DEZ COISAS QUE ODEIO EM VOCÊ - 3

 


CAPITULO 23 - ALLISON


Sentei na minha cadeira, ou melhor: joguei-me na minha cadeira. Bati na mesa a minha frente duas vezes. Doeu, viu? Eu queria morrer, sabe? Queria sair correndo daquela merda de prédio e parar no primeiro boteco para encher a cara. Elevei as minhas mãos para jogar os meus cabelos para trás... Ao fazer esse gesto, senti o cheiro de Pamela. Ela me inebriava. Deixava o meu lado racional adormecer no desejo que aquele corpo me consumia. Eu queria mais que sexo com a poderosa. Mas sabia perfeitamente qual era o meu lugar. Uma mulher como Pamela não se apaixona por ninguém. Eu quem sou uma idiota sentimental, não é? Sim, eu sei! Vocês não precisam ficar jogando isso na minha cara. Eu preciso juntar os cacos do meu amor próprio e parar de sentir pena de mim. Afinal de contas, eu procurei por isso, não é mesmo? Quem mandou aceitar o cargo de assistente dela? Quem mandou eu sentir esse desejo incontrolável por aquela mulher fria e sem coração? Quem mandou eu ter um coração dentro do meu peito que bate por ela como nunca bateu por mulher nenhuma? Ao final desses pensamentos eu levantei-me... Saí da sala... Passei pelo corredor... Estava indo em direção ao banheiro quando senti alguém puxar o meu braço e me jogar dentro de uma sala. No susto, e com a minha distração, não consegui identificar quem me puxou, muito menos em que sala eu estava.
- Caramba, Léo! – disse quase num grito.
Ele trancou a porta...
- Allison... Eu não te vejo mais. Você viaja e nem me avisa... Só fica trancada na sala que faz fronteira com a da cascavel; anda abatida... Visivelmente não está comendo, pelo menos não está comendo comida, né gatinha?
- Vou voltar pra minha vida, cara! – disse de imediato.
- O que quer dizer com voltar pra sua vida? – fitou-me desconfiado.
- Não quero mais saber de ficar correndo atrás da Pamela, digo, da dona Pamela! – corrigi-me imediatamente. Agora eu a trataria desta maneira. Ela não queria que eu fosse profissional? Então, eu seria!
- Ai amiga! Eu daria tudo para arrancar de dentro do seu coração essa dor que estou vendo dentro dos seus olhos.
- Eu mesma vou arrancar essa dor daqui de dentro, Léo! – disse apontando na direção do meu coração.
- Hum... – pensou por uns instantes – Eu não ia te contar... Mas...
- Desembucha, bicha! – quando Léo fazia aquela cara, era sinal de que sabia de alguma fofoca que ele estava se correndo para contar.
- Bom... A Duda me disse que encontrou a Pamela em uma boate GLS nesse fim de semana – despejou de uma só vez – Ufa! Contei – disse aliviado.
- Ãh? – firmei o olhar. O que a Pamela estava fazendo em uma boate GLS no fim de semana enquanto eu estava em casa pensando nela? – Sabe dizer se ela estava sozinha?
- Pela descrição da Gaby... – Hesitou... Ergui a sobrancelha para que ele continuasse... - Ela estava com a fresquinha da Penélope.
- Claro! – pensei um instante – Por isso elas estavam juntas hoje – disse e balancei a cabeça negativamente – Sou uma idiota, não é? Você viajou com o seu namorado, e eu fiquei o fim de semana inteiro sem conseguir tirar aquela... Aquela... Cachorra da minha cabeça! – disse com raiva.
- Olha, Ali! Você disse que vai retomar a sua vida. Acho que já está mais do que na hora de você virar o jogo, entendeu? A Pamela não é mulher pra você, e já deixou isso bem claro.
- A Gaby também não era mulher pra Duda... – disse num impulso. Será que eu queria me iludir mais uma vez? Não! Eu não posso me iludir!
- É, mas a Gaby amava a Duda, e a Pamela não te ama!
- Tá certo e... Eu também não sou persistente como a Duda... Por isso, vou parar de viver em função dessa dona Pamela de uma vez por todas!
- Como diz a Ana... É isso aí! – Abraçou-me carinhosamente, mas antes de sentir as suas mãos me envolvendo... Soltei-me dos seus braços porque o meu telefone tocou. Sorri ao ver quem era...
- Duda! – disse ao Léo antes de atender – Alô! – atendi.
- Oi, Ali! Você tá bem? – já sabia que o nosso amiguinho deu com a língua nos dentes.
- O Léo já me contou as novidades. E então, como foi dar de cara com a Poderosa?
- Caraca, Ali! É a maior gata essa Pamela, hein? Já tinha visto a mulher nas revistas, mas assim... Pessoalmente foi muito melhor.
- Animadora, hein?
- Eu conversei muito com a Gaby essa noite...
- Vocês conversam a noite, é? – brinquei.
- Claro, pô! Bom... Apesar de tudo acho que você não deve desistir dela... A Gaby também acha.
- Tarde demais! Já desisti... Agora quero sair, conhecer gente nova. Me apaixonar por alguém de verdade, sim porque a dona Pamela é completamente irreal pra mim.
- Putz! – fez uma pausa – Está certa disso? Se envolver com outra pode não resolver nada.
- Quero alguém de verdade, só isso!
- Olha, posso te apresentar alguém. Quer?
- Quem?
- O Dan tem uma amiga chamada Camila, ela é louca, mas a menina é legal, sabe?
Sorri... A Duda fez faculdade comigo. Ela fazia Ed. Física e eu Jornalismo. Nos encontrávamos quase sempre na faculdade. Ela sempre enrolada com a paixão cega, dominadora e persistente pela stripper, que pelo amor de Deus! É uma morena de tirar o fôlego de qualquer uma, embora eu prefira mil vezes a Pam, quer dizer: preferia.
- Amiga do Dan, é? – desconfiei, o irmão da Duda é uma figura.
- Ela é... Gostosa – disse com aquele tom de voz engraçado.
- Vou pensar nessa possibilidade, viu? É que ser amiga do Dan deixa o currículo da menina meio sujo, entende?
- Entendo sim – sorriu – Se precisar de alguma coisa me liga, faz sinal de fumaça, ou grita que eu apareço, tá?
- Valeu Duda. – fiquei em silêncio antes de continuar a falar – Tô deprimida. Vou pedir pra Gaby dançar pra mim, pode? – sorri.
- Quer morrer, é? Esse papo tá ficando muito entediado. – disse irônica - Tchau Ali. Se quiser aparecer na academia, ou na boate... Estaremos te esperando.
- Beleza! Tchau – disse e desliguei.
Léo estava esperando que eu me pronunciasse...
- Preciso conhecer umas garotas – disse meio sem jeito.
- Isso vai resolver alguma coisa? – questionou Léo.
- Preciso de ar, oras! – caminhei até a porta – A Pamela não tem a Penélope?
- E o mundo inteiro aos pés dela... – completou cruel – Você precisa de um choque de realidade amiga! Nada pessoal, tá? – mandou um beijo na minha direção.
- Bom trabalho, Léo! – disse desanimada enquanto abria a porta e voltava para o corredor onde fui abruptamente abordada pelo meu amigo. Caminhei até o banheiro... Entrei... Havia duas revisoras retocando a maquiagem de frente ao espelho. Elas conversavam animadamente e nem se importaram com a minha presença... Tentei não prestar atenção no que elas diziam enquanto lavava as minhas mãos, mas a minha atenção foi presa ao ouvir uma delas dizer:
- A chefona tava se esfregando com uma mulher na balada gay.
- Eu soube! – disse a outra – Parece que ela está tendo um caso com aquela morena que tem vindo aqui na redação. Que pouca vergonha, não acha?
- Ela tem dinheiro... Popularidade... Fama... Ou seja: ela pode tudo – riram enquanto continuavam me ignorando.
- Ela pode tudo... – pensei. Enxuguei minhas mãos no papel toalha e saí do banheiro revoltada. Aquelas fofoqueiras acabaram ainda mais com o meu dia. Retornei até a minha sala e comecei a tentar analisar alguns relatórios que acabaram acumulados devido à viagem. Juro que tentei me concentrar, mas a raiva que eu estava sentido por Pamela fazia revirar o meu estômago, e perder toda a minha competência e criatividade. Estava distraída... Pensando com o lápis dentro da minha boca. O telefone tocou... Tomei um susto...
- Oi Arlete – disse assim que identifiquei o ramal.
- A dona Pamela está te esperando dentro de vinte minutos na sala de reuniões.
- Reunião? Assim, do nada?
- É assim, do nada – disse sorridente.
- Beleza. – disse seca... fria... Completamente desanimada.
- Está tudo bem, Ali?
- Está sim, Arlete. Obrigada.
- Se precisar de alguma coisa. Sabe onde eu estou.
- Sei sim. Obrigada. – coloquei o fone no gancho pensativa. Sempre que havia uma reunião, era a própria Pamela quem me comunicava. O que mudou dessa vez? – pensei.

Entrei na sala de reuniões cinco minutos antes de todos... Olhei o projetor a postos... passei pela cadeira que a poderosa se sentava... Nesse instante, no momento em que eu deslizava as mãos pelo encosto da cadeira dela, a porta abriu. Olhei imediatamente para ver quem era...
- Pamela – disse quase num sussurro. Ela estava segurando uma pasta de couro marrom. Ao ver-me, caminhou na minha direção e parou na minha frente...
- Pensei que não tivesse chegado ninguém – disse enigmática.
- Essa reunião às pressas... Aconteceu alguma coisa? – perguntei sem conseguir desviar meus olhos da direção dos dela. Aqueles olhos azuis quase me cegavam... Minhas pernas teimavam em ficarem trêmulas, e minhas mãos suavam frio. Tão frio quanto o meu coração estava naquele momento.
- Estamos com um pequeno problema – disse ao desviar o olhar – Publicaram a nossa capa.
- Como assim, Pamela? – pensei por um instante – Dona Pamela – corrigi-me.
- É o que quero descobrir Allison – olhou-me dessa vez como se eu pudesse responder as dúvidas dela.
- Não está... Não está... – gaguejei só por cogitar a possibilidade dela estar desconfiando de mim.
- Sei que você está magoada comigo, e...
- E acha que eu teria sido capaz de vender as nossas idéias? – fitei-a agora indignada – Com quem você pensa que está falando? Não sou esse tipo de pessoa...
- Calma, menina! – interrompeu-me.
- Calma, Pamela? Quer que eu tenha calma? - aproximei-me um pouco mais dela – Você tá me olhando como se me perguntasse se eu vendi a idéia! E pra mim, seria muito fácil porque quem desenvolveu a capa desse mês foi o Léo, que por sinal é meu amigo, oras! – aspirei fundo o cheiro do perfume que exalava do corpo dela... Quase pedi a noção de tudo... Senti aquela vontade horrorosa de beijá-la... Tomá-la em meus braços... Fazer amor com ela...A poderosa desviou novamente o olhar... Depois sentou-se na sua cadeira.
- Você está desequilibrada menina! – folhou alguns papeis que retirou da sua pasta marrom – É a segunda vez que vimos a nossa idéia estampada na concorrência dois dias antes da nossa publicação. Não estou te acusando de nada. Você não estava aqui na primeira vez.
- Nossa! – sentei-me na cadeira ao seu lado – Suspeita de alguém?
- O Leonardo é o responsável pelas matérias principais – disse sem rodeios.
- Hei! O Léo não faria isso! – levantei-me no mesmo momento em que alguns funcionários solicitados na reunião começaram a chegar. – Ele não faria... – sussurrei antes de dar a volta na mesa e sentar-me na cadeira destina a mim.
Refleti muito durante toda a reunião. Pra mim, era uma questão de honra provar que o Léo não era o culpado pelos furtos dos projetos na revista.... Fiz uma série de anotações... Uma hora e quinze minutos depois... Estávamos todos olhando uns para a cara dos outros como se nos culpássemos pelo... Roubo? Sim! Roubo de idéias. Alguém estava negociando as nossas matérias com o concorrente.
Ajeitei uns papeis... Todos saíram da sala, menos a poderosa que ficou sentada fazendo algumas anotações... Já me preparava para sair quando ela me chamou...
- Allison – disse.
Voltei até onde ela estava sentada...
- Vai precisar dos meus serviços dona Pamela? – fitei-a com o coração despedaçado por imaginar o que ela podia querer comigo. Só o que ela queria era sexo mesmo. Já estava acostumada.
- Preciso que você vá hoje até a minha casa – disse sem desviar os olhos da papelada que examinava. – Temos uns acertos para a reunião dessa semana com os Franceses.
- Desculpe, mas... Não poderei ir até a sua casa a noite – disse fria.
- Como não? – ergueu a face para olhar-me.
- Tenho um compromisso. – menti encarando-a descaradamente.
- Compromisso? – perguntou incrédula com a minha negativa.
- Vou sair com a minha namorada – disse num impulso. Pamela sorriu. Quase gargalhou.
- Manda a sua namoradinha esperar.
- Me despede, mas adiar o meu compromisso eu não vou! – fitei-a desafiadoramente. Mergulhei o olhar naquele mar azul dos dela. Não sei o que eles diziam, mas nem quero saber.
- Pode ir – disse enfim.
- Se precisar... – uma pausa – Estarei na minha sala... Dona Pamela. – disse e saí da sala de reuniões. Ela queria me usar? Não seria mais do jeito dela. Podem apostar!


 

 

 

Capítulo 23  - PAMELA

 


Afinal de contas, o que estava acontecendo? O mundo inteiro tinha resolvido desabar sobre minha cabeça?
Tudo bem, nada daquilo era o bastante para me derrotar, desanimar, mas... pelo amor de deus! Será que eu tinha que ser a prova viva de que o ditado... arg... popular era verdade? Desgraça pouca é bobagem...
Além do sentimento infame, ridículo, doentio que tentava me dominar, tinha o roubo das idéias, e... para completar, Ali tinha resolvido me desafiar abertamente...
Namorada? Uma ova que ela tinha namorada! Que namorada era essa que tinha aparecido do nada? Só se durante o final de semana ela...
Não, claro que não! Não depois de tudo o que tinha acontecido em São Paulo. Bobagem! Era mentira. Uma jogada – até muito inteligente, por incrível que pareça – de Ali.
Mas ela não ia, de jeito nenhum, conseguir me afetar. Apesar da pontinha de... Nada, eu estava chateada com... a recusa dela? Era a primeira vez que Ali me recusava algo... Inacreditável... Inaceitável! Eu não ia nem podia deixar barato.

No final da tarde, Arlete anunciou:
- Dona Pamela, o Leonardo está aqui para falar com a senhora.
Eu já sabia o que era. A nova capa.
- Mande ele entrar, Arlete.
O rapazinho entrou, muito sem graça. Ficou parado na porta, evitando me encarar. Com medo, para falar a verdade. Com um sorriso sarcástico, falei:
- Vai ficar aí parado o dia inteiro? Onde está a nova capa?
Pedindo mil desculpas, todo desengonçado, ele se aproximou da minha mesa, e me estendeu um pen drive.
Pluguei no laptop, abri e... realmente me surpreendi. Estava... fantástico. Seria sem dúvida, uma de nossas melhores capas.
- Se você podia fazer isso, porque me entregou aquela porcaria de antes?
O rapaz começou a gaguejar:
- Eu... é... eu... é que...
Não agüentei:
- Pelo amor de deus! Fala direito, rapaz!
Não sei se foi o susto, mas ele conseguiu falar rápido, acelerado, de uma só vez:
- A idéia foi da Allison.
Fuzilei o rapazinho com o olhar:
- Está querendo dizer que precisou da minha assistente para fazer o seu trabalho?
Ele ficou abrindo e fechando a boca várias vezes, sem conseguir falar. Hilário. A vontade que eu tinha era gargalhar. Ao invés disso, ergui uma das sobrancelhas e o olhei enojada:
- Não consegui ainda decidir o que você é: burro ou incompetente? Tanto faz... As duas coisas, provavelmente...
Com um gesto de mão impaciente, ordenei que saísse da minha sala. Ele saiu quase correndo. Esquecendo até de levar o pen drive.
Continuei olhando para a capa na minha frente. Idéia da Allison... E o sorriso que surgiu em meu rosto foi absolutamente inevitável.

