa tradição foi continuada por mulheres, e foi caracterizada por experiências visionárias, sentimentalismo, imagens eróticas, e uma crítica apaixonada dos abusos da Igreja e da corrupção do papado. A maioria deles eram escritores e constam entre os mais importantes fundadores da literatura alemã. Uma análise destas visões colocadas na tela na forma de pintura, revela que Santa Hildegard sofria de enxaqueca, os intensos padrões claros que ela via são sintomas daquela doença. Como suas descendentes, todas aquelas mulheres tinham uma proeminência especial ao misticismo luminoso semelhante ao de São Boaventura, e de Philo, o judeu neoplatônico do primeiro século, caracterizado por visões constantes e recorrentes, plenas de luz -- a aura da própria experiência mística. O Raiar da Luz Divina de Santa Mechthild é uma das mais belas obras do idioma alemão. Saturados luzes místicas e simbolismo erótico, seus poemas, com apenas algumas leves alterações, poderiam ser transformados em canções de um extremo amor romântico.

A mais antiga teologia mística cresceu nos monastérios entre homens instruídos e contemplativos. O misticismo renano floresceu em Béguinages e outras comunidades semi-monásticas de mulheres devotas associadas à pobreza, ao trabalho, à oração, e à meditação. Seus mestres estavam apenas um degrau acima da ortodoxia do menos herético dos Irmãos do Espírito Livre. O testemunho de frequentes espancamentos e torturas praticados pela Inquisição sobre supostos entusiastas insanos e infelizes místicos renanos é, salvo engano, altamente suspeito. Até mesmo nos registros de queixas temos apenas um caso, onde uma casa de Béguines é acusada de prática de orgias sexuais, a casa das denominadas Irmãs de Schweydnitz. Provavelmente foi verdade, mas semelhantemente a uma sessão de leitura pornográfica moderna. Frequentemente os inquisidores pareciam estar engajados em uma guerra contra as mulheres. Uma das béguines foi reiteradas vezes acusada de "crimes" pela performance de ritos da Igreja em suas capelas e pela prática de confissão mútua, práticas proibidas às mulheres.

Na realidade, há apenas um documento questionável na totalidade do movimento do misticismo béguine, provavelmente influenciado pela heresia dos Irmãos do Espírito Livre. Margarete de Parete foi julgada e queimada em Paris no ano de 1311, acusada de ensinar que quando a alma é consumida pelo amor de Deus ela participa de Deus, podendo fazer qualquer coisa que o corpo sensual desejasse. Recentemente foi descoberto o manuscrito de seu livro, O Espelho das Almas Simples, que foi impresso. Como foi constatado por Meister Eckhart e seus sucessores a interpretação por parte da Inquisição foi baseado em um equívoco. Ela ensinava que no sétimo estágio da iluminação, o ápice do processo dos sete estágios que remonta aos primórdios da literatura mística e é descrito de uma forma perfeitamente ortodoxa, a alma une-se a Deus. Pela graça ela livra-se do pecado. Ela absorve toda a Trindade e perde sua própria identidade, tornando-se incapaz de pecar. Dali para a frente vive inteiramente no amor de Deus como um serafim. Não precisa de nenhuma Igreja, sacerdócio, ou livro. Seu conhecimento é diretamente compartilhado no conhecimento de Deus. Não pode pecar porque sua vontade é a vontade de Deus; pobreza, oração, sacramentos, ascetismo, penitências, jejuns, tornam-se coisas destituídas de qualquer importância para a alma, mergulhada em Deus, onde privações e símbolos inexistem. A alma usa estas coisas apenas para pagar um indiferente tributo à natureza, ao mundo, e à comunidade religiosa.

É fácil verificar que a mais leve troca de ênfase pode transformar este ensino em uma justificação da imoralidade atribuída aos Irmãos do Espírito Livre, ou à histeria que mais tarde tornou-se responsável pelo esmagamento da comuna revolucionária anabatista de Münster. Mas para Margarete de Parete a ênfase estava em outro ponto, uma vez que temos em mãos uma documentação confiável criada de boa fé pelos próprios místicos "hereges". Naturalmente do ponto de vista da Igreja Católica ela foi bastante herege.

Margarete de Parete foi queimada na fogueira e logo esquecida. Mas a influência de Meister Eckhart é mais forte hoje do que a centenas de anos. Eckhart conheceu o problema da contingência e da onipotência, criador-e-criatura-do-nada tornando Deus a única realidade e a presença ou impressão de Deus prevalecendo sobre o nada, a fonte da realidade na criatura. Realidade, em outras palavras, é a participação da criatura no criador estruturada hierarquicamente. Do ponto de vista da criatura este processo poderia ser reverso. Se a criatura é real, Deus torna-se o Divino Nada. Deus é nada, como diz o escolasticismo, o objeto final de todos os vaticínios. Isso é impredicável. A existência da criatura, na medida em que existe, é a existência de Deus, e a experiência da criatura de Deus é no final das contas igualmente impredicável. Não pode nem mesmo ser descrito; pode apenas ser apontado. Nós podemos apenas apontar para a realidade, a nossa realidade ou a realidade de Deus. A alma vislumbra Deus pelo conhecimento, não pelo amor como concebe o primitivo misticismo cristão. Amor é um artigo do vestuário do conhecimento. A alma primeiramente treina a si mesma, sistemática e inconscientemente, até que finalmente se confronta com a única realidade, o próprio conhecimento, Deus se torna manifesto em si mesmo. A alma não pode dizer nada sobre esta experiência no sentido de defini-la. Apenas pode revelá-la a outros.

Este é o modo neoplatônico de negação ensinado por Santo Agostinho. Mas as deidades neoplatônicas mentem sobre realidade, não há como dizer que ela existe nesse sentido. Eckhart, frequentemente acusado de dualismo, na verdade foi um monista extremado, contudo há uma diferença sutil entre sua teoria do ser e o panteísmo de teóricos como Spinoza. Para Eckhart, a realidade é densa, não existe nenhuma porta de ligação entre o processo interno de Deus, a Trindade, e o mundo de sua criação. Deus (Godhead) gera o Filho e cria o mundo ao mesmo tempo ou no mesmo momento da eternidade. Não é necessário muita pesquisa para concluir que o ensino de Eckhart pode ser qualificado como ortodoxo. Todavia, quanto à co-eternidade do Filho e do mundo, seus críticos foram ligeiros em apontar como heresia.

“Antes de existir qualquer coisa, a Palavra já existia", disse São João, “Ele criou tudo o que há — não existe nada que ele não tenha feito”. O procriar da Palavra é um processo dual — interno e externo — o conhecimento de Deus [se revela] pela sua criação, e a criação [se revela] pelo Conhecimento, pelo Logos, do mundo. A criação é a roupagem do vazio.

Embora Eckhart se comporte como um intelectual rigoroso em seus tratados latinos — a alma se eleva a Deus pelo conhecimento, ou melhor, percebe Deus nos recantos mais íntimos do ego, do ser, absoluto e contingente, é revelado pelo saber — em seus conhecidos sermões pela Alemanha, pregado principalmente às freiras dominicanas e às congregações Béguines, ele adota a extensa linguagem familiar da teologia do coração. “A alma”, diz ele, “torna-se noiva de Deus, torna-se feminina em todos os aspectos, torna-se uma esposa virgem, torna-se liberta de qualquer outro compromisso, Jesus é concebido na alma gerando frutos”. A união amorosa é total e auto-suficiente. O amor não é vontade de satisfazer um desejo; mas a plenitude do ser compartilhando a alma em Deus. Oração, boas ações, esmolas, são inúteis a menos que tais coisas fluam de uma vontade completamente consumida pelo amor de Deus e totalmente submissa à sua vontade. Onde Eckhart julgava adequado à sua audiência ele apresentava sua teologia em termos de vontade mais do que em termos de conhecimento, e ele fazia isso propositadamente. Foi por inspiração de seus sermões populares que muitos apaixonados místicos posteriores acabaram contraindo núpcias espirituais com Ruysbroeck.

Segundo Eckhart, qual é o principal dado que nos permite tomar conhecimento da existência? O principal dado é a imprevisível, indescritível experiência religiosa em si mesma, o transcendental penso logo existo, é Jeová dizendo que seu nome é “Eu sou o que Eu sou”. Como tem sido pontuado nos anos recentes, se a palavra “Deus” com todo seu excesso de bagagem, que Whitehead chamou de “complementos metafísicos”, fosse abandonada como imprópria, o misticismo de Eckhart seria praticamente idêntico ao mais puro empirismo religioso budista; a filosofia fluindo da alma, atman, na perspectiva de uma participação no brahma. A filosofia brotando do chão do ser, upanishads, para o vedanta; a filosofia fluindo do sufismo para o ibn-arabi.

