Debaixo dos Hábitos do Amor
Soninha
2008
Capítulo
1:
O tempo... meu companheiro. Acompanhou-me
no cume de minhas experiências, nas mais lindas emoções e cruciantes dores. Ensinou-me
a sabedoria adquirida nas duras provas e a recuperar a esperança em meu próprio
coração. Ajudou-me a acreditar quando a razão diz que não vale mais a pena...
Assim é minha história....
Outubro de 2000
_Lu, estou indo em casa e volto
rapidinho, está bem?!?
_Certo, Irmã Angélica.
_Qualquer coisa, é só me bipar, ok.
_Tudo bem.
Saí em direção à clausura, com a
finalidade de tomar o cafezinho das 09:00. Por trabalhar em hospital, a regra
era que sempre tivéssemos um reforço alimentar, a fim de proteger e manter
nosso sistema imunológico em atividade total.
Antes de chegar ao meu destino, porém,
uma visão paralisou meu ser por completo. Senti como se o sol tivesse passado a
brilhar dentro do meu peito, o coração pulsava acelerado, as pernas não
obedeciam, e meu cérebro?!?... bom, esse, creio que sofreu uma descarga
elétrica tão forte que pareceu ter entrado em curto.
_Que mulher é essa gente?!? Será que
abriram a porta do céu, e esta angelical criatura fugiu de lá?!? Ou será que o
paraíso desceu aqui hoje, e esqueceram de me avisar?!?... pensei enquanto
contemplava aquela bela mulher.
Não sei dizer quanto tempo se passou,
até que voltei à realidade. O desejo era ir ao encontro dela, perguntar nome,
endereço, telefone, enfim, fazer a ficha completa. Mas não conseguia me mover,
minhas pernas não me obedeciam, e meus olhos se negavam a ter outro foco de
visão que não fosse “ela”.
_Angélica, Angélica!!!! Acorda!!!! Você
é uma freira, e não pode permitir esse tipo de sentimento, essa admiração
exagerada, mulher!!!!!... pensava comigo mesma, enquanto lutava interiormente
com a força arrasadora do que estava sentindo.
Uma única certeza se fez maior e rompeu
minhas barreiras e reservas: “preciso conhecê-la”...
Com um esforço imenso, consegui sair da
letargia em que estava... não sabia exatamente onde tinha que ir, o que afinal
eu tinha que fazer...
Depois de ir e vir, próximo ao local
onde ela estava, resolvi chegar ao departamento de pessoal, com a desculpa de
obter algumas orientações sobre alguns projetos que estávamos pensando em
realizar no setor de trabalho.
No momento em que decidi realmente vê-la
de perto, já a haviam chamado para a entrevista, e não consegui realizar meu
intento, mas num diálogo informal, e de forma bem “desinteressada”, questionei
sobre o número de candidatos que estavam aguardando, e em particular sobre a
moça que havia visto a poucos instantes atrás, mas não tive sorte, pois segundo
a psicóloga fora uma das freiras que a havia chamado para uma entrevista.
Fiquei decepcionada por não ter tido o
prazer de contemplar meu sol mais de perto, mas a partir daquele olhar, sua
morada estava garantida em meu pensamento, e em meu coração, mesmo sem a
consciência plena disso.
Voltei para o Laboratório, local onde
exercia minha função dentro do hospital, e continuei a trabalhar normalmente,
ou melhor, quase normalmente, pois a partir daquele instante algo em meu
coração mudou radicalmente, embora ainda não compreendesse o que de fato havia
ocorrido, ou tentasse negar o fato.
Não conseguia entender o que estava
acontecendo comigo, pois a cada segundo a imagem daquela mulher surgia, sem
pedir licença, em minha mente, e por mais que procurasse fugir desta
“tentação”, ela se tornava mais e mais forte, uma vez que meu coração
acelerava, como se estivesse encerrando uma corrida de São Silvestre.
Minha noite foi tumultuada de sonhos,
mas minha alma bem sabia quem era a causadora daquele tumulto interior em que
havia mergulhado.
Capítulo
2:
No dia seguinte,
trabalhei normalmente durante a manhã, e no mesmo horário fui tomar o tão
esperado cafezinho, mas ela não estava lá... o lugar por onde eu costumava passar
já não tinha mais a mesma vida de antes. Sem a visão do meu sol, tudo parecia
ter perdido a graça.
_Mas como?!? Perguntava-me. É possível
sentir a falta de alguém que a gente nem conhece?!? Alguém a quem apenas nosso
olhar contemplou uma única vez?!?... o que está acontecendo comigo, meu Deus?!?
Voltei ao meu setor e mergulhei no
trabalho. Não demorou muito, fui chamada ao CTI para realizar uma coleta em um
paciente, cujo acesso arterial estava bem complicado.
