FEITIÇO GREGO
A.L. Benner
Parte VI
A semana passou devagar e Mariana sentia pressa para que o domingo chegasse logo. Tinha consciência de que finalmente conheceria Eleftheria e mentalmente se preparou para isso. O convite havia partido de Kristin, mas como a Sra. Petrakis havia dito, Eleftheria morava na casa também e poderia se ofender, mesmo não sendo a dona.
No coração de Mariana, uma doce sensação de conforto se instalava quando pensava na morena e em seus olhos instigantes. Ela se recusava a pensar sobre isso, mas estava se sentindo atraída pela jovem grega. A cada vez que o pensamento se aproximava, ela o afastava com violência até, mas ele insistentemente retornava.
Angustiada, viu o telefone sobre a mesinha e pensou em sua mãe. Sim, falaria com sua mãe! Não diria o que se passava por sua cabeça, mas só de conversar com sua mãezinha já se sentiria melhor.
Fez as contas do fuso horário para ver se não os acordaria, pegou o fone e discou, esperando que a chamada se completasse.
"Alô, mãe?"
"Oi, filha! O que houve? Tu estás bem? Porque estás ligando agora?" � Dona Isabel disparou suas perguntas preocupadas do outro lado da linha.
"Não, mãezinha. Está tudo bem. Só estou com saudade, é isso!"
"Ah, querida! Não fique assim. Acabo ficando preocupada por não poder cuidar de ti!"
"Eu estou bem, não se preocupe. Queria dizer que amo tu e o papai." � ela respondeu, segurando o nó na garganta.
"Mariana, tem certeza de que está tudo bem? Tu podes enganar a ti mesma, guria, mas não podes enganar tua mãe. O que houve?"
"Não houve nada, mãe, já disse. É só saudade." � ela continuou disfarçando.
"Está certo, vou acreditar em ti. Saiba que eu e teu pai também te amamos muito e sempre estaremos do teu lado, querida!"
"Obrigada, mamãe! Eu só precisava ouvir isso. Dê um beijo no papai. Tchau!" � ela se despediu.
"Tchau, querida. Cuide-se."
Ela desligou o telefone e ficou pensando nas palavras da mãe. "Será que se eu for lésbica eles vão mesmo estar do meu lado? Será que eu mesma vou me aceitar?", pensou.
"Ah, Mariana, chega! Vá cuidar do seu mestrado!" � ela arreliou com a própria imagem no espelho, obrigando-se a pensar em algo que não fosse a bela grega.
Mas essa auto-imposição não durou muito; quando menos esperava, estava lembrando que não levara presente no aniversário e tentou encontrar algo para levar no dia, uma lembrança. Ela não se sentiria à vontade indo almoçar sem levar nada. Pensou então num vinho, algo leve que combinasse com qualquer coisa que fosse servida, já que não sabia qual seria o prato do almoço.
Na Rua Ravine, bem no centro de Atenas, entrou numa adega que ela já tinha vasculhado de ponta a ponta num de seus dias de folga. Escolheu um vinho bem conceituado e resolveu que seria aquele mesmo.
Na sexta-feira ela estava na biblioteca da universidade quando viu Antonis entrar e vir em sua direção. Ela se mexeu na cadeira e folheou mais algumas páginas do dicionário que estava aberto sobre a mesa. Não queria falar com ele, dar explicações, mas também sabia que não conseguiria fugir o tempo todo.
"Oi. Posso me sentar?" � ele perguntou.
"Sim, claro." � ela respondeu, olhando-o rapidamente e voltando o olhar para o dicionário.
"Mari, eu... eu gostaria de saber o que aconteceu naquele dia... Não a procurei antes porque achei que seria bom você ter esse tempo, mas até agora não entendi direito o que aconteceu. Fiquei com medo de ter machucado você, forçado algo que não queria... sei lá."
"Antonis... eu... olha, você não fez nada. Não tem culpa alguma. Eu é que lhe devo desculpas. São coisas minhas que... que não quero falar. Me desculpe, por favor. Não quero magoá-lo, mas também não posso pedir que me entenda." � ela falou baixinho, como se dissesse para si mesma e não para ele.
"Você não quer mais continuar?" � ele perguntou, já temendo a resposta.