Em suma, a alma pode ser definida como uma centelha da Luz Divina, a fonte, a primavera da qual floresce toda realidade e que pode ser alcançada pela contemplação. Nesse ponto começa a doutrina da Luz Interior que caracteriza as seitas místicas daquele tempo, e que é central na teologia quaker. O aspecto prático também descende de Eckhart — o quietismo. A experiência religiosa revela-se por uma crescente quietude. “Não se turbe o vosso coração”.

O misticismo de Eckhart aparenta ser algo bem solitário — alguém poderia pensar que tal misticismo dissolveria não apenas a Igreja e seu culto, como também toda experiência religiosa comunal. Pelo contrário, ele funciona como uma locomotiva ajudando no desenvolvimento da vida comunitária. Os Amigos de Deus, a Fraternidade da Vida Comum, e grupos semelhantes tanto de pregadores como de leigos espalharam-se rapidamente por toda Renolândia, pelos Países Baixos, Alemanha Ocidental, e Boêmia. Foi como se a Igreja desenvolvesse anticorpos tão ortodoxos quanto profiláticos para combater a infecção dos Irmãos do Espírito Livre. É evidente que o ensino de Eckhart não era nada ortodoxo. Ele apenas o ajustou à ortodoxia na medida do possível.

No final de sua vida, o arcebispo de Colônia posicionou-se contra ele. Ele apelou ao Papa João XXII e em 1329, dois anos após sua morte, vinte e oito das suas proposições foram condenadas. Mais uma vez vemos João XXII, o pior dos papas, efetuando representações contra as demandas das comunidades cristãs mais devotas, negando-lhes uma vida espiritual mais rica diante do decadente establishment medieval.

 

5. João Wycliffe, Rebelião Camponesa na Inglaterra

Cada um dos seguidores de Eckhart, Johann Tauler, Henry Suso, Jan van Ruysbroeck, esforçaram-se por ajustar sua teologia mística à mais estrita ortodoxia mas nenhum deles teve sucesso. Até mesmo a Imitação de Cristo de Thomas Kempis, o manual devocional mais popular produzido no Ocidente, e a única exposição universalmente conhecida da sensibilidade religiosa dos Irmãos da Vida Comum, até hoje é tido como desqualificado pelo Catolicismo Romano. Tauler exerceu uma grande influência sobre Lutero ao popularizar a Teologia Germânica, uma coleção escrita ou editada por um desconhecido discípulo de Tauler. Já no tempo de Nicholas de Cusa essa tradição tornara-se completamente divorciada e contrária à filosofia medieval. A obra Of Learned Ignorance de Nicholas de Cusa é uma reinterpretação em termos da Renascença. Pela complexa teosofia de Jakob Boehme (1575-1624) nos movemos para um mundo completamente estranho ao catolicismo e luteranismo.

Naqueles dias, tanto quakers, menonitas, como grupos similares faziam questão em destacar que eles não eram nem católicos nem protestantes, mas pertencentes a uma velha igreja que ressurge na vida dos apóstolos e que emerge novamente na história dois séculos antes de Lutero. Isto é verdade. Não deveríamos pensar nesta grande onda de espiritualidade na Europa do Norte como algo novo, mas como a redescoberta de algo antigo; não como um corpo de teologia doutrinal, mística, muito menos em termos de episódios sensacionais da história de suas lutas com o papa e a Igreja, mas como um modo de vida. Em toda cidade havia pequenos grupos de pessoas que se encontravam nas casas uns dos outros, ou em grandes cômodos destituídos de decoração e imagens, vivendo juntos em casas comunais nas cidades ou reclusos no campo. A maioria deles ainda iam à Missa aos domingos e confessavam na Páscoa. Mas sua vida religiosa estava centrada em seus próprios encontros, onde sentavam ouvindo e estudando tranquilamente as passagens bíblicas, orando juntos espontaneamente ou aguardando na quietude a Luz Interior, o movimento do Espírito. Distante de todos os conflitos e controvérsias, perseguições, julgamentos, execuções na fogueira, e guerras, esse modo de vida permaneceria intato. Os homens e os eventos apocalípticos se levantariam e floresceriam nos melodramas da história [como fogo de palha], até que finalmente ficavam para trás, absorvidos pela quietude da vida das comunidades apostólicas.

Em meados do século XIV as tensões geradas pelas profundas mudanças econômicas e sociais no final da Idade Média tornaram-se insuportáveis, contudo o esqueleto do velho modo de vida sobrevivia de uma forma apertada e difícil. Em termos objetivos, a situação tornava-se pior a cada dia. A Inglaterra entrou em convulsão pela Guerra das Rosas, uma luta intestina da aristocracia pelo controle do comércio de lã. Enquanto isso, os camponeses se revoltavam por toda parte. O papado estava aprisionado em Avignon pelo reinado francês. Eventualmente haviam dois papas, cada qual reivindicando o trono, e finalmente três. Ao mesmo tempo em que Roma se deteriorava a Itália se viu infestada por exércitos em guerra, tanto dos Guelphs contra os Ghibellines, como dos papalistas contra os imperialistas. Em meados do século XIV a Peste Negra infestou a Europa e exterminou um terço ou mais da população. As consequências econômicas e sociais, especialmente o aumento dos preços e a escassez de trabalho, acelerou a falência do sistema feudal. Enquanto isso o novo império dos turcos otomanos se espalhava continuamente pela península balcânica até finalmente alcançar os muros de Viena, controlando o Mar Mediterrâneo, e ameaçando subjugar a cristandade. Da Peste Negra até o final da Guerra dos Trinta Anos, ou seja, durante trezentos anos, a Europa Ocidental mergulharia em um contínuo tumulto.

A primeira explosão aconteceu na Boêmia, com a pregação de João Hus (1369-1415), a tomada do Conselho de Constance, o crescimento do cisma da Igreja de Boêmia, e as Guerras Hussitas. Com exceção da cruzada albigense, o conflito religioso permaneceu localizado, até mesmo individualizado. Na Boêmia tornou-se um movimento nacional envolvendo conflitos militares em larga escala, foi quando pela primeira vez o comunismo religioso deixou de ser uma questão envolvendo comunidades intencionalmente pequenas, muitas vezes clandestinas, passando a envolver cidades e territórios inteiros.

Considerando que João Hus foi acusado pelo Conselho de Constance de pregar doutrinas hereges do inglês John Wycliffe, deveríamos voltar um pouco e analisar as teses de Wycliffe, embora as acusações do Conselho fossem injustas. João Wycliffe (1329-1384) não foi o último herege medieval mas o primeiro líder da Reforma. Não falou a uma obscura seita clandestina mas a toda a nação inglesa. Embora iniciasse como filósofo e teólogo, suas preocupações posteriormente tornaram-se amplamente políticas. Ele não era um líder pessoal mas pregador e escritor. Ele não reivindicava nenhuma revelação especial e não pregava nenhum apocalipse. Suas idéias revolucionárias foram desenvolvidas racionalmente a partir das condições aceitas pelo realismo escolástico. A maior parte de sua vida ativa foi gasta como professor em Oxford no Balliol College e depois de ser expulso, ou melhor, depois que ele se aposentou de sua paróquia de Lutterworth, ele continuou a escrever e fazer publicações, morrendo em completa comunhão com a Igreja. Ele nunca foi um porta-voz da revolução social, embora alguns seguidores e propagandistas de suas idéias, os Lollards, fossem acusados de envolvimento na Rebelião dos Camponeses em 1381. Na verdade, ele era um porta-voz, não dos pobres ou proletários, mas dos grandes magnatas, dos senhores, do rei, e do poder do Estado contra a Igreja. Embora muitas de suas idéias tenham se tornado parte do credo protestante, elas pouco tem a ver com os movimentos apocalípticos e comunais que desafiaram o poder do Estado e da Igreja e se esforçaram por estabelecer uma sociedade modelada na comunidade dos apóstolos.

Para Wycliffe a Bíblia era a autoridade exclusiva em todos os assuntos religiosos ou seculares. Ele aderiu uma noção peculiar, derivada do seu extremo realismo escolástico, da Bíblia como uma incorporação terrestre da palavra sagrada de Deus, de uma Bíblia eterna e celeste que refletia como um espelho a segunda pessoa da Trindade, o Logos, a Palavra. Esta é uma idéia muçulmana, do sagrado Alcorão, e que aparece com Wycliffe pela primeira vez no Ocidente. Embora tal conceito perdesse um pouco de seu extremismo original, ele explica a bibliolatria do protestantismo inglês. Wycliffe também foi responsável pela primeira tradução completa da Bíblia para o inglês. Seu efeito foi tal que a Igreja proibiu bíblias desautorizadas em inglês e eventualmente, por um tempo, a posse particular de bíblias vernáculas de qualquer tipo.

