AMOR ÀS AVESSAS
by
Diedra Roiz
Capítulo 1: Um Desafeto Antigo...
- Ah, não, Raq, que mal eu fiz pra vocês?!
Raquel controlou a vontade de rir da reação
da amiga, que quase derramou o chope todo na mesa.
- Nossa, Dani, também não é assim,
né? Já faz séculos!
- É assim, sim! Eu nunca suportei essa garota!
Esqueceu o que ela fez comigo? Tem noção do que é entrar
no colégio no meio do ano, sem conhecer ninguém, e ainda ter uma
patricinha fazendo campanha contra você? Por um acaso só porque
você e a Deca tão namorando, eu tenho que agüentar ela?!
Pra falar a verdade, Dani ainda não conseguia
entender como é que Raquel e Andréia, que se conheciam desde o
segundo grau, depois de mais de 10 anos tinham se esbarrado numa festa e de
repente, do nada, ficado tão loucamente apaixonadas a ponto de começar um daqueles namoros bem grudentos, onde
nunca se vê uma sem a outra.
Até estranhou quando a amiga marcou de sair sozinha
com ela. Agora estava começando a entender...
- A Mel é a melhor amiga da Deca, você tá
careca de saber. Por favor, amiga, sem você essa viagem não vai
ser a mesma coisa... Além disso, a Deca convidou uma amiga dela super
gata, a Paulinha...
Tinham combinado passar o Reveillon na casa da Deca em
Itaipava. Depois de uma exaustiva e muito pouco lucrativa temporada de 3 meses
em cartaz com o último espetáculo que tinha feito, Dani estava
precisando muito espairecer. Além disso, não ia perder a chance
de conferir pessoalmente o quanto a tal Paulinha era gata...
- Tudo bem... Mas você fica me devendo uma!
- Eu não vou. Não vou e não vou
mesmo!
Mel continuou balançando a cabeça dizendo
não mesmo depois de terminar a frase. Parou por um momento, levou a mão
inconscientemente ao nariz e logo depois voltou a mover negativamente a cabeça.
- Que bobagem, Mel, porque não?
- Porque não? Ai, Deca, porque essa menina quebrou
o meu nariz, esqueceu?
- Isso já faz muito tempo...
- Não interessa!
- Além disso, se você não tivesse
pichado “Fora, Dani, odiamos você!” em todos os banheiros, provavelmente
ela não te acertaria com a bola de handball, né?
Esse episódio, sem dúvida o pior e mais
dramático de toda a vida de Mel, ela queria esquecer. A professora de
educação física tinha declarado que “Daniele não
tinha culpa, foi um acidente, podia acontecer com qualquer um”, mas Mel sabia
perfeitamente que não tinha sido acidente coisíssima nenhuma.
Estava ali parada defendendo o gol, e Dani tinha mirado e atirado a bola com
toda força e de propósito em seu nariz sim!
Achava ótimo Deca estar namorando Raquel, que
sempre tinha sido uma fofa, mas infelizmente tinha o mau gosto de ter como melhor
amiga aquela insuportável,
quebradora de narizes...
- Mas então, Mel? Vamos, por favor... Além
disso, a Raq também convidou uma outra amiga dela, a Bia, super legal,
bem o seu tipo...
Mel pensou nos prós e nos contras. Já tinha
combinado tudo com PH, seu primo preferido e quase irmão. Ele ia levando
João, seu mais novo namorado. Mel não tinha como deixar de ir.
Além disso, quem sabe a tal Bia valia a pena?
- Tudo bem. Por você eu faço o sacrifício.
Capítulo 2: Aquela que se faz esperar...
- Gente, é o fim da picada! Quanto tempo vamos
esperar por essa menina?
Parecia brincadeira. Estavam ela, PH, Pedro, Bia, Paulinha,
Deca e Raq, todos plantados em frente à casa de Deca esperando Dani há
mais de 45 minutos.
Apesar de Mel ser o tipo da pessoa que nunca chegava
atrasada, estava acostumada com o fato da maioria das pessoas não ser
pontual.
Mas atraso era coisa de 10 minutos, 15 no máximo...
Um atraso como esse – e ela nunca tinha visto coisa igual - de mais de 45 minutos,
era uma falta total de consideração e de respeito!...
Foi quando a viu atravessando a rua.
Existem pessoas que têm presença. Uma energia,
um brilho sem explicação. Basta entrarem num ambiente para todos
os olhares se voltarem para elas. Assim era Daniele.
Usava uma faixa colorida nos cabelos pretos muito lisos,
calça jeans de cintura baixa com rasgos estratégicos, camiseta
preta justinha e tênis All Star. Esbanjou charme e simpatia enquanto dizia:
- Desculpa, gente... Tudo acontece em Elizabeth Town...
Meu despertador não tocou, daí tive que fazer minha mala correndo
e pra completar o ônibus não passava, fiquei mais de 20 minutos
no ponto...
Mas o encantamento dela nunca tinha surtido efeito em
Mel:
- Sorte sua, Daniele, porque nós estamos aqui
te esperando há mais de 45 minutos.
Dani olhou para a figura de cabelos dourados volumosos
muito bem tratados, óculos escuros, blusinha, calça corsário
e sandália de salto alto... Abusivamente linda... E totalmente intragável...
- Oi pra você também, Melissa...
Uma das coisas que Mel mais detestava era que a chamassem
pelo nome. Rapidamente, prevendo o desastre iminente, Deca e Raq interferiram:
- Dani, essa aqui é a Paulinha.
Raq não tinha exagerado. Paulinha era uma morena
de cabelo preto escorrido, corpinho de parar o trânsito e um sorriso lindo...
Dani a presenteou com seu sorriso mais sedutor,
fazendo Paulinha se derreter:
- Oi...
- Oi...
- Bom, esse é o PH, primo da Mel. O João,
namorado do PH. A Bia e a Mel você já conhece.
- Oi Bia!
- Oi, Dani.
Não cumprimentou Mel acintosamente, e o clima
voltou a ficar pesado. Deca suspirou, olhou para Raq, e as duas sabiam que estavam
pensando a mesma coisa: “Esse reveillon não vai ser fácil...”,
e disse:
- Gente, vamos indo?
Entraram Dani, Bia e Raq no carro de Deca. Paulinha,
PH e João no carro de Mel, e partiram.
Capítulo 3:Fogo Cruzado...
A casa era maravilhosa. A cozinha era imensa, na sala
tinha uma verdadeira videoteca, no salão de jogos mesa de pingue-pongue,
totó e sinuca e do lado de fora duas redes, uma churrasqueira e a piscina.
Chegando no segundo andar, dividiram os quatro quartos
da seguinte forma: Deca e Raq (lógico!), PH e João (óbvio
também), Dani e Paulinha , Mel e Bia (para evitar confusão e também
na intenção de rolar alguma coisa entre elas).
Depois do almoço foram assistir a um filme. PH
e João queriam ver “Minha vida em cor de rosa”, mas foram voto vencido.
Escolheram “Imagine eu e você”, que todas já tinham visto, mas
tão fofo que ninguém cansava de ver.
Os meninos acabaram resolvendo ir namorar na rede. Deca
e Raq sentaram juntas na mesma poltrona, Raq no colo de Deca, deixando claro
que não pretendiam assistir muita coisa do filme. Paulinha puxou Dani
para um dos sofás, e conseguiu prender a atenção dela cruzando
e descruzando as maravilhosas pernas morenas. Enquanto isso, no outro sofá,
Mel e Bia conversavam baixinho, num clima de flerte bem olho no olho...
O filme foi passando sem problemas, até que Mel
comentou sobre uma das personagens:
- Essa “Luce” é uma coisa, hein?
- O nome da atriz é Lena Headey.
Dani respondeu, com um sorrisinho irônico. Mel
respirou fundo e contou até dez para não começar uma discussão.
Então veio a tão esperada cena do beijo.
Todas concordavam que a cena era maravilhosa, e Dani acrescentou, da forma carismática
de sempre:
- Essa cena é perfeita! Quando ela vira e a outra
entra pela porta e as mãos e as bocas se encaixam direto... Nossa! O
tempo das atrizes, a sincronia delas... é perfeito!
Dessa vez Mel não agüentou:
- Uma cena linda dessas e a outra me faz um discurso
técnico sobre o tempo e a sincronia das atrizes... Realmente...
