AMOR A QUALQUER PREÇO

Diedra Roiz

[email protected]

2008

 

Capítulo 23: Depois da Queda...

André observou escondido quando Vivi passou correndo e chorando. Um pouco depois, Marcela apareceu. Ele a deteve, perguntando como se não estivesse entendendo nada:

- Que foi? Que aconteceu?

Marcela nem conseguia falar direito de tanto desespero:

- A Vivi... ela me viu com a Gisele... Puta merda! Pra onde ela foi?

André apontou na direção certa. Marcela saiu correndo para onde ele indicou.

Logo depois, Gisele saiu do banheiro, toda sorridente. Retocou o batom, olhou André com cumplicidade, e disse:

- Obrigado pela força, queridinho...

Ao que ele respondeu:

- Obrigado pelo ecstase...

E os dois ficaram ali rindo juntos, com uma sensação de objetivo cumprido.

 

Vivi estava completamente transtornada. Passou correndo por Carlinha, Rafa e Ana Cláudia sem ver. Também não ouviu quando eles a chamaram. Saiu porta afora, sem conseguir raciocinar nem enxergar direito. Só parou quando chegou na rua. A dor que sentia era quase insuportável.

Sentiu o estômago embrulhar. O corpo reagiu, rejeitando completamente o que tinha acontecido. Com uma das mãos se apoiou na parede, e foi inevitável: começou a vomitar.

Ouviu as vozes de Carlinha e Ana Cláudia, preocupadíssimas. As amigas a ampararam e ajudaram. Rafa ficou observando um pouco de longe, meio sem graça.

Vivi nem notou quando Marcela apareceu. Ainda estava com o corpo dobrado, no meio de um último espasmo.

Mesmo depois de terminar, Vivi continuou abaixada. Tentando respirar, sufocada pelas lágrimas que não conseguiam trazer alívio, a boca com um gosto horrível, e não querendo ter que explicar nada para as amigas...

Carlinha a sustentava pela cintura e Ana Cláudia segurava os cabelos vermelhos.  As duas assustadíssimas.

O coração de Marcela ficou apertado, mas não teve coragem de se aproximar.

Quando Vivi se ergueu, com dificuldade, teria caído na calçada se Carlinha não a ajudasse.

Inconscientemente, Marcela avançou na direção dela, as mãos estendidas como se a fosse segurar. Foi então que a ruiva a viu.

Os olhos verdes a fuzilaram. Cheios de um ódio intenso. Vivi não gritou, cuspiu as palavras:

- Nem pense em me  tocar! Sabe quando você vai voltar a encostar em mim? Nunca! Fica longe! Você é podre! Tenho nojo de você!

E desabou. Chorando, aos prantos, agarrada em Carlinha, o rosto escondido no ombro da amiga.

Marcela ainda gaguejou:

- Vivi, por favor... Vivi, me escuta...

Mas Vivi manteve os olhos fechados, e tapou os ouvidos, pedindo baixinho, num tom sofrido, quase de súplica:

- Não... Eu não quero saber... Não quero ouvir... Carlinha, me tira daqui... Não deixa ela chegar perto de mim...

Carlinha foi levando Vivi, seguida por Ana Cláudia e Rafa. Os três nem olharam para Marcela. Não sabiam o que tinha acontecido, mas para Vivi reagir daquele jeito, com certeza algo muito grave.

Marcela ficou parada sozinha, vendo eles se afastarem. Como um pesadelo que se tornasse realidade. As coisas que Vivi tinha dito ecoando no ouvido...

E o pior é que ela estava certa. Era tudo verdade. Naquele momento, Marcela se sentia - sabia que era - podre, nojenta, absolutamente indigna de Vivi.

Escondeu o rosto entre as mãos, e começou a chorar. Sentiu alguém a envolver com os braços. Alguém conhecido demais, que estava sempre ao lado dela nos momentos difíceis, pronto para ajudar.

O abraçou de volta, escondeu o rosto no peito dele, e chorou até a camisa do amigo ficar toda molhada. Aos poucos foi se acalmando, e até tentou esboçar um sorriso triste, quando disse:

- Ai, Dé... Só você pra me aturar...

André acariciou os cabelos dela, enxugou as lágrimas de Marcela com os dedos e a beijou no rosto, dizendo:

- Vem, minha maluquinha... Vou te levar pra casa.

 

O único som no carro de Rafa eram os soluços de Vivi. Ninguém teve coragem de dizer nada.

Ana Cláudia abraçada com a ruiva no banco de trás. Carlinha virada de costas no banco da frente, segurando a mão da amiga como quem diz: �tô aqui�.

Rafa se limitou a dirigir, com os olhos muito arregalados, sem nem olhar para os lados.

 

Dona Lúcia acordou assustada. Vivi ia dormir na casa de Marcela, não era para ela voltar para casa. Mas ouviu barulho vindo do quarto dela.

Viu a filha sentada na cama, chorando com as mãos no rosto, toda encolhida. Do lado, com um braço em volta dela, uma morena que não conhecia. E Carlinha, ajoelhada no chão, acariciando e tentando consolar a amiga.

Dona Lúcia se aproximou, sentou na cama, do lado da filha, e a abraçou. Vivi se agarrou a ela, chorando de um jeito que a mãe nunca tinha visto.

Acariciou os cabelos vermelhos, e com uma voz ainda mais doce do que a que sempre tinha, disse:

- Que foi, filha? Que houve?

Sem conseguir parar de soluçar, Vivi só murmurou alguns sons desconexos. Dona Lúcia perguntou para Carlinha:

- Que aconteceu?

A única coisa que Carlinha sabia era:

- A Marcela fez alguma coisa... Deve ter sido sério, tia, porque a Vivi saiu correndo da boate e até passou mal...

- Melhor vocês irem. Já é tarde. Vocês têm como voltar?

Carlinha respondeu que Rafa estava esperando no carro lá embaixo. Só então lembrou de apresentar Ana Cláudia, que estava como Carlinha: absolutamente preocupada.

Dona Lúcia percebeu e as acalmou. Depois pediu:

- Por favor, quando vocês saírem, batam a porta.

As duas concordaram, se despediram e deixaram as duas sozinhas no quarto.

- Ah, Vivi... Esse é aquele momento pro qual tentei me preparar a vida inteira... De olhar pro sofrimento da minha própria filha e aceitar que faz parte da vida... O que quer que tenha acontecido, não importa... Você é muito mais forte... Sabe que toda dificuldade é uma oportunidade de crescer, de se fortalecer... Uma oportunidade que tenho certeza, você vai saber aproveitar, filha...

Vivi balançou a cabeça, concordando. Acreditava e concordava com tudo que a mãe tinha dito. Mas aquele era um daqueles momentos onde não existe lugar para a razão. Desabafou ainda chorando, o nariz completamente entupido:

- Eu sei... Só que agora... tá doendo... doendo muito, mamãe... doendo demais...

Voltou a soluçar. Dona Lúcia a abraçou, beijou, a fez trocar de roupa e se deitar. Acariciou os cabelos da filha, até ela adormecer. Depois ficou velando o sono de Vivi, pensativa. Quando voltou para o próprio quarto, o dia já tinha amanhecido.

 

Na verdade foi Marcela quem levou André em casa, porque ele estava sem carro. Apesar da insistência quase irritante dele, se recusou a subir.

Voltou para o próprio apartamento, ficou andando de um lado para o outro na sala, sem conseguir ficar parada, como um bicho enjaulado.

Bebeu litros de água. Sentia uma sede incontrolável, interminável. E uma dor profunda.

Não conseguia pensar direito, o corpo parecia em erupção.

Colocou um CD. O som altíssimo -  Snow Patrol: �Hands Open� � encheu a sala.

Com uma necessidade absolutamente física de se movimentar, começou  a dançar. Agressivamente. Numa espécie de transe. Pulando, batendo o pé no chão, batendo com as mãos nas paredes, sacudindo a cabeça como louca. Cantando alto, junto com a música:

 

�It's hard to argue when you won't stop making sense

(É difícil discutir quando você não para de pensar em fazer sentido)
But my tongue still misbehaves and it keeps digging my own grave with my

(Mas a minha lingual continua a se comportar mal e continua a cavar a minha própria cova com as minhas)
Hands open, and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
Why would I sabotage the best thing that I have

(Por que eu sabotaria a melhor coisa que eu tenho?)
Well, it makes it easier to know exactly what I want with my...

(Bem, isso faz com que seja mais fácil saber exatamente o que eu quero com minhas...)
Hands open and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
It's not as easy as willing it all to be right

(Tudo dar certo - não é tão fácil quanto desejar)
Gotta be more than hoping it's right

(É necessário mais do que esperar que seja certo)
I wanna hear you laugh like you really mean it

(Eu quero ouvir você rir com vontade/de verdade)

Collapse into me, tired with joy

(Colapse em mim, cansado de alegria)
Put Sufjan Stevens on and we'll play your favorite song

(Coloque Sufjan Stevens e nós tocaremos a sua música preferida)
"Chicago" bursts to life and your sweet smile remembers you, my

(�Chicago� explode em vida e o seu doce sorriso lembra você, minhas)
Hands open, and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
It's not as easy as willing it all to be right

(Tudo dar certo - não é tão fácil quanto desejar)
Gotta be more than hoping it's right
 

(É necessário mais do que esperar que seja certo)
I wanna hear you laugh like you really mean it

(Eu quero ouvir você rir de verdade)
Collapse into me, tired with joy.�

(Colapse em mim, cansado de alegria)
(�Hands Open� - Snow Patrol)

 

O vizinho do lado esmurrou a parede de volta. Gritou:

- Pelo amor de Deus! Sabe que horas são?

A mesma coisa o de baixo. Marcela mandou os dois para aquele lugar. O interfone tocou várias vezes. A campainha também. Começaram a bater na porta. As batidas se tornando cada vez mais fortes.

Ela caminhou até a porta, toda suada, os cabelos molhados, e a abriu com o jeito beligerante de quem está pedindo para brigar.

Sem dizer uma palavra, o homem empurrou Marcela com tanta força que ela caiu no chão, batendo na parede com as costas. Depois trancou a porta e desligou o  som.

- Pai?

Foi só o que Marcela falou. Ele a olhou de cima abaixo, com total e absoluta vergonha, asco e reprovação, antes de dizer:

- A síndica me liga no meio da noite, pedindo pra eu dar um jeito na minha filha, que está � segundo as palavras dela: drogada, bêbada e louca. E não podemos processar a mulher por calúnia, difamação, nem injúria, não é mesmo? Porque como alguém pode praticar um crime contra a honra de uma pessoa que não tem nenhuma?

A última frase soou muito enervada, alterada. A primeira reação de Marcela foi se encolher. Mas depois ela respirou fundo e levantou, com a atitude debochada e displicente que usava como defesa:

- Nada que o seu dinheiro não resolva, meu tão generoso papaizinho... Como você mesmo me ensinou: �Money makes the world go around� ou �Fortuna Imperatrix Mundi��

O pai chegou perto dela, aspirou como quem tenta sentir algum cheiro, e falou:

- Bom, se você não bebeu, tá só drogada então...

Marcela deu uma gargalhada, e respondeu, com uma reverência:

- Só posso me curvar perante tamanha inteligência...

Conseguiu o que queria: a raiva que fez o pai a empurrar novamente. Dessa vez ela caiu sentada no sofá, com um sorriso masoquista de quem estava adorando.

- Quanto mais o tempo passa, pior você fica. Não tenho mais paciência pra te aturar, Marcela...

- Nunca teve...

Evitou olhar para ele. Não ia deixar que o pai visse a mágoa que sentiu quando disse aquilo. Se controlou e voltou a abrir um sorriso cínico, de puro desafio. Ele continuou:

- Você devia agradecer a sua mãe. Se não fosse por ela, eu já tinha te internado há muito tempo. E pode ir tirando esse sorrisinho do rosto. Você já ultrapassou todos os limites. De hoje em diante vai ser assim: vou continuar pagando seu condomínio e todas as contas do apartamento. Sua mãe vai continuar fazendo compras e enchendo a sua geladeira de comida. Mas vou cancelar todos os seus cartões de crédito e... nada de mesada. Cansei de te dar dinheiro pra você se autodestruir.

Marcela se levantou num pulo. Achando um absurdo, não acreditando no que estava ouvindo. Contestou:

- Mas... sem dinheiro, como eu vou colocar gasolina? Como eu vou...

- Se vira! Quer dinheiro? Arrume um estágio, um emprego. Como todas as pessoas fazem. Com o sobrenome que você tem, todos os escritórios de advocacia do Rio de Janeiro vão estar de portas abertas... Vai ser fácil pra você.

Visivelmente alterada, ela quase gritou, com o dedo na cara do pai:

- Isso é absurdo! Eu vou... eu vou...

- Vai o que? Me processar?

E riu gostosamente. Marcela choramingou:

- Vou falar com a minha mãe!

Chegou a pegar o telefone. O pai tinha uma expressão vitoriosa ao dizer:

- Sua mãe já sabe. E concorda comigo. Inclusive acha que já deveríamos ter feito isso há muito mais tempo. Com certeza teria nos poupado de várias situações lamentáveis como essa. Vou botar juízo na sua cabeça, Marcela, de uma forma ou de outra. Por enquanto ainda estou sendo bonzinho. Aproveite! Porque pode ficar pior. Pense nisso.

Marcela passou a mão nos cabelos, quase em desespero:

- Pior? Como pode ficar pior do que isso?

- Posso vender esse apartamento, por exemplo.

Ela riu. O pai só podia estar blefando:

- Você não teria coragem de me deixar na rua!

- Não. Você voltaria a morar comigo e com a sua mãe.

Para Marcela aquilo não era pior. Era o fim. Só de pensar sentiu um arrepio. Como se estivesse assistindo a um filme de terror.

- Sem chance... Você não vai me querer na sua casa novamente...

Ela afirmou, certa de que o pai não teria coragem. Mas ele continuou sorrindo, deixando claro que estava disposto a ir até o fim:

- Se for preciso...

Marcela deixou escapar um grito. Um misto de raiva, desespero e contrariedade. O pai ignorou:

- Estamos entendidos?

E ela não teve outra saída. Concordou com a cabeça, sem olhar para ele. Assim que o pai saiu, se atirou no sofá, com as mãos no rosto. Sentindo que bastava uma única noite para que a vida dela inteira ruísse...

 

Quando dona Lúcia acordou no dia seguinte, já encontrou Vivi na frente do oratório, fazendo daimoku. Deu um beijo na filha, e achou que ela estava quente. Mas não quis interromper.

Estava tomando café na cozinha quando a ouviu fazer daimoku sansho. Assim que Vivi entrou pela porta viu que a filha não estava se sentindo bem.

- Tô morrendo de dor de cabeça... Já tomei uma aspirina, mas não passou...

A mãe pegou na testa e no pescoço dela. Vivi estava ardendo em febre. Com o surto de dengue que estava na cidade, não hesitou:

- Troca de roupa. Vou te levar no médico.

Vivi protestou:

- Que exagero... É só uma virose...

Mas dona Lúcia preferia ficar tranqüila, ter certeza de que não era nada:

- Filha, melhor prevenir do que remediar, né? Todo cuidado é pouco...

 

Vivi tinha razão: era apenas uma virose. Mas afinal de contas, virose é o que? É quando você vai no médico e ele não sabe explicar o que você tem direito, daí ele diz: virose! Não é mesmo?

Pois o que Vivi tinha, era uma dessas coisas inexplicáveis... Não estava com dor de garganta, nariz entupido, tosse, nada. Apenas uma febre que não cedia, sem um motivo razoável.

Na verdade, o motivo estava dentro dela. E o corpo é sábio. Ajuda mesmo quando a gente não sabe. Graças a essa doença misteriosa, passou 5 dias em casa. Praticamente isolada.

Sem acessar Internet, sem atender telefone, com o celular desligado. Só falou com Ana Cláudia e Carlinha rapidamente, quando elas ligaram preocupadas. Dormiu quase o tempo todo. Estava � como eu posso dizer? � com a alma cansada...

Quando não estava dormindo fazia daimoku. Como não agüentava ficar muito tempo sentada, fazia deitada na cama mesmo, olhando para o teto, concentrada. E aos poucos foi recarregando as energias, se fortalecendo para o momento inevitável: encontrar Marcela na faculdade.

 

Marcela tentou falar com Vivi o domingo inteiro. Sem resultado. O celular dela estava desligado. Mandou vários e-mails, mas depois do que tinha feito, não teve coragem de ligar para a casa dela.

Esperou pela 2ª feira ansiosa. Mas Vivi não apareceu. Estranho, porque... Vivi nunca faltava. No fim das aulas se aproximou de Carlinha, muito sem jeito:

- Oi...

Carlinha, como Marcela já esperava, foi seca e fria:

- Oi.

Mas Marcela estava inquieta:

- Por que a Vivi não veio? Fiquei preocupada...

Por mais que Carlinha estivesse chateada com Marcela, viu que ela estava sendo sincera. Por isso, e só por isso respondeu:

- Ela tá doente.

- Nada grave, né?

Marcela disse apressada, nervosa mesmo. Carlinha manteve o mesmo tom - completamente oposto do normal dela - nada simpático:

- Uma virose, parece. Mas acho que a doença dela tem um nome, sabe qual?

Marcela fez que não com a cabeça. Carlinha completou:

- Decepção. Coisa que ela não merecia. Preciso ser mais clara?

Os olhos de Marcela se encheram de lágrimas. Carlinha, que não esperava � nunca tinha visto nenhuma demonstração de sensibilidade dela � se arrependeu por ter sido tão dura. Mas não disse nada.

Marcela falou com dificuldade, entre as lágrimas que já escorriam:

- Juro que eu não queria... Preferia me matar antes de fazer a Vivi sofrer... Mas eu... ah, eu não valho nada mesmo...

Virou, deu dois passos, depois olhou para Carlinha novamente:

- Diz pra ela que... não, não diz nada...

E se afastou, as lágrimas escorrendo profusamente. Andando rápido, quase correndo. Como se ao fugir da própria sombra pudesse se livrar de si mesma.

 

Vivi só voltou para a faculdade na 6ª feira. Só não estava mais tensa porque estava cercada pelas amigas. Carlinha e Ana Cláudia, uma de cada lado.

Entrou na sala, se sentou na primeira fileira. Fazendo um esforço incrível para não olhar para trás. Sabia que Marcela estava sentada no fundo. Tinha percebido no momento em que entrou na sala.

Ana Cláudia se despediu e foi para a aula dela. Carlinha percebeu o estado em que a amiga estava. Apertou a mão dela, e disse:

- Força!

Vivi sorriu. A amiga podia não ser budista, mas era como se fosse. Iluminada ela. Bodhisattva, dona Lúcia diria... (do sânscrito: bodhi = sabedoria / sattva = ser). Acabou com a ansiedade de Vivi com uma única palavra.

Passou a aula toda concentrada, apesar de sentir os olhos negros grudados nas costas dela, quentes como dois ferros em brasa.

 

Marcela quase se levantou quando Vivi entrou na sala. Ela estava mais magra. Um pouco abatida, na verdade. Isso apenas acentuava o efeito de labareda dos olhos verdes. Duas chamas. Que se desviaram de Marcela rapidamente, com uma expressão de indiferença tão grande, que Marcela se sentiu morrer um pouquinho por dentro.

Ela se sentou na frente, no lugar de sempre. Com Carlinha, a fiel escudeira, do lado. A morena que fazia estágio com Vivi também estava. Ficou conversando um pouco, e depois saiu da sala. A aula começou, mas Marcela não via nem escutava. Só conseguia manter os olhos negros grudados nas madeixas vermelhas com todo o remorso e culpa que tinha acumulados.

 

Podia ter se aproximado de Vivi no intervalo. Mas não teve coragem. Ficou se xingando mentalmente: �Fraca!�, �Imbecil!�, �Covarde!�

Foi só quando as aulas terminaram - e se viu incapaz de esperar até 2ª feira para voltar a ter uma oportunidade � que finalmente se aproximou dela.

Vivi parecia quase contente � rindo enquanto caminhava entre Carlinha e Ana Cláudia. Marcela a chamou, um grito meio desesperado:

- Vivi!

Ela parou e se virou, jogando o cabelo vermelho com o movimento. Os olhos verdes encontraram os negros - dois cubos de gelo.

Marcela se aproximou com uma sensação de irrealidade � não, ela não tinha bebido, fumado, nem tomado nada, foi só uma estranha sensação mesmo � como se aquilo fosse um sonho ou pesadelo. Ainda não estava claro.

Não soube como conseguiu, frente a frente com as duas geleiras verdes, abrir a boca e dizer:

- Queria muito falar com você...

Como se Marcela não existisse, as amigas se ofereceram para ficar com Vivi. Mas a ruiva agradeceu, com um sorriso meigo:

- Preciso esclarecer algumas coisas com ela. A sós.

Carlinha e Ana Cláudia se afastaram, dizendo que iam esperar no estacionamento. O sorriso que Vivi deu para elas imediatamente se desfez quando voltou a olhar para Marcela:

- Já que você queria tanto falar, pode começar você.

 

 

Capítulo 24: Seus Olhos...

Quando um ator em cena esquece o texto, a gente diz que �deu branco�. Na vida real não sei como se chama. Mas foi o que Marcela teve naquele instante.

Ficou ali parada, se deixando congelar pelo olhar de Vivi. A ruiva estava visivelmente impaciente quando disse:

- E então?

A voz de Vivi trouxe Marcela de volta à realidade. Que era muito difícil na verdade, porque... Não tinha a menor idéia do que falar. Ou melhor: não tinha nada que pudesse dizer.

Vivi completou como se lesse os pensamentos dela:

- Bom, então falo eu.

E disparou, de uma forma fria, distante, que chocou Marcela:

- Quero saber como vamos fazer, porque tem várias coisas minhas na sua casa, e eu quero de volta. Se você puder deixar na sua portaria eu pego. E deixo as suas coisas que tão comigo. Pode ser?

Marcela balbuciou:

- Não... eu deixo na sua portaria...

- Quando?

Para Marcela era como falar com uma atendente de telemarketing: impessoal ao extremo, seguindo o script da empresa. Respondeu:

- Hoje mesmo.

- Tá.

Vivi concordou e completou:

- Outra coisa: o que aconteceu naquele dia, eu não contei pra ninguém. Nem vou contar.

Marcela esboçou um sorriso:

- Obrigada...

Que Vivi desmanchou com uma única frase:

- Não fiz por você. Fiz por mim. Pra me preservar. Espero que você faça o mesmo.

Com uma certa vergonha, Marcela confessou:

- O André sabe...

Vivi deixou escapar um risinho sarcástico:

- Claro que o André sabe... Ele é a sua cara metade. Vocês se merecem, são o par perfeito, não é verdade?

Então de repente, do nada, de forma inexplicável, Marcela teve uma súbita vontade de explicar:

- Vivi, o que aconteceu naquela noite...

Mas Vivi a cortou, ríspida:

- O que aconteceu naquela noite dispensa palavras. Não vamos nem comentar.

Marcela abaixou a cabeça. Enxugou algumas lágrimas. Vivi nem esperou ela se recuperar:

- Uma última coisa... Na verdade é um favor que eu quero te pedir.

Marcela levantou a cabeça, com uma pequena esperança. A voz de Vivi tinha soado quase suave. Mas as esmeraldas continuavam um freezer quando os olhos se encontraram.

A ruiva continuou:

- Se você pudesse não ir nas reuniões da minha comunidade... não quero que você pare de ir, mas... sua presença me incomoda. E as reuniões da minha irmã são bem mais perto da sua casa. Se você não quiser mudar eu entendo, e... mudo eu então.

Impossível descrever o que Marcela sentiu naquele momento. Ficou claro que não tinha mais nenhuma chance. Vivi estava determinada a se afastar completamente. Sem medir esforços.

Sabia como seria difícil para Vivi, porque ela teria que abrir mão de ser  uma das responsáveis pela comunidade. Marcela jamais a obrigaria a fazer isso. Com uma dor profunda concordou:

- Não... Eu... Mudo eu então.

Vivi agradeceu. Sem esconder o alívio. E se despediu, dizendo:

- Vou indo...

Deu as costas e foi embora sem olhar para trás. Deixando Marcela estática. A imobilidade exterior inversamente contrária ao ritmo holocáustico que tinha por dentro.

Ficou trêmula, com falta de ar, o estômago doendo. Se apoiou na parede atrás dela vendo tudo girar. O coração disparado no peito. Escorregou para o chão,  abraçando a cabeça entre os joelhos. Sentada no meio dos livros e papéis que sem perceber tinha soltado.

Até finalmente, depois de muito tempo voltar ao normal e conseguir se levantar.

 

Para Vivi, aquele primeiro mês passou muito mais rápido do que ela esperava. Porém, não tão rápido quanto ela precisava.

É muito estranho amar tanto uma pessoa, olhar para ela e saber que não tem volta. Como se a vida ficasse sufocada dentro do peito, como se cordas invisíveis lhe controlassem os movimentos.

E então Vivi se perguntava: �e agora?� - cada vez que passava por Marcela, a cumprimentava como se mal a conhecesse e então ia embora.

Uma espécie de dor o tempo inteiro. Com a qual era possível conviver, mas que incomodava. Com uma persistência e constância que pouco a pouco a devoravam.                                

Se não fossem Carlinha e Ana Cláudia, não tinha idéia de como seria. As amigas ficavam sempre do lado dela, meio anjos da guarda, meio escudos protetores.

Fora da faculdade, ficou difícil sair com Carlinha, não por ela ser hetero, mas  porque... Carlinha namorava Rafa e Rafa era amigo de Marcela.

O natural foi passar a sair com Ana Cláudia. Adorava a companhia dela. Eram muito parecidas, gostavam das mesmas coisas e lugares. Se tornaram tão inseparáveis, que as pessoas pensavam que eram namoradas.

Vivi até sentia que existia um interesse � velado, nunca declarado - por parte da morena, mas a última coisa que queria naquele momento era um novo relacionamento.

 

Para Marcela, a vida se tornou quase insuportável. Pela manhã, a tortura de só poder admirar Vivi de longe na faculdade.

Passava as aulas inteiras olhando para as costas dela, os cabelos ruivos... Prestando atenção em cada cruzada de pernas, cada mão no queixo, na caneta, na nuca... Cada vez que ela se esticava e estalava as costas... Como se colecionasse cada movimento com os olhos. Apesar do terrível sofrimento que aquilo causava.

À tarde, era como descer ao inferno depois de ter vendido a alma. Se tornou estagiária no escritório de um amigo do pai. Detestava. Principalmente a parte das roupas sociais que era obrigada a usar.

Tirou as mechas azuis do cabelo � ele agora estava todo preto. Mas continuava indo para a faculdade toda largada, nunca ia deixar que todos a vissem vestida daquele jeito.

Não entendam mal, não que as roupas escolhidas pela mãe de Marcela fossem de mau gosto ou feias. Mas eram exatamente o contrário de tudo que Marcela pensava e gostava. Passava a tarde inteira se sentindo ridícula, morrendo de vergonha, rezando para que nenhum conhecido a encontrasse.

Para compensar, mergulhou de cabeça na doideira. Tentando se consolar inutilmente com todo e qualquer tipo de bebida, drogas e... Gisele.

Parecia que a loira adivinhava. Sempre que Marcela estava muito bêbada ou drogada, ligava ou aparecia. E Marcela se entregava.

No dia seguinte, se sentia péssima. Podre e nojenta. Exatamente como Vivi tinha falado.

Chorava, sabendo perfeitamente que para ela, querer a ruiva era como desejar a lua:  completamente inatingível, inalcançável. Não era boa o bastante. Isso era fato consumado. Sentença transitada em julgado. Sem apelação. Porque para ela não existia qualquer tipo de defesa. O que tinha feito era totalmente sem perdão. Indesculpável.

 

Numa dessas tardes de incessante sofrimento, Marcela estava no fórum, acompanhando o andamento de um último processo quando deu de cara com Vivi.

A ruiva não poderia ficar mais surpresa. Olhou para Marcela de olhos arregalados. Ela estava de tênis de couro preto � nada nem ninguém tinha conseguido convencer Marcela a usar sapato de salto alto � calça social preta com riscas e uma camisa social feminina - inexplicavelmente branca - com a manga na altura dos cotovelos....

Irreconhecível, mas... absolutamente linda. Maravilhosa. Impactante mesmo. Vivi ficou completamente sem fala, sem ação... Exatamente como se a visse de novo pela primeira vez.  A incontrolável atração que sentia por ela a arrastando novamente...

Marcela quase morreu de vergonha. Demorou para conseguir encarar a ruiva e quando o fez ficou perplexa. Sem saber o que fazer, nem dizer, porque... as esmeraldas estavam ardentes.

Nelas podia ler perfeitamente paixão, tesão, amor, desejo... Os olhos negros cintilaram com os mesmos sentimentos.

Inevitável... Incontrolável... Irresistível... A sensação traiçoeira que fazia Vivi se arrepiar inteira com toda força de volta. Isso a apavorou.

Saiu quase correndo, sem cumprimentar nem trocar uma palavra com Marcela. Apesar de saber que era tarde. Tinha revelado a única coisa que Marcela não podia saber: que continuava loucamente apaixonada.

 

Aquele encontro para Marcela foi como uma luz no fim do túnel. Contra tudo e contra todos, tinha percebido que talvez ainda pudesse ter chance.

Passou a semana inteira comportadíssima. Fazendo daimoku e gongyo todos os dias.

Por isso não ficou surpresa quando convidaram os �The Mitidos� para tocar no churrasco do pessoal da faculdade. Aceitou sem nem perguntar para os outros membros da banda. Com eles se entendia mais tarde. Precisava agarrar a oportunidade.

No dia do churrasco estava ansiosa, tensa, uma pilha de nervos. Fez daimoku durante quase uma hora � e nunca tinha conseguido fazer tanto tempo.

�Não existe oração sem resposta.� � ficava repetindo para si mesma, como  tantas vezes tinha ouvido Vivi dizer.

Infelizmente, nunca tinha prestado atenção no resto da frase: �Às vezes a resposta é não...�

 

O churrasco era na Barra, na casa de um aluno do 5º período. Um pequeno tablado estava montado a alguns metros da piscina, com todo o equipamento necessário alugado.

A primeira coisa que Marcela fez foi procurar Vivi com os olhos. Para alívio e desespero dela, a ruiva estava sentada � de biquíni verde, absurdamente magnífica � entre Carlinha e... Ana Cláudia.

André puxou Marcela pelo braço:

- Ei! Acorda! Você não vai rastejar atrás dela, né?

Marcela ficou irritada:

- Não te interessa!

E saiu em direção ao tablado.

 

Vivi se manteve de óculos escuros o tempo inteiro. Só assim para ninguém perceber que os olhos não conseguiam desgrudar de Marcela.

A miserável parecia fazer de propósito: se abaixava, mexia nos cabos, nos pedais, nos instrumentos, de uma forma absolutamente provocante, deliciosa, sexy... E não parava de lançar para Vivi um olhar que era francamente proibido para menores.

Então se tornou pior ainda, porque ela chegou no microfone e anunciou, a voz maravilhosa fazendo Vivi mergulhar num mar profundo de recordações:

- Boa tarde, galera! Se seus namorados ou namoradas não fazem Direito, eu faço!

Todos riram e aplaudiram a piada velhíssima. Marcela deu um sorriso lindo, e então apresentou a banda:

- Nós somos os �The Mitidos�, e vamos começar com uma música do meu poeta preferido: Cazuza!

Marcela começou a tocar, com aquele jeito que para Vivi era tão inebriante quanto absinto.

Abriu a boca e cantou, olhando para Vivi com um olharzinho pedinte, safado e sedutor, que arrancou sorrisos involuntários da ruiva:

 

�Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados na maternidade...
Paixão cruel, desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras, minhas mancadas...
Exagerado! Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado...
Eu nunca mais vou respirar se você não me notar
Eu posso até morrer de fome se você não me amar...
E por você eu largo tudo
Vou mendigar, roubar, matar
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais...
Exagerado! Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado...�

(�Exagerado� � Cazuza / Ezequiel Neves / Leoni)

 

Apesar do sorriso, Vivi se manteve sentada, afastada das pessoas que dançavam na frente do palco. Tentando conter, negar o que sentia quando olhava para ela. O efeito mágico, que sempre a atraía para perto dos olhos negros.

Marcela começou a tocar o solo. Dedilhando a guitarra com aquela entrega impressionante que ela tinha no palco. Selvagem, apaixonada e plena. Que Vivi amava.

Voltou a cantar, os olhos mais uma vez presos na ruiva, louca para desvendar  o que acontecia por trás dos óculos escuros.

No final da música, as pessoas aplaudiram, assobiaram. Marcela pegou o microfone novamente e disse:

- A próxima é pra alguém muito especial. A dona do meu coração.

Os olhares se voltaram em peso para Vivi. Sem exceção. Mas ninguém - nem  Marcela - conseguiu interpretar a reaç&attilde;o da ruiva. Os óculos escuros eram impenetráveis. Uma grande interrogação.

Na verdade, Vivi estava fuzilando Marcela com as esmeraldas.

Mas então - apesar de cegos e sem direção pela falta do contato com os verdes - os olhos negros refletiram uma profunda e sincera emoção. Que amoleceu Vivi completamente, com uma facilidade assustadora.

Marcela começou a tocar, arrancando da guitarra notas sofridas, como a voz que cantou - doce, melancólica, quase um �mea culpa�:

 

�Você já me viu sério
já me viu de porre
me viu fazendo drama
por sua desordem
Mas triste, isso eu nunca quis
Que você visse
Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta
Quis que o nosso mundo
Fosse um conto de fadas
Amando o tempo todo
Em todo canto da casa
Mas isso, hoje eu aprendi
Que não existe
Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta
Mas nada vai fazer
Com que eu desista
Nada é pra sempre
Eu sei que sou capaz
A vida não é isso
Ela é muito mais
Só tenho que dormir de novo
Pra sonhar de novo

Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta.�

 

Cantou as últimas frases com a voz embargada, os olhos cheios d�água.

Se pudesse ver os olhos verdes, Marcela saberia que estavam do mesmo jeito. Mas a escuridão dos óculos continuava intransponível:

 

�Os meus olhos sentem a falta dos seus

O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta�

(�Seus Olhos� - Capital Inicial - Pit Passarell)

 

Anunciou que iam fazer um intervalo, e quando desceu do palco, Vivi tinha desaparecido. Ficou olhando em volta, completamente perdida.

André e Guto chegaram perto dela, com latinhas de cerveja na mão. Ofereceram uma para Marcela, que recusou, sem nem olhar para eles. Só prestou atenção quando Guto disse:

- Se você tá procurando a Vivi, ela foi naquela direção.

 

Assim que Marcela anunciou que iam fazer um intervalo, Vivi saiu quase correndo. Estava frágil demais, com saudades demais para permitir que ela chegasse perto. Foi para a frente da casa, que estava completamente deserta, e entrou na garagem.

Tirou os óculos, tentou em vão enxugar as lágrimas, mas elas brotavam interminavelmente. Ficou ali chorando baixinho, de cabeça baixa, com as mãos apoiadas no capô de um dos carros. Se assustou, deu um pulo quando sentiu uma mão a tocar no ombro.

Levantou a cabeça e viu Ana Cláudia, com uma expressão de dor igual à dela. Uma dor que só se sente quando não se pode fazer nada para aliviar o sofrimento da pessoa por quem se está apaixonada...

E então entendeu perfeitamente o que Ana Cláudia sentia por ela.

A morena seguiu as emoções passarem nos olhos verdes como se lesse num livro aberto: susto, surpresa, compreensão e... pena.

A dor nos olhos de Ana Cláudia aumentou. A morena se virou, envergonhada, querendo fugir, mas Vivi a impediu:

- Ana Cláudia... espera... me desculpa, eu... gosto de você... mas...

- Ama a Marcela. É, eu sei.

O jeito que Ana Cláudia falou, fez Vivi se lembrar de si mesma. Meses atrás, quando Marcela era apaixonada, louca pela tal Gisele.

Um carinho enorme tomou conta dela. Acariciou o rosto da morena. Ana Cláudia fechou os olhos, suspirou, e se entregou completamente à carícia.

Antes, durante e depois de Marcela, Vivi nunca tinha pensado, olhado, nem desejado outra mulher.

Despertando uma dúvida dentro dela: gostava mesmo de mulheres ou apenas de Marcela?

Naquele momento, esse questionamento terminou, porque... algo inexplicável  aconteceu, e... a energia entre elas mudou completamente.

Ana Cláudia percebeu, porque abriu os olhos, os fixou nos verdes � absolutamente incandescentes � e sorriu.

Um sorriso doce, suave, mas ardente. Acariciou o rosto de Vivi, a mão deslizando pelo pescoço, segurando a nuca dela, fazendo Vivi se arrepiar inteira.

Vivi ficou olhando para ela, tentando em vão compreender o que estava acontecendo.

Ana Cláudia aproximou o rosto do dela. O bastante para as respirações se tocarem. Vivi estremeceu, finalmente entendendo e aceitando que naquele momento, desejava provar os lábios tão próximos dos dela.

Olhou para os olhos de Ana Cláudia novamente. Viu que eles estavam ansiosos, nervosos, esperando uma aprovação.

Com o coração batendo feito louco no peito, colou os lábios nos da morena redentoramente, com um gemido profundo de satisfação.  

 

 

Capítulo 25: I�m Your Favorite Drug...

Marcela não estava preparada para o que viu quando chegou na porta da garagem.

Vivi e Ana Cláudia, só de biquíni, os corpos e bocas colados sensualmente... As mãos de Vivi estavam nas costas da morena, acariciando, apertando, a puxando com força. Viu quando Ana Cláudia percorreu o pescoço de Vivi com a boca, e a ruiva deixou escapar um gemido e jogou a cabeça para trás, facilitando o acesso da morena, com uma entrega suave, doce, meiga. A mesma com que as bocas voltaram a se encontrar...

Marcela recuou, sem ser vista, e saiu quase correndo, como se estivesse sendo perseguida.

Passou rapidamente no meio das pessoas, entrou na casa e se trancou no banheiro. Encostou na porta com as mãos tremendo, e abraçou o estômago inconscientemente.

A intimidade carinhosa, sensível que tinha presenciado era muito, mas muito pior do que tesão e sexo, porque... Mesmo de longe, pelo clima, pelo ritmo das carícias, tinha percebido que entre Vivi e a outra havia... envolvimento. Algo bem mais profundo do que apenas desejo.

E com isso Marcela não sabia como competir. Pegou o frasco que sempre carregava no bolso. Abriu, bateu o pó na mão e cheirou várias vezes.

 

Quando os lábios se separaram, Vivi abriu os olhos e viu... o sorriso de Ana Cláudia. Lindo. De pura felicidade. Que a deixou preocupada. Tentou dizer:

- Ana Cláudia, eu...

Mas a morena não deixou. Colocou os dedos nos lábios de Vivi, impedindo que ela falasse:

- Não tô te cobrando nada. Nem vou. Mas não posso esconder o que eu sinto... E eu gostei... muito... Adorei você ter me beijado assim.

Disse de uma forma tão sincera, que Vivi acabou confessando:

- Também gostei... Foi...

- Intenso?

A morena completou. E Vivi confirmou balançando a cabeça. Depois olhou para o chão, tensa. Achando que tinha falado demais.

Ana Cláudia deu um daqueles sorrisos dela que Vivi estava começando a aprender a adorar, e disse:

- Vivi, relaxa. Vamos deixar as coisas acontecerem. Tudo bem?

Mais uma vez, Vivi concordou com a cabeça. Só que dessa vez, ela sorriu. Como se vislumbrasse um alvorecer.

 

Quando Marcela finalmente saiu do banheiro, encontrou um André muito estressado procurando por ela:

- Porra, Marcela! Qual é a tua? Onde você se meteu? Faz mais de 40 minutos que você desapareceu...

Mais do que agressiva, Marcela estava num estado de... pura animalidade. Deu um empurrão no amigo, respondendo:

- Que saco! Larga do meu pé! Você é meu pai, por acaso?

Foi até a cozinha, onde estavam fazendo caipirinha e pediu:

- Alguém me arruma um copo de Vodka?

Na mesma hora o dono da casa ofereceu uma Caipivodka para ela. Marcela recusou:

- Assim não. Pura.

Pegou o copo que o rapaz estendeu, e virou de uma vez só. Desceu ardendo, mas não o suficiente para anestesiar o que tinha por dentro:

- Mais uma...

Perplexo, o rapaz obedeceu. Ela deu ao segundo copo o mesmo destino do primeiro. Depois disse:

- Valeu!

No caminho para o palco, foi pegando um baseado no saco plástico de sempre. Foi quando cruzou com Vivi. Conversando numa rodinha, rindo felicíssima, com morena irritante do lado.

Parou do lado dela, acendeu o baseado, e com um sorriso cínico ofereceu para Ana Cláudia. Que recusou.

Marcela riu, e provocou:

- Não? Aposto que você não bebe, não fuma, não cheira...

E para Vivi, que estava completamente vexada:

- Parabéns... Parece que você encontrou sua alma gêmea...

Os olhos verdes metralharam Marcela:

- Marcela, por favor...

- Ok, ok... Só uma última perguntinha...

Passou os olhos no corpo de Vivi como se ela estivesse sem o biquíni, com um sorriso cafajeste que chegava a ser incômodo de tão obsceno:

- Será que você vai ficar satisfeita?

Virou e saiu sem conseguir andar em linha reta.

 

- Marcela, nem pensar! O pessoal não vai curtir...

André estava irritadíssimo. Mas Marcela insistiu:

- Que se dane! Eu preciso!

Com um suspiro de impaciência, ele ainda tentou dialogar:

- Pensei que você não cantasse em inglês, que te lembrasse da Caitlin...

Marcela estava fora de si:

- Se eu lembrar daquela gringa vagabunda e filha da puta, melhor ainda...

André ainda tentou fazer Marcela desistir:

- A gente quase não ensaiou essa música. Além disso, não é nosso estilo...

Foi o olhar pedinte que Marcela lançou que finalmente quebrou a resistência dele:

- Tá bem... O que eu não faço por você?

 

Vivi sabia que quando Marcela entrava naquele estado, perdia todos os limites. Que se tornava perigosamente imprevisível.

Resolveu ir embora, para não se aborrecer mais ainda. Mas Carlinha a fez desistir da idéia:

- Vivi, é isso mesmo que a Marcela quer, que você não se divirta! Não acredito que vai dar esse gostinho pra ela!

A contragosto, Vivi concordou. Morrendo de medo do que Marcela poderia fazer. Estava com a pior das intuições...

Teve seus receios confirmados quando Marcela pegou o microfone e falou, com um brilho feroz e selvagem nos olhos negros, e uma voz cortante:

- Vivi, minha linda... Pra você...

Os meninos começaram a tocar. O som que saiu era diferente do de sempre. Violento, irritante, uma coisa um tanto quanto punk. Que incomodava, dava vontade de tapar os ouvidos.

Marcela estava sem a guitarra. Agarrou o microfone com as duas mãos e cantou, com uma voz visceral, que parecia arranhar na garganta. Um som gritado, vomitado, cuspido, para agredir:

 

�What you get is what you see (O que você tem é o que você vê)
It won't take much to get hooked on me (Não demora muito pra ficar viciada/vidrada em mim)
So shoot me right into your skin (Então me injete em sua pele)
And I will be your heroin (E eu serei sua heroína)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I taste (Você ama o meu gosto)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I say (Você ama o jeito que eu digo)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez nunca é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio,não)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Your favorite drug....(Sua droga favorita)
I'll put my nails into your back (Eu vou colocar minhas unhas nas suas costas)
Yeah you'll feel me like a spinal attack (É, você vai me sentir como um arrepio)
You want it from me on both knees (Você quer e suplica de joelhos)
But not until you beg me please (Mas só quando você pedir por favor)

The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I taste (Você ama o meu gosto)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I say (Você ama o jeito que eu digo)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez nunca é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio,não)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
I�m your favorite drug....(Sou sua droga favorita)
I'm your pleasure and your pain (Eu sou seu prazer e sua dor)
I'm your fear just like cocaine (Sou seu medo como a cocaína)
I'm your treasure (Sou seu tesouro)
Say my name (Diga meu nome)

I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez não é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio, não)
Your favorite drug
  (Sua droga favorita)
Your favorite drug� (Sua droga favorita)
(�I'm Your Favorite Drug� - Porcelain and the Tramps - Alaina Beaton)

 

Aquilo para Vivi foi mais do que o fim. Foi de um mau gosto absoluto e ofensivo. Marcela ficava apontando para a ruiva, fazendo com que todos olhassem para ela.

Óbvio que Carlinha e Ana Cláudia se postaram uma de cada lado dela. Apesar de, naquele momento, não ser preciso. Porque o comportamento de Marcela apenas fortaleceu Vivi. Ela ficou ali impassível, sustentando os disparos dos olhos negros com uma dignidade ostensiva.

Quando a música terminou, os olhares de Marcela e Vivi continuaram se fuzilando. No meio da troca de tiros entre os verdes e os negros duelantes, todos ficaram estáticos, esperando.

Sem desviar os olhos, com um sorriso magoado no rosto, Vivi começou a aplaudir. Um aplauso seco, alto, irônico. Com uma pausa imensa entre uma palma  e outra. Depois se virou, e saiu puxando Ana Cláudia pela mão.

 

Um enorme mal estar se estabeleceu. As pessoas estavam perplexas, olhando para Marcela, que entendeu perfeitamente o que a atitude de Vivi queria dizer: que Marcela a tinha feito se decidir.

Desceu do palco, e se escondeu atrás da bateria, um desespero profundo tomando conta dela, porque sabia que tinha atirado Vivi nos braços da tal morena definitivamente.

André veio atrás dela:

- Marcela! Marcela! Você tá bem?

Marcela fez que sim com a cabeça, chorando e fungando muito. André segurou o rosto dela entre as mãos, enxugou as lágrimas, e beijou Marcela na testa com ternura, antes de dizer:

- Para com isso... Deixa essa garota pra lá... Quero ver você voltar praquele palco agora e arrasar! Que tal, hein?

Com um suspiro deprimido, Marcela concordou.

 

Vivi puxou Ana Cláudia até o banheiro. Assim que fechou a porta, ouviu a banda voltar a tocar. A voz de Marcela continuava agressiva, mas bem menos. Por trás da agressividade podia sentir um tom de prazer sarcástico na forma com que ela cantava:

 

�Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola...�

(�Geração Coca-cola� - Legião Urbana - Renato Russo / Fê Lemos)

 

Olhou para Ana Cláudia profundamente. Viu a interrogação imensa nos olhos dela. Como resposta, puxou a morena pela cintura e colou os lábios nos dela quase com desespero.

Ana Cláudia correspondeu, de uma forma ardente, porém muito mais amena.

Mas Vivi estava tomada de uma súbita urgência. Precisava extravasar o que tinha por dentro.

Percorreu o corpo dela acariciando, explorando mesmo. Tocou em um dos seios. Afastou o biquíni para ter um contato completo. Desceu a boca sobre ele de uma forma absolutamente sedenta.

Ana Cláudia deixou escapar um gemido, mas parecia estranhamente tensa. Quando as mãos de Vivi foram subindo pelas coxas, com uma intenção muito mais do que evidente, a morena a segurou, parando o movimento. Vivi levantou a cabeça e fitou Ana Cláudia quando perguntou:

- Você não quer?

A voz da morena soou um pouco magoada, mas muito segura quando disse:

- Assim não.

Percebeu que Vivi não estava entendendo. Pôde ler claramente nos olhos verdes que a ruiva estava se sentindo rejeitada. Por isso explicou:

- Acho que você tá confusa, agindo por impulso. Não sabe o que tá fazendo. Ou melhor: sabe... Quer se vingar da Marcela.

Vivi negou veementemente:

-  Não, eu... Quero ficar com você. De verdade.

Vivi estava sendo sincera. O cintilar dos olhos verdes eram uma prova explícita. Porém, a morena ainda não acreditava:

- Tem certeza?

- Tenho.

Segurou o rosto de Ana Cláudia entre as mãos e a beijou com paixão. A morena correspondeu, entreabrindo os lábios e permitindo que as línguas se encontrassem. O beijo foi se tornando mais exigente, as respirações ofegantes.

Quando as mãos de Vivi voltaram a tocar Ana Cláudia de forma mais ousada, a morena a interrompeu, sussurrando no ouvido dela:

- Não quero que nossa primeira vez seja num banheiro... Não é nada romântico... Nem confortável, não é mesmo?

Vivi riu e concordou. Nitidamente adorando. Ana Cláudia completou com um sorriso absolutamente sedutor e enfeitiçante:

- Quero que seja especial... Como você...

Os lábios voltaram a encontrar os de Vivi, cheios de promessas. Depois, a morena abriu a porta, e saiu levando Vivi pela mão. Para fora do banheiro, da festa e da vida de Marcela.

 

 

Capítulo 26: Carma...

Não foi fácil para Vivi passar na frente daquele palco. Precisou de toda a concentração que tinha para manter os olhos fixos em Ana Cláudia, sorrir e ignorar os olhos negros que sabia que a acompanhavam. Podia sentir o calor deles queimando na pele, um ardor subindo pela espinha. Exatamente como Marcela tinha dito: uma droga. Um vício. Que só trazia infelicidade.

A última frase Vivi repetiu mentalmente várias vezes. Tentando inutilmente se convencer, porque... tinha a garota perfeita de mãos dadas com ela, mas continuava prisioneira dos olhos negros.

Respirou fundo, aumentou o sorriso. Olhou para Ana Cláudia como se fosse a única coisa que existisse no mundo. Determinada a arrancar Marcela de dentro dela.

 

Marcela estava no palco, no meio de uma música quando viu Vivi passando com Ana Cláudia.

O que mais doeu não foi elas estarem sorrindo, de mãos dadas, com uma intimidade de namoradas. Foi como as esmeraldas olhavam para a morena que a puxava: de forma absolutamente ardente, conquistada, encantada.

Os olhos continuaram seguindo as duas que se despediram das pessoas e foram embora juntas.

Fez um esforço incrível para não parar de cantar. As mãos resvalaram nas cordas da guitarra, erraram algumas notas. André a olhou, espantado.

Marcela tentou em vão se recompor. Mas o abismo que a invadia era incontrolável. Aproveitou o solo para deixar André tocando sozinho e cheirou um pouco de Special K. Não passou, mas deu uma aliviada. Pelo menos conseguiu continuar a tocar e cantar, ainda que totalmente no piloto automático.

Felizmente aquela era a última música. Enquanto os meninos desmontavam tudo, Marcela foi até a cozinha e pegou uma garrafa de Vodka. Voltou e anunciou que ia para casa.

Preocupadíssimo, André resolveu ir com ela. A muito custo convenceu a amiga que ele deveria dirigir o carro. Durante o percurso inteiro, Marcela foi bebendo no gargalo e chorando convulsivamente.

André ainda a tentou consolar, mas Marcela gritou, completamente agressiva:

- Me deixa em paz!

 

Vivi nunca tinha entrado num motel com uma mulher antes. Na verdade tinha ido com Edu algumas poucas vezes. Sempre ficava no banco do carona, sem falar nada. Mas naquele momento ela estava dirigindo, e ficou cara a cara com a mulher da recepção.

Ana Cláudia percebeu imediatamente que Vivi estava constrangida. E tomou o controle da situação. Vivi só precisou pegar a chave e o controle remoto que a recepcionista estendeu. Dirigiu o carro até a garagem privativa, muito sem graça.

A morena observou Vivi atentamente, com um sorriso divertido no rosto. A ruiva perguntou:

- Você me acha muito boba?

A resposta de Ana Cláudia foi muito diferente do que Vivi esperava:

- Acho você linda... Principalmente quando fica com vergonha...

E beijou Vivi de uma forma absolutamente ardente e apaixonada.

 

André se assustou com o estado em que Marcela estava. Quase teve que arrastar a amiga até o apartamento dela.

Não só os olhos, mas o rosto todo de Marcela estava inchado de tanto chorar. Continuava segurando a garrafa de vodka � agora quase vazia - nas mãos. A voz completamente enrolada, mal conseguindo dizer, porque o choro atrapalhava:

- Dé... que bom que vo... você... veio comigo...

Marcela tentou dar um passo e quase caiu. André a segurou, tirou a garrafa das mãos dela e a pegou no colo como se fosse uma criança. 

Ela deitou a cabeça no ombro dele, os braços agarrados em volta do pescoço de André, se sentindo protegida e amparada enquanto ele a levava para o quarto, e a colocava cuidadosamente na cama.

Soluçou copiosamente. André se deitou do lado dela e a abraçou.

Adorando o carinho com que as mãos dele a acariciavam nos cabelos, Marcela encostou o rosto no pescoço dele, os lábios roçando na pele sem querer. Sentiu André se arrepiar, e a apertar mais contra o corpo dele, com tanta força que Marcela gemeu. Fazendo André afrouxar um pouco o abraço.

Ela suspirou - ser abraçada por André sempre a fazia se sentir bem - e se aconchegou mais a ele. Foi quando aconteceu. Meio sem saber como. Começou de forma inocente. André esfregou o rosto no de Marcela, e ela correspondeu.

E então de repente, os rostos viraram de um jeito que as bocas se tocaram. De leve, o cantinho apenas. E disso passaram para um beijo. Leve, carinhoso, delicado no começo. E depois se transformando em algo bem mais sexual, passional, carnal. Pelo menos da parte dele.

Em princípio Marcela aceitou o beijo porque estava bêbada demais, fora de si demais, carente demais para não corresponder. Por pura doideira.

Entreabriu os lábios, deixou que a língua dele a invadisse e explorasse, sem nem cogitar que a cama desfeita era um cenário íntimo demais para ficarem apenas num beijo.

Mas então as mãos dele já estavam debaixo da camiseta dela, tocando os seios de Marcela, que... imediatamente reagiu, tentando se afastar.

André ignorou completamente a recusa dela. Certo de que poderia seduzir, conquistar, excitar, mudar a resposta de Marcela para sim. Deitou por cima dela, pressionando o corpo contra o dela, a beijando no pescoço, sussurrando:

- Te amo, Marcela... Há muito, muito tempo... Sempre te amei... Sempre sonhei em ter você nos meus braços desse jeito...

Todos os protestos e tentativas de resistir dela foram inúteis. Ele era muito mais forte, muito mais pesado que ela, e a dominou completamente. Rasgou a camiseta que Marcela usava e passou a lamber, chupar, beijar os seios dela com todo o desejo acumulado durante anos:

- Não agüento te ver com essas mulheres... Te usando, te fazendo sofrer... Ah, Marcela, quero tanto você... Você é a mulher da minha vida... Deixa eu te fazer feliz...

 

Vivi ficou espantada com a delicadeza de Ana Cláudia. A forma suave e sem pressa com que a morena a beijava. Com que a acariciava ainda completamente vestida, como se desejasse aproveitar, guardar cada momento que compartilhassem.

O corpo correspondeu a cada beijo, cada toque, cada carícia, com uma entrega que, depois de Marcela, julgava incapaz de sentir.

Explorou as curvas de Ana Cláudia com as mãos. Se deliciou ao perceber a forma deliciosa com que a morena se arrepiava quando Vivi a acariciava.

Foi Vivi quem tomou a iniciativa de finalmente começarem a se despir. Abaixou as alças do vestido dela, muito, mas muito devagar. No ritmo que Ana Cláudia parecia tanto gostar.

Sentiu Ana Cláudia estremecer quando afastou a parte de cima do biquíni dela e encostou a boca no seio que se ofereceu, cálido.

A morena desamarrou a parte de cima do biquíni de Vivi, a livrou da saia, e se pôs a passar as mãos lentamente pela pele de Vivi inteira, como se a quisesse decorar.

Ana Cláudia percorreu o pescoço de Vivi com a boca. Causando arrepios. Desceu os lábios pelo colo, até encontrar os seios. Passando a língua devagar, e só depois se permitindo mergulhar neles com voracidade.

Vivi deixou escapar um gemido. A respiração se tornando cada vez mais difícil... Enfiou os dedos nos cabelos de Ana Cláudia, e os puxou carinhosamente, pedindo mais.

 

Marcela não acreditava que aquilo pudesse estar acontecendo. Puxou os cabelos dele com força. Só conseguiu que ele parasse por um momento.

Quando André levantou o rosto bateu, socou, esmurrou, sem conseguir atingir nada além dos braços dele, que rechaçaram os golpes com uma facilidade que chegou a ser ridícula.

Ele segurou e prendeu os pulsos dela em cima da cabeça com uma das mãos apenas.

Marcela gemeu � não de prazer, como ele esperava, mas de dor - quando André mordeu o bico de um dos seios.

Não era propriamente uma dor física. Era uma dor moral, emocional � porque André era a única pessoa em quem Marcela tinha conseguido confiar desde pequena. Pediu chorando, gritando, com um profundo desespero:

- Não... Para... Me solta... Eu não quero... Não... Por favor...

Mas André parecia possuído. A mão livre dele abriu o jeans de Marcela, e escorregou por dentro da calça, tocando o sexo dela. Pra ele um ato de amor, prazer, desejo. Pra ela de abuso, desrespeito, violência.

O desespero de Marcela aumentou. Tentou espernear e chutar, mas as pernas estavam presas pelas dele.

André a acariciou e penetrou com os dedos. Marcela estava contraída, fechada, seca. Doeu, ardeu, machucou, ofendeu. Profundamente. Reacendendo a revolta que a fez voltar a lutar contra ele.

Gritou, xingou, se debateu... Sem resultado. Então voltou a pedir, implorar, suplicar, mas André não cedeu.

Arrancou o jeans dela e fez o mesmo com a calcinha. Abriu o zíper e abaixou a própria calça.

Quando a cueca dele desceu, para Marcela parecia estar tudo numa torturante câmera lenta. André abriu as pernas dela e se posicionou entre elas.

 

A morena e a ruiva voltaram a se beijar. As línguas se procuraram, se encontraram de forma absolutamente ardente. Ana Cláudia conduziu Vivi até a cama, sem interromper o beijo. Devagar, como se fosse em câmera lenta. Fez a ruiva se deitar. Beijou cada pedacinho de Vivi antes de finalmente a livrar da última peça de roupa.

Vivi ajudou, levantando os quadris, sentindo um arrepio na espinha quando a tanguinha do biquíni roçou nas coxas antes de sair, a deixando totalmente despida.

Ana Cláudia percorreu o corpo de Vivi com os olhos. Com uma expressão indescritível. Muito mais do que desejo, era... paixão, adoração e... amor.

Os olhos verdes cintilaram, mergulharam fundo nos dela, correspondendo, enquanto esperava a morena tirar a própria tanguinha e se deitar em cima dela.

As peles pareceram ferver, arder, quando se encostaram completamente nuas pela primeira vez.

As bocas se encontraram novamente. Os corpos se entregaram ao mesmo movimento. Os corações descompassados, as respirações alteradas, frementes, fugidias.

Quando a mão de Ana Cláudia desceu, e tocou Vivi entre as pernas, o fez de  forma absolutamente incrível. Fazendo a ruiva suspirar, gemer, se contorcer, perder completamente o controle, os pudores, toda e qualquer noção de espaço e tempo.

Vivi se libertou. Se entregou inteiramente, com uma felicidade surpresa a toda e cada sensação maravilhosa que Ana Cláudia proporcionava.

A morena se esfregava nela, deixando a coxa de Vivi toda molhada, sussurrando palavras excitantes no ouvido dela, aumentando o prazer da ruiva a um ponto quase insuportável, beirando o desespero.

Vivi estremeceu, e sentiu que Ana Cláudia a acompanhava, com gemidos deliciosamente ofegantes, abafados, trêmulos.

Gozaram juntas, ao mesmo tempo, agarradas uma na outra, num voluptuoso e incoerentemente turbilhão de prazer.

 

Marcela sentiu nojo, asco, revolta, enjôo, impotência, pavor, horror, medo, desespero... Tudo ao mesmo tempo... Apesar de inaceitável, não tinha como evitar o que estava para acontecer.

Começou a chorar baixinho. Um choro doído, fininho, como um animalzinho ferido. Exatamente como fazia quando era criança. E por incrível que pareça, foi isso que finalmente o comoveu.

André olhou para Marcela deitada debaixo dele. Apavorada, nua, chorando e tremendo, totalmente indefesa. Os olhos cheios de dor e medo.

Ele a amava. Realmente a amava. Se importava, se preocupava com ela. Estava acostumado a proteger, cuidar de Marcela desde que eram muito, mas muito pequenos mesmo.

Lembrava do exato momento em que tinha se apaixonado. Ela ainda tinha cachinhos dourados e usava chupeta. Tinha caído no chão, arranhando o joelho. E chorado, exatamente do mesmo jeito que agora estava fazendo.

Com 3 anos de idade, André tinha se aproximado de Marcela e beijado o joelho machucado, mudando a expressão dela imediatamente. De dor para um sorriso resplandecente.

Naquele momento, enfrentando um choro que ele mesmo tinha causado, ficou sem saber o que fazer.

Tinha perdido completamente a cabeça. Se deixado levar por anos de paixão, tesão e desejo. Reprimidos, frustrados, rejeitados. Mas nada, nada justificava aquilo. Nada mesmo.

Durante anos tinha esperado, sonhado, imaginado aquele momento. De ter Marcela nos braços entregue, correspondendo. Poder amar aquela mulher de uma forma que fizesse o prazer dela ser o dele. Mas tinha sido completamente diferente. Ele tinha forçado, dominado e obrigado Marcela... E não era assim que ele queria. Não era daquele jeito.

Saiu de cima dela. Vestiu as roupas novamente. Marcela virou de lado e se encolheu. Ficou ali deitada nua, em posição fetal, o corpo sacudido por soluços de um profundo sofrimento.

 

 

Capítulo 27: Extremos e Abismos...

O torpor em que Marcela se encontrava se dissipou no mesmo instante em que sentiu a mão de André a tocando no ombro. O corpo reagiu se encolhendo, rejeitando o simples contato completamente. Mais do que nojo, estava sentindo um horror total a ele. Entre os soluços que a dominavam, a frase foi uma súplica desesperada, quase histérica:

- Não me toca!...

André tirou a mão, tentou falar:

- Marcela, me desculpa... Eu não queria...

Mas então ela começou a gritar. Pra que ele fosse embora, saísse de perto dela. Com toda a raiva, ódio e revolta que estava sentindo. Se tivesse forças para se levantar, não sabia o que seria capaz de fazer contra ele.

Mas uma fraqueza insuportável a dominava. Apertou a cabeça com força, gritou novamente. Queria que ele sumisse, desaparecesse, não existisse.

Ainda hesitante, André obedeceu. Com o coração apertado. Saiu batendo a porta, mas ficou no corredor, preocupado. Morrendo de medo de deixar Marcela sozinha de verdade.

 

Vivi ficou algum tempo de olhos fechados. Se recompondo, para não deixar Ana Cláudia perceber o que tinha por dentro. Porque quando o momento de empolgação passou, foi substituído por um vazio imenso. E depois aquela dor � agora tão sua conhecida � que era a ausência de Marcela.

Ficou deitada debaixo da morena, achando que tinha feito uma besteira. 

Ana Cláudia era especial. Tinham se tornado, em tão pouco tempo, amigas de verdade. Num dos momentos mais difíceis da vida de Vivi, ela tinha se mantido firme, companheira, sempre do lado. Não queria perder a amizade dela. E principalmente, não queria magoá-la. Com o que tinha acabado de fazer, isso tinha se tornado inevitável.                                                                                                                                Gostava de Ana Cláudia. Também sentia atração por ela, é claro. Além de linda, sedutora, sensual, a morena tinha conseguido despertar em Vivi um desejo que ela julgava ser destinado exclusivamente à Marcela.

Sexo com ela tinha sido maravilhoso, delicioso, de um prazer extremo. Seria perfeito, se não fosse um pequeno detalhe: não estava apaixonada... por ela. Amava loucamente... Marcela. Contra a própria vontade, de forma absolutamente incontrolável.

Abriu os olhos lentamente. Ana Cláudia a estava observando com uma expressão muito séria. Tinha nos olhos uma nítida ansiedade. Que fez Vivi tentar dar um sorriso, sem muito resultado.      

Ana Cláudia saiu de cima dela, se deitou ao lado. Era evidente que estava sofrendo. Mas Vivi sabia que seria muito, mas muito pior mesmo se mentisse ou fingisse. Isso sim, seria indesculpável. Por pior que fosse, teriam que encarar a verdade.  

Ficaram um tempo em silêncio. E então Ana Cláudia disse:

- Por favor, só não diz que foi um erro, e que não devia ter acontecido. Isso eu não vou suportar.

Vivi se encheu de coragem. E foi sincera:

- Ana... Eu gostei... adorei cada momento. Você sabe porque... viu e sentiu. Mas...

O sorriso da morena foi triste. Ironicamente triste quando disse:

- Mas o momento passou e você tá arrependida.

Engraçado que quanto mais Vivi conhecia Ana Cláudia, mais a admirava. Ela era incrível. Seria a namorada perfeita, em todos os aspectos da palavra. Se pudesse escolher por quem se apaixonar, não pensaria duas vezes. Infelizmente, não era assim tão fácil.

- Não tô arrependida.

- Não? Faria outra vez?

Ana Cláudia perguntou de um jeito puramente impulsivo. E se arrependeu depois.

Vivi não reagiu de forma negativa. Ficou surpresa, achou bonitinho o jeito envergonhado com que a morena tapou a boca assim que falou. Respondeu com um sorriso tímido:

- Talvez...

O olhar que a morena lançou para Vivi, levantando uma das sobrancelhas, foi absolutamente incisivo, interrogativo, exigindo uma resposta mais definitiva. Vivi não agüentou:

- Ai, tá bom: faria sim!

Sem conseguir esconder a alegria, Ana Cláudia disse:

- Bom, já é um começo...

E começou a rir. Fazendo Vivi rir junto. Os olhos verdes irradiando carinho e ternura. A morena acariciou o rosto dela. Depois passou os dedos nos lábios de Vivi.

A ruiva estremeceu, sentindo as primeiras pontadas de desejo. Ana Cláudia percebeu, e sorriu, antes de colar os lábios nos dela.

Foi um beijo sedutor, envolvente, profundo. Sem nada daquela calma de antes. Vivi correspondeu inteiramente.

Ana Cláudia desceu a boca e as mãos pelo corpo dela, de uma forma absolutamente faminta. Percorreu cada pedaço, cada detalhe, cada caminho... Vivi suspirava, se contorcia, gemia.  Se deixando levar pela  correnteza de sensações que a arrastavam. Sem questionar, resistir, nem impedir. Se entregou às mãos, à boca, aos lábios, à língua da morena sinceramente despida de dúvidas e culpas.

Com a boca entre as pernas da ruiva, Ana Cláudia a tomou de uma forma segura, certa, de quem conhece, mostrando que no fundo, Vivi já era um pouco dela.

Depois, deitada novamente embaixo de Ana Cláudia, as duas cansadas e felizes, Vivi voltou a se questionar. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Não entendia mais nada. Nem os próprios sentimentos. Estava completamente atordoada, perdida. Entregue a reações, sensações, desejos instintivos... De uma forma que era... estranhamente boa. Quase um alívio.

Ana Cláudia a olhou, com um sorriso implicante no rosto:

- Cabecinha, cabecinha... Que foi agora?

Com uma careta, como se debochasse de si mesma, Vivi respondeu:

- Não sei o que pensar...

- Sabe o que eu acho? Que você pensa demais! Mas pode deixar... tô disposta a fazer isso mudar... 

E voltou a colar a boca na de Vivi, as mãos já acariciando o corpo dela inteiro, conseguindo realmente desmanchar - com uma facilidade assustadoramente derradeira - toda e qualquer forma de questionamento.

 

Assim que ouviu André bater a porta da rua, Marcela mergulhou num sentimento sufocante, angustiante - que explodiu fazendo com que ela gritasse de uma forma visceral, dilacerante, vinda de profundos e obscuros recantos.

Esmurrou o colchão, os travesseiros, até ficar exausta e os braços doerem e não agüentarem mais. Caiu de bruços na cama, ofegante, as lágrimas torturantes, incontroláveis, incessantes.

Apertando sem querer com o corpo o controle do CD player, ligando o som num volume tão alto que chegava a doer os ouvidos:

 

�Crawling in my skin (Rastejando dentro da minha pele)
These wounds they will not heal (Estas feridas, eles não curarão)
Fear is how I fall (Medo é o que me derruba)
Confusing what is real (Confundindo o que é real)
There�s something inside me that pulls beneath the surface,

(Há algo dentro de mim que me puxa abaixo da superfície)
Consuming / Confusing (Consumindo, confundindo)
This lack of self control I fear is never ending,

(Esta falta de auto-controle, tenho medo que nunca acabe)
Controlling / I can�t seem (Controlando / Parece que não consigo)
To find myself again (Me achar novamente)
My walls are closing in (Minhas paredes estão se fechando)
Without a sense of confidence and I�m convinced

(Sem um senso de confiança, estou convencido)
That there�s just too much pressure to take...�

(Que há pressão demais para eu aguentar)

A respiração de Marcela foi aos poucos voltando ao normal, mas ela não. Com a música que continuava berrando de fundo, cambaleou até o chuveiro. Entrou debaixo da água sem nem sentir o quanto estava fria. Esfregou o corpo inteiro com força, usando a esponja, depois as mãos, e finalmente as unhas. Sem conseguir se sentir limpa.

De uma forma perversa, quase masoquista, achava que era culpada, que merecia. Tomada por uma raiva incontrolável de si mesma, dos arranhões com as unhas passou a se bater. Nos corpo, no rosto. Com fúria.

Se esbofeteou várias vezes, cada vez com mais força, sentindo um prazer irracional na dor física, bem mais aceitável, controlável, confortavelmente conhecida. Conseguindo um quase alívio, que a fez alternar os soluços com uma espécie de riso histérico, patético, no limite.

Nem fechou a água quando saiu do chuveiro. Abriu as portas do armário debaixo da pia. Revirou, atirando tudo no chão, até encontrar a caixa de remédios que sabia que a mãe tinha deixado ali.

A música ecoava enquanto encontrava e pegava o que queria. Abriu a caixa, e tomou todos os comprimidos, pegando com as mãos em concha a água da bica. Depois voltou para o quarto e deitou na cama, ouvindo a música que repetia:

 

�Crawling in my skin (Rastejando dentro da minha pele)
These wounds they will not heal (Estas feridas, eles não curarão)
Fear is how I fall (Medo é o que me derruba)
Confusing, confusing what is real��
(Confundindo, confundindo o que é real)

There�s something inside me that pulls beneath the surface,

(Há algo dentro de mim que me puxa abaixo da superfície)
Consuming (Consumindo)

Confusing what is real�� (Confundindo o que é real)

This lack of self control I fear is never ending,

(Esta falta de auto-controle, tenho medo que nunca acabe)
Controlling (Controlando)

Confusing what is real�� (Confundindo o que é real)

(�Crawling� - Linkin Park)

 

Com um sorriso, Marcela ficou deitada, de olhos fechados, como quem faz um último pedido. Se entregando ao nada, desistindo do que para ela parecia um eterno e insuportável suplício, esperando a única saída aparentemente plausível: o definitivo e tão desejado não existir.

 

As três horas que passou com Ana Cláudia naquele motel tiveram para Vivi um efeito quase curativo.

Deixou a morena de cabelos ainda molhados em casa com um sorriso que refletia a felicidade que sentia. Como estavam em frente à portaria dela, e Ana Cláudia não era assumida para a família, a morena beijou Vivi no rosto, encostando os lábios disfarçadamente no cantinho da boca da ruiva. 

Vivi adorou. E foi absolutamente sincera quando disse:

- Me liga...

Ao que Ana Cláudia respondeu, os olhos com um brilho incrível:

- Nem precisava pedir...

Antes de entrar no prédio, a morena se virou, e mandou um último beijo - com um jeito doce, carinhoso, apaixonado, que Vivi achou lindo.

Voltou para casa sorrindo, o coração leve como há muito tempo não sentia.

 

A música terminou mais uma vez. Marcela já estava bastante grogue, mas ainda continuava acordada. Pegou o controle do som com dificuldade. Tentou voltar, repetir a música novamente.

Ao invés disso, apertou o botão errado. E um som completamente diferente invadiu o quarto: �The Scientist�(Coldplay).

Impossível ouvir aquilo e não pensar em Vivi. O coração acelerou, lembrando de milhares de momentos maravilhosos e felizes com ela, para ela, ao lado dela.

O amor que sentia pareceu iluminar a escuridão em que se encontrava. Como se no meio da areia movediça, encontrasse um ponto firme, seguro, onde se apoiar.

Percebeu que mais uma vez ia machucar, fazer a pessoa que mais amava sofrer. Recordava perfeitamente Vivi dizendo, parada na porta do quarto:

- Eu me importo. Realmente me importo com você.

Um desespero profundo tomou conta de Marcela, quando percebeu o que tinha feito, e se arrependeu.

As lágrimas escorreram, mas nada pôde fazer,  porque... até a angústia começou a ser tragada pelo nebuloso esquecimento que já tornava impossível qualquer tentativa de se mover. Como se fosse empurrada para dentro, numa embalagem lacrada, absolutamente inviolável.

Não conseguiu falar, mas uma última frase lhe veio à mente:

- Nam myoho rengue kyo... eu não quero morrer...

Ironicamente, a última impressão / sensação que teve foi... verde. Incrível, delicioso, amado verde...

Quem sabe uma lembrança fugidia, ou talvez uma simples visão pouco nítida da parede na frente dela...

Em ambos os casos, algo cada vez mais distante e distorcido. Enquanto Marcela apagava... E se juntava a um escuro, frio e profundo vazio.

 

André ficou na porta do apartamento de Marcela sem saber o que fazer. Ouviu ela gritando e depois a música altíssima.

Teve um estranho pressentimento. Apesar de não saber o que estava acontecendo lá dentro. E foi tomado por um súbito desespero.

Pegou o celular, ligou para a mãe de Marcela:

- Oi, tia... é o André...

Ela estranhou, claro. André continuou:

- Tô preocupado com a Marcela... ela tá trancada no apartamento... acho que  pode fazer alguma besteira... tia, é melhor vir correndo...

 

Quando a mãe de Marcela entrou no apartamento, com um André muito perturbado atrás dela, chamou Marcela, que não respondeu.

Até aí nada de estranho, mas... talvez influenciada pelo desespero de André, talvez por alguma espécie de sexto sentido materno, caminhou até o quarto dela quase correndo.

Marcela estava deitada na cama totalmente despida. De longe, poderia dizer que a filha estava dormindo. De perto, constatando o quanto ela estava gelada, parecia... quase sem vida.

Tentou acordar Marcela, a chamou, sacudiu, bateu no rosto dela e nada... Completamente imóvel, sem reagir.

Nesse meio tempo, André voltou do banheiro, com a caixa de comprimidos vazia que tinha encontrado na pia. E então se tornou evidente o que tinha acontecido, e que... qualquer segundo era imprescindível.

Enrolou Marcela no edredom, e com ajuda de André, a carregou até o carro. Dirigiu para o hospital mais próximo pisando fundo no acelerador, desesperada em ver os sinais vitais da filha ficarem cada vez mais fracos.

 

Pareceu uma eternidade o tempo em que André ficou na sala de espera, com a mãe de Marcela chorando sentada no sofá, e o pai de Marcela andando de um lado para o outro sem parar.

E então o médico finalmente veio. Com uma voz calma, tão calma que chegava a ser inexpressiva, explicou que ela estava fora de perigo, mas não sabiam quando ia acordar. Podia levar horas ou dias...

Nesse momento, uma senhora passou por André, e entregou um santinho para ele, dizendo:

- Toma meu filho... A melhor coisa é rezar...

A palavra rezar levou André a imediatamente pensar em Vivi. Era dela que Marcela precisava.

Ligou para Rafa. Contou rapidamente o que tinha acontecido, e explicou que Vivi precisava ficar sabendo. A esperança � única que tinha, na verdade � era de que a ruiva viesse assim que fosse avisada.

 

Vivi ia começar a jantar quando o telefone tocou. Pensando que era Ana Cláudia, levantou da mesa, dizendo:

- Deixa que eu atendo.

Atendeu com um sorriso, que manteve quando disse:

- Oi, Carlinha!

Alguma coisa diferente, talvez a qualidade do silêncio da filha, fez seu Francisco olhar para Vivi. Bem a tempo de ver o sorriso se transformar num  rápido e intenso fluxo de emoções: surpresa, choque, susto, medo, dor, sofrimento, desespero...

- Que foi, filha? Que aconteceu?

Quando acabou de dizer, já estava ao lado de Vivi. Dona Lúcia e Carol o imitaram com a mesma rapidez.

Vivi tirou o telefone do ouvido como se o ar fosse feito de água, e todos os movimentos flutuassem, lentos.

Olhou para os rostos preocupados que a rodeavam, os olhos verdes sem brilho, afogados pelas lágrimas que já escorriam. O lábio inferior tremeu quando disse, ainda sem conseguir acreditar:

- A Marcela... tomou uma caixa de comprimidos pra dormir... e tá inconsciente no hospital...



Capítulo 28: Decisão e Determinação...

A primeira pessoa que Vivi viu quando entrou no hospital - com Seu Francisco e Dona Lúcia ao lado dela - foi André.

Pediu que os pais esperassem, e foi direto até ele, o momento a fazendo deixar de lado todo e qualquer tipo de ressentimento:

- Como ela tá?

- Na mesma.

André estava estranho. De uma forma quase sombria. Vivi ignorou completamente:

- O que aconteceu? Por que ela fez isso?

André lançou um olhar maldoso para Vivi, antes de responder:

- Quem sabe? Talvez o seu showzinho com a morena?

As esmeraldas dardejaram. Ela nem titubeou:

- Não. Conheço a Marcela. Não foi isso.

Teve a impressão de que André estremeceu. Impossível saber porque, já que ele nem a olhava nos olhos...

André se afastou de Vivi e foi falar com o pai de Marcela. Fez um último pedido:

- Tio, por favor, qualquer novidade me liga...

- Claro, André... Pode ficar tranqüilo. E mais uma vez obrigado... Você salvou a vida da minha filha...

André aceitou o abraço muito constrangido. Depois se despediu, e sem voltar a falar com Vivi, saiu quase correndo dali.

 

Vivi acompanhou André com os olhos. Achando o comportamento dele muito estranho.

Dona Lúcia tocou no braço dela, a chamando. Seu Francisco já estava se apresentando para o pai de Marcela:

- O senhor é o pai da Marcela? Sei que essa não é a melhor circunstância, mas ainda assim, é um prazer. Sou o Francisco. Pai da Viviane.

- Prazer. Marcelo.

O pai de Marcela, doutor Marcelo Albuquerque de Moraes Terceiro, apertou a mão do ruivo extremamente simpático parado na frente dele. Apesar de não estar entendendo nada. Dona Lúcia e Vivi se aproximaram. Vivi olhou para os olhos negros tão parecidos com os de Marcela, e esclareceu:

- Nós nunca fomos apresentados. Prazer. Viviane.

E parou as explicações por aí. Não era preciso. O Dr. Marcelo olhou para a ruiva de um jeito que deixou claro que tinha entendido. E que não aprovava absolutamente aquela situação. Para ele Marcela beber, se drogar ou gostar de mulheres não fazia diferença - era tudo a mesma coisa: a forma absurddamente inaceitável que a filha tinha de afrontar a família.

Seu Francisco interrompeu o momento de silêncio � parecia até que alguém tinha morrido - que se fez:

- Seria possível a Vivi ver a Marcela?

Com um ar que não foi o mais satisfeito do mundo, o Dr. Marcelo acabou dizendo:

- Ela tá no quarto 301.

- Sozinha?

Não foi uma acusação, foi mais uma exclamação que escapou sem querer da boca de Vivi. E que deixou o Dr. Marcelo evidentemente ainda mais irritado:

- Com a mãe, óbvio. Sei que vocês provavelmente ouviram coisas horríveis, mas não somos os monstros que a Marcela pinta...

Vivi imediatamente se desculpou. Morrendo de vergonha. Não tinha tido a intenção de deixar o pai de Marcela ofendido. Seu Francisco voltou a interferir:

- A Vivi tá muito preocupada. Só isso.

Dona Lúcia apaziguou os ânimos definitivamente:

- Nós gostamos muito da sua filha. Um amor de menina.

Muito mais do que surpreso, o Dr. Marcelo ficou perplexo. Em se tratando de Marcela, não estava acostumado a ouvir elogios...

- É verdade. Ótima menina.

Completou Seu Francisco, deixando o Dr. Marcelo definitivamente atônito. Dona Lúcia e Vivi pediram licença, e se aproximaram do elevador. Quando finalmente entraram nele e a porta se fechou, seu Francisco, com seu jeito calmo e simpático de sempre, já tinha deixado o pai de Marcela à vontade e tranqüilo. Conversavam como se fossem velhos conhecidos.

 

Vivi e Dona Lúcia ficaram alguns minutos � que pareceram uma eternidade para Vivi � esperando a porta do quarto de Marcela se abrir depois que bateram nela.

A única vez em que Vivi a tinha visto � naquele dia constrangedor em que  estava nua na cama com Marcela � não tinha tido tempo de reparar como a mãe de Marcela era bonita. Alta, loira, elegantíssima. Ela ficou parada com a porta entreaberta, olhando para as duas, com o rosto inexpressivo. Parecendo muito abatida.

Dona Lúcia se apresentou, e apresentou a filha. Só então dona Heloísa - a mãe de Marcela � finalmente reconheceu Vivi.

A ruiva sustentou o olhar de Dona Heloísa um pouco envergonhada, mas com uma firmeza e dignidade invejáveis.

O que Vivi não sabia, era que além do incidente lamentável, Dona Heloísa sabia muito bem quem ela era, porque... tinha visto várias fotos de Vivi no laptop e no celular da filha � sem Marcela saber, é claro. E que a própria Marcela tinha confessado � depois da mãe insistir muito, porque detestava que os pais soubessem da vida dela � que estava namorando, com um brilho nos olhos que denunciava que estava apaixonada.

Dona Heloísa avaliou Vivi de cima a baixo. Não se tratava mais de aceitar ou não a homossexualidade da filha. Sete anos depois da revelação bombástica, isso já não se discutia, era fato consumado. Nem a preocupava mais.

O que a fazia ter medo, muito medo, era o fato de Marcela estar apaixonada. Porque desde que a filha tinha 15 anos, mostrava um talento natural � se é que se podia chamar assim - para escolher as pessoas mais erradas.

Mas aquela menina parecia diferente � em pé ali na frente dela, com a mãe do lado. Pelo menos dona Heloísa gostaria que fosse. Que finalmente, Marcela tivesse acertado.

- Será que nós podemos entrar?

A voz suave e gentil de Dona Lúcia trouxe dona Heloísa de volta à realidade.

- Ãh? Desculpem... Podem entrar, claro...

As três entraram no quarto. A luz estava apagada. Apenas um abajur na cabeceira da cama permitia que vissem Marcela deitada, parecendo ainda mais pálida do que normalmente era. Havia uma fragilidade assustadora, quase um desamparo, na figura dela.

Ver Marcela daquele jeito fez as lágrimas escorrerem pelo rosto de Vivi. Se aproximou da cama rapidamente. Pouco se importando com o que a mãe de Marcela ia pensar, acariciou os cabelos negros, jogando-os para trás. Depois passou as mãos no rosto dela, e segurou as mãos de Marcela entre as dela com suavidade.

Dona Lúcia fez com que dona Heloísa saísse com ela do quarto, de uma forma gentil, mas firme, impossível de ser contrariada.

Sozinha com Marcela, Vivi encostou o rosto no dela, chorando. Ela quase a tinha perdido. Pensar nisso fez Vivi abraçar Marcela com força. E suspirar... Há mais de um mês que não a tocava. Aspirou o cheiro dela, a beijou no rosto, depois nos lábios. Doce, carinhosa, cuidadosamente...

Então respirou fundo, enxugou as lágrimas e sussurrou no ouvido dela:

- Vou fazer daimoku no seu ouvido, Marcela... Porque te amo... E quero que você volte pra mim...

Começou a recitar:

- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo...

Perdeu a noção do tempo. Segurando com força as mãos dela, concentrou toda a energia que tinha, com uma determinação e uma convicção absolutas, decisivas.

Quando terminou, e voltou a olhar para Marcela, viu uma lágrima � uma única lágrima, mas a promessa de esperança contida nela era infinita - escorrendo no rosto dela. A beijou novamente, de uma forma suave, amorosa ao extremo.

Disse firme, sorrindo, sabendo que ela estava ouvindo:

- Quando eu voltar amanhã, meu amor, quero te ver acordada.

Voltou a passar a mão carinhosamente nos cabelos negros. Encostou os lábios nos de Marcela, como se a quisesse tocar com a alma.

Para quem via de fora, um momento como nos contos de fadas, onde o beijo de amor verdadeiro é capaz de fazer a princesa despertar.

Então levantou os olhos e levou um susto tremendo, porque... a mãe de Marcela estava parada em silêncio perto da porta, olhando para elas.

Não sabia há quanto tempo ela estava lá. Naquele momento, não importava.

- Eu só... vim avisar que o horário de visitas terminou...

Dona Heloísa falou, com uma voz muito cansada, sem desviar os olhos de Vivi.

A ruiva balançou a cabeça afirmativamente, lançou um último olhar para Marcela, soltou a mão dela lentamente � como se não a quisesse deixar � e se afastou da cama. Caminhou até a porta, as lágrimas escorrendo novamente.

Quando colocou a mão na maçaneta, a mãe de Marcela a segurou pelo braço. Vivi se virou, e por um momento as duas se olharam, entre as cortinas de lágrimas. Num entendimento pleno, sem palavras. Apenas a certeza do amor por Marcela que compartilhavam.

A única coisa que Vivi disse foi:

- Por favor, me avisa quando ela acordar...

Dona Heloísa percebeu que ela não tinha dito �se�, e sim �quando�. Passando uma segurança e certeza que a contaminaram. Exatamente o tipo de sentimento que, naquele momento, a mãe de Marcela precisava. Com uma voz muito doce, carinhosa mesmo, respondeu:

- Pode deixar. Sua mãe já me deu o telefone de vocês.

Vivi agradeceu. Depois, se virou e saiu. Deixando dona Heloísa com uma esperança que era... quase um alívio.

 

Assim que chegou em casa, Vivi falou para seu Francisco, Dona Lúcia e Carol:

- Vou fazer 10 horas de daimoku.

Dez horas de daimoku. Uma determinação muito difícil, principalmente para se fazer sozinha. Além disso, quanto mais pessoas fazendo juntas, mais forte é o daimoku. Exatamente por isso, os três responderam que iam acompanhar Vivi. Sem nem pestanejar.

Quando começaram eram dez horas da noite. Fizeram quatro horas direto, sem parar. De vez em quando um deles levantava, iam rapidamente ao banheiro, ou bebia água. Mas o daimoku continuava.

Depois de um pequeno intervalo, fizeram mais três horas. E então, outro intervalo.

Quando entraram nas três horas finais, Vivi nem olhava mais para o relógio. Já tinha atingido um estado que para quem nunca experimentou, é inexplicável...

Firmemente concentrada em seu objetivo: que Marcela acordasse. Visualizava Marcela abrindo os olhos, levantando da cama. Com a certeza inabalável de que isso aconteceria antes que as dez horas terminassem. Ou seja: a qualquer momento.

 

Marcela abriu os olhos lentamente. Sem saber onde estava. Aos poucos lembrando do que tinha acontecido como se fosse um sonho, ou algo vivido por outra pessoa, há muito tempo atrás.

Sentiu uma dorzinha na mão direita. Viu que tinha uma coisa espetada nela. Soro, na verdade.

Sentou na cama com dificuldade. Estava um pouco tonta, a cabeça doía, um ardor no estômago a incomodava. A primeira coisa que viu foi a mãe deitada no sofá. A voz saiu fraca, a garganta parecia arranhada quando chamou:

- Mãe?

Dona Heloísa levantou de um pulo. Praticamente correu para perto de Marcela. Abraçou a filha com força, as lágrimas escorrendo abundantemente enquanto repetia:

- Marcela... Minha filha...

Marcela se deixou apertar, beijar, tocar, acariciar, ainda completamente aturdida. Perguntou:

- Eu não morri?

Entre as lágrimas, dona Heloísa riu. E respondeu, com uma felicidade que dinheiro nenhum compraria:

- Não, filha... Você tá viva...

Marcela também riu. E na mesma hora pensou em Vivi.

A mãe já estava no telefone. Desligou e disse:

- Seu pai tá vindo.

Depois discou novamente. Marcela não acreditou quando ouviu:

- Lúcia? É a Heloísa. Isso mesmo, ela acabou de acordar. Deixa eu falar com a Viviane...

 

Ainda faltavam uma hora e meia para completarem as 10 horas de daimoku quando o telefone tocou.

Dona Lúcia atendeu imediatamente. Nem precisou dizer nada, Vivi já parecia saber quando estendeu o telefone dizendo:

- A Marcela acordou, filha.

 

Marcela ficou sentada na cama, ansiosa, prestando atenção em cada palavra que a mãe dizia:

- Ela tá ótima. Pode sim.

Dona Heloísa entregou o celular para a filha:

- A Viviane quer falar com você.

Com o coração acelerado, se esforçando para conseguir respirar direito, colocou o aparelho no ouvido. Podia escutar nitidamente o daimoku ao fundo. Sussurrou, como se fosse a resposta a todas as preces:

- Vivi...

Do outro lado da linha, Vivi fechou os olhos. Deixou escapar um suspiro de alívio. Ouvir a voz de Marcela, era... indescritível. As lágrimas escorreram sem que pudesse impedir:

- Marcela... como você tá?

Marcela também se emocionou. Sentia uma estranha sensação. Como se de alguma forma, Vivi a tivesse arrancado do vazio...

- Eu... tô bem... tô ótima... Na verdade, acho que nunca me senti assim... tão viva...

Ela fungou, enxugou os olhos, e depois riu. Um riso puramente feliz. Que fez Vivi rir também. Com uma felicidade impossível de se explicar. Muito maior do que simples palavras.

- Mais tarde eu passo aí. Quero puxar sua orelha pessoalmente.

Apesar da brincadeira, através da voz de Vivi, Marcela finalmente conseguiu sentir o peso do que tinha feito. Só conseguiu balbuciar, com a voz muito trêmula:

- Vivi... eu... me desculpa...

Ouviu Vivi deixar escapar outro suspiro. Muito diferente do primeiro. Reprovacão?  Decepção? Exasperação? Dessa vez não conseguiu compreender nem definir exatamente o significado... Nada de bom, isso ficou muito claro.

Vivi disse, com um tom de voz absurdamente sério:

- Só quero que você prometa uma coisa...

Marcela ia concordar, mas Vivi não deu chance. Completou direto:

- Nunca mais me assusta desse jeito.

Alguns minutos de silêncio foram necessários para que o pedido fosse entendido realmente. Com tudo que Vivi queria dizer nessa simples frase. Para que Marcela pudesse responder com total sinceridade. Um juramento feito não apenas para Vivi, mas para si mesma:

- Nunca mais. A partir de hoje vou mudar, Vivi. Prometo.

 

 

Capítulo 29: Obstáculos...

Marcela jurava que o pai ia entrar naquele quarto uma fera. E brigar, aos berros, com ela.

Mas não foi o que aconteceu. O dr. Marcelo entrou muito sério. Os olhos vermelhos, inchados, como se tivesse passado a noite...

�Chorando? Seria possível?� � não conseguia acreditar... � �No mínimo, acordado, preocupado... comigo?� � Marcela não teve como deixar de pensar.

Ele se aproximou da cama, com um sorriso. Ficou parado olhando para a filha, como se não soubesse bem o que fazer, ou precisasse tomar coragem. Dona Heloísa apertou a mão dele, numa evidente tentativa de incentivar.

Marcela continuou sentada, perplexa. Sorrindo de volta, muito sem graça. E então o dr. Marcelo se sentou na beira da cama, a puxou, e abraçou com força. Demonstrando incondicionalmente o quanto tinha ficado com medo de perdê-la.

A primeira reação de Marcela foi arregalar os olhos e ficar paralisada. E depois... foi deixar que as emoções fluíssem livremente. Abraçou o pai de volta. Os olhos se encheram de lágrimas.

O pai segurou o rosto de Marcela entre as mãos. A olhando como se quisesse se certificar de que a filha estava realmente cem por cento. Enxugou as lágrimas que escorriam no rosto dela com os dedos. E sem palavras � incrível para um advogado, mas era assim mesmo quando estava muito emocionado. E Marcela entendeu, porque... com ela acontecia o mesmo � depositou um beijo carinhoso na testa da filha antes de se levantar e dizer:

- Vou lá fora um instante...

Caminhou em direção a porta, disfarçando os olhos molhados. Colocou a mão na maçaneta e sem se virar, disse, como se de repente se lembrasse:

- Preciso avisar o André... ontem ele me pediu...

E antes que Marcela pudesse falar ou fazer qualquer coisa, saiu, fechando a porta atrás dele.

 

Assim que Vivi desligou o telefone, voltou para frente do gohonzon. Ainda faltava um pouco mais de uma hora para completar as 10 horas que tinha determinado.

Continuou, agora movida pela gratidão. Por Marcela estar novamente bem. E pela enorme felicidade que tinha no coração.

 

Nada do que a mãe contou acalmou o ódio que Marcela sentiu por André ter se passado por herói depois do que tinha feito com ela. Nem mesmo o fato de saber que ele tinha sido responsável por avisar Vivi.

Por Marcela, o que tinha acontecido naquele quarto ficaria entre eles. Porque a vergonha e o gosto amargo que a simples lembrança trazia era maior do que todo e qualquer sentimento de revolta ou vingança. Na verdade, adoraria enterrar, esquecer, mas... Foi obrigada a contar.

Aos poucos, falando baixo, com muita dificuldade. Fazendo pausas imensas para enxugar as lágrimas, conter os soluços e respirar. Com uma dona Heloísa que a cada palavra da filha ficava mais chocada, emocionada e revoltada.

Quando finalmente terminou, e a abraçou, Marcela percebeu que a mãe também estava chorando e tremendo. De pura raiva. Num tom de voz profundo, que nunca tinha ouvido ela usar, murmurou:

- Você sabe que podemos acabar com a vida dele. É só você dizer.

A frase não tinha nada a ver com matadores profissionais ou coisa do gênero... O dr. Marcelo era um dos melhores � quiçá o melhor � advogados criminalistas do país. Além disso, tinha dinheiro suficiente para mandar André para a cadeia por um bom tempo.

Naquele momento, Marcela tentou controlar inutilmente os inúmeros e terríveis sentimentos que pensar em André a fazia sentir. Raiva, pena, tristeza, dor, decepção, nostalgia, desprezo...

Balançou a cabeça negativamente, um sofrimento enorme na voz ao dizer:

- A única coisa que quero é nunca mais chegar perto dele.

A mãe assentiu com a cabeça. Depois respondeu:

- Tudo bem. Mas vou ter que contar pro seu pai.

Levando Marcela ao desespero:

- Não... Por favor... Não quero que ele fique sabendo...

- Filha...

Dona Heloísa segurou as mãos de Marcela entre as dela, querendo acalmá-la, mas não conseguiu:

- Ele vai dizer que a culpa é minha, tenho certeza...

Marcela voltou a chorar. Parecia assustada, com medo. Como uma criança que tivesse sido pega fazendo algo errado. Dona Heloísa a abraçou e embalou, até ela se acalmar novamente. Só então contestou:

- Você não conhece seu pai mesmo... Ele vai querer matar o André. Tenho até medo... Mas ele vai saber lidar com a situação... E manter o canalha bem longe de você. Confia em mim, filha...

Mesmo sem entender porque, Marcela acreditou na mãe. E concordou.

- Tá bem.

Uma decisão inédita. A primeira de muitas que ainda viriam a acontecer.

 

Quando a loira chegou no corredor, procurando o quarto 301, viu um homem muito bem vestido e totalmente descontrolado, berrando no celular:

- Miserável! Se chegar perto dela de novo eu acabo com você! Tá me ouvindo?

Uma loira elegantíssima tentava acalmar o indivíduo, sem muito resultado. Ele continuou xingando e ameaçando o pobre coitado que estava do outro lado.

Gisele passou direto pelo casal, sorrindo, como se achasse engraçado.

Bateu na porta, ouviu a voz de Marcela dizendo:

- Entra...

E deduziu que ela devia estar sozinha no quarto. Abriu a porta e entrou, esbanjando charme.

 

Marcela estava tensa, muito tensa, porque... podia ouvir os gritos do pai de dentro do quarto. Daquele jeito, o dr. Marcelo Albuquerque de Moraes Terceiro ia acabar sendo expulso do hospital...

Não conseguiu evitar o sorriso que se formou de forma involuntária... Nunca tinha se sentido tão protegida, amada, amparada. Como se finalmente, tivesse... uma sólida e segura base.

Foi quando bateram na porta. Pensou que fosse Vivi, por isso mandou que ela entrasse.

Sem conseguir acreditar, viu Gisele se aproximando da cama com um sorriso sedutor nos lábios. A cara de decepção que fez foi tão grande, que a loira alfinetou, irritada:

- Tava esperando outra pessoa? A ruivinha aguada, por acaso?

Na mesma hora, Marcela fechou a cara. Gisele continuou:

- Você some durante uma semana, não atende meus telefonemas, nem nada... Tive que ligar pro André pra saber onde diabos você estava.

- Será possível que você nunca vai me deixar em paz?

Marcela pensou alto, sem nem perceber que falava. A frase soou como um sincero desabafo. Mas a auto estima de Gisele era inacreditável:

- Até parece que você não gosta... Minha gatinha rebelde... Confessa que não vive sem mim... Que me adora... Fala...

Passou os braços ao redor do pescoço de Marcela, e colou os lábios nos dela. Com uma rapidez que a pegou de surpresa.

Marcela não teve como evitar, mas ficou imóvel, sem corresponder. Empurrando a loira até conseguir se soltar.

Gisele recuou, parecendo não entender. Marcela fez questão de explicar:

- Gisele, acabou. Não quero mais.

Mas a loira simplesmente não estava disposta a aceitar:

- Claro que quer. Deixa de ser babaca!

Sem desviar os olhos da mulher na frente dela, não conseguindo entender o que tinha visto na loira absurdamente vulgar, nem como podia ter feito a burrice de perder Vivi por causa dela, Marcela foi firme, categórica:

- Decidi me livrar de tudo que me faz mal.

Gisele soltou uma gargalhada. De deboche, ira, raiva... Antes de falar com total desprezo, como se Marcela fosse uma criança que não sabe de nada:

- Defina fazer mal, garotinha..

Marcela respondeu sem pestanejar:

- Tudo que me faz ter vontade de tomar uma caixa de comprimidos inteira.

A loira ficou perplexa. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas estava completamente sem palavras. Marcela continuou:

- Agora, por favor... Quero que você saia desse quarto, da minha vida e que não volte nunca mais!

Se Gisele pensou em responder, não teve oportunidade porque... os pais de Marcela entraram no quarto.

A loira nem se apresentou. Se desculpou, e alegando estar atrasada para um compromisso inadiável, foi embora se mordendo de raiva.

 

Vivi saiu do elevador � acompanhada por Carol e os pais � bem a tempo de ver Gisele saindo do quarto de Marcela.

E isso desmanchou como que num passe de mágica � ou de magia negra, seria melhor dizer � a felicidade em que se encontrava.

Na mesma hora, se viu transportada para a noite fatídica da boate. O estômago se contraiu automaticamente. Todo e qualquer desejo de voltar com Marcela desapareceu. Na verdade quase se odiou por ter cogitado a idéia de a perdoar.

Porque como sempre, Marcela falava, falava, mas não mudava. A prova estava ali, parada na frente de Vivi, com um sorriso superior de pura maldade ao dizer:

- Tem gente que não aprende, não é mesmo?

Obviamente, Vivi não respondeu. Se virou para caminhar até a porta do quarto, onde os pais e Carol estavam parados, esperando. Mas a loira a segurou pelo braço. E falou com um falso sorriso amigável, bem baixo, para que só a ruiva escutasse:

- Olha aqui, menina. Presta atenção no que eu vou te dizer: provavelmente a Marcela deve ter te contado mil mentiras... Aposto que prometeu que ia mudar... Que aquilo que aconteceu no banheiro daquela boate não ia mais se repetir... E você... ah, coitadinha... acreditou, claro. Mas como já deve ter percebido, a Marcela é minha. Já era quando você entrou na vida dela, e vai continuar sendo, muito depois de você ter desaparecido.

E dizendo isso, soltou Vivi e se afastou absolutamente vitoriosa e triunfante. Sabendo que tinha conseguido o que queria... pela profunda e imensa onda de dor que se alojou nos olhos verdes e os fez marejarem.

 

Vivi ficou parada no meio do corredor, afundada em mágoas. Dolorosas, terríveis, intermináveis. Levou as mãos ao rosto, e quando finalmente as tirou, já estava rodeada por Carol e pelos pais. Foi dona Lúcia quem verbalizou o que os três pensavam:

- Vivi... não sei o que você ouviu, mas... não pode acreditar sem falar com a Marcela antes, filha...

Vivi até concordava. Racionalmente, claro. Emocionalmente, o que Marcela tinha feito continuava indesculpável. Na verdade, era como ter uma ferida inflamada, não cicatrizada. Um leve sopro de maldade da loira tinha sido o bastante para que voltasse a sangrar.

Fazendo Vivi se lembrar de que era apenas humana, e que como todo mundo, ainda tinha muitas coisas para transformar.

- Ainda não consegui perdoar a Marcela... Ainda sinto muita raiva...

Tentou explicar. Dona Lúcia sorriu, e dessa vez foi seu Francisco quem interferiu:

- Filha, você já sabe o que eu vou falar: raiva é a mesma coisa que tomar veneno...

E Vivi completou a frase que já tinha ouvido milhares de vezes:

- ... E esperar que a outra pessoa morra... É, eu sei... sei de tudo isso... Mas... pra transformar as coisas a gente precisar querer, e... sinceramente... agora, nesse momento... não tô com a menor vontade...

E então foi a vez de Carol soltar:

- Vivi, a questão aqui é muito simples: nós vamos ou não vamos entrar nesse quarto?

Vivi olhou para a irmã mais velha, que tinha no rosto um sorriso muito calmo. E respondeu:

- Vamos, claro.

Foi só o que falou. Mas em pensamento, confessou para si mesma:

�Porque apesar de estar morrendo de vontade de encher a Marcela de tapas, tô louca pra olhar praqueles olhos negros...�

Então enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça e respirou fundo. Caminhou até a porta do quarto de Marcela, girou a maçaneta e entrou, seguida por Carol e os pais.

 

Marcela estava ansiosa. Não parava de perguntar as horas, nem de olhar para a porta. Foi quando finalmente, ela se abriu e... Vivi entrou.

E com ela seu Francisco, dona Lúcia e Carol. Dona Heloísa e o dr. Marcelo se levantaram do sofá, e houve toda uma confusão de palavras e cumprimentos alegres e amigáveis.

Marcela ficou sentada na cama, sem poder fazer nada além de olhar. Vivi foi a primeira a terminar de falar com todos e se aproximar. Ficou a alguns passos de Marcela, os olhos verdes olhando fundo nos dela.

Como sempre, os olhos negros mergulharam nas esmeraldas cintilantes com absoluta entrega.

Os pais de Vivi beijaram e abraçaram Marcela, e depois saíram do quarto, acompanhados por dona Heloísa e pelo dr. Marcelo.

Parada ao lado da irmã, achando graça nas duas que se olhavam quase como se estivessem hipnotizadas, Carol deu um alô, dizendo:

- Bom, vou deixar vocês conversarem...

E também se retirou.

Como se uma força incontrolável a puxasse, Vivi se sentou ao lado de Marcela na cama.

Sem que nenhuma das duas dissesse nada, com um movimento quase sincronizado, os rostos se aproximaram. Muito devagar. Os hálitos se misturando, os olhares se provando muito antes dos lábios.

Quando as bocas finalmente se tocaram, foi como entrar no olho de um furacão. Por alguns segundos um silêncio doce e suave, uma quase imobilidade, como se o mundo inteiro parasse de girar.

E então, o turbilhão intenso, as línguas, os lábios, as mãos que se buscavam, girando totalmente entregues à necessidade irresistível, incontrolável, inevitável. Que tornava impossível respirar ou fazer o coração bombear menos rápido.

Além dos limites da razão ou de qualquer noção que não fosse a dos sentidos e desejos que gritavam, exigindo serem saciados.

Quando Vivi se deu conta, estava sentada de pernas abertas em cima de Marcela, que já a acariciava por baixo da saia, os dedos driblando a calcinha com uma habilidade e agilidade surpreendentes. Afastou a mão de Marcela, ofegante:

- Não... Alguém pode entrar...

Marcela desgrudou a boca do pescoço dela, e sussurrou, a voz arquejante, rouca de desejo:

- Ai, Vivi... Tô morrendo de saudade... Deixa, vai...

Ainda contendo a mão de Marcela, que tentava de qualquer jeito se soltar para retornar ao contato íntimo, Vivi protestou:

- Marcela, para... Isso é loucura...

Comprovando o que a ruiva estava dizendo, Marcela abaixou uma das alças do vestido de Vivi, e acariciou o seio que desnudou com os lábios, arrancando arrepios e gemidos antes de responder:

- Você me enlouquece... Esqueceu?

A cena que veio na mente de Vivi, com a clareza de um filme, foi aquele momento na parede da boate, com Marcela dizendo:

- Tão gostosa... Dá pra mim, dá...

E foi isso que realmente a fez recuar. Se livrou das mãos de Marcela quase com desespero.

Levantou da cama, e se afastou, ajeitando a roupa. Se manteve de costas para ela, balançando a cabeça, como se afirmasse para si mesma:

- Chega de doideira... Não é isso que eu quero... Não é assim que eu quero... Não mesmo...

Então se virou de repente, os olhos faiscando irritadíssimos ao acusar os negros:

- Será que você não entende?

Marcela se arrependeu na mesma hora:

- Desculpa, Vivi... me desculpa...

Mas só conseguiu aumentar a raiva de Vivi:

- É só isso que você sabe fazer? Pedir desculpas? Não adianta pedir desculpas, se  você nunca se cansa de cometer os mesmos erros!

Os olhos negros se afogaram. As lágrimas escorreram livremente. Marcela só conseguiu balbuciar:

- Vivi, eu... eu...

Vivi olhou novamente para ela. Arrependida, porque... tinha sido dura demais, cruel demais. Tanto que tinha feito Marcela chorar...

O brilho verde se tornou amoroso, carinhoso ao extremo, quando a ruiva se aproximou, dizendo:

- Marcela... eu que peço desculpas... Tô errada... não tenho o direito... não posso... não devo... quem sou eu pra falar desse jeito com você?

Quando Vivi sentou novamente na cama, Marcela se abraçou a ela com alívio. Enfiou o rosto nos cabelos vermelhos, se deliciando com o cheiro dela... Ainda de olhos fechados, falou apaixonadamente:

- Você é a mulher que eu amo... Pode falar comigo como quiser...

Vivi suspirou. Com um misto de carinho e tristeza. Afastou o corpo, mergulhou o brilho verde nos negros, e com uma voz muito doce e meiga, retrucou:

- Não posso não. Se eu te aponto um dedo, três voltam pra mim...

Apontou com a mão, ilustrando com o gesto para que Marcela compreendesse. E continuou:

- Nós duas juntas... Não sei porque, mas... é o que sempre acaba acontecendo... acabamos sempre nos machucando, sofrendo... É por isso que acho que o melhor é ficarmos separadas...

- Não!

Marcela falou imediatamente, de uma forma veemente. Mas Vivi ignorou completamente a negação:

- Por um tempo... Pelo menos nesse momento...

Segurando as mãos de Vivi entre as dela, Marcela voltou a chorar. O coração parecendo rasgar dentro do peito. Não podendo, não tendo como aceitar:

- Vivi, eu te amo. Não quero ficar sem você. Nem por um momento.

As chamas verdes aumentaram. Alimentando a esperança dos olhos negros. Mas aos poucos foram se apagando, conforme as lágrimas escorriam das esmeraldas enquanto Vivi falava:

- Também amo você, Marcela... Só que o que você fez comigo naquele dia, é uma coisa que não consigo esquecer... nem perdoar... Você não sabe o que foi entrar naquele banheiro e ver...

Um soluço a impediu de continuar. Marcela a abraçou, como se quisesse que a dor que Vivi sentia passasse para ela. A ruiva repetiu, várias vezes, com uma voz absolutamente angustiada:

- Você não sabe...

Realmente, Marcela não sabia. A comparação mais próxima que tinha era a dor enorme que sentiu ao ver Vivi beijando Ana Cláudia. E a raiva sem limites quando pegou Caitlin a traindo. Nenhum dos dois casos, nem de longe, se comparava ao que Vivi tinha assistido... Por aí Marcela pôde começar a compreender o que ela devia estar sentindo...

Com uma angústia profunda, acariciou os cabelos de Vivi, a beijou no rosto, na cabeça... Não ousou pedir desculpas novamente. Ao invés disso sussurrou baixinho, com um sofrimento sincero:

- Se eu pudesse voltar no tempo... Queria muito não ter feito aquilo... Sei que a culpa é toda minha...

Vivi parou de soluçar. Sacudiu a cabeça discordando. Tinha tantas coisas para explicar... Queria deixar tudo bem claro para Marcela... Não sabia bem como, mas... precisava. Com o brilho verde ligado aos olhos negros, começou a tentar:

- Mas você fez... e é uma causa... pode ser mudada, mas já tem um efeito... Ficar com você pra mim seria... insuportável...

Incrivelmente, Marcela não disse uma palavra. Apenas ficou ouvindo, calada, porque... não tinha o que dizer. Não podia nem contestar. Vivi continuou:

- Não é uma questão de culpa, Marcela... Pro budismo não existe culpa, e nada acontece por acaso. Não é uma historinha maniqueísta, onde você é a vilã malvada e eu sou a vítima, a coitada... Se aconteceu é porque tava nas nossas vidas. Na sua e na minha... Porque em algum momento, nessa vida ou em vidas passadas, fizemos a causa pra que você fizesse isso comigo... Quero que você entenda bem isso.

Marcela a olhou absolutamente perplexa. Estava entendendo, só era inacreditável que depois de tudo, Vivi ainda estivesse preocupada em esclarecer as coisas, com toda aquela calma... Quase como se fosse uma aula:

- Não consigo mais acreditar nem confiar em você... E é terrível isso... Porque são sentimentos, pensamentos que me fazem sofrer, que me fazem mal... Sei que preciso superar... e transformar. É o que eu quero e pretendo, mas... Nesse momento, ainda não consigo.

Para Marcela ficou claro, e ela até entendia... com a mente. Mas o coração se recusava. Insistia em lutar:

- Vivi, eu posso... eu... vou ser diferente, você vai ver... vou parar de beber, de me drogar... vou mudar, prometo pra você...

Vivi colocou as mãos no rosto, um pouco exasperada. Era muito difícil dialogar com Marcela, porque ela era... Abusivamente insistente, persistente, passional... Coisas que Vivi adorava, e que a faziam querer voltar a colar os lábios nos dela. Com um esforço incrível, sufocou todos os desejos e vontades.

Sabendo perfeitamente que se um dia ainda quisessem ficar juntas, seria necessário que as duas mudassem. Todas as loucuras e brigas, todos os incidentes e desastres, não tinham acontecido única e exclusivamente por conta de Marcela. Vivi também era responsável. A cortou delicadamente:

- Marcela, nisso tudo que você tá dizendo... sabe o que tá errado?

Vivi sorriu quando Marcela respondeu sacudindo a cabeça negativamente, com um olharzinho perdido adorável. E prosseguiu:

- Não é por mim nem pra mim que você precisa mudar. É por você. Pra você mesma. Só vai acontecer quando você decidir e quiser de verdade.

Vivi ia se levantar, mas Marcela a impediu, a segurando � com uma delicadeza surpreendente � pelo braço. Mergulhou os olhos negros � dois mares profundos, cheios de promessas sinceras, apaixonadas � nas esmeraldas que inconscientemente, cintilaram. Vivi se arrepiou com a forma como Marcela disse, num tom de voz  baixo, como se determinasse:

- Pode demorar o tempo que for, Vivi, mas vou ser muito feliz... com você do meu lado.

Desceu a boca sobre a de Vivi, de uma forma totalmente ardente, exigente, voraz. E Vivi não resistiu. Pelo contrário. Correspondeu com a mesma derradeira e profunda intensidade.

Marcela acariciou as costas de Vivi. A puxou carinhosamente, colando o corpo no dela. Vivi suspirou, com aquele jeitinho doce, entregue, quase ronronado, que sempre fazia Marcela perder a cabeça. Depois escorregou a mão pelo pescoço dela, enfiando os dedos nos cabelos negros, a segurando pela nuca.

As línguas se devoravam, se saboreavam, numa dança faminta, abafando os gemidos que surgiam quase sem querer. O beijo se aprofundou, e ficar só naquilo começou a se tornar impossível, impensável, insuportável.

Fazendo Vivi encostar as mãos nos ombros de Marcela, e delicadamente, usando de toda força de vontade que tinha, a empurrar para longe.

Marcela não reagiu, nem insistiu. Se afastou, como pedia o gesto dela, separando os lábios dos de Vivi com um desejo insatisfeito,  sufocado.

Ficaram frente a frente, muito próximas, as respirações voltando ao normal enquanto os olhos ainda se acariciavam.

Vivi passou a mão no rosto de Marcela, numa carícia leve, suave. Depois a abraçou com força, o rosto colado no dela, os olhos fechados, o corpo tremendo. Sussurrou com um tom de voz que era... pura tristeza:

- Eu sinto muito... Muito mesmo...

Depois, de uma forma súbita, urgente, de repente, se afastou e levantou. Saiu do quarto sem olhar para trás, quase correndo. Sem que Marcela nada pudesse dizer ou fazer.

 

 

Capítulo 30: Tornar-se um Lago...

Vivi saiu com os olhos vermelhos e inchados de dentro do quarto. Era evidente que tinha chorado. Mas ninguém comentou nem perguntou nada.

Ficou conversando com dona Heloísa e dr. Marcelo enquanto dona Lúcia, seu Francisco e Carol se despediam de Marcela.

Marcela beijou os pais de Vivi. Agradeceu sinceramente a preocupação e carinho deles. Carol ficou observando atentamente. Quando finalmente se aproximou, ficando frente a frente com os olhos de Marcela - que estavam idênticos aos de Vivi, absolutamente nublados - entregou um papel dobrado para ela, dizendo:

- Acho que você vai gostar. Lê e depois me diz. Vou anotar todos os meus contatos aqui. Não deixa de me ligar, Marcela.

- Tá...

Mas como Marcela não parecia muito convencida, insistiu:

- Deixa eu te falar uma coisa: faz daimoku todos os dias durante um mês. Se não mudar nada na sua vida, pode bater com um pedaço de pau na minha cabeça. Eu permito.

Marcela não teve como deixar de rir:

- O que? Como assim?

Carol deu um sorriso muito parecido com o de Vivi:

- Sabe pra quantas pessoas eu já disse isso? Um monte... E sabe quantas vezes apanhei? Nenhuma... Tá esperando o que então?

Novamente, Marcela riu. E respondeu:

- Tudo bem. Você me convenceu.

Carol abriu um enorme sorriso. E falou, com uma voz absolutamente animada, antes de sair do quarto:

- Maravilha! Te vejo 3ª então.

 

Sentada no banco de trás do carro, com uma Vivi estranhamente triste do lado, Carol foi obrigada a interferir:

- Não tô agüentando te ver assim, Vivi. Acho que você tá precisando disso. Lê e me diz...

E entregou um papel para Vivi. O mesmo que tinha dado para Marcela. Vivi enxugou as lágrimas, abriu e leu:

 

�ONDE VOCÊ COLOCA O SAL?
O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o MMestre.
- Ruim. - disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago.
Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água.

Enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! - disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? - perrguntou o Mestre.
- Não... - disse o jovem.
O Mestre então, sentou ao lado do jovem, e disse:
- A dor na vida de uma pessoa nãoo muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta. É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Em outras palavras: É deixar de ser copo para tornar-se um lago.�

 

Vivi apenas sorriu. No mesmo instante em que Marcela, sentada na cama com o papel aberto nas mãos, também sorria, ao terminar de ler a mensagem.

 

Para Vivi, os dias se passaram com uma rapidez impressionante. Como se o tempo estivesse, de alguma forma, acelerado.

Mergulhou de cabeça no budismo, no estágio, na faculdade. Começou a estudar espanhol na Casa de Espanha e...teve coragem de se arriscar num curso de Dança Flamenca no mesmo local. Surpreendentemente, o joelho não reclamou. Pelo contrário. Dançar de novo se tornou para Vivi um imenso e maravilhoso desabafo, quase uma catarse.

Com tantas atividades, o que sobrava livre mesmo eram as noites de 6as e os finais de semana - quando não tinha reunião budista ou festas de família. Isso ajudava para que o relacionamento com Ana Cláudia  se mantivesse superficial, quase descompromissado. A morena parecia satisfeita com os encontros de final de semana, e nunca reclamava nem cobrava nada.

Carol nunca falava com Vivi sobre Marcela. Mas às vezes escutava os pais e Carol comentando, elogiando, felizes com a transformação dela.

Quem fazia questão de manter Vivi informada era Carlinha, que estava encantada depois de Rafa � influenciado por Marcela � ter parado de usar drogas também. Marcela tinha até conseguido a proeza � há anos Vivi insistia sem resultado � de fazer Carlinha ir com ela e Rafa nas reuniões.

Inacreditável? Para Vivi, nem tanto. Escutava sem se surpreender muito. Conhecia Marcela, enxergava o potencial dela sem nenhum esforço. A primeira vez que tinha olhado dentro dos olhos negros, na xerox, já tinha visto... a essência plena, maravilhosa e profunda... Isso era fato.

Vivi não estava plenamente feliz, mas infeliz também não estava. E se esforçava para avançar e se dedicar a tudo como se não existisse aquela outra coisa. Que continuava colada no corpo dela, na pele, nos lábios. E se manifestava em arrepios, mãos geladas e tremores sufocados sempre que inevitavelmente encontrava Marcela na faculdade.

Porque ouvir falarem dela era uma coisa, mas... olhar para Marcela... era uma outra história.

Cada vez que passava por ela � agora sempre usando roupas sociais que a deixavam... linda, tão linda... absurdamente maravilhosa e sensual � fazia um esforço gigantesco para se controlar, porque a vontade insana que tinha era tocá-la,  beijá-la, mergulhar novamente nos olhos negros turbulentos, sem nada de calmos...

Felizmente não passava disso porque... apesar de ler nos olhos negros o mesmo tipo de desejo e necessidade, Marcela também evitava cruzar com ela e... nunca se aproximava.

 

Para Marcela, foram dias tristes, mas... muito bem aproveitados. O tempo parecia cheio, preenchido, quase corrido. Como se ao invés de dois meses, dois anos tivessem se passado.

Na primeira semana depois que saiu do hospital, ficou na casa dos pais. No antigo quarto, que a mãe tinha mantido exatamente como Marcela tinha deixado. E incrivelmente, foram dias muito agradáveis. Tanto que várias vezes, deitada de noite em sua antiga cama � que antes tanto detestava - com a luz apagada, ficou na dúvvida se queria mesmo sair de lá.

Acabou voltando para o apartamento no Leblon, mas... passou a jantar na casa dos pais duas vezes por semana - no mínimo. E almoçava com a mãe todos os dias na cidade antes de ir para o estágio.

Essa intimidade tardia com a família, recheada de surpresas inimagináveis, evitou que ela se sentisse sozinha. E deu ainda mais força para as dificuldades que estava enfrentando.

Para total e absoluta surpresa dos pais � que nunca tinham conseguido convencer Marcela a ir num psicólogo - começou a fazer análise.  Sugestão daquela que tinha se tornado sua melhor amiga, e em quem confiava de verdade: Carol.

- Daimoku e análise juntos, amiga... é a combinação ideal.

Carol tinha comentado, com o jeito dedicado e firme de sempre. E isso tinha bastado para Marcela, que no momento, estava plenamente consciente de que precisava de toda ajuda possível e necessária, porque...  parar de usar drogas e beber apenas socialmente não era nada fácil...

A primeira coisa que fez foi jogar fora todas as drogas que tinha em casa. Ainda não podia garantir que não usaria se estivessem  à mão...

Sempre que a vontade de se drogar aparecia, fazia daimoku e lia o trecho do poema �Brasil seja Monarca do Mundo!� de Daisaku Ikeda, que tinha ganhado de dona Lúcia, e levava sempre na carteira:

 

�Não faz mal que seja pouco,

O que importa é que o avanço de hoje

Seja maior que o de ontem

Que nossos passos de amanhã

Sejam mais largos que os de hoje

Atuem agora e vivam o presente

Com a certeza de que neste exato instante

Está se erguendo o futuro

Deixem seus méritos gravados

Na história de suas contínuas vitórias!

A dificuldade no momento presente

Será a glória em seu futuro!�

 

Não falhava um dia: gongyo da manhã e da noite, e uma hora de daimoku no mínimo. Estudava todo e qualquer texto sobre budismo que lhe caísse nas mãos.

- Fé, prática e estudo.

Carol tinha dito, antes de completar:

- É como um carro. A fé são as rodas. Sem a prática, que é o motor, o carro não anda. E sem o estudo, que é o volante, o carro fica sem direção.

Carol era assim, cheia de histórias, exemplos, comparações... Que faziam Marcela entender com uma facilidade surpreendente todas as mudanças que estavam acontecendo em tão pouco tempo. Como se de repente, visse e sentisse as coisas de uma forma totalmente diferente.

Sabendo que o mais importante era a mudança de postura, no começo se policiava. Coisa bastante difícil, porque para Marcela, pensar negativo, reclamar e culpar sempre os outros por tudo o que acontecia eram hábitos... Mas, pouco a pouco, quase sem sentir - como se a mente e o coração limpassem � as pequenas coisas negativas que tanto a atrapalhavam foram se tornando mais e mais raras.

Claro que isso não queria dizer ausência de sofrimento, dificuldades e obstáculos. Só que quando esses apareciam, parecia mais fáceis de superar.

Todos menos um: a falta de Vivi. Essa era como um buraco, um vácuo, que não conseguia nem queria superar.

Quando a angústia realmente apertava, ligava para Carol. E Carol sempre a ajudava. Fazendo daimoku com ela, indo na casa de Marcela, dando textos maravilhosos, a chamando para todas as reuniões, e para o chope depois. A incentivando e apoiando sempre.

E a chamando para ir na casa dela, mas... Marcela só ia quando tinha certeza de que Vivi não estaria lá. Porque não agüentava o que lia nos olhos verdes quando se encontravam... um misto de desespero e tristeza intermináveis, quase como se sentisse acuada, ameaçada... Por isso, apesar de desejar a presença de Vivi mais do que tudo, preferia se manter afastada.

 

Vivi insistiu muito, mas muito mesmo para que Ana Cláudia fosse com ela na reunião. Era sábado à tarde, e tinham acabado de sair da praia.

- Ai, não, Vivi... Vou tomar um chopinho com as meninas... Porque você não vem também? Depois podemos ir pra outro lugar, ficar mais à vontade, que tal?

Segurou Vivi pelo braço, a beijando no rosto, encostando a boca no cantinho dos lábios dela sugestivamente. Vivi até ficou tentada. Mas faltar a reunião era algo impensável.

Acabou tomando um chopinho e, depois de um beijo rápido - quase roubado - nos lábios da mmorena, provocou, sussurrando no ouvido dela:

- Quero te ver � ver não é bem a palavra... quero... ah, você sabe... mais tarde...

Ana Cláudia riu, e concordou com um sorrisinho malicioso, safado. Vivi piscou para ela e... correu para casa.

 

Marcela estava na sala 2 do Kaikan de Botafogo, sentada ao lado de Carol, ajudando a anotar o comparecimento da reunião.

No começo, Carol sempre criava oportunidades para que Marcela a ajudasse em todas as atividades. Até chegar na fase atual, onde a própria Marcela se oferecia, com a maior felicidade. Afinal de contas, se sentir útil, participar, fazer parte, eram coisas inéditas para Marcela, e por isso mesmo, muito desejadas. Ela adorava.

A reunião ainda não tinha começado. Estavam rindo de alguma coisa, com Daniel � um rapaz da comunidade delas � em pé na frente delas, quando Vivi entrou na sala.

O riso morreu na garganta de Marcela. Ficou paralisada. Não esperava que Vivi viesse, porque... eram de comunidades diferentes. A própria Vivi a tinha pedido para mudar.

O que Marcela não sabia - e Carol também não tinha falado � é que aquela era uma reunião de Distrito, ou seja, das duas comunidades.

Vivi, por outro lado, até sabia que Marcela deveria estar. Só não esperava que fosse ali, logo na porta � com uma camiseta verde musgo que realçava a pele branca maravilhosa - a lista de presença entre elas, obrigando Vivi a se aproximar.

Chegou perto da mesa com um sorriso sem graça. Deu dois beijinhos em Daniel, cumprimentou as duas, e ficou em pé na frente delas, esperando para assinar a folha de papel que estava na mão de Marcela.

Os olhos negros piscaram, como se quisessem sair da hipnose que os verdes causavam, e Marcela finalmente compreendeu por que Vivi estava ali parada. Gaguejou:

- Assina aqui...

Foi colocar a folha na mesa, ao mesmo tempo em que Vivi tentava pegar, e então, o nervosismo das duas fez - sem querer - que as mãos se encostassem.

Marcela sentiu todos os pelinhos do corpo se arrepiarem, como se uma corrente elétrica a tivesse atravessado. Vivi sentiu o mesmo, e... tirou a mão rápida e bruscamente, como se o contato fosse algo indesejável.

A rejeição causou uma dorzinha em Marcela, que a fez entregar a caneta para a ruiva segurando bem na pontinha. E Vivi também teve o cuidado de segurar na outra extremidade, porque... se se tocassem de novo, não ia suportar.

Assinou correndo. A letra saiu trêmula, irreconhecível quase. Marcela percebeu, mas não fez nenhum comentário.

Sem olhar novamente para os olhos negros, Vivi deixou a caneta na mesa e se sentou na frente, na primeira fileira, o mais distante possível.

Fizeram daimoku, gongyo, e a reunião transcorreu perfeitamente. Apesar de Vivi não conseguir prestar atenção nas pessoas que falavam. Concentrada para não ceder à vontade quase irresistível que sentia de se virar e buscar os olhos de Marcela, que � tinha certeza � a observavam. Sem saber direito como,  conseguiu se manter virada para frente.

E então, o Shikai (apresentador) da reunião anunciou a parte cultural. E Vivi se assustou porque ele chamou... Marcela.

Ironicamente, a cadeira em que Marcela se sentou estava exatamente - na frente de - e de frente para � Vivii, é claro...

Ela se sentou, com o violão apoiado na coxa, e cantou, com a voz incontestavelmente linda que Vivi amava:

 

�Quem espera que a vida

Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco

Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado

Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver�

 

Então, e só então, Vivi conseguiu controlar a sensação que a voz de Marcela sempre causava � como se fosse uma carícia íntima, suave � e olhou para ela. E foi pior, porque... Os olhos negros estavam fixos em Vivi, e arderam, brilharam, se iluminaram em contato com os verdes:

 

�Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver, saber viver!�

(�É Preciso saber Viver� � Titãs � Roberto Carlos)

 

Todos aplaudiram. Menos Vivi, que continuou ofuscada, mergulhada nos dois oceanos negros profundos, que tanto a perturbavam.

Marcela agradeceu, desviando os olhos por um momento. Depois presenteou Vivi com um sorriso lindo, límpido, meigo, antes de se levantar e voltar para o fundo da sala.

Daimoku Sansho e... Vivi ficou conversando, falando com as pessoas enquanto descia as escadas.

Quando chegou no primeiro andar, viu Marcela com o case do violão pendurado nas costas, conversando numa rodinha, ao lado de Carol.

Ia passar direto, mas a irmã se colocou na frente dela, puxando Marcela pelo braço:

- Vivi, a Marcela tem uma coisa importante pra te falar...

 

 

Capítulo 31: Inevitável...

Vivi arregalou os olhos, absolutamente surpresa. E fitou Marcela, um pouco tensa, é verdade, mas... o cintilar verde foi inevitável.
Marcela sorriu, bastante sem graça. Passou as mãos nos cabelos, hesitou um pouco, e depois falou, passando o peso do corpo de uma perna para a outra, inquieta de puro nervoso:
- Vou receber meu gohonzon na 2ª feeira, e... bom, sou sua chakubuku e queria... adoraria se você estivesse na consagração...
Normalmente, é de praxe o apresentador (pessoa que apresentou a outra ao budismo) estar presente na concessão de gohonzon do chakubuku. Que é uma cerimônia importantíssima. Quando a pessoa decide realmente se converter ao budismo. Como se fosse um segundo aniversário.
O convite de Marcela era irrecusável. Mas Vivi estava com medo, porque o simples fato de estar na frente dela já a desestruturava completamente. Por isso, e só por isso deixou escapar:
- Eu tenho aula...
Os olhos negros ficaram absolutamente tristes. E Carol a fuzilou com o olhar. Vivi imediatamente consertou:
- Mas posso faltar. Não vou perdeer por nada... Parabéns, Marcela! É maravilhoso! Fico muito feliz. Muito mesmo, de verdade.
Estava sendo sincera. O brilho intenso das esmeraldas comprovava. Fazendo Marcela voltar a sorrir, encantada.
Carol interrompeu a ardente troca de olhares, trazendo as duas de volta à realidade:
- O pessoal vai tomar um chopinho na Cobbal. Vamos?
Vivi recusou, um pouco sem jeito:
- Não posso... Tenho outra coisa marcada.
Marcela pôde ler perfeitamente nas entrelinhas: Ana Cláudia.
Apesar das duas serem super discretas na faculdade, e de Carol nunca, jamais comentar nada sobre a irmã, Marcela era muito amiga de Rafa. E através de Carlinha, Rafa sabia tudo sobre Vivi e Ana Cláudia.
Depois de Marcela muito insistir, ele tinha contado que as duas não estavam namorando oficialmente, mas... tinham, desde o dia do churrasco � e isso tinha doído profundamente em Marcela - um relacionamento aberto, porém ... total e inquestionavelmente estável.
Vivi percebeu, assim que o sorriso morreu nos lábios de Marcela, que tinha falado demais. Bastante chateada, porque não tinha a intenção de causar sofrimento em Marcela, se despediu. E só pegou o celular para ligar para a morena quando chegou na rua, a uma distância segura e razoável.

A 2ª feira começou com uma chuva grossa, persistente, interminável. Que presenciou a primeira discussão entre Vivi e Ana Cláudia.
Tinham acabado de sair do escritório, debaixo de um único guarda-chuva, aproveitando para andarem abraçadinhas, quando Vivi comentou � como quem não quer nada, mas não se sentiria confortável se não falasse � que estava indo à concessão de gohonzon de Marcela.
Ana Cláudia nem tentou disfarçar. Deixou claro o estado de ciúme � e Vivi não teve como deixar de pensar: �meu Carma...� - em que estava:
- Você não pode matar aula pra sair comigo, mas pra encontrar a Marcela pode...
Vivi tinha decidido que nunca mais ia aturar aquele tipo de atitude. Nem por isso deixou de ser educada:
- Acho que você não entendeeu. É uma cerimônia budista. Importantíssima, aliás. E você pode vir comigo se quiser.
- Não, obrigada.
A morena abriu o próprio guarda-chuva, que até então estava segurando fechado, e foi embora em direção ao ponto de ônibus, sem se despedir nem nada. Talvez esperando que Vivi fosse atrás.
Ao invés disso, a ruiva suspirou, deu meia volta, e caminhou até a entrada do metrô com passos rápidos.

- Marcela, você tá fazendo daimoku pro celular?
Carol não teve como deixar de soltar, quando pegou Marcela olhando as horas pela bilionésima vez no aparelho. E continuou:
- Fica tranqüila, a Vivi já chegou. Tá comigo lá atrás.
Piscou para Marcela de forma cúmplice. Sorrindo, antes de completar:
- Vim aqui só pra te avisar.
> Marcela fez uma careta para ela, guardou o celular, se virou para frente, e voltou a recitar:
- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho renggue kyo... Nam myoho rengue kyo...
Mas logo em seguida, sentiu no ombro um toque leve, suave, inconfundível. Virou surpresa, quase sem acreditar. Os olhos verdes cintilaram. Incendiando os negros.
A forma como Marcela a olhou, fez Vivi esquecer o que queria falar. Ficou alguns segundos parada, os olhos presos nos dela, enfeitiçada.
Então piscou, e com um sorriso um pouco envergonhado, disse:
- Eu queria te dar esse fukusa...
A expressão de Marcela mostrou claramente que ela não estava entendendo nada, por isso Vivi explicou:
- É um lenço, pra voc&ecirrc; receber o gohonzon. Faz parte da cerimônia, você não pode pegar o gohonzon com a mão... Isso a Carol já te explicou, né?
Marcela sorriu, balançando a cabeça afirmativamente:
- Já... É que ainda fico ttonta com esses nomes em japonês...
Com um sorriso divertido, Vivi continuou:
- Esse fukusa veio do Japão... Meeu pai trouxe pra mim... E eu quero que seja seu.
Os olhos negros imediatamente se encheram de lágrimas. As esmeraldas também estavam emocionadas. Vivi estendeu o fukusa, cuidadosamente dobrado e guardado num plástico. Marcela o recebeu e... as mãos se tocaram por um momento.
Só que dessa vez, Vivi não fugiu do contato. Deixou que ele terminasse com a mesma naturalidade com que começou. Aceitou e aproveitou as milhares de sensações que o simples encostar de peles proporcionava.
Ficaram se olhando durante alguns momentos. Então foi anunciado que o gongyo ia começar. Vivi voltou para o lugar dela, no fundo da sala, ao lado de Carol.
Seu Francisco e dona Lúcia tentavam ajudar dona Heloísa e o dr. Marcelo a acompanharem a oração. Vivi não teve como deixar de sorrir, achando graça. E ficou feliz também ao ver Carlinha e Rafa, na frente deles, lendo as palavras em sânscrito sem a menor dificuldade. Mas a maior felicidade, sem dúvida, era a mudança de postura da ex-namorada.
O Gongyo acabou, e a cerimônia começou. De onde estava podia ver Marcela, muito séria e concentrada.
Marcela estava ansiosa, claro. Prestou atenção em cada palavra pronunciada. Concordou com o juramento feito, e então chegou o momento que tanto esperava.
Levantou quando chamaram o nome dela, com o fukusa aberto nas duas mãos. Recebeu com um sorriso imenso a caixinha branca - onde o gohonzon estava enrolado - ouvindo os aplausos, gritos e assobioss de todos que estavam na sala. Respondeu o cumprimento � no estilo oriental, se curvando � que o senhor fez para ela, voltou para a cadeira em que estava sentada, e envolveu o gohonzon com o fukusa � como Carol tinha ensinado - enquanto outras pessoas eram chamadas. Com o coração batendo forte, e uma imensa felicidade.
Lágrimas emocionadas escorreram pelo rosto de Vivi. Quando Marcela recebeu o gohonzon não se conteve: gritou e aplaudiu efusivamente. Carol a olhou, e a abraçou:
- Parabéns, irmãzinha... SSua Chakubuku... Você é a responsável.
Vivi sorriu, e lembrou do que Carlinha tinha dito meses atrás:
- É igual em �O Pequeno Príe;ncipe: tu és eternamente responsável por aquele que cativas�. No caso de vocês, por aquela que cativas, não é mesmo?
Na época, a apresentando ao budismo, Vivi tinha esboçado o vínculo que Marcela agora concretizava recebendo o gohonzon. Uma ligação cármica indestrutível, inquestionável. Para sempre gravada em suas vidas. Inevitável...

Marcela não poderia estar mais emocionada. Rodeada pelas pessoas que mais amava, no apartamento dela, ajudando Carol a consagrar o gohonzon (cerimônia em que se desenrola o pergaminho, o colocando dentro do butsudan = oratório).
Vivi se manteve ao lado dela o tempo inteiro. Porque o momento transcendia todo e qualquer tipo de desentendimento, mágoa ou rompimento.
Quando fizeram o daimoku sansho, e Marcela �sempre orientada por Carol � fechou o butsudan, foi abraçada e beijada por todos.
Vivi foi a última a se aproximar. Quando o fez, e finalmente a abraçou, Marcela correspondeu, com o mesmo carinho, paixão e amor. Ficaram alguns segundos naquele abraço apertado, antes de Vivi beijar o rosto dela, dizendo:
- Marcela, eu tô muito feliz... Dee verdade.
- Também tô muito feliz. Poorque você tá aqui comigo...
E beijou Vivi no rosto. De um jeito que fez a pele da ruiva queimar, arder inteira. Se afastaram lentamente, se olhando profundamente nos olhos. Os verdes se incendiando da forma que sempre fazia os negros corresponderem de imediato.
Então dona Heloísa deu para cada uma um copo de vinho, e as chamou, para se juntarem aos outros, que já estavam em volta da mesa de frios.

A conversa fluiu animada, mas como era 2ª feira, durou pouco. Carol, dona Lúcia e seu Francisco, seguidos de alguns outros membros da comunidade budista, foram os primeiros a sair.
Vivi resolveu ficar e voltar com Carlinha e Rafa. Dominada por um desejo incontrolável de continuar ao lado de Marcela.
Sentadas no sofá, conversando com dona Heloísa e o dr. Marcelo, as duas estavam numa felicidade tímida, mas inegável.
Os pais de Marcela também anunciaram que iam embora. Se despediram de Vivi, com beijos carinhosos, e depois puxaram Marcela para um canto. A mãe a encheu de beijos. Tantos que Marcela até ficou com vergonha. O pai a abraçou com força, e disse:
- Tô muito orgulhoso de você;, filha.
Deixando Marcela absolutamente perplexa.
Sentada no sofá, com a taça na mão, Vivi observava, com um sorriso no rosto. Inebriada, embriagada, mas não pelo vinho...
Marcela levou os pais até a porta, se despediu com mais beijos e abraços, e voltou a se sentar ao lado de Vivi.
Carlinha e Rafa apareceram, vindos do corredor, com as roupas e os cabelos em desalinho. Os quatro ficaram conversando, falando bobagens, rindo. De vez em quando a mão de Marcela pousava na coxa de Vivi. O arrepio que as percorria, e as milhares de lembranças que o contato ocasionava era... Deliciosamente inevitável...
Vivi se levantou, foi ao banheiro, e antes de voltar para a sala, viu a luz do quarto de Marcela acesa. Ia apagar, mas não resistiu: entrou e olhou em volta, com um sorriso triste e nostálgico. As recordações chegaram e a atravessaram como uma cachoeira que deságua. E ela ficou ali, até o momento passar, e as emoções sossegarem.
Quando se virou, Marcela estava parada na porta, olhando para ela de uma forma absolutamente apaixonada.
Lentamente, Marcela se aproximou, os olhos negros causando em Vivi uma onda de calor quase insuportável. Prevendo a impossibilidade de escapar se não reagisse, Vivi desviou os olhos. E se espantou ao ver a pilha de apostilas com matérias de 2º grau ao lado do laptop. Perguntou com uma curiosidade verdadeira:
- Você tá estudando isso? Marcela já estava muito perto, próxima demais. Apenas assentiu com a cabeça, prisioneira das esmeraldas que a cegavam. Vivi insistiu:
- Por que?
Inconscientemente, Marcela umedeceu os lábios. Sem desviar os olhos do brilho verde, respondeu:
- Vou fazer vestibular.
As mãos de Marcela pousaram na cintura de Vivi com suavidade. A ruiva estremeceu, e falou com dificuldade:
- Pra qual faculdade?
Os olhos de Marcela desceram, pararam nos lábios de Vivi, onde se fixaram, hipnotizados:
- Música. Na Uni-Rio. Finalmente resolvi correr atrás do que eu quero de verdade.
Os milhares de significados daquela frase as atravessaram intensamente. Os lábios se aproximaram. Vivi fechou os olhos, desejando, antecipando o beijo...
Nesse momento, Carlinha e Rafa apareceram na porta, dizendo:
- A gente tá indo, Vivi. A Marcella te leva.
Foi Marcela quem respondeu, mais do que rápida:
- Pode deixar.
Vivi nem pôde protestar, porque... os dois se despediram e saíram do quarto. Antes de bater a porta da rua, Rafa ainda gritou:
- Isso é pra inspirar vocêss!
Ouviram os primeiros acordes de uma música vindo da sala. �Here Without You�(Three Doors Down).
Os olhos voltaram a se encontrar, em perfeita sintonia. Os de Marcela inquietos, intensos, dois tornados negros � os de Vivi entregues, ardentes chamas verdes, despidas de todo e qualquer tipo de defesa.
Os lábios se encontraram. Meses de saudade, vontade e desejo extravasando de repente. Finalmente aceitando e se entregando ao inevitável...
As línguas se procurando, absolutamente viscerais, a necessidade de se fundirem se tornando absurdamente vital.
As mãos de Vivi subiram pelas costas de Marcela, a apertando contra ela, até se enterrarem nos cabelos pretos.
Marcela gemeu contra a boca de Vivi. E a puxou mais para si.
Ofegante, como se quisesse engolir Marcela inteira, Vivi aprofundou o beijo. A empurrou em direção à cama, e fez Marcela se deitar. Percorreu o corpo dela com as esmeraldas incandescentes.
E então mergulhou as mãos, a boca, o corpo e a alma em Marcela. Vorazmente, quase sufocando de tanto desejo, exatamente como da primeira vez...

 

Capítulo 32: Novos Desvios...

Marcela correspondeu, absolutamente surpresa. Não que Vivi nunca tivesse sido tão intensa. Ao contrário. O fogo verde das esmeraldas continuava o mesmo. Mas Marcela percebeu nitidamente uma sutil diferença na postura da ruiva. Mais segura, com maior iniciativa, sabendo melhor o que fazer. Resultado da experiência com outra � ou outras, Marcela não sabia ao certo � mulher.
Afastou todo e qualquer tipo de ciúme ou neura. A única coisa que importava era ter Vivi nos braços novamente, inteira, como Marcela tinha sonhado durante todos aqueles meses.
No começo Vivi estranhou a passividade de Marcela. Ela parecia... contida, quase tímida... Então, finalmente, começou a corresponder cada beijo, cada carícia, cada toque. Com o ardor apaixonado de sempre, quase um desespero.
A boca de Vivi desceu pelo pescoço de Marcela, causando arrepios. Arrancou a camiseta dela com urgência, e desceu sobre a pele alva acendendo, queimando, se deliciando com os gemidos que provocava.
Marcela segurou os cabelos vermelhos, puxando Vivi para cima, colando os lábios novamente, as mãos por baixo da blusa da ruiva, acariciando os seios que se ofereciam.
Vivi suspirou, arquejou, gemeu, e quase rasgou a própria blusa quando a tirou. As mãos de Vivi desceram, desabotoaram a calça de Marcela, se enfiaram por dentro dela, cheias de desejo.
Arrancando mais gemidos, abafados pelas línguas que não se desgrudavam. Habilmente, Marcela abriu e tirou o sutiã de Vivi. Fez o mesmo com a calça. A ruiva a ajudou, e por um breve momento, ficou ajoelhada, inteiramente nua na frente dela. Os olhos negros percorreram o corpo de Vivi com saudade, um turbilhão de emoções fluindo incontroláveis.
Depois de despir as roupas de Marcela com pressa, Vivi se deitou em cima dela. As peles pareceram derreter, diluir, se confundir, queimar uma contra a outra enquanto se beijavam. A ruiva escorregou as pernas entre as de Marcela, de um jeito excitante, possessivo, quase dominador.
Quando os sexos se encostaram, as duas ofegaram, estremeceram, gemeram, e respirar se tornou muito difícil.
Ardente, sedutora, enlouquecedora, era a forma que Vivi se movia em cima de Marcela, que a apertava com força - nas nádegas, nas costas, na nuca - fazendo Vivi gemer alto, aumentar a intensidade dos movimentos e quase morrer de tanto prazer.
As bocas se separaram, e Marcela provou os seios de Vivi com a boca. Primeiro um, depois o outro. Lambendo, sugando, chupando com vontade.
Sem conseguir mais se conter, tomada por uma paixão urgente, ardente, há meses sufocada, Vivi se entregou totalmente ao ritmo das respirações e pulsações, que cada vez mais se aceleravam.
Ao sentir Vivi quase gozando, Marcela a puxou, para que os corpos se juntassem por inteiro.
Os rostos colados, as bocas sussurrando palavras desconexas, gemendo, o corpo da ruiva se tencionando em cima dela, fizeram Marcela estremecer. Aumentando o prazer de Vivi quando sentiu que iam gozar juntas.
Os olhos se encontraram, causando um efeito eletrizante. Os negros explodindo, totalmente rendidos à ebulição dos sentidos, mais ainda ao verem os verdes também em erupção.
Por um breve segundo, porque então, a boca de Vivi já estava colada na de Marcela, exigente, faminta, sedenta em capturar o último gemido dela.
Aos poucos, o beijo foi se tornando mais suave, carinhoso, mas nem por isso menos ardente.
Vivi relaxou o corpo sobre o de Marcela. Respiração e pulsação alteradas, plenamente feliz e satisfeita.
Marcela abraçou a ruiva com força. A beijou no rosto, depois na boca, rolou e trocou de posição com ela.
Passeou os lábios pelo pescoço de Vivi, despertando em ambas um novo incêndio. Desceu pelo colo, parou para saborear os seios. Com uma pressa e urgência inegáveis, continuou percorrendo o caminho até chegar onde desejava. Abriu as pernas da ruiva, e mergulhou a boca e os dedos entre elas com vontade.
Vivi estremeceu... não de prazer, como Marcela esperava. Mas porque... aquilo a fez lembrar a cena de Marcela com Gisele no banheiro... De uma forma cruel, incontrolável.
Empurrou Marcela para longe dela, virou de lado e se encolheu. Se sentindo uma idiota completa, morrendo de vergonha, mas não conseguindo conter a repulsa que a invadiu. Lenta e dolorosamente, as lágrimas começaram a escorrer.
Marcela demorou apenas alguns segundos para compreender. Não foi difícil, porque... o sofrimento de Vivi era evidente.
O primeiro e único desejo que teve foi a tirar daquele estado. Se deitou atrás de Vivi, colando o corpo no dela, e a abraçou, protetora e carinhosamente.
Vivi se aconchegou, aceitando o contato completamente. Marcela a beijou no rosto, acariciou os cabelos dela, e sussurrou no ouvido da ruiva:
- Vivi... Eu amo você.
No meio de todas as lágrimas, mágoas, dores e ressentimentos, as palavras de Marcela abriram caminho no rosto de Vivi para que um leve, quase imperceptível sorriso aparecesse.
A ruiva se virou, ficou de frente para ela, e se abraçou a Marcela com força, o rosto enfiado no pescoço dela. Chorando dolorosamente. Por amar tanto Marcela, e não conseguir ficar com ela... Absolutamente impotente, sem escolha por causa da confusão, contradição que sentia...
Mergulhou na onda de desespero profundo, se deixou afundar mesmo, completamente. Aceitando, provando, reconhecendo o sofrimento que a puxava, envolvia, abraçava, para então se livrar dele, voltando à tona.
Marcela estreitou Vivi nos braços, até que os soluços parassem de sacudi-la. Ficou quietinha esperando, o coração despedaçado, desesperado, tentando aparentar uma calma que não tinha.
Vivi suspirou profundamente. Enxugou os olhos devagar, ainda sem saber o que fazer. Depois olhou Marcela fundo nos olhos, tentando expressar sem palavras aquilo que não conseguia dizer.
Os olhos negros empalideceram, se tornaram cinzas... Com uma voz fraca, quase sumida, Marcela disse:
- Você nunca vai esquecer?
Era uma pergunta dita de uma forma que a própria resposta já estava implícita.
Com uma dor que parecia querer rasgá-la por dentro, Vivi ficou olhando as lágrimas escorrerem pelo rosto de Marcela sem nada poder fazer.
Levantou da cama, e juntou as roupas que tinham sido tiradas com um sentimento exatamente oposto ao que carregava naquele momento.
Voltou a chorar, enquanto se vestia dolorosamente. Quando terminou, viu que Marcela já estava vestida também.
Se aproximou, enxugou o rosto de Marcela com os dedos, mas novas lágrimas o banharam novamente. Murmurou baixinho, numa tentativa de brincadeira absolutamente triste e sem jeito:
- Parece que agora quem sempre pede descculpas sou eu...
Marcela deu um sorriso abatido, cercado de lágrimas, antes de dizer:
- Vamos. Vou levar você.
De nada adiantou Vivi tentar dizer que não precisava. Marcela simplesmente não aceitou:
- Vou te levar e ponto. Não t&aaccute; aberto a discussões.
De um jeito que Vivi achou fofo, uma graça. Aproveitou o sorriso da ruiva para perguntar, tentando quebrar um pouco o gelo:
- Moto ou carro?
Totalmente pega de surpresa, Vivi só conseguiu dizer:
- Ãh?
- Como você quer ir?
Vivi respondeu sem hesitar, quase imediatamente:
- Moto.
Tinha escolhido moto porque era mais rápido, e não precisavam conversar � foi o que Marcela pensou.
E ficou sem saber que o verdadeiro motivo da escolha de Vivi era a necessidade incontrolável que sentia de abraçar e colar o corpo no de Marcela pela última vez.

Quando a moto parou na frente do prédio de Vivi, a ruiva desceu, apoiando as mãos nos ombros de Marcela, aproveitando aquele último contato com ela.
Não trocaram uma palavra enquanto Vivi tirava e prendia o capacete na parte de trás do assento.
Marcela também tirou o capacete, desejando olhar para as chamas verdes sem que nada atrapalhasse. Queria dizer algo, mas não sabia nem tinha o que dizer.
As esmeraldas mergulharam nos olhos negros, revelando o mesmo tormento.
Vivi não agüentou: num impulso irresistível, imprevisível, se pendurou no pescoço dela, abraçando Marcela com força.
Marcela correspondeu, se agarrando a ela como um náufrago a um pedaço de madeira. Enfiou o rosto nos cabelos vermelhos, colou a boca no pescoço dela de uma forma absolutamente ardente.
Um erro, porque... Na mesma hora Vivi se soltou e se afastou, dizendo:
- Não, Marcela... Chega... Precissamos parar de nos magoar desse jeito...
E sem dar chance para que Marcela respondesse, se virou e entrou na portaria quase correndo.

Marcela não tinha mais drogas em casa, nem com ela. Foi a sorte. Se tivesse usaria. Porque a vontade que teve de se livrar da dor latente, crescente, efervescente - que subia ardendo pelo estômago,, até deixar um gosto amargo na boca � foi imensa.
Passou no primeiro posto e comprou uma caixa de cerveja. Voltou para casa com a intenção de se embriagar, beber até se anestesiar, fugir, esquecer... qualquer coisa, menos o que estava sentindo naquele momento.
Mas quando abriu a porta e deu de cara com o oratório na sala, mudou de idéia completamente.
Se sentou em frente ao gohonzon e leu o papel que tinha recebido de Carol:

�É preciso saber lidar com a vida e suas dificuldades. Nossa existência neste mundo é como um mar tempestuoso. Devemos nos lançar a ele, mesmo sendo açoitados por todos os tipos de experiências. Não há outra maneira, pois isso faz parte de nosso inevitável destino como seres humanos(...)
Desafie as circunstâncias adversas do presente para vencer no futuro. Praticar o budismo consiste em encarar a dura realidade da vida e mudá-la para melhor. É na disposição de lutar para vencer que existe o brilho da prática da fé".
(Daisaku Ikeda)

Começou a fazer um daimoku vibrante. Decidida a mudar completamente aquela situação.

Vivi chegou em casa transtornada. Pelos sentimentos contraditórios que sentia, por ter feito amor com Marcela de uma forma totalmente entregue, maravilhosa, apaixonada, e depois... aquilo...
A amava, era louca por ela. Mas não conseguia esquecer o que tinha acontecido, nem perdoar Marcela. Naquele momento, só podia fazer uma coisa por elas: abriu o oratório, sentou em frente ao gohonzon, e começou a recitar:
- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho renggue kyo... Nam myoho rengue kyo...

Nas duas semanas seguintes, a presença de Marcela na faculdade se tornou insuportável para Vivi. Evitava passar por ela, ficar onde ela estava... Marcela parecia sentir o mesmo, porque... também fugia de todo e qualquer tipo de contato.
Para piorar a situação, Ana Cláudia deu um gelo total na ruiva. Mal a cumprimentava quando se encontravam entre as aulas ou no estágio.
O efeito disso foi que pela primeira vez Vivi percebeu que sentia falta dela.
Quando a segunda 6ª feira chegou, não agüentou. Foi atrás da morena no ponto de ônibus, e disse:
- Vamos conversar, Ana?
A morena abriu um sorriso lindo, e respondeu:
- Pensei que nunca fosse pedir...
Se sentaram no Amarelinho, na mesma mesa que tinham sentado daquela primeira vez. Por sugestão de Ana Cláudia, que adorava coisas assim.
A morena ergueu o chope, propondo um brinde. Vivi bateu a tulipa na dela, e bebeu quase a metade de um gole só.
Ana Cláudia riu, antes de implicar:
- Ei... Calma... Você tem algum mootivo pra querer ficar bêbada?
Vivi colocou a tulipa na mesa, suspirou e respondeu:
- Tô um pouco nervosa. Só iisso.
- Nervosa? Comigo? - disse nitidamente ssatisfeita e feliz.
- Eu... Senti falta de você. � connfessou Vivi.
A expressão de Ana Cláudia foi de total e absoluto prazer. Demorou alguns segundos antes de responder, de forma absurdamente sedutora:
- Morri de saudade de você.
A diferença de intensidade e significado das frases fez Vivi beber o resto do chope sem nem perceber. Sentiu um alívio enorme por ter pedido outro quando a morena continuou:
- Só que não quero continuuar do jeito que estava. Sei que te disse que nunca ia te cobrar nada, mas... Vivi, eu quero que você seja minha namorada.
Vivi abaixou os olhos, bastante perturbada:
- Eu... não sei o que dizer.
Ana Cláudia segurou o queixo da ruiva, e a fez erguer os olhos até encontrarem os dela, intensamente doces e meigos:
- Diz que sim.
E como Vivi não respondeu, prosseguiu:
- Confia em mim: você não vvai se arrepender.
Vivi sustentou o olhar dela de uma forma franca, verdadeira:
- Talvez eu não me arrependa, mass você...
A resposta da morena foi de uma firmeza incrível:
- Não precisa se preocupar... Seii muito bem onde tô me metendo.
Mas Vivi não podia deixar que nenhum tipo de mentira ou omissão entre elas:
- Meus sentimentos não mudaram, AAna. Eu... continuo apaixonada por ela...
Nem precisava dizer por quem. A morena a cortou gentilmente:
- Eu sei.
Mas Vivi precisava contar tudo:
- Eu e ela... nós... transamos....
- Também sei.
Ana Cláudia continuou com os olhos fixos nos verdes. Que piscaram, surpresos.
- Como você... como ficou sabendo??
- Conheço você.
Vivi ficou completamente sem jeito. Mas Ana Cláudia pegou e beijou a mão dela carinhosamente.
Ficaram de mãos dadas, a morena acariciando os dedos da ruiva com os dela. Olhando fundo nos olhos verdes, quando insistiu:
- E então? Vai namorar comigo? Naquele momento, pareceu natural para Vivi responder:
- Sim.

Marcela aproveitou para se concentrar no estudo e no budismo. Se empenhou nas reuniões e mergulhou com afinco nos livros. O resultado foi visível: passou na primeira fase do vestibular com notas altíssimas.
Estava um pouco tensa ao atravessar o caminho de pedras do Centro de Letras e Artes da Uni-Rio na Urca. Nem olhou em volta. Caminhou direta e rapidamente para o prédio onde ficava a Faculdade de Música: no fundo, atrás do de Teatro. Encontrou onde a prova de habilidade específica estava sendo realizada com facilidade. Quando perguntaram o curso, para saberem em que sala seria avaliada, respondeu:
- Canto.
Despertando a atenção de uma garota que estava sentada no chão. Marcela passou os olhos nela, que coincidentemente, estava em frente à sala que o funcionário tinha indicado, claramente esperando para ser chamada.
Toda de preto, cheia de piercings � na sobrancelha, debaixo da boca, vários na orelha... Marcela podia apostar que ela também tinha um na língua... Uma tatuagem grande, de flores tribais muito coloridas no braço. Cabelos curtinhos, castanhos, desarrumados com gel para dar um efeito completamente bagunçado e arrepiado. Evidentemente lésbica. Dava para saber só de olhar.
A garota também avaliou Marcela de cima a baixo. E depois falou, numa clara tentativa de puxar papo:
- Odeio te dizer isso, mas... Somos conccorrentes, sabe?
Marcela sentiu pela tal garota uma simpatia imediata. Sentou no chão, perto dela, respondendo:
- Tudo bem. São duas vagas...
> A garota riu. E estendeu a mão, dizendo:
- Aline.
Marcela apertou a mão dela sorrindo, com entusiasmo. E se apresentou também:
- Marcela.
E começaram uma conversa interminável. Que só foi interrompida quando Aline foi chamada para dentro da sala. Deixando Marcela com uma estranha impressão de que já se conheciam há muito tempo. De uma vida passada...

Aline estava esperando Marcela quando ela saiu de dentro da sala. Trocaram algumas impressões sobre a prova de solfejo. Ambas tinham achado o mesmo: fácil. Continuaram conversando animadamente enquanto atravessavam o pátio:
- Não sei como deve ser na faculddade de direito... Posso imaginar... Mas aqui você é apenas uma esquisita a mais...
A vida inteira Marcela tinha se sentido... diferente e estranha era pouco... Total e absurdamente �outsider�... Aquela que nunca se encaixava. Por isso se espantou:
- Sou?
Com um riso divertido, Aline respondeu:
- Olha em volta, lindinha...
Um casal gay abraçado, deitado na grama lendo. Um grupo com roupas de malha e narizes de palhaço jogando malabares debaixo de uma das árvores. Um cara de dreadlock levando um som num bongô. Um loirinho de óculos tocando violino perto de um busto de... Mário de Andrade? Era o que dizia a placa... E uma rodinha de cabeludos e meninas de saia rodada � com um estilo meio �new hippies�, como Marcela gostava de classificar - sentados nas pedras que eram o começo da montanha que se erguia majestosa atrás deles, fumando descaradamente um baseado.
Marcela ficou surpresa, divertida e... encantada.
- É... Sou mesmo...
Aline deu uma gargalhada antes de exclamar:
- Cara, nunca vi ninguém tãe;o feliz por ser esquisita... Porque você é esquisita, sabe?
A resposta de Marcela foi no mesmo tom de provocação e intimidade:
- Olha só quem fala!
- Esquisita, eu? Sou quase uma patricinhha... Você não acha?
As duas riram muito. De chorar.
Chegaram no estacionamento. Tinham parado as motos lado a lado. Antes de Marcela colocar o capacete, Aline disse:
- Hoje à noite tem um show da minnha banda. Quer dar uma conferida?
- Claro! Onde?
- No Bar do Blues, em Niterói. Saabe onde é?
Saindo da Zona Sul, Marcela não conhecia nada. Nem na Tijuca sabia andar... Respondeu um pouco sem graça:
- Não...
- Peraí, vou escrever aqui pra voocê então... É fácil, não tem como errar...
Vasculhou os bolsos em busca de um papel. Encontrou um todo amassado, anotou todas as indicações, fez até um mapa.
- Qualquer coisa me liga. Pega meu teleffone.
Marcela gravou o número no celular. Aline bufou, olhando o aparelho que segurava: desligado... Falou como se pensasse alto:
- Ai, que saco! Fiquei sem bateria, os ppapéis acabaram... Já sei!
E dizendo isso, estendeu o braço:
- Anota seus telefones aqui...
Achando graça, Marcela escreveu os números. Com um sorriso, porque... Aline e ela eram... parecidas demais!
Não teve como deixar de reparar na cicatriz no pulso dela. Aline percebeu:
- É uma longa história... Outra hora te conto. Toca aqui.
Se despediram com um cumprimento � iniciativa de Aline � que Marcela achou engraçado: bateu na palma da mão aberta que Aline estendeu. Depois tocou o punho fechado no dela, que disse:
- Valeu!
Colocaram os capacetes e partiram, cada uma em sua moto. Marcela abriu um enorme sorriso. Estranha e significativamente feliz, como há muito tempo não se sentia...

 

 

Capítulo 33: O Fluxo Infalível das Coisas�

- Vivi, você escutou o que eu disse?
Os olhos verdes, que antes estavam perdidos, divagando, se fixaram em Ana Cláudia, entre confusos e sem jeito...
- Desculpa, eu...
- Tava longe... É, eu vi...
O sorriso de Vivi foi absolutamente sem graça. Parecia que a morena conseguia ler os pensamentos dela. Sinceramente, esperava que não, porque... por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar em Marcela.
- Que foi? Alguma coisa errada? Voc&ecirrc; tá estranha...
Ana Cláudia, como sempre, toda preocupada... Vivi não tinha como se sentir pior. Ou melhor, tinha sim: quando se viu obrigada a mentir:
- Tô com dor de cabeça... Antes de se despedir, insistindo para que a morena continuasse no bar com as amigas, e ir sozinha para casa. Não conseguiria dormir com Ana Cláudia naquele dia.
A mãe estranhou:
- Chegou cedo, filha� Que aconteceu? Voccê não ia dormir fora?
Engraçado, porque Dona Lúcia parecia evitar dizer o nome de Ana Cláudia. Preferia nitidamente Marcela, e não aprovava o namoro de Vivi com a morena. Vivi constantemente se perguntava se seria o mesmo se tivesse contado o que Marcela tinha feito no dia fatídico da boate.
- Nada, mamãe... Cansaço aapenas...
Foi só o que respondeu. Mas estava estampado na cara de dona Lúcia que ela sabia perfeitamente que Vivi estava omitindo a verdade.
Só ficou tranqüila porque a filha abriu o oratório e começou a fazer daimoku. A beijou antes de voltar para o quarto.
Vivi começou a orar, com uma angústia enorme no peito. Cheia de dúvidas, medos, incertezas, raivas... As lágrimas escorrendo, um turbilhão de sentimentos a corroendo.
Foi quando seu Francisco apareceu. Beijou a filha, e entregou um papel para ela, sem nada dizer. Depois, também voltou para o quarto. Vivi leu:

�Tenho fé na lei mística. Sendo assim, serei salvo em qualquer situação, mesmo nas mais difíceis. Solucionarei tudo infalivelmente.� (Jossei Toda)

E passou a fazer um daimoku muito mais profundo, forte e vibrante. Determinada a resolver todos os problemas.

Marcela chegou no Bar do Blues acompanhada de Carlinha e Rafa. Foi recebida por Aline com entusiasmo.
Desceram até o palco, onde Aline os apresentou ao resto da banda. Foi quando uma japonesa - abusivamente linda, diga-se de passagem - se aproximou e colou a boca na de Aline, dizendo:
- Oi, amor...
As duas ficaram um tempo grudadas naquele beijo, antes de Aline apresentar:
- Amor, essa é a Marcela. Marcelaa, essa é a Val, minha namorada.
As duas se cumprimentaram com dois beijinhos. Marcela apresentou Val para Carlinha e Rafa.
Aline se desculpou, dizendo que ainda tinha umas coisas para arrumar, e sugeriu que os quatro fossem para o bar. Eles prontamente obedeceram.
Ficaram bebendo, e rindo muito, porque... a presença de Carlinha, como sempre, garantia que a conversa fosse incrivelmente divertida e animada.
Até que Rafa puxou a namorada para um canto, e a ocupou com uma série interminável de beijos e amassos, deixando Marcela e Val conversando em particular.
A japonesa abriu um sorriso sedutor, de pura malícia, quando disse:
- A Aline não me disse que voc&eccirc; era tão interessante...
Marcela ficou absolutamente sem graça. Sorriu rapidamente - um sorriso muito amarelo, na verdade - e não disse nada.
Mas Val parecia disposta a não deixar dúvida. Colocou a mão descaradamente na perna de Marcela, apertando a coxa dela, com segundas � terceiras, quartas, quintas, todas as piores - intenções:
- Eu diria que você é uma ddelícia, mas... pra isso preciso experimentar primeiro...
Marcela achou aquilo simplesmente... inacreditável... Se desculpou, e saiu dali o mais rápido possível.
Chegou perto de Carlinha e Rafa e os interrompeu bruscamente:
- Aconteça o que acontecer, n&atiilde;o me deixem mais sozinha com essa japa! Depois eu explico...
Os dois a olharam atônitos, mas concordaram.

Marcela ficou aliviada porque Val não se aproximou mais dela. A japonesa desapareceu, para falar a verdade.
A admiração que Marcela já sentia por Aline só aumentou quando a ouviu cantar. Uma voz linda, expressiva, fantástica. A banda também era boa, um estilo muito parecido com os �The Mitidos�. Começaram com uma música da banda preferida de Aline: Nirvana. A música? �Rape Me�.
Rafa pareceu pensar o mesmo que Marcela, quando, com muito cuidado, tentou tocar no assunto que se tornara proibido entre eles:
- Marcela, não sei nem quero sabeer o que aconteceu entre você e o André, mas... precisamos resolver o que vamos fazer com a banda.
Incrível Rafa resolver falar aquilo exatamente naquele momento, com Aline cantando ao fundo:

�Rape me, rape me my friend (Estupre-me, estupre-me meu amigo)
Rape me, rape me again�� (Estupre-me, estupre-me de novo�)

Marcela foi ríspida, agressiva quase:
- Vocês podem decidir o que voc&eccirc;s quiserem, eu tô fora. Não me interessa. Não quero saber.
Rafa suspirou profundamente. E insistiu:
- Sem você não rola, e voc&ê sabe.
A resposta foi imediata:
- Pra mim o �The Mitidos� tá mortto. Se não rola sem mim, não posso fazer nada.
Carlinha interferiu, acalmando os ânimos:
- Agora não é a hora nem oo momento... Melhor conversarem isso depois, né Rafa?
E deu um beliscão no namorado. Pela cara de Marcela, estava óbvio que era melhor o assunto ser encerrado.
Ficaram calados, curtindo o som. Marcela olhou para o palco. Aline parecia transtornada. Talvez as outras pessoas não percebessem. Mas Marcela sim.
E tinha uma pequena idéia do nome da perturbação: Val.
Mas então, finalmente, a japonesa apareceu. Fazendo Aline abrir um sorriso absurdamente deslumbrante.
Marcela continuou preocupada, porque... Val a fazia lembrar muito de Kaitlin...

A banda fez um intervalo, e Aline foi direto em Marcela:
- Você viu a Val?
Marcela até tinha visto. Indo na direção do banheiro com uma loira de vestido vermelho. Mas não podia nem queria dizer isso para Aline.
Aline pareceu perceber a hesitação da amiga:
- Que foi, Marcela? Pode me dizer... Elaa tá com outra? Se for isso, não é a primeira vez...
Aline pegou um vidrinho no bolso. Abriu, derramou um pozinho branco na parte de cima da mão e ofereceu:
- Quer?
Marcela recusou, com a nítida impressão de estar vivendo um �dejá vu�. Só que daquela vez no papel que antes era de Vivi...
Viu a amiga beber uma caipinha como se fosse água, antes de ir em direção ao banheiro. Sem pensar, nem hesitar, foi atrás dela.
Entrou bem a tempo de segurar Aline, que estava xingando e batendo na japonesa de uma forma completamente descontrolada.
A loira e Val desapareceram rapidamente. Aline esperneava e tentava se soltar, inutilmente. Gritava entre milhares de palavrões:
- Me solta, Marcela! Vou matar essa vagaabunda!
Marcela era muito mais forte, e estava decidida a amenizar a situação:
- Calma, Aline... Não vale a penaa... Fica fria...
Repetia no ouvido dela, mantendo Aline imobilizada.
Aos poucos, Aline foi se acalmando. Quando Marcela a sentiu novamente controlada, a soltou.
Aline então desabou. Sentou no chão, aos prantos. Tirou um saco plástico do bolso, de onde tirou um baseado apertado e acendeu.
Marcela suspirou, entendendo perfeitamente o que deveria fazer. Arrancou o saco plástico da mão dela, jogou todo o conteúdo numa das privadas e deu descarga, antes de devolver o saco vazio para ela. A mesma coisa com o baseado, que destroçou sem deixar um pedacinho de seda para contar a história. Exatamente como Vivi tinha feito há um tempo que parecia séculos atrás.
Ajudou Aline a se levantar do chão, e a lavar o rosto na pia, dizendo:
- Você tem um show pra fazer, lindda. Quero te ver arrasando, tá?
Aline deu um sorrisinho triste, e assentiu com a cabeça. Marcela passou o braço em volta dos ombros dela, e a levou até o palco.
Aline ficou parada, sem se mover. Todos ficaram em silêncio, olhando para ela. Um momento constrangedor ao extremo. Marcela parou na frente de Aline e gritou:
- Gostosíssima!
Aline olhou para ela e deu um sorrisinho. Absurdamente triste... Sem conseguir começar a tocar.
De uma forma absolutamente impulsiva, Marcela invadiu o palco, falou rapidamente com a baterista e o baixista, pediu a guitarra para Aline, pegou o microfone e falou, olhando firme para a amiga:
- Essa é uma música que seempre me ajudou em momentos assim... E não foram poucos, acredite...
Começou a tocar a guitarra. A banda a acompanhou. Então cantou:

�Met a girl, thought she was grand
(Conheci uma garota, pensei que fosse ótima)
Fell in love, found out first hand
(Me apaixonei, soube de primeira)
Went well for a week or two (Correu bem por uma ou duas semanas)
Then it all came unglued (Então tudo desmoronou)
In a trap trip I can't grip (Em uma viagem armadilha, que não tive controle)
Never thought I'd be the one who'd slip
(Nunca pensei que seria eu a escorregar)
Then I started to realize (Comecei a me dar conta de que)
I was living one big lie" (Estava vivendo uma grande mentira)

Aline olhava para Marcela com um sorriso de admiração e gratidão imensos. Se juntou à ela no microfone para cantar:

�She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me� (Ela me odeia, porra)

Marcela se afastou, e continuou tocando, enquanto Aline cantava sozinha:

�I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away (E os jogou fora)
She was queen for about an hour
(Ela foi uma rainha por mais ou menos uma hora)
After that, shit got sour (Depois disso, a merda azedou)
She took all I ever had (Ela tirou tudo que eu tinha)
No sign of guilt (Sem sinal de culpa)
No feeling of bad, no� (Sem se sentir mal, não)

As duas voltaram a cantar juntas, com total e absoluta sintonia, os olhos ligados num campo magnético irresistível:

�In a trap trip I can't grip (Em uma viagem armadilha, que não tive controle)
Never thought I'd be the one who'd slip
(Nunca pensei que seria eu a escorregar)
Then I started to realize (Comecei a me dar conta de que)
I was living one big lie (Estava vivendo uma grande mentira)
She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me (Ela me odeia, porra)
I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away" (E os jogou fora)

Marcela tocou o solo para Aline, totalmente virada para ela, que sacudia a cabeça e tocava uma guitarra imaginária, os olhos presos na profundeza dos negros.
Então Marcela se afastou novamente, dando espaço para Aline assumir de novo sozinha:

�That's my story, as you see (Essa é a minha história, como você pode ver)
Learn my lesson, and so did she.. (Aprendi minha lição, e ela também)
Now it's over..." (Agora acabou...)

Marcela sorriu para Aline, aproximou a boca do microfone e cantou junto com ela todo o resto, as duas parecendo absolutamente felizes:

�And I�m glad!� (e estou feliz!)
'Cuz I'm a fool for all I've said, (Porque sou um tolo por tudo que disse)
She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me (Ela me odeia, porra)
I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away (E os jogou fora)
She fuckin' hates me! (Ela me odeia, porra!)
She fukin' hates me!� (Ela me odeia, porra!)
(�She Hates Me" - Puddle Of Mudd)

Quando a música acabou, as duas riram às gargalhadas. Aline abraçou Marcela com força. De uma força empolgada, encantada, impossível de descrever. Selando uma amizade verdadeira, para sempre.
Encostou a boca no ouvido de Marcela e agradeceu:
- Fico te devendo essa. Valeu!

Óbvio que a felicidade de Aline não durou muito. Até porque Val � acreditem se quiserem � fez questão de ficar desfilando com a tal loira o tempo inteiro.
Mas Marcela evitou que ela se aproximasse da japonesa novamente. Pediu para Rafa voltar com Carlinha no carro dela. Deixou a chave com eles, e foi com Aline para a casa dela assim que o show acabou.
Parada em frente ao apartamento da amiga, Marcela esperou pacientemente que ela encontrasse e finalmente abrisse a porta.
Aline sentou no sofá da sala, com Marcela ao lado dela. A primeira coisa que fez � e Marcela sorriu, reconhecendo muito de si mesma nela � foi colocar uma música. �About a Girl�(Nirvana).

Vivi fechou o oratório, sabendo exatamente o que fazer. Decidida a seguir o que o coração insistia em dizer. Pegou o celular, e discou o número de Marcela.

A conversa terminou de repente. As duas ficaram num estranho e denso silêncio. Os olhos de Aline mergulharam fundo nos negros. Marcela correspondeu sem questionar, e tudo aconteceu naturalmente... As bocas se aproximaram, se colaram, se saborearam lenta e deliciosamente... No mesmo instante em que o celular de Marcela vibrava no bolso dela, e Marcela o ignorava completamente.

 

Parte Final

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