Wycliffe acreditava que a Igreja deveria ser completamente sujeita ao Estado e que deveria ser desprovida pela força de seu poder temporal, ela não deveria possuir poder temporal algum, poder religioso, e nem mesmo propriedades. As ordens religiosas deveriam ser abolidas. Todos os ministros e pregadores deveriam limitar-se à pregação. A pregação era mais importante que a Missa. Não havia nenhum suporte bíblico para a Missa enquanto um sacrifício no qual Cristo estaria presente sacramentalmente. As confissões orais eram desnecessárias. Os sacramentos eram inválidos se administrados por um pregador em pecado mortal, o mesmo valia para toda a autoridade hierárquica. Nenhum papa pecador deveria ser obedecido. Como, de acordo com Wycliffe, por definição o clero geralmente estava em pecado mortal, toda a estrutura da igreja desabaria.

Wycliffe, em sua pregação pelo esvaziamento do poder da Igreja, tomou uma medida estritamente prática. Em uma petição ao parlamento, seus seguidores argumentaram que se a Igreja fosse destituída de sua propriedade e reduzida à pobreza evangélica seria possível financiar quinze novos títulos de condes, quinze mil cavalarias, quinze universidades, cem casas de caridade, e quinze mil novos ministros do Evangelho, fora as vinte mil libras que iriam para o tesouro real. Esse movimento não tinha quase nada de misticismo popular nem de espiritualidade, era o começo de uma luta pelo poder entre as duas classes governantes da Idade Média.

De modo algum Wycliffe condenou a riqueza secular. “Os homens seculares podem ter uma infinita quantidade de bens . . . desde que os adquira de fato, e os use para a honra de Deus, prosperando na verdade, e ajudando seus irmãos cristãos, desde que eles não se rendam aos apelos do clero anticristo para destruir os senhores seculares, e roubar seus inquilinos pela lei do Anticristo”. As propriedades do rei, dos grandes senhores, dos barões da lã, dos mercadores, tornaram-se coisa sagrada, e o papa, os arcebispos, os abades, tornaram-se o Anticristo. Wicliffe estava historicamente correto no que diz respeito a essa nova forma de propriedade — a Inglaterra daria seu grande salto no desenvolvimento capitalista a partir da secularização da riqueza da Igreja por Henry VIII.

Assim, Wycliffe entrou bem cedo nesse cenário. O Estado e os grandes senhores não estavam preparados para embarcar em um programa tão revolucionário. A Santa Inquisição fora banida da Inglaterra e a Igreja da Inglaterra ficou mais independente do papa do que as demais, especialmente durante o papado de Avignon quando a maioria dos ingleses tinha o papa como um vassalo do rei francês. Depois da Rebelião dos Camponeses e da morte de Wycliffe, seus seguidores passaram a ser perseguidos com frequência. Eventualmente o estado inglês estabeleceu sua própria Inquisição. Com o declínio da alfabetização no movimento, a adeptos dos Lollardry passaram cada vez mais a ser vítimas do uso da força. Assim, tornaram-se completamente subversivos, não por serem apocalípticos, nem por lutarem por um reino milenar, mas por exigirem uma revolução política nas relações entre a Igreja e o Estado. Este foi o primeiro movimento pre-Reforma que respondeu por uma parcela do caráter político assumido imediatamente após a revolta Hussite na Boêmia. Os Lollardry tiveram participação ativa durante todo o período que durou a Guerra das Rosas, favoráveis ao trono e aos ataques econômicos contra a Igreja.

Entre os Lollards, como é o caso de qualquer movimento, haviam aqueles radicais mais extremados. É verdade que durante um certo período de tempo Wycliffe, de uma forma resumida e em todos seus escritos, passou a defender uma sociedade comunista. Em seus escritos no De Civili Dominio: “Todas as coisas boas de Deus deveriam ser [compartilhadas] em comum. A prova disso é que todo homem deveria estar em um estado de graça. Se ele está em um estado de graça ele é o senhor do mundo e de tudo o que o mundo contém. Então todo homem deveria ser o senhor do mundo inteiro. Mas por causa da multidão de homens isso não acontecerá a menos que eles possuam todas as coisas em comum”. Mas isto está em Latin e em um tratado instruído, e Wycliffe apressou-se em dizer que a história, desde o pecado de Adão, conduziu à autoridade e à distribuição desigual da riqueza, coisas que todos os bons cristãos deveriam aceitar, contanto que estejam nas mãos de leigos. Esta é uma abordagem ortodoxa padrão. Se todos os homens estivessem em um estado de graça, não existiria pobreza nem riqueza.

A Rebelião dos Camponeses ingleses de 1381 começou com uma erupção espontânea em Essex, com um massivo protesto dos escribas contra os impostos que se tornavam cada vez mais pesados, uma medida que hoje seria chamada de deflacionária. O Estado tentava superar os altos salários e a inflação resultante da Peste Negra que se abatera sobre a geração anterior. Os camponeses se revoltaram contra as tentativas dos nobres de destruir o status feudal dos escribas reduzindo-os a servos. Os rebeldes elegeram Wat Tyler como líder e designaram Jack Straw seu principal auxiliar. Com a disseminação da revolta eles capturaram cidades e castelos em Essex, Kent e eventualmente tomaram Londres. Mas antes tomaram de assalto o palácio do arcebispo e libertaram os prisioneiros da prisão episcopal, entre eles João Ball, tido como um Lollardo, mas mais provavelmente um herege milenário do velho estilo. O panfleto de William Morris A Dream of João Ball tornou Ball famoso, atribuindo-lhe um grande papel na revolta, algo que na verdade nunca teve.

As exigências oficiais dos camponeses apresentadas ao rei eram bastante simples e práticas. Essencialmente exigiam a abolição das dívidas e obrigações feudais, a substituição do trabalho assalariado e uma drástica redução de impostos. A prova de que eles não se inspiraram em Wycliffite é revelada pelo saque e incêndio do grande palácio de João de Gaunt em Savoy, um antigo protetor de Wycliffe.

Por outro lado, João Ball tornou-se famoso também pelo seu dístico, “When Adam dalf and Eve span, Who was then a gentilman?” [Quando Adão colhia e Eva tecia, Quem era o patrão?]. Segundo o historiador Jean Froissart, tais citações eram típicas dos sermões de John Ball, ele foi preso antes da insurreição por dizer coisas assim.

Ah, sim gente boa, as coisas não andam bem na Inglaterra, somos impedidos de compartilhar nossos bens, ainda existem cavalheiros em nossas aldeias, podemos unir todas nossas posses, e os senhores não serão maiores do que nós. O que foi que fizemos de errado para viver assim em servidão contínua? Todos viemos de um pai e de uma mãe, Adão e Eva: de modo que ninguém pode de forma alguma dizer que é maior do que nós, porque temos que viver de migalhas enquanto eles usam o fruto de nosso trabalho em proveito próprio? Eles se vestem de veludo e carmesim forrados com peles, enquanto nos vestimos com trapos: enquanto vivemos de migalhas e bebemos água, eles bebem dos melhores vinhos, comem do melhor pão e da melhor mistura; enquanto eles vivem dentro de seus palacetes, vivemos nos campos, na labuta, na dor, na chuva e no vento; usam nosso trabalho para sustentá-los e manter suas propriedades: somos chamados para servi-los, e se não atendemos prontamente ao seu chamado, somos espancados; e não temos a quem reclamar, quem nos ouça ou faça justiça. Vamos até o rei, ele é jovem, vamos mostrar-lhe a servidão em que estamos, se as coisas permanecerem inalteradas mostraremos aquilo que somos capazes de fazer; e se nos unirmos, todos aqueles que estão em escravidão nos seguirão tentando conquistar a liberdade; e quando o rei vier até nós, já teremos encontrado a cura para nossos males, já teremos alcançado a justiça pelas nossas próprias mãos.