Passei pela secretaria e avisei onde
estava indo, caso precisassem de algo urgente... quando levei a mão para abrir
a porta do laboratório, ao mesmo tempo outra irmã abre a porta, e adivinhem
quem a estava acompanhando?!?.... isso mesmo, o meu sol desconhecido!!!!!
Quase tive um ataque cardíaco... meu
coração parecia querer sair pela boca. Creio que todos naquele momento, ouviram
o pulsar galopante ao qual ele se entregou.
Estava surpresa, e ao mesmo tempo feliz,
uma felicidade que a muito tempo não sentia... mas como isso era possível?!?
Não nos conhecíamos, nem seu nome eu sabia, ainda assim, senti a vida
circulando em minhas veias.
Irmã Aurora, que a estava acompanhando,
quebrou meu silencio, injetando a dose da realidade em meu corpo...
_Irmã Angélica, quero que conheça Mayla.
Ela é Assistente Social, e vai trabalhar conosco a partir de hoje.
Nem mesmo sei onde encontrei voz para
dizer: _Que bom Irmã Aurora!
_Mayla vai trabalhar no setor aqui ao
lado, e como conhece muito bem a realidade e o funcionamento de um laboratório,
poderá lhe ser de grande ajuda, caso necessite.
Consegui reunir toda minha coragem, e
estendi a mão à Mayla, dizendo do prazer em tê-la trabalhando conosco, que era
bem vinda, e que se precisasse, com certeza, pediria sua ajuda sim, da mesma
forma, também me coloquei à disposição, caso precisasse de algum auxílio.
Mayla estendeu-me sua mão, e quando este
contato se fez, um arrepio percorreu minha espinha, da ponta do dedão do pé,
até o ultimo fio de cabelo.
Vê-la assim, tão próxima era mais do que
havia pedido aos céus, tive a nítida sensação de que o que senti não foi
imaginação, mas havia reciprocidade no ar e só podia lhe oferecer o que tinha
de melhor naquele instante: um sorriso! Que foi correspondido inteiramente por
ela.
Irmã Aurora e Mayla se foram. Mais uma
vez, perdi a direção dos meus atos... esqueci que estava indo ao CTI. Quando
consegui retornar daquele estado, recordei do paciente que me aguardava...
-Puxa vida!!! Que será isso meu Deus?!?
Pobre paciente, e agora?!? Como vou explicar a minha ausência no CTI?!? Pensei
comigo mesma...
Retornei à secretaria. Liguei no ramal
da bioquímica e pedi para verificar se haviam feito aquela coleta, pois ocorrera
um imprevisto e não pude ir ao CTI.
_Está tudo certo Irmã Angélica, a
Enfermeira de plantão colaborou e fez a coleta. Pode ficar tranqüila que o
exame já está sendo processado.
_Que bom, Juliene! Obrigada.
Após esse encontro ansiado ter ocorrido
de forma tão inesperada, fui para minha sala, fechei a porta, e fiquei um tempo
tentando controlar minhas emoções.
_O que está acontecendo comigo?!? Acho
que estou ficando louca... preciso domar meus instintos... custe o que
custar... calma Angélica, isso é apenas uma grande admiração que você está
sentindo... é isso, nada mais. Só admiração, afinal, ela é linda, e é isso que
você está contemplando, nada mais. Não há nada errado em olhar a beleza que
Deus criou... _fiquei o restante da manhã, discutindo internamente, e
arranjando desculpas justas para o que estava se passando comigo.
Por mais que lutasse contra, minha
vontade era de estar ao lado dela no lugar de Irmã Aurora, e essa constatação
me assustou. Fiquei com ciúmes por outra pessoa desfrutar da presença dela e
não eu.
Nesse dia, mal consegui almoçar...
queria que o tempo passasse logo, e quem sabe, tivesse a sorte de vê-la
novamente, nem que fosse de longe!... Mas naquele dia isso não foi mais
possível.
O final de semana, esperado por tantos,
com a mais sincera ansiedade, trouxe consigo os planos meticulosamente
elaborados. Onde iriam, com quem iriam, e quem levaria isso ou aquilo, o
aniversário de um ou outro enfim, cada um encontrava sua forma de diversão e
relaxamento.
Em meio aos pensamentos, viajei àquela
linda mulher! O que faria no final de semana?!? Será que era casada, ou
namorava... sei lá... senti um aperto em meu peito só em imaginar que estivesse
com alguém. Que coisa mais estranha! Como posso sentir isso, se nem a conheço,
praticamente sei apenas seu nome... o que está acontecendo comigo, meu Deus?!?
Em meio aos devaneios, o final de semana
passou, e restou apenas a sombra de uma esperança velada, a todo custo de que,
o sol que aqueceu meu peito, através de um único olhar, pudesse reaparecer e
novamente preencher meu interior.