Mariana ficou muda por alguns segundos. Em seu peito havia um turbilhão de sentimentos contraditórios. Não entendia direito o porquê de não querer namorar um rapaz tão bom, mas também não esquecera aquela maldita fantasia que sabia, havia sido a responsável por ter sentido prazer ao transar com ele. Na verdade, quando lembra daquela cena, não lhe parecia, em nada, que havia transado com ele e sim apenas e tão somente com Kristin. Ficou grata por a biblioteca estar quase vazia e não ter nenhum conhecido dos dois ali por perto; principalmente Bete e Clara.
"Não, eu... prefiro assim." � ela respondeu com o olhar triste, mas firme.
Ela viu no olhar dele a decepção, mas preferia ficar sozinha a magoar alguém. A Sra. Petrakis tinha plena razão.
"Tudo bem, então. A gente se encontra por aí. Tchau." � ele pegou seus livros em cima da mesa e saiu.
"Tchau." � ela respondeu.
Mariana também se levantou logo e foi para casa. Deixaria para terminar seu trabalho na semana seguinte, pois não estava conseguindo se concentrar. Sentada num banco do metrô, ficou pensando no ex-namorado enquanto fazia a viagem de volta para a pensão. Suas amigas a invejavam por ter atraído um homem bonito e gentil como ele, mas ela simplesmente não o queria. "O que tem de errado comigo?", pensava.
No sábado, como sempre, as irmãs espanholas estavam agitando algum programa "imperdível" e vieram comunicar a Mariana que ela estava convocada a comparecer.
"Não, gurias, obrigada. Vão vocês."
"Como "obrigada, vão vocês?" Você vai conosco!" � Bete fez uma careta.
"Eu prefiro descansar hoje." � ela tentou se esquivar do passeio sem ter de dar maiores detalhes de onde iria no dia seguinte bem cedo. Não queria as meninas bisbilhotando sua vida mais do que já faziam.
"Descansar?! Sem essa, Mari! Vamos sair! Estamos em Atenas, lembra? Aqui as coisas acontecem! Os homens são semi-deuses! Como pode querer descansar?!" � Clara retrucou de olhos arregalados.
Mariana riu das amigas e continuou comendo suas dólmades com apetite. Deixou-as argumentar exaustivamente e ficou quieta, como se ouvisse tudo e concordasse. Se lhes dissesse que preferia acordar cedo no domingo para ir conhecer a fazenda de uma "semideusa", ao invés de sair à caça de "semideuses", elas provavelmente a achariam louca.
Ela própria já desistira de desvendar seus sentimentos. Pensava e repensava, mas não conseguia qualquer resposta. Resolveu que deixaria a aproximação entre ela e Kristin acontecer para ver se disso saía alguma resposta plausível ao que sentia. Já que sua cabeça só dava voltas e mais voltas sem lhe indicar o que acontecia, então deixaria que tudo se resolvesse por si só.
Na hora em que as meninas estavam saindo para a noite, ela deu um jeito de se refugiar na cozinha com a Sra. Petrakis, para que elas não voltassem a perturbá-la.
A velha senhora era uma excelente companhia e o que Mariana aprendia de grego com ela, tinha certeza, seria mais do que aprenderia no mestrado inteiro.
"No meu primeiro dia aqui, eu a vi conversando com Kristin em um dialeto que quase não entendi nada, Sra. Petrakis." � ela falou, curiosa.
"Ah, nós falamos tão rápido que parece mesmo um dialeto, não é, querida? Não pronunciamos algumas letras no início e no final das palavras e para quem ouve e não conhece, fica meio sem sentido."
"Achei muito interessante."
"Se você quiser, posso lhe ensinar; ou melhor, dar-lhe algumas dicas para falar e entender. É bem simples."
"Eu gostaria muito." � Mariana ficou entusiasmada com aquela nova descoberta.
"Então vou lhe contar uma história sobre esta casa. Vou falando no dialeto e se você não entender, me interrompa, está bem?" � a velha senhora retrucou.
"Certo!" � Mariana respondeu entusiasmada.
