Dez coisas que odeio em você   - 4

DIEDRA ROIZ E KARINA DIAS

 

 

 

 

Capítulo 31 - PAMELA

 


Quando abri os olhos – com muita dificuldade, estava exausta da maratona na véspera - dei de cara com uma Allison de cabelos molhados e olhos muito abertos me observando. Fui brindada com um sorriso magnífico. Resmunguei, absolutamente mal humorada:
- Pelo amor de Deus... Que horas são?
Ela pulou em cima de mim, me beijando sem parar. Tentei em vão não sorrir, mas... foi inevitável...
- Dez. Levanta, Pam... Vai ficar a manhã inteira na cama, é?
Allison riu da minha cara de pesar – eu estava achando dez horas da manhã de madrugada...
- Muito cedo... estou morta de cansaço, quero dormir mais...
E coloquei o travesseiro na cara. As mãos dela puxaram o lençol que me cobria e começaram a passear pelo meu corpo inteiro de uma forma absolutamente safada. Voltei a resmungar:
- Para, Allison! Me deixa em paz!
Mas nós duas sabíamos que dessa vez a minha voz não tinha soado nem um pouco irritada. Nem eu tinha rejeitado o contato. Pelo contrário. Me virei grudando o corpo no dela num abraço, nossos lábios se encontrando com voracidade. Adorando aquele jeito de ser acordada...

Passamos a manhã e o começo da tarde entre carícias, beijos e palavras sussurradas. Pedimos o café e o almoço no quarto.
Allison não reclamou, mas quando saí do banho ela estava parada em frente à janela, olhando para a vista com uma carinha de bichinho enjaulado.
Como a reunião com os franceses só seria no dia seguinte, me dispus a aproveitar a tarde para levar Allison na Torre Eiffel. Estava pegando o telefone para pedir um táxi, quando ela sugeriu:
- Vamos de metrô?
A olhei, sem acreditar. Definitivamente, ser pobre era um estado de espírito... Ao invés de ir de táxi, Allison preferia o transporte... arg... público? Incrível! No pior sentido da palavra.
Dei um suspiro exasperado, já ia recusar quando ela me puxou pela cintura, um sorrisinho pidão nos lábios ao dizer:
- Por favor, Pam... Dizem que é lindo atravessar o rio...
Ela sacou o maldito livrinho para turistas do bolso e começou a folhear. Procurando o quê? A informação que qualquer criança saberia dar:
- Sena.
Ignorando completamente meu tom de reprovação, ela continuou:
- No metrô que passa atrás da Torre Eiffel, por cima da ponte...
Allison voltou a folhear o livrinho infernal. E eu voltei a completar:
- Bir-Hakeim.
- Isso.
Suspirei novamente. A “cultura de almanaque” de Allison era bonitinha, mas... abominável. Precisava ser corrigida urgentemente. Antes que – muito francamente - eu perdesse a minha pouca, quase nula paciência.
Mas então, Allison sorriu novamente, e o que eu estava pensando foi imediatamente substituído por um insano desejo de satisfazer a vontade dela:
- Está bem. Desde que você não me faça andar quilômetros como ontem.
Acabei concordando, me rendendo à inevitável sensação - por mais absurdo pudesse parecer – de que com Allison ao meu lado, até ir ao inferno caminhando seria um prazer.

Quando perguntei ao rapaz na recepção como eu chegava de metrô na Torre Eiffel, ele me olhou como se eu estivesse louca. E estava mesmo. “Folle d’amour”...
O olhar que lancei para ele o fez engasgar. Nada demais. O efeito de sempre. Que me deixou satisfeita, com um risinho sarcástico nos lábios. Ser boazinha com Allison era uma coisa. Com os outros seres inferiores... Nem se eu estivesse doente!
Depois de uma explicação rápida gaguejada por ele, caminhei em direção à porta, sem agradecer. Allison me seguiu quase correndo, resmungando um:
- Pam, precisava tratar o rapaz daquele jeito?
Não estava com a mínima vontade de discutir, por isso segurei a mão dela com um sorriso irresistível, que eu sabia que a faria esquecer o assunto.
Caminhamos de mãos dadas até a estação que o rapaz tinha indicado: Charles de Gaulle Étoile. Allison parou para olhar para o Arco do Triunfo novamente.
E sacou a máquina fotográfica. Sinceramente? Eu achava essa coisa turista, de quem vai a Paris pela primeira vez e fica tirando foto de tudo de um mau gosto gigantesco. Mas a alegria quase infantil de Allison me amoleceu. Deixei ela fotografar a vontade, sem uma reclamação sequer. Só levantei uma sobrancelha quando ela pediu:
- Vamos lá outra vez?
- Para quê? Ontem já não foi suficiente?
Ela voltou a fazer a carinha de cachorrinho sem dono que sempre me amolecia:
- Mas eu não fotografei desse ângulo, Pam...
Mas não daquela vez:
- Allison, Paris tem milhares de monumentos, não é só esse...
- Por favor...
Sacudi a cabeça negativamente. Num impulso, Allison exclamou, colocando uma máquina digital das mais baratinhas nas minhas mãos:
- Eu vou e você fotografa, ok?
Atravessou a rua correndo, antes que eu pudesse discordar. E eu? O que eu ia fazer? Fotografei...

Chegamos na Torre Eiffel, com uma Allison encantada ao meu lado, sem parar de dizer:
- A cor é linda... Diferente das fotos... E é... imensa...
Até aí tudo bem. Comentários que eu era capaz de digerir. Até ela sacar o insuportável livrinho:
- Inaugurada em 31 de Março de 1889, a Torre Eiffel foi construída para honrar...
Eu já não sabia o que era mais cansativo: ela ficar repetindo coisas óbvias como se fossem incríveis, ou eu acabar sempre completando as informações ridículas:
- O Centenário da Revolução Francesa. Allison, quem não sabe disso?
Ignorando minha irritação completamente, ela continuou:
- A Torre Eiffel possui três plataformas. Do topo, o ponto mais alto de Paris, tem-se uma vista panorâmica da cidade. Tem 300 metros de altura. Somando-se a extensão da antena, a altura total da Torre é de 320,75 metros. Seu peso total é de sete mil toneladas, incluindo 40 toneladas de tinta. Possui 15 mil peças de aço e 1652 degraus até o topo...
Depois do pesadelo da véspera, retruquei com um profundo e sincero alívio:
- Felizmente, existe um sistema de elevadores.
Minha observação a fez rir. Allison guardou o livrinho, e me puxou entusiasticamente pela mão. Antes de entrarmos na... arg... fila para comprar o “billet” para subir, me fez andar entre o povinho sentado na grama fumando, lendo, conversando ou simplesmente apreciando o monumento.
Voltou a fotografar exaustivamente. Lamentou:
- Não consigo pegar ela inteira...
Com uma benevolência imensa – eu não estava me reconhecendo – tentei deixá-la satisfeita:
- Depois vamos até Trocadéro. De lá você consegue uma foto perfeita.
- Trocadéro?
Abriu o livrinho novamente. Folheou e depois começou a ler, com uma animação horrenda:
- O Trocadéro é um lugar de Paris localizado do outro lado do Sena a partir da Torre Eiffel. Neste local existiu o Palácio de Trocadéro no lugar onde se ergue o atual...
Foi quando finalmente minha paciência acabou. Não fui nem um pouco doce ao dizer:
- Palais de Chaillot! Mon Dieu, Allison! Você está conseguindo me tirar do sério! Se abrir esse livrinho idiota mais uma vez juro que atiro vocês dois no Sena!
O jeito que ela me olhou... Magoada, muito magoada. Profundamente. O sorriso sumiu por completo dos lábios dela. Na mesma hora me arrependi.
Fiquei olhando para Allison, meio sem saber o que fazer – não ia pedir desculpas, evidente! - e então, com um tom de voz suave e carinhoso ao extremo, tentei... corrigir o... erro:
- Já viu uma foto famosíssima de Hitler com a Torre Eiffel ao fundo? Foi tirada de lá, amor...
Os olhos castanhos, que se mantinham fixos no chão, me fitaram, surpresos. E depois, aquele sorriso safado e sedutor voltou, me arrepiando inteira:
- Você me chamou de quê?
Sorri de volta ao responder:
- Você ouviu da primeira vez...
Ela voltou a sorrir. E a insistir:
- Ouvi sim, mas... quero ouvir outra vez.
Ficou me olhando como se esperasse que eu repetisse. Me esquivei:
- Vai ouvir muitas vezes, Allison. Só que... agora não temos tempo.
Ela colocou as mãos na cintura, franziu o cenho. Sem desmanchar o sorrisinho dos lábios perfeitos. Tentei resistir:
- Agora não... Depois...
Ela suspirou, bateu o pé no chão, fingindo impaciência. O riso subiu pela minha garganta - impossível conter. E acabei dizendo:
- Está bem: amor... Satisfeita?
- Nem um pouco... Quem sabe se você disser mais uma vez?...
Não foi a resposta dela, foi o jeitinho provocante... Irresistível mesmo. Não questionei nem sufoquei a vontade que veio. Com um beijo que não passou de um leve encostar nos lábios dela, e um sorriso imenso, sussurrei:
- Vem, amor... Quero te mostrar Paris inteira. Começando pelo alto da Torre Eiffel.

Paris vista de cima... Inacreditável? Maravilhoso? Magnífico? Indescritível... As construções históricas numa tranqüilidade de quem não é ameaçado pelos arranha-céus de La Défense. Incrível contraste entre antigo e moderno, coisa de filme, capaz de levar à loucura qualquer um que observe...
Para mim mais parecia uma maquete. Fui apontando e explicando, me sentindo um site de busca da internet: Cathédrale Notre Dame de Paris, Musée du Louvre, Musée D’Orsay, Ópera Garnier, Obélisque de Luxor, Place de la Concorde, Des Champs-Elysées...
Allison fotografou tudo entusiasticamente. Sem abrir o livrinho infeliz uma vez sequer. Ia perguntar algo, mas se arrependeu. Provavelmente por causa da minha... do que eu tinha dito antes.
- Allison...
Ela murmurou distraidamente, concentrada em me fotografar com Paris ao fundo:
- Uhm?
- O que você quer saber?
Depois de desgrudar os olhos rapidamente da tela da máquina para me olhar nos olhos, ela voltou ao que estava fazendo:
- Nada não. Besteira.
Tirei a máquina das mãos de Allison. E a fotografei, dizendo:
- Quero fotos suas também.
O sorriso que capturei foi perfeito. Completei:
- Pode perguntar o que quiser. Não vou me aborrecer. Prometo.
A nova foto ficou ainda mais bonita. A expressão que eu adorava, e que ela sempre tinha quando estava feliz.
- Pra que essa rede? Atrapalha as fotos e a vista...
A pergunta, feita de repente, me pegou de surpresa. Mas respondi imediatamente:
- É para impedir que as pessoas se suicidem.
- Mesmo?
Fiz que sim com a cabeça.
Com um espanto evidente, Allison falou como quem deixa escapar um pensamento:
- Quem ia querer se suicidar num lugar lindo desses?
- Muito mais gente do que você pensa.
De um jeito muito sério e pensativo, Allison falou:
- Imagine a dor que é preciso se estar sentindo para...
Um silêncio pesado se estabeleceu. Allison com os pensamentos dela. Eu com os meus.
Como sempre, Allison tinha o poder de me surpreender. Tinha pouca cultura, mas... era inegavelmente inteligente. Isso me instigava, porque... cultura ela poderia adquirir com o tempo. O que seria... perfeito.
A abracei por trás, querendo acabar com aquela expressão que ela tinha no rosto, quase de sofrimento, que eu não conseguia entender. A beijei perto da orelha, e sussurrei:
- E então? Está gostando de Paris?
Imediatamente consegui um sorriso. Allison se virou para mim, antes de responder:
- Muito. Mas eu ia adorar o Iraque se estivesse com você.
Dessa vez quem sorriu fui eu. Aplaudindo mentalmente. “Bravo, Allison! Touché...”

