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Quando fechei a porta do carro, agarrei o volante com força, engolindo a
vontade de gritar. Fiquei muito tempo ali parada, tentando inutilmente deixar
de tremer. Minha respiração se recusando a voltar ao normal...
Uma estranha umidade no rosto me incomodando... Levei uma das mãos à face e
só então percebi que eram... lágrimas?
Aquilo era... mais do que deprimente... humilhante, de uma total e absoluta
falta de classe...
O mais baixo que eu me permitiria chegar.
Definitivamente, eu não ia passar a vida inteira guiada pelos malditos fios
invisíveis... Não tinha mais tempo a perder com esse tipo de barbárie...
“Inaceitável, Pamela! Agora basta!”
Respirei fundo, peguei um lenço na bolsa, enxuguei os vestígios abomináveis
daquele que – eu jurava! - era meu último momento de fraqueza, retoquei a
maquiagem, e saí do carro.
Algo ou alguém me derrubar? Nunca, jamais! Voltei para a “Gente Chique” como
se tivesse exorcizado o espírito derretido e retardado que tinha me dominado
nos últimos dias. Meus olhos faiscavam. Em parte por uma raiva fria, cortante
como uma navalha. Em parte pela simples certeza de saber que ao voltar a ser
quem eu era de verdade jamais seria derrotada.
Quando a porta do elevador se abriu, a redação parecia em festa. Os sorrisos
morreram quando fuzilei as amebas que se diziam meus funcionários com o
olhar. Um silêncio amedrontado se estabeleceu enquanto eu atravessava o salão
direto para a sala de Ali. O único ruído era o som compassado dos meus saltos
pisando no chão do mesmo jeito como eu ia pisotear todos aqueles ratos. A
começar por...
Allison estava terminando de esvaziar as gavetas quando entrei. Parou
imediatamente, mas não conseguiu me encarar.
Senti um aperto no peito... A forma que ela me olhava sempre tinha sido uma
das coisas que eu mais gostava...
Afastei o pensamento infame, não podia me deixar dominar por coisas que eram
simplesmente... Um erro, o maior que eu já tinha cometido... O momento
desprezível quando eu tinha dito que a amava... Eu só podia estar
delirando... Fora de mim, mas não mais... E uma coisa era certa: Ali ia me
pagar. A medida do quanto seria determinada pelo tormento que a traição
imperdoável conseguisse me causar.
Me aproximei dela, que estremeceu. Antes de continuar arrumando a caixa em
cima da mesa. Louca para se mudar para a minha sala, pelo jeito...
A olhei com desprezo ao falar:
- Já marquei a reunião com a diretoria para a sua posse.
Ela me olhou timidamente, a voz tremendo ao responder:
- Olha, eu... Não quero o seu cargo. Eu e seu pai... Nós estávamos
equivocados...
Se aproximou de mim. Me olhando de um jeito... Não... A menina era uma
farsa... Precisava manter isso em mente. Firmei o olhar, e ordenei:
- Quero que cale a boca e me ouça... Porque eu só vou dizer uma vez. Você vai
voltar aqui amanhã às 14h, irá entrar naquela sala de reuniões... Assumir a
presidência da “Gente Chique”, e eu vou provar pro meu pai, pra você e pra
todos esses miseráveis que se dizem meus funcionários que você é incompetente
para manter o cargo deles e a boa reputação dessa instituição. Entendeu?
Ela pareceu... fraca, quase abalada? Com medo talvez...
- Pam, queria que você entendesse as minhas razões...
Parei de escutar, porque... Ali tentou segurar minhas mãos, e eu não ia
permitir que ela voltasse a me tocar. Nunca mais. Com um olharzinho de
coitadinha, vítima quase, Allison continuou:
- Eu desisti do plano, mas não tive tempo de falar com o seu pai...
Aquilo era demais:
- Desistir do plano não quer dizer que você não tenha me traído, Allison.
Naquele momento, o ódio que eu sentia era absolutamente positivo... Me
mantinha de pé na frente dela, sem piscar... Fazia meu coração bater com
força, o sangue pulsando nas veias em brasas, me permitindo... respirar...
O teatrinho de Ali continuava:
- Nunca vai me perdoar, não é?
A forma como ela falou... Eu quase... Não. Não mais.
Usei aquilo para aumentar a minha raiva. Olhei para ela como olharia para o
inseto mais repulsivo e miserável:
- Você é insignificante pra mim. Não faz diferença te perdoar.
Dei as costas para sair. Podia sentir os olhos dela me acompanhando.
Completei sem me virar:
- Não esqueça que você tem que estar às 14h em ponto, na sala de reuniões.
Ela não respondeu. Não disse absolutamente nada. Saí batendo a porta atrás de
mim, num esforço sobre humano para manter o controle de minhas próprias
ações.
