DESENCONTROS

PARTE 1

 

Leth Cross

 

 

Dentro do ônibus cheio, ela ia para o trabalho com desânimo e apreensão.Quantas outras mulheres viviam o mesmo problema? Tinha certeza que não era a única:

Laysa Venturini, vinte e dois anos, secretária de um homem que a "cantava" diariamente, com a intenção de levá-la para a cama.Uma mulher bonita, assediada por um chefe inescrupuloso.
Laysa era consciente de sua beleza e de sua eficiência profissional. Não arranjara seu emprego apenas porque tinha boa aparência, mas porque era capaz.

Loura com os cabelos anelados, olhos azuis expressivos, lábios perfeitos e sensuais, nariz reto e delicado, compondo um rosto belo e atraente. O corpo de curvas harmoniosas, dourado pelo sol da praia nos finais de semana, chamava a atenção. Era comum para ela ouvir elogios de homens nas ruas, uns discretos, outros que a faziam corar, pelas palavras cruas sem classe.
Apertou os lábios com desdém, olhando pela janela do ônibus a paisagem do Aterro do Flamengo passar rapidamente aos seus olhos.

 

Homens! São todos uns animais, que não podiam ver uma mulher bonita sem tentar levá-la para a cama - Pensou - Mas ela não queria saber de nenhum deles. Já tivera dois homens em sua vida, apenas para ter certeza que não se realizava sexualmente com eles, por mais bonito, sensual e apaixonado que fosse. Para ela, os homens só serviam para ter amizade. Depois de sua experiência com eles, se tentavam ir, além disso, recebiam um sonoro "não".


Já quando via uma mulher bonita, olhava disfarçadamente, seus olhos enchiam-se de encanto.Sentia seu sangue acelerar-se se por acaso durante o trajeto do ônibus, uma mulher bonita sentasse ao seu lado.O que aconteceria se encostasse a perna na de uma mulher nessa situação, como os homens faziam com ela? Naturalmente, seria repelida com palavras ásperas ou até podia levar uma bofetada.


O ônibus chegou ao seu destino, cortando seus pensamentos.Desceu do veículo e foi para seu trabalho. A rua Primeiro de Março estava cheia de gente, que descia dos ônibus ou vinham de barca de Niterói.


-Gostosa! Te chupava< toda!


O comentário de um homem que passou ao seu lado, olhando-a com olhos cobiçosos, a fez corar de vergonha e indignação. Nunca se acostumaria com aqueles comentários chulos! Aquilo não era um elogio, era uma provocação à sua sensibilidade. Cretino, nojento!

 

Ah se gostasse de homens! Estaria feita. Aceitaria os convites de seu chefe que a perseguia com convites para jantares, e se daria bem em seu trabalho. Mas ela repelia os convites com fria polidez, mas seus nervos já estavam abalados com as insistentes investidas do persistente conquistador. Suas desculpas estavam se esgotando e sua paciência também, e ia chegar a hora que daria uma resposta mais dura e então, tudo começaria novamente: Seria despedida e teria de começar a procurar novo emprego.


Chegou ao prédio que trabalhava, na Avenida Rio Branco.Tomou o elevador, saltou no seu andar e apressou o passo, estava em cima da hora e não queria ter de pedir desculpas ao seu chefe por atraso. Dobrou o corredor e deu um encontrão em uma pessoa. Deu um pequeno grito, quase caindo, e duas mãos a seguraram, amparando-a.


Um par de olhos dourados e maravilhosos fitou os seus com atenção.


Laysa sentiu o impacto da beleza da mulher. A desculpa que ia dar morreu em seus lábios, fitando-a.

Cabelos ruivos ondeados caindo pelos ombros brilhando sedosamente, um rosto de traços marcantes e sensual com um nariz bem feito encimando uma boca vermelha e sensual, de lábios cheios, queixo ligeiramente quadrado, com uma covinha encantadora, e aqueles olhos dourados, expressivos, dominadores,  que pareciam dizer coisas que nem ousava pensar.

 

A ruiva desviou o olhar para o chão. Uma pasta azul estava caída no chão, que ela carregava. Laysa abaixou-se rapidamente e pegou a pasta, e se ergueu, entregando para a ruiva.


-Desculpe-me, a pressa me fez esbarrar em você - Murmurou.


