Sob a Luz de seu Olhar
Soninha
2009
Capítulo 4:
- Meninas, hoje não aceito
recusa ao meu pedido - Fernanda pronunciou categórica. As duas se olharam, e concordaram
que diante de tanta seriedade, seria impossível resistir. - Podem tirar esse ar de riso dos
lábios. Estou falando sério. - Não estamos com ar de riso
� Mei tentou defendê-las. - Sei! - Ta certo Fernanda, você venceu.
Qual é o convite? - Valeu Chris! Então, quero
levar as duas lindas mulheres para um almoço. Posso? - Depois do linda, irei onde você
quiser, minha querida! - Mei falou divertida. Fernanda arqueou a sobrancelha, contendo
o ímpeto de dar uma resposta à altura do comentário
jocoso de Mei. Limitou-se a dar um sorriso matreiro, lançando
um olhar intenso, que não foi visto pela ruiva, que displicente,
fechava a revista que folheava a poucos instantes. Chris apesar do momento que estava
vivendo, percebeu o significativo olhar e sorriu intimamente, pois
Mei além de uma grande profissional, era sua melhor amiga
e o que mais desejava era vê-la feliz. Cogitava a possibilidade
de não ir a esse almoço, para que as duas pudessem
ficar a sós - Chris, entendi perfeitamente seu
olhar. Sei que não está com vontade, mas faz um esforço
minha amiga! Você precisa estar bem, se ficar sem se alimentar
isso será impossível. Vai acabar é doente,
isso sim. - Eu sei que você tem razão
Mei, mas é que... pensou em dizer o real motivo de sua recusa,
porém o olhar pedinte de Mei a comoveu. - Ta bom, você venceu. Vamos
almoçar. Vou tentar pelo menos. Fernanda e Mei se olharam, e uma troca
espontânea de sorriso foi inevitável. - Então meninas, vamos? - disse
Fernanda tentando impor um clima mais ameno, como vinha fazendo
desde que sua tia a incumbira de cuidar de sua prima adotiva. A
verdade era que estava se sentindo muito bem, como a tempos não
acontecia. Levou-as a um restaurante recém-inaugurado,
cuja comida era deliciosa. Para todos os gostos. A escolha foi por uma mesa reservada,
de onde podiam contemplar um belo jardim cuidado com esmero e que
transparecia uma tranqüilidade imensa. Mei e Fernanda tentaram manter a conversa
em um tom alegre, na expectativa de distrair Chris, mas esta sabia
que seria um bom momento para deixar as duas amigas a sós
e por esse motivo adiantou-se ao perceber que a intenção
da ruiva era de acompanhá-la, assim que se levantou da mesa. - Mei, sei que quer me proteger, mas
desta vez, gostaria de ter um momento a sós. Preciso disso,
entende? Vou estar bem naquele belo jardim, portanto, não
precisa se preocupar, está bem? - Claro Chris, fica tranquila. Eu
entendo sim. - Obrigada minha amiga! Não
sei o que seria de mim se você não estivesse ao meu
lado, me dando essa força. Abraçou-a na tentativa de tranquilizá-la
e buscou a paz encerrada naquele jardim. Assim que ela saiu, Mei olhou para
Fernanda e só então demonstrou sua tristeza. - Está tentando parecer forte,
mas sei que está estraçalhada por dentro. Dizem que
o tempo cuida de amenizar a dor, mas me preocupo com ela. É
a única família que tenho. - Também vejo isso Meiriene,
mas sei que esse momento é único na vida dela e só
ela poderá ultrapassá-lo. A nós, cabe apenas
apoiá-la e estar presente, ainda que de forma silenciosa. - É, você tem razão.
Mas me diga Fernanda, conhece a família de Chris a muito
tempo? Fernanda abaixou o olhar e suspirou.
� Desde pequena. Lembro que estava na varanda da casa de tia Carmem,
quando vi o caminhão de mudança sendo descarregado
na casa à frente. No início não gostava de
Chris, pois ela tinha uma facilidade de se entrosar e isso me incomodava.