Ela apoiou o queixo nas mãos delicadas e ficou ouvindo a Sra. Petrakis contar uma história sobre quando seu velho casarão abrigara uma boa parte da Resistência Grega durante a Segunda Guerra Mundial. Como era afastada da cidade e naquela época ainda não havia tantas outras casas ao redor dele, pois era a sede de uma fazenda, o lugar era seguro e serviu de abrigo para os heróis anônimos que defenderam seu país da invasão alemã em 1941. Foram homens e mulheres que pertenciam a todas as classes sociais, mas que se uniram e salvaram muitos soldados aliados das garras dos "hunos", como a Sra. Petrakis chamou os alemães.
"Quando reformamos a casa logo que a adquirimos, eu e Zervos encontramos um buraco no piso do porão repleto de objetos deixados para trás pelas pessoas que usaram esse lugar para se esconder dos "hunos". Encontramos roupas, uniformes de diferentes exércitos, perucas que deviam usar para disfarces, utensílios de cozinha e outras coisas. Encontramos até uma espécie de parede falsa quando derrubamos algumas paredes desse refeitório. Havia um pequeno cômodo cheio de armas e munições enferrujadas, provavelmente escondidas para servir de defesa a um ataque inesperado."
Mariana ouvia fascinada. Ficou imaginando-se fazendo parte daquele grupo de rostos anônimos pertencentes à Resistência, se defendendo de um ataque alemão.
As duas ficaram na cozinha até quase meia-noite e Mariana achou bom ter ficado conversando até tarde, pois sentiu sono quando subiu para o seu quarto. Deitou-se e logo estava sonolenta, fugindo da ansiedade pelo dia seguinte. Ficou pensando na história que sua anfitriã contara e acabou adormecendo.
Pouco depois do amanhecer ela acordou. Tinha combinado com o Sr. Petrakis que sairiam às oito horas e por isso tomou um banho demorado e não se apressou para escolher o que vestiria. Sabendo que provavelmente iam cavalgar, colocou uma calça de brim verde, larga e confortável e uma camisa de mangas longas para protegê-la do sol. A bota de cano médio que havia trazido completou o conjunto. Não tinha chapéu, mas talvez Kristin pudesse lhe emprestar um, pensou.
Ficou olhando-se no espelho e gostou do resultado. Ela era, sem dúvida, uma mulher muito bonita. Os olhos verdes expressivos e inquisidores lhe davam um ar de mistério e, se ela quisesse, também de sensualidade.
"Humpf! Nem tenho vontade de namorar; de que me adianta ser bonita?", perguntou ao espelho.
Enrolou as mangas da camisa até quase os cotovelos e se lembrou de pegar o casaco. Já estavam no início da primavera, mas mesmo assim poderia fazer frio a qualquer momento. Desceu as escadas devagar para não acordar as farristas da noite anterior e foi até a cozinha, encontrando o casal conversando e tomando café.
"Bom dia, querida!" � a Sra. Petrakis exclamou, sempre esfuziante.
O marido acompanhou-a no cumprimento apenas com um aceno de cabeça, pois estava com a boca cheia de pão.
"Bom dia!" � Mariana respondeu, sentando-se para comer.
"Hoje o dia está ótimo para um passeio. Tenho certeza de que vocês vão se divertir." � a senhora completou.
"Tenho certeza que sim." � ela respondeu.
"Carmem me disse que lhe contou sobre a Resistência ontem." o Sr. Petrakis falou assim que engoliu o pão.
"Contou. E eu fiquei fascinada pela história!" � Mariana respondeu com entusiasmo.
"É realmente uma história interessante. � ele respondeu � Imagine nossas caras ao encontrarmos um cômodo cheio de armas!"
"Tomamos um susto!" � a tia de Kristin exclamou.
"E o que fizeram com as armas?" � Mariana quis saber.
"Doamos ao Museu do Soldado Desconhecido. Não queríamos aquelas armas aqui em casa, apesar de não estarem funcionando mais. Sempre há perigo com armas por perto." � seu anfitrião respondeu e foi buscar o jipe enquanto ela e a dona da casa tagarelavam no novo dialeto que Mariana estava aprendendo. Logo ele estava de volta.
"Vamos, Mariana?"
"Vamos, sim, senhor." � ela levantou-se prontamente.
