DEZ COISAS QUE ODEIO EM VOCÊ  5

 

 

CAPITULO 39 - PAMELA

 


O almoço com Alan foi extremamente agradável. A reação de Allison tinha me deixado... Longe de estar satisfeita, eu tinha apenas começado.
Uma única coisa me incomodava: a falta de controle, excitação absolutamente incontrolável que tomava conta de mim cada vez que Allison me tocava. O resultado? A ânsia, desejo não saciado pelo beijo que a entrada de Alan na sala tinha evitado.
Ele deu um gole na taça de vinho antes de falar:
- Pamela, Pamela... Você precisa tomar mais cuidado... A não ser que ao invés de se vingar prefira... desfrutar um pouco mais dos prazeres que a suburbana traidora tão evidentemente te proporciona. Se eu não entrasse naquela sala nem quero pensar no que poderia ter acontecido...
Não respondi. Minha mente povoada pelas emoções desenfreadas.
- “Não pode namorar esse cara.” – ela tinha dito.
E naquele momento, eu quase tinha acreditado que talvez ela pudesse... Não. Bobagem. Tinha que parar de desejar e... amar aquela miserável. Coisa extremamente difícil, uma vez que continuava infectada. Tudo o que eu queria era...
A mão dela em minha nuca... Nossos olhos entrelaçados, sem desviar um centímetro... Os lábios dela... Suspirei, lamentando mais uma vez o beijo que não tinha acontecido...
- Hello! Pamela, onde é que você está com a cabeça, baby?
Voltei a focar meus olhos em Alan, piscando, ainda tonta ao retornar da minha... total viagem. Ele mesmo respondeu, sem me deixar falar:
- No meio das pernas, não é mesmo?
- O quê?
- É onde sua cabeça está!
E novamente... não tive como negar.

Só voltei para a revista às cinco da tarde. Allison parecia possessa. O que me ajudou - e muito – a manter um enorme sorriso na cara.
Assim que sentei em minha mesa, meu celular tocou. Era Alan, como tínhamos combinado. Atendi com a voz mais derretida possível, numa interpretação muito mais do que convincente de namorada apaixonada. Conseguindo tirar Allison do sério:
- Desliga! Você extrapolou a sua hora de almoço, sabia?
Pelo jeito minha vitória ia ser fácil...
Levantei me fazendo de furiosa. Com um Alan absolutamente debochado falando no fone em meu ouvido:
- Cuidado senão a vira-lata te morde!
Fui obrigada a desligar, ou não conseguiria conter o riso. Mas não sem provocar ainda mais:
- Te ligo daqui a pouco, amor!
Allison estava... absolutamente alterada. Com uma fúria fora do normal. Que me deixava... nossa, aquilo não poderia ser melhor! Era exatamente o que eu queria: fazer da vida dela um inferno como ela tinha feito com a minha. Não permitir que ela tivesse um segundo paz.
Me arrastou pelo braço até a redação. Gritou como uma louca com os funcionários. Sem a menor classe. Assustadora, de verdade. Arrancou das amebas olhares de pavor dignos de uma salva de palmas. Depois me arrastou de volta à nossa sala.
- Bravo, Allison!
Não tive como deixar de falar. Satisfeitíssima porque estava conseguindo mostrar a ela o que eu queria provar: que a minha forma de dirigir a revista era a certa. E ela estava vendo e sentindo na pele sem que eu precisasse dizer nem fazer nada.
Meus olhos brilhavam. A nova Allison tinha me surpreendido, me empolgado... Eu estava cada vez mais encantada, enfeitiçada... apaixonada. Um esforço hercúleo me impediu de seguir a vontade insana de agarrar aquela mulher, arrancar as roupas dela, a beijar, acariciar, me esfregar nela até a satisfação total...
Ali me segurou pelos braços. De uma forma quase brutal.
- Olha aqui... Você também está na minha lista negra, Pamela!
Tão próxima de mim que nossos hálitos se misturavam. Meus seios encostaram nos dela e Ali me puxou para mais perto, colando nossos corpos. Me prendendo entre ela e minha própria mesa. Minha respiração estava difícil, ofegante. Totalmente à mercê dela... Merde!
Reagi rapidamente, mas não conseguia tirar os olhos dos lábios que tanto desejava:
- Enlouqueceu, Allison! Surtou, é?
Quase desfalecendo de tanto desejo... Queria desesperadamente que ela me beijasse... Ao invés disso Allison disse entre dentes, num misto de tesão e raiva que me deixou toda arrepiada:
- Quer almoçar com o seu namoradinho? Pode ir, mas terá que voltar no horário, entendeu?
Como era possível que aquela menina tivesse tamanho poder sobre mim? Eu mal conseguia raciocinar... Juntei minhas poucas – e últimas – forças para gaguejar:
- Me... Solta!
Mas Allison, com uma firmeza impressionante, que eu nunca tinha visto ou sentido igual, continuou:
- Gosta de intimidar as pessoas, não é? Gosta de mandar e desmandar... Exercer o seu poder! Como se sente diante de alguém que pode mandar e desmandar em você, Pamela?
A resposta era inconfessável... Felizmente ela estava tão descontrolada que não percebeu os tremores que me subiam pela espinha, os pelinhos do meu corpo totalmente arrepiados, muito menos as pontadas de desejo que se espalhavam úmidas em minha calcinha sem que eu conseguisse controlar...
Tentei me soltar, protestar:
- Enlouqueceu, menina?
Mas minha voz estava rouca demais, prestes a me denunciar. Por isso não tive outra escolha a não ser me calar. Ela respondeu sem hesitar:
- Sim!
Com o rosto enfiado em meu pescoço. Meu corpo todo correspondeu em espasmos de prazer que só aumentaram quando a coxa de Allison me pressionou intimamente entre as pernas. Um gemido involuntário escapou dos meus lábios. Loucura total...
Ela sorriu com uma satisfação selvagem. Antes de aproximar a boca da minha, um leve roçar, mas ainda sem me beijar:
– Daqui pra frente, vou dançar conforme a música. Se todos querem ser mandados. Eu vou mandar, viu?
Delícia... Adoraria que aquilo fosse verdade... Só de pensar nas possibilidades, tremi inteira. Tinha encontrado uma adversária à altura. Isso eu sabia desde o começo. Alguém que eu nunca, jamais conseguiria dominar nem espezinhar completamente. Pelo contrário, quanto mais eu atacava, mais forte ela revidava. Meu corpo todo vibrava, pedia por ela... Inacreditável...
Não! Eu não ia, não podia deixar aquela menina me derrotar:
- Me solta!
Foi meu pedido fraco. Que teve a seguinte resposta:
- Claro!
Antes de Allison me beijar com voracidade. Correspondi inteira e intensamente. Toda a minha vontade dela podendo ser finalmente extravasada. Morta, louca de saudades do cheiro, do gosto, da pele da mulher que eu... amava.
Até Allison me soltar bruscamente. E se afastar dizendo com frieza, como se nada tivesse acontecido:
- Estamos entendidas?
Aquilo me tirou completamente do sério. Não conseguia acreditar que mais uma vez, tinha permitido que ela... Impossível camuflar a pontinha de dor gravada profundamente em meus olhos:
- Acha que pode fazer isso?
- Quem manda aqui sou eu, lembra? Você me usou tanto na sua época, agora é a minha vez, Pam!
- Você não...
Ela se levantou rapidamente. Caminhou até a porta... E com um sorriso absurdamente irônico, disse antes de sair batendo a porta:
- Vou pra casa. É tão bom não ter que cumprir horários.
Minha primeira reação foi ficar paralisada. Depois, foi arremessar o cinzeiro de vidro que estava atrás de mim contra a parede. Milhares de caquinhos se espalhando pela sala.
A terceira, obviamente, foi ligar para Alan.

No dia seguinte, cheguei acintosamente atrasada. E completamente sorridente e bem humorada. Cheguei a dar bom-dia à Arlete! Agora que não era mais chefe, podia até me dar ao luxo de ser simpática.
Por trás da pilha de papéis, os olhinhos de Allison me fuzilaram:
- Duas horas de atraso...
Antes que Allison pudesse completar, falei de um jeito totalmente displicente:
- Pode descontar do meu salário.
E me sentei minha cadeira com um sorriso resplandecente.

Passei o resto da manhã no celular. Falando com Alan, é claro. O tempo inteiro dizendo: “meu amor” pra cá... “amor” pra lá...
Era evidente que Allison estava completamente descontrolada. Mas só demonstrou quando ouviu:
- Oi Penélope... Tô morrendo de saudade...
Levantou de um salto. Se postou na minha frente com as mãos na cintura, absolutamente brava. Só faltava bufar:
- Você não é paga pra falar no celular.
Do outro lado da linha, Penélope ria sem parar. Mais ainda quando respondi:
- Minha querida, se você não entendeu ainda, sou a filha do dono dessa revista. Ou seja, já que não sou mais a presidente, estou aqui só para constar. E não para trabalhar, como você e os outros reles funcionários...
Terminei com um dos meus sorrisos irresistíveis.
Allison engoliu em seco. Respirou fundo, e saiu da sala.
A voz de Penélope soou em meu ouvido:
- Bravo, Pamela! É assim que se fala!
O jogo estava começando a virar.

Depois de um almoço divertidíssimo com Penélope e Alan, levei meu “namorado” para conhecer meu pai.
O charme de Alan era irresistível, mas... apesar de meu pai parecer ter gostado muito dele, e dos dois terem criado uma cumplicidade e simpatia imediatas, o sr. Álvaro me surpreendeu me chamando para uma conversinha particular:
- O que está acontecendo, Pamela? Quem é esse rapaz?
Olhei para ele como se não estivesse entendendo nada:
- Como assim? Eu já te disse: Alan é meu namorado.
Ele me fitou atentamente ao perguntar:
- E a Allison?
Fiz uma cara de quem acha a pergunta absurda, mas respondi:
- A Allison é passado.
Meu pai voltou a me avaliar enquanto falava:
- Adorei o rapaz, filha. Vocês fazem um casal lindo. Seria perfeito, se não fosse um pequeno detalhe: você não está apaixonada. Quero dizer... Não por ele, claro...
Olhei meu pai do alto da minha antiga superioridade:
- Francamente, pai? Não vou nem reclamar dessas suas idéias totalmente... incoerentes e inadequadas. Na verdade só posso agradecer pela lição que você conseguiu me dar: as pessoas - principalmente as inferiores - não valem nada, só se aproximam para tirar vantagem. E essa história de amor, definitivamente, é uma grande bobagem.

Voltei do almoço às 5 da tarde. Allison só faltou ameaçar me matar. Eu apenas sorri, dizendo:
- Estava com o Alan na casa do meu pai.
Ela me olhou de um jeito... Como se tentasse descobrir se era verdade o que eu estava dizendo. Abriu a boca para falar, mas meu celular tocou:
- Oi amor. Claro... Pode ser. Vou sair com a Penélope, mas depois... Ai, não fala assim, que eu fico toda... Você sabe... Então até mais tarde. Também mal posso esperar...
A cara de Allison foi absolutamente impagável... Sentei na minha mesa sorrindo satisfeita por estar sendo tão fácil...

Quando entrei na sala no dia seguinte de manhã – com quase três horas de atraso – Allison quase caiu da cadeira. O motivo eu sabia muito bem explicar: tinha caprichado no visual. Estava absolutamente fatal.
Com a voz aveludada e um sorriso sedutor, a brindei com um:
- Bom dia, Allison!
Que a fez gaguejar:
- Bom... dia... Pam...mela...
Joguei a bolsa em cima da minha mesa, mas foi em cima da mesa de Allison que fui me sentar. De frente para ela, que não tirava os olhos das minhas pernas.
- Estou muito feliz, hoje. Tive uma noite maravilhosa! E você, Ali?
As olheiras debaixo dos olhos dela eram inegáveis. O que apenas tornava mais divertido perguntar. Ela continuou sem piscar. E balbuciou com dificuldade:
- Eu... é...
Descruzei e cruzei as pernas. Os olhos castanhos acompanharam o movimento de um jeito que me arrepiou. O que só ajudou. Minha voz soou rouca, insinuante, intensa:
- Preciso te agradecer.
Uma Allison de olhos muito arregalados perguntou:
- Agradecer? Pelo que?
- Você tirou um peso enorme das minhas costas, Ali. Dirigir essa revista é estressante, um verdadeiro inferno. Finalmente estou podendo curtir a vida e o meu dinheiro, sem preocupações nem aborrecimentos.
Levantei e me reclinei para ela. Os olhos de Allison mergulharam no decote que – daquele ângulo - generosamente deixava à mostra grande parte dos meus seios. Colei os lábios no ouvido de Ali, meu corpo e o dela estremeceram. Sussurrei sensualmente:
- Espero que você esteja gostando e aproveitando tanto quanto eu.
Voltei para a minha mesa rebolando de um modo propositalmente provocante. Peguei meu celular, disquei. Allison me observava atentamente. Podia sentir os olhos dela buscando os meus. Mas a ignorei. Alan atendeu, e me derreti toda ao dizer:
- Oi, amor. Também já estou com saudade... 10 minutos é muito tempo sem você...