No final do expediente, mandei que Arlete chamasse Allison à minha sala. Ela bateu na porta, esperou, e entrou quando permiti que entrasse.
Me olhou bem dentro dos olhos. Me deliciava vê-la se debatendo... Ainda não sabia dizer o que eu gostava mais... quando ela obedecia, ou quando tentava me desafiar. Não importava, porque em ambos os casos, eu sempre conseguia exatamente o que desejava.
- Estou dispensada?
Foi o que ela disse, estranhamente fria e calma. A olhei do jeito gélido que teria feito qualquer outro funcionário desmaiar:
- Não. Já disse que preciso que você vá hoje até a minha casa para acertarmos a reunião com os franceses, Ali.
Ela devolveu o meu olhar sem nem piscar. E respondeu:
- E eu já disse que vou sair com a minha namorada.
Ela estava conseguindo realmente me exasperar. Mas eu não ia demonstrar, claro:
- Ali...
Comecei a falar. Bem baixo e controlada. Mas incrivelmente, ela me interrompeu:
- Me demita se quiser. Mas nada vai me fazer ir na sua casa esta noite. Até amanhã, dona Pamela.
E dizendo isso, saiu!... Porta afora, me deixando absolutamente paralisada.
Eu adorava um bom desafio, isso era verdade, mas... aquilo não tinha a menor graça.
Se fosse qualquer outra pessoa, eu demitiria na hora. Se fosse qualquer outra pessoa, jamais me responderia daquela forma. Essa era a verdade.
Ali era... Allison. E eu não podia, ainda, me dar ao luxo de não... precisava... Deixei um suspiro absolutamente angustiado escapar. Não podia demiti-la, porque... Nunca, em toda a minha vida, senti tanta...
Fechei os olhos e mordi os lábios. Aquilo era o mais próximo que eu conseguiria chegar de me odiar.

Mergulhei na banheira quente que Paz preparou, junto com uma maravilhosa xícara de chá indiano.
Aquilo me fez pensar em Allison. Sentia uma dor estranha no peito, misturada com um calor insano entre as pernas ao lembrar daquela primeira vez... Ai, quanta palhaçada! Eu estava virando uma idiota sentimentalóide... Absurdamente infame! Não estava me reconhecendo... Nem me agüentando mais!
Saí do banho, vesti o roupão, fui até a sala. Olhei para o relógio: 22h. Onde Ali estaria, afinal? Achava que apesar do que tinha dito, ela apareceria, mas pelo visto...
Não! Não ia deixar aquela menina fazer o que bem quisesse. Claro que não. Peguei o celular sem hesitar. Falei rápido demais. Assim que ela atendeu:
- Ali?
O tom de voz dela foi absolutamente sarcástico:
- Dona Pamela? Em que posso ajudar?
- Onde você está, Allison?
Saiu sem querer quase. Ela riu. Ao fundo eu podia ouvir o barulho... Ela estava num bar... Sozinha? Acompanhada? Ai, por que isso importava?
Allison aumentou meu tormento respondendo:
- Não é da sua conta.
E... desligou na minha cara!...
Raiva? Não era só raiva o que eu estava sentindo. Era... ao invés de ficar perdendo meu tempo definindo as coisas bizarras que me faziam ferver e andar pela sala sem parar, resolvi pensar e agir.
Precisava descobrir onde Allison estava. Lembrei de uma maneira muito fácil. Liguei para a casa dela. A secretina atendeu. Com um recadinho ridículo, daqueles que cada um fala uma parte:
- Você ligou para Léo...
- E Allison...
Depois os dois juntos:
- Não estamos em casa...
Jura? Fala sério... Porque as pessoas deixavam mensagens retardadas como essa? Inacreditável...
- Se quiser falar com a Allison, ligue para...
- Se quiser falar com o Léo, ligue para...
Anotei o número, e desliguei sem nem escutar os dois em corinho novamente:
- Ou então, depois do bipe deixe sua mensagem.

- Leonardo?
- Sim, quem é?
A voz estava meio pastosa, provavelmente o rapaz tinha bebido um pouco demais. Mas pareceu ficar sóbrio quando ouviu:
- Aqui é a dona Pamela.
Mudo. Sem uma palavra. Continuei:
- A Ali está com você?
Ele gaguejou, com muita dificuldade:
- A... Allison?... Não... Ela... Está...
Não deixei ele completar:
- Onde ela está?
Perguntei deixando claro que a resposta tinha que ser clara e imediata. E ele entendeu, e obedeceu, lógico:
- No Bofetada. Na Farme.
Desliguei sem dizer mais nada.

Parei o carro em frente ao Bofetada. Allison estava sentada com um grupinho numa das mesas na calçada. Com uma loirinha no colo. O braço em volta da cintura dela, os rostos encostados, numa intimidade que me fez...
Contei até dez. Não sei como consegui continuar dentro do carro. Minha vontade era ir lá e...
Eu só podia estar enlouquecendo. Que horror, que falta de classe! Aquilo não podia estar acontecendo comigo, mas estava. Como se fios invisíveis controlassem minhas ações e movimentos, o terror continuava: peguei meu celular e disquei o número dela.
Allison pareceu não escutar a princípio. Insisti. Ela finalmente estendeu o braço - sem desencostar da tal loirinha um milímetro – e pegou o celular na bolsa. Olhou o visor, viu que era eu, e... detonou a ligação.
Contei até dez de novo. Respirei profundamente. Os fios invisíveis voltaram a mover minhas mãos... Allison olhou para o celular e com um sorriso de satisfação indescritível, finalmente atendeu minha ligação:
- Pois não, dona Pamela?
Minha voz saiu baixa, no esforço que eu fazia de me controlar, não querendo deixar transparecer nenhum tipo de emoção:
- Ali...
Ela não me deixou falar:
- Até os escravos descansam, sabia? Não vai parar de me perturbar hoje não?
E olhou direto para onde eu estava, como se pudesse me ver através do insulfilm. Estremeci. Fiquei por um momento sem palavras. Ela sabia o tempo inteiro que... Claro... Meu carro não era comum, não se via muitos como ele pela cidade...
- Ali, entra no carro.
Ela riu. Às gargalhadas. Sem deixar de me encarar. E disse simplesmente:
- Não.
Insisti, com um suspiro exasperado:
- Ali...
- Eu já disse que não. O que você quer comigo, afinal?
Os olhos dela... continuavam fixos em mim. Minha voz saiu quase sussurrada, numa tentativa inútil de disfarçar:
- A reunião com os franceses...
A dela implacável:
- Podemos fazer isso amanhã. Tchau.
Antes que ela afastasse o celular do ouvido, deixei que a fraqueza me levasse. Minha voz não soou desesperada. Pelo contrário. Pareceu estranhamente doce e suave:
- Não... Espera...
Mas Allison continuou como se não a afetasse:
- O que você quer, Pamela?
Naquele momento, a impressão que eu tinha era a mesma que devia ter um recém nascido: sair de um lugar tranqüilo e confortável, passando por um aperto sufocante e cair nas mãos gélidas e aterrorizantes do desconhecido...
Aquilo me apavorava a ponto de enervar:
- Que importa? Eu vim te buscar.
Ela insistiu:
- Me buscar? Pra?...
Não sei como respondi, eu me debatia, como um peixe fora d’água:
- Estou aqui. Não basta pra você?
- Não. Quero ouvir. Fala.
O medo que eu sentia era incrível. Logo eu, que nunca tive medo de nada... Minhas mãos estavam geladas. Era muito difícil respirar, mais ainda falar:
- Eu...
No entanto, Allison continuou a me empurrar, ou puxar, eu já não sabia mais:
- Pam, é simples. Eu vou te ajudar: por que você veio me buscar? Quer trabalhar? Quer sexo? O que você quer, de verdade?
Naquele momento, foi como se a minha mente, e todo e qualquer tipo de razão ou racionalidade congelasse. Como se um espírito maligno me controlasse, porque... dos meus lábios saíram as seguintes palavras:
- Quero você, Allison.
Ela sorriu, e... novamente desligou na minha cara.
Sussurrou algo no ouvido da loirinha, que se levantou. Se despediu dos amigos rapidamente, se aproximou do carro. Destravei e abri a porta para que ela entrasse.
Quando Allison sentou no banco ao meu lado, com um brilho nos olhos e um sorriso que pareceram iluminados, não resisti: a puxei e mergulhei a boca na dela com vontade. Allison suspirou, estremeceu, e de início pareceu derreter. Mas logo depois, murmurou contra os meus lábios:
- Calma, Pam... Assim eu não consigo respirar...
Fiquei irritada com aquilo. Quem aquela menina pensava que...
Os pensamentos fugiram quando ela invadiu minha boca com a língua. Devagar, sem pressa, explorando com calma. Numa tortura lenta, suave, mas deliciosa demais...
Ela terminou o beijo e ficou me olhando profundamente, segurando o meu rosto entre as mãos. E então falou, seríssima:
- Presta atenção. Até hoje, foi tudo como você queria. Mas hoje não.
Estremeci. Ela sorriu, e me beijou de leve nos lábios. Numa carícia delicada, como quem diz: “confia...”
Um gemido involuntário escapou de mim. Sim, eu sofria... Meio sem saber direito a razão. Uma parte eu até entendia, outra não. Como se dentro de mim algo se estendesse, ou abrisse, um tipo estranho de... dilatação...
Pisquei, ainda buscando a compreensão. Allison não desviava os olhos dos meus. Talvez entendendo muito mais do que eu... Ela sorria... E naquele sorriso, naqueles olhos, eu me perdia...
Mais ainda quando Allison falou:
- Essa noite vai ser do meu jeito, Pam. Você pode aceitar ou não.
Fiquei olhando para ela em silêncio por alguns instantes. Com a paciência e a doçura com que falaria a uma criança, Allison perguntou baixinho:
- E então?
Uma única palavra selou o momento em que parei de lutar:
- Sim.

A partir daquele momento foi quase como flutuar. Será que existiam pessoas que viviam assim, com essa espécie de alívio, leveza e falta de pressão surreais? Era assustador, é claro. Mas naquele momento, estava adorando me deixar levar.
Allison sorria, e me guiava. Até a casa dela. Longe, muito longe, pegamos a Avenida Brasil e a viagem não acabava.
Não importava. Aproveitei a mão dela, que não me deixava. Acariciando minha coxa, meu rosto, meus cabelos, minha mão quando eu passava a marcha... Parecia tão feliz quanto eu estava. Sorri... era isso que eu sentia então? Felicidade? Bem maior do que quando a revista aumentava as vendas ou comprava um belo sapato... Engraçado... Aquela era uma noite de muitas descobertas – inúmeras para falar a verdade. E Allison estava sendo... perfeita... me conduzindo com uma carinhosa suavidade.
Não reclamei por ter que estacionar o carro na rua – o prédio de três andares dela não tinha garagem, nem porteiro, muito menos elevador... Nada disso importava. Subi as escadas atrás da menina que me levava pela mão. Como se estivesse enfeitiçada.
Ela abriu a porta, e pude ver que o apartamento era um ovo, só pelo tamanho mínimo da sala. Ela acendeu a luz e demos de cara com o amigo dela, o tal de Leonardo. Ele estava tomando algo numa caneca e chegou a engasgar. Antes de me dar um boa noite de olhos arregalados e desaparecer quase correndo atrás de uma das portas.
- Quer alguma coisa? Café, água?
Allison parecia um pouco tensa, como se a presença do amigo a tivesse trazido de volta à realidade. Ou melhor: como se tivesse finalmente se dado conta da irrealidade do momento.
Eu continuava em transe, sem conseguir falar nada. Apenas a olhava... Allison repetiu a pergunta, e recusei com um aceno de cabeça. Novamente me deixei levar pela mão. Allison parou, acendeu a luz, fechou e trancou a porta atrás de nós. Olhei em volta: um armário, uma cama de casal e uma mesinha com um computador, que ocupavam todo o cubículo que ela apresentou:
- Esse é o meu quarto.
Antes de me beijar e começar a tirar a minha roupa, de uma forma absolutamente apaixonada e carinhosa, entre carícias e palavras sussurradas muito diferentes das que eu estava acostumada.
Continuei tensa, assustada, mal conseguia respirar. Era como se fosse – e era – a primeira vez... Que alguém me tocava. Me sentia frágil, insegura, desamparada. Apavorada. Incrivelmente, Allison percebeu. Olhou bem dentro dos meus olhos e sussurrou:
- Eu amo você.
Arrepiei. Estremeci. Meu coração foi na boca. Cada pedacinho do meu corpo passou a ter vida própria. Correspondi inteira e integralmente à ela, me lançando de livre e espontânea vontade naquele abismo sem volta.
E o mundo inteiro pareceu parar de girar só para mim. Porque magicamente, a palavra “eu” parecia ter virado “nós”...

 

 



Capítulo 24 - ALLISON

 Levamos duas horas para refazer a capa. Léo estava desesperado. Andava de um lado para o outro dentro da sala como se quisesse furar o chão. Pra piorar ainda mais a situação ele batia com os dedos nas coisas, como se quisesse tirar do lugar. Mexia nos porta retratos que ficavam em sua mesa... Nos quadros pendurados na parede, como se eles estivesses tortos, sabe?

- Você tá me irritando, sabia? – disse impaciente.

- Ela vai pedir a minha cabeça, Allison! – disse temeroso, ou melhor: apavorado . – Não vamos conseguir.

- Vamos sim! – peguei o pen drive que estava sobre a mesa... Pluguei no PC... – Já tá pronto, cara! Olha que beleza ficou! – disse e virei a tela do micro na direção dele. Léo estava com os olhos tapados. Ele se recusou o tempo inteiro a fixar os olhos na direção do computador.- Abre os olhos agora, Leonardo! – ordenei áspera enquanto arremessava uma borracha na direção dele.... Ele abriu os olhos... Hesitou um pouco, mas assim que visualizou o trabalho à sua frente deu um largo sorriso e me olhou como se as palavras estivessem presas em sua garganta. O cara ficou emocionado, acreditam nisso?

- Alli...son – suspirou ao dizer meu nome – Você salvou a minha cabeça, digo, o meu emprego! – aproximou-se da tela do PC.... Deslizou os dedos.... – Ficou perfeito!

- Me deve uma pizza – disse satisfeita.

- Te pago quantas pizzas você agüentar comer durante uma semana.

- Feito! – apertei a mão dele – Você disse uma semana, hein?

Duas batidas na porta e fomos tirados do nosso momento de encantamento e paz de espírito pela secretaria da toda poderosa....

- A chefona quer falar contigo, Léo – disse ela com aquela cara de: "se prepara".

- Vai lá! – toquei o ombro dele no intuito de lhe dar coragem – Vai dar tudo certo – sussurrei.

- Tira pra mim?

- Claro! – desconectei o pen drive e entreguei-o nas mãos dele – Qualquer coisa liga pro 190 ou simplesmente... Grita, tá? – sorri.

- Muito engraçadinha.... – disse e saiu da sala, quer dizer, não antes de se benzer... Estava juntando uns papei quando corri até o corredor e impedi temporariamente que ele entrasse na sala de Pamela... Puxei seu braço.

- Olha... haja o que houver... Jamais diga que fui eu quem fez a capa, está bem?