Capítulo
3:
Inicio de mais uma
semana!!! Cada um contando as peripécias do final de semana. Quem havia ficado
com quem, enfim, os assuntos variados corriam soltos entre risos, e isso era
interessante, por ser uma mera “segunda-feira”. Sabemos bem o peso que tem uma
segunda feira.
Para mim, o final de semana foi
diferente. Muitos pensamentos, com os quais lutei, deixaram marcas do cansaço
obtido pela batalha interior, mas não impediu que o coração se enchesse de
expectativa pela segunda feira.
Cheguei cedo ao laboratório, e optei por
ficar na secretaria, checando o sistema, vendo se todos os resultados dos
exames estavam devidamente liberados. Uma estratégia usada de forma velada.
Minha recompensa não tardou. A vi passando no corredor, fitou-me, deu um
tchauzinho antes de se dirigir ao seu setor de trabalho.
Pronto. Bastou um sorriso, um aceno, e
meu coração se derreteu por completo, tudo à minha volta se iluminou, tudo
brilhava. Alguém poderia me explicar o que essa mulher fazia comigo?!? bom, até
então, não tinha consciência da peça que o destino já havia pregado ao meu
coração. Pois até o vidro que nos separava, havia se tornado uma verdadeira
muralha que, se dependesse de minha vontade, viria a baixo, só para senti-la
mais perto...
Luciana se aproximou, e perguntou:
_Irmã Angélica, você está bem?!?
_ahãn?!? Que foi que disse Lu?!?
_Perguntei se está tudo bem...
_Ah sim, está tudo bem... porque?!?
_É que de repente, você ficou pensativa,
nem ouviu quando a chamei, e olha que foram umas três vezes, heim...
_Desculpa Lu, acho que é só um pouco de
cansaço. Acabei me desligando da realidade um pouquinho. O que você queria
mesmo?!?
_Certo, é que estamos com uma guia de um
convênio que o faturamento nos devolveu alegando a necessidade de alteração de
código, pois o convênio não quer efetuar o pagamento. Disseram que o código
está errado, mas não sei como fazer isso.
_Nossa Lu, isso realmente não tinha
acontecido antes, nem mesmo sei como resolver, assim, de imediato...
_Posso dar uma sugestão Irmã?!?
_Claro, diz. O que ta pensando?
_Quando a Irmã Aurora nos apresentou Mayla,
disse que ela entende sobre guias de convenio, sobre a funcionabilidade
laboratorial, e queria sua autorização para pedi-la para dar uma olhada nisso
pra gente, e me explicar o que devo fazer...
O nome dela aguçou ainda mais, a vontade
que estava em vê-la novamente. Um pretexto convincente e providencial para que
pudesse encontrá-la, sem levantar suspeitas, afinal o assunto era estritamente
profissional.
_Então Irmã Angélica?!? Posso pedir a
ajuda dela?!?
_Pode não Lu, deve. Faz o seguinte, liga
pra ela e pergunta se pode vir até aqui, por favor. Caso esteja ocupada, já que
praticamente acaba de começar o trabalho no hospital, diga que preciso falar
com ela, assim que tiver um tempinho disponível.
_Certo, já estou ligando pra ela.
A espera pela resposta me deixou
ansiosa, numa expectativa sem limites. Não demorou muito tenho certeza, mas
para mim foi uma eternidade...
_Então Lu?!?... já questionei logo.
_Ela disse que está terminando uma
conversa com a auxiliar de enfermagem, e já vem.
Mas que espera angustiante. Queria ir
até lá, e saciar aquela vontade que se agigantava mais e mais em meu peito, de
vê-la mais uma vez, mas não foi necessário, pois de repente senti um toque no
meu braço, trazendo-me mais uma vez à realidade, através do arrepio único
causado por aquele simples contato.
_Oi Irmã Angélica! a senhora mandou me
chamar?!?
_Oi Mayla!!! Sim, estou precisando de
sua ajuda, mas quero te pedir uma coisa, posso?!?
_Claro Irmã. O que deseja?!?
_Que não me chame de senhora, está
bem?!?
Sorriu, e ficou mais à vontade ao
responder...
_Está certo Irmã, como desejar... sei e
estou vendo que é muito jovem, mas sabe como é né?!?... é força do hábito.
_Obrigada Mayla. Eu entendo que é por
respeito. Para mim também não é tão simples viver debaixo de um hábito, sabendo
o peso que isso representa, mas não sou adepta desses formalismos sem pé nem
cabeça, que às vezes são impostos por aí, mas tudo bem, há quem gosta não é
mesmo?!?... e rimos da situação...
_ Bom agora vamos ao motivo pelo qual a
chamei.
Expliquei o que havia acontecido,
mostrei a guia, e imediatamente já foi ditando os passos para que Luciana
pudesse resolver aquele problema, que embora parecesse irrisório, havia causado
um transtorno imenso, junto ao faturamento.