Primeiro achei que Allison e meu pai só podiam estar brincando. Ao invés da festa que sempre fazíamos para comemorar o sucesso de vendas da revista eles iam fazer um... arg... churrasco para os funcionários e suas famílias?
Pior ainda: meu pai fazia questão, para não dizer exigia que eu estivesse presente. Tentei expressar o quanto aquilo tudo era absurdamente vulgar e deprimente, mas para variar, para os dois minha opinião parecia não contar.
Ao contrário de Penélope e Alan, que ouviram meu desabafo sem conseguir conter o riso. Depois de agüentar os dois chorando de tanto rir, ainda tive que suportar o comentário de Penélope:
- Realmente, Pamela, não consigo te imaginar num churrasco...
Alan concordou imediatamente. Rolando de rir na poltrona em que estava sentado. Aproveitei para intimar:
- Que bom que estão achando tão divertido, porque os dois vão comigo.
Nem precisei insistir. Eles se entreolharam, ambos com o mesmo sorriso irônico e malicioso enquanto Penélope soltava:
- E por que não? Vamos aproveitar e nos divertir às custas dos serviçais.
E Alan concordava:
- Principalmente da ex-assistente alpinista social.
Eu estava achando aquilo tudo simplesmente inacreditável. Sacudi a cabeça numa recusa total:
- É o cúmulo do absurdo! Ridículo! O que o meu pai pretende com isso?
Ao que Alan respondeu, sentando ao meu lado no sofá e me abraçando:
- Pamela, minha querida, o seu problema é que você leva tudo a sério demais... Seu velho quer e sabe te provocar, mas não é páreo para nós...
E Penélope completou, sentando e me abraçando do outro lado:
- Eles não perdem por esperar. Vamos colocar seu pai e toda essa gentinha em seu devido lugar.

 

Capítulo 40-Allison

 






Olhei no relógio inúmeras vezes. Pamela estava atrasada, pra variar. O que ela queria me desafiando dessa forma? Será que eu não fui clara o suficiente ao dizer ontem que iria pegar no pé de todos lá dentro daquela revista? A bonitona se sentia privilegiada por ser a filha do chefe, não é? Sentei-me na cadeira assim que ela entrou na sala. Não queria dar a Pamela o gostinho de saber que eu estava arrancando os cabelos por esperá-la ansiosamente. O sorriso dela e o seu bom humor visível fez com que eu não conseguisse manter o meu auto-controle.

- Duas horas de atraso... – ironizei enquanto olhava o relógio.

Pamela sorriu mais ainda ao me responder:

- Pode descontar do meu salário.

Quiquei na cadeira, como diria o meu amigo Léo. Engoli em seco, afinal de contas, ela estava certa. Descontar do seu salário qualquer valor que fosse não faria a menor diferença pra essa mulher. Quer saber? Depois dessa eu fiquei calada. Ela já estava às minhas vistas mesmo. Tudo o que me deixava feliz era poder sentir o cheiro do perfume dela inebriando os meus sentidos. A sua pose de rainha examinando papéis e pedindo que Arlete trouxesse seu chazinho indiano. Muito fresca essa mulher! Sorri de novo, mas logo o meu sorriso se desfez quando o seu celular tocou e ela passou a se derreter toda ao falar com aquele engomadinho ridículo do Alan. Tá certo! Ele não é ridículo, mas eu daria um braço pra que esse cara nunca tivesse cruzado o meu caminho.

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

A manhã inteira! Podem apostar. Pamela ficou falando com o engomadinho a manhã toda. E eu? Bom, fiquei tentando me controlar sem muito sucesso. Jesus! O ciúme corrói toda a racionalidade de nós, reles mortais. A gota d'água Foi quando ela, enfim, desligou o maldito telefone e o mesmo tocou em seguida. Quando eu ouvi o nome daquela mulherzinha, aquela, a Penélope, lembram? Aí eu virei bicho mesmo, viu? Parei na frente dela. Mãos na cintura. Eu queria gritar, mas apenas disse:

- Você não é paga pra falar no celular.

Sabe o que ela respondeu? Um absurdo aquela resposta. Ah, sim! A resposta...

- Minha querida, se você não entendeu ainda, sou a filha do dono dessa revista. Ou seja, já que não sou mais a presidente, estou aqui só para constar. E não para trabalhar, como você e os outros pobres funcionários... – disse e depois ficou rindo pelas minhas costas. Como ela mesma costuma dizer: - Isso é ultrajante!

- Vou almoçar, Allison! – disse pegando a bolsa. – Meu gentleman está me esperando – sorriu irônica.

- Sei... Aquele idiota! – sussurrei.

- O quê? – virou-se na minha direção.

- Eu disse pra não abusar da hora do almoço.

Pamela soltou uma gargalhada e bateu a porta. Senti o meu peito produzir um som tão parecido quanto aquela porta batendo.

Preciso dizer que para mim, além de não ter conseguido trabalhar, também se tornou terminantemente impossível almoçar?

Quando Pamela voltou do almoço, novamente às cinco da tarde. Eu estava uma pilha. Já havia tomado uma overdose de comprimidos para dor de cabeça e ela... Se Pamela achava que eu iria querer saber o motivo do seu atraso, estava muito enganada. Bom, ela estava feliz! Isso me martirizava, sabia? Não adianta dizer que quando a gente ama, quer ver a pessoa amada feliz, mesmo que seja com outra pessoa. Isso é impossível!

- São cinco da tarde, Pamela! – não resisti.

- Estava com o Alan na casa do meu pai.

Eu pensei não ter ouvido direito, mas lembrei de ter ligado para o Sr. Álvaro alguns minutos atrás e a empregada informou que ele estava com visitas. Eu disse a ela que o assunto não era urgente, portanto, ligaria depois. Novamente o telefone de Pamela tocou. Isso já estava sendo irritante! O carinha era um chiclete, oras! Não me torturei mais. Saí da sala e caminhei em passos largos até o corredor, perdida. Entrei na sala de Léo, que estava compenetrado olhando a tela do PC. Meu amigo desviou os olhos por alguns segundos.

- Ora, ora! A poderosinha aqui na minha humilde sala?

- Não seja ridículo, cara! – sentei-me na cadeira à sua frente.

- O que foi? Cansou de brincar de gato e rato com a poderosa-mor?

- Ela está me enlouquecendo, sabia? – balancei a cabeça negativamente – A Pamela está namorando um palhaço que liga pra ela o dia inteiro!

- Hum... Já me contaram. Disseram também que o homem é lindo! Estou doido para vê-lo. – sorriu animado.

- Nossa! Como amigo você está me saindo um traidor de primeira.

- Ai Allison! Relaxa, minha filha! – deu a volta na mesa – Por que não sai com as suas amigas? A poderosa tá tocando a vida dela, vai viver a sua também. Pára de ficar se torturando o tempo todo, linda! – balançou os meus braços. – Ali, você não dorme mais, não come... Não fode mais com ninguém. Isso deprime, sabia? Reage!

- Esquece esse lance de reagir, Léo! – levantei-me. Fui até a janela. Afastei as cortinas. – Não estou dando conta do trabalho. Desde que a Pamela passou a ser minha auxiliar, ela não trabalha mais. Só quer saber do engomadinho.

- Hei! Você é quem manda agora, esqueceu? Por que não contrata uma assistente?

- Não posso fazer isso sem falar com o Sr. Álvaro.

- Acorda, Allison! O Sr. Álvaro te deu carta branca.

- Vai demorar... Tem a seleção de pessoas... Não posso! Preciso de alguém pra ontem!

- A Leandra precisa de estágio. – disse de imediato.

- Sua irmã?

- Você podia aproveitar o poder e dar essa força pra ela, não é?

- Hum... – pensei por alguns segundos. Seria bom ter uma amiga trabalhando ao meu lado – Acho que contratar a sua irmã como estagiária será o melhor ato que o poder me proporcionará. – fitei-o satisfeita.

- Sem contar que se a poderosa gostar um pouquinho sequer de você, irá morrer de ciúmes – sorriu malicioso.

- O que quer dizer com isso, Léo?

- A Leandra te adora, Ali! – aproximou-se do meu ouvido como se temesse que alguém nos ouvisse – Quem sabe ela não pode te ajudar a pôr ciúmes na poderosa? Amiga! Você precisa namorar, mesmo que seja de mentirinha!

Sorri achando graça da forma como ele falou.

- A Leandra é uma criança!

- Já passou dos dezoito, e diga-se de passagem, é uma criança linda!

- Que idéia ridícula!

- Posso combinar com ela de ir no churrascão da empresa nesse fim de semana. Aí vocês acertam tudo, o que acha?

- Convide-a.

- Ali... A poderosa já sabe que a Gente Chique vai fazer um churrasco ao invés das badaladas festas de puro requinte pra comemorar o fechamento das vendas?

Sorri ao dizer:

- Ainda não!

Léo sorriu em seguida.


- Vai ser tudo ver a poderosa se contorcendo de ódio!

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Quando retornei à sala, Pamela já havia ido embora. Deixou um bilhete na minha mesa, que dizia:

“- Allison. Por motivos de força maior, saí mais cedo. Tenho um compromisso inadiável para essa noite. Preciso de algumas horas no meu cabeleireiro. Se quiser descontar do meu salário, fique à vontade. Um abraço.

Pamela.”

Amassei o papel e arremessei-o na lixeira ao lado da mesa.

- Aposto que irá ver aquele engomadinho. Ela está apaixonada, só pode! - balancei a cabeça negativamente - Acho que preciso mesmo de uma namorada. – sussurrei por entre os dentes.

Na manhã seguinte... Três horas de atraso... Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, minhas palavras ficaram presas na garganta. Quando Pamela entrou na sala, jogou a bolsa na sua mesa e veio sentar-se na minha. Cruzou as pernas ao mesmo tempo em que disse:

- Bom dia, Allison!

- Bom... dia... Pam...mela... – gaguejei enquanto minha boca aguava por aquela mulher provocante que cruzava e descruzava sedutoramente as pernas na minha frente. O que ela queria, hein? Me enlouquecer de desejo? Desde a última vez que fizemos amor, eu nunca mais toquei em mulher nenhuma. Estava louca de tesão.

- Estou muito feliz, hoje. Tive uma noite maravilhosa! E você, Ali? – umedeceu os lábios ao falar. Fiquei sem chão diante das palavras dela.

- Eu... é...

- Preciso te agradecer.

Fitei-a desconfiada...

- Agradecer? Pelo quê?

- Você tirou um peso enorme das minhas costas, Ali. Dirigir essa revista é estressante, um verdadeiro inferno. Finalmente estou podendo curtir a vida e o meu dinheiro, sem preocupações nem aborrecimentos. – disse e levantou-se, inclinou o busto na minha frente. Mergulhei involuntariamente os olhos no seu decote. Quase pude ver o bico rosado dos seus seios - Espero que você esteja gostando e aproveitando tanto quanto eu.

Em seguida o telefone de Pamela tocou. Era o engomadinho, pra variar. Fiquei pensando nas palavras dela... Acho que essa foi a única vez que não me prestei ao papel de ficar tentando ouvir e decifrar as conversas dela com o talzinho. Lembrei-me das palavras de Léo... Do churrasco... Leandra... Namorada... Eu precisava tomar um rumo na minha vida e ao menos saber se Pamela sentia um fio de ciúme por mim. Reacendeu uma enorme esperança dentro do meu peito. Assim que ela desligou o telefone eu falei:

- Seu pai já te comunicou sobre o maravilhoso churrasco que ofereceremos para os funcionários?

Pamela ergueu a cabeça absolutamente sem saber do que eu estava falando. Continuei.

- Domingo. Comemoraremos o novo recorde de vendas oferecendo um grandioso churrasco para todos. E mais, será permitida a entrada dos filhos, esposas e maridos dos nossos digníssimos contribuintes da revista – sorri da cara que ela fez.

- O meu pai sabe disso?

- Claro! Chegamos à conclusão de que será um evento agradável, desestressante, e produtivo, sabe? Imagine as crianças correndo pelo gramado do sítio. Todos confortavelmente vestidos, aproveitando o maravilhoso sol do Rio de Janeiro. Leva um biquíni bonito, tá? Aposto que todas as mulheres presentes vão reparar no seu modelito. - acho que eu havia sido possuída pelo espírito do deboche.

- Não me faça rir, Allison! – colocou a mão na mesa furiosa. Adorei ver aquele sorrisinho patético de felicidade se esvair da sua face – Não irei me prestar a esse papel.

- Eu não estaria tão certa disso – sustentei o olhar. Sabe que pela primeira vez eu gostei de ter provocado a fúria naqueles olhos azuis? -Te vejo na festa, viu?

- Não vai trabalhar? – olhei os papéis na minha mesa.

- Segunda-feira teremos uma nova estagiária. Não faz mal acumular um pouco de trabalho.

- O quê?

Olhei o relógio...

- Não posso mais conversar com você, Pamela – disse provando ainda mais o gostinho doce da vingança. Apanhei minha pasta – Tenho um compromisso inadiável. Apague a luz ao sair, tá? Acho que não volto mais hoje.

- O que pensa estar fazendo, sua irresponsável?

- Tchau! – acenei da porta, ainda ouvi a sua última frase.

- Allison! Volta aqui!


IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII


Enfim o domingo chegou. A empresa alugou um sítio maravilhoso em Vargem Grande. Havia duas piscinas e vários quiosques com churrasqueira espalhados pelos cantos dos gramados. Um mini parque-aquático para as crianças brincarem. Todos os funcionários estavam mais à vontade sem aquela formalidade toda imposta pelas festas que Pamela organizava. Os mesmos compareceram em peso, coisa que não acontecia nas festas glamurosas da revista.