- Mas... Se ela... Se ela... Perguntar?

- Se você der com a língua nos dentes eu quem vou arrancar a sua cabeça, está bem?

- Putz, Ali! O papel de má é dela.... – colocou a mão no meu ombro – Vai pra casa ao sair daqui?

- Não... Vou me encontrar com umas amigas em Ipanema.

- Te encontro depois pra falar sobre o genocídio – tentou sorrir.

- Hei! Se contar que fui eu quem fez a capa, eu corto o seu pinto – fiz cara de má.

- A vilã continua sendo a Poderosa, Ali – fez um gesto para que eu voltasse pra sala.... Dei-lhe as costas, mas virei-me de frente para ele novamente ao ouvi-lo me chamar.– Quase não uso – sorriu por entre os dentes enquanto apontava para as suas calças – Não ia fazer tanta falta.

Balancei a cabeça negativamente... Podia ter ficado sem ouvir essa, não é? Sorri do senso de humor dele antes de entrar no território minado, logo retornei a sala de Léo para pegar alguns papéis.



Assim que deu meu horário... Recebi uma ligação de Arlete dizendo que a dona Pamela queria falar comigo. Gelei, sabe? Toda vez que eu era chamada na sala dela minhas mãos ficavam geladas e eu sentia no estômago aquela sensação estranha de que tem borboletas voando dentro dele. Isso é chato demais, viu?

Bati na porta de Pamela... Estava suando frio... Respirei fundo ao ouvi-la dizer que eu podia entrar. Empurrei a porta devagar e entrei... Ela estava linda. Como pode aquela mulher estar mais linda depois de um dia inteiro de trabalho? Pamela era assim, estava belíssima sempre. Tentei não olhar na direção das pernas dela. Isso era difícil, sabe? Ela estava sempre de saia. As curvas perfeitas do seu corpo marcando por baixo da roupa, e suas pernas seminuas eram divinas. Embora minha calcinha já estivesse molhada, eu precisava ser forte o suficiente para manter o meu compromisso de hoje à noite e, não ceder a vontade, digo a necessidade de ir até a casa dela.

- Estou dispensada? – perguntei mesmo sabendo qual seria a resposta dela. Pamela me olhou com aqueles olhos azuis, como se conseguisse despir a minha alma.

- Não. Já disse que preciso que você vá hoje até a minha casa para acertarmos a reunião com os franceses, Ali. – foi a resposta dela. Gelei ao ouvir o seu tom de voz, no entanto, não deixei que ela percebesse. Eu não tinha nada a perder, não é mesmo? A poderosa só queria sexo comigo, e eu estava apaixonada por ela. O máximo que podia acontecer é: eu ser demitida, ficar longe daqueles olhos azuis penetrantes e tentar viver sem tocar aquele corpo novamente. Missão impossível, eu sei! Mas eu não queria baixar a cabeça pra ela... nunca mais...

- E eu já disse que vou sair com a minha namorada. – Fixei o olhar... encarei-a com a finalidade de provocá-la. Está perdendo o seu brinquedinho Pamela. O que vai fazer? – pensei. Até esbocei um leve sorrisinho no canto da boca.

- Ali... – disse numa impaciência evidente. Ela estava sem palavras? Mas a poderosa não é mulher de ficar sem palavras. Isso me deixou desmotivada, sabe? Adoro quando ela me desafia achando que o mundo inteiro é dela. Me faz feliz dizer a ela que eu pelo menos, não faço parte do mundo inteiro. Simplesmente porque não tenho medo dos seus olhares repressivos. Cansei de ouvi-la... Suspirei aliviada enquanto despejava as palavras na frente dela...

- Me demita se quiser. Mas nada vai me fazer ir na sua casa esta noite. Até amanhã, dona Pamela.

O que eu fiz? Sai correndo daquela sala. Não sou de ferro, oras! Mais duas olhadas daquela que ela me deu quando fitou os meus lábios e eu abriria as pernas dela naquela mesa novamente. Putz! Tinha que ter sido um comentário menos.... Menos... Agressivo, eu sei, mas quando falamos o que pensamos sai sem pudor mesmo.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Fui pra casa de uma amiga que morava em Ipanema. O nome dela é Lana. Tem tempo que não nos vemos, mas hoje no horário do meu almoço eu resolvi ligar pra ela. Pra minha sorte, Lana está solteira novamente e marcou com duas amigas no Bofetada para uma conversinha depois do expediente. Aceitei o convite na hora, não é?

Chegamos lá e as duas meninas estavam sentadas à nossa espera. Meu telefone tocou assim que sentei ao lado de uma ruivinha deliciosa que eu havia sido apresentada.

Atendi com descaso... Era Pamela. O que ela podia querer comigo àquela hora da noite? Acreditam que a poderosa queria saber onde eu estava? Quase gargalhei. Preferi desligar na cara dela. Vocês acham que eu fui má? Estou tendo aulas com a melhor professora, oras!

Depois que desliguei na cara de Pamela, voltei toda a minha atenção para as duas meninas que eu havia sido apresentada. Adorei o papo com a ruiva, mas percebi que Lana estava muito interessada nela, e vice-versa. Mudei de cadeira para ficar ao lado da morena que parecia bem interessada em mim. Antes que eu pudesse começar um assunto mais íntimo com a morena de olhos negros que havia chamado a minha atenção pelos fartos seios exaltados num decote saliente, avistei a irmãzinha do Léo. É isso mesmo! Os dois irmãos são gays. A Leandra é uma gracinha. Tem dezoito aninhos. Uma loirinha linda dos cabelos cacheados. Toda vez que nos encontramos ela pula no meu colo e quer contar a sua vida inteira. Dessa vez não foi diferente. Leandra sentou-se imediatamente no meu colo. Não fiquei chateada, na verdade, no fundo... Bem lá no fundo... Eu não queria nada com a morena que estava ao meu lado. Queria apenas me convencer de que eu era capaz de desejar outra mulher que não fosse Pamela, mas tava difícil, viu? Depois que bati o telefone na cara dela, fiquei muito perturbada. Eu queria estar em qualquer outro lugar, que ela estivesse comigo.Minutos depois, sem que Leandra saísse do meu colo. Senti meu telefone vibrar dentro do bolso da minha calça. Quando olhei no visor e vi que era Pamela, imediatamente detonei a ligação. Sim! Eu não estava preparada para ouvir a voz dela novamente. Eu precisava ser forte. Era questão de orgulho mesmo, sabe? Para o meu desespero... ela insistiu.... Respirei fundo....

- Pois não, dona Pamela? – atendi tentando manter a compostura.

- Ali... – sua voz soou tão melosa que deu medo.

- Até os escravos descansam, sabia? Não vai parar de me perturbar hoje não? – interrompi-a.

- Nossa! Que carrão parado do outro lado da rua – disse Leandra. Olhei na direção do carro... Fixei os olhos e não acreditei no que eu estava vendo... Aquele lindo carro importado só podia ser de uma única pessoa. Pamela! Quase enfartei ao constatar que era mesmo ela.

- Ali, entra no carro. – disse tendo certeza que eu sabia que era ela. Continuei olhando na direção do vidro da porta do motorista... Gargalhei de nervoso, antes de dizer séria...

- Não!

O que ela queria comigo? Por que Pamela se dava ao trabalho de vir me procurar àquela hora da noite? Ela podia ter quem quisesse! Aposto que Penélope estava só esperando uma ligação dela para se enfiar debaixo dos lençóis da poderosa. O que ela esperava de mim, meu Deus? Será que no íntimo daquela mulher, havia algum sentimento guardado pra mim? Eu precisava de certezas, não suposições. Na verdade, as suposições me arremetiam ao abismo escuro das dúvidas, e viver sem saber o que esperar de uma relação é doloroso o bastante para não a querermos mais.

- O que você quer, Pamela? – disse fria....

- Que importa? Eu vim te buscar. – seu tom de voz era inseguro.

- Me buscar? Pra?... – insisti, se ela não fosse clara, eu não iria até lá. Podem apostar! Preciso provar que consigo resistir ao desejo dela.

- Estou aqui. Não basta pra você? – ela se irritou.

- Não. Quero ouvir. Fala. – meus olhos brilhavam na esperança de que ela dissesse uma única palavra. Era o que eu queria ouvir. Apenas o que eu queria ouvir para deixar aquela eclosão de sentimentos vir à tona e explodir dentro de mim. Meu coração disparou....

- Eu... – ela não conseguia dizer... Mas eu precisava ouvir...

- Pam, é simples. Eu vou te ajudar: por que você veio me buscar? Quer trabalhar? Quer sexo? O que você quer, de verdade? - despejei de uma só vez.

- Quero você, Allison.

Fechei os olhos imediatamente ao ouvir aquela frase. Ela não disse que me amava, eu sei... Mas ela disse que me queria. Existem mil formas de dizer a alguém o que sente, e todas elas são únicas e importantes. Sorri aliviada, e esperançosa... Desliguei o telefone...

- Leandra – disse no ouvido da menina – Preciso resolver um assunto muito sério. – ela levantou-se imediatamente do meu colo. Pisquei pra ela e disse que depois nos encontraríamos para conversarmos. Voltei minha atenção para as outras meninas, pedi desculpas e disse que precisava sair urgente. Elas não questionaram, apenas a morena disse que iria deixar o seu telefone com a Lara para que me entregasse. Sai do bar... Caminhei em passos lentos até o carro de Pam. Eu estava em transe, como se tivesse sido abduzida por extras terrestres e não soubesse mais quem eu sou. Parei do lado da porta do carona... Ouvi o barulho do alarme... Entrei... Tentei sorrir pra ela... Meu corpo inteiro tremia, mas eu precisava me manter firme no meu propósito de deixar de ser humilhada por Pamela. Eu não disse nada... Minha chefinha quem puxou-me violentamente pela nuca e grudou os seus lábios nos meus... Retribuí o beijo com urgência.... Eu queria saciar a minha sede daqueles lábios o quanto antes...

- Calma, Pam... Assim eu não consigo respirar... – sussurrei tentando encará-la nos olhos de pertinho para saber o que aquele azul deslumbrante queria me dizer.

- Essa noite vai ser do meu jeito, Pam. Você pode aceitar ou não. – ela continuou em silêncio.... E o medo bateu na minha porta... - E então? – insisti...

- Sim. – disse sem saber para onde olhar... imediatamente sorri, e como mágica, uma paz estranha e doce me envolveu naquele instante. Os olhos de Pamela brilharam ao dizer aquele "sim". Senti o alívio nas suas expressões... – Pra onde vamos? – perguntou.

- Estou te convidando para entrar na minha vida – disse enquanto segurava nas mãos dela que estavam geladas como nunca vi antes. Ela fez que sim com a cabeça... Eu então respirei aliviada... Fomos por todo o caminho trocando olhares de cumplicidade... Ela dirigia, e eu me aproveitava dessa situação para fazer carinhos nos seus cabelos... Rosto... Seu ombro nu... No auge do calor incontrolável que me corroia a carne, deslizei minhas mãos pelas coxas dela... Elevei a sua saia... Senti a sua pele quente corresponder ao toque das minhas mãos...

Chegamos tão rápido que eu me esqueci que morava tão longe de tudo....

Tentei decifrar os seus olhares e expressões quando ela estacionou o carro na calçada e olhou a fachada do prédio onde eu morava. Era um choque de realidade, como o Léo gosta de dizer. O que diziam os olhos dela? Eu não sei! Mas quando ela procurou as minhas mãos para que subíssemos as escadas de mãos dadas, meu coração respondeu que eu não precisava ter tanto medo.

Quando abri a porta...demos de cara com Léo sentado no sofá... Ele nos olhou como quem vê um fantasma, ou pior: como quem vê a poderosa! O pobre engasgou, depois sumiu pelo corredor. Ouvimos a porta do seu quarto bater. Eu sorri... Estava visivelmente nervosa... Acho que ela também sorriu... Peguei nas mãos de Pamela e levei-a até o meu quarto... Entramos... Percebi que ela analisou o local... Não sei se estava se sentindo desconfortável por estar em um lugar tão pequeno e sem conforto, ou se era apenas pena de mim. Aproximei-me de Pamela parada... olhando fixamente na minha direção... Segurei sua face com as duas mãos... Seus olhos buscaram os meus... O tempo pareceu parar naquele instante. Mergulhei no azul dos olhos dela e pude sentir, pela primeira vez, que eles estavam desarmados. Pamela estava, enfim, ali... De verdade! Visualizei as expressões dela... Sua face estava calma, de uma tranqüilidade que me contaminava. Acariciei seu rosto com a ponta dos dedos e senti as mãos dela pousarem sobre as minhas... Nossos olhos ficaram marejados, logo uma lágrima rolou no canto direito dos seus olhos, senti que no canto esquerdo dos meus também rolava uma lágrima. Foi uma troca... Na verdade, aquele momento estava sendo uma troca de sentimentos... Sensações... Verdades que eram reprimidas pelo medo de... talvez ser feliz. Eu não sei! Só sei que fechamos lentamente nossos olhos... Aproximamos nossos lábios, enquanto nossos corpos se aconchegavam um no outro. Nos abraçamos calorosamente... A magia das sensações de prazer foram tomando a nossa pele... Sem pressa, nos beijamos... sussurros e gemidos de prazer foram trocados entre um beijo e outro. Nossas mãos percorriam agora o caminho para aumentar o contato que ansiávamos. Lentamente deslizei os lábios pelo seu pescoço... Retirei a sua blusa, marcando a sua nudez com a saliva dos meus beijos na sua pele tensa e quente de desejo. Pamela arqueava o corpo... Oferecendo-se a mim. Nos despimos mutuamente.... Cobrindo a nossa pele com as mãos que se acariciavam suavemente... Aproveitando cada curva.... Milímetro de pele... sem esquecer de nenhum detalhe. Meus olhos abertos... Vivos... Decorando a localização dos pêlos que se arrepiavam com os beijos e caricias... Nuas... Caminhamos lentamente até a beirinha da cama... Sentei... Segurei-a pelas mãos conduzindo-a para que se sentasse no meu colo. Pamela abriu as pernas e tocou o meu sexo com o seu. Laçou suas pernas na minha cintura enquanto suas mãos agarravam-me pela nuca... Minhas mãos nas suas costas apalpavam sua pele.... Meus lábios percorriam o seu queixo... Ela gemia... Eu descia a boca pelo seu pescoço... Ela se contorcia nos meus braços... Passei a língua de leve no seu seio direito... Pamela forçou minha cabeça para que eu continuasse com o contato... Mordi... Suguei com força.... Ela gemeu mais alto... Tremeu excitada... Aumentou o atrito do seu sexo encharcado no meu... Também molhado de desejo... Devorei seu seio esquerdo... Com a ponta dos dedos acariciei... Apertei... fiz movimentos circulares no outro seio.... Gemi pra ela ao sentir meu gozo se aproximar... Pamela parou de rebolar no meu colo.... Não entendi, mas sabia que viria algo muito bom daquela imaginação fértil... Levantou-se devagar... Encarando-me com aqueles olhos azuis faiscando de tesão... Inclinou meu corpo para trás.. minhas costas tocaram o colchão... Ela deitou-se sobre o meu corpo... Afastou as minhas pernas e ficou no meio delas... Fechei os olhos aguando pelo momento do gozo... Seu sexo molhava o meu enquanto ela se movimentava em cima de mim... Nossos líquidos inundavam as nossas coxas.... Caiam pelos lençóis... Arranhei as costas dela implorando para que Pamela continuasse com aquele contado... Senti os seus lábios grudarem no meu ouvido fazendo o meu corpo inteiro se arrepiar...

- Diz o que está sentindo, Allison – falou com aquela voz rouca que me tirava o chão de baixo dos pés.

