Feitiço Grego

A.L. Benner 

Parte VII

 

Entrando na sede, viu Eleftheria sentada no sofá da sala.

"Elef, precisamos conversar."

"Se for sobre essa loura brasileira, nem precisa começar." � a outra retrucou, cruzando os braços e fulminando-a com o olhar.

Eleftheria era uma mulher inteligente e já começava a perceber o interesse de Kristin por Mariana.

"É sobre nós."

"Mas tem a ver com ela, eu sei disso, Kristin. Não precisa disfarçar."

"Se tem tanta certeza assim, porque se recusa a conversar?" � Kristin bufou.

"Porque não quero perdê-la para ela." � Eleftheria fixou o olhar na morena, como que querendo adivinhar seus pensamentos.

Kristin se compadeceu. Sabia o que tinha de fazer e o faria, mas aquilo já estava lhe doendo muito.

"Elef, não quero arranjar justificativas. Não seria correto com você. Quero que volte para a casa de seus pais. Será melhor assim."

A jovem baixou os olhos e soube que não teria mais volta. Sentiu a onda de lágrimas lhe invadir os olhos, mas não conseguiu sair de onde estava.

"E o amor que sentia por mim? Acabou?" � ela perguntou depois de um tempo.

"O que vivemos nunca será desfeito, Elef. Tinha que acontecer e já se foi o seu tempo. Apenas acredito nisso. Vou continuar amando você, mas não da forma que gostaria." � Kristin respondeu, acariciando os cabelos negros.

A jovem grega aninhou-se nos braços da fazendeira e ficou ali por um longo tempo. Sua avó já havia lhe dito que esse tempo chegaria, mas ela nunca tinha acreditado. Não costumava levar a sério as predições da velha, mas agora que perdia Kristin, tinha de reconhecer que ela sempre estivera certa.

Na manhã seguinte, Mariana desejou com todas as forças que aquilo tudo tivesse sido um pesadelo apenas. Mas não era. Ela olhou-se no espelho e viu imensas olheiras escurecendo-lhe os olhos pela noite praticamente sem dormir. Ela tinha ciência de que ainda teria de enfrentar as perguntas da Sra. Petrakis a respeito do passeio. Conseguira fugir dela na noite anterior, mas não conseguiria naquela manhã de segunda-feira que se mostrava radiante, apesar de seu coração estar em frangalhos.

"O que houve comigo?", ela pensava enquanto a água morna do chuveiro lhe escorria pelo rosto cansado. Ainda não conseguia atinar com o que tinha acontecido. Lágrimas grossas se misturaram com a água do banho e a jovem encolheu-se junto à parede fria, abraçando o próprio corpo. "Como queria estar na sua verdadeira casa naquele momento. Como queria que sua mãe entrasse pela porta e a abraçasse.", ela pensava.

Terminou o banho e enxugou-se, escovando os cabelos para trás para que secassem, mas ainda estava com um aspecto horrível.

"Não adianta. Vou ter de enfrentar a Sra. Petrakis." � ponderou, descendo para o refeitório.

Algumas meninas já estavam por ali e Mariana pensou que se comesse algo antes de conversar com sua anfitriã, talvez se sentisse mais forte. Foi até o pequeno buffet onde se podia servir do café da manhã, pegando um copo de suco e um bugatsa (iogurte folheado com nata ou fruta).

A Sra. Petrakis já vinha em sua direção quando Kristin entrou pela porta do refeitório. Foi da mesma maneira quando Mariana vira a morena pela primeira vez. A impetuosidade marcada por cada passo que ela dava ecoava nos ouvidos de Mariana. Dela emanava a presença majestosa de uma mulher de beleza sem precedentes.

Mariana percebeu que seu coração estacou por alguns momentos. Ele não seria capaz de bater normalmente diante de tanto sentimento. Os olhos azuis cravaram-se nela e a jovem confirmou naquele momento que amava aquela mulher de forma definitiva.

"Kristin! Que surpresa, querida! Por que não avisou que viria para o café?" � a Sra. Petrakis atalhou, abraçando a sobrinha.

"Na verdade eu vim para conversar com Mariana, tia. Por isso não avisei." � ela respondeu, sem tirar os olhos de Mariana.