 

 

 

 

 

CAPITULO 32 - ALLISON

 



Depois do passeio na Torre Eiffel, retornamos ao hotel num clima romântico de recém-casadas... Nossa! Como era gostoso fazer amor com Pamela tendo ao fundo um dos cartões postais mais lindos do planeta. Era um sonho em todos os sentidos. A poderosa estava completamente entregue ao momento que estávamos vivendo. Tá certo que uma hora ou outra ela alfinetava de alguma forma, mas isso não me preocupava. Na verdade, eu até gosto desse jeitão que ela tem de decidir as coisas, de saber tudo, querer sempre que a razão esteja pendurada no seu pescoço. Se eu relaxar é até divertido. O que eu e o Sr. Álvaro não gostávamos nela, era a forma humilhante que Pamela submetia as pessoas. Ela não respeitava os sentimentos de ninguém, e alguém que não respeita os sentimentos das pessoas, deve ter uma pedra no lugar do coração. Eu realmente não podia, e não queria acreditar que a minha Pam tinha uma pedra no lugar do coração...

Acordamos quase ao meio-dia. A reunião com os franceses estava marcada para as dezessete e quarenta. Beijei Pamela para tentar removê-la do objetivo de podar as minhas esperanças para mais um passeio pela cidade. Eu sabia que para ela estava sendo um saco visitar os lugares que provavelmente já havia estado milhões de vezes, mas mesmo assim, a esperança é a última que morre, não é? Então:

Puxei o lençol que cobria o corpo dela... Comecei beijando os seus pés... Massageando as suas panturrilhas com carinho... Escalei seu corpo deslizando os lábios pelas suas pernas, alternando uma e outra. Alcancei as suas coxas... Pamela já estava com os olhos arregalados... Me fitando cheia de desejo... Mordendo os lábios daquele jeito que ela sabe que me deixa louca...

- Bonjour - sussurrei enquanto deslizava as mãos espalmadas pelos seus seios rígidos e rosados... Meus lábios continuavam deslizando pelas suas coxas... Minha respiração alcançava o seu sexo... Pamela não me respondeu nada, apenas se contorceu nos lençóis indicando que queria um contato maior... Deslizei a língua de leve pelo sexo dela... Retirei a mão direita do seu seio e com os dedos senti a sua excitação... Molhada! Ela estava docemente, digo, completamente molhada... Afundei meus lábios, língua... Dedos dentro dela... Senti seu quadril levantar-se do colchão... Agarrei-a pelas nádegas com a mão esquerda e a trouxe para mim, como se eu pudesse entrar dentro dela com aquele contato... Gemi sentido minha carne vibrar com o calor do sexo da mulher que eu amava como nunca amei ninguém em toda a minha vida... Gozei... Ela gozou... Escalei o corpo dela e beijei os seus lábios...

- Bonjour, mon amour. – disse ela espreguiçando-se.

Aumentei os beijos nos lábios de Pamela... Capturei sua língua e suguei-a com paixão... Aquele beijo estava nos deixando completamente excitadas novamente.

- Que tal passeio no museu do Louvre? – disparei. Pamela me olhou desconfiada... Me preparei para ouvir o seu "não" bem sonoro – Por favor!

- Pela milésima vez, Allison...

- Quero ver a Monalisa! – justifiquei.

- Pela milésima vez, Allison... – repetiu com aquela cara de quem não está nem aí para a minha curiosidade – Irei ao Louvre, mas com você... Certamente será muito diferente – sorriu. Aquele sorriso iluminou o meu dia. Arrisco dizer que eu fiquei até emocionada. Minha Pamela não tinha mesmo uma pedra ao invés de um coração...

- Claro que será diferente, oras! Te farei milhões de perguntas! Adoro explorar a sua inteligência!

Sorrimos... Pam deu um salto da cama... Caminhou nua até o banheiro... Ela me provocava ao andar... Olhou pra trás antes de fechar a porta... Piscou sedutoramente pra mim...

- Você não vem? – sussurrou.

*****************************

Almoçamos as pressas... Correndo para que desse tempo de irmos realmente ao Museu do Louvre. Minutos depois... Insistência é a alma do negócio! Eu estava radiante quando entramos no museu. Olhava cada cantinho do lugar cheia de sede para conhecer um pouquinho mais da história que repousava ali. Parece que Pamela leu os meus pensamentos... Na medida em que andávamos pelo museu, ela ia me contando algumas histórias.

- Esse museu possui uma das mais importantes coleções de arte do mundo... – dizia ela.

- E a Monalisa, onde está?

- Calma, Allison – sorria – Construído em 1190 como fortaleza do rei Filipe Augusto e para proteger Paris dos ataques dos vikings.

- Os vikings, legal! – passamos por um enorme corredor – E a Monalisa, onde está?

- Mas que coisa, Allison! – pareceu impaciente – dá para esperar um minuto? – continuamos andando.

- Já passou um minuto – disse e fitei-a de rabo de olho para provocá-la. Ela me olhou de volta e apontou uma parede...

- Ai está a sua Monalisa!

Olhei... Olhei de novo... Sabe quando você se decepciona imediatamente com alguma coisa.

- Nossa! – disse frustrada. Acho que Pam não percebeu a minha frustração... Cruzou os braços e ficou contemplando o quadro a nossa frente.

- Leonardo da Vinci pintou este retrato por volta de 1504. Logo foi considerado o exemplo do retrato renascentista.

- É... É... Pequeno! – disse balançando a cabeça negativamente. Vocês tinham que ver o tamanho daquele quadro. Putz! Insignificante. Eu não gostei!

- É lindo, Allison! – disse Pam afrontada com a minha ousadia ao dizer que o quadro era pequeno.

- Eu não gostei! – dei as costas imediatamente ao pequenino quadrinho da florentina, conhecida como La Gioconda. Voltei a olhar para Pam que estava imóvel. – Podemos ver a Vênus de Milo?

- A Monalisa é fantástica! - ignorou completamente o meu comentário.

- O quadro de margarida que eu tenho em casa é mais bonito que ela.

- Você não vai conseguir me irritar com esse seu comentário... Insolente! – estava furiosa.

- Relaxa, Pam! É só um quadro...

- Não tente se justificar Allison! Está piorando ainda mais as coisas.

Sorri... Puxei-a pelas mãos para que andássemos mais rápido...



Pamela ficou um pouco descontente por eu ter falado mal da Monalisa, mas eu não gostei, oras! O que ela queria que eu dissesse? Essas mulheres tem cada uma, viu? Ela ficou de bico até o jantar com os franceses. Depois de algumas taças de champagne, Pamela voltou a sorrir. E como sorriu! Os dois idiotas que falavam fazendo biquinho estavam completamente derretidos por ela, e eu, completamente enciumada. Só parei de sentir ciúmes quando ela segurou minha mão discretamente por baixo da mesa... Nesse momento nossos olhos se encontraram, Pamela sorriu e eu li no seu sorriso a seguinte frase: "está tudo bem". Foi o céu, não é? Relaxei e encarei a reunião com um pouco mais de tolerância. Negócio fechado! Dentro de três meses a "GENTE CHIQUE" iria invadir o território francês. Uma coisa eu tenho que admitir: o charme da Pam ajuda, e muito, nos negócios da revista. Ela convence os caras com um olhar. Nossa! Estou cada vez mais apaixonada, não é? De volta ao Rio, a primeira coisa que vou fazer é ir ao encontro do Sr. Álvaro e dizer que nosso plano não precisa ser colocado em prática. Pamela está mudando, do jeito dela, mas está mudando... Isso é evidente!

*************************

Nossa noite de amor foi maravilhosa como todas as outras... As lembranças de Paris ficariam imortalizadas dentro do meu peito como as melhores de toda a minha vida!

Aterrissamos em solo brasileiro e o choque pelo fuso horário nos fez dormir sem ao menos termos tempo de nos amarmos mais uma vez.

Saí da casa de Pamela e fui direto para a revista. Havia marcado com o Sr. Álvaro que assim que nós chegássemos, ele iria passar lá para fazer a troca de cargos. A essa altura Arlete já devia ter avisado ao meu sogro que estávamos no Brasil. Tentei inúmeras vezes ligar para ele durante o trajeto até a revista... Em casa, a informação era que ele não se encontrava. O celular, o homem não atendia. Foi batendo um desespero. Não queria que aquele mal entendido acabasse com os dias maravilhosos que eu e Pamela tivemos em Paris.

Cheguei na revista completamente transtornada à procura do Sr. Álvaro. Arlete disse que não sabia do paradeiro dele, mas que o mesmo estava ciente de que eu e sua filha estávamos no Rio de Janeiro. Bati na mesa da secretária que não conseguia entender o porquê de eu estar tão nervosa. Na verdade, acho que eu nunca estive tão arrependida e tão nervosa em toda a minha vida... Léo abraçou-me por trás... Virei-me imediatamente de frente pra ele...

- Que carinha de aterrorizada é essa, amiga?

- Acho que fiz a maior burrice de toda a minha vida. – fitei-o com lágrimas nos olhos.




 

 

CAPITULO 33 - PAMELA

 

 

 

- Eu não gostei!
Essa foi a frase absurda de Allison ao ver La Gioconda. Irritada era pouco, aquilo me deixou simplesmente... revoltada! Retruquei:
- A Mona Lisa é fantástica!
Ia começar a explicar porque aquele era o mais famoso quadro na história da arte, senão, o mais famoso de todo o mundo, quando ela completou:
- Relaxa, Pam! É só um quadro...
Só um quadro? Fiquei paralisada, sacudindo a cabeça negativamente. Allison sorriu, tentando me puxar pela mão enquanto eu protestava:
- Não tente se justificar Allison! Está piorando ainda mais as coisas. Fique sabendo que “La Gioconda” foi a obra onde Leonardo Da Vinci melhor concebeu a técnica do sfumato...
Ela parou, rindo da minha cara:
- Esfu o quê?
Suspirei profundamente – haja paciência! – antes de responder:
- Sfumato, Allison, é uma técnica usada para gerar gradientes perfeitos na criação de luz e sombra de um desenho ou de uma pintura. Foi uma técnica inovadora na Renascença Italiana.
Ela ficou me olhando, tentando se manter séria, sem muito resultado. Mesmo assim continuei:
- Da Vinci foi o primeiro a perceber que o verniz de madeira corrói a tinta a óleo, gerando um gradiente perfeito no local. É praticamente impossível perceber as pinceladas nas obras dele. Entendeu?
Ela sacudiu a cabeça afirmativamente, com um brilho divertido nos olhos... Mas sequer voltou a olhar para a Monalisa. Apenas sugeriu:
- Impressionante, mas... Agora podemos ver a Vênus de Milo?
Fechei a cara de vez. Respondi muito, mas muito irritada mesmo:
- Podemos. A Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia, a Dama de Auxerre, a Madona das Rochas, tudo o que você quiser. Desde que trate as obras de arte com o respeito que elas merecem!
Saí andando rápido, com Allison me seguindo de perto. Absolutamente furiosa, principalmente ao escutar o risinho que ela tentou abafar, sem muito êxito...

O jantar com os investidores franceses foi um sucesso. De volta ao hotel, não pude deixar de dizer:
- Allison, você enlouqueceu? Sua crise de ciúmes infantil poderia ter atrapalhado e muito!
Ela não se intimidou. Ao contrário, disse com todas as letras:
- Pam, eles estavam dando em cima de você!
Deixei escapar uma gargalhada. Impossível conter... Allison me olhou feio. Respirou fundo, franziu o cenho... Retruquei:
- Meu amor, os homens dão em cima de mim o tempo inteiro...
Allison explodiu:
- Porque você fica sorrindo e flertando com eles!
Caminhei até ela com meu sorriso mais irresistível. A puxei pela cintura sedutoramente. Allison estremeceu... Grudei minha boca no ouvido dela e sussurrei:
- Ali... Entenda de uma vez: eu sorrio pra eles, mas amo você...
O corpo dela se arrepiou inteiro. Um gemido escapou por entre os lábios que rapidamente procuraram os meus. Foi um beijo delicioso. Ardente, urgente, pleno de algo muito maior e mais profundo do que um simples desejo... Quando nossas bocas se separaram, disse olhando nos olhos dela:
- Quer dizer então que arrumei uma namorada ciumenta...
Após um piscar de olhos muito surpreso, Allison gaguejou:
- Namo... namorada? Eu?
A beijei nos lábios mais uma vez antes de responder de forma provocante:
- Prefere ser só amante?
Ela abriu um daqueles sorrisos que me desarmavam sempre... Antes de responder, os lábios descendo por meu pescoço, as mãos abrindo o zíper do meu vestido, queimando minha pele:
- Não... namorada é perfeito...
Perfeita foi ela... a noite inteira...

