Feitiço Grego 

A.L. Benner

 

Parte VIII

Mariana levantou cedo e foi para a universidade apenas com um copo de leite no estômago; e isso depois de muito insistir a Sra. Petrakis. Ela se recusava a pensar em qualquer outra coisa que não fosse arranjar um emprego. Percebia que se deixasse, a imagem de Kristin lhe tomaria toda a mente e se recusava a ceder a essa tentação.

Procurou nos murais da faculdade e perguntou a alguns colegas se eles sabiam de algum trabalho. Qualquer coisa serviria. Mas os dias foram passando e nada surgia. Já estava começando a desanimar quando seu amigo Manolis falou-lhe de um trabalho como garçonete no Restaurante Stergiou, que pertencia a um amigo da família dele. Era um lugar pitoresco, decorado com muitas fotos e réplicas dos famosos monumentos gregos. Recebia muitos turistas e ficava na Visilissis Sofias, uma avenida bem perto da universidade. O dono, Sr. Kyriakides, era um grego enorme, barbudo e simpático que recebeu Mariana muito bem, dando-lhe o emprego.

"Se você é amiga de Manolis, não me importo de quebrar umas "regrinhas" de imigração e dar-lhe o emprego." � ele disse, piscando um olho.

"Obrigada, Sr. Kyriakides." � ela exultou.

Ela começou a trabalhar na semana seguinte e mudou um pouco seus horários de estudo, mas não teve problemas para fazer as duas coisas. Gostou do trabalho e estava conseguindo administrar seu tempo. A primeira semana foi bastante agitada e Mariana achou ótimo estar tão ocupada. Assim evitava pensar em Kristin.

Mas por mais que se ocupasse, ela ainda pensava na morena com insistência. Sentia vontade de procurá-la, de tentar entender seus sentimentos em relação àquela mulher, mas não tinha coragem. Seu coração disparava toda vez que lembrava daqueles olhos estonteantes.

Lembrava-se das frases misteriosas da Sra. Chalandri e sua pele se arrepiava só de pensar nas sensações que sentira dentro da caverna. Porém Kristin não a procurou mais, e isso deixava a jovem estudante com o coração oprimido. Suas tentativas de não pensar na bela grega eram praticamente inúteis.

 

*******

 

Trabalhando no restaurante, Mariana acabou se aproximando mais de Manolis. Ele era amigo de seu patrão e jantava ali várias vezes por semana. E Mariana percebeu que um rapaz da universidade estava sempre com ele, porém ela não o conhecia. Com o tempo acabou sabendo que o nome dele era Ioannis. Os dois sentavam-se sempre na mesma mesa, que o Sr. Kyriakides deixava reservada para eles, e ficavam conversando alheios ao mundo. Ela então começou a prestar atenção ao comportamento dos dois. Notou que na universidade também estavam o tempo todo juntos. E estavam sempre com Gyni e Nea, que também não se desgrudavam.

"Será que eles são gays? � questionou � Afinal estão sempre grudados. "

Ela os observou com mais atenção numa noite em que apareceram os quatro para jantar e constatou que sua desconfiança era provavelmente verdadeira. Sentiu curiosidade e vontade de se aproximar dos quatro, de ficar mais amiga deles. Era como se o fato de descobrir que seus amigos eram gays os tornasse mais confiáveis. Era estranho para Mariana pensar assim, mas sentia que poderia confiar neles.

"Oi, gente! Estão precisando de alguma coisa?" � ela se aproximou da mesa perguntando.

"Você adivinhou, Mari. Queremos mais retsina. Pode nos trazer uma garrafa?" � Ioannis pediu.

"Claro! Mais alguma coisa?"

"Eu queria mais uma salada, Mari." � Gyni pediu também.

"Ok. Já volto com os pedidos." � ela anotou tudo e saiu.

Manolis ficou olhando para a loirinha que se afastava com aquele ar perscrutador que lhe era peculiar.

"O que foi?" � Nea perguntou.

"Acho que Mari é gay." � ele respondeu calmamente, espetando um pedaço de carne com o garfo.

"Ah, pára com isso! Você tem mania de achar que todo mundo é!" � Ioannis retrucou.