- Te...são.... – sussurrei com dificuldade – Deixa eu gozar pra você – agarrei o seu pescoço prendendo a sua respiração próxima ao meu ouvido.

- É o que você quer? – perguntou maliciosa.

- Quero o seu amor – busquei o seu olhar ao dizer essa frase. Pamela me olhou.... Fechamos os olhos ao mesmo tempo, enquanto os nossos corpos se sacudiam num orgasmo profundo... Aumentamos os movimentos dos quadris na medida que aumentavam os nossos gritos de prazer.... Gozamos... Mas ainda não estávamos saciadas... Troquei de posição com ela na cama... Aprisionei os seus pulsos... Beijei os seus lábios enquanto tentava restabelecer a minha respiração... Ofegávamos juntas... Nossos corações pareciam palpitar na mesma sintonia... Era um momento perfeito... Nos olhamos assustadas com a energia daquele orgasmo... Era como se não precisássemos nos tocar para sentir aquele prazer... Mas eu queria... Precisava beber daquele gozo... Desci pelo seu corpo... deslizando as mãos, as pernas, os braços... Na sua pele... sentindo os seus arrepios... Ouvindo os seus gemidos... Visualizando as suas expressões... Afastei as suas coxas... Ela apoiou-se nos cotovelos... Queria me ver tomando-a na minha boca... Passei a língua envolta do seu sexo... Pamela inclinou a cabeça para trás... Aprovando aquela tortura... Percorri as suas coxas com os lábios... Toquei-as com os dentes... Mordendo-as de leve... passei a pontinha dos dedos no seu clitóris e ela gritou querendo mais... Mergulhei meus dedos dentro dela de uma só vez... Gemi ao sentir que fui recebida por um sexo que latejava de desejo... Deslizei a língua... Chupei... Lambi... Os sussurros e gemidos que eram proferidos pelos lábios dela se intensificaram... A penetrei com mais força... Ela me recebeu com aquela intensidade de sempre... Rebolou nos meus dedos.... Inclinou o quadril para frente buscando a minha boca....

- Também te quero, Allison... – sussurrou ofegante.

Estremeci ao ouvir aquela voz cheia de dificuldade... Eu estava contaminada de desejo... Elevei o meu corpo... Virei-me e ofereci o meu sexo a ela... Senti suas mãos famintas puxarem-me pelas minhas nádegas... Nos encaixamos... Gozamos uma pra outra com uma intensidade quase que surreal...

Dormimos abraçadas... Exaustas de tanto fazer... Amor...


 

 

Capítulo 25 - PAMELA

 


Acordei no dia seguinte completamente perdida. Como, quando, onde eu estava? A única coisa que importava era com quem... E isso, eu sabia muito bem. Allison dormia, o corpo grudado, abraçado ao meu, os braços me apertando com força, como se tivesse medo que eu pudesse desaparecer.
Me movi um pouco e ela acordou. Mergulhou os olhos fundo nos meus. E meu peito doeu...
- Bom dia! - Ela disse.
Palavras? Não mesmo. Respondi com um beijo intenso. Allison suspirou e correspondeu apaixonadamente.
Tudo bem, eu estava curtindo aquilo. Por isso me permiti aproveitar o momento. Pensaria mais tarde, quando tivesse... tempo...
As mãos dela já me percorriam, me fazendo prisioneira... Sem fôlego, sem chão, sem razão, me entreguei novamente...
Ficamos ali deitadas nuas, frente a frente. Os corpos colados, nos beijando com uma necessidade extrema.
A mãos de Allison entre as minhas pernas, tocando, acariciando, entrando deliciosamente... Fiz o mesmo com ela. Cada vez mais e mais palpitantes, os gemidos aumentando conforme os dedos aceleravam o ritmo da nossa... do nosso... Aquilo não era sexo, era...
Loucura... Crua e pura, um sabor envolvente que fazia com que tudo que eu já tinha vivido até aquele momento parecesse pouco e em vão...
Gemi alto, um arrepio me percorrendo quando Allison sussurrou em meu ouvido:
- Geme pra mim, Pam... Eu morro de tesão...
Me fazendo gemer novamente, e tornando impossível segurar por mais tempo a explosão de prazer que já me atingia com força porque... Allison me segurou pelos cabelos e ordenou:
- Abre os olhos...
Nossos olhos se encontraram, ela estava absolutamente ofegante, mas conseguiu repetir a frase que já tinha me feito derreter na noite anterior:
- Eu amo você...
Olhos nos olhos, de uma forma tão íntima que parecia não existir mais entre nós nenhum tipo de fronteiras, gozei com ela, me sentindo estranha e assustadoramente inteira...

Nunca pensei que algo ou alguém pudesse me deixar sem ação. Até me ver sentada no banquinho desconfortável da minúscula cozinha, vestida num shortinho e uma camisetinha de algodão que Allison devia ter comprado em algum tipo de... arg... liquidação...
Apesar de tudo, eu estava ali. Enquanto ela terminava de fazer café e colocava um bule de... não sei, algum tipo de latão? - na minha frente.
“Do meu jeito, Pam” – ela tinha dito na véspera. Eu concordei, é claro, mas aquilo tinha que ter um limite. O meu foi quando ela disse:
- Sirva-se.
Sinceramente? Ela esperava que eu fosse colocar o café na minha xícara sozinha? Eu nem imaginava um dia ter que fazer isso...
Percebendo minha indignação, Allison sorriu. E insistiu:
- Vamos lá... Não vai cair a sua mão...
Tive que protestar:
- Allison, isso é totalmente...
Mas ela não me deixou falar. Me calou com um beijo. Daqueles que faziam com que eu não conseguisse mais raciocinar. Depois, se colocou atrás de mim, me abraçando por trás, a boca colada na minha nuca, causando arrepios, as mãos conduzindo as minhas, me fazendo pegar a xícara e o bule e me servir.
- Viu só? Não doeu nadinh...
Não deixei que ela terminasse a frase... Calei a boca de Allison com a minha...

Depois de finalmente conseguir sair do chuveiro onde a coisa que menos fizemos foi tomar banho, com os cabelos insuportavelmente molhados – Allison não tinha secador de cabelos. Inacreditável! – e sem lavar – os shampoos e cremes eram de péssima qualidade, todos nacionais – deixei Allison na revista e fui para casa. Ela estava atrasada. Eu não tinha hora para chegar.
A experiência com Allison tinha sido perturbadora demais. Precisava de um tempo sozinha... para... precisava... ah, sei lá!
Em casa, mandei Paz preparar meu banho, enquanto eu tomava café da manhã de verdade. Estava deitada na banheira, completamente relaxada, querendo esquecer o quanto o lugar que Allison morava era simplesmente... esquecer era o que eu menos queria, porque incrivelmente, eu nem tinha me incomodado. A impressão que tinha ficado era muito agradável, por mais que eu quisesse não conseguia negar a verdade...
Foi quando Paz, muito sem graça, apareceu para interromper meus pensamentos:
- Dona Pamela, desculpe, mas... seu pai no telefone...
Tirei a máscara do rosto. Eu estava estranhamente bem humorada:
- Agora que você já incomodou, não adianta se desculpar.
E peguei o celular que a mão trêmula me estendia. Paz pediu licença e se retirou de um jeito... muito mais do que rápido.
- Alô, pai?
A voz dele soou preocupada:
- Filha, onde você está?
- Em casa. Por quê?
Ele ainda parecia bastante desconfiado:
- Te liguei várias vezes, passei na revista, e nem a Arlete sabia de você...
Aquilo conseguiu me irritar:
- Desde quando tenho que dar satisfações da minha vida a você?
Ele riu. Meu pai sempre se divertia às minhas custas. Adorava rir da minha cara... Aquilo me tirava do sério... Mas por outro lado, a voz dele soou carinhosa e bem humorada, exatamente como ele sempre fazia desde que eu era pequena, dissipando toda a minha raiva:
- Meu benzinho... sabe muito bem que da sua vida particular eu prefiro não saber nada. Principalmente depois de certas notas escandalosas em alguns jornais e revistas... Eu só... me preocupo com você, filha. Não quero que te aconteça nada de mal. Você é tudo o que eu tenho, sabe?
Chegava a ser hilário. Meu pai tinha tantos bens, ações, empresas, imóveis e etc que seria impossível enumerar... E me vinha com essa... Não dava para acreditar, muito menos entender. Realmente, meu pai era... um excêntrico. Continuou como se nada tivesse acontecido:
- Vamos almoçar?
- Por quê? Algum motivo em especial?
Ele continuou com a mesma voz tranqüila e serena:
- Pamela, eu sou seu pai. Não preciso de um motivo especial para querer te ver de vez em quando, não acha?
Suspirei fundo. Meu pai e suas bobagens sentimentais:
- Está bem. Onde?
- Eu passo aí para te buscar.
- Não precisa. Te encontro lá.
Ficamos assim, nessa discussão boba, até convencê-lo de que eu não tinha mais seis anos de idade, e poderia perfeitamente me encontrar com ele lá. Ele se despediu com a frase de sempre:
- Beijos, minha florzinha.
Ai... Aquilo me matava! Um horror! Surreal!
Ele adorava provocar. Fingi a maior indiferença possível, como se aquele tratamento imbecil não me incomodasse, encerrando a conversa com a minha resposta usual:
- Tchau, pai.

O almoço transcorreu tranqüilamente. Até o momento em que meu pai, me olhando profundamente nos olhos, disse com uma precisão cirúrgica:
- Você está diferente.
Teria engasgado, se eu não fosse... eu. Ele prosseguiu:
- Seus olhos estão... Pamela, você está apaixonada!
Eu ri, tentando ser convincente em minha negação, mas... ele nem me deixou falar:
- Por quem?
Nesse exato momento, meu telefone tocou. Olhei no visor: Allison. Se eu tivesse parado um único segundo para pensar, não teria feito o que fiz, mas algo dentro de mim falou mais alto, quando atendi o celular com o coração acelerado e um sorriso bobo, feliz nos lábios:
- Alô?
A voz de Allison soou estranha do outro lado. Um tom que eu não consegui identificar:
- Pam?
Meu pai me observava. Atentamente. Ainda assim minha voz insistiu em sair meiga, quase carinhosa:
- Eu. Fala.
Ela ficou um tempo em silêncio. Depois falou com uma certa dificuldade. Como se lutasse contra si mesma:
- Onde você está? Liguei pra sua casa e você não estava... Fiquei... preocupada...
O que era aquilo, afinal? O dia mundial de ser perseguida e vigiada? Com a desculpa de que se preocupavam comigo, como se eu fosse uma idiota incapaz? Aquilo me deixou muito mais do que irritada. Tanto que nem respondi. Deixei escapar um suspiro exasperado. Imediatamente ela pareceu surtar:
- Você não está com a Penélope, está?
Nunca, em toda a minha vida, alguém tinha falado daquele jeito comigo. Nem mesmo o Fábio, ou qualquer um de meus namorados. Todos eles tinham a noção do perigo. E jamais teriam coragem. Mas isso, obviamente, não era o que acontecia com Allison.
Naquele momento, eu tinha que ser firme. No mínimo responder: “Não é da sua conta, Allison”. Mas ao invés disso, o que foi que eu fiz? Ignorei completamente todo e qualquer tipo de racionalidade. Os fios invisíveis continuavam a me dominar. Isso ficou claro quando da minha boca saiu, num tom incrivelmente suave:
- Estou almoçando com o meu pai, Allison.
Ouvi um suspiro aliviado. E depois:
- Vem logo. Sem você essa revista é um tédio, sabe? Calmo demais...
A voz dela soou doce, mas com aquele jeitinho safado que era marca registrada de Allison... Eu gostei, e não consegui deixar de sorrir, parecia uma retardada...
- Daqui a pouco estou aí.
Depois de um tchau sedutor, sussurrado, muito mais do que melado - e que eu, de forma absolutamente inesperada, respondi da mesma forma - ela desligou. Guardei o celular. Meu pai me encarava, com um enorme sorriso nos lábios:
- Allison? Sua assistente?
Não precisou dizer mais nada. Ele sabia. Estava na cara. Eu já não conseguia disfarçar, muito menos negar... E o mais engraçado: ao invés de ter uma reação normal, que seria... ficar furioso, no mínimo – afinal, além de mulher, Allison era... uma de nossas empregadas... – ele parecia estranhamente feliz. Mas aquele era o tipo da conversa que eu não fazia questão de continuar:
- Por favor, pai. Não fala mais nada.
Ele acariciou o meu rosto suavemente. Nos olhos dele brilhava uma quase pena... Não, parecia mais... Uma espécie de empatia intensa, como se pela primeira vez pudesse entender o que eu estava vivendo...
- Se você mudar de idéia, e quiser conversar sobre isso, é só falar. Não é nada demais, Pamela. Faz parte da vida.
Sacudi a cabeça, negando tudo aquilo:
- Não da minha.
Meu pai sorriu. Como quem ri da teimosia boba de criança que não sabe o que diz. E falou:
- Não adianta. Você pode lutar, negar, fugir, mas só existe uma única forma do amor não ser uma coisa triste.
Era a primeira vez que meu pai dizia algo que realmente me interessava. Perguntei, quase assustada:
- Qual?
A resposta veio com um olhar firme, decidido. Muito diferente daquele olhar perdido que ele sempre tinha quando tentava falar sobre esse assunto comigo:
- Vivê-lo intensamente. Esqueça o resto, minha filha, e seja feliz.

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 26 - ALLISON

 

Depois que Pamela me deixou na revista eu fiquei pensando em como a noite havia sido perfeita. Caramba! Vocês tinham que ver a carinha dela quando eu disse que ela mesma iria se servir. A poderosa tá muito mal acostumada mesmo, viu? Sorri, achando graça do meu comentário. Alcancei o elevador... Continuei sorrindo. Era bom demais pra ser verdade. Assim que eu encontrar o Léo, vou perguntar a ele se viu a "Poderosa" lá em casa, ou se tudo o que eu vivi ontem a noite não passou de um sonho. Eu sei que ela me trouxe aqui na revista, me deu as ordens sobre o que fazer na ausência dela e foi pra casa. Provavelmente para tomar um banho com sais naquela banheira chique da sua suíte. Balancei a cabeça negativamente, sorrindo das caras e bocas que ela fez... Primeiro pelo secador que eu não tinha, depois pelo café que ela mesma teve que se servir. O elevador chegou no andar desejado... Desci... caminhei em passos lentos, quase relaxados pelo imenso corredor que me levaria direto até a sala de Léo. Não foi preciso, encontrei-o próximo a uma outra sala, a da diretoria.
- Perdido por aqui? – perguntei-o com um sorriso enorme estampado no meu rosto.
- Esse seu bom humor me irrita, sabia?
- Me diz, Léo! Você viu a Pamela lá em casa ontem?
- Tá doente? – colocou a mão na minha testa – Eu não vi nada! Eu não sei de nada! Gosto muito do meu emprego e não vou admitir nem pra você que a poderosa esteve na sua cama ontem a noite – se benzeu... Eu continuei rindo da cara dele – Cruz credo! Imagina se ela cogita a possibilidade que eu vou espalhar essa história por aí?
- Foi demais! – suspirei.
- Eu não quero saber, Allison! – tapou os ouvidos – Quanto menos eu souber dessa noite mais salvo o meu emprego estará – puxou-me para um canto – Estou com medo dela me despedir só pelo fato de eu morar com você, e estar em casa justamente quando você a levou lá.
- Você tá neurótico, Léo!
- E você está louca para ter levado a dona Pamela no nosso humilde alojamento!
- Hei! Ela gostou de dormir lá.
- Acorda, Allison! – me sacudiu – a toda poderosa deve ter odiado dormir lá! Onde ela está agora?
- Foi pra casa, oras! Tá cansada.
- A chefinha foi pra casa se curar, extinguir, se livrar... do momento de desequilíbrio profundo por ter ido dormir em um lugar que ela não esteve nem nos seus piores pesadelos.
- Você não vai conseguir me envenenar.
- Você está completamente perdida nas mãos dessa mulher, Allison! – disse antes de me dar tchau e sair em direção da sua sala... Virou-se novamente de frente pra mim, como quem esquece alguma coisa – Pensa bem – disse e dobrou o corredor.
Fiquei parada por alguns minutos refletindo nas palavras duras de Léo. Arlete passou por mim... Voltou até onde eu estava....
- Você está bem?
- S...sim.
- Ah, Ali! A dona Pamela ligou e disse que você fará o relatório da reunião com os franceses.
- S...sim... – fitei-a sem saber como lhe fazer uma pergunta – Ela disse se viria hoje? – disse num impulso.
- Virá no final da tarde – percebeu a minha total e completa curiosidade.. – Ela não disse, mas deve ter agendado almoço com alguém – completou.
- Ah, sim! Claro... Deve ser isso... – passei as mãos pelos cabelos... Nervosa... preocupada... Furiosa por estar me corroendo de ciúmes daquele... Almoço.

