AMOR A QUALQUER PREÇO

Diedra Roiz

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2008

 

Capítulo 12: Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia...

Vivi acordou cedo. Tomou um Nescau (não conseguia comer logo que acordava), escovou os dentes, se vestiu, trocou a água e tirou a poeira do  oratório antes de o abrir.

Colocou o celular na mesinha ao lado, para controlar as horas.

Fez o Gongyo (Oração da manhã e da noite) e começou a fazer daimoku. Pensando em Marcela. 

Foi quando o celular tocou. Como era um número desconhecido, normalmente Vivi não pararia o daimoku, mas naquele momento, inexplicavelmente, pegou o celular e atendeu.

Apesar da voz do outro lado ser muito calma, na visível intenção de tranqüilizá-la, Vivi ficou em choque.

Foi fazendo daimoku no carro o caminho inteiro. Quando saiu do túnel viu um aglomerado de pessoas, a ambulância dos bombeiros, mas só quando deu a volta, chegou do outro lado e viu o que tinha sobrado do carro se desesperou realmente.

A frente tinha afundado, todos os vidros estavam quebrados. O ferro horizontal mais grosso da grade tinha entrado cortando a carroceria no meio, na altura em que as janelas começam, da frente até o banco traseiro. Para qualquer um que olhasse, pareceria impossível que quem estivesse lá dentro pudesse ter sobrevivido.

Os paramédicos estavam em torno de uma maca. Vivi se aproximou tremendo. Foi interceptada por um policial. Explicou que tinham ligado para ela, que era amiga da... nossa, a palavra horrível que ele usava era �acidentada�. E o guarda a deixou passar.

Marcela estava deitada na maca, de olhos fechados. A mão esquerda enfaixada, mas fora isso, parecia incrivelmente inteira.

Vivi tocou no rosto dela, e Marcela abriu os olhos.

Uma enorme sensação de alívio tomou conta das duas. Vivi por Marcela estar consciente, aparentemente bem e até sorrindo para ela. Marcela pela simples presença dos reconfortantes olhos verdes.

Não lembrava do momento em que tinha sido retirada do carro. Quando voltou a si, já estava deitada na maca, com milhares de pessoas em volta, a examinando. Tinham pedido um número de telefone. Alguém para quem pudessem ligar avisando.

E a primeira pessoa que pensou, na verdade a única que desejou que viesse, agora estava ali, na frente dela. Passando a mão carinhosamente no rosto de Marcela. Com os olhos cheios de lágrimas, perguntando:

- Você tá bem?

Marcela fez que sim com a cabeça, quase chorando também.

O policial chamou Vivi para conversar com ele e a médica, que explicou que em princípio, parecia tudo bem, mas que Marcela tinha que ir para o hospital fazer exames, tirar radiografias, etc. Pura rotina, segundo ela.

Na verdade, nenhum dos médicos conseguia acreditar que depois de uma batida daquelas, Marcela não tivesse quebrado nada. Nem um ossinho sequer:

- Até agora não consegui entender. Ninguém entende. É inexplicável.

Foram as palavras exatas da médica. Já o guarda tinha um outro assunto para resolver:

- Você é da família?

- Sou amiga dela.

- Sua amiga tava dirigindo bêbada. E sabe-se lá mais o que...

Levando em conta o estado em que já tinha visto Marcela ficar, Vivi nem conseguia imaginar o que ela tinha feito para estar voltando para casa depois das oito horas da manhã e ter dormido no volante daquele jeito.

- Isso não vai se repetir. Eu prometo.

Foi a resposta que deu. Resolvida a cumprir. Decidindo que a partir daquele momento, não ia deixar aquele tipo de coisa acontecer mesmo. Nem que para isso tivesse que se algemar em Marcela.

O policial interrompeu os pensamentos dela:

- Tudo bem. Acho que o susto já foi o bastante. Vou liberar vocês.

Vivi então voltou para junto de Marcela. Os olhinhos negros a olharam com uma fragilidade inédita:

- Que bom que você veio...

Disse, agarrando a mão de Vivi. O brilho verde cintilou, e depois se tornou muito sério ao dizer:

- Quer que eu ligue pra sua mãe?

Mas Marcela teimou em dizer que não, que a mãe ia ficar histérica e era melhor só contar quando já estivesse em casa. Vivi não insistiu. Até porque já estavam levando Marcela para a ambulância. Ela se desesperou:

- Não me deixa sozinha...

Vivi a acalmou:

- Eu sigo a ambulância. Vou estar logo atrás de você...

Os enfermeiros levantaram a maca, colocaram dentro da ambulância, entraram. E a última visão que Marcela teve enquanto as portas se fechavam, foi a ruiva absolutamente incrível com ofuscantes olhos de esmeralda.

 

Ficaram algumas horas no hospital. Marcela já estava super mal humorada, cansada de ficar andando de cadeira de rodas para cima e para baixo. Se não fosse a presença de Vivi, com certeza já teria aprontado. Mas com Vivi ao lado dela, Marcela ficava quase comportada.

Depois de milhares de exames, constataram que realmente, Marcela não tinha nada. Apenas alguns pequenos cortes feitos pelos cacos de vidro na mão esquerda. Tiveram que aceitar o inacreditável. E finalmente, a deixaram ir para casa.

 

Marcela estava parecendo feliz e despreocupada demais para o gosto de Vivi. Quase cantando no banco do carona ao lado dela. Isso a deixou possessa:

- Não é possível que você seja tão irresponsável!

Marcela, que na verdade estava aliviada por finalmente estar livre dos médicos, feliz por ter saído inacreditavelmente ilesa e ao lado de Vivi, ficou totalmente surpresa:

- Desculpa, eu...

Vivi a bombardeou:

- Desculpa? Não é pra mim que você tem que pedir desculpas. É pra você mesma! Viu o estado do carro? Você tava dirigindo drogada e bêbada! Podia ter atropelado e matado um monte de gente! Podia ter morrido, Marcela!

Quando terminou de falar, Vivi estava tremendo. Tanto que teve que parar o carro. Na mesma hora veio um daqueles caras da prefeitura querendo cobrar dois reais pelo estacionamento.

Marcela o despachou rapidamente:

- Cinco minutinhos, amigo.

Vivi encostou a cabeça no volante. Chorando, trêmula e ofegante. Sofrendo o efeito retardado do susto que tinha levado.

Marcela acariciou os cabelos dela, deu um beijinho em Vivi, e ela... Levantou a cabeça, os olhos fuzilando de raiva, e começou a bater em Marcela:

- Miserável! Quase me mata de susto, e depois fica aí rindo, cheia de graça!

Marcela se defendeu como pode, colocando os braços na frente para segurar os tapas, e realmente, não conseguindo deixar de rir do ataque inesperado:

- Ei! Calma! Não fica bem uma budista espancar os outros, né?

Frase errada. A brincadeira deixou Vivi com tanta raiva que mandou a educação para o espaço:

- Babaca! Escrota! Filha da puta!

Dessa vez Marcela apanhou calada. Nem tentou se defender. Sabendo que tinha ultrapassado todos os limites, porque... nunca tinha visto ela xingar daquele jeito. A passividade de Marcela fez Vivi se acalmar e parar.

Os olhos se encontraram. Os verdes faiscando. Os negros sérios e estranhamente calmos.

Vivi se arrepiou inteira. Tomada por uma descarga de sentimentos contrários. De um lado um ódio profundo. De outro um amor imenso.  Marcela era inconseqüente, detestável, adorável, linda... Tudo isso ao mesmo tempo...

A voz de Vivi exprimiu o turbilhão de emoções que a consumiam:

- Marcela, você... Você me enlouquece!

Se rendendo ao que sentia, segurou o rosto de Marcela com as duas mãos e a beijou.

A reação de Marcela foi imediata. Passou os braços em volta de Vivi, e correspondeu com a mesma paixão desenfreada. Assombrada com as milhares de maravilhosas sensações que o gosto, a textura e o cheiro dela despertavam.

Vivi também se espantou. Marcela nunca a tinha beijado com tanto ímpeto. Como se desejasse aquele beijo tanto quanto ela.

Ouviram umas batidinhas no vidro. Se separaram apenas o bastante para ver... o flanelinha olhando para elas e rindo de um jeito um tanto quanto tarado:

- Querem uma ajudinha?

Ele disse quase babando. Marcela ameaçou reagir, mas Vivi a conteve apenas com um olhar. Depois ligou o carro e saiu rapidamente dali.

Durante o resto do trajeto, Marcela ficou estranha, calada. Mantendo a cabeça baixa, parecendo triste. Isso deixou Vivi chateada, arrasada mesmo. Por achar que Marcela estava assim por causa do beijo.

Mas na verdade, o que atormentava Marcela era uma coisa bem diferente. As  lembranças da noite passada. E também... o quanto vinha sendo estúpida até aquele momento. As fichas tinham finalmente começado a cair...

Chegaram no prédio de Marcela. Vivi parou o carro, e esperou. Sem saber se deveria estacionar ou ir embora. Marcela não deixou dúvidas do que queria:

- Fica aqui comigo...

Tinha uma coisa diferente nos olhos negros... Vivi não conseguiu definir exatamente o que. Estavam profundos, meigos, quase desamparados. Sem nada da rebeldia tempestuosa de sempre. 

Vivi concordou. Impossível resistir... Subiram caladas no elevador. Marcela abriu a porta, e disse, assim que entrou:

- Preciso muito de um banho...

Se sentia suja, imunda mesmo. Desejando que o chuveiro pudesse limpar a noite anterior para sempre.

Vivi balançou a cabeça, concordando. E depois pediu:

- Não tranca a porta, tá?

E como Marcela a olhasse interrogativamente, explicou:

- Só pra prevenir... No caso de você se sentir mal... 

Marcela sorriu. Um sorrisinho quase dolorido. Se sentindo a pior das pessoas. Vivi era completamente maravilhosa e linda... Toda certinha, solícita, perfeitinha... E ela... bem, ela era... toda errada, a imperfeição em pessoa... um desastre, um pesadelo...

Entrou debaixo da água quente, pegou o sabonete, e se esfregou com tanta força, que a pele chegou a ficar vermelha. Despertando uma angústia violenta.

Respirou fundo, tentando controlar a dor que sentia no peito, mas ela subiu como um nó na garganta, e fez os olhos arderem e desabafarem caudalosamente.

As lágrimas escorreram como uma correnteza... Incontrolável, interminável, sacudindo o corpo dela inteiro...

Se entregou aos soluços, apoiando as mãos na parede de azulejos, e deixando a água bater na nuca, nos ombros, na cabeça. Depois se sentou no chão, abraçando as pernas... Desejando desaparecer, se afogar, esquecer...

Tão completamente afundada nesses sentimentos, que até perdeu a noção do tempo.

 

Vivi começou a ficar preocupada. Marcela já estava há mais de 30 minutos dentro daquele banheiro.

Bateu, e não obteve resposta. Bateu novamente, com mais força. E nada...

Encostou o ouvido na porta. Ouviu um barulho baixinho... Abriu a porta devagar, e então identificou o que era: um choro fraquinho...

O banheiro estava cheio de vapor quente, difícil enxergar lá dentro. Se aproximou do chuveiro, abriu o box  e viu Marcela sentada no chão, abraçando as pernas, com a cabeça entre os joelhos e o corpo sacudido por soluços. Chamou com uma voz muito doce:

- Marcela...

Marcela atendeu assim que ouviu. Olhou para Vivi como se visse um sonho, um anjo, algum tipo de presença salvadora capaz de a arrancar daquele  desesperador estado de tormento.

Vivi se assustou com o sofrimento nos olhos negros. Desligou o chuveiro, pegou uma toalha, e disse:

- Vem aqui comigo...

Com um carinho tão grande, que Marcela prontamente obedeceu. Sem dizer uma palavra, se levantou do chão e saiu do chuveiro.

Vivi a enrolou na toalha, e a abraçou. Sentiu Marcela estremecer, e apertou os braços com mais força ao redor dela. Ficaram assim durante algum tempo, até Vivi sentir Marcela relaxar o corpo novamente.

Se afastou, e olhou Marcela profundamente. Limpou as lágrimas do rosto dela com os dedos. Então, a enxugou inteira, com muita delicadeza.

Marcela apenas a olhava, incapaz de qualquer outra coisa além de se entregar às mãos suaves que cuidavam dela como se fosse algo frágil, que pudesse quebrar com um toque menos leve. Deixou que Vivi a levasse para o quarto. Docilmente.

Vivi a vestiu, a fez deitar na cama e a cobriu com o edredom. Depois se sentou ao lado dela. Muito preocupada. Nunca tinha visto Marcela daquele jeito, totalmente despojada do jeito irreverente e descolado de sempre. Parecia assustadoramente vulnerável. Sem conseguir nem querer resistir, ficou acariciando os cabelos negros.

Marcela suspirou e fechou os olhos, sentindo um conforto profundo. Misturado com... não entendia bem... um delicioso e aconchegante... não sabia o que...

Não querendo pensar, decidiu apenas aproveitar o delicioso momento, a mão que a tocava com tanta ternura... Se rendeu completamente... E com um sorriso satisfeito nos lábios, acabou adormecendo.

 

Capítulo 13: Como se fosse a primeira vez...

Depois que Marcela dormiu, Vivi ainda ficou um tempo olhando para ela. O simples fato de estar tão perto já era o suficiente para despertar bilhões de diferentes sentimentos.

Antes de Marcela, tudo parecia muito mais simples. Pura verdade. Mas muito mais sem graça também.

Marcela continha um estranho fascínio. Que dominava Vivi, mesmo quando ela fazia coisas absolutamente detestáveis. Quando fazia coisas que Vivi  adorava, então � principalmente aquelas que tinha acabado de descobrir que gostava � nem se fala...

Só que não fazia idéia do que ela pensava, queria ou sentia. Porque Marcela era uma confusão. Tudo nela era inconstante, imprevisível, contraditório, incoerente....

Tinham se beijado, feito sexo, sempre de forma apaixonante, profunda, inebriante... E todas as vezes, depois de passado o momento, Marcela tinha olhado para ela como se quisesse sumir.

Ou seja: Marcela não resistia, cedia, e depois se arrependia... Até aí, Vivi achava que conseguia compreender.

Mas se Marcela não sentia nada por ela além de atração e desejo, por que tinha pedido para chamarem Vivi quando sofreu o acidente?

Por ser a única amiga em que confiava realmente? Talvez... Não sabia, não tinha certeza. E não queria se iludir pensando diferente.

Vivi se levantou, suspirou, passou as mãos nos cabelos, jogando-os para trás. Achou melhor arrumar alguma coisa para fazer. Qualquer coisa, menos ficar ali, naquela masturbação mental.

Marcela devia estar virada. Então, provavelmente dormiria por um bom tempo.

Vivi estava morrendo de fome. Também pudera, só tinha bebido um Nescau o dia inteiro, e já eram � olhou para o relógio e se assustou � quatro horas da tarde!

Foi até a cozinha, meio sem graça por abrir a geladeira e sair mexendo, mas...  achava que Marcela, despojada de cerimônias que era, não ia se importar.

Ao contrário da outra vez - da pizza com doce de leite � as prateleiras estavam cheias. A mãe dela devia ter feito compras para ela, porque... Vivi duvidava que  Marcela já tivesse entrado num supermercado para algo além de comprar biscoitos e bebidas... No que, aliás, estava certíssima.

Fez um sanduíche e bebeu um pouco de suco. Depois foi para a sala e sentou em um dos sofás. Exatamente naquele em que tinha se sentado com Marcela ao lado dela no dia da bendita festa, que parecia ter acontecido séculos atrás.

Ficou lembrando, com um sorriso nos lábios. Aquele dia tinha sido um marco na vida de Vivi...

O telefone tocou. Vivi, obviamente, não atendeu. Deixou cair na secretária.

A voz de Marcela falou no tom sensual de sempre:

� - Oi, aqui é a Marcela. Depois do bipe você sabe o que fazer.�

E depois do apito estridente, uma voz que era... perversa -  Vivi não teve outra palavra para descrever - disse:

� - Marcela! Marcela, atende a bosta desse telefone! Escuta aqui, garota: tô muito puta com você! Saiu ontem daquele jeito porque? Vai ter que rastejar de verdade pra eu te perdoar dessa vez!�

Desse jeito. Vivi chegou a sentir um calafrio. Não precisava ser um gênio para calcular quem deixaria um recado daqueles.

Caminhou até a secretária eletrônica com coceira nos dedos. Olhou para o botão tentador... Bastaria um apertãozinho para deletar aquilo...

Por alguns segundos, Vivi travou uma batalha dentro dela.

De um lado, a vontade de se livrar da mensagem da outra. Se Marcela não soubesse que ela tinha ligado, talvez não saísse correndo atrás de Gisele.

Do outro lado, a consciência de que apagar a mensagem não era correto. Marcela tinha total direito de escolher o que fazer da vida dela. Mesmo se a escolha fosse a burrice suprema de ir atrás da loira que a tratava como lixo.

Venceu o ciúme, a raiva, e outros vários e diversos sentimentos negativos. Optou por deixar a mensagem e voltou a se sentar decidida a... interferir sim, mas de outra maneira.

 

Algum tempo depois, Vivi ouviu um celular tocando. O barulho vinha do quarto de Marcela. Ainda tentou correr para evitar que ela acordasse, mas quando cruzou a porta, era tarde. Marcela já estava sentada na cama, com o celular no ouvido, dizendo:

- Não, mãe, eu tô bem. Fica tranqüila. Juro, não aconteceu nada comigo. Não sei, não lembro... Quando acordei já tava fora do carro. Que bom que deu perda total, né? Dessa vez meu papai querido não pode reclamar, o seguro cobre tudo! Ai, mãe, tá... Nem adianta que não tô em casa. Amanhã a gente se fala. Tá... tá... tchau...

Vivi suspirou profundamente, aliviada por não ser a tal Gisele. 

Marcela desligou e jogou o celular na cama. Vivi continuou parada na porta, olhando para ela. O verde dos olhos com uma faísca de reprovação gigante:

- Que absurdo! Por que falou pra sua mãe que não tava em casa?

Marcela jogou as cobertas para o lado e se levantou:

- Porque não queria ela aqui me enchendo o saco. Ia ligar pra ela mais tarde, mas a droga do cara do seguro foi mais rápido.

Marcela olhou para a ruiva linda encostada no umbral da porta. E então, a expressão dela mudou completamente. Os olhos negros se tornaram doces, suaves, quentes.

Caminhou na direção de Vivi. Parou na frente dela, fitando o cintilante brilho verde profundamente. Vivi sustentou o olhar, decidida a não fugir nem se privar daquilo que tanto queria: ela. Mas por dentro estava tremendo.

Para Marcela, era como se a visse pela primeira vez. Queria dizer e fazer muitas coisas. Tantas que nem sabia por onde começar. Uma de cada vez - pensou. Tomou coragem e falou:

- Queria te agradecer...

Vivi logo a cortou. Não ia agüentar se dos agradecimentos ela passasse às desculpas, como sempre:

- Pelo que?

Marcela percebeu que Vivi estava impaciente, um pouco irritada até, mas não entendeu porque.

Segurou a mão dela carinhosamente, fazendo o olhar de Vivi amansar. E disse com olhos marejados e sinceros:

- Por ter ido me buscar, por ter me ajudado, por ter cuidado de mim, por ter me dado uns tapas... Por tudo, Vivi...

Vivi não respondeu. Ficou calada. Estabelecendo um silêncio denso entre elas. Que Marcela rompeu, com uma voz estranhamente insegura:

- Por que você... é assim comigo?

Vivi ainda não tinha certeza do que Marcela estava querendo. A mão não soltava a dela. Os olhos não a deixavam um instante, mas... Não queria dar margem para nenhum tipo de erro:

- Assim? Assim como?

Marcela estava confusa. Vivi estava tão na defensiva... Talvez pudesse estar enganada. Talvez além de amizade, não houvesse nada...

Esse pensamento a fez sentir um medo quase pânico. De perder sem jamais ter tido. De ter estragado tudo antes mesmo do início. Porém, precisava saber a resposta. A voz de Marcela saiu tremida:

- Você parece que... se importa... comigo...

Vivi teve todas as certezas que precisava. Abriu um sorriso, lançou um olhar cintilante para Marcela...E acariciou o rosto dela enquanto dizia:

- Eu me importo. Realmente me importo com você.

A forma como Vivi falou, fez Marcela saber a verdade, e... querer mais. Muito mais. Queria ouvir com todas as palavras, sílabas e letras. Insinuou, com um olhar capaz de derreter uma geleira:

- Você disse que eu te enlouquecia... 

Vivi sorriu. E respondeu com os olhos significativamente voltados para os lábios de Marcela:

- E me enlouquece mesmo...

Depois voltou a olhar para os olhos dela, de forma absolutamente sedutora. Fazendo Marcela se arrepiar inteira, e confessar finalmente:

- Você me enlouquece também...

A frase de Marcela fez um friozinho subir pela espinha de Vivi. Perguntou baixinho, como se não acreditasse:

- Mesmo?

Marcela respondeu balançando a cabeça afirmativamente, com uma simplicidade que Vivi achou linda.

Marcela olhou para os lábios dela...  Vivi os umedeceu, num convite  silencioso. E quando voltou a olhar para os olhos negros foi com um brilho verde exigente, provocante ao extremo:

- E o que isso quer dizer?

Marcela aproximou os lábios, quase encostando nos dela. Se deliciando ao ver as esmeraldas se incendiarem correspondendo.

Respondeu baixinho, num último e excitante sussurro:

- Não sei... Vamos ter que descobrir juntas...

E colou os lábios nos de Vivi apaixonadamente. Fazendo com que as duas estremecessem.

Quente. Muito quente. Incandescente. E sedutor, excitante, atordoante, impressionante, envolvente. Foi o gosto, o cheiro, o jeito daquele beijo. Intensa e profunda mistura adocicada de lábios, línguas, salivas...

As respirações sufocadas, pulsantes como a pele que parecia se dissolver.

Marcela abraçou Vivi pela cintura, a puxou carinhosamente, se deliciando em sentir a respiração dela se tornar cada vez mais ofegante e ardente. Não acreditando que podia ter sido tão cega a ponto de não perceber o que estava o tempo todo na frente dela.

A beijou como se fosse a primeira vez. E na verdade era. A primeira vez que a beijava com cada uma de suas células. Que prestava atenção nos detalhes maravilhosos dela.

Em como Vivi suspirava e se colava mais à Marcela, com os braços passados ao redor do pescoço dela, as mãos se enfiando carinhosamente nos cabelos negros. Em como os lábios eram suaves, macios, entregues, mas... exigentes. E a língua percorria a boca de Marcela no mesmo ritmo da dela, deixando escapar um gemido baixinho de vez em quando, quando o piercing encostava nela...

Marcela achou engraçado aquele estranho desejo - que não sentia há muito tempo � de querer beijar, apenas beijar, sem pressa.

Queria parar o tempo. Para aproveitar, provar, conhecer e conquistar Vivi como deveria ter feito desde o começo.

Vivi estranhou a enormidade de tempo que Marcela ficou apenas a beijando. Mas longe de querer reclamar... Estava adorando.

Sem parar de beijar Vivi, Marcela a puxou. Até sentir a cama encostar na parte de trás das pernas.