Eu estava ansiosa. Pamela não viria? Sr Álvaro garantiu que ela compareceria. Acreditei na palavra dele. Quem sabe ela já não teria chegado? Andei pelo gramado do sítio cumprimentando os funcionários sem perder de vista o meu foco: o portão de entrada! Perdi as contas de quantas voltas dei por ali. Depois de cumprimentar um grupinho de funcionários... Avistei Pamela de longe. Linda! Na medida que se aproximava, fitei-a da cabeça aos pés. Estava usando um conjuntinho claro de tecido leve, óculos de sol marrom, provavelmente um Prada, marca que ela adorava. Meu coração disparou. Alan estava ao lado dela, junto com Penélope. Foi uma entrada triunfal. Todos se viraram para olhar na direção do trio infernal. Alguns se questionando se era real a presença dela, outros, ou melhor: a maioria estava mesmo é se derretendo pela classe indiscutível que ela tinha, mesmo estando em um ambiente que não exigia tanto. Simples e perfeita, eu diria. Os três vieram na minha direção. O sorriso daquela mulher linda e cheirosa me despia a alma. O que ela pretendia com aquela aproximação?

- Bom dia, presidente da Gente Chique- disse irônica. Notei o ar de riso de Penélope e Alan. Me mantive calma ao respondê-la.

- Bom dia, Pamela - cumprimentei os dois palhaços logo em seguida, digo, os dois convidados de Pamela - O que achou da nossa... Reunião?

- Achei a sua cara - respondeu tirando os óculos e exibindo aqueles olhos azuis cheios de desdém.

- Fico muito feliz que tenha vindo - fitei os outros dois ao lado dela - Percebo que está muito bem acompanhada.

- Estamos em busca de diversão aqui - disse Penélope. Alan sorriu do comentário dela. Que homem desprezível, meu Deus!

- Espero que encontrem - respondi seca.

- Dificilmente não nos divertimos em um circo, não acha, Ali? - Pamela me encarou ao término da frase.

- Não sei, não gosto de circo. - encarei-a ao responder.

Estávamos ainda num duelo de olhar quando senti alguém me abraçar apertado por trás. Virei-me de repente... Avistei Léo e Leandra. A menina estava linda com um vestidinho azul. Cabelos presos num rabo de cavalo, deixando à mostra o seu rostinho angelical. Agarrei-a forte. Essa foi a saída perfeita para fugir dos ataques verbais e desnecessários de Pamela e sua gang.

- Que bom te ver menina! - olhei de rabo-de-olho para Pamela, a mesma havia se distanciado sutilmente de nós.

- O Léo já me contou tudo – sussurou no meu ouvido.

- Então você já sabe que é minha namorada? – sorri apertando-a mais em meus braços. Confesso que o calor da menina me atiçou um pouco.

- Adorei a idéia, Ali! – beijou o cantinho da minha boca. Os pêlos dos meus braços se arrepiaram por completo. Nos encaramos sorridentes.... Ao fundo vi Pamela desvincular-se dos braços de Alan e caminhar sorridente pelos funcionários. Para onde ela estaria indo? Algo me dizia que Pamela queria de alguma forma estragar o evento. Como? Eu não sei! Mas ela tinha poderes suficientes para isso. Era esperta o bastante para maquinar algo.

- Espera um minuto, Lê! - beijei o rosto dela e saí.

 

 

 

 

 

Capítulo 41- PAMELA

 


Aquela manhã acordei estranhamente tensa. Eu diria até com uma certa... insegurança? Não sei se era isso. Impossível definir algo que até então simplesmente não existia. Não para mim.
Fiquei muito pouco tempo mergulhada na banheira. Como sempre, uma tortura, porque... não conseguia controlar as recordações... Lembranças de Allison comigo naquele banheiro...
Infame!
Estava revoltada... comigo mesma. Com minha falta de controle insana.
Me enrolei no roupão ainda com aquele incômodo inconveniente me acompanhando. Até o closet, onde parei atônita, olhando para os cabides. Jamais, em toda a minha vida, tinha tido dificuldade em escolher o que vestir. Mas naquele dia, tudo parecia estar contra mim.
Quando finalmente me olhei no espelho, completamente maquiada e vestida, sabia que estava linda. Meus olhos me diziam, apesar de... nem isso eu conseguir sentir.
Lágrimas. Minhas piores inimigas. Agora sempre presentes, espreitando um momento de fraqueza ou descuido para poderem surgir. Forçando minhas córneas, dilatando minhas pupilas. Mas não as deixei sair. As aprisionei firmemente no fundo da raiva imensa que sentia.
Estava indo àquele churrasco com um único objetivo: infernizar e humilhar Allison, meu pai e todos os funcionários. Eu os odiava. Não podia esquecer disso. Por mais que naquele momento, aquilo fosse... extremamente difícil.
Apesar de fortemente acorrentado, meu coração insistia em bater no mesmo ritmo. Das sílabas que repetiam o nome dela: Allison...
Inferno!
Eu precisava esquecer aquela mulher. Nem que para isso eu precisasse... Precisasse o que? Queria muito, muito mesmo descobrir. Saber como me livrar daquela total falta de...
A voz de Paz interrompeu meus pensamentos:
- Dona Pamela, o senhor Alan e a dona Penélope estão esperando pela senhora na sala.
Felizmente.
Peguei um dos óculos escuros na gaveta, sem prestar muita atenção. Não tinha nenhum que não fosse Prada, Gucci ou Fendi. E qualquer uma das três marcas tinha o que eu precisava exibir naquele momento: classe, superioridade e poder.

Assim que chegamos no maldito churrasco – num fim do mundo horroroso com o nome ridículo de Vargem Grande – eu a vi. Irritantemente simpática e sorridente, cumprimentando alguns funcionários.
Allison estava... era... linda, mesmo de longe. Mas a pose de superioridade dela, esbanjando segurança, e o jeito como não se virou para me olhar quando entrei – e ela foi a única! - me deu forças.
Para ir direto para ela. A quem eu estava querendo enganar? Na verdade eu precisava desesperadamente me aproximar, sentir o cheiro dela, olhar naqueles olhos que tinham o poder de me fazer tremer inteira. Merde! Lá estava eu cedendo à loucura novamente.
Fui sarcástica. Absolutamente irônica e agressiva com ela. Na mesma proporção em que Allison me desconcertava.
E então, quando eu pensei que aquilo não poderia ser pior, veio o golpe mortal. Uma loirinha - que eu já tinha visto em algum lugar - se aproximou e abraçou Allison por trás.
Minha reação foi imediata. E evidente, porque... Alan me enlaçou pela cintura e me afastou alguns passos. Sussurrando no meu ouvido:
- Respira, Pamela. Calma.
Penélope também disse baixinho:
- Estamos aqui do seu lado.
Mas meus olhos não conseguiam se desviar das duas abraçadas. Allison a segurava nos braços, sorrindo para a menina, como se eu não existisse mais. A energia e cumplicidade entre elas era visível.
O que era aquilo que eu estava sentindo? Uma dor incrível... Ardor, pavor, horror... Como se algo dentro de mim tivesse se partido ou quebrado... Não, como se tivessem me arrancado algo. A minha... alma?
Aquilo tudo me dava vontade de vomitar...
As duas continuavam a se fitar sorridentes, sussurrando baixinho, se olhando nos olhos. A menina beijou Allison no cantinho da boca... Meu corpo reagiu, sem que eu pudesse impedir. Alan me segurou com força. Impedindo que eu me movesse na direção delas. Na verdade eu nem sabia o que pretendia fazer... Meu primeiro impulso, puro instinto, foi impedir que elas... Arrancar Allison dos braços da oferecida, gritar que ela era... minha...
E no entanto, não era. Não mais. Ou talvez nunca tivesse sido.
Tive quase certeza disso ao lembrar: aquela era a menina da Farme. A mesma que Allison tinha me dito - no dia em que se recusara a ir para a minha casa - que era... sua namorada. Antes, durante e depois de Paris, da noite no apartamento minúsculo de Allison, das minhas ridículas juras de amor... Aquela era a menina com quem ela estava de verdade. Eu não passava de um degrau na escada que Allison pretendia galgar...
Meu segundo impulso foi... fugir dali.

Me afastei rapidamente. Conseguindo manter um sorriso no rosto, mesmo sem saber como.
Incrível como naquele momento, tudo parecia absolutamente sem sentido. Em que momento eu tinha perdido a noção do que realmente me importava? A única coisa que eu tinha certeza era que não sabia mais nada.
Ver Allison agarrada com aquela menina – a mesma loirinha que tinha visto sentada no colo dela na Farme, namorada dela de verdade – tinha gerado uma explosão, uma sensação de perda terrível, incontrolável.
Continuei a andar até já estar no meio das árvores, e a música e o ruído das pessoas se tornar irreal, como um sonho distante.
Só então me permiti desabar. As lágrimas escorrendo livremente pela minha face. Ouvi um som sufocado. Percebi que era eu mesma. Eu... soluçava.
Completamente imersa no mar de sentimentos onde me afogava, não ouvi os passos que se aproximaram. Me assustei com a vozinha de criança muito próxima, de uma suavidade preocupada:
- Cê tá bem, tia?
Olhei para baixo. Para a menininha franzina de boina, vestido, meia-calça e botinhas rosa – não parecia ter nem seis anos de idade – que me observava com uma curiosidade que não tentava disfarçar. A resposta veio sem pensar:
- Estou.
Mas ela não pareceu acreditar. Retrucou:
- Tá doendo?
Me abaixei até meus olhos ficarem na mesma altura dos dela. Ela era muito pequena, mas estranhamente, passava uma vivência um pouco além da idade no olhar... Achei graça na minha idéia... Estava realmente dominada por um sentimentalismo terminal... Tanto que respondi:
- Um pouco.
- Mas passa.
A frase, dita com uma segurança quase adulta, me fez sorrir. E a menininha sorriu de volta. Antes de dizer:
- Seu cabelo é bonito...
Só então reparei que por debaixo da boina, ela não tinha nenhum. Com uma perspicácia que me surpreendeu, ela imediatamente respondeu – apesar de eu não ter feito pergunta alguma:
- Eu fiquei doente. Mas já tô boa. Mamãe disse que logo logo vai crescer de novo.
- Melhor você voltar pra festa, Juju. Sua mãe tá te procurando.
A voz de Allison soou atrás de mim, fazendo com que eu limpasse as lágrimas de meu rosto disfarçadamente.
A menina se pendurou em meu pescoço num abraço apertado antes de me beijar e sair correndo de volta ao churrasco.
Eu nunca tinha tido contato com crianças, a não ser quando eu era uma. Me levantei absolutamente sem jeito. Dolorosamente consciente de que Allison me observava.
Me sentindo... desprotegida, despida, sem defesas, como se a qualquer momento pudesse... voltar a chorar, me deixar levar, me render. Definitivamente, tinha me tornado prisioneira da minha própria fraqueza.
Mas não importava o que eu carregava por dentro. Desde que Allison nunca ficasse sabendo. Tentei demonstrar uma frieza e uma indiferença que já não tinha, ao perguntar:
- Quem é essa menina?
Allison pareceu surpresa. Demorou alguns instantes antes de responder:
- A Juju é filha da Arlete. Ela teve câncer, fez quimioterapia. Mas agora já está bem.
Impossível! Arlete trabalhava comigo há séculos, como eu não... Ela nunca tinha me dito nada sobre a menina... Allison, em tão pouco tempo, parecia conhecê-la de forma quase íntima...
Não tentei esconder o quanto eu estava desconcertada ao dizer:
- Eu... eu não sabia...
Ela suspirou fundo. Pareceu estar decidindo se ia ou não dizer o que disse a seguir:
- Por que saberia? Você nunca se importou com ninguém em toda a sua vida.
Allison era a única pessoa que jamais poderia me dizer aquilo... Por que eu realmente tinha... ainda me importava... com ela. Apesar de ter sido covardemente traída.
Aquilo me atingiu. De uma forma que fez cada célula ferida do meu corpo reagir. Detestava demonstrar qualquer tipo de emoção ou sentimento, mas naquele momento, era impossível me conter. As palavras foram praticamente cuspidas. Com uma fúria que me deixou ofegante e trêmula:
- Você... a srta boazinha... Você... Me enoja, sabia? Eu posso ser tudo, menos dissimulada e fingida. E nunca faria com ninguém o que você fez comigo.
Ela me lançou um sorriso irônico. Cínico, ao dizer:
- Pensei que você estivesse gostando e aproveitando... Que quisesse me agradecer...
Não consegui me conter. Parecia que as palavras iam explodir dentro de mim se eu não respondesse:
- Eu acreditei em você.
Allison se aproximou, os olhos incandescentes. Me segurou nos braços com força, o simples contato provocando um verdadeiro incêndio. Quebrando toda e qualquer possibilidade que eu pudesse ter de resistir:
- Pam, me escuta: o que eu fiz foi um erro. Minha intenção não era ficar com o seu cargo. Já te disse isso, e vou continuar repetindo, até você...
Interrompi bruscamente:
- Até eu o que?
- Até você entender.
O olhar que ela me lançou... Os olhos castanhos mergulhando profundamente nos meus, daquele jeito que só ela sabia e conseguia fazer, me fazendo estremecer... Respondi com o desespero de quem sabe que lutar contra si mesma significa nunca vencer por inteiro:
- Que diferença isso faz? O que mais você quer de mim?
Doce, muito doce... Foi a forma como ela sussurrou:
- Quero o seu amor.
Aquela frase... A mesma que ela tinha me dito, na noite em que tínhamos dormido juntas no quarto cubículo dela, num tempo longínquo, que parecia ter acontecido em outra vida...
Um gosto amargo surgiu em minha boca, fez meus lábios se contorcerem num sorriso triste, quase um espasmo de dor:
- Não seja ridícula.
Os olhos castanhos voltaram a me olhar daquele jeito que eu adorava. Fazendo meu coração acelerar involuntariamente.
Sem poder confiar em minha capacidade de não ceder, antes que Allison pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, me soltei das mãos dela, e rapidamente me afastei.