Thomas Walsingham em sua Crônica menciona o sermão de Ball — de uma forma indireta:

No princípio todos os seres humanos foram criados livres e iguais. Homens maldosos por uma opressão injusta pela primeira vez introduziram a servidão contra a vontade de Deus. Agora é o momento dado por Deus em que as pessoas comuns podem, e conseguirão, rejeitar o jugo que agüentaram durante tanto tempo e ganhar a liberdade que sempre ansiaram. Eles deveriam ser puros de coração e proceder como sábios chefes de família que ajuntam trigo em seus celeiros, e que capinam o mato que sufoca os grãos quase maduros; quando a época da colheita se aproxima. O mato são os grandes senhores, os juízes e os advogados. Eles devem ser exterminados, da mesma forma que devem ser exterminados todos aqueles que representem perigo à comunidade no futuro. Então, com os grandes fora de combate, todos os homens desfrutarão de liberdade em igual grau e poder, e compartilharão todas as coisas em comum.

Isso é tudo o que realmente sabemos sobre Ball. No ápice da revolta o jovem rei eventualmente participaria de duas reuniões com Tyler e Jack Straw nas quais concederia o fim da escravidão, das obrigações feudais, a remoção de todas as restrições na liberdade de trabalho e comércio, e uma anistia geral para os rebeldes. Na segunda reunião os rebeldes foram dispersados. Wat Tyler foi morto e a rebelião suprimida. João Ball, Jack Straw, e centenas de outros foram executados. As promessas do rei foram revogadas. Os rebeldes remanescentes foram caçados por toda parte e a revolta foi sufocada sem qualquer efeito imediato.

A Rebelião dos Camponeses, por sua vez, foi bem mais articulada e aparentemente conduzida por homens bem educados, de uma forma semelhante ao que ocorreu na França e em Flandres. O ocorrido revela um padrão que se repetiria por muitas vezes. Há uma insurreição popular contra as relações feudais economicamente moribundas. Ela assume a forma de reivindicação pela liberdade do trabalho e dos mercados capitalistas. A revolta se amplia e transforma-se num levante generalizado contra os ricos. Em seu curso arrasta consigo proeminentes ex-pregadores e outros que pregam o advento de uma revolução religiosa, a chegada do apocalipse e do milênio. Eles não fazem parte do corpo principal da revolta mas parasitam sobre ela e quando a revolta é suprimida, e até mesmo quando ela tem sucesso, eles são executados. Porém, há uma certa continuidade. Considerando que os apocalípticos são os maiores propagandistas e os pregadores mais apaixonados, suas palavras permanecem na memória das pessoas e repetidas geração após geração, provendo combustível para a próxima revolta.

 

6. Hus, Guerras Hussitas, Tabor

É fácil ser enganado pelos melodramas da revolução. Embora seja verdade que a história se move por saltos em seus pontos críticos quando quantidade se transforma em qualidade, como turbinas movidas a vapor quando a agua passa para o estado gasoso. Não é necessário ser conservador para perceber que as mudanças econômicas fundamentais levam muito tempo até serem processadas e implementadas, tais mudanças sofrem a resistência de uma massa inerte. A Rebelião dos Camponeses da Inglaterra ocorreu em 1381 na forma de uma clara reivindicação: a abolição da economia feudal. Trezentos anos depois, com a ascensão de William de Orange ao trono, ocorre um evento relativamente pacífico que os ingleses corretamente chamam de a Grande Revolução, cujo elemento mais importante é a última pá de cal em cima do túmulo da economia feudal. Mesmo assim, alguns ritos e relíquias feudais sem importância ainda sobreviveram àquela época..

Não obstante, a despeito da profunda crise econômica, política, e religiosa, por toda parte da Europa ao término do décimo quarto século, o feudalismo permanecia intacto, íntegro, tido como um sistema viável e apropriado à sociedade que o demolira. Isso é mais aparente na crise da Igreja. As relações econômicas entre os leigos já estava mudando, mas o comportamento da Igreja continuou puramente feudal e suas propriedades representavam uma grande massa obstrutiva de capital congelando o desenvolvimento da nova economia. A Igreja simplesmente cessara de ser a própria expressão religiosa da sociedade, enquanto que os hereges, anteriormente confinados e isolados — com exceção de Cathari na Provença — passaram a pulular por toda parte. Uma convulsão semiconsciente tomou conta de quase todo mundo. Na medida em que a insuficiência e a corrupção da Igreja chegava ao conhecimento de todos, a revolta se generalizava ainda mais.

Em nenhum outro lugar isso foi mais verdadeiro do que na Boêmia. Nos tempos modernos, como parte do Império Austrohúngaro, e depois Czechoslovakia, a Boêmia nunca exerceu um papel central na história da Europa. Mas não foi assim no final da Idade Média. O reinado da Boêmia destacava-se como o primeiro dos eleitores do Santo Império Romano. O Rei Wenceslaus IV, Imperador do Santo Império Romano, juntamente com sua família exerceu uma posição chave, situando-se entre os dois ou três mais importantes núcleos de decisão de toda Europa. Seu irmão Sigismund era Rei da Hungria. A Universidade de Praga, fundada em 1348, ainda era a única universidade no império, e sua influência se esparramou ao longo de toda a Europa Central e das regiões fronteiriças ao leste.

Desde a missão dos santos Cyril e Methodius em 862 na Morávia até os primeiros anos do século X a Boêmia teve como religião a ortodoxia grega. Nessa época o Rei Vaclav (São Wenceslaus) implantou o catolicismo da Igreja Romana. No século XIV a Boêmia incluía a Morávia, Silésia, a alta e baixa Lusátia, e se constituía no poder dominante da Europa Central. O grosso da população era eslava — a minoria checa — mas a classe governante era geralmente germânica. Haviam bases alemãs espalhadas por todo país, quase todas as regiões fronteiriças ao norte eram controladas pelos alemães. A Igreja era uma das mais ricas e corruptas da Europa. Mais da metade das terras pertencia à hierarquia e ordens religiosas. Os bispos e poderosos abades viviam a luxúria dos senhores seculares. A maioria deles eram alemães, ao passo que o baixo clero era geralmente eslavo; frequentemente as duas classes não falavam o mesmo idioma.

Por ser base do império, a Boêmia tornou-se palco da intriga e da corrupção resultante do conflito entre o imperador e o papa. A classe alta era extremamente rica. Antes da descoberta da América as minas da Boêmia eram a principal fonte europeia de prata. Em grau menor produzia ouro e cobre. A maior parte dessa riqueza era distribuída de forma desigual, concentrando-se no topo das classes altas, enquanto que na base as pessoas comuns viviam em uma economia camponesa, numa condição ligeiramente melhor que seus companheiros da Polônia e da Rússia Branca.

Wenceslaus IV envolveu-se em uma disputa com os eleitores e grandes senhores do império, até que finalmente foi deposto. Ele recusou aceitar a eleição de Rupert, Elector Palatine, até que finalmente cedeu, consentindo o cargo ao irmão dele, Sigismund, Rei da Hungria. Depois disso entrou em conflito com os senhores seculares e clericais da Boêmia. O papado, recém mudado de Avignon para Roma, quase entrou em cisma, os franceses e espanhóis que apoiavam Clemente VII retornaram para Avignon; a Inglaterra e o império, incluindo a Boêmia, e o norte e centro da Itália ficaram sob o controle de Urbano VI. Seus protetores reais não se mostraram muito generosos com dinheiro e ambos os papados quase entraram em falência, sendo forçados a fazer uso de tudo que estava a seu alcance, especialmente a venda de indulgências, para levantar dinheiro. Um poderoso movimento entre os teólogos da Europa, conduzido por Jean Gerson, Chanceler da Universidade de Paris, Pierre Cardinal d’Ailly, até mesmo incluindo eventualmente a maioria dos cardeais, começou a agitar por uma solução do problema via um concílio geral de toda Igreja Católica Romana. O Concílio de Pisa em 1409 elegeu Alexandre V, mas Benedito XIII em Avignon and Gregório XII em Roma recusaram-se a renunciar, assim haviam três papas. Quando Alexandre morreu dez meses depois, Baldassare Cossa, leigo, e pirata aposentado, foi coroado como João XXIII (após uma rápida ordenação como padre na noite anterior) e, sob a proteção do Imperador Sigismund, que imediatamente envolveu a Itália em contínuas guerras, que resultaram em novas vendas de indulgências para financiar suas cruzadas.

Nesse momento, após um longo período de maturação, a explosiva situação na Boêmia vem à tona. O Imperador Carlos IV e Wenceslaus incentivaram um certo grau de liberdade religiosa e anti-papalismo na Boêmia. A Inquisição foi mantida fora do país fazendo com que um número de seguidores de Wycliffe e Lollard imigrassem da Inglaterra, Waldenses, Lombardia, Jura, e dos Alpes, para a Boêmia. O rei estabeleceu em Praga uma capela para a pregação popular, diretamente dependente de seu patrocínio, e independente do arcebispo ou de qualquer ordem monástica. A Capela de Belém onde os sermões eram lidos em checo e latim, e onde, naquele tempo, o Rei Wenceslaus e a Rainha Sofia usualmente assistiam aos serviços preferindo-os à catedral. Houve uma sucessão de pregadores reformistas ao longo de uma geração, em grande parte sob a influência de Wycliffe, a dissensão popular na Boêmia desenvolveu-se bem longe da esquerda. A rejeição às proclamações papais, transubstanciação, batismo infantil, comunhão em uma espécie de laicidade, e denúncias de simonia, nepotismo, e luxúria da Igreja eram muito comuns.

