FEITIÇO GREGO
A.L. Benner
Parte V
O jipe do casal Petrakis era novinho em folha e seguia colina acima, cortando os extensos olivais. Mariana viu surgir a sede da fazenda, uma construção sólida feita toda de pedra.
"Kristin mora aqui sozinha, você acredita nisso, Mariana?" � a Sra. Petrakis chamou sua atenção.
"Aquela amiga não mora com ela?" � ela perguntou sem querer.
Ela já estava vermelha de arrependimento quando viu o semblante da Sra. Petrakis se fechar quando ela se voltou para o banco onde Mariana estava para responder.
"Sim. Mas Eleftheria foi empregada da fazenda. Parte da família dela ainda vive aqui e ajuda no cuidado dos rebanhos de ovelhas. Quando digo que Kristin mora sozinha, me refiro a alguém de nossa família."
"Ah, sim..." � Mariana balbuciou, ainda sem graça.
"Querida, vou ser direta com você. Kristin e Eleftheria moram juntas na fazenda." � a Sra. Petrakis falou de repente, olhando-a como se tentando ver em seus olhos como ela reagiria.
"Carmem, você não devia..." � o Sr. Petrakis quis retrucar com a esposa.
"Não vejo por que, Zervos! Kristin não esconde isso de ninguém e não quero que Mariana fique constrangida ao se deparar com algum carinho entre elas."
"Juntas?" � Mariana ficou alguns segundos digerindo a informação, sem entendê-la imediatamente.
"Sim, criança. Minha sobrinha e aquela moça são namoradas. Kristin assume isso para todo mundo e não acho justo que você vá até a fazenda sem saber disso. Eu já lhe disse que não aprovo essa moça. Aprendi a atender o que minha sobrinha sente, pois a amo muito, mas sei que Eleftheria não é mulher para ela!"
"Bem, eu... estou surpresa..." � Mariana balbuciou, se encostando ao banco do carro como que para tentar tomar o ar que lhe faltava.
"Imaginei que ficaria, mas não se preocupe, pois todos nós convivemos bem com isso, até mesmo os pais de Kristin."
A Sra. Petrakis respondeu e voltou-se para o marido com um sorriso no rosto. Ele nunca entendera muito bem a sua magia e às vezes dava palpites na hora errada, mas ela entendia, afinal, isso era uma arte para mulheres em sua maioria e não se devia esperar que os homens a entendessem. Ela sabia que deveria preparar Mariana e era isso que estava fazendo ao contar a ela sobre Kristin e Eleftheria. Era seu dever como mestra de Kristin, ajuda-la a seguir os caminhos que a Deusa-Mãe traçara para ela até que encontrasse sua outra metade.
No pequeno percurso que faltava até a fazenda, Mariana implorou aos céus para que seu coração se acalmasse. "Meu Deus! Kristin é lésbica! Tem uma namorada e vive com ela na fazenda!", pensava. E o ciúme que sentiu foi brutal; cortante como uma lâmina nova. Os pensamentos da pequena loira se embaralharam mais do que já estavam até então.
Ficou quieta por uns minutos, olhando a paisagem que corria pela janela do carro. A voz da Sra. Petrakis trouxe-a de volta à realidade:
"Kristin é teimosa feito uma mula! Se ela quisesse não precisava morar aqui. Era só delegar as tarefas dos empregados e morar na cidade. Ou mesmo conosco lá na pensão. Já cansei de falar, mas ela sempre dá um jeito de fugir do assunto!"
Mariana não respondeu. Mesmo porque não tinha o que dizer; seu coração pulsava feito louco diante daquela informação que acabara de receber: Kristin gostava de mulheres! "O que isso significa para mim? Porque gostei de saber isso?!", ela pensava, tentando processar aquela informação inesperada que a havia deixado perplexa.
O jipe rodou mais um pouco e ela viu a varanda da fazenda ficar mais próxima e a figura alta e imponente de Kristin surgiu no portal. Sentiu o coração subir-lhe à boca e sensações de euforia e incômodo invadiram-na ao mesmo tempo.
"Como essa mulher mexe comigo!" � pensou, sem saber se olhava para aquela figura ou se desviava o olhar.
Ao lado da morena, um grande cão pastor observava o carro estacionar.
O jipe parou e eles desceram. A Sra. Petrakis foi ao encontro da sobrinha carregando um pacote que trouxera no colo.