Enquanto explicava, sem sentir ou mesmo
pedir licença, meus olhos percorreram seu rosto, e pousaram em seus lábios.
Quando a fitei nossos olhos se encontraram, senti meu rosto arder em chamas,
como se tivesse sido pega fazendo algo errado... Mayla, porém, limitou-se a dar
um sorriso. Não comentou nada a respeito, com certeza para não me deixar mais
sem graça do que estava.
_Pronto Irmã, problema resolvido. Creio
que o que falei para Luciana, será o suficiente para resolver essa questão,
está bem.
_Ok Mayla. Obrigada, e tenha certeza, se
precisar novamente, a chamarei...
_Fique à vontade Irmã. Será um prazer
poder lhe ajudar.
Sem que eu esperasse, ela se aproximou e
me abraçou pelos ombros. Fiquei emocionada, apenas passei meu braço por sua
cintura, e a apertei com carinho.
Bom, nem preciso dizer o que isso
significou e o que causou em meu corpo, não é mesmo?!?
Aquele contato era grandioso para mim,
embora me perturbasse ao extremo, me fez bem. Essa foi a conclusão final.
Capítulo
4:
Certa noite, Mayla precisou fazer hora
extra, e nos encontramos próximas ao CTI. Uma grata surpresa e felicidade para o
meu coração.
_Mayla!!! Que surpresa
boa!
_Verdade Irmã Angélica, pra mim
também.
_Não me diga que ta fazendo hora
“besta”?!?
_Por incrível que pareça, estou.
Sorrimos.
_Mas e você Irmã? O que faz no hospital a
essa hora? Deveria estar descansando não?
_Conhece o ditado, enquanto descansa
carrega pedra?!? Então, fui chamada ao laboratório para carregar umas pedrinhas
básicas...
_Só você
mesma.
_Senta aí Mayla, e me conta as
novidades!
Nos sentamos em umas cadeiras, cujos
encostos estavam colados à parede, de frente para o
laboratório.
_Não é novidade, mas estou feliz Irmã
Angélica, feliz por trabalhar aqui, conhecer pessoas incríveis... uma
oportunidade única de aprimorar meus conhecimentos. Espero ser capaz de atender
as necessidades do hospital.
_Você é competente Mayla, não tem com o
que se preocupar.
_As cobranças são acirradas Irmã, e em
certos momentos, fica bem complicado, sabe.
_Eu sei, e como sei. Estou do outro lado
lembra?!?, o que “cobra”, posso assegurar, seja simples e verdadeira, e tudo
dará certo. Competência você tem, então, não tem porque se sentir insegura. E
pelo que andei apurando, as irmãs estão contentes com seu
desempenho.
_É bom saber disso. Elas não dizem nada, e
a gente fica na dúvida.
_Mas fica tranqüila, quando algo não
estiver do agrado delas, você saberá... enquanto não dizem nada é sinal de que
está tudo bem.
Perto dela, o tempo para mim sempre se
tornava inexistente, e nesse dia não foi diferente. Quando nos demos conta, as
horas já iam avançadas.
_Irmã Angélica a conversa está ótima, mas
preciso ir pra casa!
_Tudo bem. Foi muito gostoso conversar
contigo. Obrigada pela companhia!
_Foi um
prazer.
Ao me levantar, a ponta do meu véu ficou
presa na cadeira e conseqüentemente fiquei sem ele. Mayla não sabia o que fazer,
e no desespero, abriu os braços tentando proteger meu corpo, caso alguém
aparecesse de repente.
Cai na gargalhada, afinal de contas, quem
tinha que ficar envergonhada era eu, mas ela é quem ficou na saia
justa.
Soltei o véu com naturalidade,
recoloquei-o como se nada tivesse acontecido.
_Você é uma figura Irmã! Eu aqui
desesperada e você nessa calma toda...
_E o que eu poderia fazer?!? Chorar, me
descabelar?!? Que nada! Nessas horas a opção mais sensata é ser simples. Só
isso. Pra minha sorte, ainda bem que meu cabelo está bem cortado e
cuidado.
A partir daí não contivemos o riso. O
melhor é que, a seguir, Mayla me abraçou apertado, falando em meu ouvido: _Seu
cabelo é lindo Irmã!
_Obrigada! Foi só o que consegui
pronunciar.
Beijou-me a face, e se foi. O sorriso de
felicidade nos lábios acompanhou-me ao longo da
noite.
Assim o tempo foi passando. O contato que
mantínhamos era bem profissional, embora os abraços tivessem se intensificado,
assim como as “desculpas” que ambas encontrávamos para estarmos sempre por
perto.
Riamos, conversávamos, brincávamos, e
sutilmente os toques no braço, nos ombros, nas mãos, passaram a fazer parte da
nossa rotina. Para mim, passou a ser uma necessidade, o que se tornou assustador
para a minha consciência moral religiosa.