"Ah, é? Então me diz uma única vezinha em que errei meu diagnóstico?" � ele quis saber, desafiando o namorado.

"Humm, acho que nenhuma." � Ioannis teve de admitir.

"Está vendo só? E fica me recriminando!"

"Por que acha que ela é gay?" � Nea quis saber.

"Porque tem algo nela que me diz que é. É discretíssima, mas tem aquele toque sutil que meu radar detecta a quilômetros! Mas acho que nem mesmo ela sabe ainda."

"Ahá! E você sabe que ela é gay antes mesmo dela saber que é? Duvido!" � Gyni duvidou dele.

"Ah, é? Então observe. Vou convidá-la para ir conosco à festa do Ted. E vou dizer que é uma festa gay. Se ela topar e não sair de lá escandalizada, estará provado que é gay!"

"Mas o fato de não ficar escandalizada numa festa gay não significa que se é gay!" � Ioannis argumentou.

"Mas tenho certeza de que não será só isso que vai acontecer!" � Manolis riu, tendo certeza do que dizia.

Ele sentia uma simpatia muito grande pela lourinha brasileira e tinha notado que ela estava muito triste nas últimas semanas. Era amigos, mas como ela não se abria, preferiu deixar a iniciativa para ela.

Mariana vinha voltando com os pedidos e eles se apressaram em disfarçar.

"Ei, Mari, amanhã será sua folga? Vamos a uma festa. Quer ir conosco?" � Manolis se apressou em convidá-la enquanto ela servia o vinho aos quatro.

"É minha folga sim. Mas não é uma daquelas festas apinhadas de gente da universidade, que fica se matando de beber, é?" � ela perguntou.

"Não. É uma festa gay." � ele falou e ficou esperando a reação dela.

A lourinha continuou servindo o vinho e demorou dois segundos para responder. Mas foi tempo suficiente para pensar milhares de coisas: "Uma festa gay? Será que tenho coragem de ir? Será que eles são mesmo gays? Será que desconfiam de mim e por isso estão me convidando?"

"Você já deve ter ido a festas assim quando estava na faculdade, não?" � Nea perguntou, quebrando o silêncio.

"Na verdade, não. Eu nunca fui muito de ir às festas que o pessoal fazia. Eu até tive alguns amigos gays na faculdade, mas eles nunca me convidaram para ir a alguma festa que fizeram. Mas eu gostaria de ir sim. Acho que vai ser um programa diferente e eu estou precisando me distrair."

"Ótimo! Podemos nos encontrar na saída do metrô, as nove e meia. Depois levamos você para casa." � Manolis concluiu e piscou para Ioannis.

 

 

*******

 

Mariana entrou na festa com o coração aos saltos. "Como é diferente estar num lugar como esse!", pensou. De cara viu um casal de rapazes de mãos dadas e namorando num canto da sala. Eles conversavam distraídos e Mariana disfarçou o olhar curioso. Se a vissem, se sentiriam invadidos em sua privacidade, afinal ninguém os estava observando a não ser ela.

O apartamento tinha duas salas amplas, além da sacada espaçosa, e comportava bem os convidados, que não eram muitos. Manolis foi entrando na frente e puxando-a pela mão. Apresentou-a ao dono da casa, Ted, e ao namorado dele, Petrus, que a receberam com sorrisos efusivos e fizeram questão de deixá-la à vontade.

"Sinta-se em casa, querida. Manolis providencie para que nossa amiga não se sinta deslocada e não tenha sede." � Ted exclamou e saiu, pedindo licença para ir falar com outro convidado.

Os cinco formaram uma roda perto da saída para a sacada e ficaram conversando. Mariana estava se sentindo ótima naquele ambiente. Viu várias meninas pelo apartamento; e como era novidade ali, percebeu que algumas a olhavam curiosas. Começou a observar pequenas diferenças no comportamento e na aparência de cada uma. Algumas se vestiam de forma andrógina, enquanto outras eram extremamente femininas. E ficou pensando que se fosse realmente lésbica, em qual grupo se encaixaria, pois nunca tinha notado essas diferenças.