Voltei para o maldito churrasco. Uma raiva quase selvagem me movia. Alan e Penélope se entreolharam, preocupados. Provavelmente percebendo que eu estava como que possuída pelo diabo. Ou melhor: eu era o próprio diabo. E pretendia fazer daquele lugar um inferno:
- Vamos acabar com essa festinha patética. Mas primeiro...
Chamei um dos garçons. Que me informou que as únicas bebidas disponíveis eram cerveja ou caipirinha... Nem Vodka tinha, apenas... cachaça?
Inacreditável. Mesmo se tratando de uma festa repugnantemente... arg... popular.
Sem outra escolha – me recusava a beber cerveja - resolvi me arriscar na cachaça. Provei a caipirinha com um certo receio... normalmente não suportava, mas... naquele momento, eu precisava. Virei o copo rapidamente.
Caminhei até o centro das mesas de mãos dadas com Alan. E com Penélope do meu outro lado. Rodeada por meus fiéis escudeiros do mal.
Um dos garçons passou com uma bandeja de caipirinhas. Peguei outra e virei praticamente de uma vez só. A necessidade que sentia do conforto causando pelo ardor da bebida se tornando quase vital...
Meu pai nos cumprimentou rapidamente e depois se desculpou, voltando a se misturar com a gentalha. Peguei o copo de caipirinha que estava nas mãos de Alan, e bebi com uma rapidez que fez com que ele e Penélope voltassem a se entreolhar.
Alguns garçons trouxeram uma mesa e três cadeiras. Ignorei a minha completamente quando vi Allison voltar a abraçar a namoradinha. Já me sentindo... um tanto quanto alterada, sentei no colo de Alan, dizendo:
- Desculpe, querido, mas... preciso de você.
Alan sorriu. Passou a mão pelas minhas coxas, numa atuação muito convincente. Sussurrou:
- Querida, disponha.
E me beijou ardentemente na boca. Correspondi como se minha vida dependesse disso. Percebendo algo absolutamente estranho: um desespero profundo podia ser facilmente confundido com paixão e amor...
Penélope falou baixinho, de forma que apenas nós três ouvíssemos:
- A suburbanazinha não tira os olhos daqui.
Saber que Allison estava olhando me atiçou ainda mais. Queria que ela pensasse que eu estava feliz... Que eu não sentia nada por ela... Queria que ela sofresse tanto quanto eu sofria quando a via agarrada com aquela loirinha ridícula... Eu a odiava... A amava... Desejava que ela me arrancasse dos braços de Alan e me beijasse...
Eu queria o inferno, e tinha conseguido. Ardendo dentro de mim!
Me agarrei ainda mais em Alan. Minha língua percorrendo a boca dele de forma nada inocente. Alan entendeu a mensagem. Desceu a boca por meu pescoço de uma forma absolutamente sensual.
Penélope avisou, com uma felicidade sarcástica:
- Não olhem agora, mas a golpista está vindo para cá!
Continuamos a nos beijar. Arqueei o corpo para trás, para que os lábios de Alan tivessem um acesso maior. As mãos dele passeando sugestivamente pelo meu corpo.
A voz de Allison soou muito irritada:
- Com licença, por favor.
Nos afastamos lentamente. A olhei com um sorriso divertido:
- Deseja alguma coisa?
Ela me fuzilou com os olhos. Parecia absolutamente furiosa:
- Isso aqui é uma festa familiar.
Alan acompanhou minhas risadas. Penélope tinha se afastado, desaparecendo misteriosamente do alcance do meu olhar.
- Não estou entendendo aonde você quer chegar, Ali.
- O comportamento de vocês é ofensivo para os nossos funcionários. Vou ter que pedir pra que vocês façam isso em outro lugar.
Me levantei, esbanjando charme. Ficando cara a cara com Ali:
- Mesmo? Desde quando beijar meu namorado é uma ofensa para os nossos funcionários?
Allison aproximou o rosto do meu. Tanto que pude sentir o delicioso calor do seu hálito. Praticamente cuspiu as palavras:
- Beijar? Não seria melhor dizer se esfregar? Porque vocês não arrumam um quarto?
Respondi do mesmo jeito, só que mil vezes mais alto. Sentindo minha voz sibilar de ódio:
- O que eu faço ou deixo fazer com quem quer que seja não te diz respeito, Allison. Não vou ficar aqui engolindo falsos moralismos de uma pessoa que foi pra cama comigo para conseguir um cargo! Aliás, diga-se de passagem: o meu cargo!
A respiração dela estava tão ofegante quanto a minha. Nossos olhos duelavam, disparando uma tensão quase palpável.
Foi quando meu pai se aproximou de nós, interferindo:
- Pamela...
Allison... Por favor... Essa não é a hora, nem o local... Vocês estão em público, não se esqueçam disso. Estão envergonhando a direção da revista na frente de todos os funcionários...
Olhei em volta. Realmente, a festa tinha parado. Sobre nós convergiam todos os olhares. A gentinha adorando assistir ao “showzinho” que estávamos proporcionando. Chegava a ser engraçado.
O cortei, quase gritando. Pouco me importando. Não conseguindo nem querendo mais conter minha raiva:
- O senhor é o único responsável!

 

 

 

 

 

CAPITULO 42- ALLISON

 

 





Aquela cena de Pamela com o namoradinho estava sendo constrangedora e insuportável aos meus olhos. Pela minha cara de insatisfeita, acho que todos perceberam que eu estava completamente dominada pelo diabinho do ciúme. Leandra grudou no meu pescoço e ficou pedindo calma de minuto em minuto. Quanto mais a menina me pedia calma, mais Pamela e o engomadinho se esfregavam. Eu estava transtornada. Minha calma havia sido arremessada em algum abismo, só pode! O momento de tolerância estava dando lugar ao meu total e conturbado sentimento de raiva e desespero. Olhando ao meu redor, podia ver e ouvir às pessoas apontando ou simplesmente disfarçando o olhar para a cena no mínimo... Erótica! O engomadinho passava as mãos nela sem nenhum pudor. Pelo amor de Deus! Estamos num local de família! Cheio de crianças correndo pra lá e pra cá. Pamela perdeu totalmente o senso do ridículo. Só pode! Desta vez ela desceu baixo demais. Pedi licença a Leandra que ainda contestou a minha atitude. Não dei ouvidos a ela. Eu precisava acabar com aquela festinha. Se eles querem trepar, que vão para a p.. que pariu! Eu pelo menos, não vou tolerar esse comportamento na frente das crianças, muito menos vou agüentar vê-los como um casal apaixonado em lua de mel por muito tempo.


Caminhei até eles com a certeza de que iria acabar com aquela festinha vulgar e desagradável dos pombinhos. Pamela me tirava do sério, isso era indiscutível. Na medida em que eu me aproximava da mesa deles, ela me provocava com o olhar... Bem típico da poderosa Pamela, não é? Depois, me provocou com palavras carregadas de veneno. A mulher me ofendia. Às palavras que mais me doeram foram essas:

“- O que eu faço ou deixo fazer com quem quer que seja não te diz respeito, Allison. Não vou ficar aqui engolindo falsos moralismos de uma pessoa que foi pra cama comigo para conseguir um cargo! Aliás, diga-se de passagem: o meu cargo!”

Pamela resistia à idéia de jogar na minha cara que eu sempre quis o seu cargo. E isso nunca foi verdade. Eu apenas queria Pamela pra mim, inteira, humana. Despida daquele egoísmo que só fazia mal a ela e as pessoas que a cercavam.
A discussão tomou proporções que já chamava a atenção de todos. Até a música havia cessado para dar a oportunidade de ouvir o que estava sendo dito naquela mesa. No calor do momento ficamos muito próximas. Deu pra sentir o hálito quente de Pamela tocar o meu rosto. Era uma mistura de desejo e raiva que me punia por ainda queimar de amor por uma mulher que não fazia a mínima questão de ir para um lugar mais apropriado para se esfregar com o seu namoradinho. O Sr. Álvaro veio tentar pôr um fim naquela guerrinha de nervos. A última frase de Pamela deixou o homem completamente mudo.
- O senhor é o único responsável! – ela disse, levantou-se e saiu de perto da mesa. Acompanhei os seus movimentos e vi quando ela pediu um copo de caipirinha a um dos garçons...
- Isso não vai dar certo – pensei. Quer dizer: eu disse.
- Não fique assim, minha filha – O Sr Álvaro colocou as mãos nos meus ombros.
- Ela nunca vai nos perdoar – senti que meus olhos estavam úmidos.
- Fizemos a coisa certa, disso eu tenho certeza.
- Fizemos tudo errado! Ela está apaixonada por esse playboyzinho. – minhas palavras saíram cheias de rancor e arrependimento, que há essa altura não valem de nada.
- Os olhos dela dizem que não. – bateu no meu ombro – Quer tomar alguma coisa, Allison?
Balancei a cabeça negativamente. Com um gesto informei que eu iria me afastar.

Mais uma caipirinha. Foi o que eu vi Pamela bebendo, encostada em um dos quiosques de churrasco. De longe eu a observava. Notei que não havia nem sinal do engomadinho ao lado dela, e nem daquela víbora da Penélope. Onde estariam aqueles dois amigos da onça, enquanto Pamela se entupia de bebidas? A partir daquele momento eu não fiz mais nada que não fosse: tomar conta de Pam. A mulher estava enlouquecida. Bebia um copo de caipirinha atrás do outro. Não conseguia entender o porquê dela ainda estar de pé ainda. Pois é! Ela andava pelas pessoas exibindo aquela classe de sempre, olhando os outros do seu pedestal inabalável. Nem bêbada ela saia do salto. Claro que ela estava bêbada! Só eu, nessas três voltinhas que dei atrás dela a vi bebendo duas caipirinhas. Fora a caneca de chope que a poderosa deve ter experimentado, e as outras doses que a mesma já havia degustado. Mais meia hora me esquivando atrás das pessoas ou nas pilastras e grades da piscina, e eu resolvi ir até onde Pamela estava. Isso já estava passando dos limites! Ela tinha que parar de beber imediatamente. Pamela não exibia um olhar habitual, ou seja: nem irônico, nem perverso. Ela simplesmente flutuava no seu salto gigante e caro, provavelmente. Parei na frente dela. A mulher me encarou e soltou uma gargalhada. Típico das pessoas que estão alteradas pela bebida, a única diferença é que até a gargalhada de Pam era inegavelmente cheia de glamour. Segurei seu braço quando o garçom passou com uma bandeja cheia de bebidas e ela se preparava para pegar mais uma.
- Já chega, não acha? – sustentei o olhar.
- Não, Allison! – encarou-me com aqueles olhos azuis faiscando – Quem é você para me dizer se eu devo ou não beber?
- Pamela, você não tá legal. – disse calma, num tom de voz bem moderado para não despertar os curiosos de plantão – Se você beber mais será um vexame, consegue me entender?
- Não Allison! Eu não consigo te entender. A única vez que eu tentei te entender, você me provou que estava acima da minha compreensão. – olhou profundamente dentro dos meus olhos. Vi magoa, revolta... Rancor!
- Não vou mais repetir que eu não quero e nunca quis o seu cargo. – puxei-a para um canto perto dos chuveiros. Algumas crianças mergulhavam na piscina e os pingos de água caiam na gente – Vamos pra casa. Você não está bem!
- Me solta, sua suburbanazinha interesseira! – puxou o braço rispidamente, logo alterou um pouco o seu tom de voz. A nossa sorte é que a música estava alta o suficiente para abafar a nossa conversa – Tira essas mãos sujas de cima de mim!
- Olha, Pam... Fale o que você quiser, mas eu vou te levar embora daqui, está bem? Aquele engomadinho do seu namorado quem devia estar aqui tentando te controlar, mas o palhaço sumiu, deve estar cheio de cachaça também, então... – segurei novamente o seu braço – Eu vou te levar pra casa! Por bem ou por mau! Entendeu?
- E a sua namoradinha, onde está? – tentou se esquivar do meu contato, mas ela não tinha forças. Estava vulnerável devido a grande quantidade de álcool que havia ingerido – Sempre namorou aquela fedelha, não é? Que coisa feia Allison! Namorando uma menina que mal deve ter saído das fraldas. Devia ter vergonha disso!
- Ah, é? – segurei firme no seu outro braço... Puxei-a para mais perto do meu corpo. Nossa pele queimava uma na outra. Encarei-a profundamente, me perdendo naquele mar azul que brilhava diante de mim – Quem você pensa que é para falar da Leandra? Nossa cama mal esfriou e você já colocou encima dela um engomadinho cheio de frescuras! – minhas palavras saiam carregadas pelo veneno do ciúme.
- Nossa cama? Não me faça rir, Allison! Minha cama nunca foi sua cama, e para o seu governo, todos os lençóis que você deitou... A cama, o colchão e os travesseiros... – encarou-me severa antes de completar a frase, eu senti um tom de contentamento nas palavras dela - ... mandei queimar!
- Por que queimou se eu não significo nada pra você? – deslizei meus dedos pela pele dos seus braços. Acompanhei o caminho dos seus pêlos que ficaram arrepiados ao mesmo tempo.
- Porque eu queria extirpar da minha vida à doença que é você! – disse séria.
Soltei-a no minuto seguinte a essas palavras, logo um doloroso silêncio se instalou entre nós. Só o nosso olhar produzia “som”. É isso o que Pamela pensa de mim? Sou uma doença na vida dela? Ta legal! Já fui chamada de coisa pior por ela, mas vocês tinham que vir a fúria nos olhos daquela mulher. Afastei-me devagar, olhando-a ainda nos olhos, vendo dentro deles o tamanho da amargura que brotava como uma ferida.
- Você é uma doença, Ali! – repetiu impiedosa enquanto caminhava na minha direção.
O que aconteceu depois foi tudo tão rápido que nem me lembro ao certo. Só lembro de uma criança, não sei se menino ou menina, ter vindo correndo para pular na piscina. A criança esbarrou em Pamela e a mesma foi arremessada dentro da água. Por alguns segundos, vimos-na debater-se na água. Sem pensar pulei de roupa e tudo. Alcancei-a rapidamente... Agarrei-a com uma mão pela cintura a outra buscava a margem da piscina. Ajudaram-nos a sair da água. Pamela estava furiosa. Xingando até a última geração da pobre criança. Apesar de ela estar falando em francês, pela sua expressão diabólica dava nitidamente para perceber que eram palavrões cabeludos que Pamela dizia. Se as minhas saidinhas noturnas estão surtindo efeito, era mais ou menos isso que ela falava:
- Merda! Puta que pariu! Seu filho da Puta, infeliz... – tsc tsc... Saindo literalmente do salto, mas com classe, não é? Afinal de contas, ela xingava em francês.
Eu e todos que estávamos perto dela até tentamos disfarçar o riso, mas foi unânime. A cena hilária havia divertido a redação inteira. Às crianças nem disfarçaram. Isso provocou a irá de Pamela. A poderosa levantou-se do piso gelado que envolvia a piscina e praticamente abriu caminho entre as pessoas empurrando a todos. Nem licença ela pedia. Corri atrás dela. Alcancei-a perto da saída do sítio. Segurei sei braço, ela girou tão rápido ficando de frente pra mim, que eu pensei que a mulher cairia nos meus braços. Uma pena não ter caído.
- Você não vai dirigir assim! – fixei o olhar.
- Não vou com você, Allison! Prefiro morrer a chegar à minha casa outra vez contigo.
- Então não se preocupe em morrer, não vamos pra sua casa. Vamos pra minha! – segurei o braço dela e a conduzi pelo estacionamento. Tirei o alarme molhado do bolso da calça, nem sabia se essa merda funcionaria. Apertei o botão e as portas destrancaram.
- É seu? – perguntou com descaso.
- Seu pai insistiu que eu comprasse um. – abri a porta do carona e praticamente joguei-a lá dentro – Não ostentei, viu? – completei já dentro do carro. Girei a chave na ignição. Pamela olhava dentro do veículo.
- Simples demais para uma presidente de revista – balançou a cabeça negativamente – Da onde tirou a idéia de comprar essa porcaria de carro? Não tinha nada melhor do que uma paliozinha simplória? Detesto carro popular!
- Isso prova pra você que eu não tenho pretensão de ficar com o seu cargo.
- Isso prova que você além de usurpadora é burra!
- Cala a boca, Pam! – sorri por entre os dentes. Eu já estava cansada de brigar com ela. A única coisa que eu queria é poder ficar um pouco ao lado daquela mulher na minha casa. Pamela dormiria novamente na minha cama, e isso estava reacendendo as esperanças dentro de mim.
- Eu... – disse sonolenta – Não quero ir pra aquela sua porcaria de casa – sussurrou antes de encostar a cabeça no meu ombro e dormir profundamente. Ela literalmente... Apagou!
- Não estou mais morando naquela porcaria como você diz... – beijei a sua testa assim que senti a sua boca encostar perto do me pescoço. – Acho que você vai gostar



