AMOR A QUALQUER PREÇO

Diedra Roiz

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2008

 

 

Capítulo 1: Vestida para matar...         

 

 Era uma noite como outra qualquer. Uma festa do pessoal da faculdade como outra qualquer. Então porque estava tão nervosa? Sentindo um friozinho na barriga, uma sensação de algo no ar?

Tudo bem, era a primeira vez que ia sair solteira, depois de terminar um namoro de 4 anos com o Edu. Sim, definitivamente era isso. Nervosismo de reestréia! Riu, se olhando no espelho.
Mas no fundo sabia que não era só isso... Tinha terminado sem motivo aparente. Apenas uma inquietação fora do normal. Que tinha começado a mais ou menos 3 meses atrás...

 

Era o primeiro dia de aula do 3º período. Vivi estava sentada na primeira fileira de cadeiras, entre Carlinha e Lu, suas amigas inseparáveis, quando de repente, ela entrou na sala.

A pele muito branca contrastava com os cabelos negros com mechas.. azuis!... muito lisos cortados num chanel com pontas compridas na frente e mais curto atrás, deixando a nuca à mostra. Óculos escuros, calça jeans rasgada e manchada de tinta... Ao invés de livros, um capacete de moto na mão. Tudo na aparência dela era selvagem, rebelde, quase agressivo... E Vivi não conseguiu deixar de a acompanhar com os olhos.

Claro que Marcela � depois acabou sabendo o nome dela � se tornou o assunto preferido da turma. As informações chegavam aos ouvidos de Vivi de forma involuntária: Marcela tinha destrancado a matrícula depois de 2 semestres afastada, era a quarta geração de uma família conhecida de advogados, juízes e desembargadores, e estava na faculdade de direito obrigada. 22 anos, guitarrista e vocalista de uma banda de rock, só se vestia de preto. Fumava maconha, tinha piercing na orelha e na língua, um tribal tatuado nas costas em cima das nádegas, era absurdamente estilosa e gostava de mulheres...

Especulações ou não, despertaram em Vivi um interesse quase insuportável. Que a fazia sair da cantina, da biblioteca, de uma rodinha de amigos, qualquer lugar aonde Marcela chegasse.

De vez em quando não conseguia se conter � pura curiosidade! Era o que dizia para si mesma � e olhava disfarçadamente para Marcela, que sempre sentava no fundo da sala de óculos escuros, fones do MP3 no ouvido, a cabeça encostada na parede e os pés em cima de uma cadeira na frente dela, numa postura evidente de �Cagando e andando�.

Até o dia fatídico na xerox.

 

Tinha acabado de pegar umas 30 folhas que o professor de direito civil tinha pedido para lerem. Virou equilibrando o fichário, os códigos, as xerox, quando levou um encontrão que fez tudo o que segurava ir direto para o chão. Já ia soltar um:

- Não olha por onde anda não?

Quando percebeu que tinha esbarrado em... Marcela. Ao contrário de tudo o que Vivi esperava dela, Marcela foi completa e absolutamente simpática:

- A culpa foi minha... Desculpa... Deixa eu te ajudar..

Vivi ficou parada, ou melhor, paralisada sob o efeito da voz deliciosa, que pareceu entrar dentro dela. Marcela entregou o fichário e os livros para ela,  e se abaixou para catar os papéis espalhados pelo chão.

Tirando Vivi do estado de torpor em que estava para se abaixar na frente dela. Tão perto que Vivi começou a reparar em pequenos detalhes:  Marcela usava uma pulseira de couro no pulso direito, e um anel prateado grosso no dedão esquerdo. Que ficavam perfeitos nela, aliás...

Se levantaram ao mesmo tempo. Ficaram paradas frente a frente. Marcela tirou os óculos, e Vivi viu os olhos dela pela primeira vez. Doces, muito doces, mas sem nada de calmos... Olhos que pareciam um mar negro tão profundo que se perder neles se tornava fácil...

- Desculpe mesmo...

Vivi apenas gaguejou, sem conseguir desviar os olhos dos dela:

- Tu...Tudo bem...