Depois de um café que foi mais um almoço – afinal passavam das duas horas da tarde quando finalmente acordamos, ambas exaustas de fazer amor até amanhecer – declarei:
- Allison, você não pode ir embora sem conhecer Notre Dame!
Ela resmungou, reclamou, repetiu várias vezes que preferia aproveitar os últimos momentos em Paris na cama, ao invés de perder tempo conhecendo uma “igreja metida a besta”, mas quando nos aproximamos da catedral, ela mudou de idéia:
- Uau!
Foi só o que conseguiu dizer. A puxei pela mão com um sorriso imenso:
- Isso não é nada. Espere até ver lá dentro.
A reação dela ao se deparar com os 127 metros de comprimento, 48 metros de largura e 35 metros de altura não foi nada comparada a que teve quando viu a aura etérea criada pelo colorido dos grandes vitrais das rosáceas e janelas. Deixou escapar quase como se falasse para si mesma:
- Nunca me senti tão pequena...
Segurei a mão dela carinhosamente. Allison sorriu, e pediu:
- Podemos sentar aqui um momento?
Concordei. Sentamos em um dos bancos da nave. Allison olhando fixamente, quase hipnotizada pela rosácea no alto, atrás do altar na nossa frente...
Estranha e inacreditavelmente, me vi fazendo algo que eu nunca tinha feito com ninguém:
- A primeira vez que entrei aqui eu tinha cinco anos. Meu pai disse que fiquei quase duas horas sentada, olhando para cima, exatamente como você está fazendo...
Allison me olhou profundamente, sorriu, apertou minha mão na dela, e disse simplesmente:
- Eu amo você.
Acrescentando mais um na minha lista de momentos perfeitos...

Chegamos no Galeão de madrugada. Pegamos um táxi até a minha casa. Eu estava... exausta.
Deixei que Allison coordenasse o porteiro e Paz no carregamento de nossas malas, enquanto tomava uma chuveirada rápida, e me atirava na cama, nua como eu gostava.
Allison entrou no quarto escuro tentando não fazer barulho. Sem abrir os olhos, a chamei:
- Vem logo... Quero dormir abraçada com a minha namorada.
Em questão de segundos ela já estava despida ao meu lado. Me aconcheguei no corpo de Allison com um suspiro de prazer. Colei meus lábios nos dela num beijo apaixonado antes de dizer:
- Adoro dormir com você...
Adormeci quase que imediatamente, com o ombro dela me servindo deliciosamente de travesseiro...

Acordei com beijos... Abri os olhos e Allison estava na minha frente, com um sorriso lindo e estranhamente... fora da cama e vestida. Reclamei:
- Ainda é cedo... Volta para a cama, amor... Vem...
Ela me beijou novamente, antes de dizer:
- Preciso passar em casa antes de ir pra revista. Faz séculos que não vou lá... O Léo já deve estar pensando que me mudei, ou sei lá o que...
Me pendurei no pescoço de Allison. Sussurrei no ouvido dela:
- Deixe ele pensar o que quiser. Não quero ficar sem você...
Mais um beijo, e ela se soltou, respondendo:
- Não, amor, sério... Preciso mesmo ir. Nos vemos na revista.
Concordei com um suspiro desanimado. Nem assim Allison cedeu. Se despediu com um beijo longo, apaixonado, mas que me deixou com uma sensação de algo que eu não conseguia compreender... Tentei afastar o estranho pressentimento sem êxito. Continuei com um pulsar sufocante no peito.

Quando cheguei na “Gente Chique”, Allison estava em minha sala. Parecendo muito tensa.
- Que aconteceu?
Foi a primeira coisa que perguntei. Ela me olhou, um misto de angústia e medo... Antes de responder:
- Preciso conversar com você.
Passei meus braços ao redor do pescoço dela, tentando afastar a distância que parecia haver entre nós – tão palpável que eu quase poderia tocá-la - dizendo:
- Alguém morreu?
Allison nem sorriu. Me fitou profundamente. Preocupação e... o que mais? Eu não sabia responder. Abriu a boca para falar e então... o barulho da porta se abrindo atrás de nós... Nos afastamos rapidamente... Meu pai entrou na sala sorrindo e dizendo:
- E então? Como foi a viagem?
Junto com um olhar de censura, falei:
- Você não sabe bater?
Meu pai riu. E se sentou na minha cadeira. Ele estava um tanto quanto... diferente... Allison parecia ainda mais tensa com a presença dele... Comecei a me perguntar o que estava acontecendo. A resposta veio mais rápido do que eu pensei:
- Você se esquece, Pamela, que essa sala, assim como a revista, é minha. E que eu faço dela o que eu bem entender. Tenho sido benevolente com as suas tiranias, mas... agora chega.
Realmente, eu não estava entendendo:
- Como assim? O que você quer dizer?
Ele me olhou diretamente nos olhos ao responder:
- Que a partir de hoje, o poder de mandar e desmandar na “Gente Chique” não é mais seu. A Allison vai assumir a direção da revista, Pamela.
A única coisa que eu consegui dizer foi:
- O que? Você está me demitindo? É isso?
Aquilo não podia estar acontecendo. Era... um pesadelo... A qualquer momento eu iria acordar... Ele continuou dizendo:
- Claro que não. Você mantém seu cargo. Quero que as duas trabalhem juntas. Ela vai implantar idéias novas, e você vai ajudar. Espero que cheguem sempre a um consenso, mas... já deixo claro que em caso de divergência entre vocês, a decisão de Allison é a que vale.
Meu pai se levantou, triunfante. Sustentei o olhar que me lançou com firmeza. Afinal de contas, não ia dar a ele o gostinho de me ver desmoronar.
Allison tentou falar:
- Sr. Álvaro, eu tentei falar com o senhor a manhã inteira, porque...
Meu pai colocou a mão no ombro de Allison, e a olhou de um jeito que deixou claro para mim que o que ele tinha acabado de falar não era novidade para ela... Mas como? Quando? Minha mente trabalhava febrilmente... Antes da viagem, eles... Em Paris, ela sabia... Ela sabia, mas não tinha me falado nada...
- Não vou deixar você voltar atrás, Allison.
Voltar atrás? Então não só ela sabia como... Já tinha aceitado...
Allison protestou:
- O senhor não entende... Eu não...
Mas meu pai a interrompeu:
- Confie em mim. Sei o que estou fazendo. Isso é o melhor para a revista, e o melhor para vocês.
E depois se retirou, dizendo:
- Vou deixar as duas a sós.
Minha confiança em Allison era tanta, que perguntei, não conseguindo acreditar nas palavras que tinha acabado de ouvir:
- Allison... Me diz que isso não é verdade... Que você não sabia... Que...
Eu nem conseguia dizer. Ela abaixou a cabeça antes de responder:
- Não é o que você está pensando, Pam... Calma... escuta o que eu vou te dizer...
Não a deixei completar. Nem que ela visse a decepção tão absolutamente profunda, um abismo me puxando de forma inevitável... Felizmente, a raiva veio, camuflando um pouco o sofrimento. Um sofrimento que eu nem imaginava que poderia existir. Ao mesmo tempo paralisando e causando arrepios... Um vácuo que subia do estômago e me ardia os olhos ao descobrir que... Traída, da pior forma possível. Pela única pessoa que eu... Não conseguia acreditar, aceitar, muito menos compreender...
Virei de costas. Não suportando olhar para ela ao dizer:
- Engraçado. Sempre esperei o pior de todas as pessoas. Menos de você.
Ela se aproximou, tocou meu ombro suavemente. Reagi brusca e rapidamente, rejeitando e interrompendo o contato ao me virar para ela tremendo. Desejando que ela também queimasse no inferno que eu estava vivendo naquele momento:
- Parabéns. Você conseguiu me enganar completamente. Como eu pude acreditar que...
Um riso amargo escapou dos meus lábios. Ao me lembrar de tudo o que eu tinha dito, sentido, me permitido... O quanto eu tinha sido imbecil em esquecer que para ser atingida bastava abaixar a guarda um milímetro...
A rasteira dela tinha me derrubado. Mas uma coisa era certa: eu não ia ficar caída.
Ela estendeu a mão na minha direção, se fingindo de preocupada, mas com um gesto impedi que encostasse em mim. Antes de continuar:
- E no final você não passa de uma vagabundinha ambiciosa querendo subir na vida...
- Pam, me escuta... eu...
Incrível como aquela menina conseguia ser convincente. O jeito que me olhou... Quase conseguiu... Não. Nunca deixaria que acontecesse novamente. Congelaria as lágrimas que sufocavam dentro do peito, fazendo com que meu coração se tornasse gelo. Eu era forte o bastante para fazê-lo.
Minha voz soou seca, absolutamente fria quando a cortei:
- Não adianta. Nada vai me fazer pensar diferente.
Ela prosseguiu numa atuação excepcional de desespero:
- Não! Pam, eu posso explicar, se me ouvir você vai entender...
A olhei com profundo desprezo. O mesmo com que falei:
- Você já conseguiu o que queria, essa encenação toda é para quê? Não quero mais te ouvir. Aliás, não quero sequer olhar para você.
Avancei em direção à minha bolsa. Ela me interceptou, me puxando pelo braço, as mãos envolvendo minha cintura, me trazendo para junto dela, o simples contato fazendo com que eu estremecesse.
Precisava fazer com que minha mente fosse mais rápida do que os sentimentos que ameaçavam aflorar e fazer com que eu me rendesse... Coloquei as mãos nos ombros dela, a empurrando com tanta força que quase caí. Ela impediu, me amparando nos braços, me apertando contra o corpo dela, a boca sussurrando próxima a meu ouvido:
- Je t’aime.
Arrepiei inteira, mas... não como das outras vezes. Talvez a certeza de ser a última vez que nos tocávamos ou então... a profunda dor que se sente quando não se acredita mais em alguém...
Allison me olhou intensamente. Milhares de recordações, sensações de momentos que havíamos passado juntas me envolvendo...
Ela começou a aproximar os lábios lentamente, e os meus se entreabriram, num desejo incoerente...
E então... Ali soltou um gemido abafado quando minha mão direita a acertou em cheio. Numa bofetada tão forte que a fez perder o equilíbrio e deixou meus dedos marcados no rosto dela em vermelho.
Me afastei, peguei a bolsa, caminhei até a porta. Ela apenas me olhava, com a mão no rosto, no local em que a estapeei, sem nada dizer. Quem quebrou o silêncio fui eu. Antes de sair da sala, tinha uma última coisa a esclarecer:
- Nunca mais me toque. No que me diz respeito, o que houve entre nós simplesmente não existiu. Você acaba de ganhar a pior de todas as inimigas, Ali. E pode ter certeza: não vai sobrar nada quando eu acabar com você.

 

 

 

 