 

 

 

Capítulo 43 - Pamela

 


Uma claridade irritante me acordou. Tentei me mover, mas foi um verdadeiro suplício. Minha cabeça latejava. Meu mundo era um... moinho? Definitivamente, esse era o resultado de ingerir bebidas tupiniquins!
Suspirei profundamente. E imediatamente me arrependi. Até pensar doía... Levantei o lençol apenas para constatar o que já sabia: estava completamente despida. E do meu lado, Allison dormia profundamente. Deliciosamente nua e abraçada em mim.
Na verdade eu não acreditava nessa baboseira de amnésia causada pelo excesso de álcool. Achava que era mera desculpa daqueles que não tinham coragem para assumir o que tinham feito sob o efeito da bebida.
Mas entre o churrasco, algumas muitas caipirinhas e aquele momento totalmente “Twilight Zone”, o que diabos tinha acontecido? O que, quando, como, por que eu estava ali?
Como uma câmera que entra no foco, as cenas foram surgindo em minha mente. Algumas um pouco embaralhadas. Como um flashback mal feito de filme...

...Um calor agradável me tirou do quase coma em que eu me encontrava. Deliciosos, macios, suaves. Os lábios de Allison nos meus. Abri os olhos, me assustando por ser de verdade. Não um sonho, como nas últimas vezes.
Onde eu estava?
Como se lesse pensamentos, ela respondeu:
- Chegamos. Lar doce lar.
Olhei em volta sem entender. O apartamento cubículo de Allison não tinha garagem. Dei uma gargalhada. Daquelas sem sentido, que só os bêbados conseguem dar. E constatei:
- Você se mudou.
Mas ela já havia saído e dado a volta no carro. Abrindo a porta do meu lado, e me ajudando a levantar. Adoraria poder recusar, mas... naquele momento, andar de salto alto já não parecia tão fácil. Por isso deixei que Allison passasse o braço ao redor da minha cintura – tortura – e me guiasse. Sem me preocupar com para onde. Totalmente voltada para o que mais me apavorava: o amor incontrolável que eu ainda sentia por aquela maldita mulher...

... Allison ligou o chuveiro, e como eu continuasse protestando, me recusando a obedecer, disse com uma firmeza que me fez estremecer:
- Se não entrar nesse chuveiro agora, vou arrancar a sua roupa e te dar banho pessoalmente. Entendeu?
Arregalei os olhos e me calei. Fiz que sim com a cabeça. Ela pareceu satisfeita. E completou com um tom de voz doce, totalmente diferente:
- Comprei aqueles shampoos e cremes frescos que você tanto gosta. Pode usar esse roupão, tá limpo. E vou deixar aqui em cima da pia – pegou um objeto no armário – o secador de cabelo.
Depois que ela saiu, ainda fiquei alguns minutos parada, sem acreditar que aquilo estava realmente acontecendo...

... Entrei na sala, e vi Allison sentada, parecendo muito pensativa. Assim que me viu, foi logo dizendo:
- Sei que prefere chá, Pam... Mas no seu estado, achei melhor fazer um café bem forte pra você.
Ela desapareceu e voltou rapidamente com um bule, uma xícara e um vidrinho de adoçante numa bandeja. Eu não gostava de café... Mas também não gostava de caipirinha...
Naquele momento, de alguma forma, precisava ficar sóbria novamente, porque... era a única forma de evitar o perigo que estava correndo. Precisava de toda a minha racionalidade para não ceder. E nisso, com certeza, o café ajudaria. Pelo menos foi do que tentei me convencer...
- Vou tomar um banho também. Bom, você já sabe que na minha casa, se quiser beber café, tem que se servir sozinha...
Depois das palavras que soaram estranhamente carinhosas, Allison desapareceu corredor adentro. Me sentei na mesa de jantar, me servi de café. Sem achar tão absurdo quanto tinha achado da primeira vez, no apartamento cubículo. Mil pensamentos me distraindo enquanto sorvia o conteúdo da xícara...

...Allison voltou com os cabelos molhados, vestindo um jeans e uma camisetinha que a deixavam... Quase irresistível. Quase porque... eu precisava resistir.
O sorriso safado que surgiu nos lábios dela deixou claro que tinha percebido meu olhar de cobiça. Mas ainda assim, não conseguia desgrudar os olhos do corpo dela. Delícia...
Meus pensamentos se tornavam cada vez mais inconfessáveis, por isso levantei rapidamente, e disse:
- Vou indo.
Ela me olhou com um enorme sorriso. Antes de responder, novamente com aquele jeito firme, que me causava arrepios:
- Você vai dormir aqui.
Meu tom foi de puro desafio:
- Vou?
Os olhos de Allison me percorreram, como se me despissem. Um olhar de desejo, tesão, me devorando inteira. Sussurrou, avançando para mim:
- Sim.
Recuei imediatamente. Não podia deixar que Allison me tocasse, descobrisse o quanto me abalava com o mais leve encostar de dedos:
- Allison, você... Enlouqueceu de vez?
Ela se aproximou novamente:
- Quem me enlouquece é você.
“Eu poderia dizer o mesmo” – pensei. Dentro de mim, as emoções se digladiavam. Um orgulho profundo, milhares de desconfianças e mágoas contra amor e desejo.
Dei a volta na mesa. Com Allison atrás de mim. Numa espécie de perseguição ridícula. Ela continuou, sem parar de me seguir:
- Eu amo você, Pam. Aqueles dias em Paris foram os melhores da minha vida. Quero você daquele jeito de novo. Com os olhos brilhando, sorrindo, feliz... Tudo que eu quero é o seu amor. O resto não importa. Você precisa acreditar em mim!
As palavras dela... me acertaram em cheio. Meus olhos lacrimejaram, não conseguia mais fugir. O coração não batia - latejava, bombeando o sangue em minhas veias com uma intensidade violenta. Estremeci, arrepiei inteira. Allison me puxou pela cintura, grudando meu corpo no dela. Uma vertigem - que não era causada pela bebida - me amolecendo, fazendo com que cada célula do meu corpo parasse de me obedecer. Um desejo quase sufocante se estabelecendo. Mostrando que eu era dela mesmo sem querer.
E incrivelmente, foi o que me deu forças para reagir. Uma revolta imensa tomou conta de mim. Precisava me livrar. Me afastar definitivamente dela. Me defender daquele poder que Allison tinha, de me fazer esquecer de tudo, até mesmo quem eu era...
Ergui a mão direita para esbofeteá-la, mas Allison previu e impediu o movimento, segurando meu pulso no ar. Fez o mesmo quando tentei acertá-la com a mão esquerda.
Me segurando pelos pulsos com firmeza, sem que eu conseguisse me soltar, Allison me fez recuar, me empurrando com força, até minhas costas baterem contra a parede. Comprimiu meu corpo com o dela, me fitando profundamente, me prendendo no hipnótico pulsar de seu olhar... Me deixando sem ar. Nem tanto pelo baque... Muito mais pelo ardor que correu em minhas veias...
Aproximou o rosto lentamente. A respiração alterada, a pele queimando, as mãos tremendo, exatamente como eu. E misturou a boca, a língua, os lábios nos meus...
Foi um beijo doce, suave, apaixonado. Com sabor de almas se despindo.
Não tentei resistir. Naquele momento, me permiti. Me entreguei inteiramente à saudade, vontade e desejo gravados em minha carne.
Precisava daquilo. Correspondi, me deleitando com o prazer de beijar a mulher que eu amava. A incrível sensação de me sentir completa novamente.
Nem percebi quando ela soltou meus braços. Como se tivessem vontade própria, rodearam o pescoço dela - minhas mãos acariciando a nuca e os cabelos de Allison incansavelmente.
Uma emoção inexplicável, indescritível me envolveu... Fazendo um gosto salgado chegar aos meus lábios. E aos dela. Interrompendo o beijo. Allison se afastou apenas o suficiente para enxugar minhas lágrimas. Me olhando com a intensidade de sempre, e fazendo com que minha felicidade voltasse a transbordar molhando minha face inteira.
Ela sorriu, sem pronunciar uma palavra. E nem precisava. Dizia tudo naquele olhar. Sorri para ela, beijei a mão que acariciava meu rosto. Antes de puxar Allison delicadamente pelo pescoço para que ela voltasse a me beijar. Dessa vez um beijo intenso, voraz, absolutamente sensual.
Os lábios dela desceram por meu pescoço, desenhando uma trilha incandescente. Eu ardia, tremia, sussurrava palavras desconexas no ouvido dela. Ansiando por um contato pleno. Desejando, precisando, necessitando que ela me tocasse, me tomasse inteira. Tanto quanto eu precisava de ar. Sem isso não podia, não queria mais continuar.
Sem interromper o beijo, Allison foi me guiando pelo apartamento, nossa febre nos fazendo esbarrar nos móveis, nas paredes, até entrarmos num dos cômodos. Ela trancou e fechou a porta, me dando apenas tempo suficiente para perceber que estávamos no quarto dela.
Mas então, Ali já estava me livrando do roupão, entre incontáveis carícias e beijos. Sussurrando coisas deliciosas em meu ouvido, que me arrepiavam toda.
Se afastou um pouco, para olhar meu corpo inteiramente despido. Me fez sentar na cama, e começou a tirar as próprias roupas. A puxei para mim, fazendo Allison ficar entre minhas pernas, mordendo meu lábio inferior antes de dizer:
- Eu tiro pra você...
Eu queria despi-la. Para aproveitar cada pedaço da mulher que eu amava desesperadamente.
A livrei da calça jeans com pressa. Passei as mãos pelas pernas, coxas, nádegas de Allison enquanto meus lábios passeavam pela barriga perfeita, fazendo com que ela gemesse e se contorcesse.
Os gemidos aumentaram quando a toquei, acariciando os seios bem feitos, colocando minha boca faminta sobre um deles. Allison me puxava pelos cabelos, completamente refém dos meus desejos...
A livrei da camiseta também. Apenas a calcinha minúscula a separava da nudez... Desci minha boca distribuindo beijos pela pele quente. Até alcançar o tecido fininho. Passei os dedos por baixo do elástico, puxei lentamente, com um suspiro de antecipação... E então, toda a passividade dela desapareceu.
Allison grudou a boca na minha com uma urgência incontrolável. Igual a que eu sentia. Nos deitamos na cama, ela entre as minhas pernas, se movendo deliciosamente em cima de mim.
A textura da pele, o cheiro, o gosto dos beijos... Adorava, amava tudo nela, tão intensamente que chegava a doer... Como afundar voluntariamente num fluxo infindável de loucura e prazer... Gemi alto, repetidas vezes. A apertando com força, querendo que ela soubesse o quanto eu estava gostando, adorando, querendo...
- Senti sua falta, Pam.
- E eu a sua. – sussurrei contra os lábios dela, totalmente subjugada pelo que sentia.
As mãos de Ali deslizaram pelas laterais do meu corpo. Acariciaram minhas coxas, se enfiaram entre as minhas pernas, encontrando meu sexo e sua umidade delatora. Escorregou a mão me tocando com a habilidade de sempre, quase me fazendo perder os sentidos. Pedi sensualmente:
- Quero ser sua, Allison. Toda e só sua. Me come, vem... Daquele jeito que só você sabe fazer...
Allison sorriu daquele jeitinho safado que eu adorava. Sentou na cama, e me puxou para o colo dela, murmurando:
- Abre as pernas pra mim...
Com um suspiro ofegante, obedeci. Sentei com Ali entre as minhas pernas. Um gemido de prazer profundo escapando de meus lábios quando os dedos dela me preencheram.
A partir daquele momento, deixei de lado todo e qualquer tipo de resistência. Com os braços ao redor do corpo dela, deixei que Allison me guiasse, controlasse, ditasse o ritmo e a intensidade dos nossos movimentos... Querendo apenas aproveitar, desfrutar completamente o prazer que era ser tocada, beijada, acariciada, amada por ela. Desejando me entregar, pertencer à Allison por inteiro.
Com a dificuldade de respirar criada pelo palpitar intenso, só conseguia gemer e murmurar duas coisas: o nome dela, e a palavra “amor”.
Allison parecia absoluta e agradavelmente surpresa. Me olhou fundo nos olhos - daquele jeito que me derretia – e disse:
- Eu te amo, Pam.
Explodi num prazer imenso. Meu corpo todo ardendo, se derretendo nas mãos dela num gozo intenso, fazendo com que a resposta fluísse plena:
- Allison, eu amo você...
Foi o bastante para que ela também parecesse tomada pela loucura. Me deitou na cama, desceu a boca pelo meu pescoço, colo, seios... Sussurrando coisas que eu já não conseguia entender. Principalmente porque eu não tinha mais como parar de dizer:
- Eu te amo, Ali. Preciso de você.
E então, não pude dizer mais nada, só conseguia me contorcer debaixo da língua que mergulhava de um jeito absolutamente faminto dentro de mim.
Delirando, as mãos agarradas nos cabelos dela, começando a voltar a estremecer...
Allison parou o que estava fazendo. Apesar dos meus protestos, se afastou, a voz rouca denunciando a excitação que sentia ao dizer:
– Vira. Fica de quatro pra mim.
Deu espaço para que eu girasse o corpo, e eu obedeci. Exatamente como naquela primeira vez inesquecível. Me arrepiei inteira com o simples pensamento. E gemi alto quando senti a língua e os dedos de Allison me invadindo. Selvagem, desesperado, intenso. Foi o jeito delicioso com que ela me devorou, me fazendo implorar antes de me fazer gozar novamente.
Me joguei de bruços na cama, mas Allison não parecia cansada, muito menos satisfeita. Possuída por uma ânsia incontrolável, como se precisasse se provar que eu era realmente dela, se deitou sobre mim. Se esfregando, me mordendo na nuca, gemendo intensamente. Deliciosa como sempre. Me dando água na boca:
- Quero te chupar, amor.
Ela se apoiou nos braços. Me presenteou com um sorriso safado e um olhar de puro desejo. Virei e fui descendo debaixo dela, acariciando aquele corpo maravilhoso com as mãos e a boca. A deixando louca... Antes mesmo que eu chegasse no ponto desejado.
Allison gemia, se contorcia. Toquei o sexo dela de leve, com a pontinha da língua. Queria provocar, mas não resisti muito tempo. Mergulhei meus lábios e dedos dentro dela com urgência. Tomada pelo desespero de provar o gosto da minha mulher.
Allison gemeu alto. Quando passei a devorar o sexo dela com loucura. Se movendo ao encontro da minha boca de um jeito cada vez mais descontrolado e intenso.
Os tremores e gemidos aumentaram, o corpo dela começou a ficar tenso, me deixando cada vez mais próxima do gozo também. Mas Allison era uma deliciosa caixinha de surpresas. Sem aviso nenhum, ela virou o corpo, se encaixando com perfeição em cima de mim.
Um gemido abafado contra o sexo dela escapou dos meus lábios quando Allison mergulhou a boca e os dedos entre as minhas pernas. Ainda consegui dizer:
- Com você não é só sexo, Ali. Com você é... amor...
A resposta dela foi aumentar e aprofundar os movimentos. E me fazer esquecer de todo o resto. Nada além do nosso pulsar alucinado, dos gemidos ritmados, até gozarmos juntas, numa entrega completa e perfeita. A primeira de uma noite inteira...