Foi o bastante para começarem uma discussão
sem fim. Ninguém mais conseguiu ver o filme e o barulho foi tão
grande que até os meninos voltaram:
- Meninas, que é isso? Por favor...
- É essa idiota! (Mel e Dani falaram juntinhas.)
PH e João saíram seguidos por Bia e Paulinha.
Deca já estava sem paciência:
- Olha só, vocês vão ficar estragando
a diversão de todo mundo o tempo inteiro, é?
- Fala isso pra ela! (Mel e Dani falando juntas novamente.)
Raq puxou Dani para um canto. Deca fez o mesmo com Mel.
- Dani, fala sério... Parece que você tá
mais interessada em brigar com a Mel do que ficar com a Paulinha...
- Tá louca, Raq? Ela é que fica me provocando
o tempo inteiro.
- Sei. Você, é uma santa... Quem não
te conhece que te compre... Falando nisso, vamos procurar a Paulinha.
- Que é isso, Mel? Desde quando você é
barraqueira, amiga?
- Essa menina me tira do sério!
- Não sei não... se eu não te conhecesse
bem ia até pensar que essa tensão entre
vocês é outra coisa...
- Nem que ela fosse a última mulher na face da
terra, Deca! E quer saber? Vamos ver onde tá a Bia...
Quando chegaram lá fora, descobriram que Paulinha
e Bia tinham saído declarando que: “Já que Mel e Dani não
tinham olhos para mais ninguém, iam dar uma volta sozinhas”.
PH desafiou as meninas para jogar sinuca, mas ninguém
queria. Então implicou:
- Vamos lá, gente, é o jogo de vocês!
- Comentário ridículo! (disse Mel.)
- Pronto, a princesa já ficou ofendida... (Dani
não perdeu a chance.)
Antes que começassem mais uma briga, Raq disse,
de uma forma nada amigável:
- Chega, né? Todo mundo já tá de
saco cheio dessa briguinha de vocês. Vamos pra piscina?
Mel foi a última a chegar na piscina. Quando apareceu,
Dani ficou feliz por estar de óculos escuros, porque não conseguia
tirar os olhos dela.
Era insuportável, mas que corpinho!...
Que pensamento era esse? Estava mesmo precisando se acertar
com a Paulinha... Mas enquanto ela não voltava, o único jeito
era entrar na água fria...
Mel escolheu a cadeira mais longe de Dani possível.
PH e João logo se sentaram ao lado dela.
- Prima, pena que você e a Dani não se topam,
né? Porque até eu sou obrigado a dizer que ela não é
de se jogar fora...
Enquanto passava filtro solar, Mel deu uma olhada disfarçada
para Dani. Ela estava saindo da piscina, a água escorrendo pelo corpo
bem definido, com tudo no lugar certo... Isso sem contar a aura de sensualidade
que a envolvia...
Nesse instante Dani a olhou, e percebendo o olhar dela
piscou, provocando. Mel desviou os olhos, se achando louca de estar achando
a outra atraente.
“Nem que fosse a última mulher da face da terra!”
– reafirmou como se precisasse se convencer.
E falou para o primo com um sorriso sarcástico,
alto o bastante para Dani ouvir:
- Que adianta a embalagem ser bonita se vem vazia por
dentro?
Definitivamente, nunca tinha encontrado alguém
tão insuportável na vida!
Dani resolveu fingir que não tinha escutado a
última provocação de Mel. Respirou fundo e contou até
cinqüenta (só até dez não seria suficiente).
Raq e Deca já estavam chateadas, e não
ia mais dar o gostinho de permitir que a outra a tirasse do sério. Prometeu
a si mesma que dali para frente, ia fingir que Mel não existia.
Nesse exato momento, Paulinha e Bia voltaram, de mãos
dadas e parecendo muito mais íntimas do que quando tinham saído.
Bia chamou Dani num canto:
- Olha só, amiga, eu sei que você tava interessada
na Paulinha, mas rolou um clima entre a gente, nós ficamos, e... bem,
acho que eu to apaixonada!
- Assim, do nada?
- Você me desculpa? Não fica chateada comigo?
- Ai, Bia, claro que não. Até parece que
não me conhece...
- Só que tem uma outra coisinha, amiga...
- Quando você começa com essa história
de amiga pra cá, amiga pra lá, já sei que vem bomba! Fala
logo! O que é?
- É que eu e ela queremos... ah, você sabe...
dormir juntinhas...
- Você quer que eu durma aonde? No quarto daquela
patricinha infame?
- Ai, por favor, miguxa, não seja tão melodramática...
Quebra esse galho pra mim... Por favor, vai...
Bia já tinha ajudado Dani em momentos muito piores
do que aquele. Não tinha como dizer não.
- Tá, tudo bem.
Bia deu um abraço tão apertado nela que
quase a sufocou.
- Ai, Mel, por favor!
- Paulinha, você fica com a menina que eu tava
a fim e ainda quer que eu divida o quarto com a insuportável da Dani?
- Por favor! Pela nossa amizade, vai... Eu juro que tô
apaixonada, Mel... Me dá essa força, por favor...
Mel tinha um coração de manteiga derretida
com as amigas. Simplesmente não conseguia dizer não. E Paulinha
sabia muito bem disso.
- Tá bom. Você sabe que não consigo
dizer não...
Recebeu de Paulinha um abraço de quebrar os ossos.
Capítulo 4: Mulheres à Beira de um Ataque
de Nervos...
De noite, resolveram sair. Como Paulinha e Bia não
se largavam mais, Dani foi obrigada a ir no carro da Mel. PH e João sentaram
no banco de trás, e ela não teve escolha: sentou no banco do carona
ao lado dela.
Quando estava colocando o cinto de segurança,
teve o pensamento mais bizarro do mundo: que estava sentada ali como se fosse
namorada dela. Mais bizarro ainda foi o pulo que deu quando a mão de
Mel acidentalmente encostou em sua perna quando passou a marcha. Definitivamente,
estava com libido em excesso.
Mel estava tão concentrada em não perder
o carro de Deca de vista, que acabou roçando a mão na perna de
Dani. Levou um susto com a reação da outra, que praticamente deu
um salto.
Não estava acostumada a causar uma repulsa tão
grande em alguém. Menos acostumada ainda estava a se arrepiar daquele
jeito com um contato tão breve e simples. Felizmente, logo chegaram,
pondo fim aquele suplício.
Era um ambiente muito charmoso. Rústico, de madeira,
pouco iluminado, ideal para casais apaixonados, que, diga-se de passagem, era
o que não faltava naquela mesa... Pediram
duas pizzas grandes logo de cara. Raq falou baixinho para Dani:
- Não olha agora, mas aquela mulher no canto,
que não desgruda os olhos de você... Não é a Fabiana?
Fabiana era uma loira com quem Dani tinha ficado duas
vezes. A primeira levada pela bebida. A segunda porque Fabiana insistiu muito.
Nas duas vezes tinha se arrependido. Daquela ali, Dani só queria uma
coisa: distância...
Mel percebeu quando Raq sussurrou alguma coisa para Dani.
Olhou na direção que elas olharam e viu uma loira de tirar o fôlego
que olhava para Dani fixamente.
A conversa fluiu animada enquanto bebiam e comiam. De
vez em quando os olhos de Mel cruzavam com os de Dani. Quando isso acontecia,
ambas desviavam o olhar rapidamente.
Mas aos poucos, conforme iam bebendo, Mel começou
a ter a impressão que os olhos das duas se encontravam com mais e mais
freqüência. E o pior: estava longe de não estar gostando...
De duas uma: ou tinha bebido demais, ou estava ficando maluca...
De repente, Dani se levantou e caminhou até o
banheiro. Mel viu a loira se levantar e ir atrás dela, e se assustou
ao perceber que isso a incomodava.
Dani não conseguia evitar que seus olhos toda
hora buscassem os de Mel... E percebeu
que toda vez que a olhava, os olhos de Mel também estavam buscando os
dela...
Aquela troca de olhares era a coisa mais louca, totalmente
sem sentido... Só podia estar bêbada.
Levantou para ir ao banheiro, disposta a passar um pouco
de água no rosto. Nem percebeu quando Fabiana a seguiu.