Eu era quase um bicho do mato, como titia dizia. - Mas acabou se entendendo com ela? - Sim. Quando já éramos
adolescentes. Um dia, na escola, algumas colegas que não
gostavam de mim, resolveram me humilhar na frente de quase todo
colégio. Falaram que eu era anormal, uma aberração
e que devia ser por isso que minha mãe tinha morrido quando
nasci e meu pai desaparecido no mundo. - Mas que maldade! - Pois é. Tentei argumentar,
mas elas foram cruéis demais. Foi quando senti uma mão
segurar firme na minha, e quando olhei, Chris estava encarando as
meninas. - Bem próprio dela mesmo -
sorriu Mei. � Fica fora de si quando vê injustiça.
Mas e aí? - A facilidade de argumentação
dela acabou desbancando as garotas, e sem diminuí-las, disse
verdades que as deixaram sem palavras. E acrescentou que anormal,
aberração, era quem não tinha capacidade suficiente
para entender e se não pudesse entender, pelo menos tivesse
a dignidade de respeitar as diferenças. E ainda afirmou categórica
que eu era a melhor amiga dela e que da próxima vez, tomaria
providências para que esse tipo de situação
não acontecesse mais. - Tenho orgulho dela. Sempre foi corajosa,
destemida, guerreira. - Nos tornamos amigas de fato e passei
a freqüentar a casa dos Rossi. Até hoje, ainda não
encontrei um casal como os pais de Chris. - Do que está falando Fernanda? - Do amor Meiriene, do amor que os
unia. Um respirava pelo outro, era lindo ver a interligação
entre eles, a sintonia. Se um deles tivesse sobrevivido ao acidente,
não viveria por muito tempo. - Chris sempre que falava sobre eles,
dizia isso. Só em imaginar, sentia uma vontade imensa de
poder nascer de novo, como filha deles. Queria tê-los conhecido. - Era gostoso ver como eles criavam
momentos românticos, como namoravam. Pareciam dois adolescentes
descobrindo a paixão, o amor. Tinham as desavenças,
mas a paciência e o conhecimento mútuo as ultrapassava
- relembrou saudosa. - Depois dessa tragédia Meiriene, parei
para analisar minha vida, rever meus conceitos. Percebi que sempre
desejei um amor assim, intenso, puro, verdadeiro, que antes de os
conhecer, pensava ser um privilegio apenas dos contos de fada. Mas
relembrar o casal, me fez acreditar que o amor existisse de fato
e é perfeitamente possível. A pouco tempo, venho sentindo
por alguém essa vontade louca de amar com todo meu coração,
para mim a felicidade plena se meu amor fosse correspondido, mas
creio que será impossível! Fernanda abaixou a cabeça entristecida,
e refugiou-se em seus pensamentos. �Como reagiria Mei, se soubesse que
você é essa pessoa? Só em pensar que posso não
vê-la mais, sinto a angústia me abater. Tenho medo
de dizer o que sinto e você recusar meu amor�. - Fernanda, você está
bem? Fernanda acordou de seus pensamentos,
ao sentir a mão delicada de Mei em seu braço. Tal
gesto a fez estremecer internamente. - Que foi Mei? - Perguntei se você está
bem? - Sim, estou sim. Só estava
pensando. Só isso. - Eu percebi. Mas olha, você
só saberá se ela vai te querer ou não se disser
o que sente. Fernanda levantou-se sobressaltada,
ficando de costas para Meiriene, fitando o jardim, na vã
tentativa de acalmar seu coração. - Como você sabe o que eu estava
pensando? - Calma Nanda. É que por acaso,
seu pensamento foi alto o bastante pra eu ouvir. Fernanda voltou a sentar, levou as
mãos ao rosto, e não pode controlar as lágrimas
que se seguiram. Mei aproximou sua cadeira, e apenas a abraçou,
afagando-lhe os cabelos. - Está tudo bem. Só
quero que saiba que, pode estar enganada e que seu sentimento pode
ser correspondido. Fernanda ouviu aquilo sem acreditar.
Secou as lágrimas e devagar ergueu o rosto até olhá-la
nos olhos. - O que você disse é
verdade? - Claro que é. Só espero
não estar enganada quanto à pessoa que ouvi... - sorriu
timidamente, abaixando o olhar. Logo sentiu dedos macios erguendo
seu queixo. Fernanda nada disse, apenas fitou
o rosto de Mei, percorrendo milímetro a milímetro,
só parando quando seu olhar encontrou os lábios tão
desejados. Delicadamente percorreu-o com a ponta de seu dedo, e
devagar se aproximou para tocá-los com os seus. A ruiva fechou
os olhos em expectativa. Um beijo cheio de ternura e sentimento.