"Tia, já disse que não preciso de presentes!" � Kristin falou, e seu olhar pousou sobre Mariana.
"E desde quando você manda em mim? Amo você e presenteio seus aniversários quando eu quiser, ouviu? Agora me dê um abraço. Parabéns, minha querida!"
"Obrigada."
Kristin fechou os olhos e a tia carinhosamente colocou a mão direita sobre sua testa, fazendo alguns desenhos com o dedo, numa espécie de bênção. Mariana ficou observando a cena enquanto ouvia a Sra. Petrakis balbuciar algumas palavras ininteligíveis. Ficou curiosa com aquilo e estranhamente se sentiu bem com o que viu. Ela geralmente ficava incomodada diante de rituais que não entendia, mas naquele momento pareceu-lhe estar vendo algo familiar. Não soube decifrar que tipo de ritual era, mas achou ser um tipo de oração. Não imaginava Kristin adepta de rituais, mas não questionou.
Ela e o Sr. Petrakis esperaram para cumprimentar a aniversariante.
"Parabéns, também, Kristin. Nós trouxemos uma convidada. Lembra-se de Mariana?" � o Sr. Petrakis quebrou o silêncio logo que a bênção terminou.
"Claro. É um prazer recebe-la em minha casa." � ela respondeu, mostrando um sorriso luminoso. O primeiro que Mariana via.
"Eu não disse que ela não ia se importar?" � a Sra. Petrakis dedurou Mariana, com sua tagarelice sem tamanho.
"Como me importar?" � a morena quis saber.
"Bem, é que eu não queria vir por... por não nos conhecermos muito." � Mariana tentou explicar, já muito vermelha de vergonha.
Kristin olhou a forasteira e seus olhos se embeveceram com ela. Estava novamente falando com aquela que lhe fora destinada e agradeceu à Deusa por isso.
"É... bem, parabéns pelo aniversário, Kristin. Eu... nem trouxe presente!" � Mariana estendeu a mão para a mulher e ficou sem jeito novamente.
"Como eu disse para minha tia, não precisa de presentes." � e apertou a mão de Mariana com gentileza.
Ambas sentiram o calor emanar das mãos que se tocaram e desta vez Kristin também sentiu a vertigem de uma sensação já vivida. Por um segundo que pareceu séculos, elas se olharam e pareceu-lhes que estavam sozinhas. Somente ao ouvirem a voz da Sra. Petrakis que soou pela varanda, foi que elas saíram daquela espécie de transe.
Eles entraram e Mariana não viu sinal de Eleftheria na casa, mas viu quando a Sra. Petrakis puxou Kristin para um lado e perguntou pela moça, mostrando contrariedade no cenho franzido. A jovem pôde ouvir, mesmo estando conversando com o Sr. Petrakis, quando a morena respondeu em voz baixa:
"Ela foi para a casa dos pais, na vila."
"Você precisa resolver isso." � a Sra. Petrakis falou.
"Eu sei." � Kristin respondeu.
"O que ela teria de resolver?", Mariana se perguntou.
Nesse instante ouviram um barulho de carro e o clima se desfez. Eram os pais da aniversariante que chegavam. O Sr. Tassos Yalouris era irmão da Sra. Petrakis e tão alto quanto a filha. Tinha os mesmos olhos azuis e a pele morena. Já a mãe dela, Elpis, fora quem passara à filha o porte elegante e o corpo esguio, além do cabelo negro e liso.
Tinham vindo só para estar com Kristin, pois a outra fazenda deles ficava em Lavrion, uma pequena vila de pescadores ao sul do país. A Sra. Petrakis havia trazido um assado para o jantar e, sorrateiramente, uma faixa onde se lia "Feliz Aniversário, Kristin", que seu marido ficou incumbido de pregar na parede da sala nos poucos minutos em que a aniversariante ausentou-se para escolher alguns cd�s de música na biblioteca.
"Ah, tia Carmem! Eu não acredito! Essa faixa de novo?" � ela exclamou ao ver a faixa com letras brilhantes, pendurada no meio da sala, quando voltou.
"Até parece que você não me conhece! � a Sra. Petrakis fez pouco caso. � Seja uma boa anfitriã e sirva krasi para sua convidada. Eu disse a ela que hoje ela vai ver como os gregos bebem."