Então foi parando de beijá-la, transformando o beijo longo numa série rápida de beijos curtos, mas nem por isso menos ardentes.

Quando a boca de Marcela se separou da dela, Vivi abriu os olhos e a fitou, como se despertasse de um sonho.

Marcela acariciou o rosto dela, mergulhando no ardor cintilante das esmeraldas com um sorriso meigo.

Depois se sentou na cama, e a puxou pela cintura, fazendo Vivi se ajoelhar na cama com Marcela entre as pernas, e se sentar no colo dela.

As mãos de Marcela percorreram toda a extensão das costas de Vivi, que suspirou e gemeu baixinho, os braços enlaçando o pescoço de Marcela, toda entregue nas mãos dela.

Marcela a puxou pelo pescoço, desejando mergulhar nos lábios dela novamente. Dessa vez a boca de Vivi estava impaciente, infinitamente mais ardente. Movendo a língua contra a de Marcela como se a quisesse engolir inteira.

Marcela percorreu o pescoço dela com os lábios, ao mesmo tempo em que acariciava um dos seios. Vivi gemeu, e voltou a enfiar as mãos nos cabelos dela.

Os beijos de Marcela desceram do pescoço para o colo. Soltou as alças do vestido de Vivi, deixando os seios dela à mostra. Por pouco tempo, porque a boca e a mão desceram avidamente sobre eles.

Vivi gemeu novamente. Jogou a cabeça para trás, acariciou a nuca e a parte de trás da cabeça de Marcela, despenteando os cabelos dela completamente.

Começou a puxar a camiseta que Marcela usava. Marcela parou o que estava fazendo, e deixou que Vivi arrancasse a peça de roupa, ficando só de calcinha debaixo dela.

Aproveitou para se livrar do vestido de Vivi. Devorando o corpo dela com os olhos quando a desnudou, e depois dizendo bem dentro do brilho verde:

- Você é tão linda... Linda demais, Vivi...

Então voltou a colar os lábios no biquinho duro dos seios, lambendo, chupando, sugando, a enlouquecendo. Vivi movia os quadris contra ela quase que inconscientemente, querendo mais, muito mais do que simples carícias. Marcela desceu a mão pelas coxas dela. A pele queimando de tão quente. Quando finalmente a tocou entre as pernas, afastando a calcinha, encontrou um sexo molhado, pulsante, que se oferecia inteiro para ela.

Acariciou sem pressa, se deliciando em levar Vivi a um estado de quase desespero.

A voz de Vivi soou trêmula e ofegante, quando pediu:

-  Quero te sentir... dentro de mim...

E Marcela prontamente obedeceu. Começou a mover os dedos dentro dela, deixando Vivi  comandar a intensidade e a velocidade no início.

E depois estabeleceu seu próprio ritmo, fazendo Vivi experimentar um prazer maior do que jamais tinha sentido.

Ficaram assim alguns momentos, Vivi sem conseguir mais controlar os próprios movimentos, seguindo o caminho que Marcela mostrava com a boca colada no seio dela, enquanto com os dedos a tomava, a completava, a descobria, fazendo Vivi se libertar completamente.

Chamando Marcela de gostosa, tesão, delícia. Gemendo alto o nome dela, dizendo  que queria dar para Marcela, que queria ser dela. Marcela só gemia... e a acariciava cada vez com mais paixão, ardor e entrega.

Vivi começou a estremecer, e a puxou com força pelos cabelos, obrigando Marcela a largar o seio e levantar a cabeça. Olhou Marcela fundo nos olhos:

- Vou gozar pra você...

E o que Marcela viu dentro do verde intenso a fez derreter, delirar, quase morrer de prazer.

O rosto de Vivi gozando refletia... Luz. Vida. Energia. Pura, linda, inebriante, magnífica. Absurdamente estonteante e vívida.

E então Vivi relaxou o corpo, encostou a testa na de Marcela e ficou se recuperando, ofegante, com os olhos fechados e um enorme sorriso.

Marcela tirou os dedos de dentro dela lenta e cuidadosamente. Vivi protestou com um suspiro. Depois sussurrou:

- Marcela...

O jeito como Vivi disse o nome dela - manso, doce, íntimo - fez Marcela sentir um delicioso arrepio. Os olhos verdes cintilaram, antes de completar:

- Quero muito mais de você...

A frase continha milhares de significados. Para todos, a resposta de Marcela era a mesma:

- Vai ter... vai me ter... inteira...

Envolveu Vivi num abraço apertado, e voltou a buscar os lábios dela apaixonadamente.

 

 

Capítulo 14: Boca a boca...

Vivi nem podia acreditar que um coração fosse capaz de bater tão alto, tão rápido e tão forte quanto o dela naquele momento.

Finalmente, Marcela parecia demonstrar algum tipo de sentimento. Dizendo coisas, a olhando, abraçando e beijando de uma forma absolutamente... impossível de descrever...

Marcela segurou Vivi nos braços como se tivesse medo de que ela escapasse. A deitou na cama gentilmente. Tirou a calcinha dela e fez o mesmo com a que vestia. Depois se deitou por cima dela, voltou a colar os lábios nos dela, e toda a gentileza se transformou em fogo líquido.

Poderia ficar ali eternamente, se encontrando naquela mulher. Aprofundou ainda mais o beijo, a língua percorrendo cada recanto da boca que ardia com a mesma espécie de febre.

Vivi desceu as mãos pelas costas de Marcela, passando as unhas de leve. Sentiu que ela se arrepiava e estremecia, arqueando o corpo involuntariamente. Abriu as pernas, encaixando Marcela entre elas. Segurando as nádegas dela com as mãos, puxou Marcela com força contra ela.

Marcela gemeu, e começou a se mover em cima de Vivi de uma forma  absolutamente apaixonada e ardente. A mesma com que Vivi correspondeu. Os sexos dançando no mesmo compasso - inebriante, pulsante, urgente...

Pegou os seios de Marcela com as mãos, depois os provou, colocando na boca primeiro um, depois o outro. Passou a língua ao redor do bico, e então mordeu, chupou, sugou... Os gemidos de Marcela a guiando o tempo inteiro.

Com um toque suave, Marcela fez Vivi olhar para ela. Apenas para constatar que... os olhos verdes eram um verdadeiro incêndio. Grudou os lábios nos dela de uma forma tão faminta, que Vivi gemeu. Marcela colou a boca no ouvido de Vivi, e começou a dizer:

- Aquela noite... Era você... Eu sei, porque... Só é assim com você...

Os olhos se encontraram, exatamente como naquela outra noite...

Vivi deixou escapar um gemido... Se arrepiou inteira... Apertou Marcela com força, mergulhou a boca na nuca, no pescoço dela...

Os movimentos de Marcela se tornaram mais rápidos, os gemidos mais freqüentes... Um prazer delirante, imenso, tomou conta de Vivi. Acompanhou Marcela num gozo demorado, maravilhado, intenso.

Depois Marcela relaxou o corpo e ficou ali, agarrada nela. Quando as respirações voltaram ao normal, se apoiou nos cotovelos e beijou Vivi nos lábios. Um beijo longo, preguiçoso, e meigo.

Depois perguntou, cheia de cuidados com ela:

- Tô te machucando?

E como Vivi a olhasse como se não estivesse entendendo, explicou:

- Com o meu peso...

Vivi sorriu, e passou a mão nos cabelos de Marcela, os tirando do rosto dela, antes de responder:

- Não... É muito bom ficar assim com você...

A apertou de novo, beijando rapidamente os lábios dela. Marcela sorriu, a beijou de volta, um leve toque de lábios apenas.

Depois ficou muito pensativa e  séria. Tanto que Vivi estranhou:

- Que foi?

- Nada não... Besteira...

Marcela não foi nem um pouco convincente. Isso só serviu para aumentar a curiosidade de Vivi:

- Ah, não... Fala...

- É que...

Marcela jogou o cabelo para trás, olhou para baixo, para cima, depois para baixo novamente, e só então respondeu:

- Eu sou sua primeira mulher, e...

Vivi foi incisiva:

- E?

Deixando Marcela sem saída:

- Você acha que prefere o que?

Vivi entendeu a insegurança dela. Perfeitamente. Só que não achava tão fácil assim responder:

- Marcela... É muito.. diferente, né?

- É, deve ser...

- Como assim, deve ser?

Na mesma hora em que questionou, Vivi compreendeu:

- Quer dizer que você nunca...

Marcela disse com um leve tom de superioridade na voz:

- Pra que? Já nasci sabendo que gostava de mulher...

E depois insistiu:

- Você ainda não me respondeu...

Vivi percebeu o quanto Marcela estava preocupada. O corpo dela estava tenso,  uma ruguinha de preocupação teimava em aparecer no franzir da testa... Por isso, e só por isso, resolveu deixar qualquer tipo de medo de lado e confessar:

- Já que você quer tanto saber... Nunca senti com o Edu o que eu sinto com você.

Marcela não pareceu satisfeita. Perguntou:

- E com os outros?

- Que outros?

Deixou uma pontinha de ciúme transparecer:

- Além do tal Edu...

Vivi riu alto. Marcela só entendeu quando ela finalmente respondeu:

- O Edu foi o único antes de você. Satisfeita? Se não, vou repetir: nunca senti com ele o que eu sinto com você.

Marcela abriu um enorme sorriso. E beijou Vivi novamente, de uma forma absolutamente carinhosa, apaixonada, emocionada mesmo...

Quando o beijo terminou, ficou olhando pensativa para os olhos verdes. Estava realmente surpresa. Não esperava essa quase não experiência dela...

Porque no dia da festa, tinha beijado Vivi e sem nem pensar, começado a tirar a roupa dela... E em nenhum momento Vivi tinha recuado ou hesitado. Pelo contrário, tinha correspondido de uma forma completamente entregue e intensa.

Enquanto Marcela tinha sido... absurda e horrivelmente insensível. Pedindo desculpas, e largando Vivi para sair correndo atrás de Gisele...

Vivi cortou os pensamentos de Marcela, como se os estivesse lendo:

- Ei... Aquela primeira vez, eu queria... Muito... Você não tem culpa de não...

�Ter sido a mesma coisa pra você.� � foi o que não teve coragem de dizer.

Os olhos verdes ficaram tristes, muito tristes mesmo. Quase sem brilho. Marcela não suportou aquilo:

- Não é nada disso... 

As esmeraldas se reacenderam, e se fixaram em Marcela com um pouco de esperança. Marcela completou:

- Aquela noite eu praticamente ataquei você, Vivi. É... Pode rir... Te agarrei mesmo... Porque você tava tão... tão!... que me fez perder completamente o controle, a noção, a razão... Só queria te devorar inteira...

O sorriso que Vivi abriu iluminou o quarto todo. Marcela ficou completamente fascinada, ofuscada, perdida naquele brilho intenso. Depois sussurrou, olhando para Vivi profundamente:

- E continuo querendo...

Confirmou as palavras roucas de desejo colando a boca na dela apaixonadamente.

 

Marcela ficou olhando para o microondas onde a lasanha congelada começou a rodar. Os pensamentos longe... em Vivi apenas.

Tinha deixado a ruiva esplendidamente nua, linda e sozinha em cima da cama... Com muito sacrifício... Só porque já era de noite, não tinha comido nada o dia inteiro e estava quase desmaiando de fome.

Não querendo desperdiçar um momento sequer, voltou para o quarto. Se surpreendeu porque... Vivi estava sentada na beira da cama completamente vestida. Perguntou:

- Vai embora?

Com uma cara tão decepcionada, que Vivi não teve como deixar de rir. Foi até ela, passou os braços ao redor do pescoço de Marcela e a beijou. Como a expressão dela não melhorou nem um pouquinho acabou respondendo:

- Já não disse que vou dormir aqui com você?

- Então porque tá toda vestida?

Vivi acabou de vez com todas as desconfianças dela:

- Por que vou fazer o Gongyo da noite, meu bem... 

Só então Marcela viu que ela estava segurando um livrinho.

- Gong o que?

- Gongyo. É uma oração. A recitação de dois capítulos do Sutra de Lótus. Fazemos de manhã e à noite.

Marcela ficou curiosa. Mas não sabia direito se podia ficar ou se precisava sair... Vivi percebeu, porque perguntou:

- Quer aprender?

Marcela fez que sim com a cabeça. Vivi disse com um enorme sorriso:

- Senta aqui comigo.

Puxou Marcela pela mão, e se sentaram juntinhas, uma do lado da outra na beira da cama.

Vivi abriu o livrinho e ficou segurando na frente de Marcela, que deu uma olhada e quase morreu, porque não conseguiu entender nada do que estava escrito. Não conseguiu deixar de soltar:

- Que língua é essa?

Vivi riu. Acostumada com o espanto das pessoas. À primeira vista ler aquilo parecia impossível... Mas o impossível, ela sabia, podia mudar para possível rapidinho se a pessoa resolvesse...

- É sânscrito... Mas aqui tá escrito como se pronuncia. É igual ao daimoku: como uma música... Depois de um tempo fica no ouvido. Provavelmente não vai dar pra você falar de primeira, mas acompanha lendo, tá?

Marcela concordou. Vivi explicou algumas coisas antes de começarem, e fez a oração devagar, seguindo as palavras com o dedo, para Marcela não se perder.

Marcela ficou espantada, porque nem achou tão difícil assim. Claro que ela só leu, não conseguiu pronunciar uma palavra. A não ser o NAM MYOHO RENGUE KYO, que já conhecia e que, como Vivi tinha dito,  era mesmo como uma música, parecia vibrar dentro do peito, a fazendo sentir uma sensação extremamente boa.

Vivi não ia fazer mais de dois minutos de daimoku. Afinal de contas, Marcela não estava acostumada... Mas como ela parecia estar gostando - estava muito  concentrada, os olhos negros brilhavam - acabaram fazendo 5 minutos. Sem que Marcela mostrasse sinal de cansaço.

Dentro do Gongyo, tinha uma parte com orações silenciosas. Algumas eram cheias de nomes de uns japoneses que Marcela não fazia a menor idéia de quem fossem. Mas seguiu Vivi sem interromper.

Leram a última: �Por fim, ofereço sinceras orações pela paz mundial e pela felicidade de todas as pessoas.�

Daimoku sansho e... Marcela bombardeou Vivi de perguntas. Vivi respondeu cada uma e todas sem demonstrar impaciência. Até esclarecer a última:

- �Kossen-Rufu� : �Kossen� significa declarar amplamente, ou seja, ensinar a filosofia budista às pessoas. �Ru� quer dizer �uma corrente como a de um grande rio� e Fu �espalhar-se como um rolo de tecido�. 

Marcela parecia impressionada, e... sem entender muito. Por isso simplificou:

- Normalmente as pessoas traduzem �Kossen-Rufu� como paz mundial. Porque paz não é simplesmente ausência de guerra. Pra que a paz mundial realmente aconteça é preciso que as pessoas vençam o preconceito, a ganância, o desejo de querer dominar tudo e todos que as rodeiam. E a única forma de conseguir isso é através da auto-reforma, da revolução humana, que é o objetivo da prática budista. Entendeu?

Marcela balançou a cabeça afirmativamente. Admirada. Encantada. Embevecida. Fitando Vivi com total fascínio.

Os olhos verdes envolveram os negros com um ardor igual quando Vivi falou:

- Tem reunião toda 3ª feira. Se quiser ir comigo...

- Quero sim.

Marcela não estava só querendo agradar Vivi. Também, é claro... Mas tinha ficado curiosa, interessada em experimentar, conhecer.  A forma como os olhos de Vivi brilhavam, a energia que fluía dela quando falava sobre o budismo tinham convencido Marcela que devia ser uma coisa muito boa mesmo.

Vivi se levantou, pegou uma caneta na escrivaninha, escreveu alguma coisa na primeira página do livrinho do Gongyo, e depois o estendeu para Marcela, dizendo:

- Pra você...

Marcela abriu e leu:

�Marcela,

Tenha certeza que sua vida ilumina o mundo, e brilha como o sol.

Seja infalivelmente feliz! Evidencie seu estado de Buda sem falta!

Quero estar ao seu lado sempre...

Adoro você!

Bjus,

Vivi�

Marcela levantou os olhos da dedicatória com um sorriso que Vivi achou lindo. Se levantou também, puxou a ruiva pela cintura carinhosamente, e a beijou com doçura. Vivi a abraçou pelo pescoço, as mãos acariciando a nuca dela, e suspirou contra a boca de Marcela.

Foi quando ouviram um apito vindo da cozinha. Só então Marcela lembrou da lasanha...

Correu até o microondas. Colocou a lasanha - na embalagem mesmo - dois pares de talheres e dois copos de coca-cola numa bandeja, e equilibrou até o quarto.

Antes que Marcela pudesse colocar o peso na cama, Vivi pegou os copos � como se previsse um desastre � tornando tudo mais fácil.

Marcela depositou a bandeja no colchão, tirou um dos copos da mão de Vivi, deu um gole e depois colocou no chão.

Vivi preferiu colocar o dela em cima da escrivaninha. Ficou olhando Marcela ligar o Home Theater, escolher e colocar um CD.

Achando o jeito de Marcela se mover � e ser - absurdamente sensual, delicioso, excitante, gostoso... Um tesão mesmo...

Marcela se virou, percebeu o olhar de Vivi, e sorriu. Pelo jeito que as chamas verdes queimavam pôde imaginar o que ela estava pensando.

Vivi sorriu de volta, um pouco envergonhada por Marcela ter percebido o quanto mexia com ela... Nesse momento, a música que Marcela tinha colocado preencheu o quarto.

Vivi reconheceu a banda que estava tocando. Aproveitou para tentar disfarçar:

- �Green Day?�...

Marcela confirmou com a cabeça, enquanto se aproximava de Vivi lentamente. Achando uma graça a súbita e inexplicável timidez dela. Contrastava deliciosamente com o jeito que Vivi a olhava � como se quisesse queimar Marcela nas chamas verdes.

Marcela acariciou os lábios dela com o polegar, sensualmente. Fazendo as chamas aumentarem. Depois sussurrou, sem desviar o olhar do fogo de esmeraldas:

- �Give me Novacaine�...

- Ãh?

- A música...

A segurou pela cintura. Vivi se deixou puxar, hipnotizada pelos olhos negros. Marcela roçou os lábios nos dela de leve. Vivi correspondeu mordendo, saboreando, invadindo a boca de Marcela com a língua.

Marcela passou dos lábios para o pescoço... Beijando Vivi sensualmente, causando arrepios. Depois perguntou capciosamente, a olhando nos olhos:

- Gosta?

Vivi já não sabia se ela estava falando da música ou das carícias ardentes... Pouco importava. Em ambos os casos, a resposta era a mesma:

- Adoro...

Marcela respondeu com um sorriso provocante, envolvente:

- Eu também...

E desceu a boca sobre a de Vivi num beijo longo, inebriante, arrebatador. Vivi entreabriu os lábios. Desejando, exigindo a língua quente que a invadiu e explorou sem pressa.

Marcela se deliciou com os gemidos de Vivi quando aprofundou o beijo. Movimentou o piercing com mais força contra a língua dela, arrancando novos gemidos. Sabendo que Vivi adorava aquilo...

Vivi já não respirava, ofegava contra a boca de Marcela. Seduzida, encantada, maravilhada com ela. Não se cansava do gosto, do cheiro, do ardente roçar do metal frio, dos lábios e línguas.

Suspirou, gemeu alto, baixo, alto novamente... Sentiu o corpo todo amolecer, se derreter, totalmente nas mãos dela.

Marcela mordeu o lábio inferior de Vivi de leve, antes de beijar o queixo, o pescoço, a nuca dela, a boca deixando um rastro de fogo pelo caminho que percorreu.

Vivi enfiou as mãos nos cabelos de Marcela com força. Marcela deu uma última mordida na nuca de Vivi e voltou a procurar os lábios dela com a boca. Parecendo enfeitiçada pela doçura contida neles. Nunca tinha provado um beijo com um sabor daqueles... de incansável, interminável, de... para sempre...

Não queria desgrudar a boca da de Vivi, por nada, nada mesmo...

Mas foi obrigada, porque... já estar começando a ficar tonta. Tempo demais sem comer...

Vivi não entendeu nada quando Marcela a soltou, e sentou na cama de repente. Mas então percebeu que ela estava sem cor nenhuma nas faces:

- Tá passando mal?

A voz de Vivi era preocupação pura. Marcela a tranqüilizou, dizendo:

- Pressão baixa.... Só preciso comer...

Vivi puxou a bandeja para perto dela:

- Então vamos alimentar você...

Marcela comeu quase com desespero. Vivi apenas beliscou a comida. Quando terminou, Marcela perguntou:

- Você não comeu nada... Quer outra coisa?

As esmeraldas se tornaram incandescentes. Vivi sorriu de uma forma nada inocente, e respondeu:

- Você...

Capítulo 15: Por ser exato o amor não cabe em si...

Nesse exato momento, começou outra faixa do CD do Green Day: �Holiday�.

Marcela mal teve tempo de colocar a bandeja no chão. Vivi já estava em cima dela, a beijando com uma paixão tão louca que Marcela ficou completamente sem ar, sem chão, sem noção...

Como se não existisse nada além da respiração que ofegava como a dela, a língua que percorria a de Marcela com pressa, as mãos que arrancaram a camiseta dela antes de a empurrar até se deitar de costas na cama.

Vivi sentou de pernas abertas em cima de Marcela, só desgrudando a boca da dela os segundos necessários para se livrar da camiseta que atirou longe, sem se importar onde. Desceu a boca pelo pescoço quente, se deliciando em sentir que como ela, Marcela respirava com dificuldade... As mãos acariciaram p os seios, arrancando suspiros e gemidos.

Faminta, quente, irresistível... foi a forma como a boca de Vivi percorreu o pescoço, a nuca, o colo de Marcela, e parou para dar atenção aos seios.

As mãos de Marcela percorreram as coxas de Vivi, e subiram pelas costas, levando junto o vestido. Vivi a ajudou levantando os braços, e Marcela aproveitou para colocar a boca em um dos seios dela. Vivi gemeu, se ofereceu, e depois a puxou pelos cabelos, obrigando Marcela a levantar a cabeça e olhar para ela.

Um breve faiscar foi tudo o que conseguiu enxergar dos olhos verdes, antes dos lábios de Vivi descerem sobre os de Marcela.

Foi um beijo voraz, de um desespero quase violento. As mãos de Vivi empurraram Marcela pelo ombro, a fazendo se deitar novamente, enquanto a boca voltava a percorrer o pescoço incansavelmente, fazendo a pele de Marcela arder.

Marcela enfiou as mãos nos cabelos ruivos, mas Vivi não se deixou conduzir. Desceu pelo corpo dela. As mãos, a língua e os lábios traçando um caminho incandescente, fazendo Marcela se contorcer.

Desabotoou a calça jeans de Marcela, abriu o zíper com pressa. Enfiou a mão e a acariciou por cima da calcinha, enquanto a provocava lambendo a pele perto do elástico. Abriu um enorme sorriso de satisfação, sem parar de passar a língua, ao constatar o quanto ela estava molhada.

Então arrancou o jeans fora, sem nem dar tempo de Marcela ajudar. Jogou a peça de roupa longe, exatamente como tinha feito com a camiseta.

O olhar voraz que lançou para Marcela a fez  pensar que Vivi ia se atirar entre as pernas dela.  Ao invés disso, Vivi percorreu o interior das coxas dela com a boca, beijou a virilha, primeiro de um lado, depois do outro, deixando Marcela enlouquecida.