Bia comentou com Raq:
- Aquela é a Fabiana?
Com uma cara estranha, Raq fez que sim.
- O que ela tá fazendo aqui?
- Deve ter vindo atrás da Dani. A mulher é
louca por ela!
Deca sugeriu:
- Amor, não é melhor você ir ver
se a Dani tá bem?
- Depois do que eu vi da última vez que eu fui
atrás dela num banheiro eu não entro lá nem morta!
Todos riram... Mel começou a sentir uma inquietação
por dentro... Pediu uma Coca-cola. Isso, com certeza, daria jeito... Mas Deca
continuou:
- A Dani precisa deixar de ser tão galinha...
Raq defendeu a amiga:
- Que maldade, amor! Ela não tem culpa das mulheres
correrem atrás dela...
- É verdade, elas se jogam! – completou Bia, e
todos riram.
Com uma raiva enorme, sabe-se lá porque, Mel quase
gritou:
- Que exagero! Ela nem é tão bonita assim!
Ao que Bia imediatamente respondeu:
- Não é uma questão de beleza, baby...
É uma questão de ter aquilo que os franceses chamam de “quelque chose”... e isso, meu amor, ela tem de sobra!
Mel bebeu a Coca-cola toda porque... estava tão
bêbada que concordava em gênero, número e grau...
Assim que Dani abriu a torneira da pia, Fabiana entrou
no banheiro. Não teve tempo de dizer nada, porque a loira simplesmente
a atacou. Grudou Dani na parede, beijando-a e enfiando as mãos por dentro
do vestido dela.
Dani teve que fazer um esforço enorme para conseguir
se soltar, porque a mulher parecia fora de si.
- Tá louca?
- Tô louca sim, muito louca por você, gostosa!
E dizendo isso, a agarrou de novo, passando as mãos
pelo corpo de Dani inteiro, parecendo um polvo.
Ao sentir a boca da outra em seu pescoço, num
chupão que com certeza ia deixar marca, a raiva de Dani foi tão
grande que empurrou Fabiana no chão. Nem ajudou a loira a se levantar.
Saiu do banheiro xingando, com a mão no pescoço dolorido.
Assim que Dani se aproximou da mesa Mel viu o vermelhão
no pescoço dela. Era grande o bastante para que todos reparassem:
- Nossa, Dani! Você já viu o seu pescoço?
Dani sentou, irritadíssima. Disfarçadamente
olhou para Mel, mas ela não a estava mais olhando. Pelo contrário,
parecia querer evitar que os olhos encontrassem
os de Dani novamente.
Teve uma estranha necessidade de explicar:
- A maluca me agarrou no banheiro. Me atacou, mesmo!
Tive que jogar ela no chão pra me livrar!
Todos riram, menos Mel, que se virou e puxou assunto
com o primo e o namorado. Do canto onde estava sentada, Fabiana mantinha os
olhos fixos em Dani. Exasperada, ela sugeriu:
- Vamos embora?
A volta não foi das mais animadas. Enquanto PH
e João se atracavam no banco de trás, Mel mantinha a cara fechada.
Ligou o rádio, e por coincidência estava tocando “Happy Together”
(The Turtles), a mesma música do filme que tinham assistido de tarde.
Mel fez menção de mudar de estação,
mas Dani a impediu, tocando de leve na mão dela. Mel estremeceu... e
tirou a mão bruscamente.
Dani deu de ombros e pediu, com o jeitinho magnético
de sempre:
- Não muda... Adoro essa música...
- Jura? Eu nunca ia imaginar... Não seria romântica
demais pra você?
Foi a resposta sarcástica dela. Mas deixou a música
tocar até o fim.
Capítulo 5: Brincando com Fogo...
O último dia do ano foi muito quente e abafado.
Passaram o dia inteiro na piscina bebendo cerveja e tentando conversar. Tentando,
porque graças às farpas, alfinetadas e palavras sarcásticas
trocadas por Dani e Mel isso se tornava muito difícil...
Jantaram um lombinho com arroz à grega maravilhoso
que Deca e Raq tinham preparado. Isso sem falar da magnífica torta alemã
de sobremesa... Até Dani foi obrigada a concordar com Mel:
- Meninas, vocês se superaram!
Continuaram bebendo, e por volta das onze e meia ninguém
mais agüentava a implicância das duas. Dessa vez a briga tinha começado
com Mel afirmando que Nova York era o melhor lugar do mundo. Dani, é
lógico, discordava... Para ela Paris e Amsterdã eram incomparáveis...
PH e João se trancaram no quarto, Paulinha e Bia
sumiram dentro de uma das redes e Deca e Raq se atracaram num sofá, deixando
Dani e Mel discutindo sozinhas.
Quando o assunto terminou, para variar sem que chegassem
à conclusão nenhuma, as duas ficaram paradas em silêncio
na varanda, olhando a chuva torrencial que tinha começado a cair. Só
então se deram conta de que estavam a sós.
Dani se virou para Mel com um olhar que já tinha
derrubado muita gente:
- Parece que agora somos eu e você...
Mel achou que Dani só podia estar brincando. Que
papo furado era aquele?.... Respondeu mal humorada, irritada, exasperada mesmo:
- Infelizmente.
- Sinceramente? O que foi que eu te fiz?
- Além de existir?
Aquilo foi demais para Dani. Não ia romper o ano
brigando com Mel. Não mesmo. Foi se afastando da casa, sentindo a alma
lavada.
Mel ficou olhando Dani se afastar na chuva, com um ódio
crescente. Num impulso foi atrás dela, o salto fino afundando na terra
molhada e a fazendo avançar com dificuldade.
Dani viu Mel se aproximando. Molhado, o vestido branco
tinha grudado, revelando todos os detalhes do corpo dela. Uma forte pontada
de desejo a fez estremecer...
A fúria que Mel sentia a deixava cega. Mas não
a ponto de não ver que a roupa de Dani estava totalmente transparente.
O que sentiu foi tão forte que tropeçou, e teria caído
se não tivesse se segurado em... Dani.
Apesar da chuva torrencial, um calor intenso explodiu
entre as duas, como a erupção de um vulcão adormecido por
muito tempo... Eram da mesma altura, e podiam sentir no rosto o hálito
quente uma da outra... Mas Dani não
ia perder a oportunidade de provocar:
- Não basta ficar me perseguindo, vai ficar me
agarrando também?
Mel abriu e fechou a boca várias vezes antes de
conseguir responder:
- Você até pode se achar irresistível,
mas não é!
Dani deu um riso gostoso, rouco, íntimo, antes
de dizer:
- Confessa que tá louca por mim...
Mel não sabia o que a fazia tremer mais, o frio
ou a verdade nas palavras dela:
- Você... você sabe ser cretina!
A voz de Dani se tornou absolutamente sedutora:
- Sei ser o que você quiser...
E antes que Mel pudesse dizer ou fazer qualquer coisa,
Dani a segurou pela cintura e mergulhou os lábios nos dela.
Bem que Mel tentou resistir, mas aquela boca era tentadora demais... Experiente demais... Gostosa
demais... E a venceu com uma facilidade humilhante... Com a respiração
alterada e o coração dando pulos no peito, passou os braços
ao redor do pescoço de Dani, e correspondeu da mesma forma devastadora
e derradeira...
Então foi loucura, uma explosão irrefreável,
como subir à tona e respirar novamente, como se existir dependesse única
e exclusivamente das línguas e bocas que naquele momento se exploravam...
Os primeiros fogos explodiram no céu, anunciando
que o ano tinha virado...
Mas elas nem perceberam... Foram as vozes vindas da casa
que finalmente as trouxeram de volta
à razão.
Paradas ali, no meio do temporal, completamente ensopadas
pela chuva que continuava implacável, as duas se encararam em silêncio.
Dani tinha um sorriso vitorioso nos lábios. Mel
olhou bem dentro dos olhos dela e retribuiu... com uma forte bofetada.
Capítulo 6: Pensamentos Secretos...
Dani nunca tinha sido esbofeteada antes. Não de
verdade. Só no teatro, onde era
tudo combinado para que o tapa fizesse apenas o rosto dela se virar e então
depois, lentamente, ela o voltava novamente para frente, causando na platéia
o resultado desejado.