Um sorriso da ruiva mostrou dentes branquíssimos e perfeitos.


-Não tem importância. Com licença... - Respondeu a ruiva, com uma voz rouca e sexy que penetrou deliciosamente nos ouvidos de Laysa. Ela afastou-se com um andar imponente e Laysa reparou que era alta e com um corpo escultural, elegantíssima em um blaizer azul escuro e calça comprida.


Laysa continuou o caminho até sua sala, imersa no encanto que aquela mulher lhe causara. Quem seria? Nunca a tinha visto antes. Tinha certeza disso, pois uma mulher como aquela não era Uma nova funcionária ?Tinha certeza disso, pois uma mulher como aquela não podia ser esquecida jamais. Que olhos! Que boca! Que charme!


Trabalhou nesse dia meio aérea. A bela desconhecida não saía de sua cabeça.Aqueles olhos, o modo de olhar, a haviam perturbado profundamente. Parecia haver uma espécie de identificação entre elas, não havia sido um olhar normal de uma mulher para outra, havia algo.
Faltava meia hora para o expediente terminar, quando foi chamada à sala do chefe pelo interfone.Estremeceu, despertando do sonho para o pesadelo.Sabia o que ele queria. Sempre no final do dia, fazia a velha "cantada" do convite para jantar!


Premindo os lábios de raiva, foi atender ao chamado. O homem sorriu untosamente ao vê-la entrar, como um velho lobo espreitando a presa.


-Feche a porta, dona Laysa...

 

-O que o deseja, sr. Carvalho?- Perguntou, com fria polidez.


-Sente-se...vamos conversar.


-Obrigada, mas estou bem assim em pé.


-Você é muito cerimoniosa, Laysa!E sabee que sou um chefe liberal...sente-se!


Laysa sentou, contrafeita. Notou o olhar indiscreto dele em suas pernas.Ele nem procurava disfarçar, pensou enojada.


-Bem, Laysa...estou com um problema e gostaria que me ajudasse. É o seguinte: minha mulher
está aniversariando e preciso escolher um presente para ela. Mas não consigo pensar em nada.Então, me lembrei de você para me ajudar na escolha. Afinal, é uma mulher que se veste muito bem, demonstrando bom gosto.Poderá ajudar saindo comigo hoje para escolher o presente.


-Obrigada, sr.> Carvalho, mas não vejo como posso ajudá-lo. Além de não saber do gosto de sua esposa, hoje já tenho um compromisso .


Na verdade ela não tinha compromisso algum, mas sentiu o pretexto oculto naquele convite.


-Desmarque! aposto que seu compromisso não é tão importante quanto o meu.Poderemos jantar em um bom restaurante, para conversar sobre o presente...


-Não posso, sr. Carvalho. Meu compromisso é muito importante.


Ele fechou a cara, contrariado.


-Mau,mau, donaa Laysa...cheguei à conclusão que não gosta de mim.É uma pena.Porque tenho por princípio ter sob minha chefia pessoas que não criem obstáculo de espécie alguma ao que peço.

 

Laysa o fitou friamente.


Nunca criei obstáculos ao desempenho de minhas funções, sr. Carvalho.


Ele sorriu cinicamente.


-Está criando agora. Não quer ajudar-mee.


-Mas o que está pedindo agora extrapolaa minhas funções.


-É uma questão de ver as coisas. Bem, nnão vou insistir mais. Vou apenas avisar o que vai acontecer:agindo assim, vai perder seu emprego.


Laysa ergueu-se, sufocando a raiva. Tinha vontade de cuspir naquela cara gorda de bigode.
-isso é uma ameaça?


-Entenda como quiser. Pode retirar-se.<


Laysa não agüentou mais. Explodiu sua revolta, pela primeira vez. Estava cansada de ser tratada como um objeto disponível para uso.Falou com raiva, entredentes:


-Ouça, seu conquistador barato: não serrá esse cargo que possuo que me fará submeter às suas propostas sujas!


Ele a fitou assustado e vermelho de raiva.


-Dona Laysa! Não admito que fale assim comigo! Exijo respeito, sou seu chefe!


Laysa sorriu com desdém.


- Que respeito merece um cafajeste comoo você? Saiba que suas propostas disfarçadas me enojam! Tenho nojo de você! Nojo, ouviu bem?