Louca para ir embora e esquecer aquela sensação estranha, desconhecida, surreal. Mas Marcela estendeu a mão, com um enorme sorriso:

- Prazer... Marcela...

Vivi apertou a mão que a outra oferecia... E sentiu todos os pelinhos do corpo se arrepiarem. Soltou a mão rapidamente, e se virou para fugir dali.

Mas Marcela falou, fazendo com que ela parasse:

- Seu nome... Você não me disse...

Meio de costas, sem olhar para Marcela de novo, ela respondeu:

- Viviane.

E rapidamente fugiu. Sentindo que, mesmo sem entender porque, tinha acabado de viver um daqueles momentos inexplicavelmente marcantes.


Pela milionésima vez, Vivi se olhou no espelho. Tinha se arrumado toda, caprichando no visual. Sabia que naturalmente já era uma garota bonita.

20 anos, cabelos ruivos compridos, olhos de esmeralda, pequenas sardas na pele sempre bronzeada, corpinho esculpido por anos de dança.

Normalmente fazia sucesso. Era muito paquerada, coisa que sempre rendia brigas intermináveis com Edu.

Naquele dia, porém, estava insegura, nervosa, ansiosa e... se sentindo apenas razoável.
Se olhou uma última vez, analisando o visual. Na verdade, estava perfeita, de parar o trânsito, linda demais. Só que ela não enxergava...

 

Quando chegou, a festa já estava muito cheia, a fumaça dos cigarros nem deixava ver direito a galera bebendo e dançando. Cumprimentou alguns colegas de turma que fumavam um baseado na porta, os olhos rapidamente percorrendo a sala e encontrando o que procuravam: a dona da festa.

Marcela já vinha na direção dela, com aquele enorme sorriso que sempre dava de graça quando a via.
- Oi Vivi! Que bom que você veio!
Dois beijinhos e Marcela voltou a desaparecer na festa.
Ficou um pouco desapontada... Decepcionada até... Não que Vivi gostasse de mulher. Claro que não, né?
 

Apenas... gostava da companhia de Marcela! Depois do episódio da xerox, tinham se tornado muito amigas.  Vivi batia com ela papos enormes, absolutamente interessantes, inteligentes, divertidos...                                                                                                                  Se bem que sempre se arrepiava quando no meio da conversa, a mão de Marcela pousava displicentemente na coxa dela. Sabe aquelas pessoas que não conseguem falar sem tocar? Pois é... Assim era Marcela. Para total desespero de Vivi, porque... A cada toque, sentia um calor insano se espalhar pelo corpo inteiro.
Perdida nesses pensamentos, nem percebeu Carlinha chegando com duas latas de cerveja na mão.
- Oi Vivi! Amiga, isso aqui ta uma loucuura! Chegou agora?
- É...
- Nossa, você caprichou, hein! Ta vestida para matar!

 

 

Capítulo 2: Um Estranho Pensamento...

A Carlinha, amiga de Vivi desde os 10 anos de idade, era talvez a pessoa que mais a conhecia no mundo. E também era, provavelmente, a pessoa mais engraçada do mundo.
- Todo mundo já ta sabendo que voocê e o Edu terminaram.
- E como será que essa notíe;cia se espalhou tão rápido? Eu só contei pra você...
- É, eu dei uma ajudinha... (e riiu, sabendo que no fundo Vivi ia gostar. Como eu disse, Carlinha conhecia Vivi como ninguém...)
Colocou uma das latinhas na mão de Vivi e a arrastou para o meio da sala.
Vivi não soube como, no meio da confusão, Carlinha conseguiu um sofá vazio onde se sentaram. E é lógico, conhecendo a Carlinha como Vivi conhecia, um sofá com uma vista privilegiada da sala. Carlinha começou:
- E aí, amiga, viu alguma coisa iinteressante?
- Não e nem tô a fim disso....
- Até parece, né? Produzidda desse jeito? Com certeza já tem até um alvo...
Os olhos de Vivi percorreram a sala, e encontraram Marcela parada, fumando um cigarro. Será que era o efeito da cerveja, ou a forma dela segurar o cigarro e tragar era absurdamente provocante?