Mariana riu da espontaneidade da mulher e sentiu-se feliz por estar de novo no meio de uma família. Sentia-se confortável ali. Não queria admitir, mas estava sentindo muita falta de casa e de seus pais.
Os dois casais ficaram conversando enquanto a mesa era colocada por uma funcionária da fazenda e Kristin aproximou-se de Mariana com dois copos de krasi.
"Desculpe a minha tia. Ela me deixa constrangida às vezes." � ela falou baixinho para não ser ouvida.
"Não se preocupe. Ela é ótima."
"Vamos deixá-los conversando. Quer ir lá para fora?" � a morena perguntou.
"Vamos."
Elas foram se sentar nas poltronas de vime da varanda, onde apenas algumas lâmpadas fracas competiam com a escuridão da noite. Kristin queria conversar com sua convidada e aquela seria uma chance e tanto.
"Gosta de cavalos?" � perguntou, querendo encontrar assunto.
"Gosto muito. Eu não costumava montar muito no Brasil, mas sempre que podia, dava um jeito. Na faculdade tinha uma amiga endinheirada que era dona de um haras." � Mariana ficou feliz de ter um gosto em comum com ela.
"Então você é a hóspede brasileira de meus tios? Minha tia Carmem já me falou de você. Não se espante, pois ela fala de tudo e de todos."
"Eu adoro sua tia. Ela me recebeu como se fosse minha mãe." � Mariana respondeu, tentando não olhá-la diretamente por medo de que ela visse em seus olhos o que sentia.
"Eu tenho vários animais bons para montaria aqui na fazenda. Se quiser vir montar um dia desses." � Kristin disse de repente.
"Obrigada..., seria ótimo." � Mariana ficou surpresa e desconcertada com o convite inesperado.
Kristin olhava para ela com uma intensidade que a deixava sem saber onde colocar as mãos. Deu graças à Deusa por estar segurando o copo de bebida.
"O jantar está servido, meninas." � a mãe de Kristin veio avisá-las.
"Já vamos, mãe." � ela respondeu e se levantou, ficando de pé como que esperando Mariana passar, mas não percebeu que ficou no caminho da porta e se a loirinha quisesse entrar na sala teria que quase esbarrar nela. Mariana ficou sem graça e parou diante dela, esperando que ela percebesse a situação.
"Oh, desculpe. Por favor, pode passar." � a morena falou, ficando desconcertada.
Elas se olharam de novo daquele jeito que parecia paralisá-las. Se fosse possível aqueles pares de olhos se misturem, isso teria acontecido naquele momento.
Foi Mariana quem voltou a si primeiro e desviou o olhar. Ela passou pela aniversariante, que se afastou um passo para que ela passasse e elas entraram.
O jantar foi uma diversão só. A Sra. Petrakis perdeu a conta das doses de krasi e retsina que tomou e tagarelou mais do que normalmente fazia; contou piadas e fez todos rirem à mesa. E o marido a acompanhava. Mariana ficou imaginando se teria de dirigir para os dois. Os pais de Kristin também eram bons de copo e o riso corria solto pela mesa.
"Vamos, Mariana. Conte uma piada do seu país!" � pediu o Sr. Yalouris, já bem alto por causa da bebida.
"Sou péssima contadora de piadas. Nunca lembro das que ouço." � ela argumentou.
"Pois então eu vou lhe contar uma." � ele retrucou e antes de começar sua história, verteu mais meio copo de vinho grego.
"Mãe, não deixe o papai falar nada que possa se envergonhar depois." � Kristin cochichou para a mãe, mas deixou propositalmente que todos ouvissem.
"Minhas piadas são todas bem comportadas, filha!" � o Sr. Yalouris argumentou em voz pastosa.
Kristin riu e abraçou o pai. Eram muito parecidos, Mariana pensou. Os mesmos olhos estonteantes; mas os dele eram bem menos misteriosos do que os de sua filha.
Já era bem tarde quando o bolo de aniversário foi trazido e a mãe de Kristin depositou duas velas sobre ele, revelando que ela fazia vinte e cinco anos.
"Ah, mãe! Tire isso daí. Não sou mais criança." � ela reclamou.
"De jeito nenhum! Vamos, assopre e faça um pedido." � a Sra. Yalouris retrucou.
"Elpis tem razão, deixe de ser rabugenta, Kristin! Vamos, faça um pedido." � seu tio Zervos apagou a luz e acendeu as velinhas com um fósforo.