CAPITULO 34  - ALLISON


O que eu podia fazer diante das palavras que não foram ditas? Da confiança que foi perdida por um erro de cálculo? Depois que Pamela saiu da sala, eu provei o gosto amargo da desilusão. Tantas vezes ela me decepcionou com as suas atitudes tiranas. Me humilhou diante de Penélope, da cúpula presidencial... Mas nada se comparava a dor que eu estava sentindo naquele instante. Sabe por que? Simplesmente porque fui eu quem provocou aquela situação. Onde eu estava com a cabeça para concordar com aquele plano ridículo do Sr. Álvaro? A Pamela era a alma daquela revista. A direção sem ela ficaria tão vazia quanto um pote de cereja quando Léo está deprimido. Afastei-me da mesa dela... Ali não era o meu lugar... Nunca foi! Nunca seria! Eu só queria o amor de Pamela... Eu provei o amor dela em Paris, e a única certeza que eu tinha naquele momento era que ela estava eternizada no meu coração... Sai da sala cabisbaixa... Passei por Arlete sem ao menos conseguir cumprimentá-la... A secretária me seguiu até puxar o meu braço e me fazer parar no meio do corredor...
- Você tomou a decisão certa, Ali – disse.
- O quê? – fitei-a sem conseguir compreender onde ela queria chegar.
- A dona Pamela precisa sentir na pele o gostinho de ser uma de nós. Quem sabe agora ela fica um pouco mais humilde?
- Sabe onde o Sr Álvaro está? – ignorei completamente o seu comentário.
- Sala de reuniões – apontou o final do corredor – A redação inteira está do seu lado.
Olhei rapidamente a minha volta... Os funcionários me olhavam com um tom de agradecimento nos lábios que me deixou muito pior. Todos já sabiam? Arlete andou ouvindo atrás da porta, ou o Sr Álvaro deu a notícia em primeira mão durante o tempo em que estávamos viajando? Queria desaparecer dali. Mantive o silêncio do meu olhar e caminhei em passos apressados até a sala de reuniões... Abri a porta rapidamente... Entrei... Deparei-me com um Sr Álvaro pensativo, olhando algumas fotografias da sua filha que ficavam penduradas na parede como troféus. Pamela foi a geração mais competente daquela conceituada revista. Ele percebeu a minha presença, embora eu não tenha feito nenhum barulho. Fechei a porta atrás de nós. O homem sorriu gentilmente pra mim.
- Vamos conseguir dobrá-la – disse animado.
Suspirei, logo balancei a cabeça negativamente enquanto apoiava as mãos no encosto da cadeira do presidente.
- Tentei localizar o senhor a manhã inteira – disse frustrada. Passei rapidamente a mão direita para enxugar algumas lágrimas que escorriam dos meus olhos – Nossa viagem foi maravilhosa! Aliás, a sua filha desconhece o quanto é uma pessoa incrível e encantadora... Doce até!
- Ali...
- Um minuto, por favor – engoli a saliva como quem engole uma lâmina – Acabou! – sorri irônica... As lágrimas continuavam fazendo os meus olhos desabafarem - O senhor não me deu a chance de desistir dessa idéia louca de virar chefe da minha chefe.... A Pamela não me deixou explicar que eu não queria tomar o lugar dela. Não sei quem foi mais intransigente nessa história, sabia? O senhor ou ela. Só sei que eu fui uma completa idiota. Ninguém muda ninguém à revelia. – ele prestava atenção nas minhas palavras... continuava em silêncio – Ela estava praticamente desarmada em Paris! – Abri os braços inconsolável - Claro que a Pamela sem aquele sarcasmo e aquele ar de superioridade perderia totalmente o encanto. Estávamos nos entendendo... Sem planos... Armadilhas... Sem a interferência divina, entende? Não podemos simplesmente apontar uma pessoa e dizer: hei! Hoje você fará o que eu quero!
- Eu pensei... Que...
- Eu pensei que fossemos mais racionais... Mais humanos... – interrompi-o sem a menor educação. Enxuguei os olhos – Pensei que o bem e o mal existissem de fato, e me intitulei a boazinha da história, mas a boazinha da história jamais trairia a confiança da mulher que ama.
- Alis..son... lamento, mas não podemos desistir agora. Este é um remédio amargo que ela precisa tomar. Não vamos magoá-la por querermos o bem dela!
- Nós já a magoamos, Sr. Álvaro! – dei a volta na mesa... Parei de frente ao homem de terno azul... Estendi as mãos para cumprimentá-lo... Ele olhou a minha mão estendida... Apertou um tanto hesitante – Ela não precisa receber ordens... Nem do senhor! Eu agradeço a confiança... – balancei a mão duas vezes. Soltei a mão dele – Obrigada por acreditar no meu trabalho, nas minhas idéias e por achar que eu estaria à altura da sua filha.
- Você não...
- Sim! Eu me demito.
- Pensa bem Allison! Aqui você pode crescer muito minha filha... Terá uma carreira brilhante... Suas idéias são fantásticas...
- Se sou uma boa profissional, terei sucesso em qualquer lugar. – toquei o ombro dele – Não posso viver sem a sua filha. Depois de ter experimentado o quanto é bom ser amada por ela, seria impossível conviver sendo odiada.
- Allison. Não vou aceitar a sua demissão. Vai pra casa... Pensa bem em tudo o que aconteceu. Podemos dar um jeito nisso... – segurou minha mão – Desculpa se me precipitei. Achei sinceramente que seria o melhor pra ela.
- Não dá pra achar o que é melhor para alguém.
- Lamento.
- Também não dá pra lamentar pelo leite derramado.
- O que você pretende fazer?
- Eu não sei. – disse, logo aquela frase ficou se repetindo inúmeras vezes na minha cabeça. – Agora, só sei que retornarei até a minha sala e vou encaixotar as coisas que estão na minha mesa e dentro das gavetas dos armários.
- Não faça isso... Dê um tempo para a situação ficar mais confortável.
- Tá brincando! A sua filha quer servir a minha cabeça em uma bandeja de prata. Preciso fazer isso... Por mim... Por ela...
- A Pamela sempre ganhou tudo no grito. É uma mulher mimada... Cheia de manias – passou os dedos pela fotografia... – Você tem feito a minha filha repensar nas suas atitudes. Temo que sem você ao lado dela, toda essa conquista que é ver a mudança dos seus atos, não passe de perda de tempo e esperanças.
- Ela não tem que mudar porque nós queremos. – passei as mãos pelos meus cabelos. – Até, Sr Álvaro.
- Boa sorte na sua escolha. Mas... Se mudar de idéia. O cargo, seja ele qual for, ainda é seu.
- Obrigada. – disse e caminhei de volta até a minha sala.

Olhei a minha volta novamente... Eu gostava daquele lugar. Gostava de tudo o que eu estava aprendendo com a Poderosa. Ser assistente de Pamela havia sido a melhor coisa que aconteceu na minha carreira. Ela era decidida, inteligente, sabia sair de qualquer situação sem perder o charme, e era persuasiva a ponto de reverter tudo a seu favor. Quando retornei a minha sala, eu havia trazido comigo uma caixa de papelão que consegui no almoxarifado. Arrastei uns papéis que estavam em cima da mesa para o lado esquerdo... Pus a caixa no lugar dos mesmos... Comecei a arrumar minhas coisas... Eu estava triste, sabe? Também por deixar a revista, mas mais ainda por deixar Pamela.
Ouvi um barulho na porta, logo Léo entrou na sala sem bater e com um sorriso ridículo nos lábios... Caminhou na minha direção batendo palmas...
- Hum... Já preparando a mudança para a sala vip, hein? – parou na minha frente e me puxou para um abraço apertado – Nem acredito nisso, sabia? Temos que comemorar! Uma festa, que tal? – soltou-me... - Com direito a champagne e muitos... Muitos... Garçons lindos e maravilhosos! – sorriu animado – Vê se não esquece os amigos, tá? Pode me promover para um cargo bem bacana que eu nem ligo!
Senti o meu sangue ferver diante das palavras dele... Num impulso segurei Léo pela camisa... Eu estava com tanta raiva, não apenas dele, mas da situação em si. Acho que eu teria coragem de esganá-lo naquele momento.
- Não tô mudando de sala! Estou arrumando as coisas para eu ir embora daqui. Não quero o cargo da Pam! A única coisa que eu queria ganhar na minha vida era o amor dessa mulher. O perdi por causa dessa merda de plano!
- Ali... Você...tá... Me... enforcando... – sussurrou.
Soltei a gola da sua camisa... Nervosa, passei a mão nos meus cabelos...
- Sai daqui, Léo! – disse brava.
- Não pode perder essa chance! – caminhou até a janela que dava vista para a redação. Afastou as persianas... Dali eu podia ver os funcionários trabalhando – Estão todos comemorando! Estamos cansados de ser mal tratados pela dona Pamela, Allison! A poderosa precisa aprender de uma vez por todas a nos tratar melhor! – voltou até onde eu estava – Foi uma jogada de mestre do Sr Álvaro! É a filha dele, Ali! Ele sabe o que é melhor pra ela.
- Se ele soubesse o que é melhor pra ela, teria corrigido-a antes que Pamela virasse uma mulher... – continuei colocando as coisas dentro da caixa – Ele foi um pai ausente a vida inteira, por que quer mudá-la agora? Danem-se as intenções do Sr Álvaro! Eu perdi a mulher que amo – parei o que está fazendo – Você consegue entender a gravidade disso? Em Paris fomos felizes! Ela... Ela... Tava diferente... Não precisava... – peguei um lenço de papel e enxuguei os meus olhos – Vai embora Léo. E pode dizer para todos lá fora que o lugar da Pamela ninguém tira.
- Você é tão covarde, Allison!
Ergui a cabeça... O que ele queria com aquela provocação?
- Tá com medo de ser melhor do que ela. – parou na minha frente. Colocou as mãos nos meus ombros – Suas idéias são inovadoras. E... Os funcionários irão trabalhar com alegria por saberem que não serão humilhados por você. Pensa nisso!
- Ninguém é melhor do que a dona Pamela – tirei as mãos dele dos meus ombros – Encosta a porta pra mim, tá?
Léo saiu balançando a cabeça negativamente... Continuei encaixotando as minhas coisas... Estava quase terminando de esvaziar as gavetas quando a porta abriu-se novamente. Parei imediatamente o que estava fazendo quando Pamela entrou na sala. Ela estava com a cara séria de sempre. Me olhando de cima como se eu fosse um inseto ou coisa parecida. Aproximou-se silenciosa de onde eu estava. Tentei encarar os seus olhos azuis, mas os meus estavam tão envergonhados que eu desviei o olhar e continuei arrumando a caixa...
- Já marquei a reunião com a diretoria para a sua posse. – disse com o tom de voz firme. Levantei a face... Tentei olhá-la de frente...
- Olha, eu... Não quero o seu cargo. – dei a volta na mesa... parei próxima a ela – Eu e seu pai... Nós estávamos equivocados...
- Quero que cale a boca e me ouça... Porque eu só vou dizer uma vez – firmou o olhar, eu fiquei calada ouvindo-a - Você vai voltar aqui amanhã às 14h, irá entrar naquela sala de reuniões... Assumir a presidência da Gente Chique, e eu vou provar pro meu pai, pra você e pra todos esses miseráveis que se dizem meus funcionários que você é incompetente para manter o cargo deles e a boa reputação dessa instituição. Entendeu?
Engoli em seco enquanto ela falava...
- Queria que você entendesse as minhas razões... Nós só queríamos que você se humanizasse um pouco. – tentei segurar as mãos dela. Pamela se esquivou do contato – Eu te amo. Desculpa por não ter te contado, eu desisti do plano, mas não tive tempo de falar com o seu pai... – tentei me justificar o máximo que pude.
- Desistir do plano não quer dizer que você não tenha me traído Allison – continuou encarando-me daquela forma que só ela sabia fazer. Erguendo uma sobrancelha e intimidando os reles mortais que estavam diante daquela Deusa.
- Nunca vai me perdoar, não é?
- Você é insignificante pra mim. Não faz diferença te perdoar. – disse e deu-me as costas. Antes de sair... Parou... Permaneceu de costas... – Não esqueça que você tem que estar às 14h em ponto, na sala de reuniões.
Não disse absolutamente nada. Eu não sabia como agir. Pamela, como sempre, tinha o domínio da situação.


 

 

 

Capítulo 35 - PAMELA

 