Encostou a boca no sexo dela ainda por cima da calcinha. Marcela gemeu. Reclamou. A segurou pelos cabelos com força.

Vivi a ignorou, e continuou o que estava fazendo. Chupou, lambeu, mordiscou, com o tecido no meio, durante o curto espaço de tempo � que para Marcela foi um interminável e delicioso tormento � que agüentou.

Se livrou da calcinha dela e por um breve momento, admirou a nudez de Marcela. Tão bela... Absolutamente dela... Com um gemido de antecipação, desceu a boca sobre o sexo que se oferecia quase com desespero.

Marcela gemeu, exprimindo o prazer e alívio que sentiu quando a língua de Vivi finalmente encostou nela:

- Ai, Vivi...

E continuou dizendo o nome dela, entre palavras sussurradas, gemidos e suspiros. A voz, o som, o tom de Marcela fazendo Vivi se arrepiar inteira.

Explorou, mergulhou, invadiu, percorreu, devorou cada pedaço, cada traço que ainda desconhecia do prazer de se deliciar com aquela mulher. O coração batendo no compasso da pulsação de Marcela, que se entregou, se abriu completamente sob os lábios dela.

Marcela desenroscou os dedos dos cabelos de fogo, e levou às mãos à cabeça. Arqueou o corpo, estremeceu, arquejou, e gozou demoradamente na boca de Vivi. Gemendo e dizendo o nome dela tão alto que as paredes pareceram estremecer.

Vivi se deitou em cima de Marcela, e ficou olhando para ela. Quando os olhos negros finalmente se abriram, refletiram os verdes. E por um momento, o mundo parou de girar, as duas pararam de respirar, porque... só o que existia era aquele olhar.

Vivi abriu um sorriso. Apaixonado, ardente, contente. Simples, profunda e absolutamente lindo. Que Marcela retribui com outro igualzinho.

Percebeu então que tinha perdido completamente a noção de tempo e espaço, porque... começou a tocar a última faixa do CD: �Wake me up when September ends�.

Vivi comentou:

- Acho essa música linda...

Marcela olhou fundo nos olhos verdes, e respondeu:

- Linda é você...

Virou, trocando de posição com Vivi. Colou os lábios nos dela, a língua explorando todos os recantos daquela boca de uma forma tão intensa, que tiveram que parar e se separar para conseguir respirar novamente.

Marcela sussurrou, ainda ofegante:

- Maravilhosa...

Desceu os lábios pelo pescoço dela, enquanto fazia Vivi se contorcer e arder sob as mãos que a percorriam inteira.

Passou os lábios de leve no bico do seio de Vivi, arrancando um gemido baixinho. Sem interromper o contato, falou com um tom de voz rouco, que deixou Vivi arrepiada:

- Deliciosa...

Passou a língua, deixando o biquinho ainda mais duro. Lambeu, chupou, mordeu... Vivi suspirava e gemia, respirando com dificuldade, as mãos acariciando a nuca de Marcela, se enfiando nos cabelos dela.

E então Marcela foi descendo, a boca explorando cada pedaço de pele no caminho. Sentindo Vivi se derreter.

Tirou a calcinha dela lentamente. Acariciou o interior das coxas com as mãos, enquanto as afastava. O rosto de Marcela parou entre as pernas de Vivi, tão perto que o hálito quente parecia invadir o sexo dela.

Num último suspiro, quase um gemido, a voz de Marcela era o som do desejo:

- Gostosa demais...

Vivi gemeu alto. O coração disparado, martelando como se quisesse sair do peito. Um prazer quase insuportável a percorrendo.

O mesmo que Marcela teve quando finalmente mergulhou e colou a boca faminta entre as pernas dela. Para se deliciar - fazendo Vivi gozar várias vezes � e só então ficar realmente satisfeita.

 

Marcela ficou olhando para Vivi, lavando os copos e os talheres encostada na pia da cozinha, usando apenas uma calcinha e uma camiseta... E não conseguiu evitar o sorriso nem os mil pensamentos maliciosos que apareceram.

A abraçou por trás, colando o corpo no dela, a beijando no pescoço, sentindo ela se arrepiar inteira.

Com muita dificuldade, Vivi enxaguou o último garfo, e colocou no escorredor. Lavou as mãos, virou para Marcela e com um sorriso sapeca jogou água no rosto dela.

Marcela riu, como quem diz: �vai ter volta�. Prendeu Vivi contra a pia com o corpo, um braço envolvendo a cintura dela enquanto com a outra mão abria a torneira e molhava as costas dela sem pena. Vivi deu um grito tão agudo por causa da água fria, que Marcela implicou:

- Assim você me deixa surda...

- Merecia...

Foi a resposta de Vivi, tentando fazer cara de brava sem conseguir. Um brilho feliz nos olhos e um sorriso de orelha a orelha a impediam.

 

Vivi relaxou o corpo em cima de Marcela, a respiração quente e ofegante contra o pescoço dela. Tinham acabado de gozar juntas.

Não fazia idéia de que horas eram. Já devia estar quase amanhecendo, porque... estava morta de cansaço. Bocejou, sentindo os olhos pesados.

Macela acariciou os cabelos vermelhos preguiçosamente. O sono começando a vencê-la. Sentiu Vivi ameaçar se mover de onde estava, e a impediu:

- Fica assim... Tá tão bom...

Vivi concordou. Só ia sair por achar que a posição era incômoda para Marcela... Bocejou novamente e fechou os olhos.

Marcela a beijou de leve nos lábios, e disse de forma apaixonada:

- Boa noite, minha linda...

Mas Vivi não respondeu. Tinha adormecido.

Marcela sorriu, e admirou Vivi adormecida. Tirou os fios de cabelo que teimavam em cair no rosto dela, a envolveu num abraço apertado, a beijou novamente nos lábios, e dormiu também.

 

- Marcela, agora eu preciso ir mesmo!

Vivi tentou se livrar das mãos de Marcela, que já estava tentando tirar o vestido dela, enquanto pedia:

- Só mais um pouquinho... Ainda tá cedo...

Vivi tinha almoçado � comida congelada mais uma vez - e passado a manhã toda com Marcela, mas ela não estava satisfeita. Queria mais, queria ficar com Vivi o domingo inteiro.

Vivi também queria. Mas tinha uma reunião na casa dela, e precisava voltar para ajudar a irmã a organizar as coisas. Além disso, ainda não tinha estudado o texto que tinha se comprometido a ler...

Se soltou de Marcela, e sugeriu:

- Não posso ficar, mas... você pode vir comigo...

Marcela não queria criar problemas para Vivi. Tudo bem, já tinha ido na casa dela antes, mas era diferente. Eram só amigas, e agora... Bom, tinha certeza de que quem olhasse para elas ia perceber...

Mas por outro lado, não queria perder a chance de ficar um pouco mais com ela, por isso cedeu:

- Tá... Tem certeza mesmo que não tem problema?

- Claro que não. Você vai adorar, tenho certeza. Então vamos, né?

Marcela abriu um sorriso luminoso. Puxou Vivi pela cintura e disse:

- Vamos. Mas antes, só uma coisinha...

Colou a boca na dela num último beijo cheio de paixão e... ternura.

 

A irmã de Vivi tinha o cabelo da mesma cor do dela. Mas os olhos... absolutamente diferentes. Nem verdes eram. Recebeu Marcela com um  sorriso simpático e dois beijinhos, dizendo:

- Oi, Marcela! Eu sou a Carol. Fica à vontade, tá?

Marcela ajudou as duas a arrumarem as cadeiras e alguns banquinhos de plástico em frente ao oratório.

Depois Vivi ficou lendo um texto, enquanto Carol desandou a falar, explicando várias coisas para Marcela. Entre elas que aquela reunião era só da DFJ: Divisão Feminina de Jovens.

De vez em quando Vivi levantava os olhos do texto, olhava para Marcela, e sorria. Achando uma graça aquele jeitinho comportado dela, prestando atenção em tudo que Carol dizia.

Quando Marcela percebia Vivi a olhando, sorria de volta de uma forma quase abobada. Se Carol notou, não demonstrou nada.

Quando deu 5 em ponto, Carol começou a puxar o daimoku. Vivi sentou ao lado de Marcela, dizendo:

- Vamos fazer 15 minutos. Se você cansar para, tá?

Aos poucos, outras garotas foram começando a chegar. O daimoku soava forte, vibrante. Marcela nem sentiu os 15 minutos passarem. Se espantou quando Carol tocou o sino e fez daimoku sansho.

Fizeram o Gongyo, e Marcela � toda boba com o livrinho que Vivi tinha dado para ela - até conseguiu acompanhar falando algumas partes.

Depois, a irmã de Vivi se levantou, entregou para todas um imã de geladeira com a seguinte frase: �A Chave do sucesso é a decisão de desafiar à si próprio�,  e falou que esse era o tema da reunião.

Assistiram a um filme que tinha tudo a ver: �Prova de Fogo� (Akeelah and The Bee)  � que aliás, era ótimo! Final surpreendente, maravilhoso e nada maniqueísta � e depois discutiram.

Quando chegou a vez de Vivi falar, Marcela teve que fazer um esforço enorme para se concentrar no que ela dizia e não nos lábios, nos olhos, no sorriso, na figura linda que ela era. Conseguiu ouvir cada palavra que ela disse:

- O Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional, afirma: �Uma pessoa verdadeiramente grandiosa é aquela que consegue vencer a si mesma. Aquele que consegue vencer o inimigo é forte, mas aquele que consegue vencer a si próprio é realmente poderoso. Vencer e desafiar a si próprio é uma tarefa árdua e requer muita coragem e só conseguimos com muita humildade, seriedade e sinceridade. Admitir que estamos errados e reconhecer que, em determinadas situações, somos o centro do problema, são atitudes muito corajosas, em que a decisão e a determinação de mudar a si próprio é fundamental.�

Marcela ficou pensativa. As coisas que tinha escutado tinham, de alguma forma, mexido com ela.

Foi nessa hora que os pais de Vivi chegaram, e Marcela entendeu de onde vinha o ruivo das duas irmãs. O cabelo do pai de Vivi tinha o mesmo tom de vermelho, só que os olhos dele eram profundamente azuis.

Eles cumprimentaram todas as meninas, chamando cada uma pelo nome. Até que o pai de Vivi parou na frente de Marcela, com um enorme sorriso:

- Prazer, eu sou o Francisco. Pai da Carol e da Vivi, como você já deve saber...

- Prazer. Marcela...

O pai de Vivi a olhou com um enorme interesse:

- Ah, então você é a famosa Marcela? A Vivi fala muito de você...

Dona Lúcia os interrompeu, simpática como sempre:

- É, meu bem... Essa é a famosa Marcela. Tudo bem, querida? Que bom que você veio!

A beijou e continuou:

- Gostou da reunião?

E antes que Marcela pudesse responder:

- Que houve com a sua mão?

Só então Marcela se lembrou que ainda estava com o curativo na mão. Antes que pudesse responder, Vivi já estava ao lado dela, respondendo:

- Ela bateu o carro, mamãe.

Marcela se preparou para no mínimo, um olhar de reprovação. Ao invés disso, dona Lúcia disse de uma forma gentil e meiga:

- Que bom que não foi nada sério. Você teve muita boa sorte, porque a vida é nosso bem mais precioso. Vai ter mais cuidado daqui pra frente, não é?

A última frase era quase um pedido. Feito com uma preocupação sincera, carinhosa, verdadeira. Que tocou Marcela de tal forma que ela não conseguiu falar. Apenas concordou com a cabeça.

Dona Lúcia continuou olhando Marcela profundamente quando colocou a mão no ombro dela e falou com um sorriso:

- Eu sei que vai. Confio em você.

 

Marcela ficou sentada na cama de Vivi, olhando distraidamente para os bichinhos de pelúcia na estante.

Dona Lúcia tinha sugerido que ela ficasse para dormir. Com tanta insistência que recusar era inadmissível.

A vida inteira Marcela tinha cultivado uma verdadeira repulsa pela própria família. Mas a casa de Vivi era completamente diferente do inferno que Marcela considerava a dos pais dela.

A família de Vivi parecia feliz, unida, amorosa, em harmonia. Exatamente o oposto da de Marcela.

�Essa menina não presta, essa menina só dá desgosto� -  era a frase chefe enquanto Marcela crescia.

Apesar de Marcela ver os pais muito raramente. Quando não estavam trabalhando, estavam jantando com amigos, falando no telefone, trancados no quarto com enxaqueca, viajando de férias, enfim: sempre ocupados demais para ela...

Durante toda a infância de Marcela, a televisão, o computador, e um número incontável de babás e empregadas � que Marcela infernizava, é verdade, mas era a forma que tinha encontrado de se impor dentro da própria casa � é que realmente acompanhavam Marcela.

Nas festas de dia das mães ou dos pais no colégio, Marcela era a única sozinha. Nos primeiros anos chorava, sentindo pena de si mesma e inveja dos coleguinhas.

Mas com 6 anos já tinha transformado a dor numa raiva profunda, que a fazia destruir todo e qualquer tipo de presente para os pais que as professoras a obrigassem a fazer. Jurando para si mesma que: já que para os pais ela não passava de um fardo, de um encargo, de um aborrecimento, então que fosse grande, gigantesco. O maior transtorno possível. Promessa essa que continuava cumprindo até aquele momento.

Vivi entrou - usando um pijaminha florido, com os cabelos ruivos molhados e um sorriso lindo - iluminando o quarto, e tirando Marcela de seus pensamentos sombrios.

Pediu licença para Marcela, puxou e arrumou a cama que ficava embaixo da dela. Dona Lúcia entrou no quarto, beijou as duas, desejando boa noite, e foi dormir. A casa estava toda em silêncio. A única luz acesa era aquela.

Vivi fechou e trancou a porta, e quando olhou, Marcela já estava deitada na cama que tinha forrado para ela. Vivi disse, alto bastante para que no quarto ao lado se ouvisse:

- Boa noite, Marcela...

- Boa noite, Vivi...

Marcela respondeu, alto, mas nem tanto assim. A última coisa que viu foi um brilho verde sorrindo, porque... Vivi apagou a luz e o quarto ficou um breu.

Se deitou ao lado de Marcela e sussurrou no ouvido dela:

- Você não achou que eu ia te deixar dormir longe de mim, né?

Beijou Marcela como se as poucas horas que tinham ficado sem se tocar fossem dias. Sussurrou de novo:

- Olhar pra você e não poder te dar nem um beijinho é uma verdadeira tortura... Tive que me controlar muito...

O corpo inteiro de Marcela se arrepiou. As mãos de Vivi já a acariciavam, certeiras. Quando a tocaram entre as pernas, por dentro da calcinha, deixou escapar um gemido baixinho. Vivi voltou a sussurrar:

- Shhhh... Silêncio... Sem barulho...

Fácil dizer. Quase impossível fazer. Quando sentiu os dedos de Marcela dentro dela, Vivi também gemeu...

Colaram as bocas uma na outra, e abafaram os gemidos sufocados que teimavam em aparecer. Isso foi o melhor que puderam fazer.

Depois dormiram abraçadinhas, de conchinha. Tão juntinhas que na apertada cama de solteiro parecia caber três...

 

 

Capítulo 16: Só você...
A primeira semana passou desse jeito fantástico, com Vivi descobrindo o que parecia ser uma nova Marcela. Que a buscava de moto para irem e voltarem juntas da faculdade todos os dias, se sentava ao lado de Vivi e ficava sorrindo e piscando para ela ... Que depois das aulas não se separava dela um só instante, indo almoçar na casa de Vivi quando desistia de insistir para irem para a casa dela, e fazia um olharzinho triste quando se separavam na hora do jantar... Que queria arrumar desculpas para dormirem juntas todos os dias,  e não se cansava de beijar, abraçar, tocar, acariciar Vivi por horas a fio...
E que depois de ouvir o recado que Gisele tinha deixado na secretária tinha beijado Vivi apaixonadamente, depois de dizer:

- Não quero mais nada com ela... Agora tô com você...

Fazendo Vivi sentir uma sensação de estar nas nuvens que era... absolutamente deslumbrante.

Marcela, diga-se de passagem, estava totalmente fascinada. Pela ruiva que a tirava do sério. Parecia que respirar era mais fácil ao lado dela. E que o sorriso de Vivi iluminava a tudo e a todos aonde quer que estivessem.
E os olhos verdes... bem, aí já era outra questão... as esmeraldas a deixavam de um jeito além da razão e de qualquer tipo de compreensão. A faziam sentir... uma felicidade absoluta. Sem explicação.

Adorava andar de moto com ela. Vivi a apertava com tanta força, que parecia querer se fundir à Marcela, que... tomava mil cuidados: andava devagar, longe do meio dos carros, e morria de medo que Vivi queimasse a perna no cano de descarga ou algo do gênero...
Era tanta a vontade � vontade não, necessidade - de ficar perto dela, que Marcela tinha passado a se sentar ao lado de Vivi, na primeira fileira, causando o espanto de todos e o afastamento de alguns, como Lu por exemplo.
Vivi parecia imune a qualquer tipo de desaprovação ou rejeição. Que existia, às vezes velada, às vezes de uma forma tão escancarada que chegava a ser grosseira. Mas a ruiva não se abalava, pelo contrário. Desfilava de mãos dadas com ela, a tratava o tempo todo de forma apaixonada, expondo o que sentia sem se importar com que os outros iam pensar, com uma sinceridade que emocionava Marcela.
Por isso as aulas agora para ela eram sem os óculos escuros e o MP3 costumeiros, mas... com a atenção muito mais voltada para não perder uma oportunidade de trocar um olhar, sorrir ou piscar para Vivi do que para o quadro negro...
Passavam juntas tardes inteiras, sem nunca parecer o suficiente. Queria mais, muito mais. Queria Vivi o tempo inteiro... Infelizmente, Vivi tinha que jantar e dormir em casa todos os dias. E Marcela achava melhor não abusar dormindo de novo na casa dela. O jeito era ligar para Vivi toda noite, e ficar pendurada no telefone...
Só desligava quando Vivi falava que já estava deitada na cama e morrendo de sono. Depois virava para o lado e dormia abraçada com o travesseiro que tinha o cheiro dela.
Depois do tal recado, Gisele não tinha ligado mais. Para alívio de Marcela, que queria manter Vivi o mais longe possível da loira.
Na 3ª feira, tinha ido na reunião budista com Vivi. Saiu de lá com o coração mais leve, impressionada com a energia, o brilho, a receptividade das pessoas.
Na 6ª feira, Marcela deixou Vivi em casa assim que saíram da faculdade. Precisava passar o som com a banda antes do show que iam fazer mais tarde.
Só não estava chateada de se separar dela porque depois do show, iam dormir juntas na casa de Marcela.
Entrou com a moto na garagem, para poderem se despedir. Depois de intermináveis beijos, Marcela colocou o capacete � o do carona deixou com Vivi, só ela usava mesmo... � e foi embora correndo, porque já estava atrasadíssima.

Depois do almoço, Vivi estava olhando os e-mails, quando viu o que Marcela tinha encaminhado para milhares de pessoas:
"E aí, galera! Beleza?
Nessa sexta-feira, estaremos fazendo um som no ESPELUNCA CHIC de Ipanema!
Você está convidado e seus convidados são nossos convidados também!
O esquema é o seguinte:
Horário: 22h
Couvert: R$ 3,00 + consumação mínima (R$15 pra homem e R$10 pra mulher)
Espelunca Chic: Rua Barão da Torre, altura do numero 160 (esquina com
Farme de Amoedo)
ATENÇÃO: Logo na chegada avise que é convidado dos músicos e peça sua
cartela de consumação. Isso é muito importante p q possamos mostrar à
organização q nós levamos um bom público e p q possamos repetir muitas
vezes a festa por lá!
Nos vemos sexta!!!
Grande abraço
The Mitidos"
Era óbvio � pelo menos para Vivi � que aquilo não tinha sido escrito por Marcela. Formal, organizado e certinho demais para ser coisa dela...
Passou os olhos pela lista enorme de e-mails no destinatário e o sorriso morreu nos lábios, porque... um deles era de uma tal Gisele...

Quando Marcela passou para buscar Vivi, o porteiro disse que era para ela subir. Estranhou, mas obedeceu, achando que provavelmente Vivi ainda não estava pronta.
Antes que o dedo pudesse encostar na campainha, a porta se abriu, e Marcela se deparou com duas chamas verdes furiosas. Vivi apenas disse, com uma raiva evidente na voz:
- Vem aqui um instante, por favor.
Marcela parou para fazer daimoku sansho, e depois para cumprimentar os pais de Vivi, que assistiam tv na outra sala.
Vivi explicou que estavam atrasadas, e puxou Marcela pela manga do casaco, com uma impaciência que não era normal nela.
Marcela a seguiu até o quarto. Durante o curto trajeto, não trocaram uma palavra sequer. Vivi fechou e trancou a porta e fez sinal para Marcela se aproximar da mesa onde ficava o PC. O computador estava na tela de descanso. Vivi moveu o mouse e Marcela viu o e-mail que tinha mandado. Vivi apontou para um endereço de e-mail, dizendo:
- Pode me dizer de quem é esse e--mail?
Marcela ficou sem saber o que fazer. Mas pela reação dela, ficou evidente a resposta.
Vivi tentou manter o controle. E conseguiu, se levarmos em conta o ciúme monstro que estava sentindo naquele momento:
- É ou não é da tall Gisele?
Marcela tentou se explicar:
- É, mas...
O mas ficou no ar, porque antes dela poder completar, Vivi disparou:
- Olha só, Marcela, eu sei muito bem que não tenho o menor direito de fazer cobranças, que você nunca me prometeu nada, que a gente tá só ficando, e mais nada, mas você vai ter que concordar que... que chamar essa mulher é, no mínimo, muita falta de consideração!
Vivi estava uma fera. Os olhos lembravam os de uma gata selvagem, deixando Marcela prisioneira de uma louca vontade de a agarrar e amansar com milhares de beijos.
Porém, do jeito que o fogo verde a fuzilava, obedecer a esse tipo de desejo seria pura insanidade...
Respirou fundo, voltando à razão. Precisava esclarecer de uma vez por todas as milhares de besteiras que tinha ouvido Vivi dizer:
- Vivi, não é nada disso.... Por favor, me escuta...
Vivi passou a mão no rosto, nos cabelos, depois cruzou os braços e falou, olhando fundo nos olhos de Marcela:
- Sou toda ouvidos...
Marcela não negava o sangue que corria nas veias. Fez uma defesa simples, sincera e brilhante:
- Encaminhei esse e-mail pra minha listaa inteira. Mandei pra ela no meio, nem percebi... Desculpe, foi um erro... Que não vai se repetir, prometo.

Fez uma pausa. Continuou com a mesma voz firme, só que agora com uma  tristeza quase decepcionada:
- Você disse que tá s&oacutte; ficando comigo? Pensei que a gente tava namorando...