O jipe seguiu em direção às colinas, saindo por uma porteira nos fundos da propriedade por onde Mariana não havia passado ainda. Seu motorista explicou que só usava aquela passagem durante o dia, pois a estradinha não era boa o suficiente para ser usada à noite, mas encurtava o caminho.
Eles chegaram em menos de quinze minutos e Mariana viu a égua de Kristin e um cavalo todo negro já encilhados e prontos para um passeio esperando bem em frente à casa da fazenda. Assim que o jipe parou, a dona da casa, em roupa de montaria, apareceu na varanda.
Mariana ficou olhando para aquela mulher magnífica. Ela estava linda numa calça de montaria marrom e um casaco da mesma cor; por baixo uma camisa cor de palha. A mesma cor da camisa de Mariana. Um par de botas pretas ia até o joelho combinando com o chapéu também preto. Mariana ficou boquiaberta.
O Sr. Petrakis desceu apenas para dar um beijo na sobrinha e já foi voltando para o jipe.
Um pouco tímida Mariana cumprimentou sua anfitriã. "Como essa mulher mexe comigo", pensou.
"Oi, bom dia."
"Bom dia. Eu tomei a liberdade de deixar os cavalos preparados. Acho que será melhor conhecer as plantações agora de manhã, enquanto o sol ainda está fraco. Quer um chapéu emprestado?" � a morena perguntou, também um pouco sem jeito.
"Eu agradeço se você puder me arranjar um. E eu trouxe um vinho para você, como presente atrasado de aniversário." � Mariana respondeu.
Kristin olhou-a e sorriu, agradecendo. A jovem brasileira sentiu que suas pernas lhe faltaram nesse instante.
"Até quando vou me sentir assim diante dela?", ela se perguntou.
A morena pediu licença e entrou rapidamente na casa, voltando minutos depois com um chapéu preto bem parecido com o que usava.
Atrás dela surgiu a mesma moça que Mariana vira em seu primeiro dia na pensão: uma morena de cabelos ondulados até as costas e olhos escuros. O vestido de corpete sobre os seios lhe emprestava um ar gracioso. Ela fitou Mariana friamente.
"Bom dia." � Mariana cumprimentou, achando-se no dever de fazer isso, pois era visita.
"Bom dia. � a moça cumprimentou seca e voltou-se para Kristin, agora falando com uma languidez imprópria para se usar diante de uma estranha. � Kristin, não demore para o almoço, sim?"
O rosto anguloso de Kristin fechou-se e ela apenas respondeu:
"Não se preocupe se demorarmos."
Ela ofereceu o chapéu a Mariana e montou, esperando que sua convidada fizesse o mesmo. Viu quando Eleftheria entrou e sentiu-se culpada. Ainda não tinha tido coragem de conversar com a jovem e encerrar o namoro com ela, mas não poderia adiar aquilo por muito mais tempo.
Kristin saiu na frente, mostrando o caminho. O silêncio se instalou entre elas, mas aquela espécie de corrente elétrica que as ligava continuou presente. Mariana vinha pensando em contar à morena sobre a sensação que tivera de conhecê-la e num ímpeto, resolveu que seria ali mesmo.
"Kristin?" � ela chamou.
"Sim?"
"Eu... bem, se você me permite... desde que nos vimos no dia em que cheguei eu fiquei com a nítida impressão de que já tínhamos nos visto antes. Sei que isso não aconteceu, mas a impressão é muito forte. Parece... parece que somos ligadas de alguma maneira... Sei que isso soa como uma bobagem, mas..."
A morena puxou a rédea de sua égua de repente e parou. Estavam sob uma enorme oliveira, já no início da plantação. Seu coração pulsava e ela soube que se iniciava ali o caminho até o coração de Mariana. Teria de ter cuidado com as palavras, já que os rituais já havia lhe avisado das dificuldades de Mariana em aceitar a verdade sobre si própria.
"Você também teve essa sensação?!" � ela perguntou, mostrando incredulidade.
"Tive. Você também teve?" � Mariana não conseguia acreditar que ela também pensara a mesma coisa.
"Sim, e fiquei pensando nisso esse tempo todo!" � Kristin respondeu.
Mariana sentiu seu coração disparar com o que ouviu.