Quando fechei a porta do carro, agarrei o volante com força, engolindo a vontade de gritar. Fiquei muito tempo ali parada, tentando inutilmente deixar de tremer. Minha respiração se recusando a voltar ao normal...
Uma estranha umidade no rosto me incomodando... Levei uma das mãos à face e só então percebi que eram... lágrimas?
Aquilo era... mais do que deprimente... humilhante, de uma total e absoluta falta de classe...
O mais baixo que eu me permitiria chegar.
Definitivamente, eu não ia passar a vida inteira guiada pelos malditos fios invisíveis... Não tinha mais tempo a perder com esse tipo de barbárie...
“Inaceitável, Pamela! Agora basta!”
Respirei fundo, peguei um lenço na bolsa, enxuguei os vestígios abomináveis daquele que – eu jurava! - era meu último momento de fraqueza, retoquei a maquiagem, e saí do carro.
Algo ou alguém me derrubar? Nunca, jamais! Voltei para a “Gente Chique” como se tivesse exorcizado o espírito derretido e retardado que tinha me dominado nos últimos dias. Meus olhos faiscavam. Em parte por uma raiva fria, cortante como uma navalha. Em parte pela simples certeza de saber que ao voltar a ser quem eu era de verdade jamais seria derrotada.
Quando a porta do elevador se abriu, a redação parecia em festa. Os sorrisos morreram quando fuzilei as amebas que se diziam meus funcionários com o olhar. Um silêncio amedrontado se estabeleceu enquanto eu atravessava o salão direto para a sala de Ali. O único ruído era o som compassado dos meus saltos pisando no chão do mesmo jeito como eu ia pisotear todos aqueles ratos. A começar por...
Allison estava terminando de esvaziar as gavetas quando entrei. Parou imediatamente, mas não conseguiu me encarar.
Senti um aperto no peito... A forma que ela me olhava sempre tinha sido uma das coisas que eu mais gostava...
Afastei o pensamento infame, não podia me deixar dominar por coisas que eram simplesmente... Um erro, o maior que eu já tinha cometido... O momento desprezível quando eu tinha dito que a amava... Eu só podia estar delirando... Fora de mim, mas não mais... E uma coisa era certa: Ali ia me pagar. A medida do quanto seria determinada pelo tormento que a traição imperdoável conseguisse me causar.
Me aproximei dela, que estremeceu. Antes de continuar arrumando a caixa em cima da mesa. Louca para se mudar para a minha sala, pelo jeito...
A olhei com desprezo ao falar:
- Já marquei a reunião com a diretoria para a sua posse.
Ela me olhou timidamente, a voz tremendo ao responder:
- Olha, eu... Não quero o seu cargo. Eu e seu pai... Nós estávamos equivocados...
Se aproximou de mim. Me olhando de um jeito... Não... A menina era uma farsa... Precisava manter isso em mente. Firmei o olhar, e ordenei:
- Quero que cale a boca e me ouça... Porque eu só vou dizer uma vez. Você vai voltar aqui amanhã às 14h, irá entrar naquela sala de reuniões... Assumir a presidência da “Gente Chique”, e eu vou provar pro meu pai, pra você e pra todos esses miseráveis que se dizem meus funcionários que você é incompetente para manter o cargo deles e a boa reputação dessa instituição. Entendeu?
Ela pareceu... fraca, quase abalada? Com medo talvez...
- Pam, queria que você entendesse as minhas razões...
Parei de escutar, porque... Ali tentou segurar minhas mãos, e eu não ia permitir que ela voltasse a me tocar. Nunca mais. Com um olharzinho de coitadinha, vítima quase, Allison continuou:
- Eu desisti do plano, mas não tive tempo de falar com o seu pai...
Aquilo era demais:
- Desistir do plano não quer dizer que você não tenha me traído, Allison.
Naquele momento, o ódio que eu sentia era absolutamente positivo... Me mantinha de pé na frente dela, sem piscar... Fazia meu coração bater com força, o sangue pulsando nas veias em brasas, me permitindo... respirar...
O teatrinho de Ali continuava:
- Nunca vai me perdoar, não é?
A forma como ela falou... Eu quase... Não. Não mais.
Usei aquilo para aumentar a minha raiva. Olhei para ela como olharia para o inseto mais repulsivo e miserável:
- Você é insignificante pra mim. Não faz diferença te perdoar.
Dei as costas para sair. Podia sentir os olhos dela me acompanhando. Completei sem me virar:
- Não esqueça que você tem que estar às 14h em ponto, na sala de reuniões.
Ela não respondeu. Não disse absolutamente nada. Saí batendo a porta atrás de mim, num esforço sobre humano para manter o controle de minhas próprias ações.

Não fui direto para casa. Antes tinha que resolver algumas questões. Quando cheguei, acompanhada dos entregadores carregando as coisas que eu tinha comprado, Paz me olhou espantada.
- Paz, eles vão desmontar minha cama e montar a nova. Você se livra dos travesseiros, colchão, toda a roupa de cama e substitui pelos novos.
Ainda sem entender, Paz tentou perguntar:
- Mas o que a senhora quer que faça com os antigos?
Respondi bruscamente:
- Não me interessa. Apenas suma com eles.
“Estão infectados...” – pensei.
- Sim senhora.
Foi a resposta rápida dela antes de sumir com os rapazes para dentro do meu quarto.
Fui até o bar, me servi de uma dose de Whisky que tomei de uma só vez. Me servi novamente antes de sair para a varanda. A vista ironicamente me acenando recordações, quase um tapa na cara...
Aqueles sentimentos estranhos, desconhecidos, me davam uma fraqueza absurda. Uma vontade de simplesmente ficar sentada... sofrendo?
Sim, sofrendo... Era essa a palavra abjeta que inutilmente eu tentava evitar. E apesar de não querer aceitar, me vi esfregando o rosto com as mãos, as lágrimas já ameaçando se libertarem...
“Calma, Pamela! Menos!”
Como era possível que alguém pudesse me desequilibrar daquele jeito? Nunca, durante minha vida inteira, eu tinha me deixado... Um suspiro profundo escapou involuntariamente. Ninguém jamais tinha me decepcionado. Simplesmente porque eu nunca tinha esperado nada de ninguém. Ninguém além de... Allison...
Muito mais do que ridículo, aquilo era tão... Um desespero avassalador tomou conta de mim naquele momento... Como uma tempestade, avalanche me atravessando por dentro. Corvos. Pousados nos fios invisíveis da minha fraqueza. Esperando o momento certo de se banquetearem caso eu hesitasse.
Respirei fundo. Sequei os olhos, dei um gole na bebida que desceu ardendo, cortando o histérico efeito das sensações irracionais . Humilhantes, extremas, intensas...
“Não quero ser assim. Não sou e nunca fui uma tola sentimental. Afinal de contas, o que está acontecendo comigo?”
Essa era a grande questão, afinal...
Quando minha mãe tinha sumido eu era muito pequena. Nem me lembrava. Nunca tinha tido problemas com isso. Na verdade, não sentia nada por ela, sequer me importava. Não tinha como sentir a perda de algo que nunca tinha tido... Já o meu pai... Esse não passava de uma fotografia na minha escrivaninha durante o ano letivo, alguns poucos telefonemas e alguém que me enchia de presentes nos aniversários e Natais... Também fazia pouca ou nenhuma diferença se estava morto ou vivo, porque... o que eu sentia por ele era quase nada.
Então como, em que momento, porque Allison era... Apesar de tudo eu... Porque diabos eu ainda me importava?
O que ela tinha feito era total e absolutamente indesculpável.
No entanto, me parecia que a vingança seria algo que eu não iria saborear. Por que... ainda sentia um inexplicável calafrio por dentro cada vez que a olhava... Um insano e ridículo desejo de esquecer tudo e a tomar nos braços.
Eu a amava... Eu a odiava... Já não fazia diferença... Os dois sentimentos pulsavam juntos, inevitáveis como uma bactéria, vírus, doença... Seria o amor incurável? Haveria alguma forma de voltar a me imunizar?
Naquele momento, a impressão que eu tinha era que aquele doloroso desmoronar, irritante som do meu próprio coração rangendo não me abandonaria jamais...

Me recusei a passar a noite em claro. Liguei para Val. Que me trouxe uma caixa dos comprimidos que eu sabia que de vez em quando ela tomava – Rivotril, para ser exata – sem me perguntar nada.
Acordei no dia seguinte descansada, e depois de um banho demorado, e um almoço caprichado, eu estava pronta para enfrentar Allison.
Cheguei na revista pontualmente. Arlete me recebeu na porta do elevador, como sempre carregando a minha pasta. Caminhei direto para a sala de reuniões onde todos já me esperavam.
A diretoria sentada em volta da mesa, Allison de pé, com um nervosismo evidente. Na verdade, uma tensão quase palpável pairava no ar.
Atravessei a sala, quase sorrindo ao ver os olhos se arregalarem quando ao invés de sentar na minha cadeira, sentei do lado oposto da mesa gigantesca. Tirei os óculos escuros calmamente. Todos continuavam a me olhar. Que esperassem. Demorei um tempo antes de falar:
- Sente-se, Allison. Essa cadeira agora lhe pertence. Não se faça de rogada. Afinal de contas, você deu duro por ela, não é verdade?
Senti que Ali me olhava, mas não retribuí o olhar. Completei:
- Estamos esperando. Não temos a tarde inteira, sabe?
Sem uma palavra, ela caminhou até a cadeira e obedeceu. Com Ali finalmente sentada na cadeira que era minha por direito – eu não ia nem podia deixar barato – continuei:
- Como os senhores sabem, meu pai achou por bem que Allison passasse a dirigir as atividades desta instituição.
Aproveitei o murmurinho para debochar:
- Não percam tempo se questionando se meu pai perdeu completamente a razão ou simplesmente não conseguiu resistir aos... “talentos” da nossa mais nova funcionária. Isso realmente não interessa. Seja como for, a partir de hoje, a direção desta revista é de inteira responsabilidade da srta. Allison.
E de uma forma absolutamente sarcástica, puxei as palmas que todos acompanharam sem muito entusiasmo.
Allison se levantou, agradeceu, pediu a palavra... E fez um discurso que deixou meu estômago embrulhado. Sobre uma forma mais humanista de tratar os funcionários... Chegou a falar em “Liderança Servil”... Inacreditável!
A menina podia ser tudo menos burra, não é verdade?
Eu a olhava com uma expressão entediada. Mas ela evitava me olhar. Quando terminou, voltou a se sentar. E eu não pude deixar de falar:
- Que tocante... Seria perfeito se isso aqui fosse uma instituição de caridade...
Todos acompanharam minhas risadas. Allison me lançou um olhar absolutamente gelado. Continuei com um sorriso muito mais do que satisfeito:
- Por acaso você já leu “A alma boa de Setsuan”?
E como ela me olhasse de forma interrogativa, mostrando que não fazia idéia do que eu estava falando:
- De Bertold Brecht? Não?
Muito a contragosto, ela fez que não com a cabeça. Com um sorriso quase sádico de tão satisfeito, dei a cartada final:
- Pois então leia. Quem sabe assim entende o que estou dizendo... E aproveita para consertar essa sua... como eu posso dizer? Educação falha?
Todos riram novamente. Nossa, eu estava simplesmente adorando. Fácil como tirar doce da boca de uma criança. Até a criança abrir a boca e falar:
- Na verdade, Pamela, a educação moderna já não considera mais tão importante o acúmulo de informações... Nunca ouviu falar em inteligência emocional?
Levantei uma das sobrancelhas, enquanto a fuzilava com o olhar. Com um sorriso abusivamente irônico, Allison continuou:
- O psicólogo Daniel Goleman? Não?
Ela não me deu tempo nem de piscar:
- Bom, quem sabe eu possa contribuir um pouco mais para sua educação tão... antiquada?
Ninguém ousou rir com ela, verdade, mas... Era nítido que queriam. E só não o fizeram por medo de mim.
- Bom, Pamela, segundo o conceito de inteligência emocional, a maioria das situações depende do relacionamento entre as pessoas. Por isso pessoas com qualidades de relacionamento humano como afabilidade, compreensão e gentileza têm mais chances de obter sucesso.
Allison abriu um enorme sorriso. Que se dependesse de mim, não duraria muito tempo:
- Agradeço a sua... aulinha? Mas não temos tempo para isso. Você precisa assinar o contrato com nossos colaboradores franceses. Arlete, por favor...
Solícita e eficiente como sempre, Arlete colocou o contrato na frente de Allison, que após passar os olhos rapidamente na primeira folha, olhou para mim. O sorriso tinha desaparecido completamente do rosto dela. Na verdade, estava brilhando no meu:
- Que foi? Algum problema?
Os olhos castanhos me lançaram um olhar fulminante que fez com que fosse ainda mais delicioso completar:
- Por que não usa a sua inteligência emocional para ler? Ou ela não funciona em francês?
Me recostei na cadeira, esperando para ver o que a menina ia fazer. Allison parou, refletiu, e com um sorriso absolutamente gentil, pediu:
- Por favor, Arlete, providencie uma tradução.
Arlete continuou parada. Olhando para mim. Como se esperasse o meu aval. E eu? Nada fiz. Deixei a ação para Allison. Que depois de alguns segundos de hesitação ordenou, com um tom de voz bem menos suave:
- O mais rápido possível.
Uma Arlete muito pálida, com a voz quase sumida gaguejou:
- Si...sim, dona Allison.
E rapidamente saiu com o contrato nas mãos.
Naquele momento, tinha conseguido deixar claro que se Allison queria ser respeitada, não poderia ser amiguinha dos funcionários:
- Com o tempo, Allison, você vai perceber que num cargo de chefia ser boazinha não é uma qualidade.
Antes que ela pudesse responder, levantei, dizendo:
- Bom, acho que minha presença se faz desnecessária.
Saí da sala de cabeça erguida. Mas no fundo, de verdade, a pequena vitória apenas tinha conseguido deixar em minha boca um estranho e vazio gosto de... nada.