... Levei às mãos novamente à cabeça. Sem saber o que fazer. Olhei para Allison dormindo ao meu lado. Ela tinha nos lábios um sorriso feliz e satisfeito.
“Isso não muda nada.” – repeti várias vezes para mim mesma.
Tinha sido uma noite maravilhosa, mas... movida pelo álcool e pela loucura do momento. Nada do que tinha sido feito ou dito poderia ser levado a sério.
Adoraria poder, mas... o simples pensamento de acreditar, estar errada e me decepcionar novamente me apavorava.
Sentei na cama, e Allison acordou assim que afastei meu corpo do dela. Me fitou com os olhos brilhando e um sorriso lindo:
- Bonjour, mon amour!
Aquilo realmente mexeu comigo. Chegou a doer. Um medo primitivo tomou conta de mim. Daqueles sentimentos que poderiam me destruir. E me fez mentir:
- Posso saber o que eu estou fazendo aqui?
Minha voz soou distante, absolutamente fria. Roubando o sorriso do rosto dela. Antes que Ali respondesse, me enrolei no lençol e levantei da cama, me fazendo de indignada:
- Aonde estão as minhas roupas, Allison?
O cintilar dos olhos castanhos desapareceu. Depois de um instante de silêncio, ela perguntou:
- Você não se lembra?
Tentei olhar através dela. Como se Allison não existisse. Impossível, quando a coisa mais brilhante no mundo parecia ser ela.
Com lágrimas nos olhos, Allison insistiu:
- Pam, nós passamos a noite fazendo amor.
Tive que me virar de costas. Olhando para ela jamais conseguiria dizer:
- Eu não lembro. E mesmo que lembrasse, Allison... Eu ter feito sexo – frisei bem a palavra – com você não importa, não faz diferença. Não significa nada, entendeu?
Provavelmente qualquer outra pessoa teria murchado, desmontado, desaparecido. Mas aquela era Allison. Minha Allison. A única capaz de medir forças comigo:
- Bom, então não temos mais nada a dizer sobre isso.
Ela levantou da cama, nua mesmo. Caminhou até o armário, abriu. Escolheu algumas roupas, se vestiu. O tempo todo sem me olhar nem virar de frente para mim. Quando terminou, se aproximou, e com uma voz totalmente impessoal, disse:
- Suas roupas ainda devem estar molhadas. Vai ter que usar uma das minhas.
Depois que eu estava vestida com as roupas que Allison me emprestou – uma camiseta e uma calça jeans horríveis, mas eu estava fraca demais para fazer outra coisa além de me vestir e sair correndo dali - ela continuou no mesmo tom:
- Vem. Vou chamar um táxi pra você.
Destrancou e abriu a porta, e seguiu na frente. Fui atrás dela, me sentindo rasgar, dilacerar por dentro. No meio do corredor a alcancei, puxando Allison pelo braço. Ela se virou para mim, os olhos carregados de uma esperança intensa. Em pleno acordo com os meus.
Mas antes que eu pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, um barulho de vozes nos fez olhar para a sala e ver o tal amigo de Allison – Leonardo – e Alan aparecerem.
Tão surpresa quanto eu, Allison perguntou:
- O que esse engomadinho está fazendo aqui, Léo?
Ignorando Allison completamente, como se ela fosse um inseto, Alan me puxou pela cintura, olhou bem dentro dos meus olhos e respondeu:
- Amor, vim buscar você.

 

 

 

 

Capítulo 44 - Allison

 


Como assim ela não lembrava? Tivemos uma noite perfeita e Pamela disse que nada havia acontecido? Era um pesadelo, meu Deus! Só pode.
- Pam, nós passamos a noite fazendo amor – disse e, involuntariamente, algumas lágrimas quiseram escorrer dos meus olhos.
- Eu não lembro. E mesmo que lembrasse, Allison... Eu ter feito sexo – frisou bem a palavra – com você não importa, não faz diferença. Não significa nada, entendeu?
Quer saber? Cansei de ficar implorando para que ela me entendesse e esquecesse de uma vez por todas a história da troca de cargo. Eu já havia feito tudo para provar que me arrependi, mas a teimosa não quis me dar ouvidos, agora, por rancor acumulado devido ao incidente, tem a coragem, ou melhor: a ousadia de me dizer que não se lembrava do quanto foi maravilhoso fazermos amor.
- Tudo bem Pam, eu desisto – balancei a cabeça negativamente. - Vem. Vou chamar um táxi pra você - destranquei a porta do quarto.
Eu queria ver Pamela o mais longe de mim possível naquele momento, porém antes que chegássemos na sala, senti o toque gostoso e suave das mãos dela nos meus braços. Virei-me no mesmo momento. Olhando-a naquele instante, tive a ilusão de que aquela mulher linda, que me olhava penetrantemente comentaria algo da noite maravilhosa que tivemos. Nossa! Quantas e quantas vezes ela disse que me amava. Queria tanto ouvi-la... Tinha tanta esperança de que, agora sóbria, ela fosse me dizer todas aquelas essas coisas novamente. No entanto, antes que pudéssemos trocar outras palavras, aquele engomadinho do namorado dela apareceu e estragou tudo. Péra aê! O que eu disse? O engomadinho na minha sala? Conversando com o Léo? Como assim?
- O que esse engomadinho está fazendo aqui, Léo? – Perguntei surpresa.
O cara-de-pau nem olhou na minha direção! Passou por mim como um furacão e envolveu aquelas mãos sujas na cintura de Pamela.
- Amor, vim buscar você.
Sinceramente! Não consegui entender nada, e pelo visto Pamela também não. Sabe aquela cara de paisagem que as pessoas fazem quando não conseguem compreender alguma coisa? Essa era a cara dela naquele momento.

Será que Pamela se sentia envergonhada por estar vestindo na frente do namoradinho aquela calça jeans e uma blusinha tão simples que quase ofuscava o seu poder aristocrático? Se as circunstâncias fossem mais favoráveis eu teria rido bastante da carinha dela por estar