Mas Mel a acertou com tanta força que seu corpo
todo se desequilibrou e ela quase caiu. Literalmente “catou cavaco”, como se
diz. Quando se recompôs, Mel já tinha voltado para a casa.
Dani ficou ali parada, com a mão no rosto, em
parte porque estava doendo, em parte porque Mel a tinha deixado total e surpreendentemente
excitada...
Ela a tinha beijado e estapeado com fúria, fazendo
Dani perceber que por trás daquela aparência de brisa morna existia
um verdadeiro vendaval...
Sorriu, pensando milhares de besteiras... Desejando descobrir
se o que imaginava era verdadeiro... Querendo
desvendar todos os mistérios daquela mulher, provar seu corpo inteiro...
Acabar de vez com aquele estranho tormento... Se assustou com a intensidade
desses pensamentos... Ela a estava enlouquecendo... Aliás, como sempre...
Só que dessa vez, de uma forma bem diferente... Nem a chuva conseguia
apagar o incêndio que aquele tapa na cara tinha provocado...
Respirando fundo, Dani caminhou em direção
à casa.
Assim que entrou na sala, Mel foi abraçada pelo
primo:
- Feliz Ano Novo, Melzinha!
Abraçou o resto das pessoas e foi correndo para
o quarto. Queria mudar de roupa antes que Dani voltasse, precisava colocar os
pensamentos em ordem.
Estava apavorada com as sensações desconhecidas
que aquela mulher conseguia arrancar dela.
O beijo que trocaram - ou seria melhor dizer com que
se devoraram? – tinha sido de uma entrega desmedida, uma fome que exigia ser
saciada sem pudor, uma quase dor que
a deixava fraca e entorpecida... Mel nunca tinha experimentado um beijo assim...
Tinha se deixado levar pelos encantos dela... Sim, porque não tinha como
negar, estava totalmente encantada, enfeitiçada, seduzida por aquela
mulher...
Tirou o vestido e pegou uma toalha para se enxugar. Foi
nesse exato momento que Dani entrou no quarto.
Capítulo 7: À Flor da Pele...
Dani ficou paralisada quando abriu a porta. Mel só
não estava nua por causa da calcinha branca que usava. Ela se cobriu
colocando o vestido que segurava na frente do corpo, e Dani teria dado meia
volta e saído, se não tivesse visto nos olhos de Mel a seqüência
de emoções que rapidamente passaram por ela: Surpresa, desejo
e então... rendição. Quase um convite...
Dani fechou a porta, tirou o vestido da mão dela,
e a beijou.
Mel tinha acabado de se enxugar quando a porta se abriu.
Instintivamente pegou um vestido para se tapar.
Não teve como deixar de percorrer o corpo de Dani
com os olhos. Ela continuava com a roupa toda molhada, colada no corpo, praticamente
nua...
Queria se entregar àquela mulher hipnotizante...
Mergulhar
sem restrições na atração
incontrolável que Dani exercia...
Sem ter consciência de que tinha um olhar suplicante,
Mel achou que Dani tivesse lido seus pensamentos quando fechou a porta, se aproximou
e a livrou da toalha.
Se a tivesse beijado com o ímpeto de antes, talvez
Mel pudesse resistir. Mas o beijo longo, atordoante, narcotizante, derrubou
todas as defesas dela...
Dani não sabia de onde vinha essa doçura,
essa vontade de saborear lentamente cada pedacinho dela...
Acariciou o rosto, o pescoço, os ombros, o colo
dela, provocando tremores e suspiros... Desceu a boca seguindo o mesmo caminho
que as mãos tinham percorrido... Então voltou a beijá-la,
as mãos passeando pelas costas deliciosas dela...
Mel suspirou, o corpo estremecendo de prazer... As carícias
sem pressa despertaram uma ânsia incontrolável, que a fez arrancar
a blusa de Dani e colar o corpo no dela,
puxando-a com urgência...
As mãos de Mel se tornaram incansáveis,
se deliciando ao descobrir que o simples fato de tocar a pele de Dani produzia
um efeito de corrente elétrica nas duas... Desceu a boca pelo pescoço
dela, beijando, lambendo, sugando, se deleitando em provocar alguns gemidos...
Quando as mãos de Dani tocaram seus seios, foi
a vez de Mel gemer...
Então acabou toda a delicadeza... Mel praticamente
arrancou a calça de Dani e a jogou na cama, se deitando por cima dela,
ansiando por um maior contato dos corpos, das peles...
Enfiou a perna entre as dela, abrindo-as lentamente,
pressionando o joelho contra o sexo dela de uma forma absolutamente provocante...
Dani soltou outro gemido antes de colar a boca num dos
seios de Mel, chupando e lambendo com voracidade...
Nem perceberam a porta se abrir:
- Meninas, vocês não vão... Ops!...
Ai, Desculpa...
Com a mesma rapidez que entrou, Deca fechou a porta e
saiu, totalmente sem graça.
Com o susto, elas tinham pulado e se afastado. Sem dizer
uma palavra, evitando o olhar de Dani, Mel pegou o vestido no chão, vestiu,
e saiu apressadamente do quarto.
Dani ficou um tempo parada, olhando para a porta, como
se estivesse esperando que ela voltasse. Frustrada, xingando a si mesma por
não ter trancado a maldita porta, começou a se vestir.
Só de olhar para a cara de Deca, Raq percebeu
que alguma coisa tinha acontecido.
- Que foi, amor?
Deca sussurrou no ouvido de Raq, que levou a mão
à boca, surpresa. Mas não teve nem tempo de comentar, porque Mel
entrou na sala e saiu puxando Deca. Raq subiu as escadas correndo e entrou no
quarto onde Dani estava.
Dani nem precisou olhar para a cara da amiga para saber
o que ela ia perguntar.
- As notícias aqui correm rápido...
- Menina, o que foi aquilo?
Deca continuou:
- Pensei que você fosse contra sexo casual...
- E sou!
Na verdade, a experiência sexual de Mel se resumia
às quatro namoradas. Não acreditava em sexo sem envolvimento emocional.
Nunca tinha sentido a menor vontade. Gostava de namoros duradouros e pouco turbulentos.
Sexo casual era uma coisa que não cogitava. Até aquele momento.
- Mas rolou... fazer o que?
- É, parecia que você tava gostando...
Deca riu, provocando a amiga. Mel a empurrou, rindo também:
- Ai, cala a boca! Como é que você me entra
daquele jeito, sem bater?
- Como é que eu ia saber? Nunca ia imaginar, né?
Logo vocês...
- Você é uma empata foda, sabia?
Riram muito antes de voltarem para a sala.
- Dani, você se supera a cada dia! Não acredito!
A Mel?
Raq estranhou a amiga. Normalmente Dani ia rir, contar
todos os detalhes sórdidos, comentar as coisas mais absurdas e íntimas.
Era assim que sempre tinha se comportado, desde que a conhecia. Mas dessa vez,
se limitou a um simples:
- Sem comentários...
Capítulo 8: Breathless...
Mel e Dani não trocaram mais nenhuma palavra aquela
noite. Para falar a verdade, nem se olharam.
Quando entraram no quarto, trocaram de roupa uma de costas
para a outra. Se deitaram e apagaram as luzes. E demoraram muito para adormecer.
Dani acordou no meio da noite sufocando. Tentava puxar
o ar e não conseguia, o peito chiava como um apito.
Tinha asma desde criança, mas era uma daquelas
coisas horríveis com as quais a gente
nunca se acostuma. Ela considerava a maior de todas as suas fraquezas, por isso
detestava que as pessoas soubessem.
Levantou, tateando a bolsa à procura da bombinha.
Quando percebeu, Mel tinha acendido a luz e estava em pé ao seu lado,
a mão em seu ombro, com uma expressão preocupadíssima.
Mel foi acordada por um barulho estranho que vinha da
cama de Dani. Acendeu a luz, e ela estava de pé, remexendo na bolsa.
Respirava com dificuldade... Parecia tão frágil, bem diferente
da imagem de auto suficiência, sarcasmo e sedução que Mel
fazia dela... Tocou o ombro de Dani, perguntando:
- O que você tá procurando?
Dani fez um sinal com a mão e Mel na hora entendeu.
A fez a sentar na cama e começou a revirar a mala dela. Não demorou
muito para encontrar a bombinha. Entregou para Dani e ajoelhou ao lado dela
na cama. Obedecendo a vontade irresistível que sentia, a abraçou.