"Então venha comigo até a cozinha depois você se senta com Mariana e podem conversar." � a mulher respondeu, observando disfarçadamente o clima que pairava entre as duas.

"O que houve ontem à tarde? Vocês duas parecem que viram um fantasma!" � a Sra. Petrakis perguntou, ainda arrastando Kristin para a cozinha.

"Ela já sabe, tia. Não tudo, claro, mas já está sentindo que me ama e está sofrendo por causa disso."

"Tenha calma. O que veio fazer aqui então?"

"Consultei o oráculo ontem à noite e sei que devo levá-la até a Caverna de Petris." � Kristin respondeu.

"Tem certeza de que foi isso que viu no oráculo?" � a Sra. Petrakis perguntou, duvidosa.

"Sim, tia. Tenho certeza. Lá ela sentirá que estamos ligadas e isso vai ajudar a dar mais um passo."

"Tudo bem. Eu confio no seu julgamento."

"Peço então a sua benção, mestra." � Kristin pediu, baixando a cabeça.

"Que a Deusa a abençoe, filha."

A Sra. Petrakis colocou a mão na cabeça da sobrinha e fez sua oração.

 

Mariana ainda estava de pé ao lado do buffet e ali ficou. Não conseguia se mover ou falar qualquer coisa. Kristin saiu da cozinha e aproximou-se, pegando um koulouri.

"Podemos nos sentar ali?" � ela apontou uma mesa.

"S-sim." � Mariana conseguiu gaguejar.

Elas sentaram-se em silêncio. Não conseguiam se olhar, mas Kristin percebia o quanto Mariana estava confusa.

"Kristin, eu... eu..." � ela tentou falar.

"Não quero que diga nada. � Kristin atalhou, tentando passar tranqüilidade na voz permeada por um sorriso doce. � Quero que venha comigo a um lugar que não visitamos ontem."

"Mas... que lugar?" � Mariana ficou incrédula diante daquele convite inesperado e fora de hora.

"Quero que veja. E sinta. Pode vir comigo agora?" � a morena respondeu de forma misteriosa.

"Eu... eu... claro, posso ir, sim." � Mariana respondeu quase que automaticamente.

Mariana subiu as escadarias como se estivesse indo salvar a própria vida. Seu coração pulava no peito e por mais que tentasse, seu raciocínio não lhe dava uma resposta plausível para aquele convite.

O mais rápido que pôde, ela colocou uma calça confortável e um tênis. Lembrou apenas de usar uma camisa de mangas compridas para se proteger do sol e desceu tão rápido quanto subiu.

Encontrou Kristin já no quintal, ao lado dos cavalos. Em silêncio, a morena entregou-se as rédeas do animal e os dedos delas se tocaram. Por um momento ínfimo Mariana experimentou uma sensação de plenitude. E levantando os olhos para Kristin, percebeu que o toque também provocara algo nela.

Mas a morena montou, saindo em direção aos campos de oliveiras e Mariana apenas seguiu-a, sem se atrever a falar. Parecia a ela que se falasse, quebraria aquele encanto que por alguma obra divina estava acontecendo.

Elas cavalgaram na direção oposta àquela que seguiram no primeiro passeio. Iam por uma estradinha íngreme e cheia de pedras soltas; ladeada por uma vegetação rala e retorcida, bastante típica dos arredores de Atenas. Os cavalos eram acostumados com aquele terreno e Mariana só percebeu o quanto haviam subido quando, em uma curva, olhou para trás. Estavam chegando no alto de um platô extenso e ela viu ao longe uma pequena aglomeração de casas quase escondidas atrás de uma fileira de árvores. Parecia uma vila.

Num certo trecho próximo a uma escarpa rochosa, Mariana viu de longe a entrada de uma caverna. Nisso Kristin apontou, dizendo:

"Aquele é o lugar que quero que conheça."

"O que tem lá?" � Mariana perguntou, finalmente tomando coragem e olhando para a morena.

Kristin apenas sorriu, deixando-a sem resposta.

Elas tiveram de desmontar e ir puxando os cavalos pelas rédeas, pois havia perigo deles escorregarem nas pedras. O cansaço de Mariana tinha simplesmente sumido; parecia que tinha dormido a noite toda.