As chamas verdes passaram da raiva ao espanto:
- Mas você... você nunca dissse...
Marcela riu:
- Ué, precisava?
As esmeraldas cintilaram. Marcela implicou:
- E então? Estamos namorando ou nnão?
Vivi abriu um sorriso sedutor. Se aproximou lentamente de Marcela. Passou os braços ao redor do pescoço dela, e a envolveu completamente no feitiço verde quando provocou:
- Quer uma sentença? O ônuss da prova é seu...
Marcela sorriu de volta, e a abraçou pela cintura:
- Ah, é? Então é meelhor provar agora e aqui mesmo...
A resposta da ruiva estava na ponta da língua:
- Só se for com perícia, mmeu bem...
Vivi roçou os lábios nos dela, mas a última palavra foi de Marcela:
- Vai ser... Mas se seu parecer for negaativo � coisa que eu duvido - sempre posso
  apelar, não é mesmo?
E desceu os lábios ardentes, famintos sobre os dela.

Acabaram chegando em cima da hora. Marcela caminhou de mãos dadas com
Vivi até o canto onde estava o resto da banda. Pediu desculpas, e apresentou:
- Guto, Rafa, e André.
Marcela conhecia muito bem os amigos que tinha - Guto e Rafa ficaram logo animadinhos, devorando a ruiva com os olhos. André não. Era todo sério
  � por isso passou o braço ao redor da cintura de Vivi possessivamente e completou:
- Essa é a Vivi. Minha namorada.<
Os três mudaram completamente. Guto e Rafa sossegaram, e André ficou com uma expressão inescrutável.

A atitude de Marcela foi ciumenta � coisa que Vivi detestava � mas naquele momento nem ligou. Ficou saboreando mentalmente a palavra "namorada". Tinha adorado, principalmente o jeito que Marcela tinha falado... Doce, rouco, quente... Se bem que, para Vivi, tudo na voz de Marcela ficava mais belo mesmo...
Marcela deu um beijo rápido nos lábios de Vivi, e foi fazer os ajustes finais.
Vivi se virou e viu Carlinha acenando para ela. Ficaram conversando, mas... não conseguia tirar os olhos de Marcela. Linda como sempre, se movimentando daquele forma que Vivi adorava... charmosa, deliciosa, sensual, um verdadeiro show... E namorada dela... O coração de Vivi não poderia bater num ritmo mais feliz.

Foi quando viu Marcela pegando um vidrinho no bolso, batendo na mão e cheirando... Aquela porcaria de novo... E como desgraça pouca é bobagem, para completar, a loira que agora era a personificação dos piores pesadelos de Vivi, se aproximou de Marcela com um enorme sorriso:

- Oi, gatinha... Você sumiu... Tô morrendo de saudade...

Marcela levou um susto tão grande, que quase derrubou o frasco no chão. Gisele estava ali, parada na frente dela, com um vestido que a deixava magnífica. E ainda por cima, sorria para Marcela, dizendo a coisa mais inusitada: que tinha sentido falta dela... Inacreditável...

Claro que Marcela balançou. Tinha passado dois anos atrás de Gisele e nunca tinha escutado uma frase dessas...

Um brilho a fez desviar a atenção... da loira para duas esmeraldas verdes que  cruzavam rapidamente a distância que as separava.

Gisele acompanhou o olhar de Marcela. Avaliou cuidadosamente a ruiva que se aproximava � uma menina, mais nova do que Marcela, provavelmente - mas surpreendentemente segura porque... sustentou o olhar de Gisele sem nem piscar.

Vivi parou ao lado de Marcela. Passou a mão intima e carinhosamente nos cabelos dela, jogando-os para trás. Olhou bem dentro dos olhos negros e disse - num tom muito mais de ordem do que de pedido:

- Me apresenta.

Marcela entendeu. Perfeitamente. E obedeceu:

- Vivi. Gisele. Gisele, essa é a Vivi, minha namo...

Vivi nem deu tempo de Marcela terminar. Ela mesma fez questão de dizer:

- Sou a namorada da Marcela.

E encarou a loira de uma forma nada amigável. Gisele sorriu, apesar de estar se mordendo por dentro. Deu uma desculpa, se virou e desapareceu.

Marcela olhou para Vivi espantada, encantada, maravilhada mesmo... Ninguém nunca a tinha feito se sentir daquele jeito... Como se Marcela valesse a pena...

Abraçou Vivi com força, enfiando o rosto nos cabelos vermelhos. Aspirando o perfume delicioso dela e sentindo uma vontade gigante de confessar o que sentia dentro do peito. Sussurrou no ouvido dela:

- Vivi, eu te a...

Mas não conseguiu completar. Foi interrompida por André, que a puxou pelo braço um tanto quanto irritado:

- Marcela, vamos começar, né?

E praticamente a arrastou para o pequeno tablado onde os outros já estavam esperando por eles.

Vivi ficou ali parada, ainda sob o efeito daquele turbilhão de sentimentos que Marcela causava. Tinha tido a nítida impressão de que Marcela ia dizer que a amava... Mas o momento tinha ficado em suspenso, sem que Vivi tivesse realmente certeza.

Marcela apresentou a banda, de uma forma meio displicente. A cabeça ainda em Vivi e na frase que não tinha conseguido dizer para ela... Mas então começou a tocar e esqueceu de todo o resto.

Quando a primeira música começou, Vivi abriu um sorriso enorme. Os olhos verdes cintilando. Adorando ver Marcela dedilhando a guitarra, marcando o ritmo da música com o pé, jogando o cabelo para trás e lançando um sorriso que era absolutamente desafiador quando abriu a boca e cantou:

�A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia� ...

( Burguesia � Barão Vermelho - Cazuza/ Ezequiel Neves/ George Israel)

 

Vivi riu alto. Aquilo era tão a cara de Marcela...

Voltou para perto de Carlinha, que já estava se derretendo toda para Rafa, o baterista. Marcela era toda olhares, charme e sorrisos para Vivi, que como sempre se deixou seduzir, enfeitiçar, hipnotizar completamente...

A primeira música terminou, eles tocaram a segunda, a terceira, e antes de começar a quarta, Marcela falou, olhando diretamente para onde Vivi estava:

- Essa música é pra ruiva dos olhos verdes mais linda do mundo inteiro...

Começou a tocar,  sem desviar os olhos um minuto dos dela, com um sorriso sedutor e um olhar profundo, que pareciam despir Vivi inteira.

A voz de Marcela soou aveludada, mas repleta de energia e prazer, como se finalmente confessasse algo enterrado, guardado como um tesouro no fundo  do peito:

 

�Demorei muito pra te encontrar
Agora eu quero só você
Seu jeito todo especial de ser
Eu fico louca com você...
Te abraço e sinto coisas que eu não sei dizer
Só sinto com você...
Meu pensamento voa de encontro ao teu
Será que é sonho meu?
Tava cansada de me preocupar
Quantas vezes eu dancei
E quantas vezes eu só fiquei
Chorei! Chorei!...
Agora eu quero ir fundo lá na emoção
Mexer teu coração
Salta comigo alto
Todo mundo vê
Eu quero só você...
Eu quero só você...
Eu quero só você...

Os olhos negros continuaram brilhando profusamente. Vivi se sentiu queimar, incendiar, derreter...

Olhando fixamente para as esmeraldas que correspondiam intensas, Marcela  falou no microfone, com uma voz tão rouca, profunda e ardente que parecia estar falando baixinho no ouvido de Vivi:

- Vivi, eu amo você...

Vivi sentiu um arrepio subir pela espinha, pela nuca... O sangue correu nas veias com a força de uma correnteza represada que se liberta... A respiração totalmente desafinada e disritmica...

O sorriso de Marcela a aquecia, coloria o mundo numa explosão de sons, tons e luzes, enquanto ela repetia:


�Te abraço e sinto coisas que eu não sei dizer
Só sinto com você...
Meu pensamento voa de encontro ao teu
Será que é sonho meu?...
Tava cansada de me preocupar
Quantas vezes eu dancei
E quantas vezes eu só fiquei
Chorei! Chorei!...
Agora eu quero ir fundo lá na emoção
Mexer teu coração
Salta comigo alto
Todo mundo vê
Eu quero só você...

Eu quero só você...

Eu quero só você...

Só você, Vivi...

Eu quero só você�...

(�Só Você� � Capital Inicial � Vinícius Canturária)

 

Depois dos últimos acordes, Marcela anunciou que a banda ia fazer um pausa. Vivi ficou olhando ela guardar a guitarra, com uma ansiedade tão imensa que mal ouviu Carlinha falando:

- Ai, amiga, que romântico! Tô pensando seriamente em virar lésbica...

E então Marcela já estava na frente dela, os olhos pulsantes, dois tufões negros. 

Vivi sussurrou, as esmeraldas queimando com o mesmo sentimento:

- Também amo você...

Os lábios se encontraram, fazendo com que o mundo à volta delas ficasse fora de foco. Tanto que nem ouviram Carlinha dizer:

- Ai, preciso arrumar uma mulher, gente!

Nem viram a loira afastada num canto, as observando com uma expressão tão maliciosa e sombria que chegava a dar medo.

 

 

Capítulo 17: A noite nunca tem fim...

André as interrompeu novamente:

- Marcela, pelo amor de Deus!

As bocas se separaram, mas as duas continuaram abraçadas. Marcela fuzilou o amigo com os olhos:

- Pelo amor de Deus digo eu! Que foi, agora, André?

André estava bastante irritado, exasperado mesmo:

- Pega leve... aqui não é um lugar GLS... o gerente já reclamou comigo duas vezes...

- Foda-se o gerente! E foda-se você também!

André sacudiu a cabeça negativamente. Depois a olhou com uma expressão profundamente magoada:

- Sabe quanto tempo demorei pra fechar com esse lugar?

Marcela mudou imediatamente. Abraçou André dizendo:

- Desculpa... Ai, Dé, você sabe que esse tipo de coisa me tira do sério... Vou me comportar, prometo...

Deu um estalinho nele. Vivi não gostou nem um pouco, mas ficou quieta. André acariciou o rosto de Marcela, dizendo:

- Tudo bem... já tô mais do que acostumado com esse seu jeitinho �meigo�...

Os dois riram. Marcela deu um soquinho no ombro dele, de brincadeira, e André se afastou, depois de dizer:

- Cinco minutos e voltamos, ok?

Quando Marcela se virou para Vivi, a ruiva estava muito séria. Marcela estranhou:

- Que foi?

A voz de Vivi saiu um pouco hesitante:

- Vocês são amigos há muito tempo?

- Eu e o Dé? Desde sempre... Por que?

Vivi esboçou um:

- Nada não...

Nem um pouco convincente. Marcela riu, segurou as mãos dela e disse:

- Não acredito que você tá com ciúmes do André! Essa é a coisa mais ridícula...

Vivi a cortou, os olhos verdes já faiscando:

- Ridícula por que?

Marcela ajeitou uma mecha dos cabelos vermelhos, prendendo atrás da orelha dela numa carícia suave e meiga. Foi o bastante para Vivi amolecer. O tom de Marcela foi muito carinhoso quando respondeu:

- Bom, além dele ser como meu irmão, tem um pequeno detalhe que você tá esquecendo...

- Qual?

- Vivi, ele é homem! Fala sério, né? Não tem cabimento...

Vivi abriu um sorriso divertido. As esmeraldas já resplandecendo novamente. Marcela a abraçou, e sussurrou no ouvido dela:

- Você fica linda ciumenta... Tô louca pra te dar um beijo... Mas infelizmente, prometi que ia me comportar...

Suspirou alto, como quem lamenta. Deu três passos para trás, andando de costas, sem desviar os olhos, como se quisesse gravar as chamas verdes na memória. Sorriu, levantou os braços - como quem quer dizer: �fazer o que?� - se virou, e voltou para o tablado.

Deixando Vivi com uma única certeza: cada minuto com Marcela a fazia se apaixonar ainda mais por ela.

 

Depois que o show terminou, ficaram sentados numa mesa, bebendo. Marcela entre Vivi e André. Guto na cabeceira, e Carlinha aos beijos com Rafa do outro lado da mesa.

Vivi olhou para a amiga com inveja. Se sentindo injustiçada, agredida, desrespeitada mesmo. Não pelos amigos, mas pelo tal gerente, que diga-se de passagem, não veio reclamar em nenhum momento dos amassos quase obscenos deles. Claro que não... afinal, eram um casal hetero, não é mesmo? Podiam quase trepar ali mesmo na mesa, enquanto ela e Marcela não podiam nem dar um beijo...

Marcela pareceu ler os pensamentos dela. Roçou os lábios no ouvido de Vivi antes de sussurrar:

- Não fica chateada não... Assim que a gente sair daqui vou te recompensar... te enchendo de beijos... Prometo que vou te beijar inteira...

Apertou a coxa dela por debaixo da mesa. Os olhos verdes viraram duas fogueiras. Sussurrou para Marcela:

- Não quero esperar tanto tempo...

Marcela abriu um sorriso satisfeito, e sussurrou de volta:

- Vamos no banheiro...

Não precisou falar duas vezes. Vivi levantou e foi na frente. Marcela a seguiu com o coração saltitando no peito. Se sentindo uma adolescente. Por sorte no banheiro não tinha ninguém.

Entraram juntas num dos reservados. Marcela não perdeu tempo: mergulhou os lábios nos de Vivi e a encostou na parede, pressionando o corpo contra o dela. Vivi gemeu, e abriu os lábios, se oferecendo. Se deliciando com o ardor daquele beijo...

A língua de Marcela invadiu a boca de Vivi vorazmente. As mãos de Vivi se  enfiaram por baixo da camiseta de Marcela e subiram acariciando as costas dela, a agarrando com força, o contato fazendo com que as duas estremecessem.

Marcela segurou o rosto de Vivi com uma das mãos. Com a outra levantou a saia dela e passeou pela pele quente das coxas, adorando sentir a respiração da ruiva ficar tão alterada quanto a dela. Foi quando ouviram:

- Vivi! Marcela! Poxa, nem me chamaram pra vir no banheiro, né?

Não tiveram como deixar de rir. Realmente, Carlinha era uma figura sem noção... Tão sem noção que insistiu:

- Meninas, cadê vocês?

Foi Vivi quem respondeu:

- Caramba, Carlinha! Que falta de semancol, hein, amiga?

Só então Carlinha se tocou:

- Ai, gente, desculpa... É que ainda não tô acostumada com essa situação, né?

Marcela e Vivi ajeitaram as roupas e saíram do reservado bem a tempo de ver o quanto Carlinha estava vermelha. Morta de vergonha. As duas riram muito da cara dela, antes de saírem todas juntas do banheiro.

 

- Quando o André e a Marcela se conheceram ainda usavam chupeta...

- O André é meio que.. digamos... a sombra da Marcela...

Rafa e Guto estavam implicando com André. Esse ficou olhando para eles, sorrindo, e depois se defendeu:

- Pura inveja...

Guto não perdoou:

- Mostra pra Vivi as fotos que você carrega na carteira...

Marcela interferiu, revoltada:

- Agora vocês tão de sacanagem comigo, né? Dé, você tá proibido de mostrar essas fotos! Aliás, queima isso!

A reação dela despertou uma curiosidade enorme em Vivi:

- Que fotos são essas?

André explicou:

- Fotos da verdadeira Marcela...

Tirou três fotos da carteira e entregou para Vivi, para desespero de Marcela.

André saiu explicando:

- Aqui a gente com 3 anos. A Marcela foi meu par na festa junina do colégio...

Vivi olhou com curiosidade para a foto das duas crianças fantasiadas de caipiras. Não deu muita atenção ao menino. Seus olhos se fixaram na loirinha de Maria-chiquinha, pintinhas nas bochechas rosadas, e um vestidinho cheio de rendas e fitas... Marcela menininha... com uma expressão tão absolutamente triste que era de cortar o coração. Ignorando totalmente o menino de mãos dadas com ela e que a olhava com... profunda adoração.

- Marcela, você é loira?

Foi a primeira coisa que Vivi perguntou. Marcela deixou escapar um suspiro. Antes que pudesse responder, André implicou:

- Loirinha, loirinha... No fundo a Marcela é uma bonequinha de cabelinhos dourados...

Todos na mesa riram. Marcela estava irritadíssima:

- Ah, cala a boca!

Vivi acariciou o rosto dela. Na mesma hora Marcela se acalmou. Sorriu para a ruiva. Os olhos verdes cintilaram, e Vivi disse:

- Você era uma gracinha...

Marcela ficou nitidamente envergonhada. André riu alto, se divertindo às custas dela. Marcela o fuzilou com os olhos, mas ele estava apenas começando:

- Olha a outra foto, Vivi...

Marcela tentou pegar as fotos, mas André não deixou. Segurou Marcela pelos pulsos e a manteve presa enquanto explicava para a ruiva:

- Aqui com 15 anos. No concurso de talentos da escola... Fomos desclassificados... por que mesmo, hein, Marcela?

André a soltou. Marcela esfregou os pulsos e olhou para o amigo com um sorrisinho moleque. Sabia muito bem que André não se conformava de não ter ganhado aquele prêmio...

- Ah, Dé... Mas valeu a pena...

- É... Imaginem só a cara das freiras quando a Marcela abriu a boca e ...

Os dois cantaram juntos, se divertindo a valer:

 

�Bichos! Saiam dos lixos
Baratas! Me deixem ver suas patas
Ratos! Entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado...
Pulgas! Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui, na face da terra
Só bicho escroto é o que vai ter� ...

(�Bichos Escrotos� -  Titãs - Nando Reis / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto)

 

Os dois riram às gargalhadas. Marcela deu um gole no chope na frente dela e completou:

- Fomos ovacionados pelos alunos... Isso nem precisa dizer...

- Saímos do palco direto pra sala da diretora... Mas não levamos nem uma advertência, graças a mais um dos discursos brilhantes e eficientes da Marcela... em defesa da liberdade de expressão...

Os dois riram juntos novamente. Vivi olhou para a foto com atenção. Nela, estava André - ao lado de Marcela, como sempre. Dessa vez uma Marcela adolescente, de tênis � all star preto, é claro! � calça jeans toda rasgada e camiseta baby look preta. Magra, muito magra mesmo, quase andrógina. Os cabelos loiros muito lisos na altura dos ombros presos atrás das orelhas. Já tinha a energia e o jeitinho rebelde que encantavam Vivi...

- Linda...

Vivi deixou escapar quase sem querer. Marcela sacudiu a cabeça negativamente. André implicou, dizendo:

- Já não usava vestidinho, mas ainda tinha cabelinho de princesa...

Marcela não respondeu, imersa em seus próprios pensamentos. Para ela, 15 anos tinha sido a idade derradeira... Quando tinha conhecido Flávia �  transferida no meio do ano para a turma de Marcela... Paixão à primeira vista... Primeiro beijo, primeiro namoro, primeiro amor... Primeira experiência sexual e.. a primeira a fazer Marcela sofrer profundamente...

O namoro durou exatamente 5 meses. O tempo que a mãe de Flávia levou para descobrir. Pressionada pela família, Flávia chorou, se desculpou, negou ser lésbica, se mostrou totalmente arrependida. Rejeitou e culpou Marcela... Fazendo com que tudo o que tinha acontecido entre elas parecesse errado, sujo, quase uma doença...

A notícia se espalhou. Não conseguindo ignorar as provocações e agressões dos colegas � muito menos a repulsa que via nos olhos de Flávia - Marcela brigava, xingava, discutia, e se esforçava para violar o máximo possível de regras. Foi um grande alívio quando finalmente, conseguiu ser expulsa do colégio. 

Os pais de Marcela, não sabendo nem querendo lidar com a situação, a mandaram estudar durante 3 anos na Inglaterra.

O tiro saiu pela culatra, porque em Londres, Marcela se assumiu de vez � acumulou um saldo significativo de ficantes, casos, amizades coloridas e trepadas casuais de diversas idades, nacionalidades e tipos.

E então, um pouco antes de completar 17 anos, aconteceu Caitlin - inglesa linda, descolada, deliciosa e três anos mais velha - que fez Marcela ficar de quatro e esquecer de Flávia finalmente.

Namoraram 7 meses. Quando Marcela pegou Caitlin beijando outra pela terceira vez, o namoro virou uma relação daquelas em que as duas disputam para ver quem consegue ferir mais a outra. O término foi tão horroroso que nem amizade sobrou.

Depois, Marcela passou a experimentar uma variedade incrível de drogas: maconha, haxixe, cocaína, ácido, special k, PCP, ecstase, speed, poppers, anfetaminas, GHB e até chá de cogumelo... E passou a pintar os cabelos. De roxo, pink, verde, azul, vermelho... Qualquer cor que não fosse a verdadeira. Até chegar no preto com mechas azuis que usava naquele momento.  

- Que cabelo é esse?

A pergunta de Vivi fez Marcela voltar à realidade. E olhar para a foto que Vivi apontava. Três anos atrás. O primeiro show do �The Mitidos�. O cabelo de Marcela estava... laranja!

Rafa, Guto e André riram do espanto de Vivi. Na época, essa era exatamente a reação que ela normalmente causava. Marcela deu de ombros, exasperada. Não estava gostando de remexer num passado que preferia esquecer. Encerrou desconversando:

- Parece que tão fechando...

Vivi olhou o celular: três horas da manhã...

 

Quando chegaram na rua, André perguntou:

- Onde vai ser a saideira?

Marcela foi rápida:

- Cervantes, claro...

Guto e André concordaram. Super acostumados a terminar as noites em Copacabana. O Cervantes era ideal, porque às sextas e sábados só fechava às 6h da manhã.

Carlinha se desculpou... Precisava ir para casa. Imediatamente, Rafa se ofereceu para acompanhá-la.

Vivi estava um pouco chateada porque em nenhum momento Marcela tinha perguntado se ela queria ou não ir para outro lugar. Mas decidiu relevar, quando Marcela deu um sorriso lindo, a abraçou pela cintura e a guiou até o carro. Ficou surpresa quando Marcela entregou a chave para ela, dizendo:

- Melhor você dirigir...

Vivi só tinha bebido uma caipirinha a noite inteira. Depois tinha ficado na Coca-cola, enquanto os outros... bem, Vivi tinha perdido a conta da quantidade de chope que tinha descido naquela mesa...

 

Quando saíram do Cervantes � só porque estava fechando - já era dia claro. Vivi estava exausta. De ficar horas sentada numa mesa com três pessoas totalmente alteradas pela bebida e pelo baseado que tinham fumado no caminho dentro do carro. Tudo o que queria era ir embora, mas... Marcela parecia incansável:

- Agora a saideira...

Normalmente, quando caiam na noite, Marcela e os amigos iam de bar em bar, até o último fechar e os outros já estarem abertos novamente.

Guto e André, na mesma onda que ela, concordaram. Vivi ficou séria. Marcela colou os lábios nos dela, no meio da rua mesmo. Sussurrou no ouvido dela:

- Só mais um pouquinho, amor...

Vivi amoleceu. E não querendo estragar a diversão deles, acabou cedendo. Marcela a recompensou com outro beijo. Mais ardente que o anterior. Com mil promessas implícitas... Que infelizmente só poderiam ser cumpridas muito depois, porque.. Marcela se virou para André e Guto e perguntou:

- Pra onde então?

Foi André quem sugeriu:

- Nogueira?

Marcela hesitou. O Nogueira era um bar freqüentado por putas do calçadão de Copa e seus clientes. Um lugar bem de baixo meretrício mesmo. Aonde eles sempre iam, mas... com Vivi junto, a história era diferente:

- Não sei não...

Mas André rapidamente decidiu:

- Deixa de besteira. Nogueira então.