-Retire-se imediatamente! -Gritou ele, furioso - Está despedida!


-Retiro-me com prazer! Foi a melhor orddem que me deu!

 

Ela saiu da sala, batendo a porta com força. Seus colegas a fitaram assustados, quando ela começou a chorar.Eles a rodearam fazendo perguntas e ela contou o ocorrido, entre lágrimas. Maurício, o chefe dos digitadores, comentou:


-Eu já imaginava isso...Aquele safado nnão se emenda...várias moças já foram despedidas por ele porque não aceitaram as propostas dele.


Laysa o fitou surpresa, deixando de chorar.


-Verdade? Pensei que fosse a primeira! E ninguém faz nada?Ninguém o denuncia?


-Não adiantaria. Ele trabalha aqui há mmuitos anos e tem prestígio com a diretoria.


-Mas ele tem prestígio porque não sabemm o que ele faz!


-Pode ser...mas quem vai bancar o herói? Como diz o ditado, a corda arrebenta no lugar mais fraco.


Laysa sorriu amargamente.


-Bem, eu não tenho nada a perder, já fuui despedida! Vou procurar os superiores dele e o denunciar!Algum de vocês querem endossar minha denúncia?


Ninguém se manifestou.Laysa suspirou, viu que todos tinham medo de perderem o emprego.


-Pelo menos alguém pode me informar a qquem devo me dirigir para fazer minha denúncia?


-Bem, ele é subordinado diretamente à ddiretoria.


-Então, terei de ir à diretoria? Não teem importância, irei!


-Está louca? A doutora Demerson nem a receberá.Não é qualquer pessoa que tem acesso à diretoria!


-Não custa tentar. "Cão perdido nãão escolhe caminho", não é? Onde fica a sala da diretoria?


-Fica no último andar do prédio. Não vaai adiantar...


-Veremos. Vou lá agora! - Disse, peganddo sua bolsa - Tchau!


E ela saiu com passadas decididas.

 

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

 

Laysa tomou o elevador e desceu no último andar.Nunca havia estado ali. Era um andar com o hall luxuosamente decorado, com tapete e quadros abstratos nas paredes. Empurrou a porta de vidro fumê e entrou numa sala também luxuosa, com uma senhora bem vestida. Ela a fitou com um sorriso polido.


-Boa tarde.Deseja alguma coisa, senhoriita?


-Boa tarde.Sim, sou do setor de controlle de preços.Gostaria de falar com a diretora.


-Qual seu nome, por favor?


-Laysa Venturini.

>


-Tem audiência marcada?


Laysa negou nervosamente, não pensara nisso.


-Não, mas o assunto é urgente e grave.PPreciso falar com a diretora.


-Senhorita, sinto muito, mas não posso deixá-la entrar.A diretora só recebe com hora marcada.


Laysa elevou a voz, desesperada:


-Mas é muito importante! E amanhã será tarde demais!Preciso falar com a diretora hoje!


-Senhorita, não posso desobedecer a
ordem que tenho! Marque uma audiência para amanhã!


-Por favor, minha senhora! Eu preciso ffalar com ela hoje! - Disse Laysa, aflita.


A porta do gabinete da diretora abriu e uma mulher a fitou curiosa. O coração de Laysa deu um salto.Reconheceu a bela desconhecida com quem esbarrara no corredor.Ela também demonstrou tê-la reconhecido, pelo modo como a olhou.


-O que está havendo, Eunice? - Perguntoou a ruiva.

 

-Doutora Demerson, esta senhorita insiste em falar com você, mas não tem audiência marcada.


A bela ruiva era a diretora! - Laysa pensou, surpresa. Ela a encarou séria.


-É muito urgente, senhorita?>


-Muito! - Disse Laysa, com o olhar impllorando.


-Está bem. Entre! - Disse a ruiva, abriindo mais a porta e se afastando para Laysa entrar.Laysa entrou com um suspiro de alívio. A doutora fechou a porta e indicou a cadeira diante da mesa dela, enquanto tomava assento na cadeira diretora e crusava as mãos, fitando-a espectante.


-Estou ouvindo, senhorita.Qual é seu noome e onde trabalha?


-Oh, sim, meu nome é Laysa Venturini e sou programadora de sistema, do setor de controle de preços.


-Muito bem.E o que deseja falar-me com tanta urgência?