Contornaram uma rocha arredondada e Kristin avisou que teriam de deixar os cavalos ali, amarrando os dois num arbusto que crescia retorcido entre as pedras. Elas seguiram a pé por mais alguns metros e logo Mariana viu-se diante de uma imensa abertura na rocha. A entrada da caverna se abria num vão de mais de cinco metros de altura e alguns metros adentro, várias estalactites se formavam no teto úmido.

Mariana ficou olhando para aquele lugar e uma sensação do já conhecido invadiu-a como quando vira Kristin pela primeira vez. Foi algo tão forte que ela chegou a ficar sem fôlego.

"Eu já estive aqui." � ela murmurou para si mesma, tocando instintivamente a parede de pedra áspera.

Kristin olhou-a e ia dizer algo, mas calou-se, seguindo adiante, onde a luz natural já ia ficando para trás. Ela tirou do bolso uma lanterna e foi trilhando o caminho em direção do fundo da caverna, caminhando com a segurança de quem já tinha visitado o lugar muitas vezes. Quanto mais Mariana adentrava aquela imensa obra de arte da natureza, mais sentia o coração pulsar e lhe confirmar aquelas sensações estranhas.

"É ali." � Kristin apontou para uma espécie de plataforma formada pelas pedras que ficava uns dois metros acima do piso da caverna.

Mariana escalou a rocha com a ajuda de Kristin e elas chegaram juntas no lugar que a morena havia indicado: a mesma plataforma de pedra que Kristin usava para fazer seus oráculos.

No chão, algumas pedras pequenas estavam dispostas em círculo e a rocha sob elas estava enegrecida, queimada por uma fogueira que um dia ardera ali.

Mariana sentiu como se seu coração parasse por um momento e sem pensar, mas por uma necessidade em seu íntimo, segurou a mão de Kristin com força. Sua mente foi invadida por flashes de imagens que pareciam lembranças esparsas. Viu-se deitada no chão da caverna, perto da fogueira. Estava aconchegada sobre um cobertor de pele e alguém a abraçava.

Kristin sentiu uma espécie de choque ao perceber sua mão envolta na de Mariana. Um calor tomou conta dela e parecia que vinha daquela fogueira que um dia ardera ali, aos seus pés. Parecia que estava abraçada a Mariana e não apenas de mãos dadas com ela.

As duas ficaram um tempo ali, paradas como se não estivessem presentes em espírito, mas apenas em corpo. O relinchar dos cavalos ao longe trouxe as duas de volta e elas soltaram as mãos, embaraçadas pelo contato quente e íntimo.

"Kristin, o que aconteceu? Que lugar é esse?" � Mariana perguntou, olhando incrédula para a morena.

"Conheço essa caverna desde criança. Chamamos de Caverna de Petris e sempre que venho aqui tenho essa mesma sensação que você teve; de que já estive aqui. Você disse isso ao entrarmos. Ouvi bem."

A morena olhava-a enquanto pronunciava cada palavra com cuidado. Tinha de deixar Mariana sentir por si mesma, sem interferir. Seu coração gelava só de pensar que Mariana poderia, em seu livre arbítrio, rejeitar tudo aquilo e simplesmente dizer-lhe "não".

"Eu não... Eu não sei... Acho que só fiquei impressionada, só isso. É óbvio que nunca estive aqui!" � ela tentava disfarçar seu embaraço.

"Mariana, eu ouvi. Você teve aquela sensação de novo. A mesma de quando nos vimos pela primeira vez. Isso não pode ser coincidência!" � Kristin retrucou, ainda olhando-a com intensidade.

"Eu... eu não sei. Parece que tivemos uma alucinação ou algo parecido."

"As duas ao mesmo tempo?"

"Não sei! Que coisa estranha!"

Elas sentaram-se em silêncio e ficaram olhando para aquela marca de fogueira por um longo tempo; cada uma perdida em seus próprios pensamentos. Ficaram mais um tempo em silêncio, mas pensar repetidamente naquilo não estava resolvendo nada.

"Foi por isso que me trouxe aqui?" � Mariana perguntou.

"Foi. O que aconteceu ontem precisava de uma explicação. Eu estou confusa... e essas sensações..."

"Eu sinto muito, Kristin! Não quis aborrecê-la. Por favor, me perdoe!"