Foram andando. Era bem ali, na esquina da Prado Júnior. Sentaram numa mesa no canto, perto do banheiro. Vivi ficou olhou em volta, para as mulheres abusivamente maquiadas e de vestidos curtos e brilhantes... Perguntou baixinho para Marcela:

- Elas são...

Nem precisou completar. Marcela respondeu afirmativamente com a cabeça. Depois perguntou:

- Tudo bem?

Vivi estava apenas curiosa. Nunca tinha estado num ambiente daqueles. Achou a energia muito pesada, meio baixa, mas fora isso, nada contra:

- Sem problemas.

Marcela a presenteou com um sorriso e um beijo ardente. Que fez Vivi esquecer que estava morta de cansaço e que não estava achando a menor graça em ficar ali vendo eles fumarem, beberem e cheirarem special k além de todos os limites do razoável, enquanto ela tomava água com gás.

A conversa que se estabeleceu na mesa não podia ser diferente: aquela típica de bêbados. Tudo era motivo para risadas e brincadeiras. Vivi ficou praticamente calada, totalmente deslocada e fora do clima.

De vez em quando Marcela a beijava de um modo que deixava claro que ela  esquecia que não estavam sozinhas. Vivi teve que conter as manobras mais ousadas da boca e das mãos dela várias vezes, a afastando e dizendo:

- Marcela, menos...

Haja paciência, não é mesmo?

No meio dessa confusão, tinha um cara tocando teclado e cantando. Tentando criar um som ambiente. Entre uma música e outra, André se levantou e ficou alguns minutos falando com ele. Então chamou Marcela, que levantou da mesa trocando um pouco as pernas, cumprimentou o tal cara e depois de algum tempo de conversa, se sentou num  banco alto com um microfone na mão.

O cara anunciou que dois amigos iam dar uma canja com ele. André puxou uma gaita do bolso e começou a tocar. O cara acompanhou no teclado, e Marcela começou a cantar, com uma voz que Vivi achou absolutamente linda:

 

�Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum trocado pra dar garantia.�

 

Incrível que mesmo bêbada, ela conseguisse cantar daquele jeito. Com tanto sentimento que o único som que se ouvia era o das pessoas que acompanhavam cantando:


�E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum veneno antimonotonia.�

 

Os olhos de Marcela se mantiveram presos nos verdes o tempo inteiro. Vivi podia ler neles um sofrimento suave e doce. Aquele que Marcela escondia, mas do qual não conseguia fugir, principalmente com a bebida exacerbando tudo, mesmo sem querer:


�E se eu achar tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida

E algum remédio que me dê alegria�

 

André deu os últimos acordes com a gaita, e então Marcela encerrou, sustentando a nota final:


E algum remédio que me dê alegria.�

(�Todo Amor que houver nesta vida � Barão Vermelho � Cazuza / Frejat)

 

 As pessoas aplaudiram, pediram mais uma. Marcela tentou fugir, mas André a convenceu. Ficaram discutindo, provavelmente a música que iam tocar. André se posicionou atrás do teclado, ajeitou outro microfone na frente dele, e Marcela pegou o violão que o cara entregou para ela, plugou na caixa de som e voltou para o mesmo lugar. Guto falou, empolgadíssimo, quase gritando:

- Caramba! Vivi, sabe o que isso quer dizer? Vamos ter o privilégio de ver o maior de todos os espetáculos: André e Marcela cantando juntos!

Marcela começou com o violão. André a acompanhou no teclado. E os dois cantaram juntos, as duas vozes lindas, com uma sintonia absurda:

 

�Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância�


Vivi ficou incomodada. Não gostou nem um pouco da cumplicidade que os dois tinham, dos olhares e sorrisos enquanto cantavam. Ciúmes bobos. Claro que tudo fazia parte da performance � tentou se convencer.

Então, como que confirmando o que Vivi tinha acabado de pensar, Marcela começou a cantar sozinha, o olhar exclusivamente voltado para os olhos de esmeraldas:

 

�Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só
Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor�


Então André voltou a cantar com ela e Marcela desviou o olhar novamente:

 

�E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...�
(�Velha Infância� � Tribalistas - Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte)

 

Vivi parou de prestar atenção por um momento, porque o garçom a chamou, tocando no braço dela. Vivi olhou para ele, que perguntou:

- Tem um cara querendo sair com você.

No começo ela não entendeu. Mas então Guto respondeu:

- Amigo, ela não faz programa.

Vivi estava muito mais chocada do que chateada pelo fato de terem pensado que ela poderia ser prostituta. O garçom insistiu encarando a ruiva:

- Ele pediu pra te dizer que paga bem.

Vivi continuou absolutamente sem palavras. Mais uma vez, Guto intercedeu:

- Diz pra esse cara esquecer. A menina não é puta e tá acompanhada, ok?

O garçom abriu um sorriso repulsivo de tão malicioso. E disse de uma forma quase íntima:

- Pensa bem, garota. Você faz o preço. Não é nada demais. É só receber por aquilo que, provavelmente, você já faz de graça...

Nesse exato momento, o garçom levou um empurrão tão forte, que caiu do outro lado, por cima de uma mesa. Guto se levantou e ajudou André a segurar Marcela, que chutava e xingava, querendo bater no sujeito.

No primeiro momento, Vivi ficou paralisada. Depois se levantou, ordenando com uma voz impressionantemente firme:

- Marcela, para com isso! Marcela!

Mas Marcela só se acalmou quando Vivi tocou no rosto dela. André falou baixinho:

- Tá maluca? Aqui não é exatamente o melhor lugar pra você arrumar confusão, né?

E realmente, o bar tinha parado para olhar para eles e o clima estava... no mínimo tenso. André continuou:

- A gente vai te soltar, e você vai com a Vivi lá pra fora o mais rápido possível, enquanto eu e Guto pagamos e tentamos pedir desculpas. Entendido?

Marcela concordou com a cabeça. Ela estava parada, mas a respiração continuava ofegante e o corpo inteiro tremia.

Fizeram exatamente como André tinha mandado. Vivi praticamente tendo que carregar Marcela.

A rua estava movimentada, várias pessoas indo para a praia, passeando com os cachorros, entrando na padaria. Vivi deu uma olhada no celular e quase morreu: dez da manhã...

Quando chegaram perto do carro, Marcela se soltou de Vivi, e gritou furiosa:

- Você não tinha nada que dar papo praquele cara!

- O que?

Foi a única coisa que Vivi conseguiu responder. Marcela continuou com o mesmo tom agressivo:

- Precisa mesmo ser tão simpática? Precisa?

Vivi foi tomada por uma raiva tão grande que sentiu as mãos começarem a tremer. Não ia brigar com uma pessoa que estava caindo de bêbada, mas os olhos verdes fuzilaram Marcela ao dizer:

- Quer saber? Vou pra casa. Coisa que, aliás, já devia ter feito há muito tempo.

Se afastou tentando encontrar um táxi, dando as costas para uma Marcela absolutamente perplexa.

Capítulo 18: A Difícil Arte de Amar...

Marcela demorou apenas alguns segundos para correr atrás de Vivi. Pedindo desculpas, implorando para ela ficar, dizendo coisas carinhosas e apaixonadas num tom de voz completamente diferente... Abraçando Vivi, a beijando no rosto, no pescoço, nos lábios, de um jeito tão arrependido e meigo que Vivi não conseguiu fazer outra coisa além de... ceder. 

 

Vivi estacionou na garagem com Marcela completamente apagada no banco ao lado dela. André e Guto tinham ficado em Copa. Ainda iam beber mais...

Vivi passou a mão nos cabelos de Marcela, acariciou o rosto dela, a beijou nos lábios, e ela... nem se moveu.

Suspirou, um pouco exasperada. Estava exausta. E mesmo que não estivesse, não tinha condições de carregar Marcela. A sacudiu, a chamou pelo nome, primeiro delicadamente e gradualmente com mais e mais força.

Depois de resmungar muito, Marcela abriu os olhos devagar. Viu um brilho verde bastante irritado. Tentou se desculpar, mas a boca estava seca demais.

Vivi passou o braço de Marcela nos ombros, a abraçou pela cintura e caminharam com dificuldade até o apartamento dela. Encostou Marcela na parede ao lado da porta para poder encontrar a chave.

Marcela escorregou parede abaixo e se sentou no chão. Quando Vivi finalmente abriu a porta, entrou engatinhando. Vivi sacudiu a cabeça, achando simplesmente lamentável.

Entrou, trancou a porta e viu que Marcela tinha conseguido se sentar em um dos sofás. Suspirou fundo, e sentou ao lado dela.

Na mesma hora Marcela a agarrou. Puxou Vivi e colou a boca na dela. Mas naquele momento, Vivi só conseguia sentir o cheiro e o gosto abomináveis de cigarro e bebida...

Um misto de decepção e tristeza tomou conta dela. Se afastou de Marcela e suspirou alto, quase com desespero.

Marcela balbuciou, com uma voz meio enrolada:

- Preciso muito de Coca-cola...

Vivi olhou o celular: já eram quase onze da manhã...

Pegou Coca-cola para Marcela, que bebeu como se tivesse atravessado o deserto.

Depois de mais de três copos de coca, Marcela pareceu bem melhor. Pareceu, porque assim que colocou o copo na pia, Vivi a viu correr para o banheiro.

Foi atrás dela e chegou bem a tempo de afastar os cabelos e segurar a testa dela enquanto Marcela vomitava. Sentada no chão, abraçada ao vaso, num estado que dava pena.

Quando ela terminou, Vivi falou carinhosamente:

- Espera um pouquinho, tá?

Marcela concordou com a cabeça e ficou sentada no chão, de olhos fechados, encostada na parede, até Vivi voltar com outro copo de Coca para ela. Marcela bebeu aos poucos, com Vivi pacientemente ajoelhada na frente dela:

- Melhorou?

Marcela olhou para a ruiva maravilhosa, toda preocupada e cheia de cuidados com ela e... começou a chorar:

- Desculpa, Vivi... Desculpa...

Era só o que conseguia repetir enquanto soluçava.

Vivi estava totalmente sem paciência:

- Marcela, agora chega! Já tô de saco cheio!

Falou de um jeito tão irritado, que Marcela parou de chorar imediatamente.

Então Vivi a ajudou a levantar. Fez Marcela escovar os dentes, tirar a roupa e entrar debaixo do chuveiro. Com medo de que ela caísse, Vivi acabou entrando no chuveiro também.

Marcela olhou para a ruiva despida atrás dela com desejo, mas Vivi olhou de volta com uma cara tão feia que nem teve coragem de encostar nela. Sabia que Vivi estava muito, mas muito chateada com ela porque... nunca tinha recebido das esmeraldas um olhar frio daquele jeito. 

Vivi não estava apenas chateada. Estava furiosa com Marcela. Tinha esperado a semana inteira para finalmente poderem dormir juntas. Ao invés disso, ela tinha preferido virar a noite bebendo e se drogando com os amigos. E para fechar com chave de ouro, tinha agredido um garçom, ofendido Vivi e ficado naquele estado execrável dando a maior trabalheira.

Por isso se recusava terminantemente a tocar ou ser tocada por ela! Apesar de... Marcela estar absolutamente linda despida e molhada debaixo daquele chuveiro...

A atração irresistível que sentia por Marcela fez com que a raiva de Vivi aumentasse. Dessa vez de si mesma, por estar quase cedendo novamente...

Entregou o sabonete para ela, mas Marcela ficou encostada na parede de olhos fechados, parecendo muito bêbada.

Na verdade, Marcela já não estava tão mal assim. Pelo contrário. Estava bem o bastante para não querer passar o sabonete sozinha... Por isso se fez de incapaz, não deixando saída para Vivi.

A estratégia deu certo, porque foi humanamente impossível para Vivi resistir à sensação do contato da mão ensaboando, deslizando sobre a pele quente de  Marcela que a cada toque se arrepiava inteira....

Vivi deixou o sabonete de lado, encostou Marcela na parede de azulejos e pressionou o corpo contra o dela com uma súbita urgência. A espuma fazia os corpos escorregarem, faiscarem, instaurando um verdadeiro incêndio.

Beijou Marcela  saboreando, mordendo, devorando a boca que se oferecia e correspondia com o mesmo ímpeto. Enroscou a língua na dela, a mão encontrando os seios, deslizando por entre as pernas, a tocando, penetrando, fazendo Marcela gemer.

Entregue. Intenso. Envolvente. Foi o ardor daquele momento. Com Marcela se entregando e dizendo palavras apaixonadas entre milhares de beijos.

Vivi se esfregou com mais força contra a coxa de Marcela. Ouviu ela dizer:

- Ai, linda... Delícia, Vivi...

A mão de Marcela desceu e substituiu a coxa entre as pernas dela. Vivi gemeu, e se deixou levar pelas ondas de prazer imensas. Sem perceber como, de repente, estavam debaixo do chuveiro. A água não conseguindo debelar o fogo que as consumia. Ambas ofegando, sufocando e tremulando no mesmo ritmo.

- Minha ruiva gostosa... goza comigo, vem...

Parecia que o coração de Vivi não poderia bater mais rápido, mas o fez. Sussurrou no ouvido dela, com uma emoção intensa:

- Te amo, Marcela...

Marcela beijou Vivi nos lábios quase com desespero. Aprofundou os  movimentos, sentindo Vivi estremecer. E a acompanhou em sussurros e gemidos sem fim, o corpo sendo sacudido por espasmos e uma quase perda dos sentidos quando o gozo veio...

Quando voltou a abrir os olhos, estava encostada na parede novamente. Os olhos verdes cintilavam para ela, absolutamente felizes.

Marcela retribui com um sorriso meigo, apaixonado, ardente. A apertou com força, colou os lábios nos dela docemente. Então fitou as esmeraldas profundamente, dizendo:

- Eu amo você...

Os olhos brilhavam como duas estrelas verdes quando Vivi voltou a mergulhar a boca na de Marcela, arrancando fagulhas novamente.

 

Depois, muito depois, quando Vivi finalmente conseguiu sair do chuveiro, se enxugou e enrolou na toalha. Marcela fez o mesmo. Entre palavras sussurradas, carinhos e beijos.

Mortas de cansaço, mas... profundamente satisfeitas. Seguiram de mãos dadas pelo corredor que ligava o banheiro ao quarto de Marcela.

Quando cruzou a porta, Vivi ficou em estado de choque. Levou um susto enorme, porque... parecia que tinham entrado no quarto errado.

Estava tudo arrumado. Nenhuma roupa, sapato ou papel espalhado. Os CDs e DVDs todos guardados, impecáveis. As paredes sem os pôsteres, todas brancas, com exceção da em frente à cama, onde ficava a tv. Essa estava com uma textura linda e... verde.

Marcela se justificou, meio sem jeito:

- Eu queria... fazer uma surpresa... arrumar tudo porque... quando você vinha aqui sempre achava que... o meu quarto não era... bom o bastante... pra você...

Vivi entendeu. Perfeitamente. A beijou nos lábios apaixonadamente. E achou a insegurança de Marcela fofa:

- O que você achou?

Vivi olhou em volta, pensativa, antes de responder:

- Eu adorei, mas...

Marcela ficou incrivelmente tensa:

- Mas o que?

Vivi sorriu. Acariciou o rosto dela e a beijou de leve nos lábios antes de dizer:

- Verde?

Marcela sorriu, segurou Vivi pela cintura e a puxou, grudando o corpo no dela:

- Minha cor preferida desde que conheci você...

Beijou Vivi de forma absolutamente ardente. Vivi correspondeu, mas quando  Marcela a livrou da toalha, protestou:

- Ai, Marcela, para... Tô morta de sono, vai...

Marcela riu, e não insistiu. Deu um último beijo em Vivi antes de desfazer a cama. Vivi praticamente se atirou sobre o colchão, mais do que cansada -  exausta.

Marcela se livrou da própria toalha, olhou para a ruiva deitada nua - absurdamente linda - e suspirou, achando dormir um desperdício, mas... Assim que se deitou e abraçou Vivi, sentiu o efeito da noite em claro. Os olhos pesaram, o corpo relaxou, e ela adormeceu quase imediatamente.

 

Quando Marcela acordou, Vivi não estava no quarto. Sentou na cama com uma certa dificuldade. A cabeça rodava, doía e a boca estava absolutamente seca.

Encontrou Vivi fazendo Gongyo na sala. Assim que ela terminou reclamou:

- Poxa, me deixou lá sozinha...

Vivi a puxou pela cintura, a beijou de leve nos lábios e disse animada:

- Em primeiro lugar bom dia, senhorita mal humorada! Ou melhor: bom fim de tarde, né?

Marcela colocou as mãos na cabeça e gemeu baixinho:

 - Ai, Vivi, por favor, fala mais baixo... Minha cabeça tá explodindo...

Como resposta recebeu um implicante brilho verde, com um fundinho de reprovação:

- Por que será, né? Do nada...

Vivi não teve como deixar de sorrir da cara sofrida de Marcela � uma graça. Ainda se surpreendia com essa dualidade dela. Marcela conseguia ir da extrema meiguice à uma profunda agressividade em questão de segundos... Era completamente imprevisível e incontrolável. Continuava não fazendo o menor sentido estar apaixonada por ela, mas... desde quando isso tinha a ver com razão? Amava Marcela. Isso era inquestionável. Ponto final.

A seguiu até a cozinha. Marcela tomou dois comprimidos:

- Engov e aspirina. Quer?

Vivi não tinha bebido nada, estava ótima, não precisava de nenhum daqueles remédios. Recusou gentilmente.

Ficou observando boquiaberta Marcela pegar uma lata de pêssego em calda na geladeira, encher metade de um copo só com o líquido que tinha ali dentro e beber com uma cara indefinível. A expressão perplexa de Vivi fez Marcela explicar:

- É ótimo pra curar ressaca... glicose na veia...

 

Depois que elas almoçaram, ou melhor, jantaram � Vivi já nem sabia mais como classificar � Marcela levou Vivi de volta para o quarto. Fez a ruiva se deitar na cama e se deitou em cima dela, aos beijos.

Vivi correspondeu, adorando. Aquela sim, era a face de Marcela que a encantava, enfeitiçava, seduzia... Suave, doce, apaixonada, meiga...

Ficaram ali se curtindo por um longo tempo. As mãos se provocando por baixo das roupas sem pressa. Marcela parou de beijar Vivi, pegou o controle do DVD e ligou o som. Aproximou a boca do ouvido dela, e acompanhando a música cantando, fazendo Vivi se arrepiar inteira:

 

�Honey you are a rock                       (Querida, você é a rocha)
Upon which I stand
                            (onde eu me apóio)
And I come here to talk
                     (eu vim aqui pra conversar)
I hope you understand
                       (espero que você entenda)
The green eyes
                                   (Os olhos verdes)
Yeah, the spotlight
                             (sim, os refletores de luz)
Shines upon you
                                (brilham sobre você)
How could anybody deny you?
         (como alguém poderia negar você?)
I came here with a load
                      (eu vim com um fardo)
And it feels so much lighter
               (e ele parece muito mais leve)
Now I've met you
                               (agora que conheci você)
And honey you should know
             (e querida, você precisa saber)
That I could never go on
                    (que eu nunca poderia continuar)
Without you
                                       (sem você)
Green eyes
                                         (olhos verdes)
Honey you are the sea
                        (querida, você é o mar)
Upon which I float
                             (onde eu flutuo)
And I came here to talk
                      (eu vim aqui pra conversar)
I think you should know�
                   (acho que você deveria saber)
(�Green Eyes� � Coldplay -
  Berrymark/Buckland/Champion/Marti)

 

Nesse momento, Vivi não deixou mais Marcela cantar. Segurou a nuca dela e a beijou no mesmo �crescendo� da música. Enfiando a língua na boca de Marcela e a apertando com tanta paixão que a fez gemer.

As mãos de Marcela se tornaram urgentes. Passearam pela barriga de Vivi e subiram para os seios.

O gemido de Vivi foi abafado pela boca de Marcela. Difícil respirar com aquela intensidade de beijo... As bocas se separaram por instantes apenas. Que Vivi aproveitou para se livrar da camiseta de Marcela, que fez o mesmo com o vestido dela.

Voltaram a se beijar da mesma forma ardente. As mãos de Vivi encontraram,  acariciaram, saborearam os seios da namorada, enquanto as de Marcela desceram apressadas pelas coxas, entre as pernas, por cima da calcinha de Vivi, fazendo a ruiva estremecer.

Os dedos afastaram a peça íntima e a tocaram com uma perícia enlouquecedora. Vivi nem percebeu que arranhou as costas de Marcela, nem mesmo quando ela gemeu. Passou os braços ao redor do pescoço dela, ergueu um pouco a perna para facilitar o contato do sexo molhado que se movimentava contra ela, e se entregou às carícias de Marcela completamente.

O contato dos corpos, das peles quentes seriam o bastante para Marcela gozar facilmente, mas esperou. Penetrou Vivi, se deliciou com o som de gatinha ronronando que ela soltou e quase não agüentou ao sentir o sexo dela a apertando, acompanhando o ritmo dos dedos.

Acelerou e aprofundou os movimentos dentro dela. Vivi murmurou com uma voz deliciosamente ofegante e trêmula:

- Ai, Marcela... assim eu vou gozar...    

Que tornou impossível para Marcela continuar se segurando. Sussurrou no ouvido dela, já começando a estremecer:

- Goza pra mim, amor... Vou gozar também...

O corpo de Marcela se contraiu. O grito abafado contra os lábios de Vivi contendo uma única palavra: o nome da ruiva de olhos verdes - que se entregou às mesmas ondas vertiginosas, a puxando contra ela sem conseguir mais diferenciar onde ela terminava e onde começava a pele de Marcela...

Ficaram um tempo coladas, Marcela totalmente relaxada sobre Vivi, as duas se recuperando, as pulsações e respirações retornando ao normal lentamente.

A outra música tinha acabado. Marcela não sabia há quanto tempo. Ficou ali deitada, curtindo o que estava tocando naquele momento: �In My Place�(Coldplay).

Mas apenas por um breve momento. Porque Vivi a virou, trocando de lugar com ela. Suspirou quando as pernas de Vivi se enfiaram entre as dela, as abrindo.

Vivi desceu a boca pelo pescoço dela rapidamente, morrendo de vontade de provar, devorar Marcela inteira. Parou para dar um pouco de atenção aos seios, muito brevemente. Continuou descendo, a língua e os lábios incendiando tudo que tocavam pelo caminho até mergulhar a boca  entre as pernas dela.

Marcela derreteu, se contorceu e rendeu sob a regência dela.     

Vivi se deliciou com os gemidos que arrancou passando a língua vagarosamente no sexo dela, e depois a penetrando, invadindo, de forma voraz, faminta.

E então Marcela a puxou com força pelos cabelos, obrigando Vivi a parar o que estava fazendo e olhar para ela, quando pediu:

- Vira pra cá... Quero você na minha boca...

Vivi obedeceu. Marcela tirou a calcinha dela lentamente, controlando a urgência, querendo aproveitar cada momento.

Acariciou Vivi com os dedos, e só depois encostou a língua, provocando alguns primeiros gemidos. A segurou pelas nádegas e a puxou até a boca conseguir saborear o sexo dela por inteiro.

Vivi estremeceu, e tocou Marcela do mesmo jeito. Sem conseguir conter os arrepios que a percorriam incontroláveis, intermináveis. Experimentando algo que nunca tinha sentido.