As horas não passavam.... Qualquer barulhinho na sala ao lado me fazia pular da cadeira e bater na porta-fronteira para saber se Pamela havia chegado. Liguei para Arlete inúmeras vezes para tentar descobrir se ela tinha notícias do paradeiro da nossa chefinha. Desisti, Arlete sabia tanto quanto eu: Pamela não dava satisfações a ninguém. Me contorci na cadeira... Relatório? Uma ova que eu terminei. Minha cabeça girava... Girava.... E não saia do lugar. Meus pensamentos estavam aprisionados em... Pamela. Aqueles olhos azuis dela estariam olhando pra onde nesse momento? Isso enlouquece, viu? Levantei-me de sobressalto... Fiquei andando pela sala com o celular nas mãos...
- Ligo ou não ligo? – pensei. Disquei o número dela – Ligo sim!
Pamela atendeu completamente desconcertada... Nesse instante passaram mil coisas na minha cabeça... Ela podia estar num motel com uma desconhecida... Em casa com um cara, vai saber, não é? Ou pior! Ela podia estar almoçando com Penélope! Isso sim me fez perder o controle da situação. Tanto que perguntei se ela estava na companhia daquela mulherzinha. Respirei alivia ao descobrir que Pamela estava almoçando com o sogrão, digo, com o pai dela. Não dá pra explicar como a minha fisionomia mudou de apavorada para tranqüila em frações de segundos. E sabe o que é mais engraçado nisso tudo? É que Pamela hesitou um pouco, mas me disse que estava com o pai. Ela podia ter me mandado ir a merda, não é? Seria mais provável. Desliguei o telefone aliviada. Fui até almoçar... Demorei um pouco mais na rua... Quando eu retornei... Passei na frente da mesa de Arlete na esperança que ela me desse ma boa notícia.
- A poderosa já está ai dentro. - Apontou a sala.
- Que ótima notícia! – pensei – Que bom, tenho que falar com ela... Urgente – entrei na sala sem nem mesmo bater... Perdi o ar ao ver Pamela tomando um café com o pai. Pensei em sair imediatamente dali, tamanho foi o meu constrangimento. Mas que droga! Arlete poderia ter me dito que ela não estava sozinha, mas também. Nem dei tempo dela dizer mais nada.
- Des...Culpa... – disse completamente desconcertada.
- Ali...Son – me encarou. O senhor simpático que se intitulava pai dela, levantou-se... Caminhou na minha direção exibindo um sorriso paternal que me deixou completamente... Imóvel.
- Ora, ora... – disse ele simpático – Assistente da minha filha.
- Boa tarde, Sr. Álvaro – apertei a sua mão estendida. Percebi que Pamela estava desconfortável na sua cadeira – Como tem passado? – tentei ser educada.
- Muito bem, querida! – colocou a mão no meu ombro, conduzindo-me para mais perto da mesa de Pamela – Estou surpreso com o seu desempenho aqui na empresa. Pelo que pude notar, dividir as responsabilidades de algumas tarefas com uma assistente eficiente como você, fez a minha filha Pamela melhorar muito o humor.
- Menos, pai – repreendeu-o – O senhor já não estava de saída?
- Ah, sim! – o homem olhou no seu relógio de pulso – Que pena, tenho um compromisso inadiável. Minha filha, por que não convida a Allison para jantar na minha casa qualquer dia desses?
- Prometo... Que... – levantou-se e veio até o senhor para conduzi-lo até a porta - Pensarei nisso – abriu a porta – Nos falamos outra hora, está bem?
- Claro, filha! – deu-lhe um beijo no rosto – Até logo, Allison.
- Até, Sr. Álvaro – disse num suspiro. Pamela fechou a porta e veio na minha direção... Ela estava... Estava... furiosa! Ergueu a sobrancelha e me encarou. Evitei o início da discussão agarrando-a pela nuca e selando um beijo cheio de saudade naqueles lábios cheios de feitiço. Ela tentava me empurrar ao mesmo tempo em que correspondia ao beijo...
- Alguém pode entrar, Ali – sussurrou com seus lábios presos nos meus.
- A Arlete tem que anunciar... primeiro. – disse ofegante enquanto a comprimia nos meus braços sentindo o contato dos seus seios nos meus... Suas coxas nas minhas... Seus braços envolviam o meu pescoço... Nossas línguas bailavam dentro das nossas bocas... Até... O barulho da porta nos fazer dar um pulo para trás... Bati com as costas na mesa, Pamela quase caiu ao tropeçar no carpete. Sr. Álvaro nos olhou com ar de riso. Posso arriscar dizer que ele não presenciou a cena, mas ficou intrigado com as nossas faces assustadas, ah, isso sim!
- Jantar na minha casa amanhã a noite? – disse ainda com a mão na maçaneta.
- Ok, pai! Você venceu – concordou tentando se recompor do susto.
- Às sete, não se atrasem – sorriu – Será um prazer tê-la em minha casa, Allison.
- O...O...Prazer será todo meu, Sr Álvaro – tentei respirar após dizer essa frase. Ele fechou a porta... Pamela caminhou completamente sensual até a porta.... Depois do gesto de trancá-la, ela ficou encostada na mesma como se me chamasse. Encarei os seus olhos azuis e sorri pra ela. Caminhei lentamente na sua direção. Meu coração acelerava de desejo... paixão... pulsava de amor por ela. Apoiei as mãos espalmadas entre a porta e o pescoço dela... Continuei fitando os seus olhos... Acompanhei o seu gesto de umedecer os lábios com a pontinha da língua e depois sorrir pelo cantinho da boca...
- Senti saudades – sussurrei, logo grudei o meu corpo ao dela... Ouvi o seu gemido próximo ao meu ouvido, depois ela me deu uma mordida considerável no pescoço. Agarrou-me com força pela nuca... Deslizei minhas mãos pelas laterais do seu corpo... Ergui a sua saia... Elevei a sua perna esquerda... Afastei um pouco o meu corpo, logo, enfiei os dedos pelas laterais da sua calcinha... Ela gemeu mais alto... Apertou o meu pescoço com as mãos... Mordeu a minha orelha...
- Estou toda molhada pra você. – estremeci com as palavras que ela pronunciou com aquela voz rouca. A penetrei com força fazendo as costas de Pamela baterem na porta de madeira. O barulho foi inevitável. Os gemidos e sussurros se intensificaram sem que nós duas pudéssemos controlar. Eu estava cada vez mais dentro dela... Seu sexo encharcado facilitava a entrada dos meus dedos... Minha respiração descompassada acariciava a nuca daquela mulher excessivamente sedutora... Pamela me apertava, me implorava que a comesse mais rápido... Os seios dela estavam rígidos a ponto dos bicos serem sentidos pelos meus. Pamela gozou no mesmo instante em que bateram na porta... Nós não conseguíamos respirar... O cheiro de sexo circulava por todo o ambiente... Nos olhamos sem saber o que fazer....
- Você manda, eu obedeço – disse passando as mãos pelos cabelos tentando ajeitá-los. Pamela abaixou a saia... Ajeitou a blusa, depois caminhou lentamente até a sua cadeira e sentou-se.
- Abre a porta Ali – disse com o tom de voz altivo. Abri a porta. Arlete entrou reparando no ambiente. Olhando pra minha cara como se me perguntasse o que estava acontecendo.
- Desculpe incomodar, dona Pamela – disse temerosa. Pamela a olhava como quem olha um inseto. Putz! Isso intimida qualquer um – Esses documentos precisam da sua assinatura com urgência.
Ela não disse nada... Apanhou a papelada nas mãos... Olhou... Em seguida distribuiu três assinaturas.
- Pode ir – disse sem sequer olhar na direção de Arlete. A secretaria passou por mim como um furacão.
- Pam...
- Você também pode ir, Ali – interrompeu-me.
- Não... Não vai precisar mais de mim?
- Se eu precisar te chamo, está bem?
- Está – respondi sem conseguir entendê-la. Será que ela nunca vai mudar? Já estava caminhando em direção a porta anexa a da sala dela quando a ouvi me chamar novamente. – Pois não?
- Sairemos daqui amanhã direto para a casa do meu pai, certo?
- Sim...Senhora.
- Pode ir.
Balancei a cabeça negativamente e saí da sala...

 

 

Capítulo 27 - PAMELA

 

***Pamela***
No dia seguinte, quando o expediente acabou, uma Allison absolutamente sorridente entrou na minha sala... sem bater.
Eu estava profundamente irritada. Ela sabia, impossível não perceber. Aquele era para mim, o começo de um pesadelo. Daqueles que a gente sabe que não tem como conter.
Jantar com Allison na casa do meu pai... Não sei o que me apavorava mais... Allison, ele, ou eu mesma?
Minha voz saiu tensa, mas... suave. O tom que parecia vir sem querer sempre que eu falava com ela:
- Vamos?
Allison me seguiu sem dar uma palavra. Incrivelmente inteligente ela. Tinha, no mínimo... bom tato. Eu realmente não estava para conversa. Liguei o som do carro, para não dar espaço para palavras. Elas tinham se tornado absolutamente dispensáveis a partir do momento em que eu tinha me permitido... despencar no inacreditável...
Quando parei o carro em frente a casa do meu pai, Allison estava paralisada, sem respirar. Da guarita, o segurança abriu o portão sem nada perguntar. Conhecia meu carro, e a placa. Contornei o jardim que meu pai adorava. Parei em frente à escadaria da porta principal do enorme casarão de dois andares. Desci do carro.
Allison me seguiu. Tentando disfarçar, mas era evidente que estava impressionada:
- Puxa... Sua infância não deve ter sido nada fácil...
Aquilo me fez... rir! Olhei para ela, me olhando com aquele jeitinho implicante e safado. Achando incrível como ela conseguia fazer meu humor melhorar...
O manobrista totalmente uniformizado se aproximou. Antigo, mais de 20 anos de casa, como todos os empregados de meu pai.
- Boa noite, dona Pamela.
- O que tem de boa?
Respondi, atirando a chave do carro. Ele se esforçou, mas... não conseguiu pegar no ar como fazia anos atrás.
- Você está velho, Victor. Hora do meu pai te aposentar...
Ele me olhou magoado. Exatamente como eu queria e adorava.
Allison me seguiu. Pela respiração dela eu podia sentir que estava revoltada. Antes que eu chegasse na porta, ela me puxou pelo braço. Reprovou:
- Precisava tratar o senhor daquele jeito, Pam?
Olhei para ela perplexa... Será que Allison não entendia nada?
- É só um empregado, Allison...
Os olhos dela se fixaram profundamente nos meus. Daquele jeito que só Allison conseguia ter coragem de me olhar. Antes de perguntar:
- E eu? Também sou só uma empregada?
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu:
- Boa noite, dona Pamela!
Olhei para Allison tentando fazer com que ela entendesse:
- Viu? São todos iguais...
Entrei, passando por Consuelo sem nem cumprimentar. Apenas tirei o casaco e atirei em cima dela, que disse:
- Seu pai está no escritório...
A fuzilei com o olhar. Era por isso que eu odiava ir na casa do meu pai. A criadagem era... abusada demais. Além do fato de me conhecerem desde criança, ainda tinha o agravante de meu pai insistir em tratá-los quase como iguais. Vergonha, absurdo total! Imediatamente a coloquei no lugar:
- Ninguém te perguntou nada.
Segui pelo corredor, sem olhar para trás. Allison deu boa noite para ela – eu merecia! Cercada por idiotas que insistiam em ser simpáticos... - e depois me seguiu quase correndo.
Parei na porta do escritório, olhei para Allison, e disse:
- Nunca, jamais volte a tratar pessoas inferiores a você como iguais.
Ao invés de olhar para mim, Allison estava... com o olhar parado, completamente sem graça. Me virei e percebi o porque. Meu pai, parado com a porta aberta às minhas costas. Os olhos dele brilharam, decepcionados, como se não acreditasse. Não entendi a razão, uma vez que eu não tinha dito nada demais. Nada que eu já não tivesse dito milhares de vezes naquele mesmo lugar...
- Pensei que você tivesse mudado, Pamela. Mas parece que eu estava enganado.
- Nossa, pai... Mudar para que? Me acho perfeita, sabe?
Passei por ele, e me sentei num dos sofás. Meu pai me ignorou completamente. Toda a atenção dele estava voltada para Allison. Com um sorriso muito mais do que simpático, carinhoso até demais, estendeu a mão para ela, dizendo:
- Boa noite, Allison. Seja bem vinda. É um prazer recebê-la em minha casa. Você não sabe ainda, mas é muito importante para a minha filha...
Prendi o gemido que subiu por minha garganta nos lábios. Se olhar matasse, meu pai cairia morto ali mesmo, porque o meu naquele momento foi uma bomba H...
- Pai!
Ele riu. E continuou a me envergonhar:
- Desculpe a minha filha... Como você já sabe, infelizmente doçura e suavidade não são o forte dela, mas... Você não deve se acostumar. Ela precisa e pode mudar.
Minha cabeça se moveu de um lado para o outro, negando inconscientemente aquela situação totalmente surreal. Que continuou:
- Pode contar comigo se precisar.

No decorrer da noite, a situação só fez piorar. Meu pai parecia encantado por Allison. Ouvia atentamente tudo o que ela dizia.
Nem se importou quando ela se atrapalhou com os talheres, sem saber qual usar. Expliquei:
- Eles estão em ordem, Allison. É só você usar os de fora, cada vez que trocarem o prato. E os copos...
Meu pai nem me deixou terminar:
- Não se preocupe, Allison. No fundo nada disso importa, sabe?
Encorajada, Allison ainda completou:
- Eu também acho. Mas... Algumas pessoas dão importância demais a formalidades...
Os dois me olharam. E depois riram, com cumplicidade. Quando pensei que não pudesse piorar, percebi que estava enganada:
- O que você pensa sobre a “Gente Chique”, Allison?
Completamente à vontade, Allison começou a falar. Fez várias críticas... Eu estava... sem saber até quando conseguiria agüentar. Meu pai escutava, concordando. Parecendo bastante impressionado. Quando Allison começou a dar idéias, propor mudanças, foi demais. Tentei cortar, mas...
- Quieta, Pamela. Quero ouvir o que Allison tem para me dizer.