 

 

 

 

 

CAPITULO 36 - ALLISON

 






Voltei pra casa pensando em como o meu coração disparou quando a porta da minha ex sala se abriu depois que Léo foi embora. Eu estava encaixotando as minhas coisas e pensando no que fazer da vida quando Pamela me olhou daquela forma que me deixava completamente perturbada. Naquele momento eu não conseguia encará-la nos olhos. Sim! Eu estava envergonhada. Queria sair correndo dali. Dizer a ela tudo o que me sufocava naquele instante. Mas ela não me ouviria. Estava magoada demais para isso. Respirei fundo antes de tentar firmar o olhar novamente na direção dela. O que encontrei fez o meu corpo gelar, não de medo, mas de pavor. Sabe quando você percebe que o olhar daquela pessoa jamais mudou? Pois, é! Depois de Paris eu nunca pensei que veria novamente aquele olhar frio. Me cortando a alma em mil pedaços. Quando ela aproximou-se de mim. Minha pele queimou. Eu a desejava. A queria como jamais quis uma mulher em toda a minha vida. Eu a amava. Seu olhar ficou mais próximo, e mais frio. As palavras dela não saiam da minha cabeça durante toda a noite:

“- Quero que cale a boca e me ouça... Porque eu só vou dizer uma vez. Você vai voltar aqui amanhã às 14h, irá entrar naquela sala de reuniões... Assumir a presidência da “Gente Chique”, e eu vou provar pro meu pai, pra você e pra todos esses miseráveis que se dizem meus funcionários que você é incompetente para manter o cargo deles e a boa reputação dessa instituição. Entendeu?”

Tentei dormir, mas essas palavras me faziam revirar na cama. Eu chorava. Sofria. Gritava no silêncio da minha dor que me corroia a alma com exaustão. Meu estômago embrulhava todas as vezes que me lembrava dos momentos felizes que passei com Pam em Paris. Como o olhar dela havia mudado. A mulher parecia outra pessoa. Estava feliz. Seus lindos olhos azuis vibravam de alegria durante o tempo em que passamos naquela cidade iluminada pelo poder de despertar o amor no coração das pessoas. Hoje, ou melhor: ontem. Sim! Já passava das três da manhã e eu ainda me revirava nos lençóis. Bom, quando ela olhou pra mim, e me viu encaixotando as minhas coisas. Seu olhar era exatamente igual àquele que me fazia ter repulsa pela sua pessoa.
Passei a noite em claro. Sentia-me derrotada, deitada na cama sem ter a mínima vontade de me levantar, nem para escovar os dentes, ou lavar o rosto. Olhava o relógio na parede do quarto e via as horas passando com a sensação de que eu estava à espera de uma sentença de morte. Cochilei minutos antes do relógio despertar ao meio-dia. Levantei-me completamente contrariada. Querendo levar a cama nas costas, literalmente. Uma noite perdida, acredito eu que não recuperamos nunca mais. Caraca! Foi uma noite de cão. As lembranças de Pamela não me abandonaram um minuto sequer, e fora o fato de remoer o tempo inteiro a dor do arrependimento. Tomei um banho. Coloquei uma roupa não muito “esculachada”. Fui para a revista completamente mortificada.

Cheguei antes de Pamela. Todos na sala de reuniões me olhavam como se não acreditassem no que estava acontecendo. Quase pedi licença para ir me jogar da janela do décimo oitavo andar. Pamela, no mínimo me perdoaria ao saber que cometi suicídio por remorso, não é? Que nada! Ela teria o seu cargo de volta e ainda me enterraria como indigente.
Ela chegou. Linda! Exuberante no seu conjuntinho marrom de executiva bem sucedida. Eu estava de pé. Hesitava a me sentar naquela cadeira que sabia que não era minha. Disso eu tinha certeza. Pamela sabia se portar perfeitamente à frente daqueles corvos que procuravam alimento o tempo inteiro. Eu era apenas uma subalterna, como ela mesma gostava de definir. Ela sentou-se. A muito contra gosto eu me sentei também. Na cadeira da presidência. Senti imediatamente o peso daquela posição. A visibilidade daquele local me dava a sensação de exposição, e de fato era. Era assustador.

A reunião de posse começou fria, perturbadora, e irônica. Eu olhava para Pamela e percebia o quanto ela estava bem. Eu devia estar péssima, minhas olheiras estavam tomando conta da minha fisionomia, mas ela... Bom, Pamela aparentava ter tido uma noite tranqüila. Seu sarcasmo acentuado me passava a segurança que ela tinha, de que aquela fase de estar inferiorizada dentro da revista, seria passageira. Pamela até sorria. Se divertia ao me humilhar diante do conselho.

 Eles a apoiavam. Dava para ver nas caras irônica e no sorriso que ninguém escondia o quanto todos estavam contra a minha posse. Talvez se eu estivesse do outro lado, também ficasse receosa quanto a essa aparentemente loucura do Sr. Álvaro. Rebati as ironias de Pamela com uma citação a respeito de “Liderança Servil”. Ela sabia exatamente o meu ponto fraco, que era o meu despreparo para o cargo, mas eu também sabia o dela, que era o fato dos funcionários estarem a meu favor.


Nossas trocas de olhares denunciavam duas coisas: primeiro que eu estava tentando buscar dentro daqueles olhos azuis um pouco da humanidade que vi em Paris, e segundo, que aquela humanidade nunca existiu de fato. Pamela era uma casca. Dura, cheia de mágoas, rancores. Ódio mesmo, sabe? Ela não sabia amar. Amava o dinheiro e o poder como quem ama a Deus. Isso é lamentável num ser humano. Eu sofri ao admitir isso. Sofri ao cogitar a possibilidade de que ela precisava mesmo dessa lição na sua vida.

 

 Mesmo que ela não mudasse, mesmo porque, acho bem provável que ela nunca mude. No mínimo eu tinha o poder nas mãos de fazer justiça aos funcionários que ela reprimiu e maltratou por todos esses anos. A gota d’água foi quando ela tentou me diminuir por eu não saber uma palavra em Francês. Eu tinha que pensar rápido, não é? Arlete parada ao meu lado, olhava-me com pena. Por mais que ela quisesse que eu assumisse a Gente Chique. Ela sabia também que eu não tinha preparo suficiente pra isto. Pedi que a secretária providenciasse uma tradução para mim, a mesma ficou parada, olhando para Pamela como se perguntasse se podia obedecer ao meu pedido.

 

 Respirei fundo, Pam sorria pelo cantinho da boca. Não me deixei levar pelo ar de ironia exibido pelos olhos dela... Gentilmente pedi que Arlete providenciasse a tradução o mais rápido possível. A poderosa fitou-me triunfante ao dizer:
- Com o tempo, Allison, você vai perceber que num cargo de chefia ser boazinha não é uma qualidade.
Ela tinha razão! Se Pamela acha que me prejudicou ao dizer essa última frase, ela está muito enganada. Olhei para trás para vê-la sair da sala de reuniões. Era uma mulher extremamente elegante e sedutora. Dava pra sentir os pelos do meu corpo arrepiados só de vê-la caminhar. A porta se fechou com a saída dela. Cruzei os braços como quem não está nem aí para a presença dos que ficaram...


Arlete retornou a sala de reuniões quase uma hora depois que eu pedi uma tradução do contrato. Preciso urgente de umas aulinhas de Francês – pensei enquanto lia as folhas em Português. Os membros da diretoria continuavam me olhando com aquele ponto de interrogação enorme na testa.


- Obrigada , Arlete! – disse depois de ler o contrato traduzido e assinar as três vias do original

.
- Mais alguma coisa, do...na Allison? – disse hesitante. As palavras pareciam presas na garganta dela. Na verdade, soava muito esquisito aquele “dona Allison”.


- Não. A reunião está encerrada – disse aliviada. Os senhores e senhoras determinantes da revista se levantaram e como era de praxe ao final das reuniões. Vieram me cumprimentar pelo “novo cargo”. Um bando de puxa sacos achando ótimo a revista ter uma renovada como aquela. Aposto que estavam todos morrendo de medo de que os seus bolsos ficassem menos cheios com a minha chegada.
- Urubus – pensei. – Até logo – disse ao estender a mão para um e outro... Forçar um sorriso falso nos lábios e desejar profundamente que todo aquele tormento não passasse de um pesadelo.


Sr. Álvaro entrou na sala de reuniões assim que os membros do conselho se retiraram... Eu estava largada na cadeira desconfortável da presidência. Eu sei que deveria ter dito “confortável”, mas a primeira colocação é a que mais se aproxima da minha realidade.
- Gosta da cadeira? – tocou o meu ombro... Exibia um sorriso de satisfação.
- A sua filha vai passar por cima de mim como um trator. – coloquei as mãos no rosto desolada.
- Não vai, Allisson. – sentou-se na cadeira ao lado esquerdo – Você só precisa de um pouco de confiança. Mostre a ela o seu valor. Que tal começar resolvendo a questão do roubo das matérias?
- Nossa! – ajeitei o meu corpo na cadeira – Pensei muito nisso. Tenho um plano para descobrir, ou sabotar o fraudador.
- O que pretende?
- Ele quer o nosso furo de reportagem, não é? – sorri – Vamos dar a ele o furo de reportagem errado. Pensei em fazer tudo em sigilo.
- Não pode fazer isso sozinha. Precisa das matérias.
- É sabotagem, Sr. Álvaro. – levantei-me – A pessoa que está roubando as matérias só quer se antecipar a nós. Ou seja: dar a noticia de capa na nossa frente.
- A Pamela já teria pensado nisso... – balançou a cabeça negativamente – É fácil demais. Não vai dar certo.
- A Pamela depende de terceiros para fazer a capa. Ela não põe a mão na massa. Quando perdemos o furo de reportagens no mês passado, eu ajudei o Léo com um novo projeto e a matéria escolhida ficou muito melhor do que a original.
- Hum... Então você...
- Teremos dois projetos. Um que será publicado, e outro que será roubado.
- E você...
- Farei os dois.
- Excelente!
- Mas ela manda muito melhor do que eu.
- Não se preocupe. Com o tempo você saberá fazer com que os funcionários a vejam como merece.
- Não gosto de estar na pele da Pamela – percorri as fotos dela com os dedos... Tracei a linha dos seus lábios... Suspirei de saudade... - O senhor perdeu a reunião – sorri.
- Sabia que você precisava aprender a se defender dos ataques dela sem o meu auxílio.
- Vou aprender, Sr. Álvaro. Do jeitinho que a Pamela me ensinou – acho que eu estava mesmo muito magoada – Ela que me aguarde.

Depois da conversa que eu tive com o Sr. Álvaro, juntei as cópias dos contratos que eu assinei e voltei para a sala de Pam, digo, para minha sala. Incrível como é desconfortável estar naquela posição de poder dar ordens às pessoas.



 

 

 

CAPITULO 37- PAMELA

 