"Há algo estranho entre nós, Mariana. Senti isso desde a primeira vez que nos vimos e sei que você também sentiu. É necessário que saibamos porque estamos sentindo isso. Naquela vila que você viu ao longe, há uma senhora que lê oráculos. Importa-se se eu consulta-la?"

"Não, claro que não! Eu não sei se acredito nisso, mas se ela puder nos ajudar... Será que ela tem uma explicação para isso?"

Kristin não podia dizer a Mariana que ela mesma tinha a explicação. Leva-la até a velha bruxa que vivia na fazenda e fora mestra de muitas bruxas da geração de sua tia seria uma forma de apresentar Mariana aos fatos de forma indireta. Kristin queria Mariana mais que à própria vida, mas jamais forçaria que a jovem brasileira ficasse a seu lado fazendo uso de sua magia. Sua índole e a formação que recebera de sua tia e mestra jamais permitiriam isso; mesmo que isso significasse perder Mariana.

"Eu acho que sim. � ela respondeu � Desde menina, eu a consulto e ela nunca falhou. Ela é uma senhora muito simpática. Você vai gostar dela."

O coração de Mariana aquietava-se devagar. Quando saíram da caverna, o casal de cavalos as aguardava; elas montaram e desceram em direção à aldeia. Cavalgaram por uma única rua com seis ou sete casinhas pintadas de branco e cercas parecidas; todas com canteiros bem cuidados e cheios de flores.

"Sra. Chalandri?" � Kristin chamou, enquanto descia do cavalo em frente a uma porta.

Uma voz dentro da casa resmungou algo no dialeto que Mariana estava aprendendo com a Sra. Petrakis e ela percebeu que era um convite para entrarem.

"Vamos entrar." � Kristin disse.

A morena empurrou a porta devagar e entraram na sala pequena.

"Olá, Sra. Chalandri!" � Kristin cumprimentou uma velhinha sentada numa cadeira e com um bordado imenso sobre o colo.

"Olá, minha menina! Há quanto tempo você não me visita! E trouxe sua companheira?"

Mariana achou estranho o comentário; mas não questionou.

"Esta é Mariana. Ela está hospedada na casa de tia Carmem. Veio estudar. Mariana, esta é Melpo Chalandri, ela mora há muitos anos aqui na fazenda." � Kristin apresentou as duas.

"É um prazer conhecer a senhora." � Mariana aproximou-se da mulher, dando-lhe a mão em cumprimento.

"O prazer é meu, querida. Sentem-se e tomem um chá comigo." � a velha convidou.

Elas se sentaram lado a lado em uma poltrona larga, coberta por uma colcha coloridíssima e a mulher foi até a cozinha buscar uma bandeja com três xícaras e um bule com água quente.

"Vocês estiveram em Petris e agora querem saber mais sobre o que sentiram, não é?" � a velha senhora perguntou enquanto entrava de volta na sala arrastando os pezinhos miúdos.

Mariana olhou para Kristin incrédula.

"Como a senhora sabe disso?" � Kristin perguntou, não querendo demonstrar a Mariana que já sabia algo.

"A Deusa-Mãe me permite saber muita coisa, criança. Na minha idade isso é um privilégio, mas também um peso." � a mulher retrucou sorrindo e serviu o chá para elas. Não estava se importando muito em disfarçar seus conhecimentos.

"E o que foi que sentimos? Queríamos entender." � Mariana se adiantou. Estava ansiosa para saber mais; agora admitia isso.

"Você terá certeza com o tempo. � ela respondeu, olhando para Mariana. � Isso foi apenas uma indicação do que já aconteceu e ainda pode acontecer."

"Sra. Chalandri, Mariana não conhece os oráculos..." � Kristin esclareceu.

"Não há problema. Senti que já chegou o momento em que você pode explicar-lhe alguns detalhes. Ela entenderá, pois é seu destino."

Mariana olhava a velha e espantava-se com as palavras dela.

"Destino? Meu destino? O que Kristin sabe sobre isso?" � ela perguntou, incrédula.

"Não sei nada, Mariana. O destino pertence a cada um. É a própria pessoa que escolhe vivê-lo ou não. Ela falou sobre outras coisas que lhe explico depois." � Kristin adiantou-se.

"Mas a senhora está dizendo que o que senti na caverna tem a ver com meu passado e também com meu futuro?"