Laysa respirou fundo.Estava tremendo. A presença daquela mulher a perturbava.Aqueles olhos a atraíam. Ela a fitava nos olhos, emitindo uma poderosa atração. Ela era linda!


-É um assunto delicado - disse, procuraando ser objetiva.


-Pode falar.


-Bem...o sr. CCarvalho, desde que comecei a trabalhar aqui, vem me assediando com propostas para jantares, ir ao teatro, a cinema...e sempre recusei, pois sou eficiente em meu trabalho e não preciso desse tipo de coisa.Hoje ele convidou-me novamente para sair, com o pretexto de ajudá-lo a comprar um presente para a mulher.Quando recusei, ele ameaçou-me de eu perder o emprego.Não me contive mais e disse à ele umas verdades.Ele então gritou que eu estava despedida. Então, vim aqui expor a situação à diretoria,, que é o órgão superior imediato do meu chefe.Acredito que a posição da diretoria é contrário à esse procedimento indigno do sr. Carvalho.

 

A diretora a fitou gravemente, mordiscando o lábio inferior.


-Realmente é grave o que acabou de dizeer-me, senhorita. Se isso for comprovado, o sr. Carvalho será punido exemplarmente. O que não admito é esse tipo de pressão exercida por homens inexcrupulosos às mulheres que necessitam trabalhar. Mas para isso será aberto um inquérito admiministrativo, em que a senhorita terá de provar a acusação. Para isso, precisará de testemunhas que confirmem sua acusação. Há pessoas que queiram depor à seu favor?


Laysa desanimou, visivelmente abatida, seus olhos encheram de lágrimas.


-Não, não há ninguém! Todos têm medo dee serem prejudicados.Minha palavra não basta?


-É a sua palavra contra um chefe de settor com mais de vinte anos de trabalho na firma, entende? Pessoalmente eu acredito na senhorita, pois já desconfio do sr. Carvalho.Nenhuma mulher que trabalhe com ele dura muito tempo. Mas para tomar uma medida legal contra ele, preciso de dados concretos, ou ele pode processar a firma por danos morais e ganhar uma soma alta de idenização.


-Então, não há nada a fazer? Estou desppedida por não ter me submetido aos desejos daquele homem nojento?


A diretora a fitou pensativamente por um momento e depois sorriu, dizendo:


-Tive uma idéia. Acho que satisfará a ssenhorita.


-Qual? - Perguntou Laysa, achando aquelle sorriso lindo.


-Vou transferí-la para nossa diretoria. Estou precisando de uma ajudante para Eunice, ela sempre me pediu uma assistente, mas adiei a escolha por falta de tempo. Que acha?

 

Laysa a fitou entusiasmada.


-Seria maravilhoso!Mas...o sr. Carvalho me despediu...


-Mas a dispensa foi apenas verbal.Não sse concretizou.Vou emitir um memorando com a data de ontem comunicando que a transferi para a diretoria. Isso tornará a dispensa dele sem efeito, pois não era mais seu chefe quando a despediu. Dona Eunice o enviará direto para o departamento de pessoal e amanhã mesmo você começará a trabalhar aqui. E quanto à ele, darei ordem para empregar um homem em seu lugar.


Laysa riu.Já imaginava a cara do velhaco quando soubesse de sua transferência.


-É uma idéia excelente! Uma solução simmples que elimina dois problemas! - Disse.


A diretora sorriu e apertou o interfone.


-Eunice, venha até aqui.


A mulher veio em seguida, sorrindo.


-Pois não, doutora DDemerson...


-Redija um memorando transferindo a staa. Laysa Venturini para a diretoria, com data de ontem e envie diretamente para o departamento de pessoal.Você acaba de ganhar sua ajudante, Eunice.


O sorriso da mulher ampliou-se.Olhou para Laysa com simpatia.


-Verdade? Oh, que ótimo!Seja bem-vinda,, Laysa!


-Obrigada, Dona Eunice - Respondeu Laysa, ainda não acreditando em sua sorte. Trabalhar na diretoria para aquela diretora linda era um prêmio!

 

-Eunice, apronte o memorando e traga para eu assinar. Depois o envie para o D.P. -Ordenou a diretora.


