Sofia

Kaoru

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Os rostos s�o todos iguais. Quando eu olho para a janela sempre vejo os mesmos rostos, sem nenhuma emo��o, nem sentimento. Parecem robos, que s� fazem o que fazem porque s�o obrigados a fazer.

N�o sei se sou igual a eles, espero que n�o, mas viver entre eles me incomoda bastante. Ser� que eles percebem que se tornaram assim?

Acho que n�o...

O mais triste � ter que viver entre eles, se fazendo passar por um deles, sem que ningu�m perceba que voc� n�o � igual a eles.

Eu j� to cansada de viver assim.


Hoje o dia est� esquisito. O sol que at� ontem vinha para nos dar o ar de sua gra�a, hoje nem sequer deu sinal de vida.

Ta parecendo que vai chover. Apesar de adorar o cheiro de chuva, eu gostaria de ver o sol hoje de novo. Pelo menos ele me deixa feliz!

Sonhei com a minha m�e de novo. Fazia muito tempo que eu n�o sonhava com ela, eu at� estava esquecendo como era o seu rosto, mas j� faz uma semana que eu sonho com ela todos os dias, e em todos os sonhos ela parece querer dizer alguma coisa. Nesse sonho ela dizia para eu tomar cuidado, n�o sei exatamente porque. Desde que eu acordei to pensando nisso, acho que vou contar para a Dra Marina, talvez ela saiba o que quer dizer...�


Sofia esta sentada no banco de tr�s do carro, olhando para a janela observando as pessoas que andam pela cal�ada. Em seu colo ela levava o seu di�rio, que tinha acabado de fechar, ap�s escrever seus pensamentos, como fazia todos os dias. Sua psicologa tinha recomendado a ela que come�asse a escrever, para ter um meio de expressar o que sente, j� que n�o tinha nenhum amigo que pudesse desabafar. A principio Sofia n�o tinha gostado muito da id�ia, mas depois de dois anos escrevendo sem parar em seu di�rio, tinha se convencido que funcionava, pelo menos um pouco.

Sofia ainda se recuperava de uma tentativa de suic�dio. Porque ela tentou tirar sua pr�pria vida?

Porque n�o ag�entava mais sentir o vazio que sinto dentro de mim...�

Foi isso que ela respondeu para a Dra Marina, quando ela tinha questionado Sofia sobre isso.

Levava em seus pulsos as marcas de uma tentativa frustrada de tirar sua pr�pria vida.

Tinha planejado muito bem, sabia que sempre as 14 horas ficava sozinha em casa. Comprou uma navalha. Porque navalha? Ela n�o sabia o porque, mas no dia que decidiu o que iria fazer, escolheu faz�-lo com uma navalha. Esperou dar 14 horas deitada em sua cama, com a navalha ao seu lado, olhava para foto de sua m�e falecida, e dizia que iria encontra-la. O rel�gio despertou no hor�rio que ela tinha programado, ela se levantou, pegou a navalha, entrou no banheiro, sentou no ch�o ao lado do vaso sanit�rio. O primeiro foi o pulso direito, fez um corte horizontal bem fundo. Sentiu uma dor profunda, mas nenhuma dor era igual a que sentia. Depois cortou o outro pulso. Sua roupa estava toda suja de sangue, ela olhava em um ponto da parede, e pensava somente em sua m�e.

Depois da morte dela, Sofia tinha entrado em depress�o profunda, fazia analise e tomava rem�dios controlados para poder dormir, mas at� aquele dia em que decidiu se suicidar, Sofia n�o tinha melhorado, muito pelo contr�rio, houve uma piora consider�vel.


Sofia quase morreu naquele dia, mas justamente naquele dia seu pai voltou para casa mais cedo, pois tinha esquecido papeis importantes em casa. Ele pegou os papeis, e pretendia ir embora o mais r�pido poss�vel, pois estava atrasado, mas do nada ele sentiu uma vontade de ver sua filha. Sua rela��o com ela tinha ficado estremecida depois da morte da m�e de Sofia, ele n�o soube lidar com o sentimento de perda, ficou completamente perdido, vendo sua filha se afundar em uma tristeza profunda, se achava respons�vel, ou melhor, culpado, pois nada fazia para ajudar sua filha, mas ele n�o sabia o que fazer, por isso se afastou.