"Que estranho, nós duas termos a mesma sensação." � Kristin completou olhando-a com intensidade.
"É. É no mínimo engraçado, não?" � Mariana ficou desconsertada, sem saber direito o que falar diante daquela constatação.
"É mesmo. Quem sabe em outra vida possa ter acontecido." � Kristin acrescentou, olhando-a de novo com aquele jeito inquietante.
Mariana ficou em silêncio. A idéia pegou-a de surpresa.
"Ah, eu não acredito nisso! Acho que foi só impressão mesmo."
"Talvez." � a morena respondeu-lhe com um sorriso enigmático no canto dos lábios e cutucou a égua para seguir em frente.
Ela viu que Mariana a seguia no galope, mas também sabia que suas últimas frases estavam fazendo o efeito esperado no coração da lourinha. Uma sombra de interrogação pairava no olhar esverdeado.
Continuaram cavalgando e a fazendeira mostrou à Mariana uma boa parte dos olivais. As árvores estavam carregadas de pequenas flores que logo dariam lugar aos frutos muito verdes.
"A colheita será no começo do verão e este ano vou precisar contratar mais pessoas, pois aumentamos a área plantada há alguns anos e agora as novas plantas estão começando a produzir também." � Kristin explicou quando saíam dali para irem de encontro a um rebanho de ovelhas tangido por um dos empregados da fazenda.
Kristin deu um galope rápido e Mariana a seguiu, chegando perto das ovelhas que se juntaram assustadas. Mariana estava adorando aquele passeio. As paisagens gregas eram lindas e a presença da jovem grega parecia lhe preencher o peito com algo desconhecido para ela até então. Às vezes Kristin sorria e a jovem loura se perdia naquele sorriso doce e contagiante que a fazia esquecer de suas preocupações.
Subiram uma encosta íngreme e quando Mariana deu por si, estavam na beira de um penhasco imenso, que se abria num vale longínquo, coberto de verde lá embaixo.
"Nossa, Kristin! É lindo daqui de cima!" � Mariana ficou impressionada.
"A fazenda vai até o limite do penhasco oposto." � Kristin explicou, vendo o fascínio de sua visitante por aquela paisagem.
"Parabéns, sua fazenda é linda!" � ela elogiou com sinceridade.
"Obrigada. Eu procuro cuidar bem dela."
Mariana achou que havia chegado o momento de tentar descobrir um pouco mais sobre aquela grega.
"É, sua tia diz que você quase não sai daqui." � ela jogou.
"Eu gosto daqui. Tudo que preciso está nessa terra. Vamos voltar? Acho que o almoço já deve estar pronto." � a morena sentenciou, não querendo alongar o assunto.
"Vamos."
Mariana ficou um pouco frustrada por não conseguir descobrir nada sobre aquela mulher misteriosa, mas em seu íntimo aceitou isso como um desafio a vencer. Em seu coração, sem que ela percebesse, um doce bem-querer por Kristin já estava se instalando.
Elas chegaram e o almoço estava posto na varanda. A toalha xadrez dava um ar alegre e as panelas rústicas, de ferro, estavam fumegantes e conservando o calor da comida que parecia apetitosa.
Como que trazendo Mariana de volta à realidade, Eleftheria apareceu na sala e beijou o rosto de Kristin.
Em seu íntimo, Mariana sentiu um caldeirão ferver e transbordar. Ver a jovem grega perto de Kristin era uma tortura ao seu coração confuso. Sentia o ciúme lhe corroer a alma e tirar-lhe o ar. Era uma dor aguda e que parecia não querer abrandar.
"Vocês demoraram." � Eleftheria disse, tirando Mariana de seus pensamentos.
Tanto Kristin quanto Mariana ficaram em silêncio e puderam ver o sorriso carregado de ciúme no belo rosto da jovem grega.
"Gostou da fazenda, Mariana?" � ela emendou, quebrando o silêncio.
"Sim. É uma propriedade muito bonita." � ela procurou responder da forma mais natural possível.
"Vamos almoçar. Por favor, sente-se, Mariana. � Kristin convidou, tentando amenizar o clima que se instalou entre as duas � Faço questão de experimentar o vinho que você trouxe. Mandei coloca-lo para gelar antes de sairmos."