Depois de usar a bombinha, Dani foi sentindo os pulmões
voltarem a se abrir, o ar entrando, o chiado passando... Já estava se
sentindo melhor, mas não queria se mexer, queria continuar aproveitando
o perfume delicioso de Mel, o calor gostoso do abraço dela... Uma sensação
de entrega, de se sentir protegida... Sentimentos dos quais normalmente fugia,
mas naquele momento, tinha um desejo insensato
de curtir.
Mel acariciou os cabelos dela, perguntando:
- Tá melhor?
Dani não tinha como mentir. Acenou com a cabeça
dizendo que sim. Estranhamente, Mel não se afastou.
Dani se arrepiou só de perceber como a pele de
Mel estava quente... Os olhos se encontraram, se questionaram, se responderam...
O olhar de Dani desceu para os lábios tão próximos dos
dela... Bastava se aproximar um pouco para que se tocassem... Os olhos de Dani
brilharam de contentamento, louca para saciar o desejo pelos prazeres que aquela
boca prometia...
Dani estava ali, parecendo tão desprotegida...
Ela a olhou nos olhos, tocando Mel de uma forma profunda... Estremeceu ao perceber
que Dani ia beijá-la... Sentiu um desejo insano de beijá-la também...
Mas então, houve uma mudança nos olhos dela, e o olhar de predadora
que Mel odiava voltou a brilhar neles...
Mel estava decidida a não ser mais uma na lista
de conquistas de Dani. Desviou a boca dos lábios que já roçavam
nos dela, e falou baixinho no ouvido de Dani:
- Você acha mesmo que pode comigo?...
Uma raiva fria a movia. A empurrou com força,
obrigando-a a se deitar, sentando em cima dela, imobilizando-a com o corpo e
também com o olhar. Beijou o pescoço de Dani de forma deliberadamente
provocante, as mãos acariciando os seios dela debaixo
do baby doll... Então passou a língua lentamente no biquinho de
um dos seios, antes de colocá-lo na boca e sugá-lo inteiro...
Isso bastou para que a crise voltasse... Dani voltou
a respirar com dificuldade, ofegando, tentando puxar o ar sem conseguir... Mel
pegou a bombinha, colocou na boca de Dani, apertou três vezes, como a
tinha visto fazer...
Tudo isso sorrindo ironicamente. Depois disse, com um
ar vitorioso:
- Tá vendo? Sabia que você não agüentava...
Mel voltou para a própria cama e apagou a luz,
deixando Dani imóvel, estática, morrendo de ódio. Não
estava acostumada a se render daquele jeito. Muito menos ser rejeitada. E de
todas as mulheres do mundo, tinha que acontecer justo com essa...
Mel a tinha provocado, dominado e derrotado de uma forma
vergonhosa...
Mas se ela queria jogar, tudo bem. No dia seguinte, sem
a desvantagem da asma, seria completamente diferente. Nesse tipo de jogo, Dani
não admitia perder para ninguém...
Capítulo 9: Alta tensão...
Quando Dani acordou já eram mais de onze horas.
Mel dormia tranqüilamente na cama ao lado. A primeira reação
de Dani ao olhar para ela foi puramente física. O coração
acelerou enquanto contemplava as coxas que a camisola curta não conseguia
esconder, o pedacinho dos seios que o decote generoso deixava à mostra...
Mas logo depois olhou para o rosto dela. Mel tinha um
sorriso satisfeito nos lábios... E toda a raiva da noite anterior voltou.
Se ela pensava que ia ficar por isso mesmo, estava muito enganada.
Vestiu um short bem curtinho por cima do biquíni
e saiu do quarto. Andou pela casa inteira sem encontrar ninguém. Quando
chegou na cozinha, encontrou um bilhete pregado na geladeira dizendo:
“Queridas Dani e Mel,
Por motivos óbvios, n tivemos coragem de entrar
no quarto de vcs... rs...
Agora sério: batemos na porta, mas vcs não
responderam.
Esperamos q caso tenham se matado, tenha sido fazendo
aquilo q a Deca viu... rs, muitos rs...
Fomos levar o pessoal numa cachoeira, voltamos c o almoço,
qq coisa liga pro nosso cel.
Bjkas,
Raq e Deca”
Depois de ter um acesso de riso, Dani amassou o papel
e jogou no lixo. Estava tomando café quando Mel apareceu, de biquíni,
saia curtinha e óculos escuros na cabeça. Deliciosamente Perfeita.
A última coisa que Mel queria era ficar sozinha
com Dani. Ficou desconfiada com o estranho sorriso de prazer com que foi recebida.
Mais ainda quando ela disse, saboreando cada palavra:
- E aqui estamos novamente... eu e você...
Dani andou ao redor de Mel, a usual sedução
que dela emanava realçada por um olhar assustadoramente intenso.
Mel já tinha ouvido a expressão “ser despida
com os olhos”, mas não sabia que um simples olhar podia fazê-la
se sentir assim... Devorada... Abusada... Invadida...
Dani sorriu satisfeita com a reação de
Mel. Estava apenas começando...
Mel estava completamente consciente do perigo que estava
correndo. Sabia muito bem que Dani não deixaria barato o que tinha acontecido
na noite anterior.
Seria muito fácil sair dali, se não fosse
um pequeno detalhe: suas pernas já estavam totalmente bambas. Estava
sentindo na pele o poder que todos diziam que Dani exercia... Não conseguia
desviar os olhos dela... Absolutamente poderosa e linda... Tão grande
era a atração que dela emanava, verdadeiro campo magnético,
que dava a Mel a impressão de que era ela a girar em torno de Dani, e
não o contrário...
Então ela parou atrás de Mel, o corpo tão
próximo do dela que podia sentir seu calor. A respiração
de Dani mexia propositalmente com os cabelos da nuca de Mel, fazendo-a se arrepiar
inteira. A mão direita envolveu a cintura dela,
e foi pousar na nudez do estômago, logo abaixo da parte de cima do biquíni.
Os músculos de Mel se contraíram com o contato ardente e íntimo,
sua respiração ficou difícil... Dani encostou a boca no
ouvido dela, a voz provocante causando mais tremores:
- Agora vamos ver se você pode comigo...
Capítulo 10: No amor e na guerra...
Mel sentia uma fraqueza tão grande que parecia
que ia desfalecer. Agindo impulsivamente, se recostou em Dani, jogando a cabeça
para trás, deixando o pescoço ao alcance da boca que desceu queimando
sua pele.
A partir do momento em que Mel se rendeu, oferecendo
languidamente o pescoço, Dani teve que fazer um esforço enorme
para não perder o controle de vez.
Passeou a boca pelo pescoço e pela nuca dela,
beijando, chupando, mordendo, arrancando arrepios, suspiros e gemidos... Afastou
a parte de cima do biquíni, para que as mãos famintas pudessem
tocar os seios bem feitos. Mel pegou a mão direita de Dani e a levou
à boca. Chupou os dedos sensualmente, deixando Dani ofegante.
Dani manteve a mão esquerda acariciando o seio
dela, e desceu a outra pelas coxas, saboreando a quentura da pele. Levantando
a saia, enfiou a mão dentro do biquíni, se deleitando ao sentir
o quanto Mel estava molhada.
Estavam em frente ao balcão da pia, Dani a fez
apoiar as mãos no mármore, e então a penetrou com os dedos,
a outra mão a segurando com firmeza abaixo do umbigo, fazendo Mel se
derreter...
Não podia nem queria resistir, queria apenas se
entregar a todo e qualquer tipo de prazer que a mulher que manipulava seu corpo
com maestria lhe desse. Abriu mais as pernas, empinando a bunda, rebolando e
gemendo para ela ...
O único arrependimento de Dani era não
ter feito aquilo há mais tempo. Os gemidos de Mel eram aveludados, quase
ronronados. Ela mexia deliciosamente os quadris, a bunda roçando no sexo
de Dani, a deixando enlouquecida.
Dani ofegou e gemeu em seu ouvido, mordiscando a orelha
dela, se esfregando em Mel com volúpia, dizendo coisas que a levaram
a um estado de excitação quase insuportável.