Não fui direto para casa. Antes tinha que resolver algumas questões. Quando
cheguei, acompanhada dos entregadores carregando as coisas que eu tinha
comprado, Paz me olhou espantada.
- Paz, eles vão desmontar minha cama e montar a nova. Você se livra dos
travesseiros, colchão, toda a roupa de cama e substitui pelos novos.
Ainda sem entender, Paz tentou perguntar:
- Mas o que a senhora quer que faça com os antigos?
Respondi bruscamente:
- Não me interessa. Apenas suma com eles.
“Estão infectados...” – pensei.
- Sim senhora.
Foi a resposta rápida dela antes de sumir com os rapazes para dentro do meu
quarto.
Fui até o bar, me servi de uma dose de Whisky que tomei de uma só vez. Me
servi novamente antes de sair para a varanda. A vista ironicamente me
acenando recordações, quase um tapa na cara...
Aqueles sentimentos estranhos, desconhecidos, me davam uma fraqueza absurda.
Uma vontade de simplesmente ficar sentada... sofrendo?
Sim, sofrendo... Era essa a palavra abjeta que inutilmente eu tentava evitar.
E apesar de não querer aceitar, me vi esfregando o rosto com as mãos, as
lágrimas já ameaçando se libertarem...
“Calma, Pamela! Menos!”
Como era possível que alguém pudesse me desequilibrar daquele jeito? Nunca,
durante minha vida inteira, eu tinha me deixado... Um suspiro profundo
escapou involuntariamente. Ninguém jamais tinha me decepcionado. Simplesmente
porque eu nunca tinha esperado nada de ninguém. Ninguém além de... Allison...
Muito mais do que ridículo, aquilo era tão... Um desespero avassalador tomou
conta de mim naquele momento... Como uma tempestade, avalanche me
atravessando por dentro. Corvos. Pousados nos fios invisíveis da minha
fraqueza. Esperando o momento certo de se banquetearem caso eu hesitasse.
Respirei fundo. Sequei os olhos, dei um gole na bebida que desceu ardendo,
cortando o histérico efeito das sensações irracionais . Humilhantes,
extremas, intensas...
“Não quero ser assim. Não sou e nunca fui uma tola sentimental. Afinal de
contas, o que está acontecendo comigo?”
Essa era a grande questão, afinal...
Quando minha mãe tinha sumido eu era muito pequena. Nem me lembrava. Nunca
tinha tido problemas com isso. Na verdade, não sentia nada por ela, sequer me
importava. Não tinha como sentir a perda de algo que nunca tinha tido... Já o
meu pai... Esse não passava de uma fotografia na minha escrivaninha durante o
ano letivo, alguns poucos telefonemas e alguém que me enchia de presentes nos
aniversários e Natais... Também fazia pouca ou nenhuma diferença se estava
morto ou vivo, porque... o que eu sentia por ele era quase nada.
Então como, em que momento, porque Allison era... Apesar de tudo eu... Porque
diabos eu ainda me importava?
O que ela tinha feito era total e absolutamente indesculpável.
No entanto, me parecia que a vingança seria algo que eu não iria saborear.
Por que... ainda sentia um inexplicável calafrio por dentro cada vez que a
olhava... Um insano e ridículo desejo de esquecer tudo e a tomar nos braços.
Eu a amava... Eu a odiava... Já não fazia diferença... Os dois sentimentos
pulsavam juntos, inevitáveis como uma bactéria, vírus, doença... Seria o amor
incurável? Haveria alguma forma de voltar a me imunizar?
Naquele momento, a impressão que eu tinha era que aquele doloroso desmoronar,
irritante som do meu próprio coração rangendo não me abandonaria jamais...
Me recusei a passar a noite em claro. Liguei para Val. Que me trouxe uma
caixa dos comprimidos que eu sabia que de vez em quando ela tomava – Rivotril,
para ser exata – sem me perguntar nada.
Acordei no dia seguinte descansada, e depois de um banho demorado, e um
almoço caprichado, eu estava pronta para enfrentar Allison.
Cheguei na revista pontualmente. Arlete me recebeu na porta do elevador, como
sempre carregando a minha pasta. Caminhei direto para a sala de reuniões onde
todos já me esperavam.
A diretoria sentada em volta da mesa, Allison de pé, com um nervosismo
evidente. Na verdade, uma tensão quase palpável pairava no ar.
Atravessei a sala, quase sorrindo ao ver os olhos se arregalarem quando ao
invés de sentar na minha cadeira, sentei do lado oposto da mesa gigantesca.
Tirei os óculos escuros calmamente. Todos continuavam a me olhar. Que
esperassem. Demorei um tempo antes de falar:
- Sente-se, Allison. Essa cadeira agora lhe pertence. Não se faça de rogada.
Afinal de contas, você deu duro por ela, não é verdade?
Senti que Ali me olhava, mas não retribuí o olhar. Completei:
- Estamos esperando. Não temos a tarde inteira, sabe?