Entrei no carro com Allison ao meu lado. Nem com o final daquela experiência terrível consegui me sentir aliviada. Não estava acostumada a ser a vítima, normalmente era eu quem torturava...
A alegria evidente de Allison – ela só faltava cantar do meu lado! - só servia para aumentar ainda mais a minha raiva. Mas apesar de tudo – me maldizendo por dentro – eu queria, desejava, precisava ter Allison na minha cama a noite inteira... Por isso engoli a irritação, e fiquei calada.
- Gostei muito do seu pai. E adorei o jantar.
A pouca, quase inexistente paciência que eu tinha foi para o espaço:
- É mesmo? Eu me senti um fantasma... Vocês dois praticamente me ignoraram a noite inteira... Se adoraram, não é mesmo?
Allison me olhou boquiaberta. Sem acreditar. Meu tom de voz revelava muito mais do que eu gostaria, muito mais do que eu me permitiria em condições normais. Mas naquele momento, eu já não conseguia fingir a indiferença de praxe...
- Pam, você está... enciumada?
Dei uma risada. Tentando ser convincente em negar, mas... Allison me beijou no rosto, acariciou meus cabelos, quase explodindo de felicidade. Resisti a princípio, tentando me soltar. Mas ela insistiu, me beijando mais e mais:
- Pois fique sabendo que meu sogrão e eu temos uma coisa em comum...
Sogrão? Mais do que sorrindo, eu estava rindo. Allison era... instigante era pouco, ela era... de um jeito que eu nunca tinha visto igual. Parei no sinal vermelho. Olhei para ela de uma forma que fez com que os olhos castanhos cintilassem. Perguntei:
- O que?
Ela abriu um sorriso incrível. Antes de responder:
- Nosso amor por você.
Os fios invisíveis voltaram... A olhei como eu nunca pensei ser capaz... Segurei o rosto dela entre as mãos e mergulhei os lábios nos de Allison com um suspiro apaixonado...

Entrei no apartamento agarrada em Allison, sem nem me importar se Paz estava ou não acordada. Aproveitei o momento em que paramos para respirar para a puxar pela mão até a cobertura. Me apoiei no parapeito, apreciando a vista. Allison me olhou, depois me abraçou por trás, o corpo grudado no meu enquanto sussurrava em meu ouvido:
- Isso me lembra a primeira vez que te vi. A única diferença é que naquele dia você estava chorando.
Dei uma gargalhada, e me virei para ela, dizendo:
- Chorar é para perdedores, Allison. Eu sou uma vencedora. Jamais esqueça disso.
Os olhos castanhos mergulharam nos meus. Pareciam... cheios de pena...
- Deve ser duro pra você.
Devolvi o olhar, sem entender:
- O quê?
Ela respondeu sem hesitar. De uma forma amorosa e suave:
- Se fazer de insensível o tempo inteiro.
A conversa estava ficando séria demais, de um jeito que eu absolutamente não podia permitir:
- Allison, minha querida, sofrer para que? Pura perda de tempo... Já que a vida não passa de um aglomerado de momentos, que eles sejam todos de total e profundo prazer... A começar por esse...
Colei a boca na dela com paixão. A conduzi para trás, até que as pernas dela encostassem numa das espreguiçadeiras. A empurrei com força, fazendo com que ela caísse sentada. Allison me olhou surpresa, numa expectativa silenciosa, no olhar um brilho intenso...
Abaixei as alças do vestido, deixando que ele escorregasse por meu corpo abaixo. O conjunto de sutiã e calcinha pretos minúsculos e transparentes que eu usava obtendo o efeito desejado... As mãos de Allison avançaram, mas eu as impedi, com um gesto. Me aproximei, fiquei entre as pernas dela. Disse:
- Eu mando e você obedece.
Ela concordou, claro. Ordenei:
- Toca nos meus seios.
Com um sorriso safado, Allison fez o que eu mandei. Acariciou da forma deliciosa de sempre. Os dedos escorregando por baixo do tecido, tocando os bicos, deixando-os completamente intumescidos.
- Tira meu sutiã e chupa.
As mãos dela me livraram da peça de roupa habilmente. Deixei escapar um gemido quando a boca de Allison desceu vorazmente, fazendo com que manter o controle se tornasse muito, mas muito difícil mesmo.
- Quero sentir suas mãos...
Allison não se fez de rogada. Me tocou inteira, sem parar de lamber, chupar, beijar meus seios... Eu gemia, me derretia sob as carícias experientes... Quando os dedos me acariciaram entre as pernas, afastaram a calcinha e alcançaram meu sexo, minhas pernas estremeceram.
E eu sabia perfeitamente que era mais do que aquilo, além do tesão, do sexo... aquela menina me tocava... por dentro... O simples pensamento causou uma dorzinha de prazer... Eu já não ordenava, pedia:
- Me faz gozar na sua boca...
Allison me virou, me fez trocar de lugar com ela, ajoelhou na minha frente. As mãos passearam pelo meu corpo, provocando arrepios. A boca mergulhou na minha, depois desceu devorando cada milímetro do meu corpo dizendo:
- Você me enlouquece... Nada mais justo que... eu fazer o mesmo com você...
Começou a me chupar ainda por cima da calcinha. Me deixando derretida, enlouquecida, para e por ela... Senti os dedos de Allison driblando a lateral da peça íntima, entrando dentro de mim... Meus quadris acompanharam o movimento instintivamente. Eu já não controlava o que dizia:
- Gostosa... delícia de mulher... vou gozar... só pra você... continua assim...
Eu já estremecia. Allison, percebendo o quanto meu gozo estava perto se afastou. Quase gritei:
- Não!
A puxando pelos cabelos desesperadamente. Com um sorriso safado, sedutor, ela disse:
- Sim... Agora quem manda sou eu...
Tirou minha calcinha devagar, me olhando nos olhos sugestivamente. Deitou em cima de mim, encaixando minha coxa entre as pernas dela. Começou a se esfregar, molhando toda a minha perna. Acompanhei o movimento dela, ansiando por um contato mais pleno.
- O que você quer, Pam? Fala... Adoro ouvir...
Ofegante, entre suspiros e gemidos, implorei:
- Me come, Allison... Quero você...
Rapidamente, ela me satisfez. Os dedos voltaram a me tocar, deslizaram para dentro de mim outra vez. Ela grudou a boca no meu ouvido, repetindo:
- Assim, meu amor... Dá gostoso pra mim, Pam...
Eu já estava quase gozando novamente... Mas Allison interrompeu mais uma vez. Ficou imóvel em cima de mim, ignorando meus protestos completamente:
- Ainda não. Temos a noite inteira...
Gemi alto. Mordi o pescoço dela com força. Allison gemeu, e depois riu, dizendo:
- Calma... Paciência...
E foi tortura. Um delicioso e alucinante tormento. Com Allison entre as minhas pernas, rebolando, me levando a picos cada vez mais altos de prazer. Acelerando, me enlouquecendo, e parando, não me deixando gozar, depois começando tudo novamente... Eu a apertava com força, a puxando mais e mais para mim. As mãos arranhando as costas dela, se enfiando na nuca, nos cabelos. Meus lábios roçando no ouvido de Allison, sussurrando palavras às vezes doces, às vezes excitantes, e então suplicando para que me fizesse gozar, quase em desespero...
O auto controle dela era inacreditável... Eu já não sabia onde estava... A única coisa que importava era a maravilhosa sensação de a ter em meus braços, pertencer à ela, poder me entregar totalmente... Os toques, o gosto, o cheiro me fazendo perder toda e qualquer forma de controle, razão, barreira...
Eu me contorcia, tentando evitar que as palavras insensatas que surgiam escapassem dos meus lábios... Impossível. No auge da paixão, falei:
- Allison... Quero gozar com você... Vem, amor, vem...
O gemido que ela deixou escapar, a forma como estremeceu... Deixou claro que tinha se descontrolado, que estava como eu... Nossos movimentos se tornaram totalmente passionais. Nos buscando, nos fundindo, entrando juntas numa explosiva e ardente forma de esquecimento... Nada mais importava. Nada mesmo. Apenas a energia surpreendente daquele orgasmo deliciosamente violento e intenso, que nos tornava uma só naquele momento.

Allison se moveu em cima de mim preguiçosamente. Antes de capturar meus lábios num beijo ardente. Virei para que ficássemos deitadas de lado, frente a frente. Quando o beijo terminou, ela ficou me olhando de um jeito... percustador... uma grande interrogação nos olhos castanhos...
Aquilo me assustou, mesmo sem que eu soubesse exatamente porque. A resposta rapidamente veio:
- Pam?
Não me deixei enganar pelo tom inocente. Perguntei, deixando claro a minha total impaciência:
- O quê?
Allison sorriu. Um sorriso doce, muito doce... Antes de dizer:
- Foi a primeira vez que você me chamou de amor... Eu adorei.
Sentei, ajeitando os cabelos. Tentando fingir indiferença. Minha voz não conseguindo disfarçar a confusão em que estavam meus sentimentos:
- Eu... estou toda suada, vou dar um mergulho. Você vem?
Me afastei rapidamente. Cheguei na beira da piscina e a olhei disfarçadamente. Allison me fitava, largada na espreguiçadeira, com os braços cruzados atrás da cabeça, absolutamente satisfeita. Mergulhei na água gelada, tentando esfriar as sensações que me dominavam... Inutilmente.

 

 


 CAPITULO 28 - ALLISON
 


Olhar Pamela nadar naquele momento, linda, majestosa, lutando internamente para admitir que desejava o mesmo que eu, me fez ter certeza de que eu havia sido tomada por uma sensação de felicidade difícil de explicar. Sabe quando você está feliz, simplesmente? Pois é! Ouvi-la me chamar de meu amor naquele momento em que o meu corpo estava completamente entregue... tanto quanto o dela ao prazer, foi mágico demais. As pessoas desconhecem que muitas vezes uma simples palavra pode mudar tudo. Inclusive dentro de nós. Pamela podia mudar tudo se quisesse. Ela disse "meu amor"e conseguiu me proporcionar aquele êxtase de felicidade. Viram? As palavras têm força. Pena que muitos de nós, assim como Pamela, se recusam a dizê-las. Ela por medo de ser aprisionada no desconhecido dos sentimentos. Outras porém, deixam as palavras esquecidas, completamente abandonadas no escuro do seu próprio egoísmo.

Pamela, completamente nua, saiu da água e caminhou na minha direção deixando um rastro de água que escorria pelo seu corpo. Levantei-me e alcancei uma toalha. Envolvi-a ...

- Não está com frio? – sussurrei no seu ouvido. Visualizei os pêlos dos seus braços... Ela ficou com o lado direito do corpo todo arrepiado.

- Por que ter te chamado de meu amor fez tanta diferença, Ali? – virou-se de frente para mim. O azul dos seus olhos me encararam profundamente. Ela queria uma resposta para o que estava sentindo? Seu olhar parecia suplicar por ajuda, mas seu orgulho falaria sempre mais alto. Disso eu tinha certeza. Sorri para ela. Ergui a toalha... Enxuguei seus cabelos delicadamente. Eu não tinha pressa para responder aquela pergunta, era ela quem se debatia interiormente. Eu sabia o que queria. Pamela quem teimava em tentar me expulsar de sua vida. Seus lábios entreabriram para pronunciar alguma palavra... Toquei-os para que ela se calasse novamente.

- Porque para quem ama, como eu te amo, qualquer demonstração de afeto pode levar até a calmaria da felicidade.

- Patético... Isso que você acabou de dizer, Allison! – fitou-me tentando disfarçar a inquietude que as minhas palavras lhe causaram. Hesitou um pouco, mas já estava se esquivando de mim. Segurei seu braço... Joguei a toalha no chão... Agarrei-a pela cintura com a mão direita. A esquerda segurava delicadamente o seu queixo com a finalidade de não deixá-la desviar o olhar...

- Eu te amo Pam – sussurrei – O que você sente quando ouve isso?

- Me leva pra cama – disse encarando os meus lábios.



Senti o seu corpo aquecido aninhar-se ao meu de uma maneira completamente provocante... Beijei sua boca enquanto minhas mãos percorriam as suas costas. Afagando a sua pele... Em seguida meus lábios desceram pelo seu pescoço... Beijando... Mordendo cada pedacinho daquela pele... Caminhamos de volta à cama. Eu não queria torturá-la como da última vez... Estávamos entregues...Completamente excitadas... As costas de Pamela tocaram a superfície macia do colchão... Meu corpo imediatamente pesou sobre o dela.... Minha coxa no meio das suas pernas media a sua excitação... A sua, no meio das minhas, me provocava arrepios por todo o corpo. Gemi no ouvido dela. Pam cravou as unhas nos meus ombros e empurrou-me de encontro ao seu sexo.... Não hesitei... Eu queria... precisava sentir o gosto dela para saciar os meus desejos... Acariciei os seus seios com a ponta da língua, depois devorei-os faminta.... Chupando-os com urgência... Seduzida pelos gritos de prazer daquela mulher linda que se entregava inteiramente a mim naquele momento... Desci os lábios pelo seu ventre... Mordendo... Marcando com a saliva o caminho desejado... Beijando a barriga... As laterais do corpo... Acariciando o seu umbigo... Ela tremendo... Empurrando a minha cabeça... Sussurrando indecências... Me acendendo cada vez mais... Alcancei suas coxas...Deslizei os lábios quentes... Senti a sua excitação com os dedos... Pamela pensou que eu iria torturá-la novamente.

- Sem gracinhas, Ali – disse ofegante – Enfia essa língua dentro de mim, agora!

Sorri antes de mergulhar dentro dela com a língua e com os dedos que instintivamente procuraram aquele caminho delicioso de prazer... Pam gemeu alto... Começou a rebolar na minha frente... Puxar meus cabelos... Se contorcer nos lençóis... Devorei o seu sexo... A penetrei com desesperada fome... Senti a sua respiração alterada... Aumentei o atrito dos meus lábios... Língua e dedos dentro dela... Gozei junto com ela... Sentindo a vibração gostosa daquele corpo quente como brasa. Desfaleci aos pés de Pamela... O silêncio perpetuou aquele ambiente até que os nossos olhos se encontraram, e disseram ao mesmo tempo: eu te amo... Ainda no silêncio daquele momento.

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII


Chegamos cedo à revista. Pamela não se importou que nos vissem chegar no mesmo horário. Também, se alguém tivesse a ousadia de fazer algum tipo de comentário era capaz de ser demitido.

Caminhamos direto para a sala da poderosa.Assim que nos viu, Arlete veio correndo com um bloco de anotações nas mãos. Estava visivelmente preocupada. Fechou a porta atrás de nós... Respirou, enfim... A coitada parecia que iria tirar o pai da forca.

- Desculpe entrar na sua sala desta maneira, Dona Pamela, mas...

- Espero que tenha um motivo realmente fenomenal para tamanha invasão inoportuna, Arlete. – disse áspera fazendo a secretária estremecer e gaguejar.

- Dona Pamela, a reunião de hoje foi desmarcada. – disse de imediato e sem respirar. Soltou o ar em seguida...

- A reunião com os franceses? – olhou-a incrédula – o que está me dizendo, infeliz? – fuzilou a secretária com um olhar enraivecido - Não posso acreditar que aqueles incompetentes desistiram do negócio. Isso é inadmissível!

- Não! De forma alguma, Dona Pamela. Eles não desistiram do negócio – disse com voz trêmula...

- Por que esse reunião foi desmarcada? – olhou para Arlete como se ela tivesse culpa pelo cancelamento da reunião, ou pior, como se a possibilidade da revista não conseguir o contrato fosse culpa da secretária.

- Seu pai... Seu pai... Acha melhor que a senhora vá pessoalmente para a França.

- O quê?

- Ele que cancelou a reunião, Dona Pamela. Pediu que eu providenciasse tudo para a viagem de vocês duas – olhou na minha direção ao terminar de falar. Fiquei sem saber o que pensar. O que o Sr Álvaro pretendia com essa mudança de planos? Ele foi muito ousado desmarcando uma reunião que já estava agendada há meses.

- Meu pai está ficando louco! – disse incrédula – Imagina se aqueles franceses tomam esse adiamento como uma ofensa? Lá se vão rios de dinheiro. – sentou-se na sua cadeira - Pode ir, Arlete.