Quando os dedos de Marcela a invadiram, sem que ela interrompesse o contato da boca e da língua, Vivi a imitou, mergulhando numa sensação que era... absolutamente indescritível.

Um prazer além de todos os limites a atingiu. Estrondosa e violentamente, como se uma corrente elétrica envolvesse as duas.

Sentiu Marcela debaixo dela gemendo, estremecendo - do jeito que ela mesma fazia � o corpo inteiro se tencionando, depois se libertando num último e derradeiro gemido � gritado, enfático de alívio.

Se deixou cair em cima de Marcela, porque os músculos já não respondiam.

Marcela sorriu, de olhos fechados ainda. Passou a mão pelos cabelos, abriu os olhos e sorriu mais ainda. Se moveu de leve, e Vivi saiu de cima dela, sem que Marcela tivesse tempo de impedir.

Ficaram deitadas lado a lado. Marcela fechou os olhos, se sentindo como se todos os seus desejos mais incríveis tivessem sido atendidos. A música que estava tocando? �Yellow�(Coldplay). Marcela sorriu e... procurou, encontrou e segurou a mão de Vivi.

A ruiva estava absolutamente surpreendida. Quando pensava que melhor do que estava seria impossível, então aquilo... Abriu um enorme sorriso. Os olhos relampejando quando se virou para Marcela e soltou sem querer:

- Incrível...

Marcela também se virou � deixando as duas frente a frente � e perguntou:

- O que é incrível?

Vivi tinha pensado alto, e por um momento, ficou meio sem saber o que dizer. Pensou em várias respostas, mas preferiu a verdadeira:

- O que eu sinto quando tô com você...

Deixando Marcela sem ter o que dizer, mas... sabendo exatamente o que fazer. Com os olhos negros reluzindo, voltou a se aventurar nos lábios, nos braços,  no prazer fantástico de ter e ser de Vivi.

 

No domingo à tarde, foram encontrar Carlinha no Sindicato do Chopp do Leme. Assim que se sentaram na mesa, Carlinha acompanhou algo ou alguém com o olhar. Depois quase gritou:

- Nossa! Meninas, vocês tem que ver isso!

Marcela e Vivi seguiram a direção do olhar de Carlinha, e viram... um moreno musculoso, fazendo um estilo �estou levantando a camisa, como quem não quer nada, para exibir meu abdômen perfeito e totalmente definido�.

Quando as duas voltaram a olhar para Carlinha, na mesma hora ela entendeu que tinha dado um fora, porque... Marcela estava rindo, e olhando para ela como se fosse louca. E Vivi... bem, Vivi a fuzilou com os olhos.

Tentou consertar, mas como sempre, a emenda ficou pior do que o soneto:

- Ai, desculpa, gente... Esqueci que vocês não se interessam... Quer dizer: não gostam, né? Ah, vocês entenderam...

Marcela riu alto. Quanto mais conhecia Carlinha, mais a achava engraçada. Doidinha, doidinha...

E realmente, a conversa continuou divertidíssima, quase hilária. Até o momento em que o tal moreno musculoso se aproximou da mesa e parou em frente a Vivi. Obviamente interessado nela, porque não desgrudou os olhos da ruiva enquanto falou:

- Posso me sentar com vocês?

Vivi respondeu rapidamente. Seca, fria, cortante, sem nem olhar para ele:

- Não é uma boa idéia...

- Tudo bem... Desculpa então...

E saiu todo irritadinho. Não se passaram nem 15 minutos e um outro cara apareceu. Quase babando por Vivi. Esse era todo cheio de graça:

- Gata, desculpe, mas preciso te conhecer...

Vivi cortou o sujeito. Do mesmo jeito que tinha feito com o primeiro. Mas esse insistiu:

- Não aceito não como resposta...

E já ia puxando uma cadeira, quando Carlinha disse, os olhos cheios de lágrimas:

- Olha só amigo... A minha mãe acabou de morrer... Quero conversar com minhas amigas em paz, pode ser?

O cara ficou todo sem graça. Pediu mil desculpas e saiu quase correndo.

Vivi e Carlinha riram. Era um esquema que usavam muito. Sempre funcionava. E evitava ficarem tendo que bater boca com os caras que não aceitavam serem dispensados. Carlinha adorava fazer aquela cena de sofredora. Às vezes até chorava.

Estavam acostumadas, porque normalmente Vivi era muito paquerada. Isso sempre fazia o ex-namorado se estressar com ela.

Não foi diferente com Marcela. Passou o resto da noite de cara amarrada. Não adiantou Vivi quase sentar no colo dela de tão perto, nem ficar de mãos dadas, a acariciando no rosto, se encostando e tocando nela o tempo inteiro. Nada a fez voltar a ser a mesma.

Marcela já era naturalmente ciumenta. E nunca tinha namorado ninguém que parecesse tão hetero. Olhando para Vivi ninguém diria que ela era entendida. Difícil agüentar aquele bando de idiotas dando em cima da namorada bem na cara dela...

Mas o que deixava Marcela mais indignada era a certeza de que se fosse um homem sentado no lugar dela na mesa, nenhum daqueles caras teria coragem de ser tão saidinho.

Resolveu cheirar um pouco de special k para espairecer a cabeça. Quando se levantou, Vivi a olhou, tensa. Explicou:

- Vou ao banheiro...

Vivi se levantou também, com um sorriso sugestivo:

- Vou com você...

E estranhou quando Marcela recusou, dizendo que preferia ir sozinha. Carlinha comentou:

- Que carma, hein, amiga? Em matéria de ciúmes, o Edu perde feio pra Marcela...

Vivi suspirou, passou as mãos no rosto e disse:

- Ai, nem me fale... Acho melhor ir embora antes que ela faça alguma besteira...

A expressão de Carlinha deixava claro que ela não estava acreditando no que tinha ouvido:

- Como assim, Vivi? Mais cedo ou mais tarde ela vai ter que se acostumar que a namorada dela é linda e que as pessoas vão mesmo dar em cima.

Nesse exato momento, Marcela voltou do banheiro. Parecendo muito mais solta e feliz. O jeito que ela fungava e coçava o nariz imediatamente fez Vivi perceber o porque. E ficar furiosa:

- Não acredito que você me dispensou pra cheirar essa porcaria!

Falou o mais baixo que conseguiu, mas foi alto o bastante para Carlinha ouvir. A amiga tentou disfarçar, mas ficou nitidamente sem graça.

Pra piorar a situação, um cara que obviamente se achava o Dom Juan carioca, pegou a mão de Vivi e saiu dizendo:

- Acredita em amor à primeira vista? Eu também não acreditava antes de ver você...

Não conseguiu dizer mais nada, porque Marcela levantou, empurrou o cara e começou a bater boca com ele. Se não fosse o pessoal do �deixa disso� que sempre aparece, afastando o rapaz inconveniente, e se Vivi não tivesse segurado Marcela, provavelmente teria sido muito, mas muito pior mesmo... Se Marcela ia apanhar ou bater, Vivi não sabia nem queria saber. Nenhum dos dois era preferível, porque... detestava qualquer forma de violência.

Não sabia onde enfiar a cara enquanto fechavam a conta. Carlinha também estava absolutamente calada e sem jeito. E Marcela... bem, Marcela continuava alterada ao extremo.

Assim que chegaram na calçada, Carlinha se despediu, dizendo baixinho no ouvido de Vivi:

- Boa sorte, amiga... Tomara que vocês se entendam...

Ao que Vivi respondeu, irritadíssima:

- Sinceramente? Vai ser difícil.

Quando se virou para Marcela novamente, ela tinha atravessado as pistas e estava no calçadão na beira da praia.

Vivi não suspirou, bufou. Mas foi atrás dela.

Marcela a fulminou com os olhos, abriu a boca, mas Vivi nem quis saber o que ela ia dizer:

- Se eu não te amasse tanto, nunca mais olhava pra você!

Mas Marcela nem percebeu o verdadeiro sentido do que Vivi falou. A raiva a deixava cega:

- Se você me amasse não ficava dando mole pra todos os caras que aparecessem!

O riso de Vivi foi um misto de nervoso e indignação:

- Dando mole? Não, repete, porque acho que não ouvi direito...

Marcela esfregou as mãos na calça, mudou o peso de uma perna para outra... Não conseguia parar quieta. Rodou em torno de si mesma, com a mão em cima da cabeça e então, finalmente respondeu:

- É isso mesmo que você ouviu! Os caras não iam chegar junto do nada, você tava dando mole sim!

Vivi a olhou profundamente. A tristeza deixando as esmeraldas sem brilho:

- É isso que você pensa?

Não conseguiu estabelecer contato com os olhos negros. Eles pareciam voltados para dentro:

- É.

Doeu. Tanto que por alguns momentos, Vivi ficou com a respiração suspensa. Como se tivesse levado um soco no estômago. Mas não deixou transparecer:

- Então vamos terminar aqui mesmo.

Marcela ficou com as mãos nos bolsos da calça, olhando para o chão ao dizer:

- Tudo bem.

Impossível descrever com palavras o que Vivi sentiu naquele momento. Milhares de emoções desconexas ao mesmo tempo. Decepção, mágoa, raiva, rejeição, tristeza, perda...

Se afastou com os olhos verdes embaçados pelas lágrimas e um único pensamento: Marcela não era o tipo de pessoa que ela queria, com certeza.

 

 

Capítulo 19: Uma porta se fecha e algumas janelas se abrem...

André abriu a porta usando uma calça jeans e uma camiseta velhíssimas, rasgadas e cheias de tinta - que pareciam absolutamente confort&aaccute;veis. Os olhos vermelhos, pequenininhos. Mas com o sorriso receptivo e acolhedor que Marcela buscava ao ligar para ele assim que Vivi foi embora:

- Ô, minha linda... Tá precisando de um abraço, né?

Estreitou Marcela nos braços carinhosamente, apoiando o rosto dela no ombro como já tinha feito tantas e tantas vezes.

André era o único amigo de verdade que Marcela tinha, em quem confiava completamente, que sempre estava presente, seu porto seguro nas horas mais difíceis e críticas.

Tirou os sapatos, porque a mãe de André só admitia que entrassem descalços no apartamento. Não que fosse um modelo de limpeza ou algo do tipo, mas... por causa da energia � pelo menos era o que ela dizia.

Moravam a mãe, André e o irmão mais novo ali em Ipanema. O pai de André, depois de se separar dez anos atrás,  tinha praticamente sumido. A mãe de André � que Marcela não conseguia deixar de chamar de tia � era cenógrafa e artista plástica. A casa era cheia de quadros, esculturas, e até algumas instalações. Só para vocês terem noção, o sofá da sala era todo respingado de tinta, porque já tinha servido de cenário para um dos espetáculos dela. Quanto ao irmão de André... bem, Marcela nunca tinha prestado a menor atenção nele...

- E agora é hora de mais uma �andadinha feliz�...

Mesmo entre as lágrimas, Marcela sorriu. Era uma coisa que faziam desde crianças. Ela subiu em cima dos pés de André e eles foram andando juntos, se equilibrando até o quarto dele.

A tv estava ligada, passando um vídeo clip da Björk � que André simplesmente idolatrava. Em cima da cama um cinzeiro com um baseado aceso � ele estava fumando, é claro.

Marcela se atirou na cama, pegou o baseado na maior fissura e fumou, se sentindo imediatamente aliviada. André se deitou ao lado dela, deu um tapinha e devolveu o baseado para ela, olhando para a tv hipnotizado:

- Essa mulher é um tesão!

Marcela riu e implicou:

- Atrapalho? Aposto que você tava batendo uma antes de eu chegar...

André fez cara de quem não achou a menor graça:

- Isso é coisa pra uma moça falar?

E riu gostosamente da cara dela. Sabia que Marcela detestava aquela frase � pelo conteúdo e pela quantidade de vezes que já tinha sido obrigada a escutar.

- Mas e aí? Me conta...

- E aí nada. A Vivi terminou comigo. Ponto.

Tentou parecer indiferente, mas os olhos se encheram de lágrimas. André  passou o baseado para Marcela, dizendo:

- Já? Uma semana de namoro... Dessa vez você se superou... Bateu todos os  records de relacionamento relâmpago...

Marcela deu mais um tapa na ponta que sobrou, depois passou de volta para ele. Enxugou as lágrimas com as mãos, suspirou fundo, e disse:

- Ah, cala a boca, Dé... Não tá vendo que eu tô mal?

Ele fumou até a ponta apagar, colocou o resto no cinzeiro, e respondeu:

- Como se eu não te conhecesse... Você adora sofrer... Esquece essa menina, Marcela. Vocês duas não tem nada a ver. Ela é caretinha demais pra você. Porque não liga pra Gisele?

Isso era uma coisa que Marcela nem cogitava:

- Nesse momento, meu amigo, o que eu quero das mulheres é distância...

- Se quiser experimentar outras coisas, tô à sua inteira disposição...

Disse pegando a mão dela e colocando num ponto estratégico da calça jeans dele. Marcela tirou a mão imediatamente:

- Eca! Que nojo!

Mas André insistiu, rindo de Marcela:

- Como eu sempre te digo: você não sabe, nunca provou...

Ela fez a maior cara de asco do mundo:

- Ai, para, vou vomitar!

Ele a puxou pela cintura, fazendo Marcela ficar de lado, virada para ele, e aproximou a boca da dela:

- Você precisa é de um homem pra chamar de seu...

Marcela apertou a bochecha dele, dizendo:

- Tão brega, Dé...

André roçou os lábios na orelha dela, antes de sussurrar baixinho:

- O homem certo, que te coma direito.

Marcela riu alto. Empurrou André debochadamente ao falar:

- Vou arrumar um homem pra comer você! Bicha enrustida!

E voltou a deitar de costas na cama sem nem reparar que por trás da brincadeira, André tinha um brilho de desejo oculto no olhar.

 

Vivi entrou em casa, fez daimoku sansho, abriu o oratório e começou a recitar o NAM MYOHO RENGUE KYO. No meio das lágrimas. Os soluços de vez em quando a obrigando a parar. Por instantes apenas. Estava determinada a se desafiar e superar.

Seu Francisco e Dona Lúcia, que estavam na outra sala � de onde podiam escutar Vivi perfeitamente � se entreolharam.

Depois de algum tempo, quando ouviram Vivi bater o sino e fazer daimoku sansho para encerrar, dona Lúcia se levantou dizendo:

- Deixa que eu vou lá.

Vivi não estava mais chorando. O sofrimento tinha aliviado e estava bem mais calma. Mas foi só olhar para a expressão preocupada da mãe que as lágrimas voltaram. Dona Lúcia a abraçou, sem perguntar nada. Esperou ela se acalmar e falar:

- A Marcela e eu... brigamos... eu e ela... nós... Ai, mamãe... ela era minha namorada...

Dona Lúcia continuou calada. Vivi continuou:

- Eu... eu ia te contar... queria... tava esperando ser algo mais... mais certo... mais sério, sei lá... mas nem deu tempo...

Os soluços aumentaram. Dona Lúcia continuou acariciando os cabelos da filha durante um tempo. Depois segurou o rosto dela entre as mãos, a beijou na testa e fez Vivi olhar para ela:

- Eu já sabia, meu amor. Seu pai e sua irmã também sabem. Távamos só esperando você falar...

Vivi gaguejou, entre os soluços:

- Sabiam? Como?

Dona Lúcia sorriu com o espanto da filha:

- Impossível não perceber... Era só olhar pra vocês... 

Os soluços aumentaram novamente. Dona Lúcia perguntou:

- Filha, se você gosta tanto dela, porque não tenta conversar?

Vivi demorou um pouco para conseguir falar. Com o nariz entupido de tanto chorar:

- Porque a Marcela é muito... tem muito...

A mãe completou de uma forma muito serena:

- Sofrimento dentro dela. Nada que ela não possa transformar.

A mãe estava certa. Certíssima. Exatamente de pessoas como Marcela saíam os maiores valores humanos, porque... Pra se superar obstáculos é necessário se tornar maior do que eles. Logo, quanto maior o obstáculo, maior o tamanho que a pessoa atinge, não é mesmo?

Era só Marcela buscar o ilimitado potencial que existia � aparentemente trancado a sete chaves � dentro dela.

- Mas pra isso a Marcela precisa querer...

Dona Lúcia abriu um grande sorriso:

- Ah, mas ela quer... É visível... Principalmente quando ela olha pra você...

 

Marcela saiu da casa do André o mais tarde possível. Tentou se distrair e esquecer Vivi, sem conseguir. Impossível parar de pensar nos magníficos olhos verdes. Parou no posto e comprou uma caixa de cerveja.

Assim que chegou em casa foi para o quarto. Ficou bebendo e tocando violão. A mão coçando para pegar o telefone e ligar para ela. Então lembrou que provavelmente, àquela hora Vivi já devia estar dormindo.

Ligou o CD player. A melodia preencheu o quarto.

Acendeu um baseado, se deitou na cama com o cinzeiro em cima da barriga e os olhos fixos no teto, curtindo o som.

Cantando junto com a música, fechando os olhos, soltando a voz e afundando nos próprios sentimentos � daquele jeito que os bêbados sempre fazem - quando o refrão entrava:

 

�Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be

Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be
Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be

(Fica comigo - ninguém sabe de que jeito que vai ser)
Stand By Me - Nobody knows, yeah, Nobody knows the way it's gonna be

(Fica comigo - ninguém sabe, é, ninguém sabe de que jeito que vai ser)

(�Stand By Me� � Oasis - Noel Gallagher)

 

No final, voltou a faixa. Ficou repetindo e repetindo a mesma música inúmeras vezes, as lágrimas escorrendo, o choro aumentando até cair num pranto de soluçar.

Varou a madrugada assim. E só quando o dia amanheceu, conseguiu fechar os olhos e adormecer, finalmente vencida pelo cansaço.

 

Marcela não foi na aula. Vivi ficou preocupada, pensou em telefonar para ela, mas acabou achando melhor não.

Da faculdade foi direto para o Centro da cidade de Metrô. Tinha conseguido um estágio num escritório particular.

Almoçou qualquer coisa. Estava sem fome, desanimada. O lado bom é que isso a impedia de ficar nervosa.

Para sorte e alívio dela, o advogado, doutor Machado, a deixou nas mãos da outra estagiária, Ana Cláudia �  Vivi já conhecia a morena de cabelos escorridos do 6º período � que explicou tudo de forma muito paciente e simpática. Terminou dizendo:

- Na verdade somos office-boys de luxo... Nada de mais...

E deu um sorriso para Vivi que seria capaz de derrubar qualquer um.

Passaram a tarde entre a justiça federal, justiça do trabalho, fórum... Olhando o andamento dos processos e dando entrada em documentos.

Ana Cláudia era divertida, animada, inteligente e extremamente gentil. Vivi nem viu passar o tempo. De volta ao escritório, a morena deu umas últimas dicas e depois sugeriu:

- Que tal um chopinho? Pra comemorar seu primeiro dia...

Vivi imediatamente concordou. Foram para a Cinelândia e se sentaram no �Amarelinho�.

Quando Ana Cláudia disse �um chopinho�, Vivi tinha pensado que era força de expressão, mas... realmente, quando acabou a primeira tulipa, a morena pediu um suco. A ruiva riu sem nem perceber.

- Qual é a graça? Posso saber?

Vivi ficou vermelha. Sem saber direito se por estar fazendo papel de boba ou se pelo tom íntimo, insinuante, quase sugestivo com que a morena fez a pergunta.

- Nada não...

Ana Cláudia sorriu. E falou com um brilho nos olhos que deixou Vivi na dúvida � talvez fosse imaginação dela - porque parecia estranhamente provocante:

- Ah, conta pra mim... Em troca te conto um segredo... Pode ser? 

Vivi disse, ainda mais sem jeito, se achando a pessoa mais imbecil do mundo inteiro:

- Não é nada. Só achei engraçado você falar um chopinho e só tomar um chope mesmo...

A morena riu gostosamente. Tomou um pouco de suco, abrindo um sorriso quando os olhos de Vivi acompanharam o movimento dos lábios dela no canudo inconscientemente. Ana Cláudia soltou de repente:

- Aquela menina roqueira é sua namorada?

Vivi engasgou com a Coca-cola que estava bebendo. Além de cuspir, o líquido gasoso saiu pelo nariz de Vivi, fazendo doer até o cérebro.

Ana Cláudia pegou um guardanapo, e ajudou a ruiva a se limpar e a enxugar a mesa, dizendo com um olhar sincero e meigo:

- Desculpa... Não queria ser inconveniente... Não pensei que fosse reagir desse jeito...

O olhar que Vivi lançou para a morena foi desconfiado, na defensiva, muito tenso:

- Por que você quer saber?

Já tinha escutado gracinhas demais na faculdade para não reagir daquele jeito. A própria Lu, antes uma das melhores amigas de Vivi, nem falava mais com  ela, virava a cara quando se cruzavam no corredor desde que Vivi tinha começado a namorar Marcela...

Ana Cláudia se defendeu:

- Ei... Não é nada disso que você tá pensando... Não mesmo...

E como Vivi não se convenceu, falou baixinho, quase um sussurro:

- Vou te contar o meu segredo: acho você linda quando fica vermelha...

Nossa, nem preciso dizer qual foi o efeito. Vivi ficou quase roxa de tão vermelha. Deixando Ana Cláudia evidentemente satisfeita.

Vivi não agüentou:

- Você também é...

Não conseguiu completar, porque a morena afirmou:

- Sou. Ainda não tinha percebido?

A resposta de Vivi foi balançar a cabeça negativamente, perplexa. Ana Cláudia estava se divertindo:

- Você acha que eu não pareço?

- Nem um pouco.

Foi a resposta de Vivi. Ana Cláudia fez questão de dizer:

- Nem você. Se não tivesse visto vocês duas de mãos dadas, nunca ia saber... Mas você ainda não respondeu a minha pergunta.

- Qual?

Vivi até já tinha esquecido. Mas Ana Cláudia não:

- Ela é sua namorada?

- É... Não... Quer dizer...

A morena riu da confusão dela. Vivi acabou dizendo:

- Terminamos ontem, e eu ainda não me acostumei, acho...

- Entendi. Você acha que vão voltar.

A frase fez com que Vivi percebesse que no fundo era isso mesmo. Não acreditava que tivessem terminado de verdade.

- O que aconteceu? Terminaram por que?

Ao ver a hesitação da ruiva, Ana Cláudia completou:

- Se não quiser não precisa falar...

Mas estranhamente, Vivi estava mesmo precisando desabafar, trocar idéias com alguém que pudesse realmente entender e que fosse confiável. Naquele momento, Ana Cláudia parecia a pessoa perfeita.

Contou muito por alto, evitando detalhes que pudessem expor Marcela. Ana Cláudia ouviu sem dizer uma palavra. E depois fez um único comentário:

- Sua namorada é insegura demais.

 

Quando Marcela acordou no dia seguinte, já eram mais de duas horas da tarde. Ficou um pouco desesperada por não ter ido à faculdade. Não por causa das aulas. Por causa de Vivi. Por ter perdido a oportunidade de conversar com ela.

Foi até a cozinha, mas estava completamente sem fome. Achou melhor resolver acendendo um baseado.

Colocou uma música -  �Inside my Head� (Radiohead) � e ficou viajando na sala.