Em 1402 João Hus foi designado reitor da Universidade de Praga. Antes desse tempo ele fora decano da faculdade de filosofia e um pastor de fama na Capela de Belém checa. Considerando as lutas religiosas que maturavam na Boêmia ele não estava ainda nem no meio do caminho, era um conservador. Embora na maioria dos casos discordasse de Wycliffe, foi favorável ao direito de expressão dos seus seguidores, tanto que traduziu o Trialogu. de Wycliffe. Wycliffe era estudante e teólogo, Hus era pastor e pregador. Seus próprios escritos foram, considerando o tumulto teológico e a profunda crise da Igreja, surpreendentemente ortodoxos. Durante os próximos cinco anos ele mergulhou em uma quase contínua dificuldade com o establishment eclesiástico, não por causa de alguma heresia teológica (tais ideias nem passavam pela cabeça do arcebispo que tinha sido soldado antes de ocupar o cargo), mas por suas denúncias públicas dos abusos da Igreja.

Durante as preparações do concílio ecumênico para evitar um grande cisma, elegeram apenas um papa, e reformador da Igreja, o Rei Wenceslaus. Hus, o clero checo, e o povo permaneceram neutros, mas a hierarquia alemã apoiou Gregório XII. No conflito resultante o rei emitiu um édito que dava três votos aos boêmios e apenas um aos bávaros, saxões e poloneses, combinados, uma reversão da ordem previamente estabelecida pela administração da universidade. O arcebispo atacou imediatamente pedindo ao Papa Alexandre V a condenação dos Lollardry e a proibição de todos os livros de Wycliffe, pediu também a emissão de uma bula papal proibindo as pregações em todas as capelas independentes.

Hus continuou pregando e foi excomungado pelo arcebispo, que apelou ao novo papa, João XXIII, um dos mais corruptos e depravados da história do papado. Papa João XXIII não apenas apoiou o arcebispo como colocou a cidade de Praga sob intervenção enquanto Hus continuasse pregando. Ao mesmo tempo o papa inundou a Boêmia com vendedores de indulgências para financiar sua cruzada contra o Rei Ladislaus de Nápoles. Hus e os reformadores mais radicais denunciaram a venda de indulgências. A situação de Hus em Praga ficou de tal forma insustentável que ele teve que se exilar em uma zona rural perto dali onde, mais tarde, a comunidade revolucionária de Tabor seria estabelecida. Lá ele permaneceu dois anos escrevendo, e publicou sua principal obra, De Ecclesia.

Em 1414 o Concílio recém convocado convidou Hus a vir e se defender das acusações de heresia lançadas contra ele pela facção do arcebispo. O Imperador Sigismund deu-lhe salvo-conduto, prometendo que qualquer que fosse o julgamento do Concílio, lhe permitiriam voltar seguramente à Boêmia onde, se culpado de heresia, ficaria sob a jurisdição do Rei Wenceslaus. Tratava-se de uma armadilha para atraí-lo até Constance. Logo após sua chegada João XXIII designou uma comissão para examinar seus documentos. O salvo-conduto foi cancelado pelo imperador. Hus foi aprisionado. Era o início de um agonizante e doloroso processo teológico.

Hus foi acusado primeiramente de propagar uma longa lista de doutrinas de Wycliffe e Waldensio, a maioria das quais ele negou. A lista foi mudada; e embora ele novamente negasse que defendia a maioria daquelas doutrinas, lhe exigiram que abjurasse a todas elas. Ele recusou abjurar aquelas doutrinas que nunca tinha sustentado. Finalmente uma nova lista, boa parte retirada de De Ecclesia, foi submetida a ele. A maioria delas foi interpretada por ele de forma ortodoxa, mas sua interpretação foi rejeitada. Os itens mais importantes foram aqueles em que ele condena a corrupção, o abuso, e o despotismo da Igreja, negando a autoridade tanto do papa como dos maus governantes seculares.

Seus principais promotores foram Jean Gerson e Pierre d’Ailly, que foram impiedosos em seus ataques sobre ele, essas mesmas pessoas, durante as sessões desse Concílio, tinham ajudado a depor João XXIII por simonia, heresia, fornicação, e pederastia. O julgamento foi marcado por uma incrível desordem e abuso por parte dos santos padres participantes da assembleia do Concílio. Na maior parte do tempo Hus não pode ser ouvido, suas respostas seriam dadas por escrito depois das sessões. Após sua condenação final ele parecia incapaz de acreditar na injustiça ultrajante dos procedimentos e ainda estava redigindo uma petição para se defender quando foi condenado cerimonialmente, suas vestes sacerdotais foram retiradas, foi cassado em seus direitos civis, e condenado por traição ao imperador, e conduzido para fora para ser queimado na fogueira.

Além de ser o primeiro, Hus foi sem dúvida o mais nobre de todos os grandes reformadores. Ele também foi o mais conservador. Nunca passou pela sua cabeça fundar uma seita. Ele apenas desejava reformar a Igreja sem alterar sua estrutura ou a base de sua teologia. As idéias que ele realmente defendeu, e até mesmo algumas idéias falsamente atribuídas a ele, pouco diferiam das doutrinas e reformas propostas pelo primeiro Concílio Vaticano que muitos esperavam reabilitar a Igreja, mas que, devido à pressão da Cúria papal, recusou até mesmo de levar esse assunto em consideração.

Hus também diferia muito pouco de Gerson e d’Ailly, mas aquele pouco foi importante. Hus baseava-se em sua consciência. Ele recusava negar aquilo que acreditava ser verdade, ele recusava mentir, ou confessar a propagação de idéias que nunca defendera. Gerson e d’Ailly representavam a autoridade. Eles queriam sua submissão independente do julgamento. A obediência para eles era mais importante do que a verdade. Naturalmente, isso significa que eles acreditavam que a Igreja estava fundada na obediência e que a verdade vinha depois. Em certo sentido eles estavam certos. O argumento de George Bernard Shaw em seu prefácio a Saint Joan está correto, embora seja mais aplicável a Hus do que para Joana d'Arc. Embora os maiores teólogos morais da Igreja Católica Romana sempre dissessem que a consciência era primária, isso nunca foi colocado em prática. São João, João Hus, São Thomas More, todos morreram pelas suas consciências, embora a consciência de More preferisse a autoridade do papa à autoridade do Rei Henry. Uma estrutura completamente autoritária requer obediência, aqui não se trata de uma escolha da vontade individual que segue as ordens da consciência, mas a pura e simples obediência a ordens externas. Se a santidade da individualidade da alma e a primazia de sua vontade fosse transformada no fundamento da ação moral, as estruturas autoritárias eventualmente desabariam.

Hus foi um homem de centro, dificilmente pode ser considerado como um radical, e muito menos como comunista, mas com os preparativos de sua morte em Constance, a Boêmia levantou-se em revolta, primeiramente contra a traição do imperador e a injustiça do Concílio e eventualmente contra a Igreja, o império, e contra a própria civilização medieval. A morte desse homem consciencioso precipitou a primeira revolução nacional na história Ocidental.

Quando as notícias da execução de Hus alcançaram Praga, a reforma e o desassossego se transformaram em revolução. Nobres, reis, rainhas, pessoas comuns, eslavos e muitos alemães, todos eram unânimes em condenar o ato do Conselho e a deslealdade do Imperador Sigismund. Os nobres tinham anteriormente redigido um pedido pela libertação de Hus, e depois de sua execução quatrocentos e cinquenta e dois nobres de todas as partes da Boêmia e da Moravia se juntaram em um congresso de emergência em resposta à condenação de Hus pelo Concílio. Eles próprios foram duramente condenados pelo Concílio pela prática Boêmia de comungar com leigos servindo o pão e o vinho nas cerimonias religiosas. Eles recusaram reconhecer quaisquer dos decretos do Concílio. Recusaram obedecer o novo papa a menos que ele fosse um homem de qualidade moral e agisse de acordo com a vontade de Deus. Uma recusa que se estendeu a toda a hierarquia. As decisões teológicas passaram a ser tomadas na Universidade de Praga e estabeleceram a livre pregação em seus territórios. O Concílio respondeu mandando Jerome, um colaborador de Hus, para a fogueira. Jerome já havia abjurado anteriormente, mas movido pelo martírio de Hus, retratou sua abjuração e convocou todos os signatários do manifesto dos nobres a condenar o rei, a rainha, e os principais da universidade de Constance, por heresia.