Separaram-se e um sorriso encantador
aflorou no rosto de Fernanda. - Como desejei esse beijo Mei! Por
mim não pararia mais de te beijar! - Bom Doutora, confesso que já
estava quase precisando de um atendimento de urgência, pois
não sabia o que fazer pra chamar sua atenção. - Ah é, Senhorita? Se tivesse
percebido esse seu desejo antes, não teria sofrido por antecipação,
com medo de te perder. - Nanda, você não vai
me perder. Agora que te encontrei, não permitirei que nos
percamos mais uma da outra. - É bom ouvir isso minha Linda.
Você não sabe o quanto é bom ouvir. - Nanda, só preciso de um tempo
para falar com Chris, pois nesse momento, acho que não devemos
expor nossa felicidade, quando ela está vivendo exatamente
o oposto disso. - Tudo bem Mei, não precisamos
dizer nada por enquanto. Quando você achar que deve, então
esse será o momento certo. - Se conheço bem a percepção
de minha amiga, ela já deve ter notado algo no ar. Mas vou
aguardar pra ver quando posso falar com ela. - Acha que ela percebeu alguma coisa? - Sem dúvida. Essa saída
dela foi proposital, tenho certeza absoluta. Mas vamos deixar pra
confirmar isso depois. Agora vem cá, aproveita que estamos
em um local mais reservado, e me dá mais um beijo? - Não precisa pedir minha Linda,
dou quantos você quiser! O beijo foi apaixonado e antes que
perdessem a noção de onde estavam se separaram, bem
a tempo de verem Chris se aproximando. - Está tudo bem Mei? - Claro Chris, tudo bem. Porque? - Nada. É que vocês estão
diferentes. - Mei está preocupada com você
Chris, estava me falando um pouco de como se conheceram e se tornaram
grandes amigas... - Fernanda tentou ajudar. - Entendi. Realmente, somos grandes
amigas. Mei tem sido e sempre será a irmã que não
tive. Chris a olhou com carinho e a abraçou
afetuosamente. Mas não deixou de sussurrar provocativamente
ao seu ouvido: - Quero que me conte direitinho essa história,
viu senhorita Mei! Esses lábios vermelhos não me enganam. Olhou para Mei que estava rubra, sorriu
ternamente para ela, que retribuiu. - Obrigada Chris. Depois a gente conversa. - Assim é melhor. Olhou para Fernanda que ficou encabulada
com o que presenciou, e perguntou em tom maroto: - Doutora, será
que se importa em irmos pra casa agora? Fernanda olhou para Mei e esta fez
que estava tudo bem, apressou em responder: - Claro que não
Chris. Eu as deixo em casa. - Obrigada Doutora. Mas quero você
à noite lá em casa. Retribuiremos a gentileza desse
almoço, não é Mei? - as duas boquiabertas, permaneceram de pé, enquanto
Christyene caminhava sorrindo internamente, apreciando o efeito
causado por seu convite. Fernanda estava estática vendo
tudo acontecer. Só percebeu Mei colada a seu corpo, ao sentir
os lábios dela sobre os seus. - Está tudo bem Fernanda? - O que foi que vi aqui? Ou será
que entendi errado! - Não, não entendeu
errado. Como te disse, Chris tem um senso de percepção
aguçado, e disse pra mim que quer saber o porque de meus
lábios estarem tão vermelhos... Fernanda reconheceu tímida.
- Ó Mei, esquecemos desse detalhe... - sorriram juntas. Um beijo cheio de promessas, e preanunciando
a saudade que já se instalara em seus corações
aconteceu. Chris estava de braços cruzados,
encostada no carro. Embora sua tristeza fosse grandiosa, não
conseguia deixar de vibrar por ver aquele brilho nos olhos de sua
melhor amiga. Mei abriu o carro sem nada dizer.
Sabia que assim que estivessem sozinhas, a curiosa amiga, não
tardaria em enchê-la de perguntas. Fernanda as deixou em casa, avisando
que traria o vinho para o jantar.
Continua...
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