Mariana já não conseguia raciocinar. Estava vivendo um turbilhão de emoções e agora aquela senhora lhe dizia que Kristin sabia algo sobre seu passado e seu futuro.

"Mas como? Que passado? Que futuro?", ela quis saber.

"Apenas não tenha pressa." � a velha respondeu, entretida com o chá.

"Mas..."

"Não tenha pressa. � ela repetiu com suavidade. � Você saberá na hora certa. Existem coisas que já nascem conosco para só mais tarde se mostrar aos nossos olhos e em alguns casos, aos nossos corações. Não se esqueça de que o que nasce unido permanece unido, não se separa mais." � a velha anciã sentenciou com uma calma tranqüilizadora.

"Não entendo." � Mariana falou, olhando para a mulher.

"Entenderá, criança, entenderá. Tome seu chá."

A velha sorriu-lhe mansamente e começou a falar de outras coisas. No meio da conversa, começou a contar histórias e lendas.

Mariana olhou para Kristin e esta sentiu o olhar de interrogação da jovem. Deu graças à Deusa por a Sra. Chalandri não ter voltado ao assunto. Aquela espécie de revelação não chegava a dizer muita coisa, mas tinha deixado uma lacuna na cabeça de Mariana e a morena sabia que assim que saíssem, seria bombardeada de perguntas.

A manhã já estava quase acabando e elas ainda estavam ali, ouvindo as histórias que a mulher contava sobre aquelas terras. Ela gostava de contar antigas lendas e prendia suas ouvintes com sua narrativa entusiasmada. Parecia que suas palavras transformavam tudo na mais pura verdade. A descrição de lutas e batalhas que a velha senhora fazia era cheia de gestos e exclamações. Kristin já estava acostumada, mas à Mariana pareceu que estavam num minúsculo teatro montado na sala da velha, onde um monólogo era representado com talento.

Enquanto ouvia, parecia-lhe que também havia participado de cada batalha; que havia lutado por toda aquela gente oprimida. E a sensação era tão verdadeira que Mariana chegou a pensar que estivera devaneando enquanto ouvia.

"Na época em que os deuses ainda eram temidos, e isso já faz muitos séculos � contou ela � essas paisagens presenciaram muitas guerras; batalhas sangrentas e perseguições ao povo humilde que só queria pastorear suas ovelhas e viver em paz. Os arredores de Atenas têm terras férteis e foram cobiçados por ricos senhores e generais que só queriam enriquecer mais ainda. E aqui foi palco de disputas durante dezenas de séculos. Muitos foram os guerreiros gregos que defenderam esse povo. Houve guerreiras também; e rainhas amazonas que usaram sua influência para ajudar. Todas muito corajosas. Brigaram por essa gente o quanto puderam."

"Amazonas?" � Mariana perguntou, sem acreditar muito.

"Sim, minha querida, amazonas. Elas viviam em aldeias escondidas pelas florestas densas que naquela época cobriam toda a Grécia. Dominavam as lutas e as armas. Eram independentes e só obedeciam suas rainhas. E elas foram em sua maioria, rainhas muito justas. Não aceitavam a escravidão e nem a opressão que esse povo sofria. Por isso lutaram por eles. Essas histórias chegaram a mim através de muitas gerações."

 

*******

 

"Kristin, o que ela quis dizer com tudo aquilo? O que você sabe sobre mim se jamais nos vimos?"

Elas mal saíram da aldeia e a morena foi obrigada a diminuir a marcha de sua égua. Olhou para a figura pequena ao seu lado e chegou a ter receio de que Mariana percebesse o quanto a amava em seu olhar.

Teria de dizer alguma coisa, mas não tudo. E a resposta também não poderia deixar lacunas e ao mesmo tempo não revelar tudo exatamente como era: que ela era uma bruxa formada pelos ensinamentos de séculos de tradição e devoção à Deusa-Mãe e que pela vontade dessa mesma deusa, hoje conhecida e adorada somente por bruxas, elas estavam unindo-as novamente nesta vida; como fora seu destino em todas as outras. Também não poderia dizer que as sensações que tiveram na Caverna de Petris nada mais eram do que lembranças de um passado remoto, uma vida que compartilharam juntas naquele lugar. Era provável que tivessem dormido ou morado na caverna por algum tempo e se aquecido no calor da fogueira que deixara sua marca no chão de pedra.