Com a bênção do Concílio, Sigismund organizou um exército para invadir a Boêmia. O Concílio se desintegrou em abril de 1418 sem abarcar outras questões que não fossem excomunhões e interdições. Em 1419, o Rei Wenceslaus tentou restaurar o Concílio para que continuasse seus ofícios na Igreja e na Universidade, agregando membros anti-hussitas do conselho da cidade. Com a população revoltosa mantida fora da praça da cidade, os oponentes passaram a atirar pedras. Sob a liderança de Jan Zizka, os hussitas invadiram a praça da cidade, pegaram o burgomestre juntamente com vários membros do conselho e os lançaram pela janela, sendo feitos em pedaços pelas ruas. Quando as notícias chegaram ao Rei Wenceslaus ele foi tomado por um ataque apoplético morrendo alguns dias depois.

A primeira defenestração de Praga marcou o começo da guerra aberta. Os alemães e membros do concílio, normalmente os mesmos, foram expulsos de suas propriedades e ofícios por toda a Boêmia. Houve uma breve luta em Praga entre o pequeno exército de mercenários estrangeiros leais à rainha e os hussitas conduzidos por Zizka que capturaram o castelo Vysehrad que dominava a cidade. Os nobres organizaram uma trégua. Os cidadãos restabeleceram o castelo. Zizka juntamente com os reformadores mais radicais deixaram Praga em direção a Pilsen, o centro do poder alemão daquela região. Sem conseguir tomar Pilsen, seguiram em direção ao sul, estabelecendo uma comunidade, à qual deram o nome de Tabor, a colina da Transfiguração de Cristo. Os exércitos da Cruzada papal invadiram a Boêmia e a Morávia vindos de várias direções e em 30 de junho de 1420, efetuaram um cerco à Praga. Todos os partidários hussitas se reuniram em conselho e apresentaram quatro exigências ao papa, que posteriormente passaram a ser conhecidas como os Artigos de Praga, um programa mínimo que permaneceu inegociável ao longo das guerras hussitas, mas que foi adotado quinze anos depois.

I. A palavra de Deus será pregada e proclamada livremente pelo reino da Boêmia pelos pregadores de Deus.

II. O sacramento da santa Eucaristia será administrada livremente tanto na forma do pão como do vinho, para todos os crentes fiéis que não estiverem em pecado, conforme instituído pela palavra de Nosso Salvador.

III. O poder secular sobre as riquezas e bens mundanos em posse do clero contraria os ensinamentos de Cristo prejudicando seu ofício e favorecendo o braço secular, será tomado [do clero] que deverá se restringir aos preceitos evangélicos e à vida apostólica de Cristo e seus discípulos.

IV. Todo pecado mortal, especialmente pecados públicos e outros contrários à lei de Deus devem em todos os aspectos da vida ser própria e razoavelmente abandonados e rechaçados por aqueles que os praticam. Incluindo fornicação, assassínio, roubo, usura, maledicência, superstição. Quanto ao clero, os encarregados dos serviços cerimoniais, os executores dos serviços sacerdotais, devem se livrar de toda imoralidade, e de todo comportamento profano e contencioso.

Exceto para aquele pequeno número de pessoas que não acreditavam no sacramento da Eucaristia, estes pontos representaram um programa mínimo no qual todos poderiam concordar; esse programa consta como o mais antigo documento nos movimentos de dissidência na Europa Ocidental, sendo comum a praticamente todos eles. Esse programa foi integralmente adotado pelos reformadores da ala direitista dos reformadores da Boêmia, que depositaram uma especial ênfase ao direito do leigo à comunhão dupla (no vinho e no pão) e que dali para a frente passaram a ser conhecidos como utraquistos (ou “ambos-istos”) ou calixtines (pelo cálice). A grande importância dessa exigência está ligada à herança dos primeiros dias do cristianismo na Boêmia que fora evangelizada por missionários ortodoxos gregos, e como os ortodoxos praticavam a comunhão dupla, talvez ela nunca tenha sido completamente abandonada. Não havia nada nessas exigências que fosse teologicamente incompatível com a mais rígida ortodoxia católica romana. Mas o terceiro e quarto ponto eram totalmente incompatíveis com sua prática, atingindo em cheio todas as igrejas estabelecidas. Ali também estava implícita a doutrina herética de que a obediência não é devida ao clero imoral e da invalidade de seus sacramentos; embora esta convicção não conste ao pé da letra.

Os emissários do papa e o imperador recusaram até mesmo de discutir os assuntos dos Artigos de Praga e continuaram com o cerco. Zizka venceu e massacrou completamente o exército adversário em uma grande batalha. Diante daquilo as forças papais e imperiais passaram a invadir continuamente todo o pais, e em cada uma destas invasões foram derrotados com grande matança, exceto quando seus exércitos recuavam e corriam sem lutar.

Frequentemente é dito que foi a Revolução Francesa que inventou o exército nacional, o levée en masse de todo um povo. Seu verdadeiro inventor foi Jan Zizka. Embora os taborites formassem o núcleo de uma permanente força de luta, cada cruzada do imperador e do papa reunia uma grande maioria de checos. Zizka introduziu métodos notavelmente modernos de combate que propiciavam um elevado poder de fogo, o exército taborite foi o primeiro a usar sistematicamente a artilharia como principal braço tático. As tentativas de invasão tiveram como resposta uma profunda contra-invasão no território inimigo, desde o princípio a pilhagem exerceu uma parte importante nos suprimentos de Tabor. Zizka nunca pôde controlar completamente as minas de propriedade alemã, ou a cidade de Pilsen que permaneceu como reduto romano. Inicialmente, a maioria dos trabalhadores eslavos que se levantaram em revolta foram derrotados por mercenários alemães. Em Kutna Hora dezesseis mil pregadores juntamente com seus seguidores foram mortos e lançados nas minas.

Zizka iniciou sua carreira cego de um olho e incidentalmente uma flecha cegou seu outro olho. Ele estava completamente cego quanto travou suas últimas batalhas. Ele morreu em 1424 de uma infecção na véspera de uma conquista planejada da Morávia e Silésia. Sua vaga foi ocupada por Procopius que derrotou os alemães em duas grandes batalhas em 1427, os exércitos da Boêmia se tornaram o terror da Áustria, Hungria, Silesia, Saxônia, Brandenburgo, Palatino, e Francônia.

Os exércitos taborites simplesmente cessaram de invadir território inimigo e passaram a conquistá-los, ou seja, deixar guarnições nas cidades e castelos que capitularam. A Boêmia revolucionária ameaçava controlar toda Europa Central. O Papa Martin V convocou um conselho geral em Basel no ano de 1431 para lançar outra Cruzada, que novamente amargou uma derrota opressiva. Os emissários do papa, o imperador, e o conselho iniciaram negociações secretas com os utraquistos, que em nenhum aspecto eram revolucionários no sentido econômico ou social e que constituíam uma das mais instáveis alianças com a Tabor comunista. Os próprios taboritas, inábeis em conquistar o apoio dos camponeses, introduziram uma requisição forçada de alimento, primeiro para o exército e para as cidades, e depois para o estabelecimento de um estilo próprio de exação semi-feudal. Mais de quinze anos de vitórias contínuas se passaram e o próprio exército dava sinais de degeneração, enchendo-se de aventureiros vindos de toda Europa. Eventualmente os taboritas acabaram isolados e derrotados em 30 de maio de 1434, perto da Lipânia na Boêmia quando treze mil de um exército de dezoito mil foram mortos. Tanto Procópio o Grande, como seu tenente em chefe, Procópio o Pequeno caíram naquela batalha.

Os utraquistos, Papa Alexandre VI, e o Imperador Sigismund concordaram em negociar as bases dos Artigos de Praga, e em 1436 eles foram aceitos em toda parte de uma forma ambígua e modificada que permitia o uso opcional do rito romano pela Missa. A Igreja Nacional da Boêmia tomou a forma de uma espécie de igreja mista, unindo o rito ortodoxo com a comunhão com Roma, até depois da Batalha da Montanha Branca em 1620 na Guerra dos Trinta Anos. A partir dessa data essa prática foi abandonada e a obediência a Roma completamente restabelecida. Os próprios utraquistos capturaram Tabor em 1452 quando os militantes taboritas foram forçados a uma existência undergroud, para reemergirem como anabatistas e outras seitas radicais da Reforma iniciada por Lutero. Os pacifistas e os mais estritos comunistas religiosos fundaram a Unitas Fratrum, também conhecida como Irmãos Checos, Irmãos Moravianos, ou Irmãos Unidos, que existem até hoje. Os huteritas também trazem sua ascendência de Tabor.