O corpo de Mel foi sacudido por espasmos, os músculos
apertando os dedos de Dani. Ela gemeu mais e mais alto até estremecer
violentamente, fazendo Dani gozar também.
Mel quase não conseguia se manter de pé.
Dani a virou, a levantou e a sentou em cima do balcão.
E então Dani já estava no meio das pernas
dela, a boca colada num dos seios de Mel, lambendo e chupando com sofreguidão,
querendo devorar aquela mulher...
Mel desconhecia essa força que a impelia a se
entregar à tempestade de sensações que dominava todos os
seus sentidos. A única coisa que importava era corresponder Dani na mesma
medida.
Desceu do balcão, escorregando pelo corpo dela.
Enfiou uma mão da nuca de Dani. A outra subiu para acariciar um dos seios.
Mel tocou o seio de Dani por baixo do biquíni,
arrancando suspiros... Puxou Dani com força pelos cabelos, obrigando-a
a parar a brincadeira com o seio. E foi a vez de Mel mergulhar a boca nos seios
dela, mordiscando de leve os biquinhos, depois sugando com força, enquanto
a livrava do shortinho.
Dani tentou conter os gemidos, mas quando Mel a tocou
entre as pernas, foi impossível ...
Aquele gemido arrancado à força despertou
em Mel um incontrolável desejo de saborear Dani inteira. Então
a girou, e encostando-a no balcão, ajoelhou, e mergulhou a boca no sexo
dela, dessa vez provocando vários gemidos...
Mel a provocou de uma forma que fez Dani perder a noção
de qualquer outra coisa que não fosse a língua que a explorava,
penetrava, devorava sem pena... Quando pensava que não ia mais agüentar,
sentiu os dedos de Mel dentro dela, a língua acompanhando os movimentos
rápidos, a fazendo gritar, dominada por um gozo intenso.
Dani ficou ali fraca,
as pernas bambas, a respiração alterada, se apoiando no balcão
para não cair.
Mel então se levantou, endireitou o biquíni,
olhou Dani nos olhos e disse, com o mesmo sorrisinho irônico da noite
anterior:
- Eu não disse que você não agüentava?
Foi saindo vitoriosa, mas só conseguiu chegar
até a porta da sala.
Dani foi atrás dela, a puxou e segurou pelos cabelos
e disse, com um brilho dominador irresistível nos olhos, que fez Mel
tremer inteira:
- Quem disse que acabou?
Capítulo 11: Depois daquele beijo...
Dani a beijou com paixão, a língua invadindo
a boca de Mel com uma avidez desmedida... Entre as labaredas que a consumiam,
Mel percebeu que até aquele momento, ainda não tinham se beijado.
E o beijo -
os lábios se aderindo, as línguas
cálidas se fundindo, as respirações mesclando sua arritmia
- pareceu muito mais íntimo que todo o resto. Como se Dani pudesse sugar
sua vontade, seu ser, sua alma...
Dani estava assustada. Não contava com as milhares
de sensações que aquele simples
beijo podia causar. Como se fosse a primeira vez que realmente se tocavam.
Tirou a saia e o biquíni dela e a fez deitar no
sofá carinhosamente. Mel permitiu com total passividade, a olhando como
se estivesse hipnotizada.
Era a primeira vez que Dani a via assim, completamente
nua. Linda, tão linda que chegava a doer... Se livrou do biquíni,
ficando nua também, e deitou em cima dela, descendo a boca sobre os seios,
se pondo a lamber, chupar, provar, devorar... Estava tão excitada que
já não pensava direito, apenas seguia a enorme vontade de dar
e receber prazer.
O simples fato de Dani estar nua em cima dela tirou Mel
do torpor em que se encontrava. Aquela mulher a deixava num transe de loucura...
Ela era incrivelmente sexy, linda, intensa, total e deliciosamente irresistível...
Naquele momento Mel teria implorado para que ela a tocasse.
Mas Dani também parecia tomada pela mesma insanidade que fazia Mel passar
as mãos na pele dela, apertar e arranhar
as costas com volúpia, acariciar e provar aquele corpo tão desejado.
As duas se fitaram. Um breve momento revelador. Sem precisar
de palavras. A troca de olhares deixando claro a trégua oferecida.
Os lábios de Mel procuraram os de Dani, se abriram
nos dela, com uma entrega sem restrições. Foi nesse momento que
Dani finalmente se entregou.
Se amaram sensualmente, Dani entre as pernas de Mel,
bocas e corpos colados, os sexos pulsando juntos, de forma quase desesperadora.
Mel passava as mãos nas costas, na nuca de Dani,
incansavelmente. As bocas não conseguiam se separar. Os sussurros e gemidos
abafados foram aumentando, seguindo os movimentos dos corpos que aceleravam.
Então Mel disse que ia gozar, e pediu:
- Goza comigo...
Fazendo com que Dani a acompanhasse numa palpitante vertigem
dos sentidos. Depois do orgasmo arrebatador, que as deixou completamente exaustas
e sem fôlego, Dani ficou deitada em cima de Mel, o rosto enfiado nos cabelos
dela.
Aos poucos foi voltando à si, apavorada com a
facilidade com que se tinha deixado levar, e com a intensidade do que tinha
sentido. Ela, que evitava, para não dizer fugia de, qualquer tipo de
envolvimento. E tinha sido logo com a única pessoa com quem isso nunca
poderia acontecer.
Sentindo-se fraca, vencida, foi incapaz de olhar para
Mel, porque se voltasse a ver o sorriso irônico e o ar vitorioso com que
ela sempre a desafiava, não teria como revidar.
Mel ficou deitada, adorando sentir o peso do corpo de
Dani, a pele quente e suada contra a sua, o hálito em seu pescoço,
o coração tão descompassado quanto o dela.
Tinham feito amor, e isso era ao mesmo tempo surpreendente,
maravilhoso e assustador. Porque sempre tinha pensado que Dani era o tipo de
mulher sensual, sedutora, devastadora, com quem se podia fazer sexo e nada mais.
Mas não tinha sido assim.
Do nada, sentiu todos os músculos de Dani ficarem
tensos. Percebeu que durante alguns segundos ela prendeu a respiração,
como que tomando coragem, e então se levantou, os olhos evitando os de
Mel.
Dani vestiu o biquíni sem olhar para ela. Depois
saiu da sala, o coração doendo só de se afastar de Mel.
Quase correu até a piscina, onde mergulhou de cabeça na água
gelada.
Mel ficou olhando Dani se vestir em silêncio, e
sair da sala sem olhar para ela. Vestiu o biquíni sentindo os olhos embaçarem.
Tinha um nó por dentro. Sentou novamente no sofá e deixou as lágrimas
escorrerem. Perdeu a noção do tempo, se deixou ficar ali chorando,
o rosto entre as mãos abafando os soluços. Então uma mão
gelada tocou o seu braço. Ela levantou os olhos e deu de cara com Dani.
Com os cabelos molhados a deixando ainda mais atraente e linda, ajoelhada na
frente de Mel.
Capítulo 12: Aprendendo a Mentir...
Dani tinha atravessado a piscina inteira debaixo d’água,
tentando colocar os pensamentos e sentimentos em ordem, sem resultado. A vontade
insana que sentia era voltar para a sala, pegar Mel nos braços, a beijar
e começar tudo novamente. Mas era esse recomeçar que a incomodava,
porque não tinha idéia do que estava querendo, só sabia
que não era apenas sexo, e se recusava terminantemente a assumir ou se
permitir algo mais.
Resolveu ir até a cozinha buscar o short que tinha
deixado no chão. Quando passou pela porta da sala, ouviu um choro abafado.
Mel estava sentada no sofá, com a cabeça
baixa, o rosto tapado pelas mãos. Dani sentiu uma pontada de dor quando
a viu chorando. Sem pensar, nem questionar o que fazia, se ajoelhou na frente
dela e a tocou.
Mel levantou a cabeça e a olhou com os olhos mais
magoados que Dani já tinha visto. Quase gritou:
- O que você quer? Será que já não
fez o bastante?
Pela primeira vez em toda a sua vida, Dani não
soube o que dizer. E o silêncio dela irritou Mel mais do que tudo.
- Você é a pessoa mais detestável,
mais grosseira, mais... metida à besta que eu conheço!... Odeio
você!