"Então você é do Brasil? O que veio fazer na Grécia?" � Eleftheria perguntou, interrompendo a conversa das duas.
"Vim estudar Tradução e Literatura." � ela respondeu.
Enquanto isso Kristin tirava o vinho do balde de gelo e servia três taças, em silêncio.
Mas Mariana perdeu a fome naquele momento. Sentiu vontade de ir embora imediatamente, mas no instante seguinte se achou idiota. Estava com ciúme de uma mulher? Uma mulher que acabara de conhecer? Que não era sua parente e nem sequer amiga íntima! Sua cabeça parecia estar voando numa velocidade inacreditável e ela não conseguia controlar. Todo tipo de pensamento lhe vinha à mente, confundindo e deixando-a cada vez mais nervosa. Seu pulso estava acelerado; a boca estava seca e as mãos geladas.
Deu alguns goles no vinho e sentiu que tremia um pouco. Do outro lado da mesa, Kristin percebeu que algo estava errado.
"Mariana, o que houve? Você está bem?"
"Ah, sim, estou. � mentiu � Acho que é o vinho. Faz tempo que não bebo."
"Então não beba mais. Vou buscar água."
Mariana viu Kristin se levantar e ir até a cozinha. Nesse tempo, sentiu sobre si a fúria dos olhos escuros de Eleftheria à sua frente. No rosto jovem e moreno dela havia uma expressão de raiva contida.
Kristin voltou com uma bandeja trazendo água e três copos.
"Obrigada." � Mariana agradeceu e tomou um gole.
Terminaram o almoço e Kristin dispensou a outra funcionária, servindo ela mesma uma taça de ouzo (tipo de aguardente de anis, como um licor) para Mariana e outras duas para si e Eleftheria.
"Estou lhe servindo, mas não sei se deveria tomar." � ela observou.
"Agora já estou bem." � Mariana retrucou.
Ela sabia que não podia simplesmente sair em debandada ao terminar o pouco de almoço que comeu e por isso aceitou o convite de Kristin para ficarem sentadas na varanda ampla e fresca enquanto tomavam o licor.
Eleftheria estava sentada ao lado de Kristin numa poltrona de dois lugares e apesar de estar com o olhar menos hostil, não perdia uma chance de tocar a mão de Kristin, demonstrando sua posse.
A morena anfitriã estava um pouco mais falante, mas mesmo assim Mariana via que ela estava desconfortável com as atitudes da namorada. Mariana evitava olhar diretamente para o casal à sua frente. Não estava à vontade para presenciar o carinho de Eleftheria com Kristin.
Passou-se meia hora e acabaram falando das infâncias; Kristin contou suas brincadeiras pela fazenda e da falta que sentia do irmão mais novo, que morava na Suíça. Mariana contou que era filha única e descreveu sua cidade, Porto Alegre, a pedido de Kristin.
"Eu gostaria de visitar seu país um dia. Ouvimos muito falar por causa do futebol e de seus jogadores famosos." � a morena falou.
E Eleftheria voltou de seu silêncio:
"Claro! Podemos passar nossas férias no Rio de Janeiro, não?"
"Bem, eu acho melhor ir embora. Será que seu tio viria me buscar, Kristin?" � Mariana resolveu dar por encerrada aquela visita.
"Se não se importar, eu a levo a cavalo, como combinamos." � Kristin respondeu.
Ela sentiu uma ponta de decepção ao ouvir Mariana falar que queria ir embora, mas sabia que precisava conversar com Eleftheria. E queria fazer isso logo, antes que se acalmasse e deixasse a raiva de lado, como costumava fazer.
"Não me importo, em absoluto. Só não quero fazê-la encilhar os animais de novo." � Mariana respondeu, já ansiosa por sair dali e não mais ter de assistir ao toque insistente de Eleftheria em Kristin.
"Não demora mais que dez minutos para se fazer isso."
"Tudo bem, então. Até logo, Eleftheria."
"Adeus... Mariana."