As contínuas cruzadas papais e imperiais forçaram a formação de uma frente unida e ampla nos grupos de dissidentes reformistas e revolucionários da Boêmia. Sempre que a pressão externa relaxava, essa unidade era demolida pelo partidarismo, às vezes alcançando o ponto de conflito armado. Estas divisões eram definidas claramente por linhas étnicas e de classe.

A maioria dos nobres, ricos comerciantes alemães e proprietários de minas eram pró-Roma. Muitos deles deixaram o país. Outros conseguiram estabelecer-se em pequenos enclaves que nunca foram incorporados pelo estado boêmio revolucionário. A razão disso é que na verdade não havia qualquer estado boêmio revolucionário, nem mesmo um, unificado em termos de uma entidade política em terras checas. Os nobres e magnatas checos somaram-se a alguns alemães formando uma ala direitista no partido utraquista juntamente com o arcebispo e a Rainha Sofia. Para eles os Artigos de Praga não eram um programa mínimo mas um programa máximo. Uma vez secularizada a propriedade da Igreja eles permaneceram socialmente conservadores, bastante contentes com seus privilégios feudais escorados por monopólios e franquias, nada diferente da classe dominante inglesa do tempo de Henry VIII.

No começo da revolução, com o primeiro cerco de Praga, grande parcela do poder político se transferiu para as mãos da classe dos artesãos. Checos em quase sua totalidade, com exceção de certos profissionais como os ourives, eles se aliaram com pequenos nobres checos como Jan Zizka e com a maioria da classe média baixa, que representava um número considerável. Eles eram os militantes utraquistos. Para eles os Artigos de Praga eram um programa mínimo. Esta aliança era antipapa e não tinha nenhuma intenção de restaurar o catolicismo romano, visava uma Igreja Católica livre na qual o papa seria apenas um bispo de Roma, um bispo igual aos demais. Eles rejeitaram a doutrina romana da transubstanciação. A maior parte de seus clérigos adotara a doutrina de Wycliffe da permanência, ou seja, de que o pão e o vinho permanecem inalterados depois da consagração, de forma que o corpo e o sangue de Cristo apenas estão presentes espiritualmente, “como em um espelho”. Eles também rejeitaram a idéia de que a Missa era sagrada e a interpretaram como sendo essencialmente uma comunhão espiritual, um ato congregacional. Eles rejeitaram a estrutura social e econômica do feudalismo; embora começassem a desenvolver uma forma mercantil de capitalismo, sua base no futuro, eles estavam indefinidos sobre o que colocar em seu lugar. Politicamente eles eram democratas, embora líderes como Jan Zizka lentamente introduzissem lideranças da elite clerical, pequenos nobres, e cidadãos prósperos e educados.

O século XV foi uma época de inflação e de instabilidade econômica, especialmente na Boêmia. Praga desenvolveu uma grande classe de desempregados, como também um submundo de semi-criminosos. Tais pessoas, juntamente com os trabalhadores pobres, formavam um proletariado lumpen sempre pronto para revoltas, funcionando como o pavio da extrema esquerda.

Com o passar do tempo, com as notícias sobre a revolução na Boêmia se espalhando pela Europa, os sectários e hereges migraram para Praga — primeiramente das cercanias da Bavaria, do Tirol, e da Renolândia, e eventualmente de locais longínquos como a Lituânia, Inglaterra, e Espanha. Um dos líderes da fraternidade Oreb era um lollardo inglês, Peter Payne. Após o estabelecimento das comunas de Tabor e Oreb, esta migração se transformou em uma inundação. Aparentemente todos os excêntricos e psicóticos religiosos deslocaram-se para a Boêmia. Em 1418 quarenta refugiados de Lisle e Tournai chegaram em Praga fugindo da violenta perseguição em seus países. Os primeiros foram os picardos. Os pikarti, como eram chamados, deram seu nome às formas mais extremas de revolta.

A reação à revolução boêmia no resto da Europa não foi diferente da reação aos red hunts e white terrors do século XX. Os hereges e cismáticos que tinham sido tolerados ou ignorados como inconsequentes pelo Estado, em toda parte passaram a ser caçados, enviados à fogueira, ou linchados pela turba. Aqueles que puderam fugiram para a Boêmia, onde acreditavam que o paraíso terrestre estava em processo de realização. Todos esses diferentes elementos formaram uma classe, a classe daqueles que não tinham mais nada a perder. Contudo, eles não foram outra coisa senão o coração e a alma da extrema esquerda. Seus líderes e porta-vozes eram monges renegados, clero secular anterior, e pessoas alfabetizadas da classe média baixa.

Após seu início, a revolução boêmia não apenas foi deslocada de sua base camponesa, como veio a perder o apoio entusiástico dos seus seguidores camponeses, cuja atitude tendeu mais ao consentimento passivo do que à oposição ativa. Os camponeses estavam interessados na abolição das exações feudais, na redistribuição da terra, e na supressão das incipientes tendências à servidão que atingiria seu ápice depois da Reforma de Lutero. Uma vez conquistados esses objetivos, os camponeses perderam seu interesse na revolução, tornando-se conservadores pelas suas próprias conquistas. Considerando que nem Praga nem Tabor foram capazes de desenvolver novas formas efetivas de produção econômica, a revolução nas cidades foi forçada a retirar recursos do campo, e no caos econômico foi incapaz de proporcionar um retorno adequado ao valor recebido. A restauração do papa e do imperador significou um retorno ao feudalismo. A continuação de seus novos senhores no poder significou novas exações. Os camponeses permaneceram passivos.

A economia de Tabor foi chamada pelos historiadores posteriores de comunismo de consumo, não de produção, mas é difícil compreender como, durante tão longo período, os dois puderam ser mantidos separados. Há recentes estudos sobre o grau de socialização da produção em Tabor mas todos eles ainda estão em checo. Tabor controlou algumas das principais minas de ouro daqueles dias na Europa e sua produção parece ter ocorrido em uma base completamente comunista. Quando a comunidade estava no comando e quando comunidades afiliadas se estabeleciam em outros locais, grandes cofres eram colocados no centro da cidade, as pessoas vendiam todas suas propriedades e colocavam o dinheiro e suas jóias, se possuíssem, no cofre, e posteriormente também seus salários, aparentemente recebidos pelo trabalho efetuado em seus antigos empregos ou comércio à sua moda. A riqueza acumulada era distribuída igualmente para todos os cidadãos da comuna. Como as guerras hussitas foram mais movidas pela pilhagem, elas se expandiram mais pelo saque do que pela conversão, por essa razão as primeiras invasões ocorreram em território alemão. É difícil compreender como essas coisas funcionavam. Historiadores anticomunistas defendem uma grande semelhança àquilo que é chamado de "comunismo de brigand" do tipo que se desenvolveu nas comunidades hereges muçulmanas no Oriente Próximo. A evidência geral, por outro lado, indica que a vida em Tabor, Oreb, e outras comunas transcorreu de uma forma bastante normal, na forma de um comunismo produtivo, e que, considerando as dificuldades, não foi de forma alguma parasitário, ou certamente não mais do que o feudalismo decadente que substituiu. Aqueles que acreditavam em um comunismo puramente parasitário foram expulsos da cidade.

Assim surge o famoso Adamites cuja vida é supostamente retratada no quadro de Hieronymus Bosch, O Paraíso Terrestre. Ele foi celebrizado em nossos próprios dias pelo Big Sur and the Oranges of Hieronymus Bosch de Henry Miller; por toda parte da América jovens transviados se aglomeram nas rodovias, pedindo carona para Adamite que promete uma terra chamada Grande Sul, que eles descobrem consistir de um conjunto de montanhas escarpadas diante do mar, povoadas por nativos hostis que aparentemente sabem dizer apenas duas palavras no idioma inglês: “Move on”.