Dani pegou a mão dela e a levou aos lábios,
beijando a palma. Mel estremeceu com o contato, a irritação começando
a dar lugar ao desejo. Dani quase sussurrou, o coração dando pulos
no peito:
- Queria que todas os minhas inimigas me odiassem do
jeito delicioso que você odeia, principalmente se fossem lindas como você...
O jeito que Dani a olhou, fez Mel se arrepiar inteira.
Ela era uma mestra na arte da sedução, resistir se tornava quase
impossível. Quase, porque Mel estava sentindo o coração
acuado, doendo, em perigo, e não podia se dar ao luxo de se deixar levar
pelo poder enfeitiçante que ela usava indiscriminadamente contra todas
as mulheres. Precisava esclarecer o que tinha acontecido entre elas. Soltou
a mão que ainda estava presa na dela, e respondeu:
- E eu
queria que você realmente fosse a mulher que fez amor comigo.
Dani levantou, passando a mão nos cabelos, visivelmente
desconfortável. Mel conseguiu ver o exato momento em que as defesas dela
se ergueram, trazendo de volta a mulher detestável que conhecia tão
bem:
- Nós trepamos, gata. Não complique aquilo
que é tão simples. Foi só isso, não se engane. Não
quero nada mais.
A negação maldosa do que tinham sentido,
o jeito frio, irônico, quase agressivo dela, fizeram o sangue de Mel ferver:
- E quem disse que eu quero, Daniele? Com quem você
pensa que tá falando? Olha bem pra mim! Sei muito bem quem você
é! Por trás dessa fachada de mulher fatal, de grande artista,
se esconde uma mulher patética, incapaz de construir qualquer coisa que
realmente valha a pena. E quer mesmo saber? Nem trepando você acompanha
o meu ritmo!
Quando terminou de falar, Mel estava ofegante de raiva.
Ficou parada na frente de Dani a olhando desafiadoramente. Mas pela segunda
vez, tinha conseguido deixar a outra totalmente sem palavras.
Foi então que ouviram o carro de Deca buzinando.
Em questão de minutos entraram todos na sala, animadíssimos.
- Nossa, vocês perderam! Fomos numa cachoeira muito
linda!
O almoço decorreu tranqüilo, e todos estranharam.
Dani e Mel não discutiram, não se alfinetaram, não discordaram
em nada, sequer trocaram uma farpa.
Na verdade, as duas estavam muito caladas, se limitando
a frases monossilábicas.
Deca e Raq conheciam bem as amigas, sabiam que tinha
algo no ar.
Aproveitando o momento em que todos foram para o salão
de jogos, Deca puxou Mel para uma das redes:
- Que foi, amiga?
Mel balançou a cabeça, disse que não
era nada, mas não conseguiu evitar que seus olhos se enchessem de lágrimas.
- Não confia mais em mim? Fala, vai...
Mel enxugou os olhos, respirou fundo, e disse, da forma
mais seca que conseguiu:
- Transei com a Dani.
Não estava disposta a revelar mais do que isso.
Deca olhou a amiga por um momento, antes de perguntar:
- Só isso?
- Sim, o que mais?
Mas a resposta de Mel foi tensa demais. Ao ver a dúvida
nos olhos de Deca, completou:
- Você me conhece, é a primeira vez que
eu faço sexo por sexo, acho que, sei lá, me deixou um pouco abalada...
- Defina abalada.
- Confusa... um pouco culpada...
- Arrependida?
- Ai, Deca, isso é um interrogatório? Você
tá pensando o que? Que eu fiquei
apaixonada, por acaso?
Mel falou desviando os olhos, com medo que Deca pudesse
ver alguma coisa neles. Deca observou bem a amiga. Ela parecia estranhamente
perturbada. Deixando a desconfiança de lado, tentou animar Mel:
- Veja o lado bom da coisa: a melhor forma de se tornar
amiga da Dani é trepando com ela. Aliás, pra ser amiga da Dani
esse é um requisito fundamental.
- Como é que é? Quer dizer que a Daniele...
com a Raq... Elas já...
Deca riu do espanto de Mel. Jurava a amiga soubesse o
que todos sabiam:
- Sim... e com a Bia, e comigo, e com a torcida do Flamengo.
Bem vinda ao clube, queridinha!
Mel queria morrer. Mas se obrigou a dar um sorriso. O
que realmente sentia, nunca iria deixar transparecer.
Dani estava jogando sinuca com Raq, perdendo feio. Não
conseguia se concentrar, porque tinha toda a atenção voltada para
Mel. Ela estava sentada na rede, conversando com Deca, como se Dani não
existisse.
Querendo chamar a atenção dela, começou
a jogar charme. Inclinava o corpo sensualmente cada vez que ia acertar a bola,
bebia da latinha de cerveja e apoiava o taco no chão de uma forma provocante.
Mas nada disso deu resultado. Tudo o que conseguiu foi um olharzinho de desprezo
quando Mel se levantou da rede e foi até a mesa de totó onde o
primo estava com o namorado.
Por outro lado, Paulinha não tirava os olhos dela,
de uma forma tão acintosa que ouviu Bia dizer bem alto, antes das duas
começarem a discutir:
- Será que dá pra parar de babar?
Depois dessa, resolveu maneirar. Naquele momento, mais
confusão era tudo o que não precisava.
Raq achava que conhecia Dani como a palma da sua mão.
Mas não estava conseguindo acompanhar aquele movimento.
Dani usou todo o seu poder de sedução para
cima de Mel enquanto jogavam. O estranho disso tudo é que antes Raq tinha
certeza que elas já tinham transado. Pela forma que as duas se olhavam,
e porque a tensão que antes existia entre elas tinha dado lugar a uma
outra coisa, algo que Raq não conseguia definir.
Mas se realmente já tivesse rolado, Dani não
estaria jogando charme para Mel. A menos que... Não, impossível!
Já era difícil Dani trepar duas vezes com a mesma mulher. Se envolver
então, era uma hipótese inacreditável! A verdade é
que não estava mais entendendo nada. Só tinha uma certeza: a amiga
estava agindo de forma totalmente inesperada.
Naquele mesmo dia voltaram para o Rio de Janeiro. Depois
da briga que Bia e Paulinha tiveram, foram nos carros exatamente como tinham
chegado. Nunca uma briga de casal tinha deixado Mel e Dani tão aliviadas.
Capítulo 13: Os opostos se atraem...
Depois de deixar Paulinha, PH e João em casa,
Mel passou no apartamento dos pais para pegar Nicole, sua cachorrinha Pug. A
mãe a recebeu na porta com mil abraços e beijos:
- Feliz Ano Novo, Melzinha! Como foi a viagem? Se divertiu?
- Muito.
Nicole veio correndo, fazendo uma festa danada. Tadinha,
devia estar com saudades. Mel também tinha sentido muita falta dela:
- Oi Niní! Lindinha da mamãe! Vem cá...
Mel pegou Nicole no colo e beijou. Foi até à
sala, onde sabia que o pai estaria sentado na poltrona preferida assistindo
o noticiário.
- Oi, papai.
Deu um beijo estalado no pai, que a puxou e obrigou a
se sentar no colo dele como sempre fazia. E não adiantava Mel reclamar,
dizendo que não era mais criança. Ela era a caçulinha,
única filha mulher no meio de dois filhos e três netos homens,
por isso para o pai continuava a tratando como sua garotinha.
- Senti falta da minha princesinha! Como foi o ano novo?
Arrasou muitos corações?
Não precisa nem dizer que para os pais, Mel nunca
tinha saído do armário. De vez em quando ela levava um amigo gay
para jantar e apresentava como namorado. E ficava por isso mesmo, sem eles nunca
terem desconfiado.
A mãe insistiu muito, mas muito mesmo para que
ela ficasse. Apesar do apartamento de Mel ser bem perto dali, às vezes
ela dormia no quarto que era dela antes de se mudar, e que continuava exatamente
como tinha deixado.
“Caso um dia você resolva voltar.” Era o que a
mãe sempre dizia.
Mel já tinha saído de casa a 4 anos, e
os pais ainda não aceitavam. Mas para Mel o dia que se mudou foi um dos
mais felizes de toda a sua vida. Não que não se desse bem na casa
dos pais, pelo contrário, lá tinha todo o tipo de mordomia possível.
Mas nada era mais valioso que sua tão sonhada independência.