Mayla tornou-se alvo constante dos meus
pensamentos, sonhos, sentia necessidade de vê-la, e quando isso não era
possível, meu dia e tudo à minha volta, ficava sem graça, sem
brilho.
Os finais de semana passaram a ser uma
tortura. A segunda feira que era tortura para todos, para mim passou a ser a
celebração do coração, já que ele contava as horas, minutos e segundos para ver
Mayla adentrando aquele tão conhecido corredor...
A cada dia, a ausência de Mayla se tornava
mais doída. Não tinha consciência do porque sentia como se parte do meu coração
estivesse sendo arrancada de mim, a cada vez que a via entrar em seu carro, e
sair pela guarita daquele hospital.
Como freira, tinha uma vida para viver,
regras a cumprir, as promessas que havia feito no dia em que me consagrei...
ainda que temporariamente, e certinha como era, responsável com meus votos, não
permitia sequer, cogitar a possibilidade de que, tudo o que estava acontecendo
não fosse pura e simples admiração.
Como mulher, gente de carne e osso, sentia
meu ser inteiro clamar por estar com Mayla, por um toque, um olhar. Não
importava como, mas sentia falta de sua presença, de seu sorriso.
O final do ano chegou, e com ele as
festividades do natal. Tudo preparado com esmero, para que os funcionários
pudessem desfrutar de um momento de
confraternização.
O salão estava repleto. Das pessoas
presentes algumas nunca tinha visto. Por ser uma das anfitriãs, tentava dar
atenção a todos, de forma a que se sentissem à
vontade.
Não tinha tido o prazer de ver meu Sol
ainda. Mas no instante em que entrou no salão, eu a senti. O perfume aguçou
minha visão, e perdi a respiração ao vê-la.
Sempre estava de roupa social, mas neste
dia, uma calça jeans e uma blusa de linha bordada... os detalhes?!? Bem, os
detalhes eram... ai, não recordo, porque aquele era o primeiro instante em que
meu cérebro processava as curvas bem feitas daquele corpo... afff, fiquei
paralisada, de boca aberta... até mesmo a mais pura das criaturas sucumbiria
àquela beleza feminina.
Caminhou em minha direção com um sorriso
radiante nos lábios.
_Oi, Irmã
Angélica!
Puxa vida, como se disfarça um olhar de
cobiça, de gula?!?... Até que tentei. Juro.
_éh.. bom... Mayla... oi! Que bom ter você
aqui conosco!
_Tudo bem Irmã? Você está tão
vermelha...
_Nã... não é nada não sabe... acho que é o
calor... cê não ta sentindo não?!?
_Bom, é que acabei de chegar, não deu pra
sentir calor ainda.
_É, pois é.
Que situação! Como explicar que o calor
era por estar simplesmente babando nas curvas do corpo
dela?!?
Tentei, fiz um esforço terrível, mas meus
olhos não obedeciam, insistiam em pairar nas curvas daquele quadril... ó céus!!!
Estou realmente perdida!
Entrei em desespero, pois não conseguia
definir o que era aquilo tudo que estava sentindo, e que era mais forte que
minha razão.
Um garçom passou, e me servi de uma taça
de vinho. Tomei como se fosse água. Estava com sede... não, estava ficando
louca... isso sim!
_Irmã Angélica, cuidado. Acho que você não
tem costume de beber assim tem?!?
_Bom, aqui a gente não bebe nada. Sorri de
nervoso.
_O que está acontecendo contigo Irmã?!?
Estou ficando preocupada...
_Não é nada, pode ficar tranqüila. –sem
conseguir segurar– só estou achando você linda!
Devo ter ficado roxa na hora, porque ela
sorriu divertida.
_Então é por isso que está assim?!? Estava
sem jeito de dizer que me achou bonita é?!?
_Bom, é que, ãh, normalmente te vejo em
roupas sociais, e foi surpresa te ver de calça jeans... é
isso.
_É só isso
mesmo?!?
_É sim. Claro que
sim.
_Se você diz, eu acredito. E obrigada pelo
elogio.
Alguém a chamou, e pude fugir daquela
situação. Fui ao banheiro, precisava respirar, ou melhor, controlar a
respiração. Lavei o rosto. Quando me senti mais segura, voltei para o
salão.
Durante a noite, fechar os olhos foi
reviver a doce e maravilhosa visão de cada detalhe do corpo daquela linda
mulher! E que corpo!!!
Em minha ingenuidade, tentava afirmar que
as "coisas" que aconteciam em meu corpo, era apenas reflexo da beleza que
contemplava
Minha luta interna prosseguia, cada vez
mais acirrada. Tinha dias em que ficava esgotada, de tanto pensar em justificar
aquele mar de emoções, tão fortes quanto controversas, e que poderiam causar
sérios transtornos em minha vida.