Vivi ficou com uma cara meio abobada. Marcela percebeu, porque riu antes de sair do alcance da vista dela.
- Tá tudo muito bom, tá tuudo muito bem, mas vou dar uma voltinha...
E dizendo isso, Carlinha levantou e saiu sala afora. Foi então que do nada, Marcela apareceu e se sentou do lado de Vivi no sofá.
- Cerveja? (disse estendendo uma latinhaa)
- Obrigada... (respondeu pegando a cerveeja e pensando: �mais uma dose, claro que eu tô afim!�)
- Qual é a graça? <

�Caramba, eu nem tinha percebido que tava rindo sozinha... que idiota!� � foi o que Vivi pensou. E respondeu, muito sem graça:
- Nada...
- Na verdade eu vim aqui com uma miss&attilde;o... (e ela a olhou tão profundamente que por um momento Vivi prendeu a respiração)
- Ãh? Como assim?
- Digamos que tem uma pessoa a fim de voocê...
Será que o coração de Vivi poderia bater mais rápido que isso sem maiores complicações? Ela achava que não...

Mil coisas passavam na cabeça dela, mas no meio de todos os pensamentos havia um, o melhor e mais assustador de todos, e ainda mais assustador porque não era para Vivi estar gostando tanto da idéia: será que Marcela estava a fim dela?

 

Capítulo 3: Vira vira vira...                                                                                      

Vivi ficou quieta, sem saber o que falar. Evitou olhar para Marcela, com medo que pudesse, com uma simples troca de olhar,  a deixar perceber o que  estava sentindo.
Vivi virou a latinha de cerveja de uma vez só. Marcela a olhou estranhando, e depois riu, divertida. Vivi teve a impressão que Marcela ia dizer alguma coisa, mas daí Carlinha apareceu dançando, e dizendo um �toma isso, tá divino!� - colocou um copo cheio de Caipirinha na mão de Vivi, e sumiu novamente.
Vivi provou a bebida. Estava fortíssima, desceu queimando pela garganta, e de certa forma, isso foi reconfortante.
- Quer provar? (perguntou pra Marcela, qque a olhava surpresa.)
- Não, obrigada. Na verdade eu n&ão gosto de misturar... bebida... aliás, eu acho que você também não deveria...
- E por que não? (a frase soou umm pouco agressiva, e Vivi aproveitou para dar um bom gole em desafio. Não sabia porque, mas estava irritada com Marcela.)
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou...
Deu mais uns três goles, fingindo que olhava para a festa, mas louca para saber se Marcela a estava olhando.
                                                                       Nessa altura, Vivi já estava ficando um pouco tonta. Ela sempre tinha sido fraca para bebida, bastavam dois chopes para a deixar colocada... E aquela Caipirinha estava um perigo!                                                                               Com certeza foi por isso, e só por isso, que Vivi olhou bem para Marcela  e soltou a pergunta que não queria calar:
- Quem tá a fim de mim?
Ela demorou para responder? Para Vivi pareceu que ficou um século olhando firme, ou tentando parecer firme, para Marcela antes da resposta:
- O Guilherme...
- Guilherme? (�Quem diabos era Guilhermee?�)
- Aquele ali. (Marcela disse apontando ppara um cara bem bonito por sinal, que acenou e veio vindo na direção delas.)
Marcela se levantou bem na hora em que o tal carinha chegou e parou na
  frente de Vivi.
- Guilherme, Vivi. Vivi, Guilherme. (e ssaiu fora.)
O carinha, coitado, ficou sorrindo um sorriso bobo, parecia que ele já tava meio alto, sei lá...
                                                                                                    Vivi passou a mão nos cabelos, jogando eles para trás, com muita vontade de matar Marcela, quando viu que ela estava parada do outro lado da sala observando atentamente.
�Ah, é assim? Então tudo bem...�
Do nada, tascou o maior beijo na boca do tal do Guilherme, que retribuiu
   puxando Vivi pra sentar no colo dele no sofá.                                                                    