Querendo colocar a cabeça no lugar, resolveu ir
para casa. Se despediu dos pais recebendo mais alguns milhares de beijos e recomendações.
Chegou na rua Nascimento Silva em menos de 5 minutos, parou em frente ao prédio
e entrou na garagem.
A primeira coisa que fez quando entrou em casa foi ficar
descalça. O chão era de madeira clarinha, e Mel não deixava
ninguém entrar sem tirar os sapatos.
Aliás, diga-se de passagem, a casa de Mel era
impecável. Tudo no lugar certinho, absolutamente arrumado. Era assim
que ela gostava.
Mel era louca por fotografias, por isso o apartamento
era cheio de porta-retratos. A maioria dos três sobrinhos, que Mel adorava.
Abriu as janelas, encheu a banheira, jogou sais de banho
dentro (estava merecendo) e se deixou ficar ali deitada, imersa na água
quente e nos próprios pensamentos.
E seus pensamentos resumiam-se em uma coisa, ou melhor,
pessoa: Daniele... Tinha sido o pior ano novo de todos os tempos. Magoada, triste,
desesperada... Era como se sentia. Porque estava louca e irreversivelmente apaixonada.
Pela única pessoa por quem jamais poderia se apaixonar.
Se pelo menos nunca mais a encontrasse, seria mais fácil.
Mas se o mundo é pequeno, o mundo gay é um ovo, e apesar do Rio
ser uma cidade imensa, era fácil duas pessoas com amigos em comum viverem
se esbarrando o tempo todo.
Resolveu dar uma de Scarlett O’Hara: “Amanhã eu
penso nisso...” e foi se deitar. Ficou um bom tempo rolando na cama antes de
adormecer.
No dia seguinte acordou atrasada. Saiu correndo, e ainda
conseguiu chegar na hora na firma de arquitetura onde trabalhava. Passou o dia
com a cabeça nas nuvens, sem conseguir fazer nada direito, mal conseguindo
terminar uma planta que precisava entregar.
E assim, os dias se passaram. Evitava sair para lugares
GLS, e durante o mês inteiro conseguiu não cruzar com Dani. E então
chegou fevereiro... e com ele o inevitável reencontro, a menos que Mel
se trancasse em casa, coisa que não estava disposta a fazer, porque...
era Carnaval.
Deca e Raq deixaram Dani em Botafogo, na porta de casa.
Assim que abriu a porta deu de cara com Gisa e Ed bebendo cerveja na sala. Eram
amigos desde a Uni-Rio, tinham sido da mesma turma na faculdade de teatro, e
desde aquela época dividiam o aluguel daquele bom e velho apartamento
de 3 quartos. Dava muito certo, porque Gisa era tão hetero quanto Dani
e Ed eram gays. Como ninguém comia ninguém, a coisa funcionava
muito bem, obrigado. A ponto de ganharem o apelido de “Santíssima Trindade”.
Para qualquer pessoa que entrasse, o apartamento parecia
para lá de bagunçado, mas como Dani gostava de dizer: “Era apenas
uma zona organizada”.
Por isso mesmo Dani nem se incomodou em perguntar porque
o chão estava cheio de papel cortado. Algum trabalho manual ou sei lá
o que.... Contanto que ela não tivesse que limpar, tudo bem.
Pegou uma cerveja na geladeira e se jogou no sofá.
Ed começou, todo animadinho:
- E aí, amiga? Como foi seu reveillon? Beijou
muito na boca?
- Um pouco.
Estranharam a resposta lacônica:
- Nossa, que bicho te mordeu?
- Só tô cansada... E precisando de dinheiro,
como sempre... E não tô querendo pedir pro meu pai.
A mãe de Dani tinha falecido quando ela tinha
15 anos. Isso tinha feito o mundo de Dani desabar. Como se não bastasse
a dor impossível de se descrever com simples palavras, tinha ido morar
com o pai, sendo obrigada a mudar de colégio e se separar da namorada,
seu primeiro e único amor.
Talvez esse acúmulo de perdas fosse o responsável
pelo pavor que Dani tinha de sofrer. Mas quem poderia saber? O fato é
que depois disso ela nunca mais tinha se envolvido com ninguém.
O pai de Dani era um sujeito diferente, isso para não
dizer excêntrico. Professor de Literatura, poeta, e absolutamente liberal.
Só para vocês terem noção do que estou querendo dizer:
Na primeira vez que Dani fez sexo (com uma mulher, é
claro!), entrou muito sem graça no quarto dele:
- Pai, aconteceu uma coisa horrível!
- O que foi, minha filha? Fala! – ele ficou assustado,
dava para perceber.
- Eu... transei... com uma mulher.
- Ah, mas é só isso? Isso não é
horrível, minha filha, isso acontece. Horrível é sua mãe
ter morrido... – foi a resposta dele.
Já a irmã mais nova de Dani, tinha descoberto
da pior maneira possível: olhando pelo buraco da fechadura do quarto
e vendo Dani... como eu posso dizer? ... Bem... Com a boca na botija... Depois
disso tinha passado vários dias fazendo o seguinte: sempre que via Dani,
começava a dizer que não tinha nada contra homossexuais, que achava
ótimo, e coisas assim. Dani sempre fingindo que não era com ela,
até o dia que recebeu uma que mais direta impossível:
- Dani, eu sei que você é lésbica.
Dani engasgou. Ficou branca, roxa, azul, vermelha, um
verdadeiro arco íris... Mas a menina continuou:
- Poxa, você não ia me contar? Porque? Tá
pensando que eu sou preconceituosa, é? Eu te amo, boba!
Disse, abraçando Dani com força. E depois,
com uma cara muito safadinha:
- Me conta, vai! Tô louca de curiosidade pra saber
como é!...
- Alô! Terra chamando Dani!
Dani nem tinha percebido o quanto seus pensamentos tinham
ido longe... Ed continuou, assim que voltou a ter atenção dela:
- Sorria, amiga, porque tenho um negócio pra você.
- Ai, Ed, você e as suas roubadas...
Já tinha perdido a conta das vezes que ele a tinha
feito pagar mico: vestida de Branca de Neve em festas de aniversário,
de palhaça em plena cinelândia, e a última e sem dúvida
pior de todas: na inauguração de uma loja de colchões no
Largo do Machado, vestida de funkeira e tendo que executar uma coisa horrorosa
chamada “Dança do Créu”.
- Não, dessa vez vai ser legal. É pra uma
faculdade de medicina. Topa?
- Tem outro jeito?... Bom, o papo tá muito bom,
mas tô morta! Vou tomar um banho e me deitar.
Entrou debaixo do chuveiro quente. Não conseguia
tirar Mel da cabeça. E tudo o que Dani queria era poder esquecer. Mentira...
O que realmente queria era ouvir aquela voz, provar novamente aqueles beijos...
Parou por aí, porque só de pensar, o coração já
batia como um bumbo no peito... Nunca, jamais tinha sentido uma coisa tão
forte assim. E logo pela pessoa mais errada.
Mas não devia ser difícil resolver. Alguns
beijos na boca, umas boas trepadas, e Mel seria coisa do passado. Ainda pensando
nela, rolou na cama até amanhecer.
O tal trabalho na faculdade de medicina até que
foi razoável. Eles tinham que simular serem vítimas de um acidente
numa fábrica. Receberam umas fichas com os sintomas e machucados que
tinham que ter, se maquiaram e deitaram cada um numa maca. Os estudantes do
primeiro ano entravam e tinham que descobrir pelos sintomas o que fazer.
E foi hilário, porque eles fizeram tudo tão
perfeito, que uma estudante desmaiou, outro resolveu largar a faculdade e uma
terceira esqueceu que era tudo de mentira e ficava dizendo pra Dani:
- Calma! Calma!
Difícil mesmo era não dar risada. Principalmente
vendo Ed gemendo naquela maca. Um daqueles momentos inesquecíveis, impagáveis.
O mês passou rápido. Dani saiu e bebeu muito,
beijou e transou mais ainda, mas não conseguiu se esquecer de Mel.
E então chegou a época do ano que Dani
mais gostava: o Carnaval. Entre Banda de Ipanema, terreirão do samba
e “otras cositas mas”, Dani tinha certeza que não seria difícil
mandar Mel para o espaço.