Caminhei até a minha sala - ou melhor: minha ex sala, com uma sensação estranha, que nunca tinha sentido antes. Me perguntando o que era aquele vazio que parecia me engolir por dentro.
Naquele momento, a impressão que eu tinha era que minha vida, quem eu era e tudo que sentia se resumia a uma cratera imensa. Inerte por fora, mas borbulhante por dentro. A lava fumegante espreitando o momento certo para ser cuspida.
Apoiei as mãos na mesa, olhando meu antigo lugar, a cadeira de onde eu tinha sido arrancada por minha própria estupidez e fraqueza...
- “Queria ver como seria se você tivesse desse lado da mesa.” – tinham sido as palavras de Allison dias atrás.
Antes de Paris e da minha humilhante... não... o passado que ficasse para trás... Afinal de contas, quem vive de passado é Museu... Como o Louvre... Meus pensamentos não me obedeciam... Imagens de Allison imediatamente pulsaram em minha mente, meu sangue, meu corpo inteiro...
Passei as mãos no rosto, numa tentativa vã de me conter. Precisava me manter concentrada no presente, para que o futuro não se tornasse ainda mais... Precisava me controlar.
Suspirei fundo, contornei a mesa, me sentei em meu antigo lugar. Abri as gavetas, retirei minhas coisas pessoais: uma agenda e algumas pastas. Estava tão concentrada que nem percebi a porta se abrir.
Fui completamente pega de surpresa ao levantar os olhos e dar de cara com Allison parada de pé na minha frente.
O inesperado, somado aos sentimentos incontroláveis não me permitiram disfarçar. Meu olhar me traiu buscando o dela de uma forma absolutamente frágil, vulnerável, quase suplicante. E ela percebeu, porque de repente, os olhos castanhos perderam o brilho desafiador e passaram a me fitar com uma suavidade desconcertante... Com a doçura apaixonada de dias atrás... Arrepiei, estremeci, fraquejei vergonhosamente... O coração batendo como louco no peito, como se quisesse me delatar...
Até Allison se aproximar. Não me lembro de jamais ter me levantado tão rápido em toda a minha vida. Muito menos de alguma vez ter me afastado de alguém com o pavor indesejado de quem está ciente que fugir é a única forma de se controlar.
Caminhei até a porta, e antes de abri-la, sem me virar para a encarar novamente, disse:
- Vou mandar Arlete providenciar a retirada das minhas coisas o mais rápido possível.
A resposta de Allison soou irritantemente tranqüila:
- Não precisa.
Tentei inutilmente conter a ira:
- O que você quer dizer com “não precisa”?
Numa virada inédita e inacreditável, ela tinha o domínio do jogo:
- Você não vai sair daqui.
Me virei para Ali, meu olhar expressando uma gigantesca interrogação, tanto que ela imediatamente completou:
- Já que vamos ser uma dupla, nada melhor do que dividirmos a sala, não concorda comigo?
- Isso é ridículo! - saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. – Roubar...
“ Minha vida, minha vontade, minha alma...” - pensei.
– ... meu cargo... – disse tentando não demonstrar o quanto aquilo me perturbava – não é suficiente para você? Não tenho sequer o direito de ter minha própria sala?
Minha preocupação naquele momento era como sobreviver à tortura que seria trabalhar com Allison o dia inteiro ao alcance dos olhos, das mãos, dos lábios...
O que para mim seria o inferno em vida, para ela parecia não significar nada. Allison respondeu sorrindo:
- Prefere ficar na minha antiga sala?
- Naquela sala minúscula? Isso é simplesmente... insultante no mínimo!
Ela se aproximou de mim. Minha revolta era tão grande que só percebi quando as mãos dela me puxaram pela cintura e já era tarde demais para resistir:
- Você não parecia pensar assim quando a sala minúscula era minha.
Ela falou, mas quase não ouvi. Não conseguia prestar atenção, meu corpo e mente inteiramente hipnotizados pelo estranho fascínio que era a respiração quente dela sussurrando em meu ouvido. E pela boca que se aproximou lentamente da minha.
Fechei os olhos, antecipando o prazer do beijo que desejava intensa e desesperadamente, apesar de me odiar por isso. O hálito quente me causando arrepios antes mesmo dos lábios roçarem nos meus...
Então a porta se abriu, e o momento foi interrompido. Nos afastamos num salto, olhando juntas para uma Arlete sem a menor noção do quanto havia sido feliz em me salvar do estado momentâneo de esquizofrenia.
Ali trocou algumas palavras com ela, parecendo... Irritada? Tensa? Insatisfeita? Em se tratando de Allison, eu não arriscava mais achar que compreendia.
Me agarrei com todas as forças à razão que teimava em fugir. Peguei minhas coisas, e sem olhar para trás, saí da sala e da revista. Sem forças para continuar o embate... Pelo menos naquele dia.

- Pamela, meu bem... Relaxa...
A frase de Penélope era uma tentativa de melhorar meu estado de espírito? Ou mais uma ironia da minha vida em ruínas?
Fosse o que fosse, meu senso de humor tinha desaparecido. Assim como a minha libido. Aquilo nunca tinha acontecendo comigo. Pelo contrário, eu me orgulhava de conseguir gozar até com uma porta... Mas não naquele dia.
E Penélope tinha tentado, de todas as maneiras possíveis. Meu corpo respondia, lógico. Mas... era como se um estranho distanciamento separasse minha carne do espírito...
Tentei então usar a imagem de Allison, fingir que era ela que me acariciava, me tocava, me excitava... E foi pior, muito pior. Como ter a pele rasgada, fustigada pelo chicote da saudade e da perda...
Foi quando finalmente pedi:
- Para. Chega. Não adianta, não consigo.
E uma Penélope sem entender nada obedeceu. Ficamos deitadas lado a lado, dividindo um silêncio constrangedor que pareceu infinito.
Até ela se sentar e sugerir, parecendo verdadeiramente preocupada comigo:
- Quem sabe se você me contar eu possa ajudar?
Minha primeira reação foi negar. Tinha vergonha de pensar, sentir... Mais ainda de confessar os obscuros movimentos das minhas emoções ridículas.
Mas Penélope insistiu:
- Vamos lá... desabafar vai, no mínimo, te dar um pouco de alívio.
Continuei deitada, olhando para o teto. E incrivelmente, as palavras começaram a sair. Timidamente de início, e depois como uma avalanche impossível de ser contida.
Quando finalmente terminei, Penélope me fez uma única pergunta:
- E o que você quer realmente?
Aquilo me pegou de surpresa. E me fez voltar ao ringue onde minhas emoções duelavam. Numa luta que eu não fazia idéia de como e quando ia ter fim.
- Eu não sei. Shit!
Respondi com uma estranha sinceridade. Perdida de verdade. E Penélope se propôs a me ajudar:
- Tive uma idéia genial! Vou te apresentar uma pessoa. Que tal?
- Se você acha que me apresentar uma pessoa é uma idéia genial, não deve ter ouvido nem entendido nada do que eu falei.
Penélope riu e disse:
- Calma! Não tire conclusões precipitadas, minha cara.
- Eu acho melhor...
- Apenas confie em mim.
Não tinha nada a perder mesmo. Acabei dizendo sim.

Eu estava sentada com Penélope num dos restaurantes mais caros e sofisticados da cidade. Esperando por... não sabia, o mistério continuava...
Foi quando um moreno de cabelos negros e olhos profundamente azuis - lindo, elegantíssimo, verdadeiro pedaço de mau caminho - caminhou até nós, ignorando altivamente os olhares de admiração que o acompanhavam.
Ele cumprimentou Penélope, e depois se virou para mim, esperando ser apresentado. No que foi prontamente atendido:
- Alan, Pamela. Pamela, Alan. Vocês dois foram feitos um para o outro. Podem acreditar...

Quando Penélope terminou de falar, meus olhos brilhavam. Impossível ter outra reação diante de um plano tão diabolicamente maquiavélico.
- Penélope, quero morrer seu amigo!
Foi o comentário de Alan, com o qual concordei em gênero, número e grau.

Duas semanas se passaram numa rapidez incrível. Os dias, assim como meus sentimentos, pensamentos, minha vida, eram agora um poço de dualidades.
Trabalhar ao lado de Allison era um tormento. Gastava minha energia inteira alimentando uma raiva que se diluía cada vez que ela sorria para mim.
Por um lado tentava fazer o mínimo possível, para não facilitar em nada o trabalho da nova direção. Coisa difícil, quase impossível para alguém de iniciativa como eu. Tinha uma vontade quase compulsiva de solucionar rapidamente questões que Ali, na sua inexperiência absoluta levava horas para resolver.
Por outro, me controlava para não me sentir feliz nem orgulhosa quando ela acertava – e me surpreendia – com idéias e mudanças quase brilhantes. Talentosa ela... Inteligente de fato... Não, nada disso... Absurdo pensar sobre Ali de outra forma que não fosse... Eu continuava enfeitiçada pela mau caráter desleal! Merde!
Exatamente por isso todas as noites saía com Alan. Para os lugares mais badalados, fazendo questão de chamar a atenção – não que para isso precisássemos nos esforçar – e sermos sempre fotografados.
Alan era uma companhia extremamente agradável. Lindo, rico, culto, charmoso, elegante, sofisticado, divertido e... totalmente viado.
O que fazia com que o plano de Penélope fosse ainda mais perfeito. Sim, porque... semanas atrás, antes da maldição que tinha devastado minha vida, seria um prazer ir para cama com quem quer que fosse. Mas naquele estranho momento - que eu esperava que passasse rápido - ficava aliviada por estar livre de qualquer tipo de assédio da parte de homens e mulheres.
Nosso acordo era simples. Eu fazia fachada para que o pai parasse de pegar no pé dele e para que todos os boatos que circulavam sobre a vida – não muito regrada – dele parecessem infundados.
Quando Alan queria sair com alguém convidávamos Penélope. Assim aos olhos de todos – as pessoas são completamente idiotas mesmo – éramos dois casais heteros jantando, nos divertindo na boate. Não imaginavam que no motel, no apartamento dele, de Penélope ou na minha casa, era em dois casais do mesmo sexo que nos separávamos...
Quanto a Penélope e eu... Depois da última tentativa de sexo fracassada, acabamos nos tornando amigas. E ela parecia não se importar com minha eterna ladainha: Allison. Falava sobre ela a noite inteira, sem parar. Às vezes com raiva, às vezes carinhosamente. Depois ficava calada, com o olhar triste e perdido. Penélope então se aproximava, me abraçava ou beijava, e sentenciava:
- Pamela, minha querida... Infelizmente você continua apaixonada...
E eu não tinha como negar.
Aos poucos aconteceu o inesperado: Alan também se tornou um grande amigo. Amizade era algo que eu nunca tinha experimentado. Além de Val – que era mais uma companheira de sacanagem – antes de Penélope e Alan eu nunca tinha tido amigos de verdade. Que me aceitassem e admirassem como eu era, compartilhassem meu humor ácido, e principalmente não quisessem me mudar. Exatamente o contrário de Allison e meu pai.
Esse era outro que passei a achar abominável. Andava pela revista todo satisfeito, se divertindo com o novo brinquedinho – me doía ver a intimidade dele com Allison – e com a humilhação que eu era obrigada a suportar.
Quando os via juntos, meu sangue fervia. Tinha vontade de gritar. Ainda não entendia, nem conseguia acreditar que Allison tivesse me trocado por...
Mas tudo bem. Os dois não perdiam por esperar.

Eu tinha acabado de receber o relatório mensal dos funcionários. O resultado me fez exultar:
- Você já deu uma olhada nisso, Ali?
Allison levantou os olhos, me fitando por trás da pilha de papéis em cima da mesa dela. Com um olhar indescritível. A definição que mais se aproximava era: exasperação desesperada.
Sorri por dentro. Adorando aquele momento. Ela que se matasse de trabalhar. Que descobrisse com muito sofrimento que ocupar o meu cargo não era fácil como pensava. Continuei:
- Os funcionários dessa revista nunca faltaram tanto. A quantidade de atrasos também é inaceitável. É isso que dá essa sua idéia absurda de “liderança servil”. Eles são como crianças, Ali. Vão te testar. E se você não tiver pulso firme vão se aproveitar.
Ela ia balbuciar algo, quando o telefone interno tocou na minha mesa. Atendi sem voltar a me sentar. Era Arlete, dizendo:
- Dona Pamela, é o senhor Alan. Veio buscar a senhora para almoçar.
Allison me olhou espantada. A coisa toda correndo muito melhor do que eu esperava, porque... no fundo dos olhos castanhos pude ver um leve ardor enciumado brilhar.
Alan entrou, maravilhoso e perfeito como sempre. Se aproximou de mim, e com as mãos na minha cintura, colou meu corpo no dele e me beijou nos lábios. Correspondi com os braços enlaçando o pescoço dele, numa imitação irrepreensível de paixão e entusiasmo...
Quando nos separamos, Allison continuava sentada, paralisada no mesmo lugar. Sem conseguir desviar o olhar. Lancei meu sorriso mais irresistível e provocante ao apresentar:
- Alan, Allison. Allison, Alan. Meu namorado.