Seguindo Kristin até o estábulo, Mariana não conseguia articular palavra. Sentia uma dor no estômago e sabia que não era o delicioso carneiro do almoço lhe causando indigestão. Apesar de ter passado quase o dia todo com Kristin, aquele passeio não saiu como imaginava. Também não tinha imaginado a hostilidade da namorada dela. Talvez por pura ingenuidade sua, mas não tinha imaginado. Ela sentia suas entranhas queimarem de ciúme. Queria gritar-lhe que a queria!
Mariana tremia visivelmente. Queria que Kristin a amparasse, mas também queria esbravejar com ela e fazê-la saber de sua raiva. Uma vontade louca de chorar subiu por sua garganta e um soluço baixo escapou. Não sabia o que dizer ou fazer; não se entendia e não entendia o que sentia.
"Por favor, me leve embora, eu... eu preciso ir..." � ela conseguiu sussurrar, sem coragem de olhar para Kristin.
A morena assustou-se com aquilo. Não queria provocar o sofrimento de sua amada, mas aquele convite para conhecer a fazenda se mostrara uma péssima idéia.
"Mariana... por favor, não fique assim. Eu..."
Kristin sentia uma vontade imensa de ampará-la em seus braços e dizer o quanto a amava. Era como se uma camisa de força a prendesse, impedindo de confortar aquela criatura tão esperada. Pensou em centenas de coisas para lhe dizer, mas inacreditavelmente calou-se.
Ainda ficou alguns segundos parada, olhando para aquele pequeno ser louro sem poder tocá-lo. Virando-lhe as costas, entrou no estábulo e em seguida saiu dele puxando os dois animais que montaram no passeio. Ofereceu a rédea do cavalo para Mariana e montou em sua égua.
Cavalgaram até a entrada da propriedade dos Petrakis e ela abriu a porteira, acompanhando a loura até os fundos do refeitório. O silêncio medonho e pesado acompanhou-as por todo o caminho. Nenhuma delas conseguia dizer qualquer coisa. Mariana porque não conseguia e Kristin porque sabia que aquela não era a hora.
Calada e com os pensamentos revoltos como se estivessem em meio a um tornado, Mariana desmontou e caminhou até a porta. Voltou-se para agradecer, mas já ouvia os cascos do cavalo de Kristin batendo nas pedras em direção ao pomar. Viu a morena afastar-se num galope veloz puxando o outro cavalo pelas rédeas e finalmente caiu em si.
Subiu automaticamente as escadas para seu quarto, sem ver ou sentir nada. Sentou-se estática na beirada da cama e começou a chorar, desesperada.
"Porque me senti daquela forma?! � falou para si mesma � Agi como uma idiota!"
O choro da jovem vinha-lhe do coração amargurado e uma constatação apareceu-lhe na mente com um estalo:
"Eu a amo! Fiquei cega de ciúme, de raiva por ela ter outra! Oh, meu Deus! Como sou idiota. Nem ao menos me aproximei e já a perdi para sempre!"
Por muito tempo ela ficou na mesma posição, encostada na cabeceira da cama e segurando os joelhos como se segurasse sua própria vida nos braços. Estava perdida e sua alma doía como se tivesse levado uma punhalada. Estava apaixonada por uma mulher! Sim, por uma mulher! E seu coração exultava e lamentava ao mesmo tempo, porque desperdiçara a única chance que tivera de se aproximar de seu amor.
O fato de se descobrir lésbica daquela maneira nem lhe ocupou espaço na mente conturbada. Só conseguia pensar naqueles olhos azuis fitando-a com espanto, raiva e incredulidade. Sentia uma vontade incontrolável de se atirar nos braços da bela grega e ali explorar todas as sensações dormentes em seu coração. Ao mesmo tempo se condenava por aqueles sentimentos tão novos e perturbadores.
Nos campos verdes e ondulados por onde cavalgava furiosamente, puxando o cavalo negro pelas rédeas, Kristin deixava lágrimas de ansiedade.
"Deusa-mãe, poupe-nos do sofrimento! Rogo-lhe! Deixe-a vir para mim. Deixe-me fazê-la feliz!"
Quando viu as luzes da fazenda, diminuiu o ritmo da cavalgada e enxugou as lágrimas. Ainda tinha o problema de Eleftheria para resolver. Sua tia já havia avisado que deveria agir logo para não magoar a moça, mas sabia que isso aconteceria de toda forma.
Continua na Parte VII...
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