A campainha tocou. Nem percebeu que o porteiro não tinha avisado pelo interfone. Não olhou pelo olho mágico, foi abrindo direto, e dando de cara com...Gisele.

A loira nem conversou. A empurrou e entrou, batendo a porta atrás dela.

Enfiou as mãos nos cabelos de Marcela, a segurando com força, a obrigando a encostar na parede, onde a prendeu pressionando o corpo contra o dela.

A surpresa de Marcela foi tão grande que ficou totalmente sem ação.

Gisele sussurrou no ouvido dela:

- Não tô disposta a abrir mão de você, gatinha. Você é minha. Me pertence.

E colou os lábios nos de Marcela, a língua invadindo, percorrendo, explorando a boca inteira dela, possessiva. Marcela fechou os olhos e... correspondeu de forma absolutamente faminta.

 

 

Capítulo 20: Open Your Eyes...

Quando a respiração de Marcela voltou ao normal e ela abriu os olhos novamente, estava nua no sofá, com uma Gisele também despida deitada debaixo dela.

A loira tinha um brilho satisfeito nos olhos. Marcela se levantou, e sentou na beira do sofá, com as mãos no rosto.

Tinha perdido completamente a cabeça. Se deixado levar por um desejo incoerente, instintivo. Só que daquela vez, de uma forma muito pior, porque... tinha agarrado a loira quase com loucura.

Estava arrependida, porque amava Vivi de verdade. E Vivi, definitivamente, não merecia aquilo. Tudo bem que tecnicamente, elas tinham terminado. Mas mesmo assim, Marcela sentia como se a tivesse traído.

Gisele ajoelhou atrás dela, e começou a beijar e morder o ombro de Marcela de forma sedutora:

- Vem aqui, gostosa... Quero mais...

Depois que finalmente percebeu a total falta de receptividade, a loira se enfureceu:

- Que diabos deu em você?

Marcela levantou e se vestiu inteira. Se sentiu bem mais protegida, muito menos indefesa. Mas continuou sem saber direito o que fazer.

Gisele colocou o vestido, ajeitou os cabelos, e só então disse, vestindo a calcinha minúscula e transparente:

- É por causa da ruivinha?

Marcela esboçou um sim bastante sem graça. Fazendo Gisele rir à beça antes de dizer:

- Como você é bobinha... Ela nunca vai ficar sabendo...

Marcela passou a mão nos cabelos, procurando a melhor forma de se explicar. Acabou dizendo:

- Você... você não entende... não podemos mais nos ver porque... porque eu... tô apaixonada por ela.

Gisele se aproximou, passou os braços ao redor do pescoço de Marcela e falou, com um sorriso absolutamente sedutor:

- Bobagem... eu não sou ciumenta, não é verdade?

Já tinha provado isso para Marcela várias vezes. A última, e mais amarga, tinha sido a noite fatídica com as duas amigas dela. Marcela não gostava nem de lembrar.

Tirou os braços dela do pescoço, de forma bastante indelicada. Deixando Gisele muito irritada:

- Ah, que gracinha... Você não tava tão intocável alguns minutos atrás...

Sem conseguir olhar a loira nos olhos, Marcela respondeu:

- Quero ser fiel.

Gisele deu uma gargalhada estrondosa:

- Fiel? Essa é boa! Me poupe das suas besteiras, Marcela... Fiel é o cachorro ao dono... Deixa de ser hipócrita... Confessa que você adorou o gostinho da traição... Nunca te vi com tanto tesão...

- Foi um erro. Não vai acontecer de novo.

A voz de Marcela soou muito firme e decidida. Para Gisele aquilo foi a gota d�água. Começou a gritar, possessa:

- Erro? Erro? Olha aqui, garotinha: ninguém � tá me ouvindo? � ninguém diz que trepar comigo é um erro, entendeu?

Marcela ficou calada. Sem saber o que falar. Gisele continuou, com um tom bem mais ameno:

- Escuta bem o que vou te dizer: eu te conheço. Sei bem como você é. Sei bem quem você é. Nós duas sabemos que você não é flor que se cheire... Mas eu te aceito assim mesmo. E ela? Te conhece? Te aceita? Aposto o que você quiser, que de um jeito ou de outro, essa menina vai te largar, baby. Como todas fazem quando enxergam a verdadeira Marcela. Todas, menos eu. Quando isso acontecer,  eu vou estar te esperando, gatinha. De braços abertos, como sempre. Pensa bem nisso antes de dizer que ficar comigo é um erro.

A loira pegou a bolsa, e saiu batendo a porta.

E de todas as coisas que Gisele tinha falado, uma era verdadeira: ela realmente conhecia Marcela muito bem. Porque conseguiu o que queria: a deixou inquieta, lutando contra um medo gigantesco de que a loira estivesse certa.

Ficou andando de um lado para o outro na sala, com uma angústia imensa. Sem saber direito o que pensar, o que achar, o que fazer. Foi quando se lembrou do mantra de Vivi.

Sentou no sofá, juntou as mãos, fixou os olhos abertos num ponto da parede, exatamente como a ruiva tinha ensinado e começou:

- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo...

Inúmeras e repetidas vezes. Como uma música vibrando no corpo inteiro. E aos poucos a vibração pareceu mudar a respiração, atingir seus sentimentos, como se o peito se abrisse e tornasse possível limpar seu coração.

Deixou que milhares de idéias e pensamentos brotassem e passassem por sua mente e então, finalmente, com uma certeza estranha e serena, tomou uma decisão.

 

Vivi se despediu de Ana Cláudia e foi direto para o Kaikan de Botafogo, na rua Barão de Lucena. Chegou bem na hora do Gongyo. A sala estava lotada, por isso ficou de pé mesmo, perto da porta.

O celular vibrou várias vezes, mas não ia parar para atender. Quando a oração terminou, olhou o visor e viu cinco ligações não atendidas. Todas de Marcela. E uma mensagem, também dela: �Por favor, me liga. Preciso muito falar com você.�

Desceu para o segundo andar, para não atrapalhar o daimoku das pessoas. Assim que o telefone tocou, Marcela atendeu. Com uma voz muito contente:

- Oi, Vivi...

O tom de Vivi foi bem menos caloroso:

- Oi, Marcela.

As duas ficaram em silêncio. Foi Vivi quem falou primeiro:

- Você queria falar comigo?

Marcela teve que tomar coragem para dizer:

- Eu queria conversar... mas pessoalmente. Podemos nos encontrar?

- Hoje?

Vivi estava realmente surpresa. Marcela aproveitou a ruiva ter abaixado as defesas:

- Posso ir aí te buscar?

Marcela prendeu a respiração, torcendo para a resposta ser positiva. Vivi suspirou antes de responder:

- Ai, Marcela, sinceramente? Não sei.

- Não sabe o que?

Na verdade, Vivi precisava de um tempo. Para pensar antes de encontrar Marcela novamente. Por isso disse:

- Tá tarde, tô cansada, querendo ir pra casa... Além disso, amanhã tem aula.

Marcela ficou muito frustrada. E fez um enorme silêncio. Vivi encerrou:

- A gente conversa amanhã na faculdade. Beijo...

E desligou. Marcela ficou um pouco chateada, mas... não ia desistir assim tão fácil...

 

Assim que Vivi chegou em casa, a mãe disse:

- A Marcela acabou de te ligar.

Foi dona Lúcia acabar de falar para o celular de Vivi tocar. Atendeu indo para o quarto:

- Oi, Marcela.

- Oi, Vivi. Onde você tá?

Vivi descalçou os sapatos e ligou o computador. Respondeu:

- Em casa.

Marcela ficou desconfiada. Perguntou daquele jeito quase irracional de tão ciumento, que tirava Vivi do sério:

- Acabei de ligar pra sua casa e sua mãe disse que você não tava.

A voz de Vivi não foi fria, foi gélida ao responder:

- Acabei de chegar. 

Marcela ficou muito sem graça:

- Ah, tá...

Mas a paciência de Vivi já tinha se esgotado:

- O que você quer, Marcela?

Marcela nem hesitou. Foi logo dizendo:

- Ouvir sua voz...

Vivi engoliu em seco. Aquela era a Marcela que sempre a fazia ceder. Mas não daquela vez:

- Já ouviu. Satisfeita?

Marcela abriu um sorriso. Porque sentiu que tinha mexido com a ruiva. Provocou mais:

- Você sabe que não fico satisfeita fácil...

Aí Vivi não agüentou. Teve que provocar também:

- É mesmo? Sempre te achei fácil...

Ouviu Marcela rir do outro lado antes de responder:

- Se eu sou fácil, meu bem, é só pra você�

Vivi suspirou. Estava com saudade... E o que Vivi pensou, Marcela falou:

- Tô com saudade...

Sem ter como negar, a ruiva respondeu:

- Eu também.

Na mesma hora, Marcela confessou:

- Não consigo ficar sem você.

Vivi ficou muito quieta. E Marcela continuou:

- Vivi, eu te amo... Quero voltar...

Claro que Vivi adorou ouvir aquilo. E acreditou. Sabia que era verdade. Mas não tinha esquecido o que Marcela tinha dito. A razão pela qual tinham terminado:

- Quer voltar com uma pessoa que dá mole pra todo mundo?

Marcela foi sincera na resposta:

- Vivi, eu sei que extrapolei. Fiquei louca de ciúmes, falei um monte de besteiras... Mas não é o que eu penso. De verdade. Sei que você não dá mole pra ninguém. Me desculpa, vai...

Depois de uma pequena pausa, Vivi disse de uma forma muito suave:

- Acabei de te mandar minha resposta por e-mail. Amanhã a gente conversa, tá?

Depois que Vivi desligou, Marcela ficou uns dois segundos parada com o celular no ouvido antes de correr para o laptop, abrir a caixa de entrada e olhar o e-mail que tinha recebido. Vazio. Não tinha nada escrito.

Foi então que viu em anexo um arquivo de áudio. Abriu um enorme sorriso quando ouviu:

 

�All this feels strange and untrue (Tudo isto parece estranho e surreal)
And I won't waste a minute without you (E eu não quero passar um minuto sem você)
My bones ache, my skin feels cold (Meus ossos doem, minha pele está fria)
And I'm getting so tired and so old (E eu estou ficando tão cansado e tão velho)
The anger swells in my guts (A raiva me corrói por dentro)
And I won't feel these slices and cuts (E eu não vou sentir esses pedaços e cortes)
I want so much to open your eyes (Eu quero tanto abrir seus olhos)
Cause I need you to look into mine (Por que eu preciso que você olhe nos meus)
Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)
Get up, get out, get away from these liars (Levante, vá embora, saia de perto desses mentirosos)
Cause they don't get your soul or your fire (Porque eles não entendem sua alma ou seu fogo)
Take my hand, knot your fingers through mine (pegue minha mão, entrelace seus dedos nos meus)
And we'll walk from this dark room for the last time (E nós sairemos deste quarto escuro pela última vez)
Every minute from this minute now (Cada minuto a partir deste agora)
We can do what we like anywhere (Podemos fazer o que gostamos em qualquer lugar)
I want so much to open your eyes (Eu quero tanto abrir seus olhos)
Cause I need you to look into mine (Porque eu preciso que você olhe nos meus)
Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)
All this feels strange and untrue (Tudo isto parece estranho e surreal)
And I won't waste a minute without you.�
(E eu não quero passar um minuto sem você)
(�Open Your Eyes� - Snow Patrol)

 

No dia seguinte, Vivi estava sentada ao lado de Carlinha - na primeira fileira como sempre � quando Marcela entrou na sala com o violão na mão.

Parou na frente de Vivi com um sorriso imenso. Colocou o pé na cadeira vazia ao lado dela, apoiou o violão na perna e começou a tocar.

Todos os olhares se voltaram para elas. Mas os olhos negros só viam os verdes e vice-versa. Com a voz apaixonada e doce, cantou:

 

�Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio à Salvador
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria a prazo pro inferno
Tomaria banho gelado no inverno
Por você eu deixaria de beber
Por você eu ficaria rico num mês
Eu dormiria de meia pra virar burguês
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!

Por você conseguiria até ficar alegre

Pintaria todo o céu de vermelho

Teria mais herdeiros que um coelho

Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria a prazo pro inferno
Tomaria banho gelado no inverno

Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!�
(�Por Você� - Barão Vermelho - Roberto Frejat / Guto Goffi / Mauro Santa Cecília)

 

Quando Marcela terminou, escutou a voz da professora de Direito Civil atrás dela:

- Lindo, Marcela... Mas será que agora posso começar minha aula?

Todos riram. Vivi ficou muito vermelha. Marcela respondeu, com seu jeitinho peculiar de sempre, arrancando mais risos:

- Claro, fica à vontade. Faz de conta que a turma é sua. Menos essa aluna aqui, tá?

Piscou para a professora, de um jeito totalmente abusado. Depois se virou para Vivi, num tom rouco, meigo, irresistível:

- Vem comigo...

Estendeu a mão para ela, olhando fundo nos olhos de Vivi. Como sempre, os verdes cintilaram. Carlinha não conseguiu se conter:

- Nossa, isso tá parecendo cena de filme...

A ruiva juntou as coisas dela, colocou a mão na de Marcela, e saíram da sala de mãos dadas.

 

Assim que chegaram no corredor, Vivi reclamou:

- Quer me matar de vergonha?

Com um sorriso absurdamente encantador, Marcela respondeu:

- Ah, vai dizer que não gostou?

Vivi ficou muito séria. E respondeu:

- Não, não gostei.

Marcela ficou perplexa. Vivi riu. As esmeraldas cintilaram, ofuscando os olhos negros:

- Amei!...

Num ímpeto, Marcela se livrou do violão, e encostou Vivi na parede, pressionando o corpo contra o dela, dizendo:

- Senti tanto sua falta... Quase morri de saudades de você...

E colou a boca na da ruiva com paixão. Por um momento, Vivi ainda pensou que ali não era o lugar mais propício, mas os lábios, a língua, o piercing, a fantástica sensação que era estar novamente com ela, a fizeram esquecer de todo o resto.

A boca de Marcela passou para o pescoço de Vivi, as mãos já começando a tocar no corpo dela, ousadas. A ruiva olhou em volta. O corredor estava deserto, mas... era melhor não abusar da sorte:

- Marcela...

Marcela levantou a cabeça e olhou para os olhos verdes maravilhosos. Que brilharam com uma intenção nada inocente ao sugerir:

- Vamos sair daqui...

 

 

Capítulo 21: Um Novo Começo...

Foram direto para o apartamento de Marcela. Assim que entraram, Vivi arrancou a camiseta dela. A pressa era tanta que não queria perder tempo indo para o quarto. Foi empurrando Marcela para o sofá mesmo.

Marcela a surpreendeu, dizendo:

- Aqui não... Vamos lá pra dentro.

De um jeito muito, mas muito estranho mesmo. Mas não teve tempo para pensar nisso enquanto se beijavam, espalhando as roupas pelo corredor inteiro.

Já chegaram nuas no quarto. Marcela encostou Vivi na parede, e a beijou como se aqueles dois dias sem ela tivessem sido meses. Vivi correspondeu com a mesma urgência. A apertando com força, arranhando os ombros e as costas de Marcela, sussurrando palavras excitantes no ouvido dela.

Marcela puxou Vivi, a sentou em cima da escrivaninha e se enfiou entre as pernas dela. A ruiva a envolveu com os braços e as pernas, amando o contato completo que a posição permitia.

A boca de Marcela desenhou uma linha de fogo no pescoço dela, e desceu para os seios. Vivi gemeu, suspirou, mordeu a nuca de Marcela, a apertou e se esfregou contra ela com loucura.

As mãos de Marcela desceram. Para acariciar, tocar entre as pernas dela e depois a penetrar sem pressa.

Vivi se mexeu sensualmente, acompanhando o ritmo dos dedos. Gemeu alto quando Marcela intensificou os movimentos. A olhou fundo nos olhos, os verdes dardejando labaredas:

- Ai, amor... Assim não vale... Vou gozar rápido, não agüento...

O sorriso de Marcela foi de um prazer tão imenso que deu um novo sentido à palavra �satisfeita�. Sussurrou:

- Se o problema é esse, eu resolvo... Só não reclama depois...

Para desespero de Vivi, Marcela cumpriu o prometido. A provocando insuportavelmente, a levando quase ao limite e depois parando, impedindo que ela gozasse. Mostrando um domínio e habilidade absolutos sobre o corpo dela.

Vivi delirou, vibrou e se entregou completamente à falta de controle.

O poder era todo de Marcela. Que o exerceu de forma abusivamente envolvente e sedutora. Fazendo Vivi gozar nos dedos dela gemendo, gritando e adorando a forma apaixonada, possessiva e exigente de Marcela  fazer amor.

Vivi ficou um tempo agarrada à ela, sem se mexer. Marcela podia sentir o coração da ruiva palpitando descompassado de encontro ao dela. As unhas de Vivi estavam cravadas na pele dela. A boca contra o pescoço, o hálito quente fazendo Marcela se arrepiar de tempos em tempos.

Não entendeu quando do nada, Vivi começou a rir. Depois, lentamente, afrouxou o abraço e a fitou. Envolveu Marcela em ondas verdes de total felicidade. Não conseguiu guardar para si mesma:

- Ai... O que é isso que você me faz?

O sorriso de Marcela iluminou o rosto dela inteiro:

- Amo você... Demais...

Os olhos verdes refletiram o cintilar dos negros com a resposta.  Marcela completou:

- E vou continuar amando... Pelo tempo que você quiser... e deixar...

A intensidade das esmeraldas ofuscou Marcela, quando Vivi murmurou:

- Pra sempre então...

A ruiva colou a boca na dela, e voltaram a mergulhar, navegar, se aventurar  naquele turbilhão intenso, imenso que era se completarem.

 

Vivi saltou da moto na frente do escritório, no exato momento em que Ana Cláudia estava chegando. A morena se aproximou, muito sorridente. Marcela tirou o capacete para observar melhor.

A ruiva apresentou as duas, e Ana Cláudia entrou no prédio. Marcela implicou:

- Quer dizer então que você arrumou uma coleguinha lésbica...

Vivi arregalou os olhos, muito espantada:

- Como você sabe?

- Pelo jeito que ela olha, ou melhor, devora você.

A frase fez Vivi ficar perplexa, porque...o tom de voz de Marcela foi tranqüilo demais para uma pessoa tão ciumenta.

Como se acompanhasse os pensamentos da ruiva, Marcela falou:

- Fica tranqüila. Não tenho ciúmes de você com outras mulheres. Eu me garanto, meu amor...

Beijou Vivi de leve nos lábios, colocou o capacete, ligou a moto e arrancou. Deixando a ruiva aliviada e... sem entender nada.

 

A tarde de Vivi foi tranqüila. Como Ana Cláudia já tinha ensinado tudo na véspera, dividiram o que tinham para fazer e foram cada uma para um lado.

Só voltaram a se encontrar no final do expediente. Estavam esperando o elevador quando de repente, Ana Cláudia comentou:

- Que bom que vocês voltaram.

Vivi estava distraída, arrumando uns papéis na pasta. Foi pega de surpresa:

- Ãh?

- Você e sua namorada.

- É...

Que mais Vivi podia dizer? Desceram em silêncio. Marcela já estava esperando, com a moto parada na porta, impaciente. Ana Cláudia se despediu e saiu andando rápido, parecendo apressada.

Marcela deu um estalinho na ruiva, entregou o capacete sobressalente para ela e sugeriu:

- Ainda temos tempo antes da reunião. Vamos no McDonald�s?

Vivi concordou. Marcela era fanática por fast food. Mais um dos vícios nocivos da namorada. Que não eram poucos, não é verdade?

Subiu na moto e abraçou Marcela, que colocou o capacete, acelerou e partiu, contente. Com Vivi se aproveitando para colar, se agarrar e apertar o corpo contra o dela ao máximo, como sempre.

 

No Mcdonald�s tiveram a discussão que já se tornara um hábito: Marcela  insistia em pagar. Para ela era como se dinheiro desse em árvores.

Vivi não concordava nem se sentia bem com isso. Marcela a atormentou insistentemente, mas a ruiva não cedeu. Fez questão de pagar a parte dela.

Depois do lanche foram para a reunião budista. Fizeram 15 minutos de daimoku, gongyo, e sentaram numa roda. Misticamente, o tema era Carma. Marcela recebeu um texto. Cada um lia um parágrafo e os responsáveis pela reunião � Vivi inclusive � iam fazendo comentários, tirando dúvidas e explicando.

Quando chegou a vez de Marcela, ela leu:

- �A palavra sânscrita Karma, ou Karman, significa �ação�. O budismo identifica 3 categorias de ação: mental, verbal e física. Ou seja, a pessoa forma o carma de 3 maneiras: pensamentos, palavras e ações.  Se estes forem bons, bom carma. Se forem maus, mau carma.�

Marcela nem conseguiu mais prestar atenção. �Tô ferrada...� � era só o que conseguia pensar.

Vivi riu da expressão dela. Era evidente o que Marcela estava pensando. Disse baixinho no ouvido dela:

- Calma... Continua escutando...

Foi a vez de Vivi ler:

- �No Gosho (carta) abertura dos olhos, Nitiren Daishonin escreveu: �Se deseja saber que causas foram feitas no passado, observe os resultados que se manifestam no presente. E se deseja saber que resultados serão manifestados no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente.� Dessa forma, o princípio de causa e efeito do budismo ensina que fundamentalmente as circunstâncias em que se vive atualmente são conseqüências dos nossos próprios atos no passado (nessa e em outras existências) e nunca obras de fatores externos. O Dr. Daisaku Ikeda afirma que o mais importante é o presente momento. Embora as causas feitas no passado tenham contribuído para moldar o nosso presente, é também o momento presente, ou seja, o instante que vivemos agora que decide o nosso futuro. Não são as causas passadas que o governam. Sejam quais forem as causas cármicas passadas, podemos construir um futuro brilhante por meio das causas que criamos hoje. É possível mudar todo carma negativo do passado e desfrutar um futuro de imensa felicidade.�

Exatamente como Vivi tinha previsto, Marcela pareceu bem mais aliviada. Sussurrou novamente pra ela:

- Ouviu? A partir de hoje...

Marcela ficou pensativa. Vivi sorriu e apertou a mão dela. Não duvidava da capacidade de Marcela, mas... sabia que não ia ser fácil.

 

Depois da reunião, Vivi insistiu para que Marcela dormisse na casa dela. Obviamente, Marcela não ofereceu nenhuma resistência.

Foram recebidas por uma dona Lúcia muito sorridente:

- Marcela! Que bom te ver, minha querida...

Beijou as duas, e lançou um olhar cúmplice para a filha antes de dizer:

- Bom, com licença. Quando o jantar estiver na mesa chamo vocês.

E entrou na cozinha. Vivi pegou Marcela pela mão e a puxou para o quarto. Fechou, mas não trancou a porta. Foi logo agarrando a namorada e a enchendo  de beijos. Deixando Marcela completamente tensa:

- Tá doida, Vivi? E se alguém entra?

A ruiva riu, com os braços em volta do pescoço dela. Só depois de mais um beijo, respondeu:

- Ninguém vai entrar sem bater. Eles sabem que eu e você...

O susto que Marcela levou foi tão grande que ela até prendeu a respiração. Vivi riu muito, mas muito mesmo. E implicou:

- Qual é o problema? Pensei que você fosse assumida, meu bem...

- Ué, eu sou. E você também, pelo jeito.