-Vou fazer isso agora, doutora Demerson, - Disse a secretária se retirando. A diretora olhou para Laysa sorrindo. Os olhos dourados se fixaram nos seus e Laysa corou de prazer.


-Está satisfeita? - A doutora perguntouu.


-Muitíssimo! Muito obbrigada, Doutora Demerson - Agradeceu Laysa, emocionada.


A diretora se recostou na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa de mogno, fitando Laysa com seriedade.


-Aviso que sou muito exigente com minhaas secretárias.Têm de ser eficientes, pontuais e dedicadas ao trabalho.Devem sair apenas depois que eu me retirar. Às vezes há reuniões que ultrapassam o expediente normal e preciso de assistência. É claro que você receberá extra, como Dona Eunice.Quanto ganha atualmente?


Laysa respondeu fitando-a tonta de alegria. Como estava feliz! A diretora a encantava com o modo de falar, de olhar, de sorrir, os gestos seguros, a voz rouca e sensual.


-Vai receber por enquanto apenas seu saalário normal e uma gratificação do novo Se o  seu trabalho for aprovado por mim, no mês seguinte terá um aumento de cem por cento.


-Tudo bem. Não tenho palavras para exprressar minha gratidão, doutora Demerson .


-Ah, não me chame assim mais, por favorr. Vai ser uma pessoa bem próxima trabalhando comigo e por isso, dispenso a cerimônia.Detesto títulos, já desisti de corrigir dona Eunice, que insiste em me tratar com formalidade.Pode tratar-me pelo meu nome, Gladys.

 

-Tudo bem, senhorita Gladys...


Gladys sorriu calorosamente, inclinando-se para a frente.


-Agora, uma pequena entrevista para meuu arquivo particular: Qual é sua formação, Laysa?


-Sou formada em Informática, com especiialização em Programação.


-Humm...muito
bem. E experiência anterior?


-Já trabalhei para três grandes empresaas, nesses dois anos.Pode verificar em meu currículo.Sempre como secretária. Infelizmente, sempre fui despedida pelo mesmo motivo que o sr. Carvalho me despediu.


-Isso é lamentável...>bem, comigo não terá esse problema. Quantos anos tem?


-Tenho vinte e dois anos.


-Solteira ou casada?
<


-Solteira - Respondeu corando. O olhar de Gladys tinha um brilho malicioso e parecia querer penetrá-la, ler seus segredos.


-Onde mora?É perto do trabalho?


-Em Copacabana, na Rua Santa Clara.


Gladys tamborilou as unhas bem tratadas sobre a mesa, sorrindo.Tinha mãos lindas.


-Final da entrevista.Deve ter notado quue não anotei nada.É que tenho uma memória muito boa.


Eunice entrou com um papel na mão.


-Aqui está o memorando, doutora Demerson.


Gladys pegou o papel e o assinou. Estendeu para a secretária e olhou para Laysa, piscando o olho, sorrindo.


-Pronto, aí está sua alforria - Brincouu - Amanhã bata o ponto normalmente e venha direto para a a sua nova sala.Felicidades em sua nova função, Laysa.Pode retirar-se.


Laysa ergueu-se sorridente e estendeu a mão. Gladys a apertou suavemente e Laysa sentiu um tremor percorrê-la ao toque daquela mão quente e macia.


-Muito obrigada, senhhorita Gladys. Esteja certa que procurarei fazer tudo para corresponder à confiança depositada em mim. Até amanhã.


Laysa se retirou e esperando o elevador, cheirou a mão que Gladys havia apertado. Um perfume suave e delicioso entrou por suas narinas.Sentiu o coração se acelerar de emoção. Estava se apaixonando por sua nova chefe! Foi para casa enlevada, o ônibus cheio, o calor, nada a despertou do seu doce torpor.

 

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

 

 

Gladys estacionou o seu Lexus  negro diante da luxuosa casa na Barra e suspirou. Estava cansada, depois de duas reuniões com compradores. Mas havia fechado dois contratos vantajosos para fornecimento de azulejos e pisos para dois edifícios de luxo que seriam construídos na Barra, de sua fábrica em Minas Gerais. Agora queria apenas tomar um banho e relaxar, antes do jantar.


Entrou na casa e a velha governanta veio ao seu encontro, sorrindo.


-Boa noite, dona Glaadys! Como foi o dia?


-Muito bem, Amália. Agora vou tomar um banho e depois jantar. Jane já chegou?