Para o ano novo, novamente uma festividade
à parte. Mas desta vez, Mayla não pode estar presente. Apesar da tristeza,
mantive a imagem de felicidade estampada nos lábios em forma de
sorriso.
Eram tantos sentimentos juntos, que as
lágrimas em determinados momentos se tornavam inevitáveis, não tinha com quem
conversar, e nem podia, pois se ousasse dizer o quanto Mayla mexia comigo, o
quanto havia se tornado importante para mim, o quanto me preocupava com ela, e o
quanto sentia ciúmes de quem tinha o privilegio de sua companhia quando não
estava no hospital, com certeza, eu seria transferida, caso viessem a descobrir
os sentimentos que estava nutrindo por Mayla, e a conseqüência pior seria para
ela, pois poderiam despedi-la. Não entenderiam, muito menos aceitariam meus
sentimentos, nem permitiriam que pudesse ter a chance de
senti-los.
Este final de semana foi complicado, as
horas não passavam, e tudo me irritava, fiquei super baixo astral, com uma
saudade enorme de olhar aqueles olhos castanhos claros, aquele rosto lindo,
aquela boca que me atraia.
Lutava internamente para encontrar
justificativas que amenizassem o sentimento de culpa por sentir por Mayla algo
tão intenso, que me consumia a alma.
Por tudo, tentei ficar longe de Mayla, fiz uma força imensa para me manter mais à distancia, porem minha batalha sempre terminava com as armas depostas ao chão em sinal de rendição, pois bastava um único olhar, e lá estava meu coração, sedento, carente da presença daquela linda mulher.
Capítulo 5
Certo dia, a vi chegando, mas não estava como antes, faltava aquele brilho. Percebi que algo não estava bem. Seu sorriso não estava tão aberto, e seu olhar... ah, aquele olhar não me enganava, algo havia acontecido.
Aprendi a conhecer Mayla de um jeito único, e qualquer mudança não passava despercebida por mim. Fiquei com meu coração apertado, pois queria ajudar, mesmo sem saber do que se tratava.
Tinha uma prima, com quem dizia dividir o apartamento onde moravam. E de fato, sempre quando precisava falar com ela em casa, algumas vezes, a tal “prima” atendia o telefone.
Os boatos sempre correm soltos, afinal a língua tem muitas funções, algumas prazerosas, positivas, mas em alguns casos, pode destruir alguém. E chegou aos meus ouvidos que Mayla era lésbica, e que na realidade, vivia com essa mulher, que conhecíamos como sua prima. Sempre foi muito discreta, em todos os sentidos, embora a convivência já houvesse esclarecido esse detalhe para mim. Mas ela ocupava meu coração, e em momento algum, a tratei com diferença, mesmo sentindo ciúme daquela que dividia a mesma casa, a vida e a mesma cama com ela.
Nesse dia em que percebi aqueles olhos tão tristes, não resisti. A chamei para uma conversa a portas fechadas, onde pudesse expor o que sentia sem receio algum.
Queria realmente, ajudá-la, e tentar transformar aquele olhar em alegria novamente.
Liguei em sua sala.
_Alô...
_Mayla, sou eu Irmã Angélica.
_Oi Irmã, ta tudo bem?!? Precisa de algo?
_Está tudo bem Mayla, estou precisando de algo sim...
_O que é Irmã?!?
_Preciso que você venha até a secretaria do laboratório, porque quero muito falar contigo.
_Estou só adiantando uma estatística que preciso apresentar, e assim que encerrar aqui, irei falar com você.
_Certo Mayla, estarei esperando.
Desliguei o telefone, sentindo uma dor em meu coração. Saber que ela estava triste, me deixava sem ação, pois tudo o que desejava era vê-la sempre feliz, com aquele sorriso tão lindo, iluminando aquele rosto que me era tão caro.
À tarde, por volta de 15:30, estava na secretaria quando a vi chegar. Pediu licença e entrou. A recebi com um abraço apertado, ao que ela retribuiu e ali ficou por uns instantes, como se precisasse daquele contato protetor.
Desvencilhou-se do abraço, olhou em meus olhos e disse:
_Então Irmã Angélica, em que posso ajudá-la?!?
_Venha ate a sala.
Antes de fechar a porta, pedi à secretaria:
_Lu, preciso resolver algo muito sério com Mayla, e não quero ser interrompida, está bem?!?
_Pode deixar Irmã Angélica, qualquer coisa anotarei os recados.
_Obrigada Luciana.
Fechei a porta, e indiquei a cadeira para que se sentasse e ficasse mais confortável.
_Bom Mayla, não quero parecer inconveniente, ou intrometida, mas hoje percebi que você está muito triste, e queria saber, se posso ajudar em alguma coisa...
Abaixou os olhos, e sem me olhar perguntou:
_Está tão visível assim, Irmã Angélica?!?