Peraí, peraí, o negócio já tava ficando fora do controle demais. Não tinha nada a ver Vivi ficar sentada no colo de um cara que nem conhecia só porque... por que mesmo? É, não tinha o menor sentido...                                                                                                                   O cara não deve ter entendido nada, porque Vivi levantou quase de um salto e saiu de perto dele o mais rápido possível.
- Caramba, Vivi, o que foi que deu em voocê? (disse uma Carlinha toda suada de tanto dançar chegando perto dela.) O cara era muito gato...
- Você viu a Marcela? (ela n&atildde;o estava mais em nenhum lugar da sala)
- Ih, a Marcela foi pro quarto dela, dissse que tava com dor de cabeça... Olha só: me pediram pra levar esse brownie pra ela, você leva pra mim?
Sem esperar a resposta, Carlinha tascou o tal brownie na
  mão de Vivi e se afastou dançando.                                                                                                             Vivi não hesitou. Nem por um momento. Entrou no corredor escuro com o coração batendo forte no peito.

 

 

Capítulo 4: A Ver Estrelas...                                                                                             

A porta do quarto estava entreaberta. Pela fresta da porta viu Marcela deitada na cama, os olhos fechados, a luz fraca do abajur dando ao rosto dela um toque quase mágico de tão belo...                                                                  Ficou ali parada, estática, olhando boquiaberta.

Como se sentisse a presença dela, Marcela abriu os olhos. Quando viu Vivi, sorriu.
- Entra...encosta a porta, por favor...<
Vivi entrou. Não só fechou como trancou a porta... o coração já não batia, martelava... sentou na beira da cama e Marcela pousou a mão na coxa dela com uma intimidade tão natural quanto foi para Vivi dar o brownie
  para ela na boca.
Quando acabou, Marcela limpou os dedos de Vivi os lambendo de uma forma absolutamente sensual. Vivi estremeceu, e Marcela percebeu, porque a olhou fundo nos olhos.

Quando os olhos se encontraram, os de Vivi continham um apelo mudo, indiscutível. Os de Marcela eram indecifráveis, como tudo nela.                                      

Então, Marcela a puxou gentilmente, e quando as bocas se tocaram pela primeira vez, para Vivi foi como se o mundo mudasse com aquele beijo diferente de todos os outros...
Aquele foi, sem dúvida, o momento de prazer mais intenso de toda a vida de Vivi. Um desejo que ela nem sabia que existia, e que chegava a doer...

A textura da pele de Marcela, o cheiro, o piercing na língua... Vivi nunca tinha sentido nada parecido...

Devagar, com uma lentidão intensa e deliberada que deixou Vivi ofegante e trêmula, Marcela tirou a roupa dela peça por peça.

As mãos e os lábios experientes percorreram o corpo dela inteiro de uma forma quase angustiante.                                                                                                             Vivi, por outro lado, arrancou as roupas de Marcela o mais rápido que pôde, ansiosa demais para ser delicada como ela. A tocou e beijou com uma voracidade puramente instintiva. Com falta de ar, quase sufocando de tanto desejo...
- Calma... (Marcela disse no ouvido de VVivi antes de a beijar novamente.)
                               

Mas Vivi era pura pressa... com os braços ao redor do pescoço de Marcela, gemia alto sem perceber...então a urgência de Vivi se tornou a de Marcela.                                  

Se apossou de Vivi com uma fome igual à dela, a fazendo gemer, suspirar, implorar e se oferecer toda para ela.                                                                        A boca em seus seios, provocando de uma forma quase torturante, as mãos macias a desvendando intensamente, tocando o corpo de Vivi inteiro, abrindo, revelando segredos, tocando entre as coxas, enfiando os dedos como se lhe desvendasse a alma profundamente...                                                                                                                                                                                    Vivi quase desfaleceu, quando a boca de Marcela desceu, e mergulhou entre as pernas dela, a devorando até Vivi se contorcer desnorteada e gritar o nome dela quando o gozo finalmente veio...      