- Bom, ao menos não vou precisar chamar um táxi – disse quase fria. Na verdade, eu queria aparentar frieza para não deixar transparecer a raiva obscura, negra, doentia e insana que estava dentro de mim. - Pode me dar um minuto antes de você ir? – Segurei no braço de Pámela e o engomadinho olhou na direção das minhas mãos... Fingi que não vi.
- Sim... – Acho que poucas vezes vi Pamela tão insegura ao me dar uma resposta. Puxei-a para um canto da sala. Esta seria a minha última tentativa.
- Não se recorda mesmo?
- N...Não, Allison! – Disse fria, como era de se esperar.
- Ainda bem... Porque ontem à noite você foi um desastre – provoquei.
- O quê? – Arregalou aqueles olhos azuis, me encarando indignada. O meu humor estava negro naquela manhã.
- Sua performance... Tem que melhorar, viu? Caiu muito a qualidade.
- Sua... Sua... Idiota! – Alterou o tom de voz – Eu te satisfiz horrores – disse num impulso, depois calou-se traída pela sua vaidade.
Ficamos em silêncio por alguns segundos... Nossos olhos presos um no outro. Ela havia me dito em poucas palavras, muito mais do que eu havia perguntado.
- Obrigada, Pam... Agora se me dá licença... – disse sorrindo descaradamente enquanto ela saia da minha casa possessa de raiva.
Vibrei ao descobrir tão facilmente a sua mentira. Voltei para o quarto e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, Léo veio correndo. Deduzo que correu pelos passos que ouvi no corredor. Bateu na porta que estava semi-aberta.
- Posso entrar amiga?
- Poxa Léo! Como você abre a porta pro engomadinho? Podia ter dito que a Pamela não tava aqui, não é?
- Ai, amiga!
- Ai nada! Ele chegou e nós tínhamos muito o que conversar, sabia? Vocês interromperam aquele olhar dela de mulher dominadora arrependida, sabia?
- Olhar de quê?
- Esquece! O que foi?
- Minha noite, Ali! – Sentou-se na cama completamente eufórico. – Foi tudo!
- Saiu com alguém, é isso? Conheceu um carinha novo? – Aquela euforia toda só podia significar que Léo havia conhecido um carinha novo.
- O Alan! – Disse e me olhou com aquela cara de felicidade.
- O que tem o engomadinho?
- Ele não veio procurar a poderosa! Ele dormiu aqui... E pasme! Comigo! Na minha caminha... Foi tão maravilhoso!
- O quê? – Perguntei já percebendo que o meu sorriso despontou rapidamente em minha face – O que você tá me dizendo, Léo?
- O namoradinho da poderosa, é no mínimo "bi"!
- Nossa! – Pulei da cama completamente pasma... Passei a mão pelos cabelos tentando assimilar a situação. – Cara! É a melhor notícia que você me deu na vida! – Quase não acreditei no que estava ouvindo.
- Ali, a esta altura o engomadinho deve estar desesperado! Foi muito azar do coitado – puxou minhas mãos para que eu voltasse a sentar na cama com ele. – O Alan não sabia que eu era seu amigo. Quando nós ficamos ontem à noite, eu apenas disse que trabalhava na redação. Agora ele acorda aqui em casa e dá de cara contigo e com a poderosa! O homem deve estar apavorado, temendo que eu conte pra você e que você conte pra ela – soltou uma gargalhada ao final da frase.
- É, mas... Como a Pam vai explicar pra ele que dormiu aqui comigo?
- Ali, você é a presidente da revista. Qual o problema da poderosa ter dormido aqui depois de um porre daqueles? Sem contar que ele, o namorado dela, desapareceu pelos banheiros daquele sítio comigo. Nossa! Foi tudo estar com aquele homem! Que fogo ele tem, viu?
- Nossa, Léo! – Toquei no ombro dele – Nunca fiquei tão feliz por saber de uma transa sua.
- Vai usar a informação?
- No momento certo!
- Toca aqui amiga! – Disse ele encostando a mão direita na minha. – Hei! Não vai trabalhar hoje?
- Irei mais tarde, depois de umas horinhas de sono. Por favor, peça a Leandra para aparecer na revista só amanhã, ta legal?
- Pode deixar – olhou para o relógio. – Tenho que correr senão descontam do meu salário – sorriu.
- Corre mesmo, se chegar atrasado vou mandar descontar do seu salário, viu?
- Você ficou tão má depois que assumiu o poder, Allison! – Brincou me mandando um beijo da porta.
- Você não viu nada! – Disse mais pra mim, do que para ele.
A segunda passou voando. Dormi a maior parte do dia, devido à ressaca da noite com Pamela. A mulher me deixava sempre completamente esgotada fisicamente. Terça-feira e, como sempre, cheguei cedo a redação. Atualmente, Pamela considera este horário plena madrugada. Como tá folgada esta mulher, meu Deus! Depois que assumiu o cargo de "não faz nada", não quer outra vida. Cada dia chega mais tarde no trabalho, e fica o dia inteiro falando com aquele... Contive o riso ao pensar na forma que passaria a chamar o engomadinho daqui pra frente: "bambi"! Não agüentei a gargalhada. Fui interrompida pela porta que se abriu.
- Posso entrar chefinha?
- Claro, Lê! –Caminhei na direção dela.
- Cheguei cedo demais?
- Chegou na hora certa – beijei-lhe o rosto, logo conduzi-a para mais perto da minha mesa. – Sente-se.
Leandra sentou-se. Colocou umas pastas na minha mesa.
- Sorridente hoje, hein?
- Tive umas boas notícias... Passei a noite de sábado com a Pamela...
- Cheia de novidade, né? Também tenho uma... Não muito agradável... Sabe? – Estava hesitante.
Puxei a minha cadeira e sentei-me de frente para a menina. Sem a mesa para impedir qualquer tipo de contato. Leandra adorava falar com as pessoas tocando, era cheia de trejeitos e eu adorava essa animação toda.
- Vem cá – disse segurando nas mãos dela. – O que aconteceu? Por que está com essa carinha esquisita? Não quer mais o estágio, é isso?
- Não, Ali! Preciso do estágio! Caiu do céu esse trabalho – aproximou-se ainda mais de mim. Me deu um abraço apertado. – Não resisti e dormi com a amiga da Pamela – disse de imediato, sem rodeios.
- Com a Penélope? – Constatei assustada.
- Foi mais forte que eu Ali! – Disse arrependida.
Soltei uma gargalhada no minuto seguinte às palavras dela. Na verdade tudo parecia ser surreal demais. A história se repetindo. Vocês lembram que eu e Pamela nos conhecemos depois de pegarmos em flagrante a Jéssica e o Fábio? Pois, é! Que ironia, hein? A Leandra, minha suposta namorada, me traiu no mesmo dia em que o Bambi da Pam. Isso é no mínimo.... Hilário, não é?
- Não ta chateada?
- Claro que não! – Deitei minha cabeça no ombro dela. – Estou triste porque a idiota da Pamela não admite logo que nos amamos, sabe? O engomadinho dela também deu um perdido na noite do churrasco. E ficou com o seu irmão!
- Sério? – Fitou-me assustada.
- Também fiz essa cara quando soube.
Íamos começar a rir quando a porta se abriu. Eu não estava fazendo nada de errado, mas assim que vi Pamela entrando aquela hora da manhã na sala, dei um salto da cadeira e me pus de pé. A poderosa olhou na nossa direção. Ergueu uma das sobrancelhas, como ela fazia para intimidar as pessoas.
- O que essa garota ta fazendo aqui? – perguntou séria.
- Pamela, a Leandra é nossa nova estagiária – apresentei-a formalmente.
- Isso é alguma piada? – Aproximou-se de nós. Pensei que ela iria nos devorar. A mulher olhou bem na cara de Leandra. – Sai dessa sala imediatamente.
- Hei! Péra aê! Você não pode falar assim com ela.
- Posso e vou falar, Allison! – Alterou o tom de voz – Precisamos ter uma conversinha... Em particular – disse olhando novamente na direção de Leandra que rapidamente se preparou para deixar o recinto.
- Tudo bem, Ali... Espero lá fora – disse antes de sair.
- Quem você pensa que é para tratar os meus funcionários assim?
- Seus funcionários? – Ironizou. Apoiou as mãos espalmadas na mesa. – Contratando a namoradinha para estagiar, não acha isso demais?
- Ela será uma boa funcionária, não vejo problemas – sustentei o olhar.
- Além de aproveitadora, agora vai querer colocar dentro da revista toda a sua gang?
- Chega! – Levantei-me da cadeira, na qual eu havia voltado a sentar. – Quer saber? Estou cansada das suas ofensas... Do seu... – dei a volta na mesa. Parei de frente pra Pam. Aqueles olhos azuis faiscantes e me incitavam a todo o momento. Ela me desafiava, queria incontestavelmente me tirar do sério. – Não me importo mais com o que você acha, nem com o que você quer! Quem manda aqui agora sou eu, Pamela... Entenda isso de uma vez por todas! Contrato quem eu quiser!
- Tem coragem de contratar uma mulherzinha que te traiu com a Penélope? – perguntou enfurecida. – Ela é uma vagabundinha igual a você! Quer se dar bem com a patroa!
Aproximei-me um pouco mais dela. Estávamos a centímetros de distância. Dava para sentirmos as nossas respirações tocando o nossos rostos. Aprofundei meu olhar. Mergulhei fundo nos olhos dela, antes de dizer:
- Seu namoradinho Bambi dormiu com o Léo! – Sorri pelo cantinho da boca, depois sussurrei no ouvido de Pámela. – Te trocou por um homem, viu?
Pamela ficou enfurecida. Ergueu a mão para me dar um tapa na cara, contive a mão dela. Puxei-a para mais perto de mim e a agarrei pela cintura. Nossos corpos pegavam fogo com aquela proximidade. Resisti aquele toque carregado de desejo.
- Fomos traídas, e daí? Essa não foi a primeira vez, nos conhecemos em uma situação semelhante, lembra?
Pamela continuou muda, olhando-me como se quisesse me esganar, me beijar, me espancar, me jogar na mesa e se entregar... Ela me odiava, dava pra ver nos seus olhos, mas eu via também o amor que estava escondido por trás daquela pose aristocrática. Ela quer guerra? Pois terá guerra, viu?
Não sei como consegui, mas nos segundos que passei olhando para ela, consegui reviver momentos da minha vida que há muito eu não resgatava.

 

Tudo pra mim, até hoje, havia sido difícil. Desde os primeiros anos de vida onde minha mãe teve que me criar sozinha, até os dias de hoje quando me apaixonei por mulher mais... Mais complicada da face da terra! Na época de escola era assim também, sempre fui bolsista no colégio de filhinhos de papai. Na faculdade não foi diferente. Fazia trabalhos para alguns deles, sempre de boa vontade. Depois dos trabalhos concluídos eu voltava a ser a filha da empregada.

 

 Até o dia... Sim! Até o dia que eu resolvi parar com tudo. Quem queria tirar boas notas, que se virasse, porque a otária aqui já não fazia mais nada pra ninguém. Parei de pensar nos outros. A nota do pessoal foi caindo... caindo... Eu comecei a ficar em evidência e finalmente deixei de ser a filha da empregada do colégio e passei a ser, simplesmente, a melhor aluna da turma, independente da minha classe social. Choque de realidade.

 

Naquela época parei de sentir pena de mim mesma, jurei que nunca mais sentiria, mas agora, nesta altura do campeonato esbarro com mais uma daquelas "filhinhas de papai" mimada e... começa tudo de novo! Ah, não! A Pamela precisava parar de agir dessa maneira comigo. Tô cansada de ser chamada de suburbana aproveitadora. Nunca precisei disso, sou boa no que faço, e vou provar pra ela e pra todos que o buraco é mais embaixo. Eu usurpei o cargo dela, não é? Pois a revista vai dar um salto de contratos que nunca viu na história.
- Me solta, Allison!
- Claro que solto! – Sussurrei bem próximo aos lábios dela. – Não se meta nas minhas contratações.
- Não se meta no meu namoro! – Encarou-me.
- Continue negando a si mesma – soltei o seu braço... - Esse seu orgulho vai te matar sabia?
- O que vai me matar de... enjôo, é olhar para a sua cara cínica por mais tempo.
Ao final das palavras dela... Dei a volta na mesa e sentei-me.
– Tenho muito trabalho, você ainda quer alguma coisa? – disse seca.
- Não! Você vai amargar a derrota nessa cadeira, Allison!
- É o que veremos Pamela! – disse segura.


 

 

Capítulo 45-  Pamela

 


- Alan, eu não acredito que você fez isso!
Explodi assim que entramos no carro e Alan me contou a verdade. Saber que ele tinha dormido com o melhor amigo de Allison – e que obviamente, ela ia ficar sabendo e pensar que mais uma vez um namorado meu tinha me traído, me deixou irada.
- Pam, querida, eu juro que não sabia.
Ele me lançou um olhar arrependido, depois me abraçou e beijou, repetindo:
- Desculpa, meu amor... Eu não consegui resistir...
Suspirei profundamente. Mais ainda quando ele completou:
- Sei que você me entende. Afinal de contas, também se rendeu a “joie de vivre”, n’est pas? Pelos sons – que aliás, não foram poucos - que eu ouvi durante a noite, você aproveitou bastan...
Não o deixei continuar a falar:
- Vamos mudar de assunto. Na verdade quero esquecer essa minha momentânea ausência de sanidade. Estou quase morrendo de ressaca, com essa roupinha lamentável... Me leva para casa, Alan.
Ele me olhou de cima a baixo. Com um sorriso divertido nos lábios. Antes de dizer:
- Bom, ma chérie... O seu lamentável é muito melhor do que o melhor da maioria das pessoas. Na verdade, acho que você deveria usar jeans e camiseta mais vezes. Apostar nesse visual mais despojado, que tal?
Tive que elevar um pouco a voz para que ele me escutasse no meio das gargalhadas que dava:
- Cala a boca e dirige, Alan!

A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi tomar um café bem forte e me deitar. Com uma máscara nos olhos para evitar a claridade.
Dormi a 2ª feira inteira. Já era 3ª feira de manhã quando retornei do estado lamentável em que me encontrava.
Com meu celular tocando sem parar. Martelando dentro da minha cabeça. Xinguei mentalmente – em francês, claro - por ter esquecido de desligar aquela maldição.
Não querendo me mover, tentei esperar que a tortura parasse, mas a pessoa insistiu. Várias vezes. Até eu tirar a máscara – merde! – e olhar o visor para descobrir quem era “o" ou "a” inconveniente: Penélope.
Pelo tom de voz dela, parecia ser urgente:
- Pamela, tá sentada?
Com um riso irônico, respondi:
- Na verdade estou deitada, tentando dormir.
Mas ela ignorou a minha frase:
- Adivinha!
Aquilo foi demais. Minha paciência já estava esgotada antes mesmo que eu atendesse:
- Penélope, mon dieu! Diz logo o que você tem para me falar!
Ela riu do outro lado:
- Pelo seu tom de voz tão bem humorado, meu bem, já vi que você continua de ressaca. – ela soltou uma risada antes de continuar: - Pode ir se animando, pois tenho ótimas novidades! Em primeiro lugar: pode ficar tranqüila porque estou com o seu carro.
Ao menos Penélope tinha servido para algo. Não ia suportar ter que voltar no maldito sítio naquele fim de mundo.
- Essa é a ótima novidade?
Ela nem me deu tempo de continuar a reclamar. Disparou:
- Não, tem mais! Sabe porque eu desapareci no churrasco? Estava simplesmente pegando a namoradinha da golpista safada!
Sentei na cama num salto:
- O quê?
Ela riu do meu espanto, antes de falar:
- Isso mesmo que você escutou. No banheiro do sítio, e depois na minha casa. Digamos que... não acho que ela seja muito fiel, muito menos apaixonada pela namorada. – soltou outra risada, aparentemente satisfeita consigo mesma - Vai me agradecer agora ou só quando nos encontrarmos?
Alan e o amigo de Allison... Penélope e a namorada de Allison... Minha cabeça rodava ainda sem entender o carrossel de novidades. Sem acreditar no quanto minha vida e a de Ali pareciam estar inevitavelmente interligadas.
Imediatamente fui levada de volta aquele dia fatídico na boate em que tínhamos nos visto pela primeira vez. Quando a outra namoradinha dela tinha ficado com o Fábio...
E uma frase se repetiu como um veredicto, uma profecia quase: Coincidências. Coincidências não existem. Na verdade tudo tem um motivo bem palpável. Apenas não percebemos logo de cara.
Me despedi rapidamente de Penélope. Desliguei o telefone e fiquei deitada, sem conseguir evitar que todos os meus pensamentos se voltassem para Allison...