"Pronto, já estou querendo me classificar com lésbica só porque vim a uma festa gay!", ela se repreendeu em pensamento enquanto aceitava o copo de retsina que Manolis lhe oferecia.

"Mari, querida. Acho que nem preciso dizer, pois você já percebeu que somos todos gays aqui, não é?" � ele perguntou, interrompendo seus pensamentos.

"Manolis!" � Ioannis ficou vermelho e beliscou o braço do namorado. Gyni e Nea deram goles enormes nos próprios drinques tentando disfarçar o embaraço.

"Ai! O que é que tem? Vamos ficar a noite toda fingindo que não estamos entendendo nada? Mari não é boba!" � Manolis esfregou o braço beliscado.

"É, eu já percebi, sim. E agradeço vocês por confiarem em mim." � Mariana respondeu e sorriu.

Os cinco amigos entreolharam-se e riram. Já que não havia mesmo outro jeito, agora estavam todos mais à vontade.

Durante a festa, Mariana percebeu que estava sendo paquerada por uma linda moça que estava em outra roda de amigos perto deles. Quando notou os olhares da outra, ficou sem saber o que fazer e muito menos o que sentir, mas depois percebeu que estava gostando daquilo. E estava gostando muito! Sentiu-se lisonjeada por estar recebendo os olhares interessados de uma mulher bonita.

"Aquela menina ali está te paquerando." � Mariana ouviu o cochicho de Manolis em seu ouvido.

Sem esperar pela constatação do amigo, sentiu-se pega de surpresa e percebeu o calor do embaraço lhe subir pelo pescoço.

"Err... imagine, Manolis!" � ela gaguejou, tentando disfarçar.

"Querida, eu entendo dessas coisas. Ela está te paquerando descaradamente!" � ele retrucou.

"Mas eu não sou..." � ela ia dizer que não era gay, mas parou no meio da frase.

"Será que não sou mesmo? Então porque estou gostando da paquera da outra? Porque não sinto falta dos galanteios de um homem e penso desesperadamente em Kristin?", pensou, confusa.

"...gay? Tem certeza disso, meu bem?" � o amigo completou a frase, como que lendo sua mente.

Ela olhou-o e tomou uma decisão. Aproveitando que os outros três estavam distraídos a conversar com o dono da casa, puxou o rapaz pela mão e levou-o até a sacada, onde poderiam conversar sem o barulho da música.

"Não, eu não tenho certeza, Mano. Desde que cheguei a Atenas estou atormentada com essa idéia. Acho até que estou ficando louca! Nunca senti atração por qualquer mulher, mas conheci uma que está me tirando o sono. Não consigo parar de pensar nela! E agora vocês me trazem para essa festa e me descubro adorando estar aqui e ser paquerada por aquela moça!" � ela desabafou, encostando-se na grade de ferro da sacada e cruzando os braços.

"Oh, meu bem! Não fique assim. Você só está descobrindo que é diferente. Com todos nós é assim! Não crescemos ouvindo nossas mães dizerem que somos gays e que seremos felizes ao lado de alguém do mesmo sexo. Ouvimos o contrário e acreditamos nisso. Por isso é tão difícil aceitar." � ele chegou perto dela e abraçou-a pelos ombros.

"E se for só coisa da minha cabeça? Eu sinto que estou apaixonada como nunca estive, mas não tenho certeza se isso será bom para mim! Tenho medo de me ferir, de ser rejeitada." � ela disse, angustiada.

"Não se preocupe e não apresse as coisas. Não se precipite, nem para dizer que é gay e nem para dizer que não é. Descubra devagar. Escute o que seu coração diz a respeito dessa mulher que você conheceu. Aja com calma e espere as coisas acontecerem." � Manolis aconselhou, ainda abraçado com ela.

Desde que saíra de casa, do Brasil, não se sentia protegida daquele jeito. Como era bom ter alguém para lhe ouvir; alguém com quem dividir seus medos e angústias!

"Obrigada, Manolis!" � ela balbuciou, esticando-se e dando um beijo no rosto dele.

"Mas pode desistir, pois já passei da fase de dúvidas. Sou "casado", não se esqueça!" � ele brincou.