E então Marcela já estava em cima dela, esfregando o corpo no de Vivi, gemendo no ouvido dela...                                                                                                                                                                                   Mas Vivi precisava de outra coisa para ficar satisfeita. A empurrou, trocando de posição com Marcela. E então pode procurar e encontrar seu caminho no corpo maravilhoso debaixo dela.

A pele de Marcela era escandalosamente branca, quase etérea... Suave, macia e quente... Tão quente que chegava a queimar... Com um prazer profundo, latente, Vivi explorou aquele calor... Também a fez gemer e se contorcer, saboreando Marcela inteira, com a boca, com os dedos...

Parou no interior das coxas, se deliciando com a textura, com o cheiro... As mãos de Marcela a puxavam, se enfiavam nos cabelos dela, mas Vivi ainda  continuou ali beijando e lambendo por algum tempo.    

E então, quando finalmente encostou a boca e sentiu o gosto dela, fechou os olhos e se deixou levar pela deliciosa sensação de tontura, loucura, desterro... Como um redemoinho que a mergulhasse num lugar misterioso, que a fizesse ser sugada por um maravilhoso buraco negro, que a levasse a tocar e provar  estrelas...

Suspirando e gemendo, se entregou ao abismo de sensações deliberadamente sem medo.

 

 

Capítulo 5: O Outro Lado da Moeda...                                                                      

Marcela Albuquerque de Moraes era o que tipicamente se chama de rebelde sem causa. Os pais preferiam dizer ovelha negra. E Marcela adorava... Se orgulhava mesmo... das duas definições.                                                                           Filha única, acostumada desde pequena a ter tudo o que queria e a fazer o que bem quisesse, se recusava propositalmente  a fazer parte do �discreto charme da burguesia�. Não era à toa que era fã incondicional de Cazuza.                                                                                                                    

De tanto esfregar na cara dos pais uma diversidade de ficantes, amantes e namoradas, tinha conquistado o direito de ter seu próprio apartamento. E em troca de cursar direito na UERJ, uma moto, um carro, uma mesada bem abonada e cartões de crédito. Ficava até fácil ser rebelde, né?                                                                               

A vida de Marcela seria perfeita se (tem sempre um se...) não fosse o fato de estar louca e completamente apaixonada por Gisele. A loira monumental de 35 anos, incrivelmente sexy e deslumbrante que só a fazia sofrer. Porque além de ser casada (com uma mulher que a sustentava), Gisele estava longe de corresponder.                                                                                                        Usava Marcela descarada e declaradamente. Esfregava na cara dela que só a queria para fazer sexo.  A maltratava, mandava embora, desprezava terrivelmente, e depois a chamava de volta. E quanto mais Gisele pisava, mais Marcela ia correndo.                                                                                                    

Claro que estar apaixonada não impedia que Marcela se divertisse. Dormia com outras mulheres, apesar de sempre ficar com uma certa ressaca moral depois. Afinal de contas, no coração dela não tinha espaço para mais ninguém. Gisele era dona dele inteiro.                                                                                      

Por isso mesmo Marcela ficou na cama deitada ao lado de Vivi, achando que tinha feito uma das maiores burradas da vida dela.                                                    

Verdade que a primeira vez que tinha visto Vivi, na xerox da faculdade, tinha sido simpática apenas por causa da aparência dela. Tinha achado Vivi linda,  gostosa, muito gata mesmo.                                                                                 Ela ser hetero não era o problema. Marcela estava cansada de servir de experiência, de matar a curiosidade sexual de várias heteros.                                                                                                                   

Mas era diferente com Vivi. Ela era especial. Eram amigas. E não queria perder a amizade dela.                                                                                                                               Tinha percebido que Vivi estava diferente no momento em que ela chegou na festa. Porém, tinha pensado que era porque tinha acabado de terminar com o namorado.                                                                                                                Guilherme tinha implorado para Marcela interceder por ele. E na hora em que estavam conversando, viu Vivi olhando com uma cara abobada na direção dele... Por isso e só por isso os apresentou, saiu fora e ficou observando se a atuação dela como cupido tinha dado certo...                                                                