- Dona Pamela, só uma última....

- Eu já disse que pode ir! – falou alto. Arlete engoliu em seco.

- Com sua licença – disse e saiu com o bloco de anotações colado ao corpo como se ele fosse defendê-la de alguma forma. Ao sair, a mulher encostou a porta silenciosamente.

Fiquei olhando para Pamela sentada na sua cadeira...Completamente perdida nos seus pensamentos...

- O que você quer me dizer, Allison? – ergueu a face encarando-me de frente.

- Não quero te dizer nada – disse séria – Cansei de discordar dos seus atos de tirania para com os seus – frisei os seus – Subalternos.

Pamela ergueu as sobrancelhas... Continuei falando... Ela quieta...

- Cansei de sentir pena sua por sempre ter que pisar em alguém para exercer o seu poder. – aproximei-me da mesa dela...Coloquei as duas mãos espalmadas na mesma... Inclinei meu corpo para frente... mergulhei no azul dos olhos dela como quem mergulha no mar revolto – Queria ver como seria se você tivesse desse lado da mesa.- ficamos alguns minutos nos encarando em silêncio...

- Já esteve na França, Allison? – disse com ar de riso, ignorando completamente o meu comentário.

- Não, dona Pamela – disse com sarcasmo – Será um privilégio estar na França pela primeira vez em companhia tão agradável.

- Adoro o seu senso de humor – sorriu por entre os dentes, depois voltou a ficar séria – O meu pai me paga! – disse.

- Estarei na minha sala se precisar de mim – caminhei lentamente em direção a porta anexa... Antes de ser expulsa como Arlete.



 

 

CAPITULO 29 - PAMELA

 


- Pam, no que você está pensando?
Levei um susto quando Allison falou, a boca próxima do meu ouvido, com aquela intimidade inevitável que aquela semana bizarra tinha conferido à ela.
Estávamos deitadas na minha cama depois de horas de uma entrega absolutamente exigente, e que estranhamente, tinha se tornado a nossa – eu já estava até começando a pensar na 1ª pessoa do plural... incrível... – assustadora rotina...
Mas o que mais me angustiava, era o fatídico momento noites atrás, que eu não conseguia tirar da cabeça:
- Eu te amo Pam. O que você sente quando ouve isso?
Depois daquilo, Allison tinha insistido em repetir a frase inúmeras vezes. Causando sempre um efeito inevitável... Uma onda de calor extrema, um prazer quase latente me subia pelo estômago, e me arrepiava inteira, me enchendo de vontade de... corresponder, mas... eu reprimia, me continha. Não podia nem queria dizer... Não em palavras...
Todas as noites depois do expediente, eu a trazia para minha casa. Allison não tinha me pedido para voltar ao lugar deprimente em que se escondia – impossível chamar aquela ratoeira de casa ou moradia – e eu estava muito aliviada com isso.
- Precisamos comprar roupas para você, Allison.
Ela colou o corpo atrás de mim. A mão passeando cheia de promessas pela minha pele, enquanto a boca colava em minha nuca causando arrepios:
- Continua detestando o jeito que me visto?
Ela não seria a Allison que eu conhecia se não contestasse quase tudo o que eu dizia... Me virei para ela com um sorriso. Daqueles que eu sabia que para ela era irresistível:
- Não é isso. É que em Paris faz frio. Você não quer congelar, ou algo do gênero, não é mesmo?
Allison levantou uma das sobrancelhas, depois me lançou aquele olhar safado típico:
- Acho difícil sentir frio perto de você...
Aproximou a boca da minha, mas desviei no último momento, para responder:
- Vai sentir. Acredite em mim.
Ela não disse nada. Ficou calada, me olhando profundamente, com um brilho de admiração nos olhos que fez meu coração acelerar de repente:
- Eu ainda não consigo acreditar, sabia?
Toda vez que o assunto começava a ficar perigoso, minha tática era a mesma: colava meus lábios nos de Allison, impedindo que ela continuasse. Não permitindo que ela entrasse em detalhes que apenas seriam terrivelmente embaraçosos... Evitava as palavras, mas não conseguia deixar que expressássemos tudo com as mãos, a boca, e os corpos...

Na véspera da viagem, quando voltei do almoço, uma Arlete quase apavorada me disse, quando eu ia entrar em minha sala:
- Seu pai está aí dentro, dona Pamela. Com a Allison. Pediu para que a senhora batesse antes de entrar...
Abri a porta rapidamente. Mil coisas passando pela minha cabeça... Absurdo! Que coisa sem sentido era aquela? Bater antes de entrar na minha própria sala?
Meu pai estava sentado na minha cadeira. Allison em pé do outro lado da mesa – ela detestava a cadeira que engolia as pessoas... A distância entre eles me deixou tranqüila com relação a um dos meus medos, mas... não com relação a outros... Principalmente quando o olhar de Allison se desviou do meu, como se escondesse algo...
- Posso saber o que está acontecendo?
Meu tom de voz deixava claro que eu estava profundamente irritada. Meu pai sorriu, e respondeu:
- Estava só pedindo para Allison tomar conta direitinho de você...
Tomar conta? Meu pai só podia estar brincando... Minha resposta foi brusca, agressiva, cheia de raiva:
- Isso vindo de alguém que me mandou para um internato aos seis anos de idade, num país onde eu nem falava a língua chega até a ser engraçado... Uma preocupação um tanto quanto tardia, não é verdade?
Allison ameaçou se aproximar, mas a impedi com um gesto. Antes de continuar:
- Dos seis aos onze na Inglaterra, e depois, quando eu finalmente dominei a língua, e comecei a pensar naquele maldito colégio como um lar, me transferiu para a Suíça, lembra?
Meu pai levantou da cadeira, e respondeu com um tom de voz tão carinhoso que era quase uma ofensa:
- Pamela... Filha... Eu fiz o melhor que pude, te dei a melhor educação possível... Você não pode reclamar...
Ele tentou se aproximar. Eu recuei. Não queria que ele me tocasse. O fuzilei com o olhar:
- Não estou reclamando, pelo contrário. Graças a isso sempre cuidei muito bem de mim mesma, obrigada. Não preciso de nada nem ninguém. Eu me basto. E não admito que você se intrometa na minha vida desse jeito.
Ele abriu a boca para falar, mas não permiti:
- Já sei o que você vai dizer. Que é meu pai... Pois fique sabendo que isso para mim não faz a menor diferença. Não passa de uma palavra. Mais nada.
Olhei para Allison. Nunca a tinha visto com um olhar assim... Absolutamente triste... Um misto de decepção, dor, mágoa... Eu não entendia porque.
Meu pai me abraçou forte. Os olhos de Allison me paralisavam... Não tive forças para me esquivar, muito menos resistir. Nem quando ele me beijou no rosto, antes de dizer:
- Eu sei que eu fui um pai ausente, que eu nunca interferi em nada. Mas isso vai mudar.
E saiu com um ar insuportável de quem está com a razão... sem que eu pudesse contestar. Allison me disse seca, sem nem me olhar:
- Estarei na minha sala se precisar.
Se virou e também saiu da sala. Antes que fechasse a porta de comunicação, a impedi dizendo:
- Espera, Allison...
Atravessei o espaço que nos separava rapidamente. Allison se recuperou da surpresa apenas para dizer, como um tom profundamente magoado na voz:
- Pois não, dona Pamela? Precisa de algo? Desculpe, eu quase esqueci: “Não preciso de nada nem ninguém”, não é assim?
A segurei pelos braços, fazendo com que me olhasse. Os olhos dela estavam marejados, e estranhamente, aquilo doeu como se fosse em mim. E então, o que eu fiz? A coisa mais incrível: tentei... me explicar...
- Allison, o que eu disse não se aplica a você.
Ela me olhou profundamente. Aquele jeito “Allison” de olhar... Como se pudesse desvendar a minha alma ao questionar:
- Não?
Respirei profundamente. Fui absolutamente clara, sem rodeios:
- Você é diferente.
Os olhos dela brilharam, antes de Allison inquirir:
- Por quê?
Maldita mania de querer palavras. A pouca paciência que eu tinha se desvaneceu:
- Será possível que você não percebe? O que quer que eu fale?
- Você sabe.
Me afastei dela, jogando o cabelo com a mão, num gesto que me era totalmente estranho. Logo eu, que me orgulhava de ter um controle extremo, que nunca me desesperava. Antes de Allison, é claro.
Ela se aproximou lentamente. Me puxou pela cintura e com um carinho doce, meigo, beijou meus lábios. Os olhos dela refletiam um amor sincero, inegável. Estremeci entre os braços dela, uma angústia intensa quase me impedindo de respirar.
Allison percebeu o meu tormento, acariciou meu rosto dizendo de forma absolutamente suave:
- Calma. Não quero te forçar a nada. Mas um dia, você vai me dizer.
Eu estava... exasperada, emocionalmente abalada... A frase saiu quase como uma forma de defesa:
- O quê?
Com um sorriso lindo, que me fez sentir incontáveis ondas de frio e calor percorrendo meu corpo inteiro, ela respondeu:
- Eu amo você.
Nós duas sabíamos o quanto eu estava indefesa. E como sempre, Allison foi perfeita. Me puxou para ela, recebeu meu corpo, que se aqueceu no conforto que era poder me recostar de olhos fechados nela. Sussurrei:
- Allison...
- O quê?
- Me abraça...
Não queria beijar, não queria sexo, não queria nada. Só queria ser abraçada. Me sentir segura nos braços da mulher que eu... amava. Ela me estreitou, me apertando com força. Fechei os olhos e aproveitei... era a primeira vez que sentia aquela estranha sensação... precisar... ter e ser de alguém... e por mais bizarro que pudesse parecer, era... intensa e maravilhosamente agradável...

Eu já tinha ido incontáveis vezes a Paris. Mas aquela vez... mais do que diferente, era... especial. Como se fosse a primeira.
Incrível que o prazer de outra pessoa pudesse causar em mim um prazer tão intenso. Naquele momento, era exatamente o que estava acontecendo. O prazer de Allison era o meu.
Eu sabia que provavelmente, Allison nunca tinha viajado na primeira classe. Mas não imaginava que era a primeira vez que fazia uma viagem internacional. Estranhamente, não achei absurdo nem nada. Apenas fiquei... contente. Por poder proporcionar, compartilhar algo que eu pretendia tornar inesquecível...
Quando descemos no Charles De Gaulle, o motorista do hotel já nos esperava, segurando um papel com nossos nomes.
Definitivamente, eu estava me sentindo... outra. Uma tranqüilidade doce que me deixava à vontade e sorridente. Segurei a mão de Allison dentro do carro. Os olhos castanhos me fitaram intensamente. E os dedos se entrelaçaram aos meus.
Tinha uma diferença muito grande entre essa viagem e a de São Paulo. Algo dentro de mim estava muito mais sereno e... verdadeiro. Fui mostrando coisas, explicando os lugares por onde passávamos alegremente. Tudo parecia tão... perfeito... Diferente do tédio que normalmente era viajar e chegar em Paris sem... Allison... Finalmente eu começava a compreender e... aceitar.
Ainda estava um pouco transtornada por esses pensamentos quando o carro parou em frente ao hotel e descemos. A primeira coisa que Allison disse foi:
- Engraçado. A luz e as cores são... diferentes.
Olhei para ela surpresa. Como sempre. Allison era... impossível descrever com palavras, ou eu estava entorpecida por tantos sentimentos? Concordei com a cabeça. Ela estranhou minha passividade, acho. Sorri, e entrei no saguão do hotel. Ela me seguiu boquiaberta:
- Meu Deus! Nós vamos ficar no George Cinco?
Achei uma graça o jeitinho dela. Mas corrigi, suavemente, não querendo humilhar nem ser grosseira. Apenas para que Allison não falasse besteira:
- Não é George Cinco, é George Cinq... Eu sempre fico aqui. Você vai gostar. Vem.
Na recepção, tive várias surpresas. A primeira? Allison não falava nem entendia nada em francês. A segunda, bem mais agradável, que nossa reserva era para a suíte de lua de mel.
Coisas do meu pai... Ele tinha sido .. terrivel... mente feliz na escolha. A suíte tinha uma vista incrível da Torre Eiffel. Allison ficou alguns minutos paralisada, como se ainda não acreditasse que aquilo estivesse realmente acontecendo.
De onde eu estava, podia ver os olhos castanhos cintilando... Luzindo um encantamento que fez com que eu me aproximasse e a abraçasse por trás, sussurrando no ouvido dela o que eu sentia no momento:
- Linda... Muito linda mesmo...
Ela suspirou, e concordou com a cabeça. Pensando que eu falava da vista... Depois se virou para mim, sem sair dos meus braços. Passando os dela ao redor do meu pescoço e dizendo:
- A segunda coisa que eu quero fazer em Paris é conhecer a famosa Torre Eiffel...
Me presenteou com um sorriso delicioso que não me deixou escolha. Tive que perguntar:
- Segunda? Qual a primeira?
Ela respondeu quase se derretendo:
- Fazer amor com você...
Nossos lábios se encontraram sem pressa. Com uma suavidade sedutora, envolvente. A magia da “cidade luz” nos impregnando, absolutamente presente...
A boca de Allison desceu pelo meu pescoço, me arrepiando inteira. Murmurei perto do ouvido dela:
- Allison... Você não fala francês, mas... não entende nada? Nada mesmo?
Ela respondeu sem parar o que estava fazendo:
- Nada. Só umas poucas palavras...
Oui, non, pardon, bonjour, e... – ela me olhou nos olhos para dizer: - je t’aime...
Sorri para ela, e a beijei novamente. Quando o beijo terminou, ela perguntou:
- Por quê?
A conduzi para a cama gigantesca, dizendo:
- Por nada... É bom saber...
Tirei o sobretudo e o pulôver que ela vestia. Ela fez o mesmo com os meus. Nos livramos das roupas aos poucos, peça por peça, entre carícias e beijos.
Allison se sentou na cama, e ajoelhei com ela entre as pernas, as duas inteiramente nuas, frente a frente, com gestos e olhares de uma doçura extrema.
Nossas bocas voltaram a se colar apaixonadamente. Os lábios de Allison passearam por meu pescoço, minha nuca... Sussurrei:
- Je peut parler tous que je veux parce que tu ne comprend rien...
Allison se arrepiou inteira. Suspirou, me apertou com força, e reclamou:
- Maldade... Não sei o que você tá dizendo...
Olhei dentro dos olhos dela.
Allison estremeceu. Continuei:
- J’adore ton visage... Ta bouche, ton sourire, tes yeux brillants...
La douceur de ta voix... La manière que tu me regarde, me caresse, me touche...
Era uma sensação maravilhosa, poder simplesmente… falar… Tudo que eu tinha sufocado no peito… E ao mesmo tempo, Allison não entendia as palavras, mas… pelo meu tom de voz, meu jeito de dizer… era impossível não compreender...
Eu estava tremendo, e ela também. Nos olhamos nos olhos. Lágrimas apareceram nos meus. Ela as enxugou carinhosamente. Depois sussurrou, de um jeito muito, mas muito doce mesmo:
- Não sei se o que eu estou pensando é realmente o que você está dizendo... Não tenho certeza...
Foi simples. Como se um clique estalasse de repente:
- Vai ter.
Segurei o rosto dela entre as mãos. Respirei profundamente. As palavras subiram do meu peito, escorregando pela garganta, deixando um gosto incrível na boca quando finalmente apareceram:
- Je t’aime...
E depois, um beijo... Diferente de todos os outros. Me percorrendo como se penetrasse em meus poros, minhas células, nos recantos mais profundos do meu ser...
Naquele momento, com uma perplexidade embevecida, absolutamente despida de todas as restrições e medos, descobri que... o sabor do amor podia ser tão deliciosa e inteiramente perfeito a ponto de fazer a alma estremecer...