Ela e Mariana eram as únicas que estavam apenas "um pouco" mais descontraídas que o normal depois dos copos de krasi e retsina. Os pais e tios de Kristin já riam à toa fazia tempo e ela achou desnecessário tentar faze-los mudar de idéia quanto às velinhas. Preparou-se para assoprar as chamas e viu os olhos verdes que a observavam do outro lado da mesa e perdeu-se neles. Era como se as velas de seu bolo queimassem dentro daqueles olhos. A luz que saía delas parecia cobrir de dourado a pele branca de Mariana, dando àquela pequena mulher uma aura própria.
Só lembrou-se que não fez o pedido quando sua mãe já cortava o primeiro pedaço do bolo.
"Coloque um calamatiano (dança típica em volta de fogueiras) para dançarmos, Kristin! Não temos fogueira, mas dançaremos em volta do tapete mesmo." � a mãe de Kristin pediu.
A morena foi até o aparelho de som e trocou o cd. Quando a música alegre e contagiante soou nas caixas de som, o Sr. Tassos tirou Mariana para dançar.
"Mas eu não sei o ritmo!" � ela exclamou, sendo puxada por ele para o meio da sala.
"Não tem problema. Eu a ensino." � ele retrucou.
O casal Petrakis já rodopiava pelo tapete, tentando se equilibrar sobre as pernas já bambas por causa da bebida.
Mariana rodou no ritmo da música e se divertiu como há muito tempo não fazia. Era realmente bom estar ali com aquelas pessoas alegres. Os gregos eram realmente muito gentis e festeiros. Qualquer coisa era motivo para se divertirem. Chegou a esquecer de seus últimos aborrecimentos; de suas preocupações. Quis aproveitar a alegria que emanava naquele lugar e daquelas pessoas.
Quando o pai de Kristin a soltou e foi dançar com a esposa, a morena chegou perto dela com mais um copo de bebida e elas deixaram os dois casais se divertindo e continuando a beber. Foram novamente para a varanda.
"É, realmente vocês gregos são fortes para beber!" � ela observou ao sentar-se.
"Você não viu nada. Eles conseguem ficar assim a noite toda." � a morena respondeu, dando um gole em seu copo.
"Estou preocupada com o Sr. Zervos. Ele não vai poder dirigir."
"Qualquer coisa vocês dormem aqui e vão amanhã de manhã." � Kristin falou, despreocupada.
"Mas... ah não, eu não quero incomodar." � Mariana respondeu, sem graça com a idéia de dormir ali logo da primeira vez que visitava o lugar.
"Seria uma ofensa para mim se recusasse." � Kristin olhou-a com intensidade.
Mariana baixou os olhos, totalmente desconsertada. Lembrou-se do quanto os gregos valorizavam a hospitalidade e acabou concordando com a possibilidade de ficarem ali.
"Eu não quis ofender... É... bem... se for necessário, nós ficaremos, sim." � ela gaguejou, ainda sem saber para onde olhar.
E foi realmente necessário. Os quatro beberam sozinhos três garrafas de retsina e duas de krasi. Estavam esparramados nos sofás da sala, rindo como se tivessem ouvido a coisa mais engraçada do mundo. O Sr. Petrakis acusava o cunhado de não conseguir mais dançar e estava mais que impossibilitado de dirigir. Os pais de Kristin também.
Ela chamou uma das funcionárias da fazenda e pediu que preparasse três quartos de hóspedes para todos eles. Os dois casais agora estavam quase dormindo, recostados nos sofás.
"Vou fazer um café para esses beberrões. Quer vir comigo até a cozinha?" � ela convidou Mariana.
"Claro."
Mariana seguiu-a pelos corredores que adentravam a casa e ficou admirando o andar firme dela. As botas que ela calçava faziam um ruído característico no piso de madeira e a calça justa mostrava generosamente todas as curvas de um corpo perfeito. A jovem tradutora sentiu-se culpada por aqueles pensamentos reincidentes e chegou a irritar-se pela insistência com que eles a perturbavam. "É só uma mulher muito bonita, Mariana. Que saco!"
Já Kristin sentia o olhar de Mariana sobre ela. Não era preciso olhar para trás para perceber. Seu senso perfeito lhe dizia exatamente onde os olhos da outra estavam e ela sorriu por dentro, feliz com a constatação de que Mariana estava se rendendo aos poucos.