Kristin ainda pensava nisso quando se deu conta que Mariana esperava pela resposta à pergunta que fizera. Tentando transparecer ao mínimo o seu nervosismo, resolveu que a melhor resposta seria aquela que indicasse à jovem loura que teria de abrir seu coração e deixar que o destino agisse. E foi o que fez.

"Bem, Mariana, o que a Sra. Chalandri quis dizer é que tenho uma intuição especial e que isso me fez saber algo sobre nós que você não tinha como saber antes de ouvir o que ela disse hoje. Eu já estive na Caverna de Petris muitas vezes e já havia sentido tudo que sentimos hoje. Eu sei que aquele lugar tem a ver com meu passado também; e acredito nisso. É destino, apenas isso. Provavelmente já estivemos juntas em outras vidas e estamos nos reencontrando agora. Por isso as impressões do "já vivido" ou que nos conhecemos. Se você não acreditar, não terá como encontrar a resposta às suas dúvidas e escolher se aceita o destino reservado a você ou não."

Sem querer, a morena deixou transparecer um pouco de tristeza na voz quando disse essas últimas palavras, mas tinha de deixar Mariana ciente de que era livre para escolher. Mesmo que isso significasse perdê-la.

"Na verdade eu não sei o que pensar. � Mariana disse. � Eu não acredito muito nessa coisa de destino... E ela falou sobre "o que nasce unido permanece unido". O que significa isso?"

"Você terá que descobrir sozinha. Não posso ajudar muito nessa parte."

A jovem encarou a morena:

"O "quê" você é, Kristin? Faz oráculos como a Sra. Chalandri?" � perguntou.

"Por que acha que eu faço?" � Kristin devolveu estrategicamente a pergunta, sem respondê-la.

Mariana enrubesceu e baixou os olhos. De repente ficou sem coragem de encarar a morena.

"Eu... eu não sei... Desde que a vi pela primeira vez eu tive a sensação de que a conhecia e também que você é muito misteriosa. E agora descubro que você sabe todas essas coisas. Você me provoca..."

Ela ia dizer "arrepios", mas parou a tempo, pois ela bem sabia que aqueles arrepios não eram de medo. A vermelhidão em seu rosto claro aprofundou-se a ponto dela se sentir um tomate.

"Na verdade o que sou ou sei não tem muita importância agora. Posso lhe dizer que nesse momento da sua vida, o que importa é o que você sente e quer."

Ela respondeu e saiu cavalgando de novo, deixando Mariana um pouco para trás, completamente envolvida em pensamentos desordenados. Sentia-se aliviada por ter finalmente dito o que era necessário dizer a Mariana. Aquela angústia de não poder orientá-la a estava sufocando. Pelo menos agora a jovem sabia que algo as unia e aos poucos os sentimentos que brotavam em seu coração seriam instintivamente ligados ao destino que ela acabara de saber que existia. Até então, Kristin era capaz de sentir a confusão e a angústia que a jovem estava sentindo por não saber de onde vinham aqueles sentimentos tão desconexos, para não dizer desconhecidos.

 

Kristin foi levando Mariana de volta para a propriedade de sua tia. Por algum motivo que nem mesmo ela sabia explicar, não falaram mais sobre o assunto. Provavelmente era a Grande Deusa amainando o coração agitado de sua Mariana, para que ela pudesse raciocinar com calma sobre tudo que ouvira.

Mariana conversava com ela sobre coisas corriqueiras do passeio, mas Kristin sabia que ela estava "ligeiramente fora do ar", tamanha a confusão de todos os sentimentos que se misturavam. A morena era capaz de perceber o que ela sentia. Ainda não tinham se unido em carne, mas em alma eram uma só; por isso o amor, o ciúme, o desejo, a incredulidade e o desespero de Mariana lhe afligiam da mesma forma que à lourinha.

Ela parecia meio que anestesiada por tantos acontecimentos jogados sobre seus ombros em tão pouco tempo. Cavalgando ao lado de Kristin, sentia-se quase capaz de tocar o amor que batia por ela em seu coração, ao mesmo tempo que seus pensamentos rejeitavam esse sentimento inusitado em sua vida. Tudo isso lhe era tão estranho que não conseguia acertar os pensamentos.