Minha mente trabalhava febrilmente. Apesar da ressaca. Ou por causa da ressaca, eu não sabia ao certo. Talvez ainda não estivesse completamente sóbria, porque... pensamentos muito estranhos me passavam pela cabeça.
Talvez... Quem sabe... Poderia ser possível que Allison... se preocupasse comigo?
Ao invés de aproveitar o churrasco e a namoradinha, tinha ficado tomando conta de mim.
Fato.
Tinha: tentado me impedir de beber, e sem pensar duas vezes, pulado na piscina atrás de mim. Para me salvar, ou algo parecido. Um gesto incrível. Cuja simples lembrança me arrancou um sorriso.
E por fim, me levado para a casa dela. Impossível esquecer dos shampoos e cremes importados, secador de cabelo, coisas que aparentemente ela não fazia questão de usar. Na verdade ela quase tinha deixado claro que tinha comprado para mim.
Verdade.
Depois o café, e a forma como tínhamos feito amor... Tinha sido uma noite perfeita, magnífica, fantástica...
Inquestionável?
Queria pensar que sim. Mas não era tão fácil. Durante minha vida inteira nunca alguém tinha cuidado de mim. E aquilo mudava completamente o que eu pensava e acreditava com relação às relações humanas: Trocas. Escambos. Obrigações. Comércio de interesses. Imitações de emoções negociadas.
Allison já tinha a presidência da revista, e sabia que se investisse sexualmente eu jamais resistiria, então o que... porque... seria possível que... ela pudesse realmente sentir algo por mim?
Insegurança? Baixa auto-estima?
Deixei escapar uma gargalhada sarcástica.
“Francamente, Pamela... Que grande fracassada você está me saindo!”
Se por um lado as dúvidas eram muitas, as esperanças também. E eu não era mulher de deixar para depois o que eu poderia resolver naquele instante.
Me arrumei inteira. Caprichando. Querendo e conseguindo ficar incrível.
Meu carro ainda estava com Penélope – por isso mandei o porteiro parar um táxi.
Entrei na revista sem dar a mínima para o que as amebas pensavam ou falavam a meu respeito - escândalos faziam parte, sem eles não se é realmente vip.
Tinha um objetivo claro: descobrir de uma vez por todas o que Allison queria e sentia. Precisava saber a verdade, mesmo que não fosse o que eu desejava ouvir.
Arlete arregalou os olhos, quase engasgou ao me ver. Estranhei a reação dela e o fato da porta da sala estar fechada, mas... entendi tudo quando a abri.
Allison estava com a namoradinha, as duas abraçadas de um jeito que me fez ferver por dentro.
Ao me verem, imediatamente se separaram. Pela primeira vez na vida, fiquei absolutamente sem palavras. Balbuciei, parecendo uma retardada:
- Eu... eu...
Allison se levantou, me olhando como se tentasse escanear o efeito da frase em mim:
- Pamela, essa é a Leandra. Nossa nova estagiária.

Aquilo me deixou cega. De ciúmes, despeito, raiva... E medo, por achar que Allison não queria nada comigo na verdade...
- Isso é alguma piada? Sai dessa sala imediatamente! – quase gritei para a menina que me olhava de olhos muito arregalados.
- Hei! Péra aê! Você não pode falar assim com ela.
Allison a defendeu. Aumentando minha raiva a um ponto que tornou impossível eu me controlar:
- Posso e vou falar, Allison! – sim, eu gritei. Lamentável, mas... naquele momento inevitável – Precisamos ter uma conversinha... Em particular.
A menina saiu quase correndo, dizendo:
- Tudo bem, Ali... Espero lá fora.
Allison parecia irada. Se aproximou quase berrando na minha cara:
- Quem você pensa que é para tratar os meus funcionários assim?
Não mais do que eu estava:
- Seus funcionários? Contratando a namoradinha para estagiar, não acha isso demais?
Era uma guerra. De olhares. Nenhuma de nós desviaria, nem deixaria barato. As frases foram metralhadas:
- Ela será uma boa funcionária, não vejo problemas.
- Além de aproveitadora, agora vai querer colocar dentro da revista toda a sua gang?
- Chega! Quer saber? Estou cansada das suas ofensas... Do seu disse e me disse. Não me importo mais com o que você acha, nem com o que você quer! Quem manda aqui agora sou eu, Pamela... Entenda isso de uma vez por todas! Contrato quem eu quiser!
- Tem coragem de contratar uma mulherzinha que te traiu com a Penélope? Ela é uma vagabundinha igual a você! Quer se dar bem com a patroa!
Estávamos a centímetros de distância. Sentindo a respiração uma da outra. Ofegantes depois do violento tiroteio de palavras.
Allison me olhou bem nos olhos ao dizer, com um sorriso cínico:
- Seu namoradinho Bambi dormiu com o Léo! Te trocou por um homem, viu?
A partir dali eu não vi mais nada. Como se uma lente vermelha cobrisse meus olhos. Ira, ódio, raiva. Eram eles que me guiavam quando tentei agredi-la.
O resultado? As mãos de Allison ao redor da minha cintura, meu corpo respondendo na hora, ardendo, enquanto ela falava, aparentemente sem ser afetada:
- Fomos traídas, e daí? Essa não será a primeira vez, nos conhecemos em uma situação semelhante, lembra?
Não consegui dizer nada. A proximidade me fazendo perder todo e qualquer tipo de racionalidade...
Aquela mulher mexia comigo de um jeito insuportável. Que me apavorava. Eu a queria, a detestava, a admirava, a desprezava, eu... a amava. Mas não podia nem queria me deixar dominar pelos sentimentos insanos, doentios, que me arrebatavam:
- Me solta, Allison!
- Claro que solto! Não se meta nas minhas contratações.
Voltei a me lembrar o motivo pelo qual toda aquela discussão havia começado: Allison tinha contratado a namorada... Minha resposta foi fraca. Uma forma pouco convincente de me rebelar:
- Não se meta no meu namoro!
Então ela me soltou. Me olhando de um jeito... Não consegui decifrar o que ela pensava ao falar:
- Continue negando a si mesma. Esse seu orgulho vai te matar, sabia?
Meu orgulho? Eu já não sabia dizer se ele ainda existia... Se sim, onde estava? No chão, como um pano sujo, pisoteado e usado. Precisando de uma boa restauração:
- O que vai me matar de... enjôo, é olhar para a sua cara cínica por mais tempo.
Ela deu a volta na mesa. Sentou. E disse absolutamente seca:
- Tenho muito trabalho, você ainda quer alguma coisa?
O tom de voz dela foi tão igual ao meu... Pelo visto eu tinha conseguido, afinal... Treinar e moldar Allison nos padrões que antes eu achava tão corretos e perfeitos. Então por que o simples pensamento de ter feito com que ela mudasse deixava em minha boca um gosto horrivelmente ácido?
O que eu disse foi o oposto do que eu queria e sentia de verdade:
- Não! Você vai amargar a derrota nessa cadeira, Allison!
Como sempre, ela não se intimidou. Me encarou, só que não mais de igual para igual. Pela primeira vez com total superioridade:
- É o que veremos Pamela!
Nós duas sabíamos perfeitamente que ela estava certa e eu errada. Inconfessável, mas... a pura verdade.
Sem ter como fazer nem dizer mais nada, apenas dei meia volta e saí da sala.

No dia seguinte, inexplicavelmente, resolvi chegar na revista cedo. Qual não foi minha surpresa ao entrar na sala e me deparar com Allison dormindo, com o rosto encostado na mesa.
Tudo bem, eu já tinha percebido – impossível não ver – as enormes olheiras. Provavelmente fazia semanas que ela não dormia direito. E na véspera eu a tinha deixado trabalhando quando saí. Mas aquilo era...
Allison estava exagerando. Se matando quase – poderia se dizer. E boa parte da culpa era minha. Deixando que ela fizesse tudo sozinha e fazendo o possível e o impossível para atrapalhar.
Fiquei olhando para o rosto de Ali. Dormindo ela parecia de novo a Allison que tantas vezes tinha adormecido em meus braços, me fazendo suspirar pelo simples prazer que era tê-la a noite inteira comigo...
Deliciosa e... linda... Eu a amava... Eu a queria... Precisava dela, quase como uma dependência química...
Não. Tinha que parar, interromper aquilo. A humilhante sensação que me mantinha parada boquiaberta, admirando Allison enquanto um verdadeiro tsunami me devastava por dentro...
Impossível. Ainda não tinha conseguido cortar os fios invisíveis. Talvez nunca conseguisse. Essa percepção fez com que eu me rendesse ao inevitável. Me aproximei, passei a mão nos cabelos dela... Allison suspirou e sorriu. Ainda dormindo. E uma ternura inédita tomou conta de mim.
Peguei a pilha de papéis que estava na frente dela. Levei todos para a minha mesa. Aquilo para mim era simples, facílimo. Afinal de contas, não era à toa que eu tinha graduação e MBA na Harvard Business School.
Na verdade, se não tivesse me recusado a cooperar com Allison na parte administrativa já teria feito há muito tempo o que apenas naquele momento - conduzida por uma doçura incrível - fiz: li e resolvi tudo cuidadosamente. Como se fosse para mim.

Os dias que se seguiram foram inacreditavelmente calmos. Depois que eu passei a colaborar, fazendo a minha parte do trabalho, uma trégua tácita se instaurou entre nós.
Quase não nos falávamos. Quando o fazíamos, nos limitávamos a assuntos estritamente profissionais.
A presença da tal estagiariazinha me perturbava, mas não tanto quanto seria se Allison não fizesse questão de a tratar de uma forma totalmente formal. Pelo menos quando eu estava presente.
Eu evitava pensar no que elas faziam quando eu não estava. E isso me mantinha quase calma...
Se meus dias eram recheados de trabalho, de noite as palavras chave eram: desejo, vontade, necessidade... Saudade da satisfação plena que era estar com Allison.
As vendas da revista aumentaram vertiginosamente. Os funcionários também voltaram à assiduidade normal. Allison e eu juntas éramos uma dupla imbatível de fato. Ela com as idéias ousadas, inovadoras, brilhantes. Eu com minha administração impecável. Infelizmente, o sucesso financeiro e profissional era diretamente proporcional ao quanto minha vida pessoal despencava.
Penélope e Alan estavam sumidos, tinham me abandonado. Totalmente consumidos por suas “relações ilícitas” com Leandra e Leonardo. A duplinha caipira que evidentemente, era tão atraente aos olhos deles quanto para mim era Allison.

Estava terminando de analisar um dos relatórios na minha mesa - num dia em que me sentia particularmente ainda mais sozinha do que o que tinha se tornado o normal - quando Allison me surpreendeu, dizendo:
- Vamos almoçar?
Abriu um sorriso lindo, que fez meu coração palpitar. Pegou a bolsa e se dirigiu à porta... Respondi tristemente:
- Vou assim que terminar.
Allison parou, me olhou fixamente, e disse:
- Acho que você não entendeu, Pam. Estou te convidando para almoçar.
Nós sempre tínhamos almoçado separadas. Provavelmente Allison almoçava todos os dias com a namoradinha estagiária...
Minha surpresa foi tão grande que não consegui evitar:
- Com você?
Ela riu ao responder:
- Claro.
Fiquei alguns segundos parada, olhando para ela. Completamente desconcertada. Allison voltou a sorrir, e na mesma hora, um sorriso surgiu em meus lábios em resposta, involuntário.
Tinha certeza de que não estava conseguindo disfarçar o delicioso roçar de felicidade em minha voz. Mas incrivelmente, naquele momento não importava:
- Por que não?
Levantei, peguei minha bolsa, me aproximei de Allison. Ela me olhava fixamente, de um jeito que parecia me desnudar a alma. Passou a língua nos lábios, me percorrendo com os olhos, exatamente como qualquer predador faz... Depois abriu a porta para que eu passasse. Atravessamos a redação lado a lado. Sob os olhares gerais de espanto e curiosidade.
Entramos no elevador, ela apertou o botão do térreo, o braço roçando no meu e me deixando toda arrepiada. Perguntei:
- Para onde vamos?
E Allison respondeu, mergulhando os olhos nos meus:
- Sei que você adora lugares sofisticados, mas... Queria te mostrar como é bom comer comida caseira, sabe?
Ela riu do meu olhar. Absolutamente apavorado. Era só o que faltava, ela querer me levar em algum tipo de lanchonete ou restaurante... arg... popular?
Como se lesse meus pensamentos, Allison deu uma risada. E completou, daquele jeito absolutamente imprevisível e surpreendente de sempre, que eu adorava:
- Não é o que você está pensando. Calma. Vou te levar na casa dos meus pais.

 

Parte 6 

 

 

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