A maioria dos taborites, a Fraternidade de Oreb, e seus aliados na Nova Cidade de Praga chegaram logo a um consenso geral na revolução. Eles aceitaram a Bíblia numa combinação das doutrinas wycliffitas, waldensianas, e do Livre Espírito. A Bíblia era a autoridade exclusiva de fé e prática; os credos e as traduções da Igreja eram apenas corrupções, da mesma forma que seus ritos e cerimonias, a sagrada Missa, indulgencias e orações pelos mortos, orações pelos santos, confissão auricular, extrema unção, batismo de crianças, e todos acessórios como crisma, bênçãos, água benta, vestuários de Missa, imagens, dias santos, tradicionais cantos de Missa e ofícios de oração. Todas essas coisas negavam a vida da Igreja apostólica. Aquelas pessoas acreditavam, como os waldenses, que o ministério e a autoridade de um padre em pecado era inválido. E não apenas isso, caso fosse necessário, qualquer leigo poderia celebrar a Eucaristia ou ouvir confissões.

A maioria dos militantes, ao longo da história dos dissidentes, foram milenaristas extremados. Eles acreditavam que a Segunda Vinda de Cristo (disfarçado de bergantim) e a destruição universal do mundo mau aconteceria quase imediatamente, primeiramente em 1420; e quando a data passou, foi adiada para mais alguns anos. Em preparação para a vinda do reino era dever da fraternidade dos santos encharcar suas espadas com o sangue dos malfeitores, realmente lavar as mãos com sangue. Após a destruição por atacado, assim como em Sodoma e Gomorra, Cristo apareceria no topo de uma montanha e celebraria a vinda do reino com um grande banquete messiânico para todos os crentes.

Enquanto esse dia não chegava, os taborites antecipavam essa comunhão dos santos promovendo grandes ajuntamentos próximos às colinas e montanhas onde a Eucaristia se tornava um massivo ágape ou festa do amor presidida pelos líderes militares ou religiosos como faziam os messias sacerdotais e reais do Qumran. No reino todos os sacramentos e ritos seriam dispensados e substituídos pela presença real de Cristo e do Espírito Santo, todas as leis seriam abolidas, os eleitos jamais morreriam, e as mulheres iriam parir crianças sem dor e sem relações sexuais prévias. Em 1420 os taboritas quebraram todas as conexões com a Igreja Católica pela eleição secular e pela ordenação de bispos e padres.

A maioria dos taboritas foram extremamente puritanos em sua conduta pessoal, mas uma minoria, influenciada pelas doutrinas do Espírito Livre de Pikarti, acreditava que o milênio já havia chegado. Eles compunham o reino dos eleitos, e para eles todas as leis tinham sido abolidas. Quatrocentos deles foram expulsos de Tabor em 1421 e vagaram nus pelos bosques, cantando e dançando, reivindicando estar no estado de inocência de Adão e Eva antes da queda. Com base nas observações de Cristo sobre as meretrizes e os publicanos, eles consideravam a castidade um pecado e aparentemente passavam a maior parte de seu tempo em contínuas orgias sexuais.

Jan Zizka, que já tinha se retirado da Fraternidade de Tabor, mudou-se para Oreb, uma comunidade menos extremada, passando o resto de sua vida caçando-os. Várias centenas fugiram e se estabeleceram em uma ilha em um rio ao sul da Boêmia, baseados nessa ilha passaram a invadir os bairros vizinhos, incendiando igrejas, matando padres e todos aqueles que opunham resistência. Após um breve cerco Zizka invadiu a ilha e exterminou a todos exceto um prisioneiro que, após escrever uma confissão completa de sua doutrina, foi queimado e suas cinzas lançadas ao rio.

Esse foi o fim da extática e orgiástica comuna dos adamitas. Acusações de desregramentos sexuais e cerimonias ultrajantes, como também assassinato e roubo, foram comuns na longa história da heresia, tais acusações são usualmente tidas como fantasias oriundas das mentes neuróticas de inquisidores celibatários. Mas a história dos adamitas não vem dos inquisidores, mas de homens que foram os próprios hereges revolucionários, que conheceram intimamente os adamitas, e que não tinham nenhuma razão para acusá-los falsamente. As crenças e conduta dos adamitas diferem daquilo que conhecemos dos vários grupos do Espírito Livre no resto da Europa apenas quando comparamos essas crenças e condutas à luz da liberdade de ação brevemente esboçada pelos adamitas em uma situação revolucionária.

Além das secessões de Tabor, com Zizka à direita e os adamitas à esquerda, aqueles que se opuseram à pregação da violência desenfreada se retiraram sob a liderança de Pedro Chelsicky para uma área rural da Boêmia e fundaram uma comunidade pacifista, rejeitando todo uso da força. Para Chelsicky, o poder político e o Estado existe apenas como um mal necessário, como um resultado do pecado original, para manter a ordem no mundo fora da comunidade dos verdadeiros cristãos, onde todas as relações são governadas pela paz e pelo amor. A comunidade que ele fundou não tinha qualquer organização externa; o único laço era o amor e o exemplo da vida de Cristo e dos apóstolos. Estes pacifistas extremados sobreviveram a todas as revoluções e contra-revoluções da reforma boêmia, para se tornar o Unitas Fratrum, os Irmãos Checos.

A vida em Tabor provavelmente teve uma glória especial, a glória de uma sociedade transfigurada, onde a vida era vivida de uma forma tão exultante que se aproximava da loucura. A comunhão era o acordo diário de milhares de pessoas que cantavam ao ar livre nos campos, onde celebravam vastos encontros religiosos no topo das montanhas, com exércitos retornando da batalha, em triunfo, carregados de pilhagem e empunhando troféus como mobílias luxuosas de cardeais e reis, com multidões dançando pelas ruas, com centenas de milhares de inimigos fugindo por cima do gelo quebradiço, com exércitos marchando ao som de hinos em uníssono, com o rugido dos vagões férreos e das rodas dos canhões, com um cálice dourado, em vez de uma bandeira, acima de suas cabeças. Tabor foi o monte onde Barak e Débora juntaram os anfitriões que aniquilaram Sísera, imortalizado em um dos grandes poemas da Bíblia; mas os taboritas também acreditavam que o Monte Tabor foi também o monte da transfiguração de Cristo, o Monte das Oliveiras onde ele pregou o sermão do apocalipse em Marcos 12 antes de começar sua marcha para a crucificação; e finalmente era a montanha da qual ele ascendeu para o céu. Todas essas coisas simbolizavam a natureza da vida vivida em Tabor.

Platão, São Thomas More, Campanella, Harrington, Bacon, todos tentaram imaginar sociedades nas quais a oportunidade para aquilo que a Igreja originalmente chama de pecado seria severamente inibida, onde seria praticamente impossível aos homens procurarem por bens menores imediatos em vez de um último maior bem. Tabor em seus primeiros anos resolveu o problema da utopia negando isso. Os taboritas foram os primeiros a tentar fundar uma sociedade no princípio de que a liberdade é mãe, não filha da ordem. Eles tiveram sucesso por causa de suas contínuas guerras. Na realidade, sem perceber, eles se tornaram uma teocracia militar.

Se o socialismo em um país é deformado e aleijado, o comunismo em uma cidade é impossível em qualquer período de tempo. Cedo ou tarde as amarras da sociedade se afrouxarão, mas o mundo lá fora não. Sempre se espera que isso aconteça, mais especialmente em tempos de paz. Tabor nunca foi capaz de balancear seu comunismo popular de consumo com um comunismo organizado e planejado de produção, nem de trocar bens entre comunas urbanas e comunas camponesas. Por aquele tempo foi amplamente apregoado e acreditado que os checos, quando colonizaram a Boêmia, eram comunistas e que os taboritas foram apenas os restauradores da comunidade original eslava. Isto provavelmente foi verdade. Comunas agrícolas funcionais que foram revivificações das primitivas comunidades camponesas eslavas, como as comunidades russas mir que remontam às aldeias neolíticas, devem ter existido. Quando a Contra-reforma esmagou a degenerada Igreja Utraquista Boêmia, foi o comunismo campônio dos huteritas e dos Irmãos que sobreviveu. A escravidão se estabeleceu na Boêmia em 1487 e alcançou sua forma mais extrema após a Revolta dos Camponeses na Alemanha e a Reforma de Lutero.

 

Copyright 1974. Versão inglesa reproduzida com permissão de Kenneth Rexroth Trust.

[Próximo capítulo]

[Comunalismo conteúdo e índice]

 

 

 

retirado do site: http://www.bopsecrets.org/index.shtml -
(BUREAU  DOS  SEGREDOS PÚBLICOS,  PO  BOX  1044,  BERKELEY  CA  94701,  USA
  www.bopsecrets.org - [email protected]
)

Em tradução livre por Railton Sousa Guedes - Coletivo Periferia
http://www.geocities.com/projetoperiferia
Coletivo Periferia,


[email protected].com

-- Travessa do Anfiguri 47, CEP 08050-570 -- São Paulo - SP

 

 
1