Foi quando o celular tocou. Era Gisele. Dizendo que não ia aparecer e cancelando o encontro que tinham marcado no dia seguinte. Porque ia viajar com a esposa.                                                                                                    Marcela ficou louca de raiva, com ciúmes, possessa... Para ela acabou ali a festa. Foi para o quarto e se deitou. E logo depois, Vivi apareceu.                                       

A presença de Vivi, a forma como ela tinha trancado a porta, dado o bolo para ela na boca e a olhado com os maravilhosos olhos verdes cintilando depois... Tinha mexido com Marcela. Mais do que mexido... O desespero com que Vivi se entregou, e a urgência com que a devorou depois... Tinha deixado Marcela fora de controle... Apesar de não ter experiência com mulheres, sem dúvida Vivi tinha um talento natural para a coisa...                                                                                                                          Marcela afastou o último pensamento, se sentindo culpada de novo. Nada justificava ter perdido completamente a cabeça daquele jeito. Não sabia nem como ia conseguir olhar para ela de novo...  

Vivi se atirou na cama ao lado de Marcela. A cabeça rodava, e não era por causa da bebida. Um sentimento inexplicável a confundia.                                        

Marcela estava muda, nem a olhava. Passou a mão pelos cabelos, tirando eles do rosto, a pulseira de couro um elemento a mais do charme dela. E então falou, ainda olhando para o teto:

- Olha só... Vivi, eu... não quero que você fique chateada nem que mude comigo... Nós somos amigas, eu não... eu não devia ter... Me desculpa...

Desculpas? Vivi não acreditou no que estava ouvindo... Marcela estava se desculpando por ter dado a ela a experiência mais incrível que já tinha vivido?

Marcela não entendeu nada. Até se assustou com a reação dela: Vivi caiu na gargalhada. Ou melhor, riu da cara de Marcela. Depois respondeu:

- Assim parece que você me atacou, ou algo parecido... Não foi bem o que aconteceu, né?

Quem dera... Foi o pensamento de Vivi. Vendo a cara perplexa de Marcela, continuou:

- Tá tudo bem, Marcela... Fica fria...

Mas Marcela continuava preocupada com ela:

- Mas você... você nunca tinha...

- Pra tudo tem uma primeira vez, né?

Vivi respondeu rapidamente. Querendo fazer parecer que tinha sido uma coisa sem importância. E rezando para que Marcela mudasse logo de assunto. Em vão:

- E aí? O que você achou?

Essa era a Marcela que Vivi conhecia. Nada convencional. Sem noção, eu diria.

- Tá querendo elogios?

Essa foi a forma que Vivi encontrou para devolver a pergunta totalmente descabida.

Marcela ficou totalmente sem jeito. E entendeu que tinha passado dos limites. Por instantes apenas. Porque logo percebeu que Vivi estava de novo rindo dela.

Marcela pegou o travesseiro e atirou na cara de Vivi. Que jogou o travesseiro de volta nela. Marcela a segurou pelos pulsos, prendeu os braços de Vivi contra a cama, acima da cabeça dela, a imobilizando. O riso morrendo na garganta delas quando os olhares se encontraram e viram que a brincadeira tinha ficado novamente séria.

Os olhos de esmeralda de Vivi hipnotizando Marcela com seu brilho intenso... As bocas se aproximando quase que naturalmente...

Foi quando o celular de Marcela tocou. Quebrando o clima completamente.  Mais ainda quando Marcela atendeu e viu que era Gisele.

- Oi Gi...

Mesmo que Marcela não tivesse dito o nome, pelo tom de voz derretido dela, Vivi já sabia quem era.

Marcela esqueceu completamente de Vivi e todo o resto. Continuou:

- Fala, meu amor... Agora? Tá, tudo bem... Tô lá em 15 minutos... Beijo nessa sua boca gostosa... Tchau...

Quando olhou novamente, Vivi já estava completamente vestida:

- Vