AMOR A QUALQUER PREÇO

Diedra Roiz

[email protected]

2008

 

 

Capítulo 34: Imprevistos Inesperados...

O beijo foi bom. Inegável isso. Porém, Marcela percebeu uma coisa estranhamente diferente... Em tão pouco tempo, já sentia milhares de coisas por Aline, mas... Desejo não era uma delas. Definitivamente.

Apesar de a achar interessante, maravilhosa, absolutamente linda, era quase como beijar a si mesma. E isso em nada a atraía. Pelo contrário. Cortava toda e qualquer espécie de tesão que pudesse sentir.

Quando as bocas se separaram, estava com receio de magoar a amiga. Depois da noite nada agradável que ela tinha tido, uma rejeição seria a pior coisa possível.

Mas então os olhos se encontraram e Marcela pôde ver, ler, perceber que... Aline estava sentindo a mesma coisa que ela.

Num entendimento absurdo, onde as palavras eram inexplicavelmente supérfluas, as duas trocaram um olhar divertido. E começaram a rir.

Aline bateu na coxa de Marcela antes de levantar, dizendo:

- É, parece que vamos ser só amigas, Marcelinha...

Para Marcela aquilo era incrível. Abriu um enorme sorriso. Aline correspondeu, sorrindo também ao perguntar:

- Que tal uma pizza?

Com um aceno de cabeça, Marcela fez que sim. Só depois que Aline saiu da sala se lembrou que tinha sentido o celular vibrando.

Quando olhou para ver quem era, se assustou ao ver o número de Vivi. Com as mãos tremendo, e o coração acelerado no peito, ligou de volta o mais rápido que conseguiu.

 

Mil coisas passaram pela cabeça de Vivi quando Marcela não atendeu. Nenhuma boa.

Ficou andando no quarto de um lado para o outro, com o celular na mão. Esperando, desejando que ela ligasse de volta.

Incrivelmente, o telefone tocou, mas... não era Marcela. Vivi atendeu sem conseguir disfarçar a voz triste:

- Oi, Ana...

- Vivi, sua voz tá horrível... Quer que eu vá praí?

A morena parecia muito preocupada do outro lado da linha, aumentando o remorso de Vivi ao responder:

- Não precisa... Já tava indo dormir...

- Tá... Dorme com os anjos e sonha comigo...

O carinho de Ana Cláudia a deixou sem ter o que dizer. Um breve silêncio se estabeleceu. A morena o cortou, suave e doce como sempre:

- Não tá se sentindo bem, né? Tadinha... Melhor você descansar...Te ligo amanhã, linda...

Se despediram, e Vivi desligou o aparelho, não querendo mais falar com ninguém. Atirou o celular apagado em cima do colchão, passou a mão nos cabelos, sentou na cama e deixou as lágrimas escorrerem livremente. Sabendo que não podia continuar daquele jeito. Indecisão e covardia só causariam sofrimento. Principalmente para ela mesma.

 

Marcela ficou frustrada, inquieta, em profundo desespero. Porque a primeira vez que ligou, o celular de Vivi estava ocupado. E depois... fora da área de cobertura ou desligado...

Quando Aline voltou, equilibrando a pizza e dois copos de coca-cola numa bandeja, encontrou Marcela andando de um lado para o outro na sala ao som de �Heart Shaped Box�(Nirvana).

- Que foi? Aconteceu alguma coisa?

Marcela deixou escapar um suspiro angustiado, antes de responder:

- A Vivi me ligou e eu não atendi... e agora ela deve ter desligado o telefone, porque tá fora de área...

Aline colocou a bandeja na mesinha na frente dela:

- Peraí... Calma... Não tô entendendo nada... Quem é Vivi?

Quem era Vivi? Impossível para Marcela explicar com simples palavras... Por isso disse apenas:

- Minha ex...

Um sorriso divertido surgiu no rosto de Aline, enquanto ela levantava a sobrancelha, e dizia, como se tivesse lido nas entrelinhas:

- Sei... sua ex e o amor da sua vida, pelo visto...

Sem nem precisar balançar a cabeça, apenas com o olhar que trocaram, Marcela respondeu. E Aline, também sem dizer nada, a fez perceber que tinha entendido.

Passou o braço ao redor dos ombros de Marcela, e a puxou de volta para o sofá, pedindo:

- Me conta. Sou toda ouvidos...

 

Aline estava boquiaberta quando Marcela terminou. Contou tudo, desde a primeira vez em que tinha visto Vivi na xerox, sem omitir detalhes nem tentar se fazer de boazinha. Com uma confiança que Aline mostrou ser merecida, porque... em nenhum momento criticou nem condenou a amiga.

A primeira coisa que Aline conseguiu dizer � depois de um tempo absolutamente muda - foi:

- Puta que pariu!

A segunda foi:

- Que merda, amiga! Mas pelo que você disse, apesar de tudo, menina ainda gosta de você...

Marcela deixou escapar um longo suspiro, antes de dizer:

- Não sei... O que me mata é esse apesar de tudo...

Aline passou o braço ao redor do ombro dela, afirmando decidida:

- Vocês vão voltar! Vou te ajudar, Marcelinha, pode contar comigo!

 

Nos dias seguintes, Vivi ficou trancada em casa. Fazendo daimoku o tempo inteiro. Inventando mil desculpas para Ana Cláudia.

Se a morena percebeu que tinha algo errado, não fez nenhum comentário.

Na véspera do Ano Novo, ligou para Ana Cláudia e marcou um encontro. Já tinha se decidido.

 

O Natal de Marcela foi incrível. Os pais não viajaram, e os três passaram a noite inteira juntos, conversando e rindo.

O momento perfeito para que ela finalmente pudesse ter uma conversa séria e definitiva com os dois. Sobre decisões que tinha tomado e até então estava com um certo receio de contar. Soltou de repente:

- Fiz vestibular e passei em primeiro lugar pra música na Uni-Rio. Canto, pra ser mais específica...

Os pais a olharam absolutamente perplexos. Se tinham ou não gostado da notícia, Marcela não conseguiu definir. Nem esperou:

- A Faculdade é de tarde, vou ter que largar o estágio. Queria muito continuar o Direito, mas... Vou trancar pra dar aulas de violão de manhã. Também vou começar a trabalhar numa Ong aos sábados, dando aula de música pras crianças, uma amiga me indicou.

 Com um sorriso enigmático, o dr. Marcelo perguntou:

- Primeiro lugar, é? Parabéns! Tô muito orgulhoso, mas... Vai largar o Direito por que?

Dona Heloísa nem deixou Marcela responder:

- Filha, fica tranqüila... Faz as duas faculdades. Não se preocupa com o dinheiro. Nós vamos te apoiar. Seu pai e eu...

Os dois se entreolharam, sorrindo, e depois olharam para Marcela sorrindo mais ainda:

- ...estamos muito orgulhosos de você.

O pai bateu no ombro dela. A mãe a abraçou e beijou. Marcela só não estava mais contente porque... para a felicidade ser completa, faltava Vivi...

 

Sentada na mesa do barzinho onde tinha combinado se encontrar com Ana Cláudia, Vivi estava nervosa. Não parava de olhar para o relógio. Estranhando muito, porque... a morena nunca se atrasava.

Quando finalmente Ana Cláudia chegou, estava de óculos escuros e parecia... bastante abalada. Perguntou preocupada:

- Que foi, Ana?

Foi o suficiente para que a morena começasse a soluçar. Vivi segurou a mão dela em cima da mesa, e esperou que ela se acalmasse.

Ana Cláudia suspirou profundamente, enxugou as lágrimas do rosto, levantou os óculos e fitou Vivi com os olhos absolutamente inchados e vermelhos ao dizer:

- Minha mãe descobriu... que nós...

Vivi se assustou. Os pais de Ana Cláudia eram super conservadores. Com certeza, a reação não seria a mesma que a da família de Vivi. Perguntou, morrendo de preocupação:

- Como?

- Nossa conversa ontem... ai, Vivi... ela ouviu tudo na extensão...

E começou a chorar novamente. Completou com muita dificuldade:

- Falou que... já tava desconfiada... que só ando grudada em você e... nunca levo nenhum namorado em casa...

Vivi acariciou o rosto da morena, enxugou as lágrimas que o encharcavam. Novas lágrimas desceram, mas... pelo menos Ana Cláudia deu um sorrisinho.

- Vivi, minha mãe não tá falando comigo... fica me olhando com uma cara tão... como se eu fosse horrível, sabe? Ela vai contar pro meu pai, eu sei que vai... E quando meu pai souber, ele me mata...

A intenção de Vivi, de terminar com Ana Cláudia, foi completamente afastada. Não tinha como fazer isso no momento em que a morena estava tão frágil... Segurou a mão dela com força, e a apoiou, disposta a ficar do lado dela e oferecer toda a força que Ana Cláudia precisava.

 

Marcela resolveu passar o ano novo numa festa no apartamento de uns amigos de Aline na praia de Copacabana.

Festa estranha com gente esquisita... Era a definição precisa, exata.

Marcela achou o máximo. Se misturou facilmente, uma esquisita a mais na multidão, como Aline gostava de falar. Para Carlinha e Rafa, isso já foi bem mais difícil...

Como não tinha DJ, cada um podia colocar o som que quisesse. Isso criava um efeito interessante: uma miscelânea de músicas totalmente diferentes.

Naquele momento, por exemplo, estava tocando �The Road I�m On� (Three Doors Down).

Marcela estava bebendo perto da janela, olhando a praia lotada de gente lá embaixo, quando uma mão encostou no ombro dela.

- Marcela?

Hesitou, sabendo perfeitamente quem era. Pela voz que durante anos, tinha sido sempre um alívio escutar, e que agora passara a fazer parte de pesadelos que faziam Marcela acordar no meio da noite, toda suada, gritando e chorando de desespero.

Virou lentamente, não querendo, temendo o reencontro que tinha tentado evitar até aquele momento.

Os olhos negros eram pura mágoa quando olharam para André.

Ele tentou sorrir, sem muito resultado. Demorou bastante, como se tomasse coragem para falar:

- Sei que o que eu fiz é imperdoável. Eu... só queria que você não me odiasse.

Entre eles existia uma vida inteira compartilhada. Milhares de lembranças, experiências, momentos felizes, inesquecíveis, impossíveis de negar. Que fizeram Marcela dizer com sinceridade:

- Não odeio você. Só não consigo te perdoar. Você era meu melhor amigo. A única pessoa em quem eu confiava.

Ele abaixou a cabeça. Quando a olhou novamente, os olhos estavam cheios de lágrimas:

- Eu sei. Se eu pudesse voltar atrás...

O desejo demonstrado por ele não era novidade para Marcela. Ela também adoraria poder mudar o passado...

- Infelizmente, isso é impossível...

Ele balançou a cabeça, em concordância. Os olhos negros olharam para a latinha que ele segurava, estranhando:

- Tomando refrigerante? Logo você?

Com um brilho triste no olhar, André respondeu:

- Não posso beber... Tô tomando uns remédios...

- Anti-depressivos?

André assentiu com a cabeça. Marcela o olhou profundamente. O sofrimento dele era nítido. Parecia bem mais magro, abatido, e... extremamente triste.

- No fundo, eu... Sempre achei que um dia a gente ia ficar junto... E depois... Depois do que aconteceu, eu... Percebi que isso era impossível e... minha vida pareceu... tão vazia... como se não fizesse mais sentido...

Marcela compreendia. E incrivelmente não conseguiu sentir nenhum tipo de satisfação nem felicidade em ver André daquele jeito. Pelo contrário. Aquilo a fez sentir um incômodo horrível. Mas não tinha como restabelecer o que existia entre eles. Tinha se quebrado, rompido para sempre.

 

De uma forma que não conseguia compreender totalmente, percebeu que apesar de tudo, eles ainda continuavam ligados. E não era à toa que ele estava parado ali na frente dela.  Era porque... tinha uma última coisa que ela precisava fazer.

Milhares de pensamentos e sentimentos se misturaram, enquanto Marcela vasculhava os bolsos, dizendo:

- Acho que você pode encontrar um sentido nisso. Como eu encontrei, porque... Sempre fomos muito parecidos.

Entregou para ele um cartãozinho. André olhou a flor de lótus branca no fundo preto, onde se lia em letras amarelas: �Recitar: NAM - MYOHO � RENGUE � KYO. A Força da Transformação Humana.�

- Pede pro Rafa te levar numa reunião. Experimenta, Dé...

Talvez por causa da preocupação na voz dela, ou pelo apelido carinhoso que nunca mais tinha ouvido � quem pode saber? � as lágrimas escorreram abundantemente pelo rosto de André...

 

Vivi pegou uma carona com Carol e o namorado da irmã, Ricardo. Ia passar o reveillón numa festa em Ipanema, na casa de umas amigas de Ana Cláudia. E eles iam para Ipanema também, só que para uma festa de uns amigos do Ricardo. Gelou quando Carol disse:

- Vivi, você se importa se a gente passar primeiro na festa onde a Marcela tá? Quero dar um beijo nela... E você aproveita pra falar com a Carlinha, que tal?

A reação de Vivi foi tão intensamente negativa, que Carol acabou dizendo:

- Mas podemos te deixar primeiro... Você é quem sabe...

Não queria dar trabalho � Vivi tentou se convencer, mas... queria muito ver Marcela. Essa era a verdade. E foi por isso que concordou com a proposta de Carol. Se rendendo ao que realmente desejava.

 

Aline parou ao lado de Marcela, toda sorridente:

- E aí? Curtindo o som?

Fazendo Marcela prestar atenção na música que estava tocando: �Love� (The Smashing Pumpkins).

Aline abraçou Marcela carinhosamente, ainda sem perceber a presença de André, que enxugou as lágrimas depressa o bastante para que Aline não percebesse. Quando o viu, foi logo dizendo:

- Esse cara tá te incomodando, Marcelinha?

Marcela não teve como deixar de rir. Aline era uma baixinha atrevida mesmo... Tentou apaziguar a amiga:

- Não... Ele é... um velho conhecido.

Mas antes que pudesse tirar Aline dali, André estendeu a mão, e disse:

- Prazer. André.

Aline ficou totalmente descontrolada e enfurecida. Sabia quem ele era, Marcela tinha contado. No mesmo dia em que Aline tinha contado a própria tentativa de suicídio.

- Seu filho da puta! Ainda tem coragem de falar com ela?

O que aconteceu então foi muito rápido. Aline acertou o punho na cara de André com tanta força, que ele caiu para trás. Rafa surgiu do nada, ajudou André a se levantar e o tirou de perto das duas.

Marcela segurou Aline, mantendo a amiga firme entre os braços. Dizendo baixinho:

- Para com isso, Aline... Por favor, esfria a cabeça... Calma, linda...

No mesmo instante em que Vivi entrava na festa com Carol e Ricardo. Demorou alguns instantes para acostumar os olhos à meia-luz nebulosa pela fumaça de cigarros e outras coisinhas mais - quebrada apenas por algumas poucas luzes vermelhas e azuis. As esmeraldas percorrendo a sala e encontrando rapidamente quem procuravam.

Mas o que a ruiva viu foi algo que não esperava. Algo para o qual não estava preparada: Marcela, com a boca colada no ouvido de uma garota de cabelos curtinhos, agarrada com ela no que para Vivi pareceu ser um abraço apaixonado.

 

 

Capítulo 35: Your Winter...

Vivi foi seguindo Carol em direção às duas, sem conseguir desviar os olhos, como se estivesse hipnotizada. Sem nem perceber que a irmã a olhava preocupada. Pararam na frente delas bem a tempo de escutar:

- Calma? Como assim, Marcelinha? Quero matar esse cara! Ele tentou te estuprar...

Aline olhou para Marcela, que estava... pálida... Muito mais do que o normal. Como se tivesse visto um fantasma. Seguiu a direção que os olhos negros fitavam, imobilizados, e viu... a ruiva de olhos verdes mais brilhantes que já tinha visto na vida.

As esmeraldas se desviaram de Marcela por alguns instantes. O suficiente para avaliarem Aline de cima abaixo, as chamas ardendo, visivelmente enciumadas.

Só então � depois de Vivi as fuzilar com o olhar - as duas perceberam que continuavam abrraçadas, e se afastaram rapidamente.

Vivi estava sem palavras. Marcela ali, na frente dela, abraçada com aquela garota... E ela não podia falar nada... Afinal de contas, já não eram mais nada uma da outra, e a própria Vivi tinha namorada...

Mas o que sentia por dentro não tinha nada de racional. Só não se afastou na mesma hora porque a frase que tinha escutado não deixava:

- Como assim estuprar? O que ela tá dizendo? Ele quem?

Marcela ficou totalmente paralisada, estática... Impossível resistir ao efeito que a presença de Vivi sempre causava... Os olhos negros se renderam ao cintilar dos verdes... Estava louca de saudade... Muita... Tanta que nem tentou disfarçar o olhar faminto com que devorou a ruiva.

Um silêncio tenso se estabeleceu. Carol e Aline se entreolharam, deixando claro que ambas sabiam a resposta. Como nenhuma das três abriu a boca, Vivi insistiu:

- Marcela? Me responde, por favor...

Marcela passou a mão nos cabelos, olhou para baixo, para cima, para os lados, suspirou fundo e só então disse:

- Vivi, eu... Prefiro não falar sobre isso...

A voz de Vivi soou profundamente magoada quando respondeu:

- Engraçado, porque pelo visto, falou sobre isso com todo mundo... Menos comigo...

Foi cortada por Marcela, que parecia um pouco enervada com a cobrança repentina:

- Bom, nós não temos nos falado muito, não é verdade?

Carol e Aline se afastaram, sem que Marcela nem Vivi percebessem. Concentradas que estavam uma nos olhos da outra. O cintilar verde foi absolutamente triste quando disse:

- Pensei que você confiasse em mim.

O silêncio entre elas foi quebrado pela música que mudava novamente. �Shiver�(Coldplay).

A resposta de Marcela foi absolutamente impulsiva e verdadeira:

- Quem não confia em mim é você.

Vivi arregalou os olhos, perplexa. Percebendo que estava errada. Mais ainda: que estava sendo injusta e agressiva com Marcela pelo simples fato de a ter visto abraçada com outra... Apesar de não ter direito nenhum de sentir isso. Muito menos de a tratar daquele jeito.

As esmeraldas mudaram subitamente. O brilho completamente encoberto por uma sombra triste, arrependida.

- Marcela, desculpe...

- Tudo bem...

O cintilar verde reapareceu, profundamente imerso na imensidão dos negros.

O coração de Marcela parecia dar pulos no peito. Adorava quando os olhos da ruiva ficavam daquele jeito, como os de uma gata selvagem... Teve que se controlar muito para não puxar Vivi pela cintura e mergulhar os lábios nos dela.

Vivi estremeceu, quando os olhos negros olharam para os lábios dela de uma forma absolutamente ardente. Olhou para os lábios de Marcela também... Sufocando a vontade que martelava por dentro... de saborear sem pressa aquela boca que, exatamente como a dela, parecia implorar por um beijo...

Marcela observou Vivi atentamente. As esmeraldas a ofuscaram, porque... estavam incandescentes...

Impossível deixar de dizer:

- Morro de saudades de você, Vivi...

E incrivelmente, Vivi respondeu:

- Eu também...

Lentamente, como que movida por uma espécie de encantamento, Marcela aproximou os lábios dos dela.

Mas Vivi a impediu. Sem dúvida a coisa mais difícil que já tinha tido que fazer. Porque queria muito poder apenas se entregar ao que sentia, mas não era assim. Tinha uma terceira pessoa envolvida. Uma pessoa incrível, que não merecia ser traída daquele jeito. Foi um  sofrimento indescritível colocar os dedos na boca de Marcela, cortando o movimento que era a resposta para os desejos e anseios mais profundos que tinha, e dizer:

- Eu não posso... eu...

Maior ainda foi o sofrimento que viu dentro dos olhos negros, como se todo e qualquer tipo de alegria estivesse acorrentada, sufocada dentro deles:

- Você tem namorada. É, eu sei...

Ficaram alguns minutos em silêncio. Se encarando apenas. Marcela sem entender o que o apelo chamejante dos olhos verdes queria realmente dizer. Se sentindo rejeitada, preterida e... profundamente ferida.

Frustração. Absoluta e sem fim. Era o que Vivi sentia. Aquilo doeu e ardeu de uma forma quase implosiva.

Evitando olhar as esmeraldas diretamente, Marcela disse, com uma raiva contida:

- Acho que não temos mais nada pra nos dizer.

Virou as costas e saiu. Deixando Vivi plantada, confusa, travando uma batalha consigo mesma. Uma luta perdida. Num momento absolutamente espontâneo, mandando toda a racionalidade para o espaço e cedendo inteiramente aos instintos, foi atrás de Marcela, quase correndo.

A alcançou no corredor vazio que levava à cozinha. A puxou pelo braço, a respiração alterada pelo desejo e expectativa.

Marcela se assustou com o brilho faminto que vislumbrou fulgurando nos olhos verdes. Os olhos negros corresponderam, tempestuosos e frementes.

Vivi empurrou Marcela até a encostar na parede, e mergulhou a boca na dela com um gemido de pura satisfação. Marcela também gemeu. E correspondeu, com toda a necessidade desesperada que sentia.

Vivi a pressionou contra a parede com o corpo. Invadiu vorazmente a boca de Marcela com a língua, procurando, encontrando, se deliciando com o piercing. Arrancando arrepios e gemidos das duas.

Marcela se entregou completamente aos beijos, às mãos, à paixão da ruiva.

De uma forma absolutamente ardente, Vivi tocou, percorreu, acariciou o corpo de Marcela por debaixo da camiseta. Quase sufocando de tanto desejo, a pele alva parecendo queimar sob seus dedos. Marcela suspirou quando Vivi acariciou os seios dela, dizendo:

- Preciso de você... Como preciso respirar... Preciso de você, Marcela... Pra viver...

A resposta de Marcela foi sem palavras, porque estava absolutamente surpresa, seduzida, rendida. Segurou Vivi pela cintura, e a rodou, invertendo a posição com ela. A comprimindo contra a parede, se deliciando com os gemidos que os lábios provocaram descendo pelo pescoço dela, enquanto as mãos percorriam o interior das coxas de Vivi e subiam, a tocando entre as pernas, os dedos afastando com habilidade a calcinha.

O toque pareceu fazer a ruiva voltar à razão. Marcela sentiu o exato momento em que Vivi recuou. O corpo dela se retesou inteiro, quase uma rejeição. Sussurrou dolorosamente no ouvido de Marcela:

- Não... Isso não...

Mas não deixou Marcela se afastar dela. A abraçou com força, a boca beijando e roçando o pescoço dela como se quisesse extravasar todo o desejo reprimido.

Com a voz ofegante, Marcela suplicou:

- Por favor, Vivi... Não agüento... Isso é uma verdadeira tortura...

- Desculpa... Desculpa... Não consigo resistir...

Foi o que a ruiva murmurou, antes de mergulhar os lábios nos de Marcela novamente. Num beijo longo, arrebatador, abusivamente ardente. Vivi se deliciando com os gemidos de Marcela quando aprofundou o beijo.

As duas já não respiravam, ofegavam uma contra a boca da outra. Mas não queriam de forma alguma interromper o beijo.

Foi nesse momento que o celular de Vivi tocou. No começo, ela ignorou. Mas a pessoa insistiu, ligando uma, duas, três, quatro vezes. Fazendo Vivi se afastar de Marcela apenas o suficiente para atender:

- Alô? Oi... Não, tá tudo bem... Daqui a pouco tô aí...

Pelo tom de voz sem graça dela, na mesma hora Marcela soube quem era. Ajeitou a roupa, os cabelos, e ficou olhando para Vivi.

A ruiva se despediu de Ana Cláudia se sentindo horrível. Com plena consciência de que a morena tinha percebido o quanto ela estava ofegante. E que os olhos negros a fitavam de um jeito profundamente decepcionado, magoado, desiludido.

Pensando em como se desculpar � se é que isso era possível � mas Marcela nem quis ouvir:

- Nunca me senti tão usada, sabia?

O tom de raiva e acusação com que Marcela disse aquilo fez Vivi perder a cabeça. A voz soou muito agressiva:

- Engraçado você dizer isso... Logo você, que deixava a Gisele te fazer de cachorrinha...

Pela expressão de Marcela, percebeu que a tinha atingido profundamente. Os olhos negros estavam... esmaecidos:

- Nunca esperava isso de você...

Vivi passou a mão nos cabelos. A conversa tinha ido longe demais. Suspirou profundamente, como se quisesse se acalmar. Marcela fez o mesmo. Ficaram se encarando, tão próximas que podiam sentir as respirações se misturando. No entanto, não poderiam estar mais distantes.

Os olhos negros continuavam nublados quando disseram:

- Não quero você assim... Cheia de barreiras... Se arrependendo depois...

Vivi escondeu o rosto nas mãos, num desespero absurdo. Aquilo era tão dejá vu... Como as primeiras vezes em que tinham feito sexo... Quando Marcela sempre se arrependia e pedia desculpas depois...

Milhares de pensamentos a invadiram. Estaria apenas querendo ferir, se vingar de Marcela? Desejando uma espécie de revanche doentia? Confusa, perdida, sem direção... Não tinha como se sentir mais sem chão... Ou tinha?

- Se você não consegue esquecer o que eu fiz, se não consegue me perdoar, Vivi... Quero que me deixe em paz então. Concordo com o que você disse no dia que eu recebi meu gohonzon: Chega! Vamos parar de nos magoar desse jeito...

E antes que Vivi pudesse dizer qualquer coisa, Marcela se virou e se afastou. A ruiva ainda deu alguns passos na direção que ela tinha seguido, mas parou. Quando a viu se atirar nos braços da garota de cabelos curtinhos novamente.

 

Marcela atravessou a sala como uma flecha. Direto em direção à Aline. Não precisou dizer nada, apenas olhou para a amiga, com as lágrimas escorrendo abundantemente.

Aline a recebeu entre os braços, acariciando os cabelos de Marcela, sem perguntar nada, apenas dizendo baixinho:

- Não fica assim, Marcelinha... Sua ruiva tá olhando pra você...

A frase fez Marcela chorar mais ainda. E responder:

- Ela não é minha... Perdi a Vivi pra sempre...

Aline suspirou profundamente. Beijou Marcela no rosto e falou:

- Deixa de ser melodramática, amiga... Você pode dizer o que quiser, mas a ruiva não tira os olhos de você... E se olhar matasse, juro que eu cairia morta agora e aqui mesmo...

Marcela começou a rir. Aline riu junto. Depois passou o braço em volta do pescoço de Marcela, e com a outra mão despenteou os cabelos negros. Fazendo Marcela parar de chorar e sorrir. Aline falou:

- Levanta essa cabeça, linda! Escuta o que tô te dizendo: a ruiva é sua sim!

Abraçou Marcela pelo ombro, e a conduziu para perto do som, dizendo:

- Hora de você escolher a música! E reconquistar o que é seu...

 

Vivi não conseguia desviar os olhos das duas. Uma raiva crescente a consumia. A vontade que tinha era ir até lá, arrancar Marcela dos braços da outra menina... Mas não podia...

As duas pareciam muito íntimas... A garota beijou Marcela, sussurrou algo no ouvido dela e elas riram... Vivi apertou as mãos com força, enfiando as unhas nas palmas, causando uma dor que nem sentiu, porque... a dor no peito era muito, mas muito maior mesmo...

Observou a tal garota abraçar Marcela pelo pescoço, passar a mão nos cabelos dela, a conduzir até o som... Se mordendo de ciúmes...

Então foi até o canto aonde  Carol e Ricardo, Rafa e Carlinha conversavam animadamente:

- Carol, vamos embora?

Carlinha reclamou na hora:

- Nossa, Vivi! Não acredito, amiga... Não vai nem falar comigo? Que bicho te mordeu, hein?

Carol falou sem querer, foi mais forte que ela:

- Um monstro de olhos verdes...

Rafa a olhou espantado:

- Não entendi... Quem tem olhos verdes não é a Vivi?

Todos riram, menos Vivi. E Carlinha implicou:

- Môzinho, o excesso de maconha queimou boa parte dos seus neurônios, né?

Riram mais ainda. Foi a própria Vivi, com uma expressão seríssima e um brilho dardejante nos olhos verdes, quem explicou:

- Ela quer dizer que tô com ciúmes...

Carol insistiu:

- E não tá?

Vivi suspirou, irritadíssima. E respondeu, de uma forma agressiva que Carol e Carlinha nunca tinham visto:

- Minha namorada tá me esperando, não tenho tempo pra babaquice!

Carol puxou Vivi carinhosamente, para poderem conversar em particular. A voz muito doce e suave quando disse:

- Ei... Desculpe, não sabia que a brincadeira ia te chatear tanto... Mas precisava falar daquele jeito?

As esmeraldas se afogaram, despejaram uma cachoeira de lágrimas sofridas:

- Desculpa, Carol... Acabei descontando em você o que tô sentindo... E você não tem nada com isso...

A irmã a abraçou carinhosamente. Acariciou os cabelos vermelhos até Vivi se acalmar um pouco. Depois sugeriu:

- Você precisa resolver isso. Tá te consumindo, Vivi... Não agüento mais te ver assim...

Olhou Vivi nos olhos. Os verdes continham um misto de medo, confusão e dor indescritíveis. Carol então disse:

- Lembra aquela frase da Anais Nin que eu adoro? �...E chegou o dia em que o risco de continuar fechado em botão doía mais que o risco de florescer...� ? Pois então... �Se o final não é feliz, é porque não é realmente o fim�...

Vivi sorriu. Aquilo era a cara de Carol. A irmã adorava frases de efeito...

Enxugou as lágrimas, e perguntou:

- E a última, de onde você tirou?

- De um filme indiano que vi outro dia: �Om Shanti Om�...

Assim que Carol respondeu, a música que Marcela colocou começou a tocar. Carol apenas disse, indicando com a cabeça:

- Acho que a Marcela tá tentando te dizer alguma coisa...

Vivi se virou, as esmeraldas se tornando imediatamente prisioneiras dos olhos negros fixos nela, enquanto ouvia:

 

�The gray ceiling on the earth (O cinza cobrindo a terra)
Well it's lasted for a while (Bem, durou um tempo)
Take my thoughts for what they're worth

(Pegue meus pensamentos pelo o que eles valem)
I've been acting like a child (Tenho agido como uma criança)
Your opinion, what is that? (Sua opinião, o que é isso?)
It's just a different point of view (É apenas um diferente ponto de vista)
Whatever, what else can I do? (O que mais, o que mais posso fazer?)
I said I'm sorry, yeah, I'm sorry (Eu disse sinto muito, sim, sinto muito)
I said I'm sorry, but what for? (Eu disse sinto muito, mas para que?)
If I hurt you then I hate myself (Se eu te machucar, então me odeio)
I don't want to hate myself, don't want to hurt you

(Eu não quero me odiar, não quero te machucar)
Why do you choose your pain?

(Por que você escolheu sua dor?)
If you only knew how much I love you, love you

(Se você pelo menos soubesse o quanto eu te amo, te amo)
I won't be your winter (Eu não serei o seu inverno)
And I won't be anyone's excuse to cry

(E eu não serei a desculpa para alguém chorar)
And we can be forgiven (E nós podemos ser perdoados)
And I will be here (E eu estarei aqui)
Old picture on the shelf (Foto velha na estante)
It's been there for awhile (Tem estado lá há um tempo)
Frozen image of ourselves (Uma imagem congelada de nós mesmos)
We were acting like a child (Nós estávamos agindo como uma criança)
Innocent in a trance (Inocente em um transe)
A dance that lasted for awhile (Uma dança que durou por um tempo)
You read my eyes just like a diary (Você lê meus olhos como um diário)
Oh remember, please remember (Oh, lembre-se, por favor, lembre-se)
Well I'm not a begger, but once more

(Bem, eu não sou um pedinte, mas mais uma vez)
If I hurt you then I hate myself (Se eu te machucar, então eu me odeio)
I dont want to hate myself, dont want to hurt you

(Eu não quero me odiar, não quero te machucar)
Why do you choose your pain?
(Por que você escolheu sua dor?)

If you only knew how much I love you, love you

(Se você pelo menos soubesse o quanto eu te amo, te amo)
No, I won't be your winter (Não, eu não serei o seu inverno)
And I won't be anyone's excuse to cry

(E eu não serei a desculpa para alguém chorar)
And we can be forgiven (E nós podemos ser perdoados)
And I will be here (E eu estarei aqui)
(�Your Winter� - Sister Hazel)

 

Marcela a olhava de um jeito, que fazia Vivi desejar se render, se derreter, se atirar nos braços dela...  Apenas se entregar ao que sentia, e esquecer todo o resto...

Uma mistura de sentimentos tomou conta da ruiva. Milhares de emoções se enfrentaram, se degladiaram dentro dela, inimigas, opostas, antagônicas, contraditórias...

A lealdade que sentia por Ana Cláudia quase desaparecendo, virando fumaça...

Assim que a música acabou, Vivi praticamente implorou:

- Por favor, Carol, vamos embora?

 

 

Capítulo 36: Uma Esperança no Ar...

Marcela ficou observando Vivi ir embora da festa como se tivessem arrancado um pedaço dela. O que mais doeu, foi que Vivi nem se despediu. Ficou esperando na porta enquanto Carol falava com Marcela.

Vivi não tinha como se aproximar novamente de Marcela. Se o fizesse, não teria como se controlar mais. Por isso ficou olhando de longe, enquanto a irmã de despedia, beijando e abraçando Marcela, que parecia... absolutamente triste.

Passou o percurso todo em silêncio. De vez em quando uma lágrima escorria, e ela enxugava disfarçadamente.

Mas não conseguiu esconder de Carol o estado em que estava. A irmã acompanhava cada movimento dela pelo espelho retrovisor, preocupadíssima.

Quando Ricardo parou em frente à portaria da festa onde estava Ana Cláudia, Carol desceu do carro com Vivi. Abraçou e beijou a irmã carinhosamente. Depois disse baixinho no ouvido dela:

- Não esqueça, irmãzinha: o Inverno nunca falha em se tornar Primavera...

A frase de Nitiren Daishonin, tão conhecida de Vivi, surtiu o efeito desejado. A ruiva sorriu, antes de se despedir de Ricardo e entrar no prédio, deixando Carol bem mais aliviada.

 

- Marcelinha, não adianta ficar com essa cara. Sua ruiva foi embora, mas... A festa tá bombando, você tá com seus amigos, por isso vamos nos divertir!

Aline teve total apoio de Carlinha e Rafa.

Marcela sorriu, pegou a cerveja que Aline oferecia, e tentou fazer o que a amiga dizia. Sem muito resultado.

 

Ana Cláudia não estava com uma cara nada boa. Vivi não podia culpá-la... Afinal de contas, além de um atraso de quase duas horas, ainda tinha o agravante da voz ofegante quando atendeu o celular...

Mas estranhamente, a morena preferiu não entrar em atrito, nem comentar nada. Pelo contrário. Beijou Vivi na boca ardentemente. No meio da sala. Logo ela, que era toda discreta...

Vivi achou surpreendente. Correspondeu, deixando Ana Cláudia feliz, satisfeita e... ainda mais apaixonada.

 

Quase todas as pessoas da festa desceram para ver os fogos da praia. Marcela e Aline ficaram na janela, bebendo cerveja, conversando e curtindo o som que estava rolando: �Don�t Dream It�s Over� (Lighthouse Family).

Quando deu a meia noite, se cumprimentaram.

- A melhor coisa que me aconteceu nesse ano que passou foi ter te conhecido, sabia?

Aline meio que desabafou, um tanto quanto tímida... Coisa absolutamente inédita para ela, que nunca tinha problemas para dizer o que bem queria...

Marcela abriu um enorme sorriso, e retribuiu:

- Você é tudo de bom, sabia? É minha melhor amiga.

Se abraçaram fortemente. Batendo uma nas costas da outra. Depois ficaram em silêncio, observando o show pirotécnico explodindo no céu com a música tocando melancolicamente ao fundo. Marcela com o coração doendo, e na mente um único pensamento: os cintilantes olhos verdes...

 

Vivi estava dançando com Ana Cláudia quando a contagem regressiva começou. O som parou. As duas se abraçaram e beijaram, quando o ano virou.

Então, a morena se afastou, o suficiente para olhar profundamente para os olhos verdes. Encostou a boca no ouvido de Vivi, e sussurrou:

- Eu amo você...

Vivi fechou os olhos. Prendeu a respiração, sem nem perceber. Porque... não tinha o que dizer. Todos os músculos do corpo ficaram tensos, e Ana Cláudia, obviamente, percebeu. Completou com uma voz estranhamente tranqüila:

- Tudo bem, Vivi... Não tô te cobrando nada... Mas eu precisava te dizer...

Ainda assim, Vivi continuou completamente sem graça.

A música voltou a tocar: �Don�t Dream It�s Over� (Sixpense None the Richer). Fazendo com que os pensamentos da ruiva se voltassem inevitável e dolorosamente para Marcela...

 

 Os dois primeiros meses do ano se passaram rapidamente. Mornos, inodoros, incolores... Insossos, seria melhor dizer...

Como a faculdade estava de férias, e eram de comunidades budistas diferentes, Marcela e Vivi não se encontraram mais.

A não ser uma única vez, em que Vivi avistou Marcela rapidamente, à distância, no VOLTA ALICE, bloco de carnaval em Laranjeiras, cujos dirigentes e integrantes são na maioria, jovens budistas. Assim que viu Marcela � linda, absurdamente linda com a camiseta amarela da bateria - com Aline do lado, as duas empolgadíssimas tocando tamborim, deu meia volta e fugiu, puxando Ana Cláudia. A morena nem perguntou o porque. Apenas a seguiu, sem contestar.

O namoro com Ana Cláudia se tornou quase insuportável. Na verdade, Vivi a apoiava com relação aos pais � que passaram a hostilizá-la abertamente � fazendo daimoku com ela, levando a morena em todo e qualquer tipo de reunião, mas... Fora isso a evitava. Inventava desculpas para não dormirem juntas, o relacionamento sexual esfriou a ponto de se tornar quase inexistente. Eram mais amigas do que namoradas... Isso era o que Vivi sentia e queria. Apesar de Ana Cláudia fingir que estava tudo às mil maravilhas e repetir constantemente para a ruiva � apesar de nunca ser correspondida � que a amava.

 

Marcela, por outro lado, também estava se esforçando muito � não era nada fácil � para ajudar Aline. Não deixava a amiga abusar da bebida, impedia que ela se drogasse sempre que podia. A levava nas reuniões budistas, a chamava para fazer daimoku na casa dela...

No começo Aline questionou:

- Como é que eu vou ficar repetindo um negócio esquisito desses, numa língua que eu não entendo, igual a um papagaio, Marcelinha?

Marcela pacientemente respondeu:

- Quando você vai no médico e ele te receita um remédio você lê a bula antes de comprar? Claro que não, né? Você confia nele e pronto! Então? Você não confia em mim? Eu não ia te dizer pra fazer se não fosse maravilhoso...

Aline riu, um tanto quanto desconfiada ainda, mas quase convencida. Marcela continuou:

- Olha só... São caracteres, com mil significados... Quase impossível de traduzir, mas... Simplificando muito: nam = devotar, myoho= lei mística de causa e efeito,  rengue = que rege, kyo = universo. Melhorou?

Aos poucos, toda e qualquer resistência de Aline se quebrou. Quando ela começou a sentir na pele efeito do daimoku.

Marcela e ela fundaram uma nova banda. Com Rafa como baterista e Kadu, baixista da antiga banda de Aline. Começaram a ensaiar para o primeiro show. Só faltava encontrar um nome...

Marcela e Aline se tornaram totalmente inseparáveis. O programa favorito era conversar � nunca ficavam sem assunto - e ouvir música � lógico - na casa de uma das duas.

Numa dessas noites, estavam na casa de Marcela, ouvindo Smashing Pumpkins (�Love is Suicide�). Aline tinha escolhido, dizendo:

- Ouve e aprende, amiga...

Marcela ia responder, mas o celular dela tocou. Atendeu com uma voz alegre e carinhosa:

- Oi, mãe...

Dona Heloísa fez mil perguntas e recomendações. Depois de se certificar que Marcela estava bem, que tinha se alimentado direito, e etc... Disse:

- Seu pai comprou ingressos pro show do Rod Stewart.

Marcela não entendeu porque a mãe tinha ligado para contar aquilo, por isso apenas falou:

- Que bom... Vocês amam Rod Stewart, né? Com certeza vão se divertir...

A mãe riu do outro lado. Antes de esclarecer:

- Filha, você não entendeu... Seu pai comprou 3 ingressos... Tô ligando pra convidar, ou segundo as palavras dele: intimar você...

No princípio Marcela ficou sem saber o que dizer. Só conseguiu balbuciar:

- Eu? Ir num show com vocês? Mas nós nunca...

Dona Heloísa respondeu:

- Verdade. Mas pra tudo tem uma primeira vez... Vamos, vai ser divertido.

Marcela não teve como deixar de rir. Seria... curioso, no mínimo. Era uma coisa que realmente, não queria perder. Por isso concordou, deixando a mãe evidentemente feliz.

 

Aquela experiência era, em vários aspectos, inédita para Marcela. Não se lembrava de ter saído com os pais antes. Quando era pequena, eles não a levavam. Quando se tornou grande o bastante para ir, se recusava...

Sentada ali no banco de trás do Pajero do pai, com Led Zeppelin tocando nas alturas o tempo inteiro � incrivelmente, a primeira coisa que o dr. Marcelo fez assim que entrou no carro foi ligar o som. Começou com  �Heartbreaker� � fazendo Marcela perceber que não era tão alienígena assim.

Na verdade, estava chocada com o quanto ela e o pai eram parecidos. Até então, Marcela nunca tinha percebido... Ou melhor: nunca tinha se permitido perceber. Assim como nunca tinha se permitido sair nem se divertir com eles.

Um show de Rod Stewart não era, nem de longe, um programa que Marcela escolheria fazer. Mas a conversa foi descontraída, divertida, durante todo o caminho. E ela simplesmente deixou de lado todas as defesas, preconceitos e  barreiras, e aproveitou. O pai fechou a seleção musical com chave de ouro: �Dazed and Confused�.

Chegaram no Rio Arena, na Barra. Tinha bastante gente na porta. Cambistas por todos os lados, causando um certo tumulto. O dr. Marcelo caminhou no meio das duas. De mãos dadas com a esposa, e com a mão no ombro de Marcela protetoramente. Isso a fez lançar para o pai um sorriso feliz.

O lugar deles era bem próximo do palco. Marcela olhou em volta. A pista cheia de cadeiras � lotada. Nem parecia que tinha sido cenário do Pan Americano...

Assim que o show começou, os pais se mantiveram sentados nas cadeiras. Um pouco sem graça ainda com a presença dela, talvez?

O pai chamou um ambulante, comprou cerveja, e ofereceu um copo para a filha. Marcela sorriu, aceitou, e agradeceu. Aos poucos, os três foram ficando cada vez mais descontraídos.

Marcela observava atentamente. Os pais, assim como as outras centenas de pessoas da idade deles cantavam junto cada música, com um sorriso imenso.

Quando começou a tocar �Have You Ever Seen the Rain�, os dois já estavam de pé. Além de cantando também estavam - para perplexidade total de Marcela - ddançando.

Marcela não sabia a música inteira, apenas algumas partes - graças aos anos passados na Inglaterra - mas se levantou e se juntou a eles.

A próxima música começou: �You�re in My Heart, You�re in My Soul�. A mãe levou os dedos à boca e� assobiou! Depois gritou para Marcela:

- Seu pai sempre cantava essa música pra mim...

- Cantava? Como assim?

Mas não deu tempo para a mãe responder, porque o dr. Marcelo puxou a esposa, e eles começaram a dançar juntos, os rostos coladinhos. Marcela observou os pais com um sorriso. Pareciam apaixonados e felizes... Uma imagem bem diferente da que fazia deles antes.

Absolutamente perplexa, viu o pai cantando o refrão, com uma voz muito afinada e bonita:

 

�You're in my heart, you're in my soul

(Você está em meu coração, você está em minha alma)
You'll be my breath should I grow old

(Você será minha respiração, devo ficar mais velho?)
You are my lover, you're my best friend

(Você é minha amante, você é minha melhor amiga)
You're in my soul (Você está em minha alma)

(�You're In My Heart� - Rod Stewart)

 

Quando a música terminou, os pais se beijaram. Depois olharam para Marcela, que estava olhando para eles boquiaberta. Dona Heloísa riu, e puxou a filha. E então a felicidade de Marcela foi completa, porque... os dois a abraçaram e beijaram carinhosamente.

Marcela ficou um pouco envergonhada, mas nem passou pela cabeça dela fazer outra coisa além de corresponder, com os olhos cheios d�água.

Olhou para a mãe e viu lágrimas nos olhos dela também. O pai também parecia emocionado. Passou o braço ao redor dos ombros de Marcela, e ficou assim, abraçado com ela. Dona Heloísa, por sua vez, segurou a mão da filha, enxugando disfarçadamente algumas lágrimas que escorriam.

Naquele momento, absolutamente feliz, Marcela pensou em Vivi. Mais ainda quando começou a tocar �Sailing�.

Ficou completamente emocionada, tomada pelo amor que ainda sentia por ela. E num impulso, seguindo o mais profundo e sincero de todos os desejos, sem pensar direito como nem porque, pegou o celular e ligou para a ruiva.

 

Vivi tinha acabado de sair do cinema quando o celular tocou. Estava distraída, comentando o filme com Ana Cláudia, por isso atendeu sem nem ver quem era:

- Vivi?

Quando ouviu a voz de Marcela ficou sem ação. Até parou de andar. Ana Cláudia estranhou:

- Que foi?

Vivi fez um gesto, como quem diz: �nada...� � e só então conseguiu dizer:

- Oi...

Completamente hesitante e sem graça. A reação dela fez Marcela perder totalmente a empolgação:

- Desculpe, eu... não devia ter te ligado...

Vivi ficou absolutamente confusa. Não falava com Marcela desde o reveillon. E de repente, do nada, um telefonema... Acabou dizendo:

- Não, tudo bem. Aconteceu alguma coisa? Você tá bem?

Marcela deu um sorriso triste. Fazia idéia do que Vivi devia estar pensando: que para ligar assim do nada, Marcela só podia estar bêbada, drogada ou sabe-se lá o que... Explicou:

- Tô ótima. Tô com meus pais num show, e... senti vontade de te ligar... Foi um impulso bobo, fiz sem pensar...

Vivi entendeu imediatamente. Adorou o fato de num momento de felicidade, Marcela ter pensado nela. E de ter ligado, com aquele jeitinho que Vivi amava...  Mas Ana Cláudia estava parada na frente dela, olhando fixamente para Vivi, sem entender nada.

Ainda assim, não teve como impedir que o coração falasse mais alto:

- Não... Adorei você ter me ligado.

Então Marcela não agüentou:

- Eu queria que você estivesse aqui...

Aquilo deixou Vivi desestruturada. Sem saber o que dizer, nem o que pensar. O coração acelerou. As mãos gelaram. Ana Cláudia disse, sem disfarçar que estava desconfiada:

- Vivi, quem é?

Do outro lado da linha, Marcela percebeu a situação de Vivi. Não ouviu a voz da morena, o som do show não deixava. Mas conhecia a ruiva bem demais. E os enormes silêncios e pausas, o jeito como ela respondia, diziam mais do que palavras. Afirmou, a voz muito triste:

- Você tá com a sua namorada...

Vivi confirmou, monossilábica:

- É.

E Marcela se sentiu a pessoa mais idiota do mundo. Sem esconder a tristeza, disse:

- Desculpe...

Vivi também ficou triste, mas não tinha nada que pudesse fazer. Falou, muito pouco à vontade:

- Preciso desligar...

- Ok.

- Tchau...

- Tchau...

 

Marcela desligou o celular. Guardou o aparelho apagado no bolso. O pai, que o tempo inteiro tinha  prestado atenção na conversa, mantendo o braço no ombro da filha, puxou Marcela e a abraçou. Um abraço firme, amoroso, protetor. Como nunca antes tinham dado. Pelo menos não que Marcela se lembrasse. Depois disse, no ouvido dela:

- Quando conheci a sua mãe ela me esnobava... Mas eu não desisti... Quando você quer realmente uma coisa, filha, tem que insistir... E vai por mim: ao charme dos Albuquerque de Moraes não tem quem resista...

Os dois riram juntos, cúmplices pela primeira vez na vida. Dona Heloísa implicou:

- Posso saber que tanto vocês cochicham?

E também abraçou os dois, absolutamente feliz.

 

- Vivi, eu... Eu...

Ana Cláudia começou a chorar. Convulsivamente. Sem se importar que estavam em público, sentadas num barzinho.

Vivi acariciou a mão dela, com o coração doendo, mas... O telefonema de Marcela tinha sido definitivo. Deixando completamente claro para a ruiva que  não queria mais sufocar o amor incontrolável que ainda sentia por ela...

Impossível protelar o inevitável:

- Por favor, Ana... Entenda...

- Não quero entender... Não quero terminar... Eu... Eu sou louca por você...

Como não ser cruel sem mentir? As lágrimas escorreram pelo rosto da ruiva. A morena agarrou a mão de Vivi soluçando. De um jeito desesperado, que Vivi nunca tinha visto antes:

- Fica comigo... Por favor, Vivi... Eu amo você...

Vivi suspirou, angustiada... Aquela era, sem sombra de dúvida, uma das situações mais difíceis que já tinha tido que enfrentar. Pena era a pior coisa que se podia sentir por uma pessoa, mas... naquele momento, não estava conseguindo evitar... Se manteve firme, tentando não ser fria demais:

- Ana Cláudia... Eu não quero mais.

A morena insistiu. Parecia se recusar a acreditar no que Vivi dizia:

- Por que? O que tá faltando? Me fala... É só você me dizer, e eu mudo, corro atrás, faço qualquer coisa pra você não terminar comigo...

Já que não encontrou uma forma mais fácil, nem mais suave, resolveu dizer com todas as palavras:

- Ana... Não posso continuar namorando você sendo apaixonada por outra pessoa...

O efeito das palavras sobre Ana Cláudia foi imediato. O rosto dela endureceu, se tornou rígido. As lágrimas cessaram. A morena respirou profundamente, como se o ar faltasse. Olhou bem fundo nos olhos verdes, se levantou, e foi embora sem dizer uma palavra.

A primeira coisa que Vivi fez foi tomar o resto do chope que estava na frente dela. A segunda foi ligar para Marcela. Mas o celular dela estava... fora da área de cobertura, ou desligado... Pegou o chope que Ana Cláudia tinha deixado inteiro, e bebeu de uma vez só.

 

Vivi estava insegura. Com medo quase. Passou os três dias seguintes fazendo daimoku, juntando forças para procurar Marcela.

O dia seguinte era 16 de Março. Dia do Kossen-Rufu e aniversário de Vivi. Inevitável encontrar Marcela na reunião de Jovens importantíssima que teria.

Uma parte do presente que Vivi queria já tinha se dado. Finalmente tomando coragem e conseguindo terminar com Ana Cláudia.

A outra parte, estava determinada a conseguir no dia seguinte: voltar a ter  Marcela como namorada...

 

 

Capítulo 37: A Roda da Fortuna Gira Novamente...

Quando Vivi acordou no dia seguinte, foi abraçada e beijada entusiasticamente pelos pais e Carol. Passou a manhã e o começo da tarde atendendo a milhares de telefonemas de amigos e familiares. Praticamente todas as pessoas que conhecia ligaram. Menos uma: Marcela.

 

Marcela sabia perfeitamente que era aniversário de Vivi. Mas não teve coragem de ligar. Não depois da forma como Vivi a tinha tratado da última vez que tinha telefonado...

Controlou a vontade que sentia, se ocupou como podia... Quando já não agüentava mais, ligou... para Aline.

Estranhou quando ela atendeu com uma voz absolutamente triste. Porque a amiga estava pulando de felicidade. Tinha conhecido uma garota, que segundo ela, era... perfeita...

Quando perguntou o que tinha acontecido, Aline apenas disse:

- Meu carma... o fantasma da ex namorada...

- Como assim?

- Ontem a gente saiu... Fomos pro motel... Foi tudo de bom, exatamente como anteontem, mas... Quando acabou, ela me disse que não podia mais me ver, porque ainda era apaixonada pela ex...

Aline começou a chorar. Marcela esperou ela se acalmar, antes de dizer:

- Não fica assim...

- Tô arrasada, Marcelinha... Tô completamente apaixonada por essa mulher...

Marcela ainda tentou argumentar:

- Mas você só saiu com ela duas vezes...

- E quantas vezes precisa pra se apaixonar? Foi amor à primeira vista...

As palavras de Aline fizeram Marcela se lembrar da loucura que sentia por Gisele... Também tinha sido assim... À primeira vista... A comparação a fez temer ainda mais pela amiga. Que continuou se derretendo toda:

- Ela é maravilhosa, deliciosa, inteligente... Tudo de bom... Claro que não ia querer ficar comigo...

Marcela a cortou. Não ia permitir que Aline se depreciasse daquele jeito:

- Chega de lamentação! Vem comigo na reunião, que tal? Você sabe muito bem que vai sair outra de lá...

Mas Aline parecia realmente deprimida, porque... não disse nem que sim, nem que não. Apenas voltou a chorar.

 

Vivi se arrumou inteira. Caprichou mesmo, como sempre fazia quando estava insegura.

Chegou na Barão da Torre, no Kaikan de Ipanema, um pouco mais cedo.

Bem a tempo de ver Marcela entrando, com o case do violão pendurado nas costas. Cercada de pessoas. Uma delas Carol.

Marcela estava com Carol e outras garotas e rapazes da comunidade, conversando muito animada quando Vivi apareceu.

Bem a tempo de Marcela segurar o portão para que ela entrasse. Linda, absolutamente linda. Marcela ficou olhando para ela boquiaberta, paralisada, encantada...

As duas se cumprimentaram timidamente. Marcela gaguejou, perturbada como sempre ficava com a simples presença da ruiva:

- Parabéns, Vivi... Feliz Aniversário...

A beijou no rosto, de uma forma muito doce e suave. O contato das peles fazendo com que ambas se arrepiassem. Vivi a olhou profundamente. Como se fosse dizer algo. Marcela ficou sem ter certeza, porque... um dos rapazes a chamou:

- Vamos, Marcela... Precisamos ensaiar...

Marcela olhou novamente para Vivi. As esmeraldas brilhavam intensamente. Precisou fazer um esforço enorme para conseguir dizer:

- Tenho que ir...

Com um sorriso capaz de fazer Marcela esquecer de tudo, Vivi respondeu:

- Tudo bem... Só queria te dizer que...

Vivi olhou para o chão. Suspirou profundamente, tomando coragem. E então mergulhou novamente na turbulência dos olhos negros:

- Marcela, quero muito conversar com você.

De longe, o rapaz insistiu:

- Marcela...

Sem desviar os olhos dos verdes, prisioneira que estava das chamas flamejantes, Marcela gritou para ele:

- Já vou...

E depois, baixinho para Vivi, com a voz muito doce:

- Pode ser depois da reunião?

Apesar da ansiedade que a consumia, Vivi respondeu:

- Claro.

Não querendo atrapalhar, pois sabia muito bem que Marcela tinha coisas importantes para resolver.

Caminharam juntas até a sala, onde Vivi entrou, sentou ao lado de Carol, e começou a fazer daimoku.

Marcela se juntou ao grupo que a esperava para ensaiar. Passaram a música que iam tocar três vezes. Em nenhuma delas Marcela conseguiu se concentrar. Só conseguia pensar nos olhos verdes, louca para descobrir o que Vivi tanto queria conversar.

 

A reunião foi maravilhosa como sempre. Isso Vivi só podia supor, porque... não conseguiu prestar a menor atenção. Tensa, nervosa, quase tonta de expectativa. Foi quando o momento cultural começou.

Marcela foi para a frente com o violão, acompanhada de três rapazes com: triângulo, zabumba e outro violão. Começaram a tocar.

Os olhos negros procuraram, vasculharam a sala, até encontrarem o brilho dos verdes. Olhando Vivi profundamente, fazendo a ruiva se arrepiar inteira, porque como sempre, a voz de Marcela saiu suave, linda, perfeita:

 

�Vem ficar comigo e pegue
Toda forma de paixão e ocasião
Que a vida só concede
A quem liberta o coração
Siga a força que persegue
A criança que não teme
O tombo e consegue
Superar a tal barreira
Brincando com a razão
Se livrar do alçapão
Armadilhas que apontam
Para um sonho tolo

Que não é teu
Não é a tua paixão

Não...
Se ligar no ensejo
Que afirma a realização
Do teu desejo mais ardente
E amar

Soltar o seu coração

Sim...�

(�O Toque� � Raiz do Sana)

 

Quando terminou, Marcela agradeceu, achando estranho porque... Vivi parecia muito emocionada. Mais ainda quando Marcela anunciou:

- Gente, além do dia do Kossen-Rufu, hoje também estamos comemorando o aniversário de uma pessoa muito especial. Tenho muito orgulho em dizer que esse grande valor é minha apresentadora: Vivi... Parabéns, linda!

E puxou um �Parabéns pra você� que foi acompanhado entusiasticamente por todos. Levando Vivi às lágrimas.

A reunião acabou, daimoku sansho, e... Vivi foi cercada por pessoas que queriam a abraçar e beijar.

Marcela, por outro lado, também foi cercada. Por pessoas que queriam falar com ela e a parabenizar pela música. Falou com todas rapidamente, e se aproximou de Vivi, mas Carol a puxou para um canto:

- Marcela, sua entrevista vai ser nessa sala, daqui a pouco, tá? Não sai daqui.

Marcela suspirou. Tinha até esquecido da entrevista com a responsável do Distrito, para poder ser nomeada dirigente de um dos blocos da comunidade.

- Tudo bem.

Respondeu, um pouco contrariada, porque ia ter que adiar um pouco mais aquilo que tanto desejava: finalmente conversar com Vivi.

 

Vivi abraçou e beijou o que para ela pareceu ser uma quantidade interminável de pessoas.

Marcela ficou por perto, mas só se aproximou quando todos se afastaram. Abraçou Vivi com força, desejando parabéns novamente. Sentiu que a ruiva correspondia completamente. Não sabia se estava imaginando coisas, mas... teve a nítida impressão de que o abraço não tinha sido nada indiferente... Que Vivi a apertava com paixão e... amor...

Explicou que tinha uma entrevista. Perguntou se Vivi poderia esperar um pouco... Morrendo de medo de que a ruiva mudasse de idéia e dissesse não.

Vivi tinha combinado com alguns amigos comemorar o aniversário dela no Sindicato do Chopp da Farme. Alguns, como Carlinha e Rafa, até já tinham chegado. Por isso pediu para Marcela a encontrar lá.

Bastante aliviada, na verdade radiante por ter sido convidada por Vivi para festejar com ela o aniversário, Marcela concordou sem hesitar.

Vivi a olhou profundamente � como se quisesse queimar Marcela nas chamas verdes. E pediu, de uma forma inegavelmente sedutora:

- Tô te esperando... Não demora...

 

Carlinha estranhou quando Vivi pediu uma Caipivodka. Mas não disse nada. A ruiva a olhou, e sem saber direito porque, explicou:

- Só pra relaxar... E dar um pouco de coragem... Vou precisar...

 E bebeu numa velocidade que, para ela, era bastante rápida.

 

Marcela respondeu a todas as perguntas, com Carol do lado. Um tanto quanto desconcentrada. Não via a hora de sair dali e encontrar Vivi no Sindicato.

Depois de últimas recomendações, e de ser parabenizada, finalmente saiu da sala.

Quando já estava chegando no portão, o celular tocou. Marcela atendeu, e... apesar da voz do outro lado ser muito calma, na visível intenção de tranqüilizá-la, ficou em choque.

 

O celular de Vivi tocou. Ela atendeu imediatamente quando viu que era Marcela.

Carlinha não ouviu o que a pessoa do outro lado falou, mas... pela cara de decepção de Vivi, nada de bom. Perguntou, assim que a ruiva desligou:

- Quem era? Que foi? Aconteceu alguma coisa?

Nunca tinha visto Vivi daquele jeito antes. A ruiva era pura mágoa e irritação:

- Era a Marcela. Não pode vir, porque... a amiga dela sofreu um acidente de moto, e...

Carlinha nem a deixou terminar:

- A Aline? Como ela tá? É grave?

Vivi deu de ombros, absolutamente enciumada:

- Sei lá. A Marcela vai me ligar depois, quando estiver no hospital. Aí você pergunta pra ela.

Racionalmente, Vivi entendia, achava certa a postura de Marcela. De se preocupar e ajudar a amiga. Emocionalmente... Aí já era bem diferente...

De um jeito chateado, quase revoltado, a ruiva virou o resto da Caipivodka, e pediu outra para o garçom.

 

Marcela chegou no hospital morrendo de preocupação. Felizmente, o acidente não tinha sido grave. Aline estava no quarto, deitada na cama, com a perna direita engessada. Abriu um imenso sorriso quando viu Marcela:

- Que bom que você veio... Desculpe te atrapalhar, Marcela, mas... sabe que eu tenho pavor de hospital...

Depois de se certificar de que a amiga estava realmente bem, pegou o celular e ligou para Vivi.

 

Quando Vivi começou a beber a quarta Caipivodka como se fosse água, Carlinha interferiu:

- Vivi, acho melhor pedir uma Coca pra você...

A voz da ruiva soou bastante alterada:

- Não... Quero beber mais...

Carlinha então chamou Carol. A única que poderia ajudar. Carol sentou ao lado da irmã, e foi direta � como sempre, aliás:

- Que tá acontecendo, Vivi? Nunca te vi bêbada antes...

Vivi riu. De uma forma... quase descontrolada. Que acompanhava a impressão de que tinha: que o mundo... girava... Depois respondeu:

- Hoje é meu aniversário... Quero beber, que que tem?

Foi quando o celular de Vivi tocou. Ela atendeu, um pouco atrapalhada:

- Marcela? Oi!

Marcela estranhou. Vivi parecia... no mínimo, alta... Não conseguia acreditar:

- Vivi, você tá bêbada?

A ruiva riu. De uma forma absolutamente debochada. E respondeu agressivamente:

- Ainda não. Mas vou ficar.

Deixando Marcela muito preocupada:

- Deixa eu falar com a Carol.

Com um suspiro de raiva, Vivi entregou o celular para a irmã. Falando tão alto que Marcela conseguiu escutar:

- Toma. A Marcela quer falar com você. Acho que vocês duas deviam namorar...

Carol não disse nada. Apenas atendeu:

- Marcela? Oi...

A voz de Marcela soou inquieta, ansiosa:

- Carol, que tá acontecendo?

- Sinceramente? Também não sei...

Com um suspiro, Marcela disse:

- Tô indo praí o mais rápido possível...

Carol tentou tranqüilizá-la, sem muito resultado:

- Fica tranqüila, tá tudo sob controle...

Desligou, e devolveu o celular para Vivi. Não teve tempo de falar nada, porque... Nesse exato momento, Ana Cláudia chegou.

Vivi se levantou, e... recebeu a morena com um beijo na boca.

 

Ana Cláudia ficou espantada, surpresa, assustada, mas... obviamente, correspondeu. Vivi a beijou demoradamente. Depois falou:

- Vamos pro �Cine Ideal�?

Ninguém conseguiu convencer a ruiva do contrário. Se despediu dos amigos tropeçando, falando alto... Nitidamente embriagada...

Carol estava perplexa... Não só pelo fato da irmã estar pela primeira vez na vida bêbada, nem por ter beijado Ana Cláudia � por quem obviamente não era nem um pouco apaixonada. Mas também porque achava um absurdo a aniversariante abandonar os convidados... Alguns ainda nem tinham chegado...

Foi com Vivi contrariada. Só para poder tomar conta dela e, se possível, evitar que a irmã cometesse mais insanidades...

Carlinha e Rafa também foram com elas. Amigos que eram. De verdade.

Vivi foi no carro das amigas de Ana Cláudia. Parecia possuída. Não queria pensar, nem se controlar. Queria apenas... satisfazer todos os desejos e instintos. O resultado disso? Altos amassos com a morena no banco de trás. 

 

Marcela teve que esperar os pais de Aline chegarem. Não queria deixar a amiga sozinha no hospital. Isso demorou mais de duas horas depois de ter falado com Carol.

Entrou no carro e ligou para Vivi, mas... ninguém atendeu. Então, telefonou para Carol. O tempo que a outra demorou para atender pareceu uma eternidade. No fundo, Marcela pode ouvir um barulho ensurdecedor. Sinal de que elas estavam numa boate.

- Oi, Marcela...

- Carol, onde vocês tão?

Carol respondeu, praticamente gritando:

- Num lugar chamado �Cine Ideal�... A Vivi insistiu pra gente vir pra cá...

Marcela gelou. Sem entender porque Vivi tinha que ter escolhido justo aquele lugar, cenário da pior de todas as recordações... Pensou em mil razões. Nenhuma boa. Carol continuou:

- Antes de você vir, quero te avisar... A Vivi tá num estado lamentável...

Mesmo sabendo perfeitamente que daquilo não sairia nada de bom, Marcela não tinha como evitar.

Na verdade, uma estranha intuição insistia em dizer que devia isso à Vivi. Que na verdade, acontecesse o que acontecesse, seria necessário se um dia quisessem se acertar.

O coração estava apertado de medo, das surpresas desagradáveis que poderia ter... Todas merecidas. Como quem dá o pescoço ao carrasco, disse:

- Tô indo praí...

 

Marcela se aproximou da pista. Estava tocando �Don�t Stop the Music� (Rihanna).

Vivi estava dançando. Daquele jeito maravilhosa e deliciosamente provocante dela, de parar o trânsito. Chamando total e absoluta atenção.

Ana Cláudia estava atrás dela, se esfregando na ruiva. Mas a atenção de Vivi estava toda voltada para a garota na frente dela, de cabelo channel preto com mechas azuis. As duas começaram a dançar juntas, os corpos se encostando, de forma cada vez mais insinuante...

Os olhos negros acompanharam quando Vivi passou os braços ao redor do pescoço da garota, que a segurou pela cintura. As bocas se encostaram, no mesmo momento em que Marcela parou ao lado de Ana Cláudia. As duas ficaram observando � perplexas - Vivi e a garota das mechas azuis se beijarem...

 

 

Capítulo 38: Esmurrando a Faca Cega da Paixão...

Aquele beijo pareceu demorar uma eternidade. As mãos da garota se tornaram cada vez mais ousadas, mas Vivi não resistiu. Pelo contrário, correspondeu ardentemente.

Ana Cláudia não agüentou. Saiu quase correndo, desaparecendo no meio da multidão. Marcela esperou pacientemente. Fazendo um esforço sobre humano para não arrancar Vivi dos braços da outra com violência.

Quando as bocas se separaram, Vivi finalmente percebeu a presença de Marcela. A ignorou propositalmente. Sem se soltar dos braços da garota, provocou, sussurrando alto o bastante para que Marcela ouvisse:

- Adorei... Que tal a gente...

Não conseguiu terminar a frase. Marcela a puxou com força, movida por um impulso incontrolável. Arrastou Vivi até um canto, com a ruiva protestando sem parar.

Encostou Vivi na parede, e colocou as mãos ao lado dos ombros dela, prendendo-a no meio. Tão próximas que podiam sentir o calor do corpo uma da outra, as respirações alteradas pela raiva, proximidade e conflito...

Os olhos se fuzilaram. O cintilar verde queimando, irado. Os negros como um mar em tempestade. Foi Marcela quem falou primeiro:

- O que você pensa que tá fazendo?

Com uma gargalhada, Vivi respondeu:

- Me divertindo. Posso?

Marcela suspirou profundamente. Passou a mão nos cabelos, se acalmando antes de dizer:

- Não quero que você faça nada que depois possa se arrepender... Arrependimento é uma merda, Vivi... Sei disso melhor do que ninguém...

A voz de Marcela soou doce demais, carinhosa demais... Mas Vivi ignorou. A raiva que estava sentindo não permitia nenhum outro tipo de reação. Com uma ironia que Marcela nunca tinha visto nela, respondeu:

- Você realmente mudou... Virou uma chata completa...

Ameaçou se afastar, mas Marcela a segurou pelos braços, e a puxou de volta, colando-a de novo na parede.

- Me deixa em paz, Marcela... Dá licença?

Disse, tentando em vão se livrar das mãos dela.

- Vivi, não tô te reconhecendo... Bêbada, agarrada com uma pessoa que nunca viu na vida... Isso não tem nada a ver com você...

Vivi riu. Um riso que refletia mágoa, revolta e uma profunda dor, quando respondeu:

- Cansei de ser certinha, meu bem...

Mergulhou o incêndio verde nos olhos negros. As esmeraldas cintilando de uma forma que Marcela não reconheceu. Como se Vivi fosse outra pessoa. Estranha, desconhecida e... perigosamente sedutora...

Marcela estremeceu. Soltou os braços da ruiva, como se tivesse levado um choque. Por um instante derradeiro, Vivi não se moveu.

Ficou se esforçando para focar Marcela com os olhos trêmulos. Uma enxurrada de sentimentos indescritíveis a percorria. No meio da confusão, uma única coisa inegável, irresistível: a atração que as envolvia.

Seguindo um impulso irracional intenso, colou o corpo no de Marcela, escorregou a mão pelo pescoço dela lentamente, e a puxou pela nuca. As bocas se encontraram, absolutamente famintas, apaixonadas, ardentes... Causando arrepios nas duas...

Marcela suspirou contra os lábios de Vivi... A língua da ruiva se enroscando na dela com uma urgência sedenta, profana, louca. De um jeito que nunca tinha feito antes.

Inédito também foi o jeito como Vivi a tocou. Acariciou a pele de Marcela por baixo da camiseta com um ardor exigente, envolvente, dominador. Sem se importar nem um pouco com o fato de estarem em público. Marcela gemeu, e com muito esforço, lutando contra si mesma, afastou as mãos da ruiva.

Vivi interrompeu o beijo e se soltou de Marcela, voltando a se encostar na parede. Dardejou um olhar irônico, debochado, quase agressivo.

Antes de guiar a mão de Marcela para baixo da saia dela, a fazendo percorrer a coxa que queimava, e a colocar dentro da calcinha. Disse com a voz maliciosamente rouca, deixando claro que não ia admitir um não como resposta:

- Quero que você me coma... Quero dar pra você...

Marcela respondeu com muita dificuldade, ofegando, o coração batendo tão forte que parecia poder saltar para fora do peito:

- Assim não, Vivi... Você tá bêbada, não sabe o que tá fazendo...

Vivi soltou uma gargalhada estrondosa. Sem acreditar que Marcela a estivesse recusando, rejeitando. Provocou, dizendo:

- Se você não quer, tem quem queira, meu bem...

Marcela ainda tentou protestar:

- Não é isso... Eu...

Mas Vivi não agüentava mais a hesitação de Marcela. Estava em brasas e ela... com uma ladainha irritante... Disposta a conseguir o que queria, encerrou definitivamente a discussão:

- Cala a boca, Marcela... Cala a boca e me beija...

As bocas se colaram novamente. Um beijo tão desesperado que quase não conseguiam respirar direito. Marcela perdeu completamente a cabeça. Mandou todo e qualquer tipo de bom senso para o espaço. Acariciou Vivi, se deliciando quando a ruiva correspondeu, se agarrando à ela, satisfeita, movendo os quadris de uma forma absurdamente provocante.

Sem conseguir nem querer resistir, Marcela cedeu. Se rendeu completamente aos beijos, movimentos e desejos ardentes de Vivi. Fez tudo o que a ruiva queria, desejava, exigia... A penetrou com os dedos, quase morrendo de tanto prazer.

Vivi apertou Marcela com força, enfiando a mão na nuca dela, gemendo apaixonadamente. Ergueu um pouco uma das pernas, facilitando, tornando o contato mais profundo e intenso.

Marcela acelerou os movimentos, fazendo Vivi gemer mais alto, no ouvido dela, várias e várias vezes.

Marcela sentiu o corpo da ruiva se contraindo, estremecendo. Gemeu junto com ela, a entrega e a voracidade da ruiva a enlouquecendo. Exatamente como da outra vez...

 

Ficaram um tempo abraçadas, as respirações e pulsações voltando ao normal lentamente. Vivi suspirou quando Marcela tirou os dedos de dentro dela com cuidado.

Ficaram alguns minutos num profundo e absoluto silêncio, quebrado apenas pelo bater acelerado dos corações, que pareciam amplificados de tão intensos.

O receio que Marcela sentia de ser rejeitada era imenso. Porém, bem menor do que a curiosidade de saber o que Vivi estava sentindo e pensando naquele momento...

Vivi respirou fundo, agarrada em Marcela, os lábios encostados no pescoço dela, aspirando o perfume que adorava... Inevitável que milhares de recordações tomassem conta dela... Como ondas num mar revolto. Vivi nadou na corrente de sensações e emoções, passando por todas elas, exceto uma... Que precisava ultrapassar, extirpar, resolver de uma vez por todas.

Colou a boca no ouvido de Marcela, e murmurou, num tom de voz agridoce, com uma intenção que Marcela não conseguiu compreender:

- Quero uma outra coisa de você...

Repentinamente, sem nenhum aviso, pegou Marcela pela mão e a puxou. Passaram pelo meio da pista, Marcela seguindo Vivi, que dançava sensualmente na frente dela, ao som de �Believe� (The Chemical Brothers).

Cruzaram com Carol, Rafa e Carlinha, mas Vivi não parou. Continuou quase arrastando Marcela, que ficou tensa quando finalmente percebeu para onde a ruiva a estava levando.

Quando entraram no banheiro, Marcela tentou protestar. Mas Vivi não estava nem um pouco disposta a conversar. Colou a boca na de Marcela e a puxou para o mesmo reservado onde a tinha visto com Gisele.

 

Vivi se agarrou à Marcela com loucura, colando os lábios num beijo irracional, faminto, cheio de desespero.

Marcela se entregou ao beijo, apesar de estar com um inquietante mau pressentimento.

Vivi passou a tocar Marcela quase com fúria. O beijo se tornou cada vez mais feroz, brutal, punitivo. A língua se enfiando, buscando, invadindo com uma voracidade violenta.

Marcela tentou demonstrar todo o amor, paixão, desejo que sentia, mas Vivi parecia querer arrancar, exorcizar algo de dentro dela. E Marcela sabia muito bem o que.

A ruiva levantou o vestido até o pescoço. Empurrou a cabeça de Marcela para baixo. Marcela não pensou duas vezes. Beijou, sugou, chupou os seios que se ofereciam ardentemente.

Vivi suspirou e arquejou, puxando os cabelos negros com força. Guiando a boca de Marcela para baixo novamente.

Marcela se deixou levar, sem oferecer resistência. Percorreu a pele de Vivi com os lábios e a língua, fazendo a ruiva se contorcer e gemer.

Mas Vivi a obrigou a parar o que estava fazendo, a puxando novamente pelos cabelos. Marcela olhou para as esmeraldas, surpresa. Com um brilho absolutamente permissivo, desconhecido, Vivi ordenou:

- Tira a minha calcinha.

Com um misto de perplexidade e receio, Marcela obedeceu. Com o mesmo  tom de voz, Vivi disse:

- Quero gozar na sua boca...

Marcela hesitou. Por um breve momento. Com medo de que a reação de Vivi fosse a mesma da última vez. Mas a voz da ruiva se tornou suplicante, irresistível:

- Marcela... Me chupa...

Fazendo Marcela perder o controle. Mergulhou com vontade no sexo dela. De forma absolutamente carinhosa, apaixonada, ardente.  Vivi se contorceu, gemeu... Mas não ficou satisfeita:

- Põe os dedos...

Marcela fez o que Vivi queria, de forma intensa. Sem conseguir conter os arrepios que a percorriam incontroláveis, intermináveis.

Explorou, preencheu, percorreu, se deliciou com ela. O coração batendo no compasso da pulsação de Vivi, que em princípio se entregou, se abriu completamente sob os lábios e os dedos de Marcela.

De repente, uma imobilidade estranha tomou conta de Vivi. As lembranças da outra noite se misturando com o que estava acontecendo. A comparação a atingindo como um doloroso choque, que a deixou profundamente magoada, machucada, ferida...

Marcela ameaçou parar, mas a ruiva a impediu. Segurou a cabeça dela com as mãos, empurrou o rosto de Marcela com força, dizendo:

- Não para... Faz com mais força... Com vontade, Marcela... Como eu vi você fazendo com aquela mulher...

Marcela gelou. Ficou estática, sem conseguir se mover. Vivi esfregou o sexo contra o rosto dela, exigindo:

- Continua... Faz comigo o que você fez com ela...

Vivi puxou os cabelos de Marcela com força. O cintilar verde absolutamente intenso. Fervendo, queimando, ardendo... Não de tesão ou desejo.

Com um prazer enraivecido. Profundo, profuso, descontrolado... Quase doentio...

Aquilo a surpreendeu, atingiu e magoou tanto, que Marcela se livrou das mãos de Vivi com um safanão. Caiu sentada no chão e recuou, até encostar as costas na outra parede.

Vivi começou a chorar. Agachou no chão, na frente de Marcela, com o rosto escondido entre as mãos, o corpo sacudido por soluços desesperados, quase histéricos.

Marcela a olhou, incapaz de evitar o aperto que sentiu no peito. Se aproximou cautelosamente. Tentou abraçar Vivi, mas a ruiva se virou contra ela como se estivesse possuída:

- Não me toca!

Ignorando os protestos dela, Marcela a abraçou. Vivi se debateu inutilmente entre os braços dela. Acabou agarrada aos ombros de Marcela, soluçando e dizendo:

- Como você pôde fazer isso comigo? Por que, Marcela? Por quê? Ela é mais gostosa, é isso? Também posso ser vagabunda... Tão vagabunda quanto ela...

E voltou a chorar convulsivamente. Marcela acariciou os cabelos vermelhos com um profundo desespero. As lágrimas caindo dos olhos negros incontrolavelmente:

- Vivi... Não fala assim... Eu amo você... Te amo muito, de um jeito que nunca vou amar ninguém...

Uma gargalhada debochada � quase feroz de tanto ressentimento - saiu da garganta de Vivi:

- Ama? Você me ama? Se me amasse mesmo não teria feito o que fez...

Marcela segurou o rosto de Vivi entre as mãos, numa tentativa inútil de olhar nos olhos dela, porque... os verdes se recusavam. Se desviaram, se negaram, se esconderam...

- Por favor, Vivi... Me escuta... Preciso que você entenda... Eu tava drogada... Louca, fora de controle... Senão nunca teria feito aquilo... Foi um erro... O maior da minha vida... Vivi, eu tô pagando até hoje pelo que eu fiz.. Você não tem noção do quanto eu me arrependo... Do quanto eu tô sofrendo...

- Nem a metade do que merecia... Quer falar sobre sofrimento? Sobre dor? A sua é tão menor do que a minha... Você tinha acabado de transar comigo... Eu não te perdôo, Marcela! Não consigo me livrar disso... O que você fez tá acabando comigo...

Vivi se levantou, trôpega. Se apoiando na parede para não cair. Marcela a segurou. Pedindo, implorando, suplicando:

- Por favor, Vivi...

- Me larga! Me solta! Sua escrota! Sua filha da puta!

Tomada por uma fúria repentina, Vivi começou a bater em Marcela. Com ódio, querendo machucar mesmo.

Marcela se defendeu como pôde, bloqueando os tapas e socos com as mãos e com os braços.

Vivi a acertou várias vezes. Mas não ficou satisfeita. Marcela não ligou para a dor física. O que sentia por dentro era muito pior.

Acabou segurando os pulsos da ruiva, que se debateu, tentando se soltar. Xingando Marcela no meio das lágrimas que escorriam.

Marcela a imobilizou, levantando os braços de Vivi acima da cabeça, a prendendo contra a parede com o corpo. O contato imediatamente causando um incêndio, terminando definitivamente com toda e qualquer racionalidade que as duas ainda pudessem ter.

As bocas se engalfinharam... Num beijo ardente. Fogo, brasas, lava... Chamas. Descontroladas, incandescentes...

Um excitante, atordoante, impressionante esquecimento as envolvendo...

A respiração sufocada pulsando, ofegando e quebrando o silêncio que se estabeleceu. As peles parecendo dissolver, no desejo e ânsia de se fundirem novamente.

Vivi saboreou, devorou a boca de Marcela, as mãos voltaram a percorrer o corpo dela inteiro.

Marcela passeou os lábios pelo pescoço de Vivi, arrancando suspiros e arrepios. Levantou o vestido da ruiva e mergulhou a boca no colo, nos seios... Sem trégua, nem rodeios. Desceu a boca pela barriga dela e mergulhou nas coxas, os dedos já afastando a calcinha com agilidade, a penetrando apaixonada e vorazmente.

Vivi gemeu, se entregou, se ofereceu... Se contorcendo sob o jugo alucinante do prazer... Até explodir nos dedos, na boca, na língua dela, num gozo demorado e intenso. Se rendendo, saltando, se lançando de cabeça na paixão e no amor incontroláveis que sentia por Marcela.

 

 

Capítulo 39: Passo a Passo...

Quando tudo terminou, Marcela estava tão ofegante quanto Vivi. Continuou ajoelhada na frente dela, sem a tocar. Levantou a cabeça e olhou para a ruiva. Esperou, em suspenso, absolutamente estática.

Vivi continuou alguns instantes imóvel, de olhos fechados, as mãos encostadas na parede, dando uma impressão de que era isso, somente isso, que a sustentava.

Sentia uma espécie de febre fria, dormente, gelada. Que a fazia desejar que um buraco se abrisse e a engolisse. Incapaz que estava de encarar Marcela novamente...

Quando Vivi finalmente abriu os olhos, o brilho verde estava... vazio.  Profundo, difuso, desnudo... Uma mandala de sofrimentos... Encontrou e se fixou nos negros, tão escuros quanto eles.

Uma dolorosa compreensão se abateu sobre Marcela. Quase um desespero. Impressão angustiante, devastadora, sufocante que a consumia: para ela o brilho verde estava... extinto.

Ficaram se olhando, em absoluto e total silêncio. As palavras, gestos, sentimentos, toda e qualquer coisa que as ligasse parecendo agora irrelevantes, inexistentes. Como se não se conhecessem.

Marcela se afastou, numa negação inconsciente. Ainda de joelhos. Até encostar na outra parede. Vivi observou o movimento, sem nada fazer.

Distantes, um abismo acenando entre elas. Como se pertencem a  vidas, mundos que não se cruzassem, planetas distantes, galáxias diferentes.

Poderiam se dizer o que quisessem, já não importava. Incompreensível. Intransmissível. Inexplicável.

Esse sentimento invadiu as duas, idêntico. A igualdade irônica que agora as separava. Não era bem um tormento, era mais como uma fenda, um pequeno orifício no peito, por onde a felicidade escapasse.

Voltaram a se olhar, em meio ao vácuo inquebrantável. Inexpressivas, abatidas, apáticas.

E então, aos poucos, bem devagar, os olhares se soltaram. E se voltaram para dentro. Cada uma para sua própria e insuportável verdade.

Vivi vestiu a calcinha, ajeitou o vestido, e saiu do reservado.

 

 Encontrou Carol na porta do banheiro. A irmã estava absolutamente preocupada. Mas o que Vivi menos queria naquele momento era conversar:

- Por favor, Carol... Me deixa em paz...

Carol a segurou pelo braço. Levou Vivi para um canto, e falou:

- Que que você tá querendo, Viviane? Acumular o máximo de carmas e causas negativas possíveis? Parabéns, tá conseguindo...

Vivi se assustou. Nunca tinha visto Carol perder a calma daquele jeito. Até a voz dela estava alterada. Como se uma revolta imensa a dominasse.

Carlinha e Rafa ficaram à distância, sem coragem de se aproximarem. Carol continuou:

- Olha só, eu não sei o que aconteceu entre você e a Marcela, mas...

O fato da irmã sempre tentar defender Marcela irritou Vivi profundamente. Tanto que a cortou:

- Não sabe? Pensei que a Marcela te contasse tudo...

Carol não parecia nem um pouco disposta a tolerar os ciúmes infundados da irmã:

- Vamos parar com essa infantilidade? Tô de saco cheio! Sou responsável dela porque você mandou a Marcela pra minha comunidade!

Bastante contrariada, Vivi apenas respondeu:

- Tive meus motivos, apesar de ninguém acreditar. Vocês não iam adorar a Marcela tanto assim se eu tivesse contado a verdade.

Carol respirou fundo, numa evidente tentativa de se acalmar. A voz soou quase suave:

- Vivi, nada justifica o que você tá fazendo. E você sabe.

Os olhos verdes se encheram de lágrimas. Vivi soltou, num desabafo:

- Queria ver você no meu lugar. Se entrasse no banheiro e pegasse a sua namorada com a cara enfiada no meio das pernas de outra mulher...

Vivi não falou aquilo baixo. Carlinha e Rafa escutaram de onde estavam. Carlinha colocou a mão na boca. Rafa olhou para os sapatos.

Os olhos de Carol se arregalaram por um momento e então se desviaram, com uma expressão preocupada. Vivi seguiu o olhar da irmã, sem entender nada. Até se deparar com Marcela, parada na porta do banheiro, estática. Uma dor profunda refletida nos olhos negros.

Sem conseguir encarar os amigos, Marcela passou por eles. Envergonhada, arrasada, desesperada. Foi até o bar. Pediu uma cerveja, virou como se fosse água, apenas para, logo em seguida, pedir mais.

 

O olhar que Carol lançou para Vivi foi sério, mas suave. Impossível não escutar:

- Vivi... Quantas pessoas mais você quer magoar? A Ana Cláudia saiu daqui chorando, quase carregada. E a Marcela...

A impediu antes que Vivi pudesse retrucar:

- Não interessa o que você vai falar. A Marcela usava drogas, bebia, tentou se matar... Tá querendo dar um empurrãozinho pra ela voltar a ser como antes? Ou tava tão preocupada pensando em você mesma que já nem se lembrava mais? 