Subiu as escadas, abriu a porta do quarto chamando pelo nome dela, mas ela n�o respondeu. Ele achou estranho, pois ela s� saia de casa quando ia para analise. Chamou mais uma vez, mas n�o ouviu resposta. Resolveu ver se ela estava no banheiro. Quando entrou viu Sofia ca�da ao lado do vaso sanit�rio toda suja de sangue. Ele entrou em desespero. Se jogou ao lado dela, pegou em seus pulsos tentando estancar o sangue que saia, mas n�o adiantava. Pegou as toalhas que ficavam ao lado da pia, enrolou bem forte em seus pulsos, e a abra�ou gritando para que seus empregados chamasse uma ambul�ncia. Ficou ao lado dela em todo o trajeto que a ambul�ncia fez para chegar no hospital. O pai de Sofia n�o acreditava muito em Deus, e depois do falecimento de sua mulher, tinha cortado rela��es com o todo poderoso, mas naquele momento rezava baixinho pedindo para Deus n�o levar sua filha.

No hospital o m�dico que atendeu Sofia disse para o pai dela a que se demorasse mais um pouco, ela teria morrido. Seu pai ficou muito aliviado, n�o sabia se ag�entaria mais uma perda. Mas depois de se recuperar, a depress�o de Sofia s� tinha piorado, a primeira pergunta que fez para o seu pai, quando esse foi visita-la, foi o porque ele n�o tinha a deixado morrer.

Teve que ficar muito tempo internado, pois n�o queria comer, tentava tirar os tubos que ficavam em seu bra�o, ligando o soro em suas veias. Chegou ao ponto em que tiveram que amarra-la e seda-la. Seu pai ja n�o sabia mais o que fazer.

Em uma noite, Sofia insistia em n�o comer, teve que ser sedada pois estava muito agitada, estava acompanhada por Dr Marina, pois seu pai teve que viajar a neg�cio.

Conforme o rem�dio ia fazendo efeito, Sofia ia se acalmando, seus olhos iam fechando, para finalmente adormecer. Toda vez que sedavam Sofia, ela dormia pesadamente, sem sequer sonhar, mas nessa noite foi diferente, seu sono foi tranq�ilo, cheios de sonhos. Um deles foi com sua m�e.

Sofia n�o lembrava os detalhes, n�o se lembrava o que havia dito, mas s� de lembrar que tinha sonhado com sua m�e, e que parecia que ela estava ao seu lado. Ap�s acordar, Sofia sentiu uma alegria que a muito tempo n�o sentia, olhou para o lado, e viu Marina deitada toda torta na cadeira ao lado da cama. Considerava Marina mais do que sua s� terapeuta, a considerava uma amiga com quem poderia contar, tanto que desde que soube Marina ficou ao lado de Sofia todo o tempo, como terapeuta, mas sobre tudo como amiga. A rela��o das duas j� tinha ido al�m de consult�rio, mas Sofia n�o sabia que Marina nutria uma paix�o por ela, nunca tinha reparado que os carinhos excessivos, muito menos os olhares que a Dra muitas veze n�o conseguia disfar�ar. Marina passava por uma situa��o complicada, estava entre o sentimento que alimentava com rela��o a Sofia, que era sua paciente, e a postura �tica que sua profiss�o pedia. N�o aceitava ter se apaixonado por uma paciente, pensou muitas vezes em dizer a ela que n�o poderia ser mais sua m�dica, mais muitas vezes desistia quando Sofia tinha uma crise, sabia que ela precisava seguir seu tratamento, e interrompe-lo no meio seria botar a perder os poucos resultados que tinha obtido at� ali. Ainda mais depois do que Sofia tinha tentado fazer, n�o poderia abandona-la, n�o agora. J� tinha perdido a esperan�a, pois nada que falava fazia Sofia mudar de id�ia, Marina n�o estava ag�entando ver a pessoa que mais gostava se recusar a comer.

Mas naquela manh� algo tinha acontecido, Sofia estava diferente, e Marina percebeu logo que olhou para ela. Parecia mais feliz, e realmente estava mesmo. Mesmo n�o lembrando do seu sonho, algo tinha deixado mais leve, como se toda a dor que sentia com a perda de sua m�e tinha aliviado, ela n�o soube explicar, mas estava diferente. Surpreendeu a todos quando devorou o caf� da manh� sem deixar nada, perguntava ao m�dico quando poderia sair, voltar para casa. Depois desse dia sua recupera��o foi r�pida, em menos de uma semana j� tinha recebido alta. � ai que voltamos para o nosso ponto de partida.

Continua...

Parte 2

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