 

 

CAPITULO 30 - ALLISON

 



Minhas pernas começaram a tremer, minhas mãos suaram frio... Meu corpo inteiro reagiu às palavras que Pamela sussurrou no meu ouvido em francês... Ouvi-la naquele momento, era o mesmo que ouvir uma música em inglês sem saber falar a língua. Nem sabemos se estão nos xingando, mas chegamos ao ponto de ficarmos emocionados ao ouvir essas melodias. Assim foi pra mim, quando Pamela começou a cantar palavras em francês no meu ouvido...
- Je peut parler tous que je veux parce que tu ne comprend rien... – ela dizia...Me instigando... Fazendo o meu coração acelerar dentro do meu peito... Que diabos essa mulher dizia??? Eu não sei, mas os seus lindos e sedutores olhos azuis me pediam incansavelmente para ter a certeza de que ela não estava me xingando... Beijei seu pescoço...Senti as suas unhas arranharem os meus ombro... Enlouqueci de prazer... Apertei-a em meus braços....
- J’adore ton visage... Ta bouche, ton sourire, tes yeux brillants... La douceur de ta voix... La manière que tu me regarde, me caresse, me touche... – ela me excitava cada vez mais com aquele sotaque perfeito... O francês fluente o suficiente a ponto de me fazer acreditar que eu comeria uma francesinha. Putz! Quebrei o clima, não é? Bom... Meus olhos arregalados suplicavam por uma tradução... Eu queria sentir aquelas palavras... Queria poder calar o tremor que sentia o meu coração, pela ausência do amor falado por Pamela.... Caminhamos lentamente até a cama...
- Diz alguma coisa que eu entenda... Por favor... – sussurrei deixando o meu corpo pesar sobre o dela... – Tenho sede das suas palavras... Pam...- nesse instante, meus olhos lacrimejavam, contrastando com o meu sexo que pulsava de desejo diante dela... Não sei por que, mas algo me dizia que as palavras dela justificariam tudo o que nós estávamos sentindo naquele momento – Eu preciso saber o que você sente... Amor... – disse quase sem fôlego ao deslizar minhas mãos pelo meio das pernas dela e sentir a sua excitação... A mulher segurou meu rosto delicadamente com as duas mãos... Senti que o seu corpo tremia... Sua pele suava...
- Je t’aime... – disse ela encarando-me de um jeito que eu nunca tinha visto antes...
- Eu te amo? – perguntei mais do que disse... – Eu te amo... – sussurrei em seguida... Beijei-a de uma forma única, colocando naquele beijo toda a intensidade de prazer... Carinho... Afeto... Paixão e amor, que eu vertia por ela... Nos beijamos longamente.... Nos acariciando... Apertando... Sentindo a textura das nossas peles...Dos nossos corpos quentes que ardiam no prazer de se desejarem como se nada fosse maior e melhor do que aquele instante de entrega... E não era mesmo... Pelo menos pra mim, estar com Pamela... Seja onde for.... Era como me perder na plenitude da felicidade nunca antes alcançada.
Nossos toques... Carícias... Beijos... Se intensificaram juntos com o desejo que só aumentava... Deslizei meus lábios lentamente pelos seios de Pamela... Seus gemidos me levavam ao ápice da loucura... Desci os lábios pelo seu ventre... As mãos de Pamela estavam afoitas... Me empurravam de encontro ao seu sexo... Não me intimidei... Fitei os seus olhos por um instante... Respirei fundo...
- Je t’aime... – disse e sorri pra ela… Pamela retribuiu o sorriso com uma mordidinha sensual no lábio inferior... Me desmontou aquela mulher. Nossa! Quando ela me olhava daquele jeito eu perdia totalmente o paradeiro... Afastei suas coxas... Acariciei seu sexo com a ponta dos dedos... Ela esquivou a cabeça para trás... Seu corpo estremeceu... Suas pernas passaram por cima dos meus ombros... A mulher lentamente puxou-me para dentro dela... Gemi assim que minha língua invadiu o seu sexo úmido... Completamente úmido... Mordi... Lambi... Suguei... Explorei cada pedacinho daquele sexo que pulsava a minha frente. Explodi num orgasmo delicioso ao mesmo tempo em que Pamela gritava de prazer e se contorcia sobre os lençóis da cama... Antes da sua respiração se restabelecer eu escalei o seu corpo... Beijando-o... Deslizando a minha boca molhada de gozo na pele dela... Minhas mãos deslizando pelas laterais do seu corpo... Afagando os seus seios rijos de tesão... Eu queria acendê-la novamente, e como Pamela era insaciável... Foi fácil, tão fácil quanto tirar doce da boca de criancinhas... Alcancei os seus lábios... Beijei a sua boca deixando dentro dela o mel do seu líquido... Meu sexo latejava no meio das coxas dela...
- Quero provar você, Ali! – arranhou meu pescoço... Escorregou as mãos pelas minhas costas... Afagou minhas nádegas com sensualidade enquanto encarava os meus olhos cheia de desejo... Suas pupilas não eram em formato de fenda, e esse era o único detalhe que diferenciava os olhos de Pamela de um gato, ou melhor: uma gata. Minha carne fervia ao olhar dentro dos olhos dela... Enquanto eu pensava na beleza dos seus olhos, a mulher sedutora que estava embaixo de mim, escorregava os dedos famintos... Me penetrando...Me enlouquecendo... Ergui um pouco o quadril e senti os seus dedos me preencherem por completo... Pamela mordia os lábios e sorria... Divertindo-se com a minha face desfigurada de prazer... Fechei os olhos enquanto gemia fervorosamente pra ela e inundava os seus dedos de gozo... Encarei novamente aqueles olhos devastadores... Levantei-me de sobressalto de cima dela...
- O que foi Ali? – perguntou preocupada. Acho que a minha expressão não foi das melhores...
- Des...culpa, Pam... Vou ao banheiro... Já volto... – Sai em disparada na direção do banheiro... Parei de frente ao espelho... Abri a torneira de água aquecida e molhei meu rosto... Fechei os olhos e meus pensamentos me levaram até a sala de Pamela na tarde de ontem, onde o Sr. Álvaro me fez uma proposta que agora eu não sabia mais se era certo aceitar. O homem queria me dar o cargo da Pamela na revista. Dá pra acreditar? O pai dela achava que Pamela precisava de um choque de realidade para aprender o quanto é importante dar valor as pessoas. Naquele instante, achei que seria uma boa lição, afinal de contas. Seria apenas um susto. Eu ficaria no cargo dela... Trabalharia ao lado dela... E ela saberia como é receber ordens de alguém. Depois de aprendida a lição... Tudo voltaria ao normal, Pamela ao seu lugar de direito na revista, e eu galgando o meu próprio crescimento lá dentro. Com duas diferenças: ela estaria mais humana e eu seria mais respeitada por ela. Essa era a proposta do Sr.Alvaro. No entanto, diante dos novos fatos, acho que Pamela não precisa passar por esse calvário. Eu aceitei a proposta na hora em que ele me falou, sabe? Mas... Não sei se foi uma escolha correta, na verdade... Eu não queria perder o pouco que já havia conquistado de Pamela. Assim que voltássemos ao Rio, eu contaria as novidades ao pai dela, e procuraríamos um outro meio de tentar humanizar aquela mulher. Um passo já foi dado...
- Je t’aime... – repeti em silêncio sorrindo para mim mesma enquanto olhava-me pelo espelho à minha frente. Voltei para o quarto completamente aliviada. Simples, não é? Eu só precisava pedir ao Sr. Álvaro que esquecesse aquela história de mudança de cargo. Puxei o lençol que Pamela havia se enrolado...
- Amor... Me leva à Torre Eiffel?
Pamela arregalou os olhos... Me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta imprópria...
- Hoje não Ali –disse seca, inexpressiva. Como se ir à Torre Eiffel fosse o programa mais chato do mundo.
- Não vamos fazer nada hoje? – perguntei indignada. Abri os braços. – Estamos em Paris! Que graça tem virmos aqui e não conhecermos nada?
- Já disse que amanhã faço o sacrifício de te acompanhar na Torre!
Abri imediatamente um mapa de Paris que eu havia trazido comigo na bagagem...
- O que está fazendo Allison? – apoiou-se nos cotovelos enquanto olhava na minha direção.
- Estou vendo um programa para fazermos hoje, oras! – percorri o dedo pelo mapa – Aqui! – quase gritei... Pulei na cama com o mapa nas mãos – Vamos ao Arco do Triunfo amor! – sorri tentando removê-la do seu desânimo.
- Nem pensar!
- Caraca! – estendi o mapa na cama – É pertinho, olha! – apontei o lugar – Dá pra ir andando. Ainda podemos dar uma passadinha na “Champ elisé”!
- Des Champs-Elysées, Allison! – Me corrigiu impaciente – Não acha que eu vou andar até o Arco do Triunfo, não é? - levantou-se. Colocou um robe preto de seda.
- Qual é Pam! Pra você – Levantei-me e fui até ela que estava parada de frente a janela olhando a vista maravilhosa, ou melhor: perfeita que o hotel oferecia – Pra você, vir à Paris é o mesmo que passear de carro num domingo por Copacabana – sussurrei no seu ouvido – Pra mim, é um acontecimento histórico –Beijei a sua nuca... Ela virou-se de frente pra mim... Olhei-a nos olhos como um cachorrinho que olha o seu dono – Tudo bem, vamos de táxi.
- Não! Vamos andando... Pra não perdermos nem um detalhe.... – beijei os lábios dela antes que a mesma pronunciasse uma palavra – Deixa de ser preguiçosa Srta mau humor! São só... Três quadras até a “Champs Elisé” ... – ela torceu o nariz novamente para a minha pronúncia. Continuei falando, ela não conseguia me intimidar com aquela sobrancelha erguida - ... da “champs” até o Arco deve dar umas quatro quadras... Tá ali no mapa!
- Allison! Ir andando até lá é ultrajante!
- Não! É emocionante! Por favor chefinha! – olhei para o chão – Quer que eu peça de joelhos, é? – ameacei ajoelhar... Ela me puxou pelo braço...
- Tudo bem – disse quase num suspiro.
- Sério? – agarrei-a forte pela cintura – Oba! – gritei... Pamela sorriu... Deixei a minha euforia de lado para admirar aquele sorriso... Seus lábios eram tão rosados... Tão bem desenhados... Deslizei os dedos devagar por eles... – Seu sorriso me faz tão feliz – sussurrei antes de beijá-la... Depois do beijo Pamela me empurrou.
- Vá se arrumar logo, Ali! Não pense que eu vou ficar andando pela cidade com você. Só o Arco do triunfo, está bem?
- Beleza! – disse antes de correr na direção da minha calça jeans e vesti-la... Pamela também começou a se arrumar... Putz! Ela parecia que iria a uma conferência com os investidores franceses. – Vai mesmo usar esse salto? – perguntei enquanto calçava o meu tênis. Ela apenas ergueu aquelas sobrancelhas como quem diz: “que perguntinha idiota”. – Você tá linda! – beijei-a no rosto - vamos? – disse apressada.
- É... Vamos... – concordou desanimada.
Nossa!!! Vocês precisavam ver a poderosa andando com aquele salto enorme nas ruas de Paris. Por isso que ela não vê graça em nada, oras! Totalmente desconfortável... Segurou no meu braço duas vezes para não cair. Isso que dá só andar de automóvel, quando sai na rua fica parecendo um bebê que está aprendendo a andar...Sorri ao final desse pensamento...
- Ta rindo de quê, Alli..son! – disse ao mesmo tempo em que apoiou-se no meu braço direito pela terceira vez...
- Xiiiiiiii! – olhe na direção do salto que ela usava – quebrou, né? – cocei a cabeça... Ela vai dar um ataque daqueles – pensei.
Pamela levou a mão até o tornozelo... Depois retirou o calçado do pé... Olhou... olhou...
- Mas que MERDE! – disse enfurecida...
- Sorte que estamos na “champs”- apontei um lado da rua... loja da Adidas, do outro lado... Loja da Nike – Acho que você devia se adaptar ao passeio – arrisquei dizer. Pensei que ela iria arremessar o salto quebrado na minha cabeça, mas ela fez pior.
- Des Champs-Elysées! – disse quase aos gritos - Des Champs-Elysées! Repete comigo Allison! – sacudiu o meu braço. Ela estava furiosa.
- Nike ou Adidas? – perguntei. Agora sim ela tacou o salto na minha direção, depois saiu andando na frente... Mesmo com um salto apenas ela conseguia ser elegante. Dá pra acreditar nisso? Sorri, quer dizer: gargalhei da cena e fui andando atrás dela... Pamela entrou na primeira loja, ou seja: entrou na loja da Nike. Falou alguma coisa em francês com um dos vendedores e depois o mesmo voltou com uma caixa. Era um tênis. Putz! Essa cena eu tinha que registrar. Ameacei tirar o celular do bolso para fotografar...
- Nem pense nisso! – disse assustadoramente séria... Acho que ela teria coragem de me assassinar se eu fotografasse os seus pezinhos calçados com um tênis.
- Acha que vai...combinar com o figurino? - contive o riso. Só pra vocês terem uma idéia, ela usava um tailleur Chanel verde.
Pamela aproximou-se da vitrine... O vendedor estava atrás dela, um subalterno atencioso do jeitinho que ela gostava. Vi a mulher apontar em algumas direções... O vendedor sumiu em uma direção, depois voltou com tudo o que ela pediu... Pamela desapareceu nos provadores... Depois... bom... Eu tive que me levantar de sobressalto da cadeira onde eu estava impacientemente esperando sinal de vida dela.
- Nossa! – disse boquiaberta – Você está linda! – Ela vestia uma calça azul marinho, uma camiseta branca e um casaco azul marinho bem esportivo com um símbolo da Nike enorme nas costas.
- Eu sei – disse enquanto caminhava na direção da saída da loja, quer dizer, não antes de largar nas minhas mãos uma sacola enorme que continha as roupas dela.

... Assim que paramos em frente ao Arco do Triunfo eu tirei do bolso do casaco um livrinho pequeno que falava sobre os lugares turísticos de Paris...
- O que é isso, Ali?
- Olha que magnífico! – acho que nem ouvi a pergunta de Pamela... Eu estava encantada folheando o livro – Olha isso Pam! – disse olhando na direção da base – É o túmulo do soldado desconhecido, idealizado por Napoleão, celebra as vitórias francesas....
- Eu sei... – disse impaciente. Não me importei com o que ela dizia.
- ... O túmulo representa todos os soldados que morreram em batalhas... – continuei lendo... Lia e olhava para o monumento à minha frente.
- Eu sei...
- Em especial na Primeira Guerra Mundial! – completei sorrindo.
- Mas que MERDE, Allison! Eu sei tudo isso! – disse impaciente... E brava. E continuou dona da situação – O Arco testemunhou momentos históricos como a invasão do Exército alemão e as comemorações de libertação de Paris com o General Charles de Gaulle à frente. E há um pequeno museu lá em cima! – disse quase sem respirar.
- To impressionada – fechei o livro... guardei-o no bolso do casaco – vamos subir! – puxei-a pela mão.
- Aí você já quer demais! São mais de duzentos e oitenta degraus menina!
- Legal! Vem! – puxei-a, ou melhor... Arrastei-a para que subíssemos a escadaria.

Quando retornamos ao hotel... Fizemos amor uma única vez... Pamela estava exausta... Tadinha, acho que a pobre nunca andou tanto na vida dela. Fiz carinho nos seus cabelos até que ela adormeceu... Nem sei como explicar o que eu estava sentindo por estar naquela cidade tão romântica com a mulher que eu amava incondicionalmente.


 

 

 

PARTE 4

 

 

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