"Você fala grego muito bem. Permite-me perguntar o que veio estudar?" � ela perguntou, disfarçando a alegria que sentia enquanto pegava uma lata de café no armário da cozinha.
"Vim fazer um mestrado em Tradução." � Mariana respondeu, recostada num dos balcões.
"Vai trabalhar também?"
"Acho que sim. O dinheiro que tenho não vai dar para os dois anos de estudo que tenho pela frente. Agora no início não será necessário, mas não pretendo demorar muito para começar, assim não fico apertada." � ela respondeu.
Nesse instante a funcionária da fazenda veio avisar que os quartos já estavam prontos.
"Obrigada. Pode se recolher."
"Sim, senhora. Boa noite." � a moça respondeu e saiu.
Quase que tiveram de enfiar o café goela abaixo dos quatro. Estavam praticamente desmaiados de sono, provocado pela bebedeira.
"Você me ajuda a levá-los?" � a morena pediu.
"Claro." � Mariana respondeu.
Elas levaram um por um até os quartos que ocupariam. Kristin apenas afrouxou as roupas e tirou os sapatos deles para que dormissem com mais conforto. Colocou um cobertor grosso para protegê-los do frio e deixou-os dormir. Elas fecharam as portas devagar e saíram sem fazer barulho, apesar de terem certeza de que nem sequer um terremoto acordaria aqueles quatro.
Saindo para o corredor, ficaram frente a frente e de novo aquela proximidade deixou as duas perturbadas. Mariana procurou pelo que dizer, mas não encontrou algo que não parecesse idiota naquele instante. "Como ela me encanta!", pensou.
Achou melhor segurar em silêncio a tensão que pairava no ar. A morena também sentia o mesmo. Aquela pequena loura a deixava encabulada, pensou.
"Este é seu quarto. O meu fica ali, no fim do corredor. Se precisar de alguma coisa é só chamar." � ela disse por fim e indicou uma porta à direita, no corredor.
"Obrigada. Boa noite." � Mariana respondeu e sem querer, mergulhou mais uma vez naquele azul infinito e paralisante.
"Como é difícil não olhar nos olhos dela!", pensou.
"É... bem... boa noite, então." � desta vez foi Kristin quem ficou sem jeito.
"Boa noite."
Arrancada daquele transe em que era presa toda vez que encarava aquele par de olhos, Mariana deitou-se apenas com a roupa de baixo e ficou pensando em tudo que estava acontecendo. O cobertor pesado aquecia seu corpo e ela se lembrou da fantasia que provara naquela tarde. A madrugada já ia longe e ela demorou a dormir.
Em sua cama, Kristin também não conseguia dormir. Ela e Eleftheria, filha de seus empregados, estavam juntas há dois anos, mas ela sabia desde os primeiros meses que tinha se enganado. Em sua imaturidade pensara que a jovem grega era a mulher que lhe estava destinada, mas descobrira depois, através dos oráculos de sua tia, que estava no destino de ambas passar por aquela etapa.
Kristin era uma jovem que seguira os passos das mulheres da família. Eram bruxas que passavam de geração em geração os segredos de rituais há muito tidos como extintos. Ela esperava desde a adolescência, quando ouviu o oráculo de sua tia pela primeira vez, uma jovem que lhe fora destinada pela Deusa-Mãe. Agora essa jovem estava a poucos metros de distância, no quarto de hóspedes e seu coração tentava se controlar.
O desejo de Kristin era pegar Mariana nos braços e unir-se a ela em amor. Sabia que quando se amassem pela primeira vez, duas almas estariam se unindo em uma única. Mas tinha de ser paciente, pois Mariana tinha seu próprio tempo e Eleftheria não poderia ser ferida. A jovem grega não sabia sobre a magia de Kristin, pois a morena assim preferiu. Eleftheria era sensual e fogosa, o que atraira Kristin no início, mas mostrara-se incapaz de entender certas coisas.
Kristin virou-se na cama e tentou conciliar o sono, sem muito sucesso.
Na manhã seguinte Mariana despertou de um leve cochilo que só conseguiu tirar quando já estava quase amanhecendo. Ficara a noite toda rolando na cama, tentando identificar aquelas sensações que não a deixavam em paz. Parecia uma febre que não cedia.