"Seu bobo!" � ela riu, batendo de leve no braço dele.

Depois daquela festa, Mariana foi aceita na turma e passou a conviver mais com os quatro. Ficou mais ligada em Manolis e em Gyni, pois foi com os dois que se sentiu mais à vontade para dividir suas dúvidas. Ioannis também era um bom amigo, mas com Nea ela não teve muitas afinidades. Em pouco tempo soube por Manolis que Gyni e ela brigavam muito, por conta das escapadas de Nea. Mariana via que Gyni sofria muito com isso e preferia não julgar, mas achava o comportamento de Nea, no mínimo repreensível.

 

*******

 

Num domingo bem cedo, ela estava chegando na pensão após ter trabalhado quase a noite toda. O restaurante teve um movimento enorme por causa de vários grupos de turistas e isso coincidiu com o pedido de uma colega para trocar de horário, pois ia visitar os pais no interior; por isso ela havia feito jornada dupla. Tinha dormido na casa de Manolis e voltava para a pensão no primeiro horário do metrô.

Ao se aproximar da propriedade, viu a égua de Kristin amarrada no enorme portão de entrada. Seu coração quase saiu pela boca ao vê-la encostada no muro de pedra. E foi naquele exato momento em que Mariana teve certeza: seu destino era mesmo Kristin! Não sabia de mais nada, a não ser que amava aquela mulher com todas as forças que lhe corriam nas veias. O coração aos saltos lhe dava a certeza de que pertencia a ela. Sim, pertencia! Mas não era um pertencer de posse, de mando, era algo tênue, mas tão certo quanto o fato de estar vendo-a diante de si.

"Eu estou apaixonada! É isso; tenho de admitir para mim mesma!" � ela pensou, vendo Kristin se aproximar dentro daquele traje de montaria que a deixava ainda mais linda.

De seus vinte e dois anos parcamente vividos emocionalmente, não conseguia desenhar o significado disso em seu coração, mas a certeza de que amava Kristin Yalouris se instalou nele de forma perene. Agora não tinha qualquer dúvida.

Não podia mais negar nem para si nem para Kristin o que estava sentindo. Se fosse rejeitada, teria de agüentar, mas precisava falar. Ela viu duas chamas azuis sobre ela e quando percebeu, estavam tão perto que perdeu a respiração por um instante. E aqueles olhos estavam indecifráveis. Mariana não conseguiu definir qual sentimento ou sensação pairava naquele olhar que lhe atravessava a alma.

Kristin tinha a respiração pesada e ofegante. A proximidade de Mariana só lhe confirmava o que vinha se definindo em sua mente nas últimas semanas: o momento em que Mariana aceitaria a verdade que estava chegando. E o oráculo da Deusa lhe dizia que ela deveria estar lá, no exato momento em que isso acontecesse. Ao ver Kristin, os sentimentos de Mariana se confirmariam para ela própria e não mais haveria medo; apenas amor.

O momento chegara e ela estava ali.

"Oi." � foi a única coisa que conseguiu dizer.

"Oi." � Mariana respondeu, arranjando coragem para lhe encarar nos olhos.

Os segundos passaram e elas estavam diante do portão da pensão olhando-se como se todos os relógios do mundo tivessem parado naquele instante. Obedecendo a uma vontade maior que sua razão, Kristin levou a mão ao rosto de Mariana e tocou-o devagar, sentindo na ponta dos dedos o calor da pele dela. Viu-a fechar os olhos e só não a beijou porque estavam em plena rua.

Mariana tremia por inteiro. Sentia a respiração de Kristin a centímetros de sua boca e aquela sensação que lhe subia pelo abdômen quase a fazia desmaiar.

"Eu vim para conversarmos." � ela ouviu Kristin dizer num sussurro e ainda tocando seu rosto.

Lembrou que estava de olhos fechados e sentiu-se ruborizar até a raiz dos cabelos.

"S-sim, eu gostaria muito, Kristin." � foi o que conseguiu responder.

"Então venha comigo." � Kristin convidou, pegando-a pela mão e levando até sua montaria.

 

Continua na Parte IX (Final)

 

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