-Sim, está em seu quarto.


Gladys suspirou. Pelo menos sua irmã aparecera, depois de dois dias sem dar notícia.


-Ótimo. Avise-a que eu a quero na mesa,, no jantar.


-Não sei se ela vai poder. Ela chegou bbem...tonta.


Gladys fez um gesto de impaciência. Tonta queria dizer bêbada.


-Outra vez? Deixe, Amália, eu mesma vouu falar com ela!


Subiu as escadas com passos decididos, com os lábios contraídos. No segundo pavimento, foi a uma das portas do corredor e a abriu bruscamente. Uma mocinha estava deitada na cama, com fones nos ouvidos ouvindo seu iPod.Ela a fitou com indiferença e continuou ouvindo música.


Gladys avançou e arrancou os fones do ouvido dela, com impaciência.


-Sua intrometida! - Gritou a garota - PPor que não me deixa em paz?


-Você precisa ouvir umas verdades!>


-Ah, não enche o saco! O que quer?

 

-Será que você nunca vai tomar jeito, Jane? Olhe essa cara! Vê-se que andou enchendo a cara de bebida!Onde foi, dessa vez?Nos bares, ou na casa de suas amiguinhas à toa, que só sabem fazer merda, como você?Quando vai colocar juízo na cabeça e voltar para os estudos e deixar as farras de lado?


-Ih! Que saco! Se tevve um dia ruim, não vem descontar em cima de mim, falou?


-Pelo contrário, tive um belo dia, fechhei contratos importantes para nossas fábricas! Não sou como você, que só quer vida mansa, e fazendo loucuras!


A mocinha riu com deboche.


-Dinheiro! Só pensa em dinheiro!É por iisso que fica aí nervosa e chata! Eu não, sou esperta! Aproveito a vida! Para que vou estudar, se já sou rica e não preciso trabalhar?


-Se eu não pensasse em dinheiro, nosso patrimônio já teria acabado! Diga-me, quem iria administrar os negócios?


-Um administrador contratado, ora!>


-Ah, é? Um estranho para nos roubar e iirmos à falência? Não! Eu cuido de tudo! E você poderia ajudar-me, mas não pensa em nada que presta!


-Ah, chega, Gladys! Que merda! Vá se catar! Vá tomar um banho e jantar, ao invés de ficar aqui enchendo meu saco!


Gladys apontou o dedo para ela, ameaçadoramente.


-Se continuar assim, não darei mais a você nem um tostão! Sua mesada vai acabar!

 

Jane a olhou assustada, sentindo a ameaça.Levantou-se e mudou de tom.Aproximou-se e abraçou a irmã pela cintura, dando um beijo no rosto dela.


-Ah, maninha, não seja má!Sabe que eu aa adoro, sua chata...pra mim, você é minha mãe, nossos pais morreram quando eu era tão pequena...deixe sua irmãzinha aproveitar um pouco a vida, prometo que depois do meu aniversário de vinte e um anos eu vou começar a trabalhar, bem?

Gladys fitou sua irmã caçula e suspirou. Não passava de uma mocinha sem juízo, mas esperta, sabia como dobrá-la.Fazia aquela carinha de bebê para amolecê-la.


Jane beijou-a no rosto repetidas vezes e a olhou rindo.


-Está mais calma? Está? Senão, dou maiss beijinhos...


Gladys a afastou suavemente, rindo.


-Sua safada! Vá também tomar um banho, quero que vá jantar comigo na sala!


-Tudo bem, maninha...>você manda!


-Chantagista! Bem que gostaria que ouviisse meus conselhos!

 

Saiu do quarto e foi para o seu. Lá, dirigiu-se para o banheiro e se despiu. Abriu as torneiras da banheira e jogou sais aromáticos na água. Depois entrou, sentindo a água morna envolvê-la deliciosamente.


Um rosto belo surgiu na sua mente.Uns olhos azuis como duas safiras.Que coisa! Não conseguia tirar da cabeça o rosto de Laysa Venturini!


Um alarme soou em sua mente: cuidado, não vá se deixar envolver!Outra vez, não!Ainda mais uma empregada da firma!

 

 

Parte 2

 

 

Feedback para: [email protected]

 

 

 

    Leth    

 

Hosted by www.Geocities.ws

1