_Para mim que aprendi a conhecer você, como te disse, apesar do pouco tempo de convivência está claríssimo, mesmo com seus esforços para mostrar o contrário... mas para as outras pessoas, creio que esteja passando batido...
Deu um sorriso entristecido, e me olhou nos olhos, tive certeza que não errara em meu julgamento, pois vi a dor estampada naqueles lindos olhos.
Ainda tentou fugir da verdade, dizendo que eram preocupações com a mãe, que estava passando por um momento difícil de saúde.
A encarei, e decidi jogar a ultima carta que tinha, já que estava disposta a ajudá-la de alguma forma. Era tudo ou nada.
_Mayla, entendo que sua mãe esteja passando por problemas de saúde, mas esse não é o motivo de sua tristeza, posso sentir isso. Sei que não temos intimidade suficiente pra falar de assuntos tão pessoais, nem quero parecer intrometida, afinal não tenho nada a ver com sua vida fora dos portões deste hospital, mas estou aqui como alguém que tem um carinho imenso por você, e que se preocupa com sua felicidade. Sou sua amiga Mayla, antes de tudo. Por isso, ouso te perguntar: sua tristeza tem algo haver com a sua “prima”, não é?!?
Ela me olhou, surpresa com minha colocação, e baixou os olhos, ficou em silêncio, e cheguei a pensar que ia se levantar sem falar nada, mas respirou fundo, e disse:
_Sim, Angélica, tem haver com ela sim. Parece que não consigo esconder nada de você mesmo, não é?!?
_Você pode até tentar, mas não vai conseguir, então Mayla, não se preocupe, sei que precisa conversar, e saiba que nada muda entre nós por isso, afinal eu já havia percebido que ela na verdade, não é sua prima, a muito tempo.
_Como Angélica?!? como você descobriu?!? Ela falou algo pra você?!?
_Não querida, ela nunca falou nada comigo, mas tenho aprendido muitas coisas na vida, embora pareça novinha, tenho muita bagagem adquirida ao longo destes quase 8 anos de vida religiosa. Apenas percebi, intuitivamente, digamos assim, e mesmo depois desta descoberta, continuei a te querer bem do mesmo jeito, portanto minha linda, nada de fugir da sua vida pra mim, combinado?!?
_Angélica, você não existe sabia!
_Existo sim Mayla, tanto que estou aqui estendendo minha mão para te ajudar da melhor forma possível, ou melhor, abrindo meus ouvidos para te escutar. Vamos lá, não se sinta intimidada por meu hábito religioso!
_Está bem, você tem razão. Agradeço por sua compreensão e por me aceitar como sou. E de fato, estou precisando conversar com alguém, senão vou acabar enlouquecendo.
Bom, nossa conversa durou um bom tempo. Descobri que Mayla e Silvia, esse era o nome da “prima”, tinham um relacionamento de 13 anos. Se conheceram numa reunião de amigos da faculdade, e Silvia sendo homossexual, conseguiu conquistar o coração de Mayla, que até então, só havia se relacionado com rapazes.
Viveram bem por um longo tempo, mas nos últimos anos, a relação havia se desgastado. Silvia já não tinha mais aquele carinho, atenção, romantismo de antes, e tudo sempre tinha que terminar na cama, onde ela saciava seu prazer, e pouco se importava se o prazer de sua parceira havia sido completo, depois simplesmente virava pro lado e dormia. Já não conversavam mais. Agia como se fosse o “macho” da casa, pensando que uma noite de sexo, colocaria tudo no eixo.
Mayla sempre que falava em sair de casa, se via numa situação delicada, pois Silvia fazia mil ameaças, e sabia que com isso causava um abalo imenso em sua companheira.
_Sabe, Angélica, hoje me sinto totalmente sufocada, usada pela pessoa a quem dediquei tantos anos de minha vida. Já não conseguimos ficar no mesmo ambiente sem discutir. Sei que ela está ficando com outras mulheres, mas isso já não me incomoda mais. Procuro chegar mais cedo em casa, de forma a ir pra cama também mais cedo, e finjo que estou dormindo quando ela se deita ao meu lado. Não estamos vivendo bem, de forma sadia, e isso tem destruído ainda mais o pouco do que restava de sentimento, entende?!? Sem contar o ciúme doentio. Se atraso por algum motivo, mesmo avisando, ao chegar em casa a confusão está armada. Vem querendo saber com qual “vagabunda” eu estava me esfregando, e se havia dado conta do recado, e daí pra pior, entende.
Aquela situação estava deixando-a arrasada, e eu me sentia ali, frente a ela, completamente impotente. Precisava ter o devido cuidado em minhas palavras, pois não podia aumentar ainda mais a animosidade reinante naquele relacionamento, então resolvi não tecer comentários, mas incentivá-la a dizer o que pensava.