 

 

 

 

 


CAPITULO 38 - ALLISON


Eu estava com o relatório mensal dos funcionários da revista nas mãos quando Arlete anunciou que um tal de... De... Alan queria falar com a poderosa. O cara entrou no minuto seguinte a ser anunciado. Quem seria aquele idiota que... Que... Beijou Pamela nos lábios e foi correspondido com uma intimidade que fez o meu estômago revirar inteiro? Continuei com os papeis nas mãos. Olhando-os como se aquela cena fosse surreal demais para a minha fraca inteligência. Os problemas naquela revista pareciam intermináveis. Agora eu estava diante do balanço mensal dos funcionários, o mesmo completamente fora do padrão de assiduidade que a empresa exigia e, ainda tinha que olhar para aqueles dois se beijando. Balancei a cabeça negativamente. Arlete ficou olhando na minha direção como se me pedisse para fechar a boca. O beijo terminou. Mas pareceu durar uma infinidade.
- Alan, Allison. Allison, Alan. Meu namorado.
Aquela apresentação fez minha cabeça dar um giro de trezentos e sessenta graus. Não consegui me mover até ele. Apenas balancei a cabeça num cumprimento.
- Vou almoçar – como ficamos em silêncio, Pamela continuou a falar, olhando-me com aquele ar de riso que muito me incomodava – Não tenho hora pra voltar. Só preciso da minha bolsa. – disse caminhando em direção a outra mesa que eu pedi que colocassem naquela sala.
- Vou te esperar lá fora, amor – ouvi o homem da voz aveludada de locutor de rádio dizer a ela antes de sair.
Pamela fez que sim com a cabeça e procurou a bolsa que estava pendurada na cadeira. Confesso que quando a ficha caiu, eu fiquei completamente desesperada. Pamela não podia estar namorando com aquele... Aquele... Engomadinho! O cara parecia um viado de tão bem cuidado. Fiquei na dúvida se naquele rosto não tinha um pouco de maquiagem. Brincadeira, não tinha. Ele parecia tão elegante que eu precisava achar um defeito. Naquele momento, o meu desespero me cegou. Corri até Pamela antes que ela passasse pela porta... Segurei firme o seu braço esquerdo fazendo-a virar-se para mim. Encarei os seus olhos azuis. Ela me olhou como quem quer me fazer uma pergunta ou dissipar algumas dúvidas. Não sei ao certo, só sei que eu estava em pânico diante da possibilidade, ou melhor, da certeza de vê-la nos braços de outra pessoa.
- O que você ta fazendo com esse cara? – perguntei num impulso.
- Ele é meu namorado, oras! – respondeu fria, com aquele olhar de superioridade que fazia com que ela erguesse uma das suas sobrancelhas.
Não resisti aquele olhar que me deixava deveras excitada. Puxei-a para mais perto de mim. Encarei profundamente os seus olhos. Visualizei os seus lábios que entreabriam para dizer algo... Eu a queria. A desejava. Precisava beijá-la como quem precisa de ar para respirar. O perfume de Pamela fazia meus instintos aflorarem. Meu olhar me entregava a ela completamente. Eu estava frágil. Desprotegida. Temia perdê-la mais do que já havia perdido. Não soltei os seus braços. Foram segundos apenas. Aproximei meu corpo do dela. Nos encaramos sentindo a chama de desejo emanando desesperadamente de uma pele para a outra sem nenhuma explicação que justificasse aquele momento em que eu tentava aproximar meu corpo, e da reação dela que foi me ouvir, sem afastar-se um centímetro sequer de mim.
- Não pode namorar esse cara – minha mão estava presa na sua nuca. Nossos olhos sem desviar um do outro. – Preciso... Preciso... – apertei meus dedos na sua nuca. Puxei-a em seguida, aproximando os nossos lábios. Tive a doce ilusão de que ela também queria me beijar e, fechei os olhos ansiando pelo beijo que foi interrompido bruscamente pela voz rouca daquele homem repugnante que parou atrás dela e disse:
- Estou te esperando, querida.
Pamela me empurrou como se não soubesse onde estava, nem o que estava fazendo. Senti minha face corar de raiva. Involuntariamente olhei-o da cabeça aos pés tentando encontrar um defeito naquela criatura que parecia... Perfeita! Corroí-me por dentro ao admitir que ele combinava demasiadamente com ela.Vi os dois se distanciando da sala. Arlete estava no corredor ao lado da porta.
- Trouxe uns papéis para você assinar, Allison! – ergueu uma pilha deles – Mas não se preocupe, pode ser quando você voltar do almoço.
- O quê? – tentei voltar para a realidade, no entanto, a visão de Pamela beijando o engomadinho me deixou completamente perturbada.
- Depois que a senhora voltar do almoço pode assinar essa papelada – repetiu.
- Eu... Eu... – as palavras fugiram da minha cabeça – Não vou almoçar. Estou... Sem fome – disse tirando das mãos dela a pilha de papéis para assinar. Caminhei de volta a minha mesa. Minha cabeça doía. Um mal súbito me abateu de repente.
- Está se sentindo bem, Allison?
- Não! – virei-me de frente para ela – Pode providenciar um analgésico pra mim?
- Claro! Vou fazer isso imediatamente. – disse e já ia saindo da sala quando chamei-a novamente.
- Um não Arlete. Dois. Por favor! – sentei-me na cadeira, ou melhor: joguei-me na cadeira e fiquei olhando para a papelada na minha frente sem conseguir entender uma só palavra do que estava escrito. Engraçadinhas, não havia nada escrito em francês, era português mesmo, mas a minha atenção estava dispersa. Fiquei remoendo o beijo, e o fato de Pamela ter ido almoçar com o seu... O seu... Namorado? Não! Isso não pode estar acontecendo! Coloquei as mãos nos meus cabelos como se quisesse arrancá-los. Eu realmente não iria agüentar ver a mulher que amava nos braços de outro.


Pamela retornou à revista depois das cinco da tarde. Eu não havia conseguido assinar um papel sequer. Na verdade, o dia havia sido uma merda. Improdutivo. Os trabalhos se acumularam de tal forma que eu já estava me programando para chegar amanhã mais cedo na revista. Vocês tinham que ver a cara de felicidade dela. Eu parecia invisível, sim porque ela nem olhou na minha direção. Logo que Pamela sentou-se em sua cadeira. O seu telefone tocou. Ela atendeu toda derretida. Na certa era o engomadinho que estava do outro lado da linha. Levantei-me imediatamente da minha cadeira. Peguei as pilhas de papéis que estavam na minha mesa. Parei na frente dela. A mulher me ignorou como se eu fosse uma sombra na sua frente.
- Quero falar com você! – disse ríspida. Pamela pediu um minuto a quem estava falando. Tapou o telefone com uma das mãos. Ergueu uma sobrancelha tentando me intimidar.
- Deixa de ser mal educada. Estou ao telefone, não está vendo?
Apoiei minhas mãos na sua mesa. Estava brava, ou seja: fora de mim.
- Desliga! Você extrapolou a sua hora de almoço, sabia?
A mulher ergueu a face para me encarar de frente, depois levantou-se furiosa. Colocou o fone no ouvido...
- Te ligo daqui a pouco, amor! – desligou o telefone e jogou-o em cima da mesa. Deu a volta na mesma... Parou na minha frente. - Quem você pensa que é para controlar o meu horário de almoço?
- Eu? – fixei o meu olhar no dela – Sou a presidente dessa revista, e a partir de hoje quem não cumprir os horários será descontado, dispensado no dia ou simplesmente demitido, dependendo do meu humor.
Ela soltou uma gargalhada irônica. Tranquei a cara mais ainda.
- Você, Ali? – apontou o dedo na minha cara – Os funcionários não te obedecem, isso aqui virou a casa da mãe Joana!
Uma raiva subiu pelas minhas pernas e alcançou rapidamente a minha cabeça. O pouco controle que eu tinha se esvaiu completamente. Sem pensar, puxei Pamela pelo braço, passei a mão no relatório mensal dos funcionários e conduzi-a em passos largos até que chegássemos na redação da revista. Ela tentou argumentar, no entanto, eu pedi silêncio. Quando nós paramos no centro do salão, todos pararam de trabalhar. Nos olhavam com curiosidade, provavelmente se perguntando o que nós queríamos com eles.
- Quem estiver no telefone desliga, agora! – disse com o tom de voz grave. Eu mesma não me reconhecia naquele instante. Os poucos que estavam indiferentes a nossa presença se voltaram para nós. Os telefones começaram a tocar – Deixem tocar! – disse firme. Eu realmente não estava pedindo, e sim, mandando. Olhei na carinha de cada um deles... Ergui o relatório mensal acima da minha cabeça. – Essa é uma reunião informal para avisar aos senhores, e senhoras... – disse quase irônica – ... Que a partir de amanhã. – frisei o amanhã - Se esses números não se estabilizarem para 100%, teremos uma reformulação no quadro de funcionários, ou seja: cabeças vão rolar sem dó nem piedade, deu pra entender? – respirei fundo, eu estava montada no dragão do diabo, como diria minha falecida avó – todos os atrasos serão descontados, as faltas não serão abonadas, e aqueles que tiverem nessa lista com mais de duas faltas injustificadas, podem saber que já estão advertidos. E essa lista – ergui o papel novamente – É a minha lista negra. Acabou o recreio, entenderam? Quem não quer trabalhar, pode passar no DP e pedir demissão, ou me fala que eu demito imediatamente. Alguém aqui, nesse momento, quer que eu assine a demissão?
Todos ficaram quietos me olhando com curiosidade. Inclusive Pamela.
- Muito bem – continuei – Se estão todos satisfeitos. Espero que me compreendam e me poupem das advertências e demissões. Podem voltar ao trabalho.
Segurei novamente no braço de uma Pamela completamente surpresa. Retornamos até a sala. Soltei-a.
- Bravo, Allison! – disse irônica enquanto me aplaudia. – Parecia comigo falando. Entende agora que não dá pra ser amiguinha deles? Existe uma hierarquia que tem que ser respeitada.
- Olha aqui... – segurei novamente nos dois braços dela. Meu corpo já pegava fogo. Ela me irritava. Ela me excitava. Eu a odiava por estar saindo com aquele engomadinho, mas eu a amava intensamente. Demasiadamente. E sentia saudade daquela boca, daquele corpo... Queria me perder no perfume do seu pescoço. Do seu gosto delicioso de mulher. Ela me encarou. Desafiando-me com aquele olhar provocante e azul. Meu Deus! Como era linda aquela mulher! – Você também está na minha lista negra, Pamela! – disse enquanto sentia o hálito da poderosa bater no meu rosto. Os seios dela encostaram nos meus assim que eu a puxei novamente. Minha coxa estrategicamente pousou no meio das suas pernas e, o seu corpo estava encostado na sua mesa impedindo que ela desse algum passo para trás.
- Enlouqueceu, Allison! – fitou os meus lábios – Surtou, é?
Agüei de desejo naquele momento. Queria beijá-la, sentir o gosto doce da sua saliva na minha boca.
- Quer almoçar com o seu namoradinho? – puxei-a um pouco mais. Agora os seus seios estavam esmagados nos meus e a minha calcinha molhada dava sinais de descontrole – Pode ir, mas terá que voltar no horário, entendeu?
- Me... Solta!
- Gosta de intimidar as pessoas, não é? – disse rancorosa – Gosta de mandar e desmandar... Exercer o seu poder! Como se sente diante de alguém que pode mandar e desmandar em você Pamela?
- Enlouqueceu, menina?
- Sim! – aspirei o cheiro do seu pescoço, beijei-o em seguida. Suguei a sua pele quase marcando-a. Ela se debateu, mas quando eu pressionei minha coxa no meio das suas pernas, Pamela gemeu. Daquela forma deliciosa que só ela sabia. O calor tomou conta da minha carne. Eu a desejava com intensidade, ansiava por um contato maior. Rocei meus lábios nos dela enquanto a olhava e terminava de falar – Daqui pra frente, vou dançar conforme a música. Se todos querem ser mandados. Eu vou mandar, viu?
- Me solta!
- Claro! – capturei seus lábios com vontade. Suguei sua língua que invadiu a minha boca ansiosa. Deliciosa. Deixando claro que me desejava também. Ela podia me odiar, mas seu corpo era feito para o pecado. Para o prazer, e Pamela não resistia a nada que a aproximasse de uma boa trepada. Seja com um amigo, namorado, ou inimigo, no caso, eu! Beijei-a fervorosamente. Minhas pernas ficaram bambas, minhas mãos que seguravam os braços dela suavam frio. Meu coração disparava de amor. Mas o ódio por tê-la visto aos beijos com outro me cegava. Eu queria feri-la. Soltei-a bruscamente. Retirei a minha coxa do meio das suas pernas... Tentei me manter fria e voltei até a minha mesa. Sentei-me na cadeira. Meu sexo estava encharcado. Minha cabeça em curto-circuito, mas eu queria que ela pensasse o contrário. Respirei fundo.
- Estamos entendidas?
- Acha que pode fazer isso? – parou de frente a minha mesa afrontada. Uivando como uma leoa. Seu olhar me dilacerava a alma. Me mantive fria ao dizer:
- Quem manda aqui sou eu, lembra? – sorri irônica – Você me usou tanto na sua época, agora é a minha vez, Pam!
- Você não...
Levantei-me rapidamente. Caminhei até a porta... Girei a maçaneta, antes de sair...
- Vou pra casa. É tão bom não ter que cumprir horários. – disse e bati a porta ao fechá-la. Acho sinceramente que Pamela ficou tão surpresa com as minhas últimas atitudes que não teve reação.




Parte 5

 

 

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