Sem uma palavra, ela caminhou até a cadeira e obedeceu. Com Ali finalmente
sentada na cadeira que era minha por direito – eu não ia nem podia deixar
barato – continuei:
- Como os senhores sabem, meu pai achou por bem que Allison passasse a
dirigir as atividades desta instituição.
Aproveitei o murmurinho para debochar:
- Não percam tempo se questionando se meu pai perdeu completamente a razão ou
simplesmente não conseguiu resistir aos... “talentos” da nossa mais nova
funcionária. Isso realmente não interessa. Seja como for, a partir de hoje, a
direção desta revista é de inteira responsabilidade da srta. Allison.
E de uma forma absolutamente sarcástica, puxei as palmas que todos
acompanharam sem muito entusiasmo.
Allison se levantou, agradeceu, pediu a palavra... E fez um discurso que
deixou meu estômago embrulhado. Sobre uma forma mais humanista de tratar os
funcionários... Chegou a falar em “Liderança Servil”... Inacreditável!
A menina podia ser tudo menos burra, não é verdade?
Eu a olhava com uma expressão entediada. Mas ela evitava me olhar. Quando
terminou, voltou a se sentar. E eu não pude deixar de falar:
- Que tocante... Seria perfeito se isso aqui fosse uma instituição de
caridade...
Todos acompanharam minhas risadas. Allison me lançou um olhar absolutamente
gelado. Continuei com um sorriso muito mais do que satisfeito:
- Por acaso você já leu “A alma boa de Setsuan”?
E como ela me olhasse de forma interrogativa, mostrando que não fazia idéia
do que eu estava falando:
- De Bertold Brecht? Não?
Muito a contragosto, ela fez que não com a cabeça. Com um sorriso quase
sádico de tão satisfeito, dei a cartada final:
- Pois então leia. Quem sabe assim entende o que estou dizendo... E aproveita
para consertar essa sua... como eu posso dizer? Educação falha?
Todos riram novamente. Nossa, eu estava simplesmente adorando. Fácil como
tirar doce da boca de uma criança. Até a criança abrir a boca e falar:
- Na verdade, Pamela, a educação moderna já não considera mais tão importante
o acúmulo de informações... Nunca ouviu falar em inteligência emocional?
Levantei uma das sobrancelhas, enquanto a fuzilava com o olhar. Com um
sorriso abusivamente irônico, Allison continuou:
- O psicólogo Daniel Goleman? Não?
Ela não me deu tempo nem de piscar:
- Bom, quem sabe eu possa contribuir um pouco mais para sua educação tão...
antiquada?
Ninguém ousou rir com ela, verdade, mas... Era nítido que queriam. E só não o
fizeram por medo de mim.
- Bom, Pamela, segundo o conceito de inteligência emocional, a maioria das
situações depende do relacionamento entre as pessoas. Por isso pessoas com
qualidades de relacionamento humano como afabilidade, compreensão e gentileza
têm mais chances de obter sucesso.
Allison abriu um enorme sorriso. Que se dependesse de mim, não duraria muito
tempo:
- Agradeço a sua... aulinha? Mas não temos tempo para isso. Você precisa
assinar o contrato com nossos colaboradores franceses. Arlete, por favor...
Solícita e eficiente como sempre, Arlete colocou o contrato na frente de
Allison, que após passar os olhos rapidamente na primeira folha, olhou para
mim. O sorriso tinha desaparecido completamente do rosto dela. Na verdade,
estava brilhando no meu:
- Que foi? Algum problema?
Os olhos castanhos me lançaram um olhar fulminante que fez com que fosse
ainda mais delicioso completar:
- Por que não usa a sua inteligência emocional para ler? Ou ela não funciona
em francês?
Me recostei na cadeira, esperando para ver o que a menina ia fazer. Allison
parou, refletiu, e com um sorriso absolutamente gentil, pediu:
- Por favor, Arlete, providencie uma tradução.
Arlete continuou parada. Olhando para mim. Como se esperasse o meu aval. E
eu? Nada fiz. Deixei a ação para Allison. Que depois de alguns segundos de
hesitação ordenou, com um tom de voz bem menos suave:
- O mais rápido possível.
Uma Arlete muito pálida, com a voz quase sumida gaguejou:
- Si...sim, dona Allison.
E rapidamente saiu com o contrato nas mãos.
Naquele momento, tinha conseguido deixar claro que se Allison queria ser
respeitada, não poderia ser amiguinha dos funcionários:
- Com o tempo, Allison, você vai perceber que num cargo de chefia ser
boazinha não é uma qualidade.
Antes que ela pudesse responder, levantei, dizendo:
- Bom, acho que minha presença se faz desnecessária.
Saí da sala de cabeça erguida. Mas no fundo, de verdade, a pequena vitória
apenas tinha conseguido deixar em minha boca um estranho e vazio gosto de...
nada.
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