Vivi piscou, perdeu a respiração, a fala... Compreendendo finalmente o que a irmã falava. Estremeceu, como se um raio a acertasse, todas as emoções descendo com a fúria de uma tempestade. Foi inevitável: começou a chorar. Soluçando como se algo dentro dela tivesse rasgado.

Carol a abraçou, até a irmã se acalmar:

- Vai com a Carlinha e o Rafa pra casa... Põe a cabeça no lugar... Amanhã a gente conversa... Sabe que não tem nada impossível de transformar...

Deu dois beijos na irmã, e começou a se afastar. Vivi ainda perguntou:

- Aonde você vai?

Carol respondeu simplesmente:

- Vou fazer o que tenho feito o tempo inteiro: vou cuidar da minha cunhada...

 

Quando Carol encontrou Marcela, ela já estava enturmada numa rodinha, esperando para fumar o baseado que passava de mão em mão.

Carol não conversou. Pegou Marcela pelo braço e a puxou até chegarem na calçada.

Em nenhum momento Marcela resistiu. Estava profundamente envergonhada. Não conseguia olhar para Carol, totalmente sem graça.

- Presta atenção, Marcela... Você acha que as coisas que eu te falo são da boca pra fora?

- Não.

Marcela respondeu, ainda olhando para baixo.

- E não são mesmo. É tudo verdade. Lembra daquela frase que eu adoro: �Dedicar tanto tempo ao meu aperfeiçoamento pessoal que não sobrará nenhum tempo para criticar os outros�? Então... Não tô aqui pra te julgar.

Com um misto de alívio e surpresa, Marcela levantou os olhos. Carol sorriu para ela, e continuou:

- Com relação ao que a Vivi contou, só vou te dizer uma coisa: �não esquecer os erros do passado e avançar determinada a obter os melhores resultados no futuro�. Isso você já sabe.

Marcela concordou com a cabeça. Carol completou:

- Então o que você tava fazendo lá, tentando voltar a se drogar?

Sem conseguir explicar, nem responder, Marcela ficou em silêncio. Como quem diz: �não sei�.

Carol colocou a mão no ombro dela, e sorriu, antes de dizer:

- Foi o que pensei. Da próxima vez, vê se não esquece: �ser tão forte que nada abalará minha paz de espírito�. Ok?

Marcela concordou, mais uma vez. Depois perguntou:

- E a Vivi?

- Foi pra casa com a Carlinha e o Rafa. Minha irmã não tava no estado normal dela. Sei que você sabe. Você conhece a Vivi muito bem. Eu diria até que... melhor do que ninguém...

- Você acha? Depois de hoje, eu já não sei...

- Ah, mas eu sei. Queria que você entendesse bem o que eu vou te dizer: a Vivi é humana, Marcela. E erra também. Como você e eu... Bom, em defesa dela, só vou dizer que: nunca tinha visto a Vivi agir desse jeito...

Marcela deixou escapar um suspiro, porque... se Carol  tivesse visto pelo menos a metade do que tinha acontecido entre elas, com certeza iria achar que Vivi tinha enlouquecido.

Não teve como evitar o sorriso que se formou. Já estava começando a achar graça. No fundo, intuía que tudo o que tinha acontecido seria importantíssimo para que ela e Vivi pudessem se resolver no futuro.

Ao ver Marcela sorrindo, Carol ficou muito, mas muito curiosa mesmo:

- Tá rindo de que?

Marcela disfarçou:

- De nada... É só que... Até que ela continua com um saldo bem positivo, né? Esperou 21 anos pra se embebedar e fazer besteira pela primeira vez...

Carol também riu, enquanto acompanhava Marcela até o carro.

 

No dia seguinte, Vivi finalmente descobriu o que era ressaca. Física e moral, diga-se de passagem. Nunca tinha se sentido daquele jeito. A única coisa que queria era ficar deitada, sem se mover. Dormiria o dia inteiro, se... E era esse se que matava... Se não tivesse plena consciência do quanto tinha errado.

O saldo � absolutamente negativo � da noite passada, pesava mais do que a cabeça. Foi nesse exato momento que bateram na porta. O barulho parecia vir de dentro. Causando uma dor insuportável.

- Entra.

Foi só o que Vivi conseguiu falar. Carol entrou, com uma bandeja nas mãos.

- Bom dia! Curtindo a ressaca?

Não teve como deixar de implicar. Vivi não respondeu, apenas pediu, com a mão na testa, ainda sem levantar:

- Ai, Carol... Por favor, ri mais baixo...

- Alguém te viu chegar? Não? Sorte sua... O papai e a mamãe não iam gostar nada de ver o estado em que você tava...

- Eles saíram?

- Só voltam de noite. Come alguma coisa. Vai se sentir melhor...

Vivi fez uma careta horrível, só de pensar em colocar comida na boca:

- Tô enjoada...

- Então pelo menos toma esse Engov... E bebe muita Coca-Cola...

Impossível não pensar em Marcela. Nas incontáveis vezes em que ela acordava de ressaca...

- Carol... E a Marcela?

- Ela ficou bem. Foi pra casa. Não precisa se preocupar.

Mas Vivi se preocupou, porque... lembrava perfeitamente das coisas que tinha feito e falado... Principalmente do estado dos olhos negros quando tinha contado para quem quisesse ouvir, a razão pela qual tinham terminado.

A tristeza - quase desespero - nos olhos verdes não passou despercebida.

Carol esperou a irmã terminar de beber o segundo copo de Coca, antes de perguntar:

- Quer conversar?

A resposta de Vivi foi acompanhada por um suspiro de alívio:

- Preciso.

Carol deu um enorme sorriso:

- Sou toda ouvidos...

Foi difícil começar. Vivi tropeçou nas palavras no início:

- Eu... Não sei o que aconteceu comigo... Nossa, que vergonha... Carol, eu fiz muita, muita besteira... Coisas que... Nunca pensei que fosse capaz...

Mas depois contou tudo para a irmã. Sem a poupar dos detalhes. Cada sentimento, pensamento, ação e palavra... Num grande desabafo.

Apesar de Carol não ter censurado nem comentado nada, Vivi sabia, pela expressão dela, que a irmã estava, no mínimo, chocada. Mas quando finalmente abriu a boca, disse:

- Bom, irmãzinha: �A glória não consiste em jamais cair. Mas sim erguer-se toda vez que for necessário�...

Vivi não teve como deixar de sorrir. Abraçou a irmã, emocionada. Carol era, realmente, insubstituível, insuperável, indispensável...

E estava certíssima. Os erros estavam feitos. Não adiantava lamentar. Se não pudesse consertar o que tinha feito, precisava, pelo menos, se desculpar. A primeira pessoa que precisava procurar era Ana Cláudia.

 

Marcela acordou cedo. Com o telefone tocando sem parar. Atendeu correndo, um pouco assustada.

Felizmente, não era nada de errado. Apenas um dos rapazes do 8º período. Convidando a banda para tocar numa festa do pessoal da faculdade de Direito em Piratininga, Niterói.

Depois do fiasco no churrasco fatídico, Marcela jurava que nunca mais seria chamada para nada. Ficou muito feliz ao descobrir que estava enganada.

Tomou um Toddy, comeu alguns biscoitos e saiu para o hospital, onde encontrou Aline brigando com uma das enfermeiras, muito mal humorada. Atirou um travesseiro em Marcela, quando a amiga deu uma gargalhada.

Mas mudou completamente quando soube da novidade.

 

Vivi fez muito daimoku o domingo inteiro. Também tentou insistentemente falar com Ana Cláudia. Sem resultado. A morena simplesmente não atendia o celular.

Na 2ª feira, Vivi a procurou na sala dela, mas... Ana Cláudia não foi na faculdade. Nem no estágio.

Não teve coragem de se aproximar de Marcela, porque... os olhos negros se desviaram correndo dos dela, quando se cruzaram dentro da sala. De qualquer jeito, conversar com Marcela seria algo muito mais demorado. Que exigiria de Vivi milhares de coisas para as quais ainda não se sentia preparada. Mas que, em breve, pretendia estar. O mais rápido possível. Estava com o daimoku todo voltado para esse objetivo. 

Marcela, por outro lado, tinha decidido o seguinte: que se Vivi quisesse, teria que vir falar com ela, obrigado. Estava cansada de pressionar, insistir, persistir e até apelar para reconquistar a ruiva. Os acontecimentos na boate a tinham feito deixar de se sentir culpada. E ver que precisavam, definitivamente, enterrar o passado. Mais do que isso. Daquele momento em diante, daria tempo para que Vivi pudesse decidir o que realmente queria. Tinha feito tudo o que podia. Tinha deixado claro o que sentia. Agora era a vez da ruiva correr atrás.

 

Na 3ª feira, Vivi finalmente conseguiu encontrar Ana Cláudia na cantina, na hora do intervalo. A morena a ignorou completamente. Fingiu que Vivi não existia. Vivi já esperava. E não desistiu:

- Precisamos conversar.

- Eu acho que não.

Foi a resposta dela. Seca, dura, ácida.

- Ana, eu quero me desculpar...

Com um sorriso irônico, sarcástico, a morena a interrompeu:

- Tá se sentindo mal? Espero que sim, porque... O que você fez foi... absolutamente... imperdoável... Imperdoável é pouco, aliás... Não tenho nem palavras pra definir a sua... como eu posso dizer?... Escrotidão total?

As lágrimas desceram dos olhos verdes. Com um sincero arrependimento, que desarmou Ana Cláudia, Vivi disse:

- Por favor... Você sabe que eu nunca faria o que eu fiz no meu estado normal. Não justifica, mas... Vamos conversar? Por favor, só conversar?...

A morena amoleceu. E cedeu. Com um suspiro que exprimia a profunda insatisfação que agora sentia com a falta de resistência que a presença de Vivi sempre provocava.

O intervalo terminou, deixando os corredores vazios. Foram para um canto mais afastado. Ana Cláudia olhou para Vivi profundamente. Esperando.

- Eu... sinto muito...

Foi a única coisa � por mais horrível que parecesse � que Vivi conseguiu dizer.

Ana Cláudia fechou os olhos e suspirou fundo. Como se quisesse se conter. Mas não conseguiu. A voz soou de um jeito que Vivi nunca tinha escutado. Um misto de mágoa, ironia e revolta... absolutamente frios quando disse:

- Que o que você sente por mim nem se compara ao que você sente pela Marcela, eu já sabia. Mas antes nunca tinha me sentido usada...

Um silêncio horrível se seguiu. A ruiva respirou fundo, juntou toda a coragem que tinha e disse:

- Ana, o que eu fiz no sábado foi um erro. Eu assumo. Sou a única responsável. Não poderia, não deveria ter te magoado.

Ana Cláudia a interrompeu, com a voz completamente amarga:

- A culpa também é minha... Por estar à mão, por ser tão... fácil.

Vivi não hesitou:

- Não é verdade. Eu nunca fiquei com você porque você era fácil. Mas porque... com você eu me sentia... desejada.

Novamente, Ana Cláudia a cortou, dessa vez de uma forma quase agressiva:

- Desejada não, Vivi. Amada.

A morena começou a chorar. Vivi segurou o rosto dela com as duas mãos. De uma forma suave, carinhosa, que fez com que Ana Cláudia não conseguisse nem quisesse se esquivar.

Vivi olhou bem dentro dos olhos dela e falou:

- Não queria que você sofresse, porque gosto de você de verdade. Não menti em nenhum momento. Nunca fingi nada. Você sabe, não sabe?

Por um breve momento, as duas se olharam. Ana Cláudia balançou a cabeça afirmativamente, com um sorriso sofrido nos lábios.

Realmente, Vivi nunca a tinha enganado. Nunca tinha dito que a amava. E ela tinha aceitado. Na esperança de mudar aquilo, de conquistá-la, mas... por livre e espontânea vontade. Não podia fazer acusações, nem cobrar nada.

Passou os dedos nos lábios de Vivi. Exatamente como naquela primeira vez, na garagem, no dia do churrasco. Pediu:

- Um último beijo...

E colou os lábios nos de Vivi com paixão.

Vivi deixou que o beijo acontecesse. Carinhosamente, sem corresponder, nem ter como dizer não.

Quando as bocas se separaram, e voltou a abrir os olhos, viu Marcela parada, olhando para ela, atrás de Ana Cláudia. Com uma expressão absolutamente decepcionada.

 

 

Capítulo 40: Olhos Certos...

Ana Cláudia seguiu o olhar de Vivi a tempo de ver Marcela se afastando rapidamente. Quando voltou a olhar para os olhos verdes, eles refletiam um profundo sofrimento. Com um sorriso muito triste, a morena disse:

- Não é engraçada a ironia do destino? Somos tão parecidas... Sentimos a mesma coisa... igualzinho... só que você por ela... e eu por você...

Foi a última coisa que disse, antes de se afastar de Vivi de uma forma definitiva.

 

Marcela não estava preparada para ver Vivi aos beijos com Ana Cláudia. Não depois de tudo o que tinha acontecido entre elas naquela boate.

A dor que sentiu foi imensa, como se naquele momento, o resto de esperança que ainda nutria se desfizesse por completo.

Estranhamente, não conseguiu desviar os olhos, nem sair dali. Uma força quase masoquista a fez permanecer estática, olhando fixamente até as duas terminarem o beijo e se separarem.

Para piorar a situação, Vivi abriu os olhos e a viu. Só então Marcela pareceu sair do transe em que se encontrava. Virou e fugiu quase correndo.

Mas Vivi foi atrás dela, tentando alcançá-la:

- Marcela... Marcela, espera...

Marcela parou, a respiração alterada. Demorou um pouco para se virar. O tempo que levou para enxugar as lágrimas e disfarçar.

Vivi se espantou com a frieza com que os olhos negros a olharam. Mesmo assim disse, quase sem pensar:

- Não é o que você tá pensando, eu...

Não conseguiu terminar. Marcela a cortou, ríspida, seca, distanciada:

- Não tô pensando nada. Natural você beijar sua namorada.

Vivi ainda tentou explicar:

- Ela não é minha namorada. Nós terminamos.

O coração de Marcela acelerou. Mas ela estava magoada demais, cansada demais, insegura demais para ficar feliz com a novidade.

- Você não me deve explicações, Vivi. Não me deve nada. Nem eu a você, aliás. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, estamos quites, não acha?

As esmeraldas lançaram pequenos fachos. Tentando compreender o que Marcela queria realmente dizer. Concordou:

- Acho.

Não agüentou, teve que perguntar:

- E o que isso quer dizer?

Aquela frase... Marcela a tinha escutado... Parecia que há séculos atrás... Num tempo anterior a todos os danos, culpas, erros fatais... Na época, ela tinha respondido:

- Não sei... Vamos ter que descobrir juntas...

Mas no momento atual, uma represa de inseguranças, medos e dúvidas as afastavam.

Depois de um tempo que pareceu imenso para a ansiedade com que Vivi aguardava, Marcela finalmente respondeu:

- Não sei. Acho que precisamos conversar, mas... Não agora... Ainda não é o momento...

Vivi abaixou a cabeça. Concordando dolorosamente, apesar do coração estar implodindo no peito.

Caminharam juntas, lado a lado, sem falar mais nada. Se olharam rápida e timidamente, quando Vivi agradeceu - por Marcela ter aberto para ela a porta da sala onde entraram e se sentaram, absoluta e completamente separadas.

 

Mais um mês se passou. Assustadoramente rápido. A rotina de Vivi a mantinha ocupada. Nos finais de semana, quase não saía de casa. Uma fase introspectiva, nada demais. Apenas... sentia uma necessidade enorme de ficar sozinha, fazer daimoku e pensar.

Marcela, por outro lado, praticamente só ia para casa para dormir. O tempo completamente tomado pelos ensaios da banda, as aulas, as atividades budistas, as duas faculdades...

Apesar de se verem todos os dias nas aulas, as duas nunca se falavam. Chegando num ponto em que o silêncio tácito que tinha se estabelecido entre elas parecia impossível de ser quebrado.

 

No dia da festa do pessoal da faculdade, Carlinha ligou para Vivi. Mas a ruiva não tinha nenhuma vontade de sair de casa. Muito menos para um lugar onde Marcela estaria � sob o ponto de vista dela � acompanhada. Sim, porque por ver Aline sempre junto com Marcela, Vivi pensava que as duas, no mínimo, tinham um caso.

- Vivi, faz mais de um mês que você tá assim... Amiga, reage!

Vivi deu uma das muitas desculpas que já tinham se tornado um hábito:

- Ai, Carlinha... Tô muito cansada...

Sem conseguir convencer a amiga, Carlinha não teve outra escolha além de ir sozinha com Rafa.

 

Marcela estava passando o som com Rafa e Kadu. Aline tinha ido beber um pouco de água. Estranhou quando a amiga voltou, com a respiração alterada, rindo sem parar:

- Ela tá aqui, Marcelinha!

Marcela até parou de tocar:

- Ela quem?

Aline quase gritou, com as mãos no peito, de um jeito absurdamente exagerado:

- O amor da minha vida!

Sem conter uma risada, Marcela implicou:

- A garota apaixonada pela ex namorada?

Na mesma hora levou um beliscão:

- Cala a boca, ela tá vindo ali...

- Onde?

Marcela perguntou, e se chocou ao seguir a direção para onde Aline apontava, porque... a garota era simplesmente...

- A Ana Cláudia?

Dessa vez foi Aline quem se espantou:

- Você conhece?

- Claro. A ex da Vivi...

Aline ficou boquiaberta. As duas se entreolharam. Achando aquilo bizarro... Uma coincidência sinistra... E ao mesmo tempo, hilária.

Começaram a rir. Os olhos de Aline brilharam. Marcela ficou até com medo de perguntar o porquê. Mas mesmo assim, ela falou:

- Maravilha... Vamos nos ajudar... Pra resolver hoje, de uma vez por todas, essa parada... Confia em mim. E faz tudo o que eu pedir, tá?

Marcela hesitou por alguns segundos, e depois cedeu. Afinal de contas, não tinham nada a perder. Mal não ia fazer...

 

A primeira música que tocaram foi �À Sua Maneira� (Capital Inicial). Com Aline cantando. Marcela ficou fazendo a segunda voz. Se divertindo porque... Aline cantou o tempo todo encarando Ana Cláudia. Especialmente para ela, deixando a morena visivelmente perturbada.

Mais duas músicas, e então entraram com �Vou Deixar�(Skank), com Marcela cantando, um pouco frustrada. Os olhos negros buscando, procurando, desejando Vivi inutilmente, mas... nada da ruiva chegar.

Fizeram um pequeno intervalo. Que Aline aproveitou para ir atrás de Ana Cláudia.

Marcela colocou a guitarra no suporte, muito desanimada. Se aproximou de Rafa e Carlinha, que acabou contando que Vivi tinha resolvido ficar em casa.

Por alguns instantes, Marcela ficou parada. Com uma batalha se travando dentro dela. De um lado a escuridão que a puxava, alimentando o desejo que acenava: desista... esmoreça... desabe... Do outro, o brilho que a impelia a continuar. Um desejo de persistir, não se entregar. Fez daimoku mentalmente, e determinou: não importa, não quero saber como, ela vem, ela vai chegar.

 

Vivi estava sentada em frente ao gohonzon fazendo daimoku, quando Carol chegou em casa. Beijou a irmã, e perguntou:

- Você não tinha uma festa pra ir?

Vivi bateu o sino, fez daimoku sansho, e fechou o oratório. Antes de responder:

- Resolvi ficar em casa.

- Por quê?

A pergunta ficou no ar. Simples, direta, clara. Vivi não tinha mais segredos com a irmã. Nem hesitou:

- Não tive coragem.

Carol abriu um sorriso:

- De encontrar a Marcela?

- De ver a Marcela com a namorada...

A irmã deu um suspiro contrariado:

- Vivi, eu já te falei mil vezes que elas não são namoradas.

Mas Vivi era teimosa. E estava insegura, descrente, desconfiada:

- Mas tem uma coisa entre elas... Dá pra perceber só de olhar...

Carol foi firme:

- Amizade. Só amizade.

- Será?

A voz de Vivi soou engraçada. Um misto de desespero, esperança, ansiedade... Impossível para Carol deixar de dar uma risada. Antes de dizer, com uma implicância bem humorada:

- Se eu fosse você, pagava pra ver. Ao invés de ficar trancada em casa...

Vivi ficou pensativa. Levantou uma das sobrancelhas, riu de si mesma:

- Tô sendo ridícula, né?

- Eu diria que, no mínimo, covarde...

Foi então que uma certeza estranha, que não sentia há muito tempo, tomou conta dela. Inexplicável. Um desejo incontrolável de ir àquela festa. Mas não queria chegar desacompanhada:

- Carol... Você... Viria comigo?

- Só se eu puder levar o Ricardo... Ele tá passando aqui daqui a pouco, aliás...

Vivi abraçou a irmã com entusiasmo:

- Obrigada! Vou avisar a mamãe e o papai, e me arrumar...

Já estava quase atravessando a porta quando a voz de Carol a fez parar:

- Capricha, irmãzinha... Tem que ir vestida pra matar!

Um imenso sorriso surgiu no rosto de Vivi. Por tudo o que aquele nervoso, aquele friozinho na barriga, aquela sensação de algo no ar a faziam lembrar...

 

Estavam no fim de �Exagerado� (Cazuza) - com Aline se desmanchando toda para Ana Cláudia enquanto cantava -  quando Vivi chegou.

Marcela a viu assim que a ruiva entrou. E pareceu que a festa toda ganhou mais brilho, mais definição, mais cor...

A música terminou. Marcela chegou perto de Aline, sussurrou algo para ela. Depois falaram com Kadu e Rafa.

Vivi ficou parada entre Carlinha e Carol. Olhando para Marcela no palco. Encantada, deslumbrada, enfeitiçada. Como sempre...

Marcela começou a tocar, acompanhada pelo resto da banda. Com os olhos negros mergulhando fundo nos verdes, cantou:

 

�Tento te encontrar
Tanto pra dizer
Meu amor, tudo bem
Sorte de nós dois
Quero te fazer feliz
Meu amor, sempre quis
Seus olhos certos, mas não sei o que dizer
Eu não vou, mas o tempo vem
Tá tudo certo, mas não sei o que dizer
Eu não vou, mas o tempo vem aqui.�

 

Não era só a voz, Marcela era toda linda... Só de olhar para ela, Vivi já se sentia... absolutamente seduzida... Não tentou evitar, nem fugir. Apenas se entregou às emoções que a percorriam. Como há muito tempo não fazia... Se deixou levar pelo canto dos olhos negros, que ecoavam a melodia:


�Tento te encontrar
Tanto pra dizer
Meu amor, tudo bem
Mesmo sem te ver
Não chegou ao fim
Seu amor, tudo em mim
Se não for mais do que tento ser
Se não for mais
Se não for mais o que tento ser
Se não for�

 

Com um movimento de cabeça, Marcela jogou o cabelo para trás. Cantou o vocalize inteiro como se tocasse Vivi com a alma. A ruiva se arrepiou inteira, prisioneira da performance hipnótica, perfeita, que sempre a cativava. Suspirou profundamente quando Marcela voltou a cantar, com uma emoção forte, precisa, total:


�Seus olhos certos, mas não sei o que dizer
Eu não vou, mas o tempo vem
Tá tudo certo, mas não sei o que dizer
Eu não vou, mas o tempo vem aqui.�

(�Olhos Certos � Detonautas - Tico Santa Cruz / Rodrigo Netto)

 

A banda anunciou que ia fazer outro intervalo. Impossível medir a ansiedade de Vivi.

Marcela ficou enrolando no palco. Fingindo que verificava os cabos. Com medo de encarar Vivi, na verdade...

Não adiantou nada. Vivi esperou pacientemente.

Quando Marcela finalmente desceu, com um sorriso tímido, o brilho verde fulgurante a esperava...

 

 

Capítulo 41: I Will Never Let You Down...

Ficaram se olhando por um tempo que pareceu imenso. Marcela não conseguiu dizer uma palavra. Achando Vivi absurdamente linda... E estranhamente calada. Os olhos verdes a fitavam quase sem piscar. Até que finalmente, foi a ruiva quem tomou coragem e falou:

- Sua nova banda é muito boa...

Foi tudo o que conseguiu dizer. Marcela também só conseguiu responder:

- É sim...

Um silêncio constrangedor se estabeleceu novamente entre elas. Mas os olhos não conseguiam se desviar. Ficaram um tempo daquele jeito, o cintilar das  esmeraldas mergulhados na explosão dos olhos negros.

Até que Vivi perguntou:

- Qual é o nome?

E como Marcela pareceu não entender, completou:

- Da banda...

Com um sorriso que fez Vivi prender a respiração, Marcela disse:

- É em sua homenagem... Quer dizer... Tem a ver com a gente... Com o que eu sinto por você...

Não conseguiu terminar, porque... Aline quebrou o encantamento, falando no microfone com aquele jeitinho sem noção dela:

- Marcelinha... Acabou o intervalo... Poderia, por favor, comparecer?

Marcela se desculpou com Vivi, e subiu no palco, onde Aline já a esperava, com a própria guitarra pendurada, a azul de Marcela pronta para entregar para ela e... um sorriso espetacular. Sussurraram baixinho:

- E aí?

- Não sei...

- Não sabe o que, Marcelinha? A menina tá se derretendo toda pra você...

- Não sei...

Aline riu da insegurança da amiga. E disse:

- Vou tirar todas as suas dúvidas, quer ver?

A pontadinha de ciúmes que Vivi sentiu com os cochichos delas aumentou quando Aline pegou o microfone e disse com a maior intimidade do mundo:

- Marcelinha... Pra você, linda...

E começou a cantar, sem tirar os olhos de Marcela, com um sorriso luminoso que incomodou a ruiva:

 

�I�m trying to keep my feet on the ground

(Estou tentando manter meus pés no chão)
I�m getting to like this feeling I�ve found

(Estou começando a gostar desse sentimento que encontrei)
I�m getting to love the thought of having you around

(Eu estou começando a amar o pensamento de ter você por perto)
And I will never let you down� (E eu nunca vou te decepcionar)

 

Marcela, que até então só tinha acompanhado com a guitarra, retribuindo o sorriso da amiga, chegou perto do microfone � Aline abriu espaço para ela, mas não se afastou, ficaram quase grudadas � e cantou:

�Your friends were all well-meaning

(Seus amigos eram todos bem intencionados)
When they said no one is good enough for you

(Quando diziam que ninguém era bom o bastante pra você)
But if they play with your emotions (Mas, se eles brincam com suas emoções)
Dismiss the notion (Dispense/demita a noção)
Do what you have to do (Faça o que você tem que fazer)
Cause people don�t take chances with their hearts

(Porque as pessoas não se arriscam com seus corações)
Since I�ve met you I am past the hardest part

(Desde que eu te encontrei, eu passei pela parte mais difícil)
So remember one thing (Então lembre-se de uma coisa)

 

Com uma sensação nada agradável no peito, Vivi ficou observando as duas. Pareciam muito ligadas, cantando juntas, as bocas próximas demais, os olhos em sintonia demais para o gosto da ruiva:


�I will never let you down � (Eu nunca vou te decepcionar)

 

Aline voltou a abrir espaço � ficaram frente a frente, mantendo o olhar e o sorriso abusivamente cúmplices - enquanto Marcela voltava a cantar sozinha:


�I�m trying to keep my feet on the ground

(Estou tentando manter meus pés no chão)
I�m getting to like this feeling I�ve found

(Estou começando a gostar desse sentimento que encontrei)
I�m getting to love the thought of having you around

(Eu estou começando a amar o pensamento de ter você por perto)
And I will never let you down� (E eu nunca vou te decepcionar)

No palco, a sintonia das duas continuava impressionante. Era gritante que se entendiam perfeitamente, de um modo que tornava as palavras absolutamente desnecessárias. Aline voltou a cantar sozinha:

 

�Sometimes you feel defeated but it�s ok...

(Às vezes você se sente derrotada, mas tudo bem)

You�re not the only one (Você não é a única)
And all the complications, bad situations - happen to everyone

(E todas as complicações, situações ruins - acontecem com todo mundo)
It doesn�t matter how it ended or began

(Não importa como isso terminou ou começou)
Sometimes the best that you can do is change your plans

(Às vezes o melhor que você pode fazer é mudar seus planos)
I hope you understand that (Espero que você entenda que)
I will never let you down (Eu nunca vou te decepcionar)

 

Ao contrário da parceria com André, onde Marcela era sempre a principal, com Aline era uma relação obviamente de igual para igual. E Marcela � para surpresa absoluta de Vivi � começou a fazer a segunda voz. Coisa que sabia que para ela antes era impensável:

 

�I�m trying to keep my feet on the ground

(Estou tentando manter meus pés no chão)
I�m getting to like this feeling I�ve found

(Estou começando a gostar desse sentimento que encontrei)
I�m getting to love the thought of having you around

(Eu estou começando a amar o pensamento de ter você por perto)
And I will never let you down� (E eu nunca vou te decepcionar)

O instrumental foi uma troca absoluta entre as duas, dividindo as notas, compartilhando a mesma paixão sem limites pela música. Para Vivi, era quase como se fizessem amor através da melodia.

Voltaram a cantar. As vozes se mesclando, se acariciando, as mãos dedilhando as guitarras juntas, no mesmo ritmo. Uma comunicação tão tácita que era claro que dessa vez Aline entraria com a segunda voz:

 

�I�m trying to keep my feet on the ground

(Estou tentando manter meus pés no chão)
I�m getting to like this feeling I�ve found

(Estou começando a gostar desse sentimento que encontrei)
I�m getting to love the thought of having you around and

(Eu estou começando a amar o pensamento de ter você por perto e)
I will never let you down� (Eu nunca vou te decepcionar)

E finalizaram alternando as vozes, quase como se prometessem várias vezes uma para a outra:

 

�I will never let you down� (Eu nunca vou te decepcionar)

�I will never let you down� (Eu nunca vou te decepcionar)

�I will never let you down� (Eu nunca vou te decepcionar)

�I will never let you down� (Eu nunca vou te decepcionar)

(�Never Let You Down� - The Verve Pipe)

 

Enquanto as pessoas aplaudiam, Aline abraçou Marcela, a segurou pela nuca e falou baixinho no ouvido dela:

- Vou fazer uma coisa agora pra te dar uma força, não repara... Nada pessoal...

- O que? � Marcela perguntou, desconfiada.

- Confia em mim... 

Marcela ficou absolutamente surpresa, porque... Aline colou a boca na dela, num beijo muito, mas muito convincente mesmo. Como se estivesse completamente apaixonada.

Marcela não correspondeu, pelo contrário, a afastou, tentando evitar a confusão que sem querer, o gesto insano, sem sentido, incompreensível da amiga poderia causar.

Olhou para a platéia preocupadíssima. Bem a tempo de ver o brilho verde que a fitava, absolutamente magoado. Antes de Vivi se virar e lentamente se afastar.

Não ficou nada feliz. A perturbação evidente de Vivi a deixou profundamente incomodada.

Aline estranhou o olhar triste de Marcela:

- Que foi? Agora tem certeza de que a ruiva gosta de você. Não era isso que queria?

Marcela não respondeu. Apenas abaixou a cabeça. Não era aquilo que queria, não mesmo. A amiga, não entendia... O maior medo de Marcela naquele momento era que aquele beijo � imperdoável, inexplicável, incoerente -  tornasse a pouca chance que tinha de voltar com Vivi inexistente.

 

Vivi se afastou o suficiente para que ninguém visse as lágrimas que escorreram por seu rosto, incontroláveis.

Carol se aproximou, dizendo com uma voz tranqüila e suave:

- Sinceramente? Não tô entendendo... Você é apaixonada por ela, então tá esperando o que? Conversa logo com a Marcela. Tenho certeza que vocês vão se entender... Ah, Vivi... Sou suspeita pra dizer... você sabe que eu torço pra vocês ficarem juntas, não sabe?

Vivi não teve como deixar de sorrir. Não apenas Carol, mas a mãe e o pai também � Marcela tinha conquistado a família inteira. Independente disso, falou exatamente o que sentia e pensava:

- Quero que a Marcela seja feliz. E ela... parece que tá muito melhor sem mim...

Carol olhou bem para a irmã. Achando que ela estava dizendo aquilo por causa do beijo que tinha presenciado:

- Se você tá dizendo isso por causa da Aline, as duas não tão juntas. Muito menos apaixonadas. Quantas vezes vou ter que te dizer?

Não era tão simples assim. Vivi tinha visto que Marcela não tinha correspondido ao beijo, até tinha afastado Aline, mas... Achava que talvez Marcela e ela só se fizessem mal. E que por isso, era melhor ficarem separadas. Por isso disse para a irmã, com uma expressão infinitamente triste:

- Marcela e Aline formam um casal perfeito. As duas se entendem, são parecidas demais...

Carol não mediu as palavras:

- Como você e a Ana Cláudia?

Vivi ignorou a irmã. E insistiu:

- Não quero mais fazer a Marcela sofrer... Não quero que ela seja infeliz por minha causa...

Fazendo com que Carol perdesse a paciência. E falasse - com uma veemência espantosa, direta, fenomenal:

- Muito fácil: volta com a Marcela e faça ela feliz, Viviane!

A frase absolutamente sincera da irmã fez Vivi se desarmar:

- Ai, Carol, tô morrendo de medo...

Carol abraçou a irmã caçula, rindo carinhosamente:

- Medo de que? Vocês são loucas uma pela outra, todo mundo sabe...

Vivi enxugou as lágrimas que novamente escorriam, antes de dizer:

- Você acha?

- Eu sei.

As palavras de Carol encheram Vivi de coragem. Com um suspiro profundo, a ruiva disse, determinada:

- Tem razão. Preciso parar de bobagem. Preciso correr atrás do que eu quero de verdade.

Carol respondeu, com um sorriso:

- Agora sim tá parecendo a minha irmã...

 

As duas voltaram para perto do palco, ao lado de Carlinha. Vivi ficou fingindo que prestava atenção na conversa, esboçando de vez em quando uma ou outra resposta monossilábica.

Com Aline liderando, a banda estava tocando a última música: �Por que te Vas�(Attaque 77).

Vivi se arrepiou ao ouvir a voz sensual de Marcela finalizar:

- Nós somos a �Kuon Ganjo�. Muito obrigado, e até a próxima!

A ruiva sorriu, bastante surpresa. Então esse era o nome da nova banda dela?

Literalmente, �Kuon Ganjo� significava "início de tudo". Seu conceito, muito mais profundo, expressa a inexistência do início, isto é, a eternidade sem começo e sem fim, não sujeita às limitações do tempo.

Marcela tinha dito:

�- É em sua homenagem... Quer dizer... Tem a ver com a gente... Com o que eu sinto por você...�

E Vivi entendeu perfeitamente, porque... sentia o mesmo...

 

Marcela ficou guardando as coisas dela, tentando parecer concentrada. Apesar de ter que fazer um esforço terrível para não olhar para Vivi. Aline a chamou, e desceram juntas do palco:

- A ruiva não para de olhar pra você... É hoje, Marcelinha... Se prepara!

E riu, bastante entusiasmada. Ficaram bebendo cerveja. Marcela fingindo que prestava atenção no que Aline falava. Na verdade, completamente voltada para Vivi, que tinha parado na frente delas, olhando fixamente para Marcela.

Inevitável que de vez em quando os olhos se encontrassem. Os verdes cintilando, queimando, se incendiando com o simples contato. Os negros indo e voltando, não conseguindo se manter por muito tempo longe das esmeraldas.

As duas curtindo, saboreando, aproveitando aquele flerte que, para elas, era novidade. Nunca antes tinham se dado esse tempo. Tudo tinha sido sempre um tanto quanto... precipitado.

Foi quando o DJ tocou a primeira música. �Setting Sun� (The Chemical Brothers). Imediatamente, as pessoas começaram a dançar. Entre elas Vivi�

Marcela ficou parada, hipnotizada, babando quase... Aline riu da cara dela, antes de olhar e também ficar boquiaberta com a forma como a ruiva se movimentava:

- Nossa... Que mulher é essa?

- Essa, minha amiga, é a mulher que eu amo... Por quem sou absoluta e totalmente apaixonada...

Respondeu com uma alegria impossível de reprimir.

Começou a dançar. Sem desviar os olhos das chamas verdes, que não desgrudavam dela nem por um momento.

Como se nada mais existe ao redor delas, Marcela e Vivi se aproximaram.  Lentamente. Dançando e sorrindo. Nem o ritmo alucinante das pulsações  conseguindo fazer com que elas se apressassem.

Curtiram aquele momento de sedução, reconquista, recomeço, ao máximo. Frente a frente, os corpos se movendo em perfeita sintonia, sem se encostarem.

Vivi pegou Marcela pela mão e a puxou para um canto isolado, afastado, para que pudessem ficar mais à vontade. Aproximou a boca do ouvido dela e perguntou:

- O que você tem com aquela menina?

- Ela é minha amiga. Só isso.

- E aquele beijo?

- Idéia maluca da Aline... Ela achou que ia me ajudar, fazendo ciúmes em você... Não significou nada...

A resposta de Marcela foi rápida, imediata. Não querendo dar margem a nenhum tipo de erro.

A música mudou: �Always on My Mind�(Pet Shop Boys). No mesmo instante em que, com um sorriso profundamente aliviado, Vivi deixou escapar:

- Ótimo!

E riu alto, numa total felicidade. Marcela sorriu, e aproveitou para perguntar:

- Por quê?

- Porque então esse vai significar...

Segurou o rosto de Marcela entre as mãos, num carinho profundamente delicado. Marcela estremeceu. Correspondeu como se o brilho verde a tivesse flechado. Segurou Vivi pela cintura... As bocas já se aproximavam... Com uma lentidão e calma impressionantes, os lábios se tocaram, se buscaram, se acharam... Envolvendo as duas na certeza deliciosa e única de finalmente se reencontrarem...

 

 

Capítulo 42: You Were Always on My Mind...

Aquele beijo foi diferente de todos os outros. Doce, quente, cálido...  De uma ternura profundamente meiga, carinhosa, apaixonada... Que fazia o contato ardente chegar a ser quase suave.

Vivi se entregou completamente. Marcela podia sentir a ruiva se derretendo nos braços dela. Isso a emocionou a ponto dos olhos se encherem de lágrimas. Que escorreram rosto abaixo, até os lábios das duas as provarem.

Ao fundo, a música repetia, com uma perfeição incrivelmente exata:

 

�You were always on my mind (Você sempre esteve em minha mente)

You were always on my mind (Você sempre esteve em minha mente)
Tell me, tell me that your sweet love hasn't died

(Diga me, diga-me que seu doce amor não morreu)
Give me, one more chance to keep you satisfied, satisfied��

(Dê-me mais uma chance de manter você satisfeita, satisfeita)

(�Always on My Mind� � Pet Shop Boys - Elvis Presley / Willie Nelson)<

 

Vivi interrompeu o beijo lentamente, as esmeraldas fitando Marcela com uma luz que irradiava. Enxugou as lágrimas dela com a boca, sorvendo cada gota com um amor embevecido, incondicional, incontestável.

As duas se abraçaram com força, trêmulas, de olhos fechados. O rosto de Vivi encostado no pescoço de Marcela, causando arrepios na pele com o roçar dos lábios. Marcela extasiada no meio dos cabelos vermelhos, aspirando o perfume de Vivi com saudade. Sussurrando no ouvido da ruiva a emoção que transbordava dentro dela, incontrolável:

- Eu amo você, Vivi... Te amo demais...

As mãos de Vivi a apertaram ainda mais. Encostou os lábios no ouvido dela, enquanto o brilho verde marejava:

- Também te amo, Marcela... E quero passar o resto da minha vida do seu lado...

As bocas voltaram a se encontrar. Num beijo absolutamente sem reservas. Longo, demorado, passional. As línguas se fundindo tão completamente, que tornava impossível definir onde começavam e terminavam.

Aproveitando o momento em que se separaram para respirar, Marcela propôs:

- Vamos sair daqui?

E completou, para não ser mal interpretada:

- Temos muitas coisas pra conversar...

Vivi concordou. Com um sorriso lindo. Impressionada, encantada, ainda mais enamorada... A mudança de Marcela era evidente, nítida, clara...

Carol as recebeu com um sorriso imenso, quando se aproximaram dela de mãos dadas. Marcela fez questão de dizer:

- Vamos dar uma volta na praia. Qualquer coisa liga pro meu celular.

Vivi achou graça, porque... antes Marcela não dava satisfações nem para os pais...

De um jeito bem humorado, Marcela perguntou, assim que se afastaram:

- Posso saber do que você tá rindo?

A resposta de Vivi veio acompanhada por um sorriso maior ainda:

- De você... Preocupada em dar explicações pra minha irmã...

Marcela levantou uma sobrancelha, e com um sorriso implicante, soltou:

- Sei... Eu virei uma chata completa, não é verdade?

Inevitável Vivi dar um sorriso envergonhado:

- Ah, desculpa... Só falei aquilo pra te provocar... Confesso que tô adorando esse seu lado responsável...

Marcela respondeu com um risinho safado:

- Bom... Na verdade, minha intenção é conquistar a simpatia da minha cunhada... Pra ela me defender, ficar do meu lado, sabe?

Vivi retrucou, com um sorriso brincando nos lábios:

- Mais?

As esmeraldas brilharam, queimaram, se incendiaram... Antes da ruiva grudar novamente a boca na de Marcela num beijo doce, ardente, apaixonado...

 

Ao se aproximarem do portão da rua, viram um casal se agarrando no escuro, de um jeito bastante empolgado. Marcela riu baixinho da surpresa de Vivi quando percebeu que eram Aline e Ana Cláudia.

Saíram da casa em silêncio, para não atrapalhar. Quando chegaram do lado de fora, Marcela tentou explicar:

- É uma longa história... Resumindo: as duas já ficaram duas vezes, e a Aline tá completamente apaixonada...

- É engraçado, né? Porque aparentemente elas não combinam em nada...

O sorriso de Marcela se acentuou. Os olhos negros brilharam, implicando:

- Como nós duas?

Devolvendo, correspondendo, se rendendo completamente ao sorriso e ao olhar de Marcela, Vivi respondeu:

- Se forem como nós duas, elas vão ser muito felizes juntas, não acha?

- Com certeza.

Foi a resposta sussurrada, antes da boca de Marcela se unir novamente à de Vivi... Puxou a ruiva pela cintura carinhosamente, as mãos subindo pelas costas dela, a apertando mais contra o próprio corpo...

Vivi gemeu baixinho, e enfiou as mãos nos cabelos de Marcela. Se deliciando em poder simplesmente se deixar levar, se entregar, extravasar tudo o que sentia por ela.

Quando as bocas afinal se separaram, ficaram se olhando em silêncio. Marcela acariciou o rosto de Vivi de um jeito absolutamente doce, suave, apaixonado. Arrancando da ruiva um suspiro meigo.

Depois, caminharam de mãos dadas até o calçadão. Se olhando e sorrindo, completamente felizes. Sem precisar de palavras. Admirando a beleza indescritível da paisagem, acentuada pela lua cheia que ofuscava as inúmeras estrelas que brilhavam.

Desceram a escada que levava à praia. Marcela cheia de cuidados com Vivi... Que não terminaram quando chegaram lá embaixo. Ajudou a ruiva a descalçar as sandálias de salto... Colocou o casaco na areia para que ela não sujasse o vestido... O sorriso de Vivi aumentou mais e mais...

Marcela sentou na frente dela de pernas cruzadas. Perguntou:

- Tá com frio?

A ruiva fez que não com a cabeça. O cintilar verde irradiando, hipnotizando os negros... Ficaram alguns instantes apenas se olhando, quase num transe. Antes de Vivi finalmente dizer:

- Eu queria te pedir desculpas, Marcela... Por tudo o que eu fiz com você naquela boate... Nossa, eu fui horrível... Foi imperdoável...

As esmeraldas se encheram de lágrimas. Que Marcela enxugou com os dedos, numa carícia suave:

- Ei... Não fica assim... Eu fiz várias causas pra que aquilo acontecesse. Nós duas sabemos, não é mesmo?

Ficaram se olhando, de mãos dadas. Com um sorriso triste, Vivi resolveu confessar tudo, não guardar nada:

- Eu tava com tanta raiva... Queria te magoar... Te fazer sofrer... Me vingar de você... Me deixei levar pela minha escuridão fundamental... Liberei um lado meu que nem sabia que tinha... Ai, Marcela... Me desculpa... Me arrependo muito, de verdade...

Marcela levou a mão de Vivi aos lábios. Depois a virou, beijou também a palma... E só depois afirmou:

- No fundo o que aconteceu foi a melhor coisa... Não ri, tô falando sério... Verdade... Você precisava botar pra fora, desabafar, exorcizar aquilo tudo... Também foi um alívio pra mim, sabe? Porque pude te ajudar a reverter uma situação que eu criei... Que era por minha causa, minha responsabilidade...

Vivi tirou os cabelos do rosto de Marcela, jogando-os para trás. Do jeito que sempre fazia. Trazendo milhares de recordações que a fizeram se arrepiar e sorrir. Antes de dizer:

- Mesmo assim... Você não precisava ter sido... tão... tão maravilhosa, Marcela... Não tenho nem palavras pra dizer quanto... Verdade... Sinceramente, eu... Preferia não ter feito o que eu fiz, mas... Infelizmente, não tenho como voltar atrás...

Inexplicavelmente, Marcela riu. Vivi a olhou, sem entender nada. Por isso ela explicou:

- Desculpa, mas... É que... de uma certa forma é bom não ser a única que faz besteira, sabe? Ah, não me olha assim, Vivi... Desculpa, vai...

Vivi empurrou Marcela, que caiu deitada na areia. Em questão de segundos já estava em cima dela, bagunçando os cabelos negros, fingindo estar zangada. Depois a beijou ardentemente. Com vontade. Até ficarem sem fôlego e precisarem se separar em busca de ar.

Marcela suspirou fundo, antes de continuar:

- Bom... No final o saldo foi positivo. A gente tá aqui agora, não tá?

- É verdade...

Um silêncio suave pairou entre elas enquanto voltavam a se sentar. Ligadas por uma profunda troca de olhares. Que Marcela interrompeu, baixando os olhos e dizendo:

- Tem uma coisa que eu preciso te contar. Sobre aquele dia, que eu tentei me matar.

Num impulso, Vivi se ajoelhou na frente dela. E voltou a segurar as mãos de Marcela. A voz muito doce e meiga ao sussurrar:

- Se é difícil pra você, não precisa falar...

Mas Marcela respondeu, da forma ardente e passional que Vivi adorava:

- Não, eu quero te contar. Quero dividir minha vida inteira com você, Vivi...

Suspirou, antes de mudar completamente, para a forma mais fria e distanciada que conseguiu usar:

- Naquele dia que eu tomei os comprimidos, o André tentou me estuprar.

Ao ver a expressão horrorizada de Vivi, explicou:

- Ele se arrependeu, não foi até o fim. Foi horrível, mas poderia ter sido muito pior. Tive sorte, acho.

Vivi não conseguiu retribuir o sorriso de Marcela. Um misto de espanto pela inacreditável benevolência dela - da qual não conseguia compartilhar - e uma revolta incontrolável só de pensar:

- Sorte? Você confiava nele, era... era seu melhor amigo... Não acredito que aquele miserável teve coragem de...

Interrompeu a frase, como se só então tomasse consciência do que realmente importava:

- Quase perdi você por causa disso...

Marcela segurou o rosto dela entre as mãos, e disse:

- Na verdade... Você me trouxe de volta.

O cintilar das esmeraldas reapareceu, em chamas. O incêndio verde tomando outras proporções, quando a imensidão dos negros correspondeu.

O beijo que trocaram foi um verdadeiro turbilhão. Emoções absolutamente descompassadas as levando, as envolvendo, as guiando. Uma em direção à outra, sem medo. Além da razão, do espaço, do tempo, apenas o pulsante palpitar dos sentimentos, finalmente em uníssono, gritando...

Entre os sussurros, gemidos e suspiros, as duas repetiam - murmurando muitas e muitas vezes - a mesma frase abafada pelos lábios que se devoravam, incessantes:

- Eu te amo...

As carícias se tornaram urgentes, as mãos mais ousadas. No meio da loucura ardente, deliciosa, ofegante, os olhos se encontraram.

Num acordo tácito, sem palavras, pouco a pouco, as duas se acalmaram. Apesar de não se afastarem. Sabendo que ainda tinham uma última coisa para conversarem. Algo importante, fundamental, inevitável.

Marcela suspirou. Profundamente. Tomando coragem. Aquele era o assunto mais crítico, o mais difícil das duas encararem. Mas precisava ser tocado, discutido e solucionado:

- Tem outra coisa que preciso falar... Algo que tem que ficar bem claro... Aquele dia que você me viu com a Gisele no banheiro da boate...

Vivi inspirou fundo. Como se fosse mergulhar. Segurou a respiração por alguns instantes, e logo depois  expirou de uma vez, soltando todo o ar.

Marcela esperou o tempo dela. Querendo que Vivi se preparasse, se posicionasse, concordasse.

A ruiva a olhou firme, as esmeraldas com um brilho dolorido, mas cheio de coragem:

- É... Precisamos falar sobre isso. Apesar de não ser fácil...

Os olhos negros mergulharam fundo nos verdes, sem se desviarem. A voz de Marcela soou absolutamente trêmula, sincera, emocionada:

- Quero que você saiba que não fiz aquilo por gostar da Gisele, ou coisa parecida... Pelo contrário. Não sentia nem sinto mais nada por ela. Eu tava drogada. Não pensei no que tava fazendo, e... bom, Vivi... Foi só sexo. Sem emoção, sem sentimento, sem razão... Sem nada...

Marcela parou, como se estivesse engasgada. As lágrimas escorriam livremente, sem que tentasse conter nem disfarçar. Respirou antes de voltar a falar:

- Não tenho como explicar, me justificar, nem voltar atrás. É um peso que vou ter que carregar pro resto da vida. Me arrependo todos os dias... Nunca vou me perdoar...

Começou a soluçar. Escondeu o rosto entre as mãos. Vivi sussurrou com uma voz suave, carinhosa, meiga. Totalmente livre de recriminações:

- Marcela... Você sabe que não existe culpa... Só causa e efeito... E que nunca é uma coisa que também não existe... Nós duas vamos nos perdoar...

Vivi a puxou, as lágrimas escorrendo, se misturando às dela. Marcela passou os braços ao redor da ruiva e ficaram abraçadas, se embalando, chorando juntas.

E então, aos poucos a respiração de Vivi se alterou. Como se algo dentro dela brotasse, saltasse, viesse à tona - finalmente a permitindo desabafar:<

- Você me machucou tanto, Marcela... Tanto... Foi uma dor insuportável, porque... quando me apaixonei por você, nas primeiras vezes que a gente transou... você era louca por aquela mulher... Apaixonada, obcecada... Tanto que nem me enxergava... Ver você com ela foi... como se eu não valesse a pena, como se eu... não fosse nada...

Marcela a apertou com força, a encheu de beijos. Querendo que a dor de Vivi passasse para ela. A ruiva entendeu. Correspondeu ao abraço, se deixou beijar, mas depois se afastou carinhosamente. Colocando os dedos nos lábios de Marcela para a impedir de falar. As esmeraldas queimando um pedido, tornando claro para os olhos negros que precisava continuar:

- Desculpe, mas... Eu preciso terminar... Não posso deixar nada sem falar...

Com um aceno de cabeça, Marcela concordou. Vivi respirou fundo, como se tomasse fôlego. Depois disso, a voz soou mais calma, apesar do tom sufocado, rasgado, emocionado:

- Na minha cabeça, Marcela... Você tinha acabado de transar comigo e... minutos depois, estava lá, com ela... Me trocou por aquela mulher... Preferiu, escolheu ficar com ela... Ou talvez... talvez... eu não fosse o bastante pra você, não conseguisse de te deixar satisfeita... Não fosse capaz por ser... sem graça, certinha demais...

Um breve silêncio se estabeleceu. Vivi abaixou a cabeça. Com um toque delicado, carinhoso, suave, Marcela a fez erguer o rosto novamente, até os olhos se encontrarem. Os verdes doloridos, enfraquecidos, em pedaços. Os negros com uma calma suave, como se os pudessem restaurar:

- Mas você sabe que nada disso é verdade, não sabe?

O silêncio de Vivi foi significativo. Marcela não podia permitir que nenhum tipo de dúvida, mágoa ou insegurança continuasse:

- Vivi, eu sou louca por você. Te amo, sou completamente apaixonada... Não tenho olhos pra mais ninguém... Nenhuma outra mulher se compara a você... Esse tempo todo em que ficamos separadas, não fiquei, não transei, nem beijar eu beijei... Não senti vontade.

As esmeraldas se espantaram. A princípio lançaram um brilho fraco, esparso, desmaiado. E depois fulguraram, abrasivos, em chamas altas:

- Verdade?

Marcela sussurrou:

- Só quero você...

Os olhos se misturaram. Os negros dois ciclones, formando ondas verdes gigantescas, verdadeiro maremoto de lava.

Deixando claro que a conversa tinha terminado. Os lábios e os corpos se colando de um jeito que fazia as palavras se tornarem... absolutamente desnecessárias.

As peles se procuraram com loucura. A boca de Marcela percorrendo o pescoço de Vivi incansavelmente. As mãos da ruiva por baixo da camiseta de Marcela, causando arrepios. Descendo para as calças dela, as abrindo, se perdendo lá dentro... Arrancando gemidos abafados com habilidade.

Com muita dificuldade, se esforçando para controlar a voz alterada, Marcela protestou:

- Não... Aqui não... Quero que seja especial...

Fazendo Vivi abrir um enorme sorriso. Antes de responder:

- Marcela, não importa o lugar... Quando estamos juntas é sempre especial...

Boquiaberta, surpresa, perplexa... Foi como a ruiva deixou Marcela. Apenas por alguns momentos. Antes de puxar Vivi para o colo, sentada de pernas abertas sobre ela.

As mãos de Marcela percorreram as costas de Vivi com pressa. A ruiva  a puxou pelo pescoço, mergulhando nos lábios dela novamente. A boca impaciente, ansiosa, ardente. Movendo a língua contra a de Marcela como se a quisesse engolir inteira.

Os beijos de Marcela desceram pelo pescoço da ruiva, para o colo... Ao mesmo tempo em que acariciava um dos seios que Vivi ofereceu arqueando o corpo.

Colou os lábios no bico duro, por cima do vestido. Vivi moveu os quadris contra ela, pedindo mais.

Marcela desceu a mão por baixo da saia da ruiva, passeou com uma urgência insana pelas coxas, provocando nas duas um incêndio incontrolável. A tocou entre as pernas, afastando a calcinha de Vivi, se deliciando em provocar o sexo molhado, pulsante, que exigia ser provado quase com desespero.

Vivi enfiou a mão dentro das calças de Marcela novamente. Sufocando, enlouquecendo de desejo. Começou a mover os dedos dentro dela, levando Marcela a fazer o mesmo. 

Tão quente que chegava a queimar... Com um prazer profundo, latente, exploraram juntas aquele calor... Se deixando levar pela deliciosa sensação de tontura, loucura, desterro...

Ficaram assim alguns momentos, sem conseguirem mais controlar os próprios movimentos, os dedos tomando, completando, as liberando completamente.

Os gemidos de paixão, ardor e entrega se mesclando com o ir e vir das ondas que estouravam, e o brilho das estrelas...

Vivi começou a estremecer. Puxou Marcela com força pelos cabelos,  obrigando as bocas a se separarem por um momento. Falou olhando fundo nos olhos negros, o verde intenso já se rendendo às primeiras explosões de prazer:

- Eu amo você...

Fazendo Marcela derreter, delirar, acompanhar Vivi também... Gozando juntas, se entregando ao intenso redemoinho de luz, energia e vida existente nos recônditos mais profundos, reclusos e dúbios do ser.

Capítulo 43: Respirar o Ar que é Você...

Vivi encostou a testa na de Marcela, as duas se recuperando, ofegantes. Apesar de estarem de olhos fechados, sabiam que tinham nos lábios o mesmo sorriso.

Marcela segurou o rosto de Vivi entre as mãos, e depositou nos lábios dela um beijo suave, doce, terno. Foi completamente correspondida. Mais ainda: a ruiva a abraçou com tanta força, que Marcela deixou escapar um gemido.

Depois ficaram se olhando por um longo tempo. Mergulhando, navegando, misturando os universos verdes e negros. Até que Vivi falou:

- Vamos voltar?

Marcela imediatamente concordou. Se levantaram, sacudindo a areia do corpo. Vivi ajudando Marcela, implicando com ela, a chamando de �bife à milanesa�.

Caminharam felizes, andando de mãos dadas sem pressa, donas do mundo inteiro.

De volta à festa, encontraram Carlinha, Rafa, Carol e Ricardo reunidos numa rodinha, conversando.

Carlinha não se conteve. Com um arzinho implicante e malicioso, disse:

- Nossa, vocês demoraram tanto... E voltaram cheias de areia... Que estranho...

Fazendo com que todos rissem. Vivi ficou absolutamente vermelha. Fazendo Marcela a abraçar com força, e sussurrar baixinho no ouvido da ruiva:

- Algumas coisas não mudam... Ainda bem...

Vivi esfregou o rosto no dela, antes de sugerir:

- Vamos?

Os olhos negros se contagiaram com a urgência dos verdes. Marcela assentiu, e as duas se despediram rapidamente. Enquanto se afastavam, ainda ouviram a voz indignada de Carlinha:

- Gente, vocês viram? Saíram correndo igual a Ana Cláudia e a Aline... Foi alguma coisa que eu disse?

 

Quando Marcela finalmente trancou a porta do apartamento, Vivi se atirou em cima dela de uma forma absolutamente ardente, urgente, faminta.

Foram se beijando pelo caminho, arrancando as roupas, deixando um rastro pelo corredor. A saudade e a necessidade imensa que sentiam uma da outra fazendo tudo parecer absoluto, inadiável, derradeiro.

Entraram no quarto de Marcela tropeçando, com pressa, caindo na cama de uma só vez. Vivi de costas, com Marcela por cima dela, as duas completamente nuas, encostando sem querer no controle do som, lançando no ar a música �The Reason� (Hoobastank):

 

�I'm not a perfect person (Eu não sou uma pessoa perfeita)
There's many things I wish I didn't do

(Tem tantas coisas que eu gostaria de fazer, mas não fiz)
But I continue learning (Mas eu continuo aprendendo)
I never meant to do those things to you

(Eu não pretendia fazer aquelas coisas com você)
And so, I have to say before I go (E então eu tenho que dizer antes de ir)
That I just want you to know (Que eu só quero que você saiba)
I've found a reason for me (Eu encontrei uma razão)
To change who I used to be (Para mudar quem eu costumava ser)
A reason to start over new (Uma razão para começar de novo)
And the reason is you� (E a razão é você...)

 

Foram obrigadas a interromper os beijos por um breve instante, porque era impossível não rir...

E então, o riso morreu, para as bocas se colarem novamente, em chamas. O coração de Vivi acelerou, parecendo querer sair pela boca.  Percorreu o corpo de Marcela com as mãos, saboreando cada pedaço de pele, saciando a vontade reprimida durante meses. A respiração se tornando tão difícil quanto a dela, que se arrepiava inteira ao menor toque. Explorou o pescoço e a nuca de Marcela com a boca, beijando, chupando, mordendo, a fazendo se contorcer.

Marcela apertou Vivi com força, desejando se fundir, se perder, se esquecer na pele dela... Colando a boca no pescoço que se oferecia, no cheiro que a inebriava, instigava, dominando todos os sentidos...

Abriu as pernas, encaixou a ruiva no meio delas. Colando, esfregando, roçando sexo com sexo. Como a tanto tempo não faziam... Como a muito queriam... Desejando ansiosamente compensar o tempo perdido... Fazendo Vivi deixar escapar vários gemidos. Que fizeram Marcela murmurar, com um suspiro:

- Ai, Vivi... Adoro quando você geme assim...

Arrancando mais gemidos com o que disse. Provocando em Vivi uma febre que a fez colocar os seios de Marcela na boca, com uma voracidade tão grande que a fez ofegar sem sentir...

A forma sensual de Vivi se mover entre as pernas dela mergulharam Marcela  num delicioso desespero... Beijou a ruiva com vontade, mordendo de leve o lábio inferior dela. Se ofereceu inteira, além dos limites da razão. Alternando sussurros excitantes e juras de amor... Chegando a um extremo indescritível de prazer, entrega, paixão...

Pelos tremores de Marcela, Vivi sabia que ela estava quase gozando. Rápido demais... Não era isso que queria, por isso parou. Saiu de cima dela, e se deitou de lado, puxando Marcela, para ficarem deitadas frente a frente.

Marcela protestou, só por um momento. Porque logo depois, voltou a gemer alto, ao sentir os dedos de Vivi  dentro dela. Fechou os olhos e acompanhou o delicioso movimento de vai e vem...

As bocas se colaram novamente, as mãos de Marcela acariciaram os seios da ruiva, desceram, a tocaram entre as pernas... Buscando, encontrando, penetrando... Mergulhando dentro dela...

Os gemidos foram aumentando, na medida em que o ritmo dos dedos acelerava... Pulsando, respirando, queimando... Incinerando juntas a febre que sentiam uma pela outra...

Mas Vivi parecia disposta a torturar Marcela, porque... de novo, parou, se afastou, interrompeu. Marcela quase morreu. A puxou com força, apertando os dedos com força nos ombros da ruiva, que sussurrou, com um sorriso:

- Calma... Paciência...

Antes de beijar Marcela na boca, encostando as costas dela de novo no colchão, as mãos a acariciando toda... Desceu os lábios sobre um dos seios, passou a língua em volta do bico, sugando com força quando Marcela gemeu, arqueando o corpo para Vivi. A língua brincou, circulando o biquinho duro, antes dos lábios se fecharem sobre ele.

Vivi lambeu e chupou, se deleitando sem pressa. Deixando Marcela surpresa, contrariada, irritada com o controle dela...

Marcela puxou os cabelos vermelhos com força. Exigindo que Vivi a satisfizesse. Vivi riu baixinho, e foi descendo de uma forma insuportavelmente lenta até o meio das pernas de Marcela. Provocando um gemido alto quando encostou a boca no sexo dela. Chupou de leve, fazendo com que Marcela quase batesse nela:

- Ai, Vivi... Quer me enlouquecer, é?

A ruiva riu... e manteve o controle. Lambendo com vontade, sem se apressar. A tocando com a pontinha dos dedos, penetrando Marcela devagar.

Marcela se contorceu, gemeu, implorou por mais. Vivi então mergulhou nela com todo o desejo, aumentando o ritmo dos dedos e da língua, finalmente a querendo fazer gozar.

Marcela perdeu a noção de qualquer outra coisa que não fosse a boca que a explorava, penetrava, devorava sem pena... E os dedos de Vivi dentro dela, agora em movimentos rápidos, aprofundando, acelerando, a dominando até Marcela gritar e se contorcer, explodindo num gozo intenso.

Marcela ficou um tempo de olhos fechados, a respiração voltando ao normal...

Vivi a observava, deitada sobre ela, com um sorriso satisfeito nos lábios.

Mal perceberam que a música tinha mudado: �Far Away� (Nickelback)

As esmeraldas cintilaram intensamente, antes de Vivi a beijar com sofreguidão. Mergulhou os lábios nos de Marcela, saboreando a doçura da boca que correspondia sem reservas, de um jeito lânguido que aumentou a excitação da ruiva ao extremo. 

Desceu a boca pelo pescoço de Marcela, arrancando pequenos gemidos. As mãos dela passeavam pelas costas da ruiva, fazendo-a se arrepiar inteira. Então se enfiaram nos cabelos vermelhos, e a puxaram para baixo, exigentes.  Vivi lambeu os seios que se ofereceram, depois passou a sugar com volúpia.

Desceu as mãos pelo corpo alvo, a pele queimando os dedos... Acariciou as coxas de Marcela, que abriu as pernas, suspirando, se insinuando, se rendendo novamente... Gemendo alto quando Vivi a tocou e penetrou com uma habilidade surpreendente.

As bocas se colaram novamente, as respirações entrecortadas, sem ritmo, sufocadas em anseios.

Marcela apertou a nuca da ruiva com força. Levantou um pouco a coxa pressionando-a contra o sexo de Vivi, delirando com os gemidos tão empolgados quanto os dela. 

Vivi se esfregou na perna de Marcela com vontade. De uma forma deliciosa, sensual, plena, deixando Marcela ainda mais excitada. Colou a boca no ouvido de Vivi, sussurrando:

- Quero te sentir gozando...

A voz rouca, ofegante, instigante, foi demais para a ruiva. Vivi se arrepiou inteira. O gosto, o cheiro, a pele de Marcela a enlouquecendo... Assim mesmo, teve forças para se conter:

- Vou gozar... Junto com você...

Se controlou, segurou, se moveu mais lentamente... Ao mesmo tempo acelerando, aprofundando o movimento dos dedos... Conseguindo o intento, porque... Rapidamente, Marcela começou a revirar os olhos, o corpo se contraindo e estremecendo, enquanto pedia:

- Goza comigo, Vivi... Vem...

Foi o suficiente para que a ruiva gozasse também. Longa, intensa, deliciosamente. Os suspiros, sussurros e gemidos se misturando totalmente.

Vivi relaxou o corpo em cima de Marcela, e ficaram abraçadas, se beijando languidamente. Então, o beijo foi se aprofundando, se tornando mais exigente.

Marcela a fez girar, trocando rapidamente de posição com Vivi, dizendo:

- Tava morrendo de saudade... Adoro fazer amor com você...

Marcela desceu a boca pelo corpo da ruiva, como se a quisesse devorar. Beijando e lambendo cada pedacinho de pele antes de finalmente chegar no ponto pulsante, suplicante, latente... Passou a língua devagar, tentando inutilmente não ter pressa, saboreando o gosto delicioso dela...

Tocou o sexo inchado,  encharcado... Enfiou os dedos com facilidade, começou a movê-los. Os gemidos intensos de Vivi a fazendo perder completamente todo e qualquer tipo de bom senso...

Marcela invadiu, percorreu, se apossou do sexo da ruiva travando uma batalha interna. De um lado a vontade de aproveitar, saborear, se deleitar lentamente. De outro, o desejo latente, fremente, absolutamente urgente.

O resultado foi a suavidade mais ardente que Vivi já tinha experimentado. E os dedos de Marcela explorando, experimentando, ousando coisas diferentes. Devagar, com cuidado, adorando o fato de Vivi não oferecer resistência.

Com um prazer impensável, indescritível, surpreendente, a ruiva se entregou a Marcela. Aos movimentos que a preenchiam atrás e na frente, à língua que não parava, incansável, quente, envolvente. Gemendo, se contorcendo, estremecendo...

Completamente rendida, à mercê da língua, da boca, dos dedos que a tomavam inteira. Sedentos, exigentes, inclementes.

Fazendo Vivi gritar, suspirar, ronronar... Até pedir arrego, depois de gozar na boca e nos dedos insaciáveis de Marcela várias e várias vezes...

 

As duas semanas seguintes passaram rapidamente. Sem que nenhuma das duas percebesse. Ocupadas demais em matar as saudades, aproveitar, recuperar cada minuto, cada segundo perdido. Conseguindo inexplicavelmente - sem deixar de cumprirem cada uma a sua rotina - fazer o tempo render.

A primeira coisa que ficou clara era a impossibilidade de dormirem separadas. Assim, passaram a se equilibrar � com um destreza de malabarista � entre a casa de Marcela e a de Vivi.

As famílias não se importavam. Pelo contrário. Estavam aliviadas, felizes das duas estarem finalmente juntas, o que significava que não precisavam mais se preocupar.

 

No dia 06 de Junho, Marcela foi acordada com milhares de beijos. Abriu os olhos com dificuldade, viu que estavam na casa dela � a parede verde era inconfundível � lembrou que era sábado, não tinham faculdade, e resmungou:

- Ai, Vivi... Ainda é cedo... Vamos dormir mais um pouquinho, amor...

Vivi a beijou com mais vontade. Rindo da cara mal humorada de Marcela, e dizendo:

- Acorda, amor... Quero te dar seu presente...

Marcela ainda não estava entendendo:

- Presente?

Como resposta, Vivi sussurrou no ouvido dela, se derretendo:

- Parabéns! Feliz Aniversário!

Marcela bocejou, passou a mão nos cabelos negros, e sorriu para Vivi. Que a beijou apaixonadamente. Fazendo Marcela rolar por cima dela, acariciando a ruiva com as mãos já completamente despertas, animadas e urgentes... Estranhou quando Vivi protestou:

- Marcela... Agora não, amor...

Achando que a ruiva estava fazendo charme, perguntou, sem parar o que estava fazendo:

- Ué, não é esse o meu presente?

A ruiva riu, e depois a empurrou, respondendo:

- Claro que não... Vamos... Já estamos atrasadas... Se veste rápido... Vem...

Não disse mais nada. Apenas se vestiu correndo. Marcela fez o que Vivi mandou, tentando descobrir o que estava acontecendo. Insistentemente. Sem resultado, porque... a única explicação que conseguiu de Vivi foi:

- Surpresa...

 

No carro, Vivi pareceu mudar de idéia. Acabou dizendo, um pouco ansiosa -  nervosa, na verdade:

- Não vai dar pra ser surpresa... Vou ter que te contar, porque... Você precisa concordar primeiro...

Ainda fez alguns segundos de suspense, segurando com força o volante, quando falou:

- Quero te dar uma tatuagem de presente...

O sorriso que Marcela abriu fez Vivi se sentir bem mais à vontade. E ter coragem de explicar todo o resto:

- Um ideograma japonês, no pulso...

Mesmo achando estranho que ela tivesse escolhido o desenho e o lugar, Marcela não a interrompeu. Deixou a ruiva continuar:

- E pensei em... fazer um igual...

A voz da ruiva soou bastante insegura ao perguntar:

- O que você acha?

Nem precisou esperar. A reação de Marcela foi animada, feliz, imediata:

- Uma tatoo igual... Perfeito, Vivi! O máximo! Muito melhor do que uma aliança, não acha?

Só então percebeu que Vivi estava sorrindo, nitidamente aliviada. Levantou a sobrancelha, olhando para a ruiva como se não acreditasse:

- Você pensou que eu não fosse gostar?

Vivi respondeu sem desviar os olhos da direção:

- Achei que fosse, mas...

Deixou a frase no ar. Imediatamente, Marcela perguntou:

- Mas?

Obrigando Vivi a confessar:

- É uma coisa meio definitiva, né? Eu escolhi sem te perguntar, depois fiquei com medo de você... ah, sei lá...

Quanto mais Vivi se explicava, mais Marcela ria, se divertindo às custas dela. Fazendo a ruiva revidar de uma forma misteriosa, implicante, provocante:

- Você nem perguntou que ideograma eu escolhi, já foi logo concordando... Não tá nem um pouquinho curiosa?

Marcela respondeu com um sorriso macio, malandro, sedutor:

- Não... Confio no seu bom gosto...

Mas Vivi conhecia Marcela bem demais. Não demorou muito para que ela não agüentasse:

- Que ideograma você escolheu?

A ruiva respondeu, enigmática:

- O desenho tá na minha bolsa...

Marcela pegou, e ficou olhando para o papel, frustrada. Ainda sem saber o principal:

- Tudo bem, você venceu... Vou ter que perguntar: qual é o significado?

O sorriso de satisfação de Vivi foi incontrolável. Só respondeu quando pararam no sinal. O brilho verde parecendo aumentar num misto de empolgação e ansiedade:

- Uma pessoa que respira dentro do coração da outra.

E como Marcela não dissesse nada:

- Que tal?

Marcela abriu e fechou a boca várias vezes, ainda sem palavras. Os olhos negros se inflamaram, como relâmpagos numa noite de tempestade. Deixando claro o quanto tinha adorado. Fazendo as esmeraldas se incendiarem.

Nem perceberam quanto tempo ficaram ali paradas, se olhando profundamente, sem piscar. Encantadas, hipnotizadas, fascinadas.

Só voltaram à realidade quando as pessoas atrás delas começaram a buzinar. Obrigando Vivi a olhar para frente, e sair com o carro.

 

Na festa na casa de Marcela mais tarde, exibiram com orgulho, numa felicidade gritante, o par de tatuagens envolvidas em filme de PVC.

Despertando na família e nos amigos todo o tipo de sorrisos, elogios e comentários. Como não podia deixar de ser, a melhor manifestação de todas foi de Carlinha, claro:

- Que lindo! Marcadinhas que nem gado... Ai, eu também quero... Será que você nunca vai ter uma idéia assim, Rafa?

 

A tatuagem foi a primeira de muitas coisas maravilhosas, belas e perfeitas. Que elas passaram a colecionar naturalmente. Conforme a relação se tornava, a cada dia que passava, mais e mais segura, forte, verdadeira.

Claro que também brigavam. Pequenos desentendimentos, aborrecimentos corriqueiros que fazem parte dos encaixes sutis do dia-a-dia, da mesma forma que dois diamantes se atritam para serem lapidados.

Nada sério. Apenas um tempero a mais no cotidiano, que na verdade proporcionava... reconciliações absolutamente fenomenais.

 

Assim, nesse fluxo incessante, persistente, interminável de dias, semanas e meses, se passou quase um ano. E novamente, era dia do kossen-rufu e aniversário da ruiva. 16 de Março...

Era 2ª feira, e Vivi saiu exausta do estágio. Entrou no elevador pensando se ia ou não para o espanhol. Um pouco chateada por Marcela ter almoçado com ela correndo depois da aula, saindo às pressas, com a desculpa de estar atrasada para a outra faculdade.

Claro que tinham comemorado na véspera - com um almoço na casa de Vivi, com os pais dela, Carol, Ricardo, Carlinha, Rafa, Aline, Ana Cláudia e os pais de Marcela.... E na reunião budista, onde as duas tinham feito o Shikai (apresentação) juntas... E com um jantar romântico, só as duas... E depois fazendo amor a noite toda...

Mas queria comemorar mais... De novo, com ela, a sós...

Ligou para o celular de Marcela e nada. Fora da área de cobertura ou desligado. Saiu do prédio uma fera. Quando ouviu uma voz muito familiar:

- Tá sozinha, ruiva?

Se virou e ficou perplexa. Marcela estava parada a alguns metros, encostada na moto. Não a tinha visto simplesmente porque... ela estava de roupa social � exatamente como quando fazia estágio, do jeito que Vivi adorava, mas que nunca tinha tido a oportunidade de aproveitar � e com... os cabelos da cor natural.

O espanto de Vivi não poderia ser maior. Ficou um tempo enorme paralisada, de boca aberta, babando por Marcela. Sem conseguir tirar os olhos dela. A achando absurdamente linda, atraente, interessante... Muito mais do que antes. A única coisa que conseguiu dizer foi:

- Amor, você tá... você tá... loira...

- Não gostou?

Puro charme. Porque era indiscutível, indisfarçável, incontrolável a reação que Marcela tinha causado. Turbulenta, violenta, devastadora...

Vivi fechou a boca, umedeceu os lábios, e se aproximou com um brilho felino, excitante, sedutor nas esmeraldas. Sussurrou no ouvido de Marcela:

- Não gostei. Adorei... Nem tenho como dizer o quanto, mas... posso te mostrar...

O sorriso de Marcela aumentou. A tensão entre elas chegava a ser palpável. Tão intensa que as duas estremeceram.

O brilho verde a ofuscou ao perguntar:

- E essa roupa?

Os olhos negros não deixaram por menos. Provocaram:

- Você gosta de me ver vestida assim, não gosta?

Ficaram se olhando por um momento. Vivi a devorando com os olhos. Louca para poder fazer o mesmo com as mãos, com a língua, com os lábios...

A voz da ruiva soou bem mais rouca, profunda, quase grave:

- Gosto... Adoro... Mas quero fazer muito mais do que olhar...

Deixou escapar um suspiro. Então completou com uma pressa impossível de negar:

- Vamos?

Marcela sorriu, achando graça. Imediatamente concordou e montou na moto. Estendeu a mão e ajudou Vivi a se sentar atrás. A ruiva pegou o capacete  antes de perguntar:

- Pra onde?

Marcela ia colocar o capacete, mas interrompeu o gesto no meio, e respondeu:

- Pensei em primeiro irmos jantar... Num japonês, que tal?

Ao perceber que Vivi não tinha gostado � estava escrito na cara dela - completou:

- Mas você manda... É seu aniversário...

Vivi a abraçou e apertou com força, antes de falar baixinho no ouvido dela, de uma forma tão franca, direta e sincera, que fez Marcela se arrepiar:

- A única coisa que eu quero comer agora é você, meu amor.

Marcela gemeu sem querer. Colocou o capacete quase com desespero. Vivi fez o mesmo.

Guiou a moto entre os carros correndo, querendo chegar o mais rápido possível no motel onde passaram de forma inesquecível a noite inteira. Saindo absolutamente felizes � a fantasia de Vivi completamente satisfeita - quando o dia seguinte amanheceu.

 

Na véspera do aniversário de Marcela, Vivi estava no quarto, se arrumando para o show que a KUON GANJO ia fazer no ESPELUNCA CHIC em Ipanema, quando ouviu a campainha tocar.

Pediu para a mãe atender e distrair Marcela até ela ficar pronta. Dona Lúcia atendeu com prazer. Abriu a porta, abraçou e beijou Marcela carinhosamente:

- Ah, eu nunca vou cansar de falar que prefiro você loira...

Depois, a obrigou a ir até a cozinha, onde seu Francisco estava sentado, comendo cachorro-quente.

Marcela ainda tentou protestar, inutilmente. Dona Lúcia já tinha colocado um sanduíche e um copo de refrigerante na frente dela.

Os três estavam comendo e conversando animadamente quando Vivi entrou. Marcela quase engasgou.

Toda maquiada, de calça preta de couro justíssima, botas, e uma camiseta que deixava um pedaço generoso da barriga de fora, a ruiva estava simplesmente... avassaladora.

Marcela nem tentou disfarçar o que estava pensando. O resultado foram duas esmeraldas chamejantes. Que se fizeram entender rápido, porque... Marcela engoliu o resto do sanduíche antes de se levantar e seguir Vivi até o quarto... quase babando.

 

Chegaram em cima da hora, mas quando Aline viu o sorriso na cara das duas, e a roupa que Vivi estava usando, não falou nada. Apenas trocou um olharzinho cúmplice com a amiga, antes de bater no ombro dela e a puxar para começarem.

Carlinha já estava acenando para Vivi. A ruiva se aproximou, e sentou onde a amiga e Ana Cláudia já estavam acomodadas. Na mesa das primeiras damas, como elas mesmas tinham se apelidado.

A banda começou a tocar. Com Aline cantando �Ao Teu Lado�(Reação em Cadeia), após dizer:

- Clau, meu amor... Pra você...

Ana Cláudia abriu um sorriso enorme. Desde o dia da festa, Aline e ela também tinham se acertado, e não se desgrudavam mais. As duas se completavam, e estavam visivelmente felizes e apaixonadas.

Quando a música terminou, foi a vez de Marcela cantar. �Solidão, que Nada� (Cazuza / George Israel / Nilo Romero). Os olhos negros mergulhando nos verdes com uma profunda intensidade.

Vivi ficou admirando a presença incrível dela em cena, hipnotizada como sempre, com um brilho bobo no olhar...

Nem percebeu que na mesa, a conversa continuava:

- Animada com a formatura, Ana Cláudia?

- Muito! � foi a resposta imediata � Ser sustentada pelos pais da Aline não tem graça, né?

Se para os pais de Ana Cláudia aceitar Vivi era difícil, a filha namorar com Aline era inaceitável. Pressionaram a morena para terminar ou sair de casa. Inacreditavelmente, ela tinha escolhido a namorada.

Desde então, moravam juntas, no apartamento que os pais de Aline mantinham. Coisa que Ana Cláudia não achava nada agradável...

As perguntas de Carlinha não acabavam:

- E você e a Marcela, Vivi?

- Ãh? � a ruiva perguntou, saindo do transe em que os olhos negros a tinham colocado.

- Quando vocês vão morar juntas?

A resposta de Vivi foi rápida. Resultado das milhares de conversas que tinha sido obrigada a ter com Marcela, até a convencer que era melhor esperarem:

- Só depois que a gente se formar.

Aline terminou de cantar �Vida Louca Vida�(Cazuza / Bernardo Vilhena / Lobão). A banda começou outra música. A voz provocante, insinuante, sensual de Marcela fez Vivi se arrepiar inteira:

- Tenho várias manias, mas... a maior e melhor delas é ruiva...

Antes de começar a cantar:

 

�Meu bem você me dá
Água na boca
Vestindo fantasias
Tirando a roupa
Molhada de suor
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar
Loucuras...�

Marcela cantou e tocou o primeiro refrão de uma forma provocante, absolutamente sedutora. Arrancando suspiros de Vivi. Continuou:

 

�A gente faz o amor
Por telepatia
No chão, no mar, na lua
Na melodia
Mania de você
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar
Loucuras...�

 

Jogou o cabelo loiro para trás, olhou fundo nos olhos verdes. As esmeraldas se incendiaram, correspondendo. Transformando os olhos negros em dois furacões passionais, sensuais, intensos:

 

�Nada melhor
Do que não fazer nada
Só pra deitar
E rolar com você...
Nada melhor
Do que não fazer nada
Só pra deitar
E rolar com você...�

 

Então, Marcela fez uma pequena pausa, passou a língua nos lábios, a boca  aguando de verdade ao olhar para a ruiva:


�Meu bem você me dá
Água na boca!�

(�Mania De Você� - Rita Lee / Roberto de Carvalho)

 

Arrancando aplausos entusiásticos de todos. Vivi continuou olhando fixamente para ela, sentada, esfregando uma coxa na outra.

Marcela sorriu, deixando claro que se encontrava no mesmo estado. Suspirou profundamente, e só depois anunciou que iam fazer um pequeno intervalo. Marcela surgiu na frente de Vivi, com a rapidez de um raio. E a beijou na boca demoradamente. A ruiva se debateu, protestando, por causa da última vez que tinham estado lá:

- Marcela, para... O gerente vai reclamar...

Mas Marcela não a soltou. Pelo contrário, a beijou com mais vontade, depois de dizer com dificuldade, pois se recusava a afastar os lábios:

- Vai nada... Era historinha do André...

Vivi correspondeu completamente. Se deliciando com a língua, com o piercing, com o ardor incansável da namorada...

Só quando as bocas finalmente se separaram, a ruiva deixou a indignação que sentia escapar:

- Aquele miserável...

E incrivelmente, as duas pararam, bastante perplexas, porque... André estava parado do lado delas, muito sem graça.

 

 

Capítulo 44: Conflitos e Discordâncias à parte...

Aline estava sentada com Ana Cláudia, quando viu André perto das duas. Levantou furiosa, mas a morena a segurou pela mão, dizendo com a voz firme, quase uma ordem:

- Aline, senta!

- Mas... Clau...

Ana Cláudia não disse nem mais uma palavra. Não era necessário. O olhar fulminante que lançou foi o bastante para amansar a namorada. Que voltou a se sentar ao lado dela imediatamente. Sem nem olhar para o lado.

 

A reação de Vivi foi exatamente o oposto. Ficou absolutamente rígida, as esmeraldas lançando um brilho congelante. Marcela manteve os braços ao redor dela, e sussurrou:

- Calma, amor... Relaxa...

André as cumprimentou com um aceno de mão tímido, como se estivesse com receio de se aproximar das duas:

- Oi...

Elas responderam sem nenhum entusiasmo. André elogiou a banda, e um silêncio constrangedor se estabeleceu. As duas deixando claro que não queriam nem tinham o que conversar com ele. Vivi o olhando com uma frieza gélida, e Marcela mantendo uma cordialidade distante, como se não se conhecessem.

Apesar de tudo isso, André contou que tinha conseguido uma bolsa de estudos em música e ia morar em Nova York.

Depois de um novo momento de silêncio, encerrou:

- Bom, eu já vou indo... Só vim mesmo pra me despedir...

Se afastou alguns passos, e então se virou, como se mudasse de idéia. Olhou dentro dos olhos verdes quando falou:

- Eu sei que o que eu fiz é imperdoável, mas ainda assim, queria dizer que sinto muito. E que acho que vocês formam um casal perfeito. De verdade. Desejo que sejam muito felizes juntas.

A sinceridade de André era visível. Isso amoleceu Vivi. Ela abriu um pequeno sorriso. Que ele correspondeu aliviado, contente, agradecido.

Os olhos negros, por sua vez, ficaram marejados. Do mesmo jeito que André, ao estender a mão para Marcela, emocionado. Com um pequeno toque nas costas da namorada, Vivi incentivou Marcela a aceitar. E então, com um aperto de mão efusivo, redentor, cheio de significados, André e Marcela finalmente se libertaram do passado.

Depois disso, André partiu. Saindo da vida delas definitivamente.

Vivi olhou para Marcela, que tinha ficado nitidamente mexida. Perguntou, preocupada:

- Tudo bem, amor?

Marcela sacudiu a cabeça afirmativamente, tranqüilizando Vivi. Depois falou de um jeito doce, pensativo, filosófico quase:

- É só que... Engraçado como algumas pessoas passam na vida da gente... O  André era tão importante... e agora é... quase um estranho...

Vivi passou a mão carinhosamente nos cabelos de Marcela, jogando-os para trás. Os olhos negros se voltaram para os verdes, sorrindo. As esmeraldas cintilaram, e Vivi disse:

- Eu te amo, sabia?

A resposta de Marcela foi colar os lábios nos da ruiva com paixão. E depois provocar, com um sorriso implicante, insinuante, desafiador:

- Só vou acreditar quando você casar comigo...

Vivi levantou uma das sobrancelhas, fingindo desaprovação. Balançou a cabeça negativamente, e então falou:

- Marcela... Nós já conversamos exaustivamente sobre isso...

Com um suspiro de insatisfação, Marcela a interrompeu:

- Conversamos. Mas você não me convenceu...

Foi a vez de Vivi suspirar, exasperada:

- Você acha que vai me vencer pelo cansaço, né?

Marcela riu. E respondeu, de um jeito bem humorado que fez a ruiva sorrir:

- Espero que sim...

Segurou o rosto de Vivi entre as mãos. Os lábios procurando, saboreando, se misturando aos dela... Arrancando outros tipos de suspiros...

Quando as bocas se separaram, Marcela a olhou fundo nos olhos, e pediu:

- Casa comigo?

Vivi fechou os olhos, com uma dorzinha no peito. Sem saber como fazer Marcela entender. Queria casar com ela, claro. Mais do que tudo. Mas não daquele jeito. Sem estarem formadas, sem terem dinheiro para se sustentar sem a ajuda dos pais... Preferia fazer tudo certo, para não cometerem mais erros...

Marcela a olhava, com uma ansiedade evidente. Esperançosa. Impaciente.

Vivi acariciou o rosto dela, com um sorriso triste. E apenas disse:

- Até quando você vai insistir?

Nem assim Marcela  se abalou. Com um sorriso absolutamente irresistível, retrucou:

- Só até eu conseguir...

Deu um beijo rápido na ruiva, antes de se juntar à Aline, que já a chamava para continuarem o show. Deixando Vivi muito pensativa.

 

Depois que o show terminou, ficaram sentados, conversando animadamente. Carlinha no colo de Rafa, Vivi no de Marcela, e Aline no de Ana Cláudia.

Quando virou a meia-noite, um dos garçons apareceu carregando um bolo cheio de velinhas acesas. Idéia da ruiva, lógico. Ajudada pelas amigas para manter a surpresa. Todos cantaram parabéns.

Marcela apagou as velas, com um sorriso enorme no rosto. Carlinha perguntou:

- Fez um pedido?

- Pode apostar que sim.

A resposta veio acompanhada de um olhar malicioso para Vivi. Que até parou de cortar o bolo. Carlinha não agüentou:

- Qual?

- Se eu contar não acontece, né? Só posso dizer que pra se realizar só precisa que uma certa ruiva mude de idéia sobre uma certa coisa...

Todos riram, sabendo perfeitamente do que Marcela estava falando: casamento...

Vivi fingiu não ter entendido. Distribuiu os pedaços com um sorriso no rosto. Deixando a namorada por último.

Ficou segurando o pedaço dela e quando Marcela tentou pegar, não o entregou. Com um brilho malicioso, excitante, sedutor, falou:

- Não... Vou te dar na boca...

As duas se olharam, cúmplices... Mil arrepios as percorrendo enquanto reviviam a memorável lembrança daquela primeira vez...

 

No dia seguinte, Vivi acordou cedo. Marcela estava abraçada a ela, e se virou quando a ruiva se espreguiçou.

Com um sorriso lânguido, Vivi admirou a loira de bruços do lado dela, dormindo inteiramente nua. Lembrando de como na véspera tinham se despido sem pressa, entre incontáveis carícias, sussurros e beijos. Peça por peça, saboreando cada pedacinho de pele descoberta, até finalmente ficarem sem roupas...

Acariciou as costas de Marcela com as mãos, depois com a boca. Arrancando alguns suspiros e gemidos roucos...

Beijou o tribal tatuado que adorava, subiu esfregando o corpo todo no dela. Faminta, mordendo e chupando a nuca que se arrepiou...

Inteiramente desperta, Marcela se virou. Ficando de frente para Vivi. Os olhos negros pulsando.

A ruiva escorregou as pernas entre as dela, abrindo-as. Colando o sexo no de Marcela. As esmeraldas em chamas. Hipnotizando, seduzindo, enfeitiçando...  Enquanto Vivi se movia sensualmente sobre ela, dizendo:

- Feliz Aniversário, amor...

Antes de colar os lábios nos dela ardentemente, guiando Marcela num doce e suave turbilhão de desejo, paixão e amor...

 

Almoçaram com dona Heloísa, dr. Marcelo, dona Lúcia, seu Francisco e Carol. Na casa dos pais de Marcela.

Estavam todos na sala, Vivi e Marcela abraçadas, sentadas juntas na mesma poltrona. A mão de Marcela pousada na coxa da ruiva, que encostou a cabeça preguiçosamente no ombro dela.

De repente, o dr. Marcelo falou:

- E então, Viviane? Quando é que você vem trabalhar comigo?

Marcela não teve como deixar de rir da reação da namorada. No susto, Vivi se sentou reta, num salto. Depois ficou muda, sem dar uma palavra. Marcela implicou:

- Responde, amor...

A ruiva deu uma cotovelada em Marcela, antes de gaguejar:

- Eu... Bom... É...

Foi o bastante para o dr. Marcelo completar:

- Preciso de alguém da minha inteira confiança. Confesso que esperava que a Marcela assumisse o escritório junto comigo, mas já que a minha filha resolveu se dedicar à música, ninguém melhor do que você para ficar no lugar dela.

Vivi ia responder, mas Marcela não deixou:

- A Vivi acha isso nepotismo, pai...

As esmeraldas fuzilaram Marcela. O escritório do dr. Marcelo era um dos melhores do Rio de Janeiro, não só pela qualidade do aprendizado como também pela remuneração, três vezes mais do que Vivi recebia atualmente. A  maioria dos estagiários seria capaz de matar para conseguir uma vaga lá.

Verdade que a ruiva tinha dito que não queria nenhum tipo de favoritismo por elas serem namoradas, mas... não era para Marcela contar isso para o pai...

O dr. Marcelo sorriu. Com uma condescendência de quem pensa: �Quanta bobagem...�. Antes de dizer:

- O escritório é meu. Era do meu pai e do meu avô antes de mim. Natural querer manter tudo em família. Não acha?

Antes que a ruiva pudesse responder, o dr. Marcelo continuou � fazendo Vivi entender de onde Marcela tirava a imensa capacidade que tinha de argumentar e de não aceitar um não como resposta:

- Sei que você quer provar o seu valor, mas não precisa se preocupar. Não vão faltar oportunidades para você me mostrar do que é capaz.

Marcela deu uma gargalhada. E depois soltou:

- Traduzindo: ele vai arrancar o seu couro, Vivi...

Para total espanto de todos, Vivi e o dr. Marcelo falaram juntinhos:

- Marcela, por favor, não atrapalha...

Marcela ficou quieta, arregalou os olhos... E então sorriu, achando graça, porque... evidentemente, Vivi e o pai já estavam se entendendo. Exatamente como ela queria.

Depois de um breve silêncio - concentrada, pensando, medindo os prós e os contras - Vivi tomou uma decisão. Respondeu fitando o dr. Marcelo com total firmeza, seriedade e determinação:

- Pode contar comigo.

- Ótimo. Começamos 2ª feira então.

Os dois selaram o acordo com um forte aperto de mãos.

 

A festa de aniversário de Marcela foi completamente diferente daquela outra. Na primeira vez em que Vivi tinha entrado naquele apartamento.

Apenas algumas poucas pessoas selecionadas, muito menos bebidas e cigarros, nada de drogas, e... a atração principal era um Karaokê. Onde todos cantaram, menos Vivi.

Marcela insistiu muito, mas muito mesmo para que a ruiva pelo menos tentasse, só de brincadeira. Mas ela se recusou terminantemente. Lançando um olhar suplicante para Carlinha, que resolveu intervir:

- Marcela, deixa quieto... Se você tem amor aos seus ouvidos, esquece isso...

Marcela não teve como deixar de rir. Sem acreditar no que estava ouvindo, perguntou:

- Como assim?

Foi a vez de Carol responder:

- Digamos que cantar não é o talento da Vivi.

Marcela olhou para a ruiva, que fez um gesto com os ombros como quem diz: �fazer o que, né?�. Mas ainda assim, Marcela persistiu:

- Mas se você dança, como é que não canta?

Vivi explicou, quase rindo:

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra, meu amor... Digamos que...  bom... eu sou desafinadíssima...

Ser desafinada era uma coisa que para Marcela, simplesmente não existia:

- Ah, Vivi... Não pode ser tanto assim...

Carlinha deixou escapar um:

- Pode sim...

Que Carol completou:

- Você nem imagina...

E Carlinha fechou:

- É um horror!

Sob o olhar perplexo de Marcela, as três riram. Concordando com tudo o que tinha sido dito.

Fazendo charme, com um sorrisinho suplicante, Marcela fez uma última tentativa:

- Poxa... Quer dizer que eu nunca vou ser cantada então?

Um sorriso malicioso, sedutor, cheio de segundas intenções, brincou nos lábios da ruiva:

- Com música, não...

Antes de beijar Marcela de um jeito que sugeria milhares de outras possibilidades muito mais satisfatórias, divertidas, e interessantes...

 

Quando a festa acabou, e todos foram embora, Marcela fechou a porta, e... abraçou Vivi, beijando o pescoço dela, a abraçando com aquele jeito ardente que a ruiva adorava.

Os lábios se encontraram sem pressa. As línguas se explorando, saboreando, incitando...

Marcela encostou Vivi na parede, a pressionou com o corpo, as mãos passeando pelo corpo dela lentamente.

Vivi correspondeu mergulhando os dedos nos cabelos loiros. Passando as pernas ao redor da cintura dela, causando um calor exigente, pungente, inevitável...

Marcela a carregou, segurando Vivi pelas nádegas, os braços da ruiva passados ao redor do pescoço. Sem que os lábios se separassem um só minuto.

Quando Vivi percebeu, já estava no quarto, com Marcela deitada por cima dela na cama.

Escorregou as mãos por debaixo da camiseta dela, o contato causando um prazer suave, imenso, delirante. Uma quase dor. Que arrancou  gemidos de ambas...

Marcela desceu a boca pelo pescoço de Vivi lentamente, se deliciando em fazer o corpo da ruiva estremecer e se contorcer debaixo dela. Subiu os lábios, mordiscou o lóbulo da orelha, e sussurrou:

- Ai, Vivi... Você é a mulher da minha vida... Eu amo você...

A voz da ruiva saiu extremamente fraca, trêmula, ofegante:

- Eu também... Te amo... Tanto... que chega a doer...

Se beijaram apaixonadamente. Com uma entrega profunda, absoluta, passional. As bocas só se separando porque precisavam respirar...

Marcela encostou o rosto no de Vivi, um leve tremor a percorrendo quando murmurou:

- Casa comigo, então...

Vivi não disse nada. Nem precisava dizer. Marcela sentiu perfeitamente o corpo da ruiva ficando tenso.

Fechou os olhos negros, e deixou escapar um longo suspiro. Visível e profundamente aborrecida. Antes de rolar e deitar na cama ao lado da ruiva, com as mãos na cabeça.

Vivi mordeu os lábios, tensa. Virou lentamente para Marcela. O brilho verde esmorecendo ao ver a tristeza dos negros.

Ficaram se olhando durante um longo tempo, tentando se compreender. Inutilmente. Como já não acontecia há muito tempo. Vivi ainda tentou dizer:

- Marcela, eu... Não entendo essa sua insistência... Agora você...

Mas Marcela foi quase agressiva ao interromper:

- Vivi, sinceramente, eu é que não entendo. Tô começando a ficar muito chateada com isso. Tô começando a achar que na verdade, você não quer casar comigo.

A ruiva balançou a cabeça negativamente, em reprovação. Com uma certa mágoa ao responder:

- Você sabe muito bem que não é nada disso... Claro que eu quero me casar com você. Mas não agora.

Macela se sentou na cama. Passou a mão nos cabelos.

- Porquê? Quer esperar o que?

Com um suspiro exasperado, Vivi também se sentou na cama. Segurou as mãos de Marcela entre as dela carinhosamente. Como se falasse com uma criança:

- Amor, já te falei mais de mil vezes... Não acho que agora seja o melhor momento...

Mais uma vez, Marcela não a deixou terminar de falar:

- Quando então?

Vivi respondeu sem nem pensar:

- Quando a gente se formar.

Fazendo Marcela entrar quase em desespero. Com a teimosia da ruiva, que parecia se recusar a sequer parar para ouvir e analisar. Mas Marcela estava determinada a convencer a namorada:

- Não tá vendo que é uma perda de tempo? Quero morar com você, ser casada com você, Vivi. Agora. Não quero esperar. Será que você não sente o mesmo?

- Não é uma questão de sentir ou não sentir. Você sabe.

Até então, as duas continuavam de mãos dadas. Nesse momento, Marcela se soltou. Com uma impaciência irritada, descontente, ofendida quase:

- Não, eu não sei. O problema não era o dinheiro? Então? Agora que você vai trabalhar com o meu pai, isso tá resolvido. Qual é a desculpa agora, Viviane?

Aquilo causou uma dor indescritível em Vivi. Era a primeira vez que Marcela a chamava pelo nome inteiro. O brilho verde cintilou embaçado, magoado, afogado nas lágrimas que sem querer surgiram.

Na mesma hora, Marcela se arrependeu, porque... as lágrimas que escorreram das esmeraldas fizeram o coração dela se apertar. Mas não queria, não podia recuar. Por isso, com um esforço imenso para não voltar atrás, falou � só que dessa vez com uma voz doce, suave, calma:

- Metade das suas roupas tão aqui no meu armário. Metade das minhas no seu. Na verdade, Vivi, eu me sinto sem casa. Até aí, tudo bem. Nada de grave. Mas é muito mais do que isso. Sabe porque eu quero tanto me casar? Porque eu te amo. De verdade. Quero construir um lar, uma família, uma vida com você... Quero somar. Nós duas. Juntas. E então? Ainda tem coragem de recusar?

Por um momento, as duas apenas se olharam. Os olhos negros se afogando nos verdes. Ambos absolutamente encharcados. As lágrimas escorrendo incontrolavelmente rosto abaixo.

Vivi fungou, antes de falar, de um jeito triste, difícil, desesperado:

- Marcela, por favor, não fala assim... Como se eu fosse uma pessoa insensível, egoísta... Pior: como se eu não te amasse tanto quanto você me ama... Você sabe como eu sou... Preciso pensar... Não, não ri... Eu só tô tentando nos proteger.

Com um sorriso estranho, entre doloroso e divertido, Marcela disse:

- Você tá com medo. Do que, só você pode responder. Tudo bem, você precisa de um tempo, e eu vou esperar. Só te peço uma coisa: por favor, não demora, tá? Porque isso tá me fazendo sofrer...

Vivi concordou com a cabeça. As duas se beijaram. Docemente.

Depois deram uma arrumação geral na casa, trocaram de roupa, escovaram os dentes. Num clima agradável, sem ressentimentos. Conversando amenidades, trocando frases carinhosas, carinhos e beijos.

Naquela noite, estranhamente, Marcela não quis fazer amor. Apenas aconchegou a ruiva nos braços, a apertando como se tivesse medo de perdê-la.

Encostada no ombro de Marcela, a cabeça queimando, fervilhando, trabalhando exaustivamente, Vivi ficou acordada muito tempo. Até a pulsação e a respiração de ambas se misturarem a ponto de parecerem a mesma, e ela também adormecer.   

 

 

Capítulo 45: Uma Pessoa que Respira dentro do Coração da Outra...

No dia seguinte, Vivi acordou cedo. Com muito cuidado para não acordar Marcela, se levantou. Depois se vestiu, tomou um café rápido, escovou os dentes, trocou a água do gohonzon e se sentou em frente ao oratório. Fazendo daimoku.

Mil pensamentos passando pela mente dela, enquanto recitava. De um lado o amor que sentia por Marcela, a vontade que sentia de morar com ela, de não esperar.

Do outro lado a razão. Que repetia que aquilo era muito precipitado...

�- Você tá com medo.� � era o que Marcela tinha falado.

Realmente, Vivi precisava confessar para si mesma: estava apavorada. Tinha usado como desculpa o problema financeiro, mas no fundo, não era verdade.

A verdade era que sabia que um casamento era feito de pequenos detalhes, coisinhas chatas e cotidianas inevitáveis, responsabilidades para as quais não tinha certeza se estava preparada. Com as quais não teria que lidar tão cedo se continuasse confortavelmente na casa dos pais...                                                          No budismo também, o casamento implicaria numa mudança total. Iria se formar na Divisão de Jovens, passar para a Divisão Feminina, deixaria de ser responsável de comunidade...

Olhou para o papel que, misticamente, Marcela tinha deixado em cima do butsudan (oratório):

 

�Quando não há desafio, não se rompem limites e tendemos a permanecer na mesma condição. Para muitos, talvez, não haveria problema permanecer da mesma maneira � pode ser até que esteja bem assim.

Porém, não avançar é o mesmo que retroceder.

Se continuar fazendo o que sempre fez, continuará obtendo o que sempre obteve. O espírito ensinado no budismo é o de sempre avançar, independentemente das circunstâncias. Viver é avançar, progredir sempre em todas as frentes. Se vocês desistirem de seus esforços para avançarem, significa que estão retrocedendo na própria vida.� (Daisaku Ikeda)

 

Passou a recitar com muito mais força. Encarando todos os medos, dúvidas, inseguranças de frente. Determinada a tomar a decisão certa. Aquela que seu coração realmente desejava. Para poder avançar infalivelmente.

 

Quando Marcela acordou, duas horas depois, estava sozinha na cama. Encontrou Vivi na sala, fazendo daimoku. Deu um beijo rápido na ruiva, para não atrapalhar. Vivi pediu:

- Vem fazer daimoku comigo?

E Marcela concordou. Depois de tomar café e escovar os dentes, se sentou atrás dela. Fizeram o gongyo e então recomeçaram:

- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo...

As duas absolutamente concentradas. Sem nem sentirem o tempo passar. Quando finalmente fizeram daimoku sansho e se levantaram, 3 horas tinham se passado.

Vivi enlaçou Marcela pelo pescoço, a beijando de leve nos lábios:

- Obrigada, amor... Você me dá muita força, sabe?

Marcela ficou surpresa, porque... sempre achava que era exatamente o contrário. Abriu um sorriso tão satisfeito que Vivi deu uma gargalhada.

As bocas voltaram a se encontrar, com uma entrega doce, suave, apaixonada.

Até que o estômago de Vivi roncou. Alto o suficiente para que as duas escutassem. Marcela disse, rindo:

- Bom, acho melhor a gente almoçar, né?

Vivi concordou, sem esconder o entusiasmo.

 

A semana se passou sem que nenhuma das duas voltasse a tocar no assunto casamento.

Todos os dias, quando Marcela acordava, Vivi já estava na frente do gohonzon, fazendo daimoku. A mesma coisa de noite, quando chegava da faculdade. 

A ruiva fez questão de dormirem na casa de Marcela todos os dias. Se Marcela estranhou, não disse nada.

Quando a 6ª feira chegou, Vivi foi direto do estágio para casa. Onde não aparecia há uma semana. Foi recebida calorosamente pelos pais. Que a abraçaram e beijaram muitas vezes. Afinal de contas, nos últimos dias só tinham se falado por telefone... Dona Lúcia não agüentou:

- Quer matar a gente de saudades, filha? 

Vivi suspirou, e disse:

- Acho que vocês vão ter que se acostumar...

Seu Francisco e dona Lúcia arregalaram os olhos, surpresos. Depois se entreolharam, sorrindo. Deixando Vivi aliviada por saber que não teria problemas. Sorrindo também, a ruiva completou:

- É isso mesmo que vocês tão pensando... Precisamos conversar...

- Até que enfim! � foi a resposta dos pais...

 

Quando Marcela saiu da aula, com o case do violão pendurado nas costas, conversando animadamente com Aline, deu de cara com Vivi, a esperando no pátio.

A ruiva tinha caprichado no visual. Estava... incrível... Marcela ficou parada, a admirando, enquanto Vivi cumprimentava Aline com dois beijinhos.

As esmeraldas cintilaram, antes de Vivi passar os braços ao redor do pescoço de Marcela, a beijando nos lábios de um jeito absolutamente apaixonado.

Quando as bocas se separaram, a ruiva se agarrou em Marcela num abraço apertado, emocionado, entregue.

Aline se despediu, e deixou as duas à sós. Marcela envolveu a ruiva com os braços, preocupada. Sem entender nada. Sussurrou no ouvido dela:

- Que foi, amor? Aconteceu alguma coisa?

Vivi se afastou um pouco. O suficiente para mergulhar o cintilar verde nos negros ao dizer:

- Não, nada...

As chamas verdes dardejaram, se incendiaram, contaminaram as negras...

Deixando Marcela mais calma, porque... obviamente não era nada grave.

Se deixou levar pela mão. A da ruiva estava fria, trêmula, ansiosa demais... Mas a pele de Marcela a acalmou, aqueceu, com aquele calor peculiar dela. Excitante, enfeitiçante, entorpecente...

Entraram no carro de Marcela. Vivi foi dirigindo. Conversando durante todo o caminho. Marcela contando sobre a faculdade. A ruiva a ouvindo interessadíssima. Como tudo o que dizia respeito à namorada...

Depois, foi a vez de Vivi falar sobre o estágio com total empolgação. Elogiou o trabalho, o escritório, o pai de Marcela ao máximo. Estava adorando, isso era claro. Marcela abriu um enorme sorriso. Acariciou os cabelos vermelhos.

Fascinada, encantada, embevecida... Enquanto a ruiva devolvia os olhares dela com a mesma admiração.

 

Assim que chegaram no apartamento dela, Marcela foi tomar banho.

Enquanto isso, Vivi levou uma garrafa de vinho e duas taças para a sala. Depositou tudo na mesinha em frente ao sofá, onde se sentou. Colocou uma música:  �Don�t Go Away� (Oasis). E ficou tranqüilamente abrindo o vinho, com um sorriso de antecipação nos lábios.

O sorriso aumentou quando Marcela entrou na sala ainda enxugando os cabelos, perguntando, entre surpresa e assustada:

- Vivi... Por que todas as minhas roupas que estavam na sua casa tão de volta no armário?

A ruiva respondeu absolutamente calma, com um brilho malicioso nas esmeraldas:

- Porque já que eu trouxe todas as minhas, não tinha porque deixar as suas lá, não é verdade?

Marcela ficou alguns instantes olhando para ela, boquiaberta, meio sem entender o que Vivi estava dizendo. O brilho verde cintilou, irradiou, a ofuscou, deixando os negros perceberem a verdade.

Ainda assim, Marcela continuou paralisada, como se não acreditasse. Vivi implicou, fazendo charme:

- Não vai me dizer que aquela insistência toda era da boca pra fora... Que agora que eu decidi aceitar, você não quer mais...

Marcela gaguejou, parecendo atordoada:

- Não... Eu... Claro que quero...

Antes de ajoelhar no chão na frente de Vivi, segurando as mãos dela, e perguntar:

- Vivi, você tem certeza, né? Não tá fazendo isso só pra me agradar, ou porque te pressionei demais?

Era evidente a ansiedade dela. A ruiva acariciou o rosto de Marcela, olhando intensamente para ela ao falar:

- Quero muito me casar com você, Marcela. De verdade. E não quero mais esperar.

Marcela ficou absolutamente sem palavras. A emoção que emergiu foi irrefreável. Os olhos se encheram de lágrimas, ao mesmo tempo em que ria, e beijava os lábios de Vivi, dizendo:

- Pensei que você nunca fosse mudar de idéia!

Voltaram a se beijar. Marcela interrompeu novamente, dizendo:

- E os seus pais?

- Como você acha que eu trouxe essas roupas pra cá tão rápido?

As bocas se encontraram, apenas para se afastarem novamente, porque... Marcela não parava de falar:

- Mas... e a cerimônia?

- Amor, vem cá...

Vivi a puxou pela nuca, e roçou os lábios nos dela. Nem isso adiantou:

- Precisamos marcar a data...

- Marcela?

O tom de voz urgente, impaciente, exigente de Vivi, fez Marcela perguntar:

- Ãh?

As esmeraldas a fitaram. Incendiárias. Com o poder hipnótico parecendo mil vezes maior do que o usual, quando Vivi sussurrou - com a voz rouca, grave, sensual:

- Para de falar...

Marcela se arrepiou inteira. E prontamente obedeceu.

O vinho ficou completamente esquecido, porque... comemoraram de outra maneira...

Se despiram devagar, com a lentidão intensa de quem saboreia. Ambas ofegantes, ardentes e trêmulas. Marcando para sempre aquele momento.

Se percorrendo, se provando, se desvendando profundamente com as mãos, lábios e dedos.

Pouco a pouco, a delicadeza cedendo, dando lugar a uma voracidade extrema, instintiva, certeira. Quase sufocando de tanto desejo...  Até explodirem numa rendição infinita, plena, derradeira, quando o gozo finalmente veio...      

 

 - Marcela, para! Já disse que não!

Vivi continuou empurrando a porta, tentando evitar que Marcela entrasse.

Marcela tinha se aproveitado do momento em que dona Lúcia e Carlinha tinham saído, para tentar entrar no quarto onde Vivi estava se vestindo. Querendo ver a ruiva antes da cerimônia começar. Continuou fazendo força, senão Vivi fecharia e trancaria a porta. Usando todo o poder de persuasão que tinha � porque fazer a ruiva mudar de idéia não era fácil � ao falar:

- Por que não? Vivi, deixa de bobagem! Por favor, amor... Eu tô nervosa, preciso de você pra me acalmar... Abre a porta, vai...

No silêncio do outro lado, Marcela quase podia ouvir a ruiva pensando. Antes de falar:

- Tudo bem, vou te deixar entrar. Mas só se você prometer se comportar!

Marcela riu baixinho. Antes de dizer:

- Tá, eu prometo...

As duas soltaram a porta ao mesmo tempo. Então Vivi a abriu lentamente, e Marcela entrou. No quarto que tinha sido de Marcela, na casa dos pais dela.

A princípio não a viu, porque a porta ainda entre elas não permitia. Mas então, com um empurrão, Vivi a fechou, e ficaram frente a frente.

Tiveram a mesma reação: se olharam de cima a baixo, prendendo a respiração. Ambas sorrindo. Admirando, desejando e aprovando o que viam.

Marcela de calça de vinil branca justíssima e brilhante, com um zíper que atravessava entre as pernas, de um lado para o outro. E camisa - para dentro das calças � meio de época, estilizada. Branca, transparente, acinturada, com um decote até o umbigo e rendas nos punhos e no decote. Botas, também brancas, cabelo com gel, toda maquiada, quase num estilo �Glam Rock�.

Vivi absolutamente linda e glamourosa, num vestido de noiva longo, mas leve e moderno, com um decote sexy que deixava as costas inteiras à mostra. Os cabelos arrumados em cachos, de um jeito que juntamente com a maquiagem a deixavam nada menos do que fatal.

- Você tá muito...

- Você também...

Foi só o que conseguiram dizer. Se olharam profundamente. Os universos verdes e negros se misturando inteiramente...

Marcela ensaiou se aproximar de Vivi. Com um brilho absurdamente sedutor, insinuante, de puro desejo no rosto. Adivinhando as intenções dela, a ruiva a impediu:

- Não, senhora... Tá vendo? Por isso que eu não queria que você entrasse...

Com o jeitinho insistente de sempre, Marcela pediu:

- Ah, Vivi, só um beijinho, vai...

Mas Vivi foi firme:

- Nem pensar... Me recuso a me casar toda amassada e com a maquiagem borrada, dona Marcela!

E foi empurrando Marcela em direção à porta. Antes de ser expulsa, Marcela disse:

- Amor, espera...

E incrivelmente, Vivi parou para ouvir.

Marcela ficou olhando para ela, por um longo tempo, sem dizer nada. De um jeito que fez a ruiva estremecer. Segurou as mãos de Vivi entre as dela com suavidade, e murmurou:

- Eu amo você... Muito... Demais...

Vivi respirou fundo. E respondeu:

- Também te amo. Vou amar sempre...

Os olhos negros se encheram de lágrimas. Os verdes também. Com um brilho doce, carinhoso, suave, Vivi disse:

- Agora vai, antes que você acabe com a minha maquiagem...

Marcela lançou um último olhar em erupção para a ruiva à sua frente, e com um suspiro penalizado, obedeceu.

 

O final de tarde estava perfeito. Nem frio nem quente. Início de primavera, 23 de Setembro. O jardim da casa dos pais de Marcela era um espetáculo à parte, combinando com as flores que decoravam o espaço coberto onde tinham sido colocadas as cadeiras, a mesa e o oratório.

Os convidados já estavam todos acomodados. Antes de começarem, Carol, que ia realizar a cerimônia, verificou se tudo estava certo. E tentou inutilmente acalmar as noivas. Impossível, porque... tanto Vivi quanto Marcela estavam nervosas ao extremo.

A música que elas tinham escolhido começou: �You and Me� (Lifehouse). Primeiro a entrada dos pais e dos padrinhos. Os de Vivi do lado direito e os de Marcela do esquerdo.Atravessaram o corredor entre os convidados e sentaram nos lugares reservados na frente, na seguinte ordem: seu Francisco e dona Lúcia, dr. Marcelo e dona Heloísa, Rafa e Carlinha e Aline e Ana Cláudia.

Marcela e Vivi se entreolharam, as esmeraldas reluzindo. Transformando os olhos negros em duas intensas tempestades. Apertaram as mãos uma da outra com força, sorrindo. A ansiedade tornando difícil respirar...

E só então entraram. Juntas, de mãos dadas, absolutamente emocionadas. Mais ainda quando viram de um lado as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto de dona Lúcia, e do outro dona Heloísa esfregando os olhos com um lenço, tentando disfarçar que chorava.

Nenhuma das duas agüentou. Vivi esqueceu completamente da maquiagem. Marcela nem tentou se fazer de durona. Impossível. As lágrimas eram incontroláveis... Sentaram nas duas cadeiras separadas na mesa em frente ao oratório chorando de se acabarem.

A música terminou. Bebel, a Shikai (apresentadora) do casamento, falou:

- Boa tarde! Sejam bem vindos à cerimônia de casamento das noivas Marcela Albuquerque de Moraes e Viviane Lopes Teixeira. Realizaremos o Gongyo, recitação do 2º e 16º capítulos do Sutra de Lótus em torno da celebrante, Sra. Tatiana Tomizawa.

Fizeram o gongyo. As mãos de Marcela seguravam o Sutra tremendo. Vivi percebeu, e sorriu. Depois, pegou uma das mãos dela e ficou segurando com força.

Marcela percebeu o quanto Vivi estava nervosa também, porque a mão da ruiva estava... gélida. Apertou a mão dela de volta, apoiando e se apoiando nela também.

O gongyo terminou, daimoku sansho, e... a shikai voltou a falar:

- Neste momento, inicia-se a  cerimônia  de  San San Kudô, que  representa  a  união. Esta é uma cerimônia tradicional no Japão. No budismo  de Nitiren Daishonin, a prática está ligada ao dia-a-dia.  Assim sendo, a cerimônia de casamento também está, e simboliza a relação do casal entre si e com a sociedade. A Primeira taça, o oferecimento ao Buda, simboliza a felicidade do casal, o estado de Buda de cada uma. Ou seja, elas devem sempre olhar uma para a outra e perceber o estado de Buda de cada uma.

Carol se aproximou com um bule na mão e um Sampo com uma xícara japonesa em cima. Sorrindo para as duas com aquele jeito maravilhoso dela,  que tinha o poder de acalmar.

As duas fizeram exatamente como tinham ensaiado: bebendo 3 goles da xícara. Primeiro Vivi, depois Marcela e então Vivi de novo. Com uma emoção indescritível, se olhando nos olhos o tempo todo. O brilho verde mergulhando no mar negro. Os olhares ardentes as ofuscando inteiramente.

Carol se afastou, e Bebel falou:

- A segunda taça simboliza o oferecimento à lei. A nossa lei é a lei de causa e efeito, esta taça significa que o casal deve tomar atitudes baseadas na Lei máxima do Universo. E que suas atitudes devem ser sempre corretas de uma para com a outra.

Carol voltou com a segunda taça, e elas repetiram o que tinham feito com a primeira. Dessa vez Marcela bebendo duas vezes. A intensidade dos olhares apenas aumentou, totalmente voltadas, hipnotizadas uma pela outra.

Carol voltou a se afastar, e mais uma vez, Bebel explicou:

- A terceira taça simboliza o oferecimento ao sacerdote. O sacerdote em todas as religiões é aquele que perpetua os ensinamentos da religião e a propaga. Assim, transportando para a cerimônia, cada uma das noivas é o próprio sacerdote, pois cada uma propaga o Budismo, unidas pelo Kossen-Rufu, e além disso, com relação ao casamento, são as noivas que devem mantê-lo em união e harmonia.

Repetiram o ritual, Vivi voltando a beber duas vezes. Carol então trouxe a almofada com as alianças. Amarradas num laço que as duas desfizeram juntas, cada uma puxando uma ponta. Bebel anunciou:

- Agora, teremos a troca das alianças.

Uma estranha calma se estabeleceu. Só então as duas pararam de tremer completamente. Contagiadas pela certeza do que estavam fazendo. Colocaram as alianças uma no dedo da outra juntas, ao mesmo tempo. Os convidados aplaudiram entusiasticamente. Bebel voltou a falar:

- Se as noivas quiserem dizer algo uma para a outra... Esse é o momento.

E passou o microfone para Vivi. A ruiva disse, abrindo um papelzinho que tinha guardado dentro do Sutra:

- Bom, eu tive que pedir ajuda ao senhor William Shakespeare...

Marcela abriu um enorme sorriso. Que Vivi correspondeu, antes de ler, com a voz muito embargada, emocionada, trêmula:

- Há certas horas, em que não precisamos de uma paixão desmedida... Não queremos beijo na boca... E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama... Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar, que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a nos fazer sorrir... Alguém que ria de nossas piadas sem graça... Que ache nossas tristezas as maiores do mundo... Que nos teça elogios sem fim... E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja de uma sinceridade inquestionável... Que nos mande calar a boca ou nos evite um gesto impensado... Alguém que nos possa dizer: acho que você está errado, mas estou do seu lado... Ou alguém que apenas diga: Sou seu amor. E estou Aqui.

A ruiva já estava aos prantos quando completou:

- Eu tenho muita sorte, Marcela, porque com você, eu tenho tudo isso...

Marcela a abraçou, chorando e rindo. Fazendo Vivi chorar e rir também. Quando se separaram, Marcela enxugou os olhos, e pegou o microfone que Vivi estendia.

Vivi abriu um enorme sorriso, as esmeraldas chamejando quando Marcela cantou, à capela mesmo, com uma voz bem diferente da de sempre... Absolutamente linda, e trêmula de emoção:

 

�Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande

O meu amor
Por você...
E não há nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você...�

(�Como é Grande o Meu Amor por Você� - Roberto Carlos / Erasmo Carlos)

 

Se era só essa parte que ela queria cantar, Vivi ficou sem saber, porque... Marcela começou a chorar. A ruiva pegou o rosto dela entre as mãos, as esmeraldas a tragando, tomando, acariciando com o cintilar verde... Antes de colar os lábios nos dela apaixonadamente.

Depois de um tempo, Bebel interrompeu o beijo:

- Ergue-se um brinde à felicidade das noivas.

Quando as duas olharam, Carol já tinha colocado duas taças na mesa na frente delas, e os padrinhos e os pais das noivas estavam com as taças erguidas para brindar. As duas pegaram as taças, brindaram e beberam. Com o resto dos convidados aplaudindo. Bebel encerrou o brinde, dizendo:

- Palavras com a celebrante, Sra. Tatiana Tomizawa.

As duas voltaram a se sentar. A celebrante não se estendeu muito, mas suas palavras foram emocionantes, diretas, profundas. Quando terminou, a maioria das pessoas estava enxugando os olhos. Menos Marcela e Vivi, que já tinham desistido de impedir ou disfarçar as lágrimas que escorreriam incessantemente.

Bebel anunciou:

- Realizemos a recitação do Nam-Myoho-Rengue-Kyo três vezes.

Daimoku sansho e Bebel voltou a falar:

- Neste momento encerra-se a cerimônia de casamento. Uma salva de palma para as noivas.

 

Depois dos cumprimentos, do jantar, e algumas taças de champanhe a mais, Vivi estava dançando agarrada com Marcela, sem que nenhuma das duas se importasse com que música estava tocando, porque... a ruiva estava com o corpo colado no de Marcela de um jeito absolutamente insinuante, a boca produzindo fagulhas ao percorrer a pele ardente do pescoço sem pudores, como se estivessem na cama. Como se não bastasse, Vivi ainda sussurrou, com as mãos a apertando de uma forma enlouquecedora:

- Tô louca pra abrir esse seu zíper...

Com um esforço gigantesco, Marcela se obrigou a dizer:

- Mais tarde... Paciência, amor...

 

Algumas horas depois, o presente dos pais de Marcela � duas diárias numa suíte do Copacabana Palace - gerou polêmica dentro do carro:

- Marcela, você não podia aceitar sem me consultar...

A ruiva estava possessa. Marcela ainda tentou argumentar:

- Amor, você sabe que se fosse pra fazer o que os meus pais realmente queriam, estaríamos dentro de um avião pra Paris agora...

Sem muito resultado:

- Mesmo assim, não foi o que nós combinamos.

- Vivi... Seja razoável... Se a gente não for, eles vão ficar muito chateados... Por favor...

Falou pegando a mão da ruiva, e a levando aos lábios carinhosamente. Fazendo as esmeraldas arderem, cintilarem, amolecerem:

- Tudo bem... Fazer o que, né?

Marcela fez força para conter o riso, porque... Vivi estava amuada, fazendo bico mesmo. Disse com um jeitinho carinhoso, envolvente, sedutor:

- Não faz essa cara, vai... O que eu podia fazer? Ele só me falou agora, antes da gente sair da festa... Ah, você sabe muito bem o quanto o seu sogro sabe ser convincente...

Vivi já estava sorrindo. Do poder irresistível da esposa. Que a fez dizer, com as esmeraldas cintilando, com um olhar malicioso, e água na boca:

- Não mais do que você, meu amor...

 

Marcela fechou e trancou a porta da suíte sem demonstrar nem um pouco da paciência que pediu para Vivi horas antes.

Encostou a ruiva contra a porta. De forma absolutamente sedutora, ardente, urgente, pressionou o corpo contra o dela, arrancando um primeiro gemido.

Vivi ainda implicou:

- Não quer ir pro quarto? Seu pai fez tanta questão...

Marcela riu, antes de sussurrar, fazendo Vivi se arrepiar inteira:

- Agora não... Depois... Temos muito tempo...

As esmeraldas se incendiaram, duas chamas suplicantes, trêmulas de antecipação e desejo.

Marcela desceu os lábios sobre os dela, suspirando quando as línguas se tocaram sensualmente.

O coração de Vivi reboou, saltou, acelerou como louco dentro do peito. A ruiva puxou a camisa de Marcela para fora da calça, abrindo os botões com as mãos ansiosas, desejosas e trêmulas. Percorreu sem pressa, saboreando cada milímetro da pele alva, incendiária, envolvente.

Marcela levantou o vestido da ruiva, deixando as pernas à mostra. Se deliciando com a textura da meia 7/8 em contraste com o pedaço de pele macio, desnudo e ardente das coxas.

As respirações se tornaram tão difíceis que as bocas precisaram se separar por um momento, em busca de ar.

Marcela explorou o pescoço e a nuca de Vivi com a boca, beijando, chupando, mordendo até fazer a ruiva se contorcer.

Vivi acariciou os seios de Marcela, depois apertou as nádegas dela com força, colando os corpos, gemendo com a sensação arrepiante, fria, e absolutamente excitante do vinil roçando na pele.

Não agüentou: trocou de posição com ela, empurrando Marcela contra a porta. Passeou os lábios pelo pescoço e pela nuca dela, a boca descendo, parando nos seios, a língua fazendo movimentos circulares nos bicos duros, antes de lamber e sugar com loucura. Depois desceu beijando a barriga de Marcela, ajoelhando na frente dela, que apenas ofegava, entregue e trêmula...

Abriu o zíper lentamente, com um sorriso nos lábios, ao perceber que a calça de Marcela se abria quase completamente, se dividindo ao meio. Deixando à mostra uma calcinha branca minúscula e transparente.

Olhou para os olhos negros, mar escuro e profundo de desejo ao esclarecer:

- Tinha certeza que você ia gostar...

As esmeraldas corresponderam completamente, cintilando raios roucos, maliciosos, satisfeitos ao responder:

- Eu não gostei. Adorei...

Sem mais demora, afastou a calcinha mínima, e mergulhou a boca no sexo de Marcela, provocando incontáveis gemidos...

Marcela fechou os olhos e se entregou completamente, perdendo a noção de qualquer outra coisa que não fosse a língua que a explorava, penetrava, devorava sem pena. De um jeito quase insuportável, que rapidamente a fez começar a estremecer. Com a voz trêmula, ofegou:

- Vou gozar pra você, amor...

Sentiu os dedos de Vivi dentro dela, a língua acompanhando os movimentos, gemendo alto enquanto o corpo todo estremecia incontrolavelmente. Explodindo num orgasmo longo, demorado, intenso...

Levou um tempo para se recuperar e abrir os olhos. Quando o fez, Vivi estava abraçada nela, com o rosto enfiado no pescoço de Marcela, os lábios roçando suavemente na pele dela...

Marcela enfiou os dedos nos cabelos ruivos, puxando Vivi pela nuca, e colou os lábios nos dela, de um jeito possessivo, exigente, urgente, que deixava claro que ainda não estava satisfeita. Trocou de lugar com Vivi, deixando a ruiva de costas para a parede.

Abriu o zíper do vestido dela, as mãos demonstrando uma agilidade surpreendente. O tecido branco escorregou para o chão, onde ficou caído ao redor dela.

Marcela olhou para a ruiva apenas de calcinha, sutiã, meia 7/8 e salto alto, a fitando com as esmeraldas desejosas, suplicantes, ofegantes. A visão irresistível a deixando completamente sem chão, sem noção, sem razão...

A puxou pela cintura, comprimindo o corpo contra o da ruiva. Vivi deixou escapar um leve gemido de dor, e a afastou, dizendo:

- Seu zíper machuca, amor...

E depois, com um sorriso insinuante, malicioso, sedutor, completou:

- Mas eu resolvo...

Desabotoou a calça de Marcela, a ajudou a se livrar dela, e a puxou para que os corpos voltassem a se colar.

Foi um beijo efervescente, em chamas, devastador... Sem nada de sereno.

Que terminou com Marcela pedindo:

- Vira, amor...

Vivi prontamente obedeceu. Marcela grudou o corpo no dela novamente. Afastou os cabelos vermelhos, mergulhando os lábios na parte sensível do pescoço, e depois mordendo a nuca que se oferecia, fazendo a ruiva suspirar e se arrepiar várias vezes.

Os quadris de Marcela começaram a se mover quase que involuntariamente... Vivi gemeu, apoiou as mãos na porta, e empinou a bunda contra o sexo que se esfregava nela... Sentindo as mãos de Marcela a segurando, a dominando, a conduzindo magistralmente... Uma num dos seios, a outra entre as pernas, fazendo o sexo da ruiva derreter, ronronar, se oferecer.

A penetrando lentamente, se esfregando na ruiva, enquanto a incitava, excitava, instigava sussurrando no ouvido dela, levando Vivi a um estado quase insuportável de prazer.

Marcela continuou movendo os dedos dentro da ruiva, o sexo pulsando contra as nádegas dela, o prazer aumentando até estremecer violentamente...

Então, o corpo de Vivi foi sacudido por espasmos, a ruiva gemeu longa e intensamente, e gozou também.

Ficaram abraçadas, as pulsações e respirações ressoando, se desacelerando, se restabelecendo.

Marcela sentiu as pernas da ruiva bambearem, a pegou no colo, e a levou para o quarto, onde a depositou na cama doce, gentil, carinhosamente.

As esmeraldas resplandeceram ao segurar o rosto de Marcela entre as mãos e a beijar nos lábios com um ardor imenso. Depois, num entendimento sem palavras, tiraram o resto das roupas uma da outra, os olhos sem se desviarem um só segundo.

Num movimento quase sincronizado, de uma sintonia perfeita, Vivi foi se deitando lentamente, atraindo Marcela para cima dela, os corpos se encaixando, se buscando, se encontrando de uma forma intensa. Com uma entrega apaixonada, transcendente, verdadeira. Daquelas infindáveis, imutáveis, invejáveis. Capazes de durar uma vida inteira.

 

No dia 16 de Março, pontualmente às 18h, Marcela foi buscar Vivi no escritório do pai.

Os dois falaram com ela rapidamente, depois voltaram ao que estavam fazendo: trabalhando animados e empolgados, um do lado do outro, atrás de uma pilha de processos.

Marcela colocou os fones do MP3 no ouvido e ficou esperando. Depois de mais de uma hora e meia, se manifestou:

- Pai, hoje é o aniversário da Vivi... Dá um desconto, vai...

O dr. Marcelo olhou para a filha muito espantado:

- Mas ela está aqui porque quer. Já dispensei a Viviane horas atrás...

A ruiva se explicou, preocupada com o olhar de absoluta reprovação que recebeu da esposa:

- Desculpa, amor... Mas é que esses processos são muito...

Marcela não a deixou terminar. Pegou a bolsa de Vivi, e a chamou, se fingindo de brava:

- Nem mais nem menos, dona Viviane! Vamos embora, agora! Tchau, pai!

A ruiva ainda pegou a pasta, alguns processos, e se despediu do sogro, antes de seguir Marcela, que já estava na porta.

Ficaram esperando o elevador. Marcela se ofereceu para carregar a pasta da ruiva - achando que os processos que ela carregava já eram pesados demais - antes de implicar:

- Tudo bem que você quer mostrar serviço, doutora, mas não precisa exagerar...

Vivi abriu e fechou a boca várias vezes. Acabou se defendendo:

- Ah, que maldade, amor! Você sabe que não é nada disso... Eu adoro o meu trabalho...

Entraram no elevador, e antes que a porta se fechasse, o dr. Marcelo entrou também. Sorriu da cara impaciente de Marcela, quando deu umas últimas instruções para Vivi. Depois falou:

- Aonde vocês vão? Não querem jantar lá em casa?

Educadamente, as duas recusaram. Mas o dr. Marcelo insistiu, olhando para Marcela com um sorriso muito implicante:

- Vamos lá, filha... Também queremos comemorar o aniversário da nossa nora...

Marcela fuzilou o pai com o olhar, antes de dizer de forma cortante:

- Pai... Não!

Vivi sussurrou no ouvido dela:

- Que é isso, amor? Não precisa ser grosseira...

Mas então, o dr. Marcelo defendeu a filha, passando a mão carinhosamente nos cabelos loiros:

- Eu tava só provocando... Sei que a Marcela tem uma surpresa pra você... Feliz aniversário, Viviane! Tchau, filha...

E dizendo isso, saiu do prédio, deixando as duas sozinhas. A voz de Vivi soou curiosíssima, ao perguntar para a esposa:

- Surpresa, é? O que?

Marcela riu, antes de pegar a mão da ruiva e a guiar até onde tinha estacionado o carro:

- Você vai ver...

 

Quando chegaram na porta de casa, Marcela tapou os olhos de Vivi, dizendo:

- Não vale espiar...

- Quanto mistério...

Mas Marcela apenas acrescentou:

- Prometo que vai valer a pena...

Fechou a porta, guiou Vivi até o meio da sala, tirou a mão dos olhos verdes, e pediu:

- Espera um pouquinho... Não abre os olhos ainda...

Depois de alguns segundos, onde Vivi ouviu uma estranha movimentação, Marcela estava ao lado dela novamente. Sussurrando no ouvido de Vivi:

- Pode olhar...

As esmeraldas cintilaram, porque... Marcela tinha enfeitado a sala inteira com flores. Em cima da mesa, pratos, copos e talheres para duas pessoas, e uma champanhe no gelo, à luz de velas. Acompanhado por um carinhoso:

- Feliz aniversário, amor...

Com um sorriso enorme no rosto, Vivi se virou para ela, e enlaçou o pescoço de Marcela, colando os lábios nos dela apaixonadamente.

Quando o beijo se tornou mais exigente, Marcela reclamou:

- Ah, não vai me dizer que não tá com fome...

Na verdade, Vivi não estava. Tinha almoçado tarde, e depois lanchado... Naquele momento, tinha outra coisa em mente. Um tipo de fome  bem diferente, mas... Nada que não pudesse esperar. Nada que pudesse superar o que sentiu ao ver o sorriso com que Marcela a presenteou, quando a ruiva respondeu:

- Tô morrendo de fome, amor...

Jantou como se não tivesse comido nada o dia inteiro. Elogiando a lasanha que Marcela tinha feito como se nunca tivesse comido nada igual.

Marcela a recompensou com um ardor, um amor, uma paixão insuperáveis, deixando a outra fome da ruiva completamente saciada depois...

 

Na véspera do aniversário de Marcela, a Kuon Ganjo foi convidada para abrir o show do Capital Inicial no Circo Voador. Era o primeiro show importante da banda.

Como sempre, Vivi ficou no escritório até tarde. Carlinha e Ana Cláudia a pegaram, e a ruiva foi mudando de roupa às pressas no banco de trás do carro. Trocando o blazer e a calça sociais por um vestidinho leve, despojado, sensual.

Tinha acabado de calçar as sandálias, quando Carlinha soltou:

- Meninas, eu tô grávida...

Vivi só conseguiu dizer:

- O que?

E Ana Cláudia não foi mais feliz:

- Mas como?

Carlinha soltou uma gargalhada, antes de responder:

- Do jeito tradicional, é claro... Ou você já esqueceu que isso é possível, pelo menos no meu caso?

As três riram muito, de chorar. Até estacionarem e descerem do carro. Só então Vivi conseguiu perguntar:

- E o Rafa, já sabe?

- Já.

Ana Cláudia não agüentou:

- E qual foi a reação?

- Adorou, né? Sabe como é o Rafa... Tá todo bobo porque vai ser pai... E vocês duas, não se animam não?

A ruiva e a morena se entreolharam. As duas já tinham pensado nessa idéia. Já tinham até conversado com as respectivas mulheres, mas... a gravidez de Carlinha fazia tudo parecer bem mais palpável...

Ana Cláudia se empolgou, dizendo:

- Ah, eu quero... Tô tentando convencer a Aline, ela morre de medo...

Carlinha perguntou:

- Medo de que, oras?

- Diz que é muita responsabilidade... Bobagem... Nada que eu não consiga mudar... E vocês, Vivi? Já pensaram em ter um filho?

Carlinha nem deixou a ruiva responder. Foi logo dizendo:

- Ih, se bem conheço a minha amiga, pra decidir isso vai ser um parto... Ou melhor, uma gestação inteira... Horas e horas de daimoku... Não é, dona racionalidade em pessoa?

A morena e Carlinha riram, sabendo muito bem que era a pura verdade. Vivi fez questão de falar:

- Pois fiquem as duas sabendo que não é bem assim... A Marcela e eu já...

Ana Cláudia e Carlinha emendaram, juntinhas, antecipando o que já sabiam que Vivi ia falar:

- ... conversamos exaustivamente sobre isso, e depois que a gente se estabilizar...

Riram exaustivamente. Vivi esperou pacientemente, até elas acabarem. E então terminou o que ia falar:

- A Marcela e eu já decidimos que vamos ter o primeiro daqui a 3 anos no máximo.

As duas se surpreenderam. Carlinha não agüentou a curiosidade:

- O primeiro?

Vivi respondeu com um sorriso seguro, suave, calmo:

- Queremos três.

Impossível para Carlinha não comentar:

- Você me fala isso assim, fácil, com essa tranqüilidade toda? Isso sim é revolução humana, minha amiga!

- Você ainda não viu nada...

A ruiva respondeu, com um olhar enigmático.

 

O show foi maravilhoso, um sucesso, um arraso. Só teve um incidente desagradável: a presença de Gisele.

A loira se aproximou quando Vivi e Marcela estavam no meio de um beijo. Interrompendo as duas, de uma forma absolutamente detestável:

- Gatinha... Quanto tempo... Tô com saudades... Ainda com essa ruivinha sem graça?

As duas se afastaram apenas o suficiente para olharem para Gisele com uma indiferença calma, real, cheia de significados. Sem responderem nada, como se ela não existisse.

Marcela prestou atenção no olhar magoado da menina de cabelos pretos ao lado de Gisele. Obviamente apaixonada, maltratada e humilhada  pela loira. Exatamente como fazia com Marcela, num tempo que para ela parecia uma outra vida. E era... uma vida sem Vivi. Totalmente impensável nos dias atuais.

Vivi percebeu, e sorriu da preocupação sincera da esposa. Achando Marcela admirável. Como tinha visto desde o início, mesmo quando ainda era quase impossível enxergar.

A beijou levemente nos lábios, antes de dizer:

- Ela entrou no banheiro sem a Gisele. Vai lá.

- Você não vai ficar chateada?

O sorriso da ruiva aumentou ainda mais. As esmeraldas brilhando a ponto de quase cegarem:

- Claro que não, amor... Faz a sua parte.

A segurança de Vivi era baseada numa relação repleta de confiança, diálogo e amor. De igual para igual. Marcela se surpreendeu, porque, finalmente para ela, isso ficou absolutamente claro.

Com um último beijo embevecido, amoroso, apaixonado, se afastou, dizendo:

- Já volto, tá?

 

Quando Marcela entrou no banheiro, a tal menina estava chorando e cheirando um certo pozinho branco na mão... do jeito que Marcela conhecia muito bem...

Se aproximou da garota e disse:

- Quer ser feliz?

A menina deu de ombros, e ironizou:

- Defina felicidade...

Marcela então foi direta, sem medir as palavras:

- Quer que a Gisele se apaixone por você?

Como previa, ficou claro nos olhos da menina que ela tinha se interessado. Então explicou:

- Recita isso aqui. Não falha!  

Entregando um cartãozinho onde se lia:

 

�NAM MYOHO RENGUE KYO�

A Força da Transformação Humana

 

Antes de completar:

- Faz todos os dias durante um mês. Se não mudar nada na sua vida, pode bater com um pedaço de pau na minha cabeça. Na boa..

A garota, lógico, não teve como deixar de rir:

- O que? Como assim?

Mil lembranças fizeram Marcela sorrir, quando disse, com toda a convicção:

- Sabe pra quantas pessoas eu já disse isso? Um monte... E sabe quantas vezes apanhei? Nenhuma... Tá esperando o que então?

 

No dia seguinte, como já tinha se tornado uma tradição, o almoço de família foi na casa dos pais de Marcela.

Ficaram sentados na sala, o dr. Marcelo elogiando a ruiva, deixando dona Lúcia e seu Francisco totalmente orgulhosos e satisfeitos. Vivi, por outro lado, ficou completamente vermelha.

Marcela se deliciou, implicando com a esposa:

- Tá com calor, amor? Então vamos dar uma volta...

E a puxou pela mão, não dando tempo para que os outros reparassem o quanto a ruiva ficou roxa de vergonha...

Passearam de mãos dadas pelo jardim, onde tinham se casado há quase oito meses atrás. Marcela suspirou, depois abraçou Vivi pela cintura. Mergulhando profundamente no brilho verde ao dizer:

- Sabe de uma coisa? Eu devo ter feito alguma coisa muito, mas muito boa mesmo nessa vida ou em outras, pra ter a sorte de ter você...

As esmeraldas cintilaram com uma felicidade extrema. Antes de Vivi perguntar:

- É mesmo?

A resposta de Marcela foi um aceno de cabeça. Os olhos negros já fixados nos lábios da ruiva, se preparando para um beijo... Mas Vivi a interrompeu, completando:

- Engraçado...

Fazendo com que a curiosidade de Marcela falasse mais forte:

- O que?

Ao que a ruiva respondeu, antes dos lábios se unirem, numa entrega absolutamente ardente, passional, intensa:

- Eu penso o mesmo... Tenho muita sorte em ter você...

 

De noite, comemoraram em casa, com Carol, Ricardo, Carlinha, Rafa, Aline e Ana Cláudia.

Marcela ligou o karaokê na sala. Começaram a tirar na sorte para ver quem ia ser o primeiro a cantar.

Inacreditavelmente, no meio da desordem, Vivi se levantou e pegou o microfone, dizendo:

- Já que eu nunca canto, hoje vou ser a primeira.

Carlinha e Carol ainda tentaram impedir:

- Tem certeza, amiga?

- Vivi, tem certeza?

Mas a ruiva apenas sorriu, com uma calma impressionante para quem sempre tinha tido medo � para não dizer pânico - de cantar em público.

Escolheu a música, e antes de começar, sorriu docemente para Marcela, dizendo:

- Amor, Feliz Aniversário...

E então, com as esmeraldas hipnotizadas, enfeitiçadas, prisioneiras dos relâmpagos negros, cantou:

 

�No primeiro olhar
Deu pra imaginar
Vai acontecer
Tentei evitar
Mas ao desviar
Vi um céu de estrelas
E ao sorrir, que luz
Seu riso tem uma luz
Que ninguém mais traduz
Só o luar
Chegou pra ficar, pra iluminar
E me enlouquecer
Ao se aproximar
Não deu pra negar
Não pude esconder
Li no seu olhar
Estava escrito lá
Até nas estrelas
E ao sorrir, que luz
Que brilho ela possui
Meu deus, ela seduz
Com seu olhar
Veio pra ficar
Pra me encantar
E me envolver
Loucos pra sonhar
Foram se entregar
Sem ninguém saber
Risos pelo ar
Livres para amar
Sede de viver
Não sei como foi
Mas se a vida pôs
Tudo entre nós dois
Então vai ser

E esse amor em nós
Vai sorrir após
Cada amanhecer
E esse amor em nós
Vai sorrir após
Cada amanhecer�

(�Sorriso de luz� - Leila Pinheiro - Gilson Peranzzetta / Nelson Wellington)

 

Se Vivi desafinou, Marcela não soube dizer. Embevecida, inebriada, encantada...

A única coisa que via, ouvia, sentia, a tocava e  envolvia era a brilhante, suave e doce luz da ruiva de olhos verdes. Que como ela, com todos os erros, acertos, qualidades e defeitos, parecia lindamente humana. E isso era  perfeito.

 

FIM

 

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