A morena seguia ao seu lado sem nada falar. Mariana sentia-lhe a presença, o calor. "Como queria tocá-la!", pensou, mas permanecia calada. Os olhos azuis evitaram olhá-la, e Mariana não percebia que isso se passava a um grande custo.

Kristin preferia evitar qualquer aproximação maior do que aquela que já havia provocado pela manhã ao procurar Mariana e levá-la até a caverna. Na noite anterior, simplesmente não conseguiu parar de pensar na hóspede de sua tia. Sentia a presença de Mariana como se fosse uma tentação; algo que não conseguia evitar. Pensava nela e sentia o corpo tremer de ansiedade.

 

Agora estavam ali, de novo a poucos metros da porta do refeitório e no ar entre elas pairavam as frases da Sra. Chalandri. E nenhuma delas sabia o que fazer ou falar.

"Bom, Mariana eu... obrigada por ir comigo. A gente se vê..." � Kristin gaguejou enquanto via a loura desmontar e lhe entregar as rédeas do cavalo.

Mariana também não sabia o que fazer. Estava atordoada e precisava ficar sozinha para pensar. A visita à caverna e à Sra. Chalandri apenas tinham lhe dado a informação de que sua vida estava ligada àquela grega com ares de deusa e agora ela não sabia o que fazer com isso. Estava saindo daquele passeio mais confusa do que entrara.

Mariana sentiu uma tristeza enorme ao ouvir a despedida e seus olhos mostraram isso involuntariamente.

"Pensei que íamos conversar!" � ela balbuciou, sem conseguir encarar Kristin.

"Acho melhor deixar para outro dia. � a morena respondeu com um sorriso encantador � Virou os cavalos e voltando pelo caminho ladeado de arbustos do quintal, acrescentou � Adeus."

Mariana ficou ali parada sem conseguir responder. Só foi tirada de seu torpor pela voz da Sra. Petrakis na porta do refeitório.

"Kristin já foi?! Essa menina não tem jeito! Nem se despediu de mim!"

"Sim, ela já foi... eh, eu... eu vou para o meu quarto, Sra. Petrakis. Depois desço para o almoço." � Mariana respondeu sem prestar atenção.

Subiu para seu quarto como um autômato. Kristin não quisera conversar, explicar-lhe mais detalhes sobre aquela história de passado e futuro. Isso pareceu rejeição ao olhos confusos de Mariana e ela se sentiu desamparada. De seu quarto ainda pôde ouvir os cascos dos cavalos indo bem devagar ao longe. Não sabia se devia correr atrás dela e dizer o que sentia; não sabia se gritava para a pensão inteira ouvir a sua dor. Por fim ficou encolhida junto à cabeceira da cama e chorou.

Por várias horas ela ficou ali. Não desceu para almoçar e teve de lavar o rosto correndo e atender a Sra. Petrakis à sua porta perguntando porque não queria comer. Usou como desculpa o fato de estar cansada, mas mesmo assim teve de ouvir uma pequena ladainha da senhora grega sobre se alimentar bem.

A tarde chegou devagar e Mariana não pensava em sair do quarto. Lembrou que precisava tomar um banho, mas não tinha vontade. Também não tinha fome e pensava de forma fervilhante no que deveria fazer dali em diante.

A única coisa que conseguiu resolver foi que era hora de arranjar um trabalho, pois assim se distrairia e ficaria ocupada parte do tempo que tinha livre.

Num estalo pulou da cama e tomou um banho. Desceu até a sala de convivência da pensão, pois sabia que a Sra. Petrakis sempre deixava um jornal por ali. Percorreu os classificados e não encontrou nada.

"Não vai ser fácil.", pensou. Uma estrangeira com visto de estudante não podia, legalmente, arranjar emprego. Isso significava que além de tudo teria de encontrar algum patrão disposto a quebrar as regras e emprega-la.

Ela se agarrou a essa idéia como se fosse sua única tábua de salvação em meio àquela tormenta que se tornara sua vida. Ainda estava com o jornal no colo quando suas amigas passaram pela sala.

"Vamos jantar, Mari?" � perguntou Jenny.

Ela sentiu o estômago paralisar só de pensar em comer, mas resolveu acompanhar as meninas. Se dissesse que não iria, teria de dar explicações e ela não estava com a mínima vontade de fazer isso.

 

Continua na Parte VIII...

 

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