- Nem precisei contar. Eles perceberam. Minha mãe disse que tava na cara, que era só olhar pra gente...

Marcela estava contente. A mãe de Vivi já sabia e não a tinha enxotado, pelo contrário. Na verdade, Marcela não se lembrava de já ter sido tão bem tratada em nenhuma outra casa. Espantoso mesmo...

Vivi grudou a boca novamente na dela, a língua brincando, se insinuando, provocando... Mordiscou a orelha de Marcela, antes de confirmar os pensamentos dela, dizendo:

- Minha mãe adora você...

Marcela soltou uma risada. E respondeu na maior felicidade:

- Uma mãe que me adora? Isso é novidade... Eu diria até que é inacreditável...

E voltou a colar os lábios nos da ruiva de forma absolutamente apaixonada.

 

Quatro meses se passaram sem que elas perceberem. O namoro tomou um ritmo sem atropelos. Foi criada uma espécie de equilíbrio tácito.

A rotina era a seguinte: de manhã, a faculdade. De tarde Vivi ia para o estágio e Marcela ficava fumando, ouvindo música, bebendo, levando um som com os amigos e muitas vezes não fazendo nada. Na verdade ficava mesmo era tentando se distrair até a hora de finalmente poder buscar Vivi no trabalho.

O pouco tempo que sobrava era corrido. Toda 3a feira iam às reuniões budistas. Vivi jantava e dormia em casa todos os dias. Marcela não queria abusar: só dormia lá uma, duas vezes por semana no máximo.

De vez em quando a saudade apertava, então matavam algumas aulas.  

Os finais de semana eram só delas. Vivi compensava ficando e dormindo na casa de Marcela. Naquele mundinho maravilhoso que tinham criado, e que era só delas.

Continuavam saindo com os amigos, claro. Marcela tentava maneirar nas drogas e na bebida, com uma certa dificuldade. De vez em quando extrapolava, mas nada de sério. Até porque, nunca mais tinham virado a noite daquele jeito. O namoro de Carlinha e Rafa ajudava. Eles serviam de termômetro. Quando anunciavam que estavam indo, Marcela também ia com Vivi para casa. No começo André e Guto soltavam algumas piadinhas, mas depois se acostumaram.

Também foram com Ana Cláudia e amigas em lugares GLS da cidade. Em ocasiões muito raras, porque Marcela ficava profundamente entediada. Achava as meninas caretíssimas, se sentia deslocada na mesa onde só ela bebia e fumava. Na pista de dança era ainda pior, porque Marcela não conseguia dançar... como posso dizer... comportada. Ficava se esfregando e agarrando Vivi de uma forma que às vezes passava de todos os limites, e a deixava constrangida, completamente sem jeito na frente de Ana Cláudia.

Vivi estava presente em todos os shows do �The Mitidos�. Incentivando, ajudando, aplaudindo Marcela de forma absoluta e sinceramente apaixonada. Adorava ver a namorada tocando e cantando. Era a fã número um, e não disfarçava.

De vez em quando Gisele ligava. Marcela nunca atendia. Mas não tinha como deixar de ler as mensagens que a loira deixava: �Me liga se precisar de sexo de verdade...�, �Só você me come direito...� , �Morrendo de vontade dos seus dedos, gatinha...�, �Sua língua me faz falta...� e outras do gênero. Se Marcela dissesse que aquilo não mexia com ela, estaria mentindo, não é verdade? No mínimo servia para alimentar o ego e a vaidade...

 

Numa 6ª feira que não tinham show, os �The Mitidos� estavam reunidos com Vivi e Carlinha na casa de Marcela.

Rafa e Carlinha abraçados no sofá. Guto numa poltrona. André sentado no chão tocando violão. Marcela e Vivi também sentadas no chão. Marcela com as costas apoiadas na parede, com Vivi entre as pernas, as costas encostadas no peito dela. De vez em quando Vivi virava o rosto e esfregava no de Marcela, que parava de cantar para beijar a ruiva que mantinha bem junto dela num abraço apertado.

André se cansou de tocar, e tentou passar o violão para Marcela, que recusou:

- Desculpe, mas... tô muito bem assim, obrigado... Liga o som.

Ele obedeceu. Colocou Oasis: �Don�t Look Back in Anger�. Criando um clima propício para os beijos dos dois casais se tornarem mais ardentes e apaixonados.

Guto e André, para variar um pouco, não deixaram barato:

- Já que só sobramos nós dois: vira aí, Guto, que eu vou te comer, seu boiola...

- Vira você, viado... Sei que seu negócio é um macho...

Riam e desmunhecavam, tirando a concentração de Rafa e Marcela, que riram também. Rafa jogou uma almofada nos amigos, e puxou Carlinha para o banheiro.

Vivi segurou o rosto de Marcela, impedindo que ela interrompesse o beijo. Enfiou a língua com tanta paixão e desejo, que tiveram que se separar para respirar. Roçou os lábios no ouvido de Marcela, antes de sussurrar:

- Vamos pro quarto...

Nem esperou a namorada concordar. Levantou e puxou Marcela, que a seguiu. Foram se beijando enquanto caminhavam, sem nem perceber que André as observava meio de lado.

Assim que entraram no quarto, Marcela bateu a porta atrás delas. Puxou Vivi pela cintura, colou a boca na dela e recuou em direção à cama, onde caiu deitada com a ruiva em cima dela. Mas Vivi tinha outra idéia:

- Vira...

Ordenou com uma voz rouca, baixa, suave - que prometia. Marcela nem pensou em reesistir. Fez o que Vivi queria. A ruiva mordeu, chupou e lambeu a nuca dela, a fazendo se arrepiar inteira.

Acariciou as costas de Marcela, subindo e tirando a camiseta dela enquanto beijava cada pedaço de pele descoberta. As mãos escorregaram por baixo de Marcela, pegando nos seios, arrancando gemidos abafados pelo travesseiro. Depois desceram pela barriga, entre as pernas dela, ainda por cima do jeans.

Marcela sufocou novos gemidos, e moveu os quadris, mostrando o que estava querendo. Vivi abriu e tirou as calças e a calcinha dela. Admirou o corpo lindo, completamente entregue. A pele alva, o tribal tatuado na linha da cintura, absolutamente sexy.

Se livrou das próprias roupas rapidamente. Encostou o sexo nas nádegas de Marcela, e sussurrou no ouvido dela:

- Olha como eu fico pra você...

Mostrando a umidade latente que aumentou em contato com a pele embaixo dela. Marcela retrucou:

- Do mesmo jeito que você me deixa...

O tom de voz que Marcela falou, lânguido, gostoso, oferecido... Acionou em Vivi uma fome inadiável, incontrolável, extrema. Que a fez penetrar a namorada com os dedos e se esfregar nela com urgência.

Se entregaram a palavras murmuradas, gemidos e suspiros intensos. Numa dança que as deixava tão ligadas uma na outra que era como se inexistisse todo o resto.

Por isso não viram quando a porta se entreabriu lentamente. Uma fresta apenas. Por onde André ficou espiando, com uma estranha mistura de raiva, ciúme, inveja e desejo.

 

 

Capítulo 22: Ela é puro Ecstase...

O sábado começou maravilhoso. Principalmente para Vivi, que acordou com Marcela em cima dela, a beijando inteira, desenhando com os lábios um trajeto que deixou as esmeraldas incandescentes: começando na boca e terminando entre as pernas da ruiva já totalmente desperta.

Era aniversário da Ana Cláudia. Foram no Novo Leblon comprar um presente e aproveitaram para almoçar no shopping mesmo.

Depois passearam no calçadão, com Marcela de óculos escuros, só se dando por satisfeita quando convenceu Vivi a se sentar num quiosque e tomar uma cerveja.

Voltaram para casa e passaram o fim da tarde namorando no quarto de Marcela.

Tomaram banho e ficaram horas debaixo do chuveiro � Marcela não sossegava, estava insaciável, como sempre.

Se arrumaram para sair. Marcela rapidamente. Foi só vestir a roupa e passar perfume � Armani: Acqua Di Giò for Men � e ajeitar o cabelo.

Vivi passou hidratante, perfume, creme nos cabelos, secou as madeixas ruivas com o secador, se maquiou inteira, se vestiu e ainda ficou um tempo se avaliando no espelho e só então se declarou oficialmente pronta.

Marcela não reclamou de ficar esperando. Pelo contrário. Aproveitou para passar o tempo todo perturbando a ruiva com abraços, carícias, gracinhas e beijos.  Vivi sorria, ria, correspondia, e não tinha do que reclamar também.

 

Quando chegaram na rua da Carioca, na porta do CINE IDEAL, os �The Mitidos� em peso estavam lá. Com Carlinha no meio, óbvio.

Vivi falou baixinho, só para Marcela escutar:

- O que eles tão fazendo aqui?

- Eu chamei...

O brilho verde dardejou, parecendo um tanto quanto descontente:

- Acho que os meninos não vão gostar nem um pouco quando os caras começarem a dar em cima deles.

Marcela riu:

- Quem sabe assim o Dé sai do armário...

- Pelo menos eles sabem que é um lugar GLS?

Nesse exato momento, Vivi percebeu que Marcela, com aquele jeitinho sem noção dela, tinha esquecido de comentar esse pequeno detalhe.

Guto desistiu assim que ficou sabendo. Se despediu e foi embora. Carlinha insistiu e acabou convencendo Rafa. Estava louca de curiosidade para conhecer o mundo gay... E André... bem, André ficou sorrindo, depois puxou Marcela num canto, e cochichou alguma coisa muito boa porque... ela ficou animadíssima.

Entraram, encontraram Ana Cláudia � não foi difícil, ela estava no terraço cercada de amigos � entregaram o presente, deram parabéns e depois meio que se dispersaram.

Marcela e Vivi ficaram apreciando a vista. Linda. Incrível. Dava para ver o centro da cidade inteiro...

Não ficaram olhando por muito tempo. Começaram uma sessão de beijos cinematográficos que seria interminável se André não interrompesse bruscamente, puxando Marcela pelo braço. Falou alguma coisa para ela, que balançou a cabeça concordando, antes de dizer para Vivi:

- Vamos descer.

A pista estava lotada. Chegaram no bar e Vivi pediu uma cerveja. Estranhou muito quando Marcela e André pediram água.

Então Marcela a puxou pela mão até um canto, e a fez entender:

- Nós vamos tomar um ecstase. Eu queria muito que você tomasse também...

Vivi passou por uma montanha-russa de emoções: perplexidade, surpresa, decepção, raiva e finalmente, frieza:

- Fora de questão.

- Por favor, só dessa vez... queria tanto curtir com você... Por favor, amor...

- Você sabe que eu detesto drogas, Marcela.

- Poxa, você nunca entra na minha onda, né?

Antes que Marcela continuasse a insistir, Vivi contestou:

- E nunca vou entrar mesmo. Pra que você precisa disso? Ficar comigo não é o bastante?

Marcela passou a mão nos cabelos, olhou para cima, para os lados... Vivi já a conhecia o bastante para saber o que aquilo queria dizer: que ela estava com medo, porque sabia que a namorada não ia gostar da resposta:

- Ai, Vivi, não é isso... É que... você não entende, é muito, mas muito bom...é incrível o que você sente, parece que é tudo feito de algodão... e dá vontade de dançar a noite inteira... de tocar, de beijar...

Vivi a interrompeu, puxando Marcela pelo pescoço e aproximando os lábios dos dela:

- Não preciso tomar nada pra querer te beijar a noite inteira...

Colou a boca na dela. Sentiu que Marcela estava inquieta, desatenta. Ansiosa para terminar o beijo. Assim que os lábios se separaram, Vivi ainda pediu:

- Por favor, amor... Não toma nada... Fica comigo...

Marcela encerrou a conversa, dizendo:

- Você não entende...

- Não entendo mesmo. Nunca vou entender.

Marcela sabia que a ruiva estava magoada, chateada, mas a fissura que sentia a dominava. Só para constar, a olhou como quem pede permissão.

Vivi deu de ombros decepcionada, como quem dizer: �se não tem nada que eu possa fazer...�.

Marcela abriu um sorriso radiante e disse:

- Espera aqui, eu já volto.

Vivi esperou um bom tempo. Quase meia hora. Tomou mais duas cervejas. Mas Marcela não apareceu. Voltou ao terraço, encontrou Carlinha e Rafa se agarrando num canto. Só não ficou sem graça em interromper porque já estava meio alta:

- Vocês viram a Marcela?

- Ué, ela não tá com você? Vivi, você tá bêbada?

Vivi negou, mas Carlinha conhecia a amiga muito bem. Sabia que a ruiva estava, no mínimo, alterada. Ana Cláudia, que estava prestando atenção nelas, se aproximou, preocupada:

- Vivi, tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

- Não, nada. Tudo certo.

Respondeu, antes de descer. Pegou mais uma cerveja no bar, olhou em volta, e nada de Marcela.

Vivi nunca tinha passado por uma situação como aquela. Ter que ficar rodando na boate apinhada de gente, procurando a namorada, morrendo de medo de descobrir o que ela estava fazendo.

Foi quando a viu. Toda suada, dançando no meio da galera. Os cabelos chegavam a estar molhados. Tinha tirado a camiseta e estava só de top. Com uma garrafa de água na mão e André dançando sem camisa coladinho nela.

A raiva de Vivi foi tão grande, mas tão grande, que teve que fazer Nam Myoho Rengue Kyo mentalmente várias vezes.

Foi driblando as milhares de pessoas, levando algumas cotoveladas e esbarrões, até conseguir chegar onde ela estava.

Parou na frente de Marcela, que recebeu Vivi com um enorme sorriso, e uma pegada e um beijo intensos. Fazendo Vivi amolecer completamente.

As mãos de Marcela a agarraram e acariciaram com desejo. Beijou o pescoço da ruiva, mordeu a orelha, disse no ouvido dela:

- Você já é um tesão, Vivi... Hoje então...

E voltou a colar os lábios nos de Vivi vorazmente.

Não é à toa que chamam o ecstase de �droga do amor�. Marcela estava com a sensualidade à flor da pele. Deliciosa, sedutora, intensa...

Para Vivi nada que já não fosse antes. A única diferença era o desequilíbrio evidente:

- Ai, amor... Tô derretendo...  

E derramou a garrafa de água inteira na cabeça, ficando totalmente molhada. Sacudiu os cabelos sensualmente, antes de puxar a ruiva, dizendo:

- Dança comigo... Vem...

Vivi tentou acompanhar Marcela naquilo que ela chamou de dançar, mas que na verdade, nada mais era do que se esfregar em Vivi sem o menor constrangimento.

André colou atrás de Marcela e ficou se roçando nela também. Deixando Vivi muito, mas muito incomodada mesmo.

Foi quando um loiro todo sorridente se aproximou e começou a dançar atrás de André, que sussurrou para Marcela:

- Me salva...

Marcela riu, e respondeu:

- Se vira, viado!

Mas André insistiu. Tão desesperado, que Marcela cedeu. Falou para Vivi:

- Só um minutinho... Vou socorrer o Dé...

Virou de frente para André, e começou a se agarrar com o amigo. Deixando Vivi de lado. Ainda ouviu Marcela falar para o tal loiro:

- Desculpa, amigo, mas... Ele tá comigo...

Essa foi a gota d�água. Vivi ficou completamente irada. Virou o resto da cerveja de uma só vez. E começou a dançar. De uma forma absolutamente surpreendente. O que estava tocando? �Hips don�t Lie� (Shakira/Wyclef Jean).

Marcela nunca tinha visto Vivi dançando de verdade. Todas as vezes que saíam, a ruiva ficava contida, sem se soltar.

Na verdade Vivi detestava se mostrar. Mas naquele momento, mandou toda e qualquer espécie de timidez para o espaço. Deu um verdadeiro show, fazendo as pessoas em volta pararem para admirar.

A primeira reação de Marcela foi  apenas olhar. Absolutamente perplexa. Vivi dançava muito. Bem demais. Realmente chamava a atenção.

Lentamente, como se estivesse hipnotizada, Marcela largou André e foi se aproximando. Os olhos verdes cintilaram. Começaram a dançar juntas. Marcela absolutamente encantada, seduzida, enfeitiçada...

Então Marcela começou a agarrar a ruiva de uma forma nada comportada. Vivi se defendeu como pode, mas Marcela foi empurrando, levando a namorada para um canto, e a situação  ficou fora de controle.

Marcela pressionou Vivi contra a parede com o corpo. A língua invadiu a boca de uma forma absolutamente faminta, o piercing causando arrepios na ruiva. Com uma das mãos tocou, acariciou, apertou um dos seios por cima do vestido. Com a outra percorreu a coxa por baixo da saia e a tocou por dentro da calcinha, dizendo:

- Tão gostosa... Dá pra mim, dá...

A resposta de Vivi foi difícil, porque ela ofegava:

- Vamos pro banheiro...

Mas Marcela ignorou totalmente os protestos dela:

- Não... Quero aqui... Agora...

E a penetrou com os dedos, sem esperar resposta. Vivi gemeu, e não teve forças para recusar, muito menos para a afastar. Se agarrou nos ombros de Marcela, enfiou a mão na nuca dela, e se rendeu completamente aos beijos, movimentos e desejos ardentes dela.

Quando Marcela segurou e ergueu um pouco uma das pernas da ruiva, facilitando, tornando o contato mais profundo e intenso, Vivi voltou a gemer. No ouvido dela, várias e várias vezes.

Marcela a beijava com uma voracidade extrema. Às vezes parava para sussurrar que Vivi era deliciosa, que queria comer ela inteira, que estava morrendo de tesão, coisas do gênero...

Não demorou muito para que o corpo de Vivi se contraísse, e ela estremecesse. Marcela gemeu e gozou junto com ela, a entrega da ruiva a enlouquecendo.

Vivi abafou um último gemido contra o pescoço de Marcela. Demorou alguns instantes para se recuperar, afastar o rosto da pele quente, do cheiro de suor delicioso e abrir os olhos.

A primeira coisa que viu a fez gelar por dentro. André, parado a alguns metros de distância, olhando com um brilho nos olhos que chegava a dar medo. Um ódio intenso misturado com um desejo pérfido, doente. Então, os olhos encontraram os verdes, e ele rapidamente desapareceu.

Marcela soltou a perna de Vivi, endireitou a saia dela, a beijou no pescoço languidamente, dizendo:

- Ai, linda... Você é tudo de bom... Te amo, minha delícia...

Voltou a colar os lábios nos dela, e a invadir a boca da ruiva com a língua sedenta. E Vivi se esqueceu de André completamente.

 

Quando voltaram para a pista, Vivi estava morta de vergonha. Constrangida, porque apesar das pessoas não poderem ver muita coisa - Marcela se manteve o tempo inteiro na frente � com certeza alguém devia ter percebido o que tinha acontecido naquele canto.

Marcela voltou a dançar incansavelmente. Rafa e Carlinha se aproximaram, e Vivi ficou aliviada por não terem chegado ali alguns momentos mais cedo. A pedido da ruiva, Rafa foi até o bar e voltou com uma água.

Vivi deu um gole e estendeu a garrafa para Marcela, que bebeu como se estivesse seca por dentro. Agradeceu Vivi, dizendo:

- Tenho a melhor namorada do mundo inteiro...

Com lágrimas de felicidade nos olhos. Beijou Vivi de um jeito emocionado, doce, meigo.

André voltou a aparecer, e evitando olhar para Vivi diretamente, disse:

- Não tô me sentindo bem..

Rafa se ofereceu:

- Quer que eu te leve no banheiro?

Mas Marcela o cortou imediatamente:

- Deixa que eu levo. Também preciso ir. Toma conta das meninas.

E saiu arrastando André. Deixando Vivi muito insatisfeita.

Assim que chegaram na porta do banheiro, Marcela disse:

- O primeiro a sair espera aqui, ok?

André concordou, e nem entrou. Ficou na porta observando Marcela entrar no banheiro feminino, querendo ver o que já sabia que ia acontecer.

 

Quando Marcela entrou no banheiro, deu de cara com Gisele. A loira não conversou. Colou a boca na de Marcela e a puxou para um dos reservados. A cabeça de Marcela parecia não funcionar. A música �Out of Control� (The Chemical Brothers) ecoando abafada dentro do banheiro só ajudava. Nem resistiu. Se deixou levar. Mergulhou de cabeça no exagero irresistível dos sentidos que o ecstase proporcionava.

 

Vivi estava visivelmente preocupada. Carlinha se desculpou com Rafa para conversar com ela um minuto à parte:

- Que foi?

Nem o fato de estar um pouco bêbada conseguia deixar Vivi menos tensa:

- Eles tão demorando muito...

Carlinha tentou acalmar a amiga:

- Ai, Vivi, não viaja... Você acha mesmo que a Marcela e o André...

- Não, claro que não. Mas tô com um mau pressentimento, sei lá...

Vivi passou a mão nos cabelos, jogando as mechas ruivas para trás. Carlinha pensou e resolveu dizer:

- Ué, então vai lá.

- Você acha?

A  voz da ruiva era pura ansiedade. Não achava certo desconfiar da namorada. Mas também não agüentava mais a dúvida. Carlinha deu mais força para a amiga:

- Porque não? Se a Marcela pode ter ataques de ciúme à vontade, você também pode ir lá ver o que ela tá fazendo, como quem não quer nada...

Vivi soltou um suspiro exasperado.

Sabe aquela cena clímax de filme, quando alguém tem que escolher qual fio cortar: um detona a bomba, e o outro salva a pátria? Pois é... Namorar com Marcela era exatamente isso. Só que o tempo inteiro, várias vezes sem parar...

- Você tá certa. Eu vou lá.

E caminhou em direção ao banheiro.

 

- Isso... Me come, gatinha... Ai, assim...

Gisele puxava os cabelos de Marcela com força, e a beijava como se a quisesse engolir. Marcela se sentiu queimar e arder de um jeito insano.

Penetrou a loira com mais força. Abriu a blusa dela de uma vez só, arrancando alguns botões. Gisele gemia sem parar.

Marcela grudou a boca nos seios que se ofereciam, de uma forma quase bruta. Depois desceu as calças e a calcinha e mergulhou com vontade no sexo dela. Lambeu e chupou, sem parar o movimento dos dedos. Sem delicadeza, amor, cuidado, nem ternura. Sexo apenas. Puro e cru.

Nem percebeu quando Gisele destrancou e deixou a porta entreaberta.

 

André continuava parado perto dos banheiros. Vivi não percebeu, mas ele viu quando a ruiva entrou. Deu um sorriso enorme de satisfação, e esperou.

 

Assim que entrou no banheiro, Vivi ouviu um barulho inconfundível. Uma das vozes era de Marcela. Gelou. Teve que respirar fundo para se aproximar da visão que sabia que não queria ter. Mas precisava saber, impossível evitar ou fugir.

Precisou de toda a coragem que tinha para dar aqueles poucos passos que a separavam do reservado.

A porta não estava nem fechada. Ela pode ver tudo perfeitamente. Marcela ajoelhada, com os dedos e a boca mergulhados na loira praticamente nua, as duas gemendo alto...

Ficou paralisada. Em estado de choque mesmo. A loira olhou para ela e sorriu. Depois puxou Marcela pelos cabelos e a fez olhar também. Quando os olhos negros encontraram os verdes, Vivi se virou... e saiu do banheiro correndo.

 Parte 3 

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