Cortava-me o coração ver a tristeza, e o esforço que estava fazendo para não chorar ali mesmo.
_Diante de tudo o que me disse Mayla, desta realidade que está conseguindo tirar o brilho dos seus olhos, o que seu coração deseja fazer?!?
_Esse é o problema Angélica. Já tomei minha decisão, e comuniquei o que vou fazer. Estarei saindo de casa. Depois de uma noite agitada, consegui fazê-la me ouvir. Expliquei tudo o que estava sentindo, e porque não podíamos continuar assim.
_E ela Mayla?!? Como reagiu?!?
_Mal Angélica. Disse que vai se matar, que as coisas não terão mais sentido, que não sabe viver sem mim, chorou muito, disse que vai mudar, mas é sempre assim, cada vez que tento dar um basta, acabo ficando com pena dela, e insistindo na relação, só que a mudança não acontece. Desta vez, porém foi diferente, e ela sentiu isso, pois mantive minha decisão, e acabou cedendo. Mas tenho receio de que faça realmente alguma besteira. É isso que tem me perturbado. Depois que conversamos, ela saiu de casa e não voltou. Estou realmente preocupada.
Refleti sobre aquela situação. Meu Deus, nunca imaginei que um dia, fosse passar por algo assim. Estava travando uma luta interna comigo mesma, contra minha vontade de abraçá-la, de acariciar aquele rosto tão lindo e que estava sofrendo tanto, mas ao mesmo tempo, toda a moralidade religiosa, impregnada em meu ser, me impedia de fazer algo tão inapropriado, pelo menos, naquele momento, era o que pensava, e era também a única forma de justificar o que estava se passando comigo, como apenas uma “tentação”. Mesmo confusa, sem saber ao certo o que dizer, acabei segurando as mãos dela. Estava de cabeça baixa, então segurei em seu queixo, o ergui até que me olhasse nos olhos, e disse:
_Mayla, aprendi em um curto tempo a te conhecer um pouquinho, e nem mesmo sei explicar como isso aconteceu, sei também que não sou a pessoa mais indicada pra dar opinião em seu relacionamento, mas aprendi a conhecer um pouco o ser humano e suas reações variadas frente à dor e a perda, ainda não sei nada, mas o pouco que sei e acredito, é que Silvia não vai fazer nenhuma besteira, ela precisa de tempo pra entender, aceitar e conviver com essa nova realidade que está se fazendo na vida de vocês duas. Tenho certeza de que ela vai refletir e ver que os momentos bons e lindos que viveram, precisam permanecer vivos, e que uma relação encerrada com brigas, ofensas e agressões, só tende a apagar a marca do que de bom existiu.
Respirei fundo. Estava tentando apenas injetar confiança e segurança no coração daquela mulher linda, e tão fragilizada à minha frente, e no fundo rezava para que Silvia realmente enxergasse as coisas sob aquele ponto de vista... continuei...
_ Fica calma Mayla, vai ficar tudo bem, acredite. Confie no lado bom e bonito do que vocês viveram, e saiba que estarei aqui, se precisar. Quando chegar hoje em casa, Silvia estará lá, então vocês sentam e conversam novamente, quem sabe, seja bem diferente do que você pensa, heim?!?
_Obrigada Angélica. Falar com você foi o que de melhor poderia ter me acontecido hoje. Esse final de semana foi terrível para mim, e tenho que confessar, varias vezes cheguei a pegar no telefone para ligar para você, mas acabava desistindo, pois não sabia como explicar a situação em si, e agora, vejo que não precisava ter me preocupado tanto. Se eu precisar, vou te procurar sim. Agora, tenho que ir pra casa. Chegou a hora da verdade, não é mesmo?!? O que tiver que ser, será.
_De fato, deveria ter ligado. Gosto imensamente de ti, e não teria motivo algum para mudar com você, se tivesse aberto sua vida para mim. Olha, agora vá confiante, se precisar de alguma coisa, me liga, está bem?!? Não pense duas vezes.
_Certo Angélica, mais uma vez, obrigada!
_Não precisa agradecer. Agora vem cá, me dá um abraço, acho que você ta precisando deste carinho, não é mesmo?!?
Nos abraçamos. Um abraço cheio de carinho, necessidade de proteção, dengo, de sentimentos positivos que podem ser transmitidos por um contato tão gostoso, sincero e puro, se bem que, as reações ocorridas em meu corpo, não foram tão puras assim, mas não me permitia pensar sobre elas.
Mais uma noite complicada. Tantos pensamentos em conflito, tantas emoções que até então, desconhecia, e o que mais me deixava assustada, era a força com que elas se manifestavam. Os sonhos eram conturbados, mas a razão era a preocupação com ela, e torcia para que tudo ficasse bem mesmo, e que o dia chegasse logo, a fim de que pudesse vê-la.
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