Antes das sete horas, levantou-se, lavou o rosto com água fria e saiu do quarto. Vestiu o casaco que levava, pois a manhã estava bem fria; mais até do que a noite passada. A casa estava em silêncio ainda e ela foi caminhando devagar pelos corredores, para não fazer barulho com as botas no assoalho. Parecia que ninguém havia acordado.
Ela foi até a cozinha e quando entrou, sentiu um cheiro delicioso de café recém-passado e viu que Kristin estava sentada no balcão do centro, segurando uma xícara fumegante. Estava linda vestindo um casaco grosso de tecido preto e calças jeans. E aquelas botas inseparáveis. Um chapéu também preto estava em cima do balcão. "Com certeza ela vai cavalgar", Mariana pensou.
"Bom dia." � Mariana cumprimentou a morena.
"Bom dia. Acordou cedo." � a outra observou, tomando um gole de café.
"Tu também."
"Eu sempre acordo bem cedo. A fazenda exige isso. As atividades aqui começam quando ainda está escuro. Sente-se e tome café comigo." � ela convidou, agora observando a jovem sob a luz do dia.
"Mas hoje é domingo. Também tem atividades?" � Mariana perguntou, sentando-se.
"Não muitas, mas sempre há algo para se verificar. E gosto de cavalgar a esmo também. É como uma terapia; me faz muito bem."
A Sra. Petrakis entrou na cozinha arrastando os pés e com os cabelos parecendo ter sido vítimas de um vendaval. Mariana segurou-se para não rir e viu que Kristin também fazia o mesmo.
"Alguém tem um comprimido para dor de cabeça?" � perguntou segurando a testa como que para não deixa-la cair.
"Muito bem! Que estrago, hein, tia? Você levou a sério aquele negócio de mostrar a Mariana como bebemos!" � Kristin provocou-a de propósito, piscando para Mariana.
"Ah, querida, não foi tanto assim, foi?" � a velha senhora perguntou, olhando para Mariana.
"Não, não. Só um pouquinho." � a lourinha respondeu tentando segurar o riso.
"Tome, leve para o tio Zervos e para o papai e a mamãe também. Tenho certeza de que eles vão precisar." � Kristin disse, abrindo uma porta do armário da cozinha e pegando uma caixa onde havia vários medicamentos.
A Sra. Petrakis acenou um agradecimento e voltou para o quarto levando dois copos d�água.
"Eles não tomam jeito!" � Kristin comentou quando estavam sozinhas de novo.
Elas ficaram ali conversando enquanto esperavam os mais velhos acordarem da ressaca. A conversa fluía com uma familiaridade incrível.
Kristin pegou-se achando graça das covinhas que se formavam no rosto de Mariana quando ela sorria. Ficou sentada no balcão, absorvendo cada palavra que Mariana dizia. Estava exultante por finalmente ter encontrado aquela que era o complemento de sua vida.
Depois de um tempo os quatro mais velhos apareceram com as caras amassadas, depois de terem tomado cada um, um comprimido para dor de cabeça.
"Precisamos de um café, Kristin. Bom dia, Mariana." � a mãe dela falou.
"Bom dia, Sra. Yalouris."
Todos se cumprimentaram e tomaram café juntos. A sensação de familiaridade voltou ao coração de Mariana. Aquilo era reconfortante e bom.
Lá pelas nove horas o Sr. Zervos já estava recuperado e podia dirigir. Entraram no jipe e Kristin, que tinha ido buscar seu cavalo para a cavalgada, acompanhou os carros e abriu a porteira para passarem. Ao se despedir, veio até a janela do jipe.
"Venha conhecer minha fazenda no próximo domingo, Mariana. Tio Zervos pode trazê-la de jipe e depois eu a levo de volta a cavalo, o que acha?" � ela convidou.
"Como recusar um convite daqueles? Como não se perder naquele azul que a enfeitiçava?", Mariana pensou consigo antes de responder.
"E poderíamos almoçar aqui mesmo." � a morena completou.
"Bom, eu... eu virei sim, se não for incomodar o Sr. Petrakis." � Mariana respondeu.
"Imagine se incomoda, menina!" � o velho grego retrucou, sorrindo.
"Até lá, então." � ela respondeu e saiu cavalgando em direção ao campo.
O jipe sacolejou pela estrada até a propriedade dos Petrakis e Mariana foi pensando naquele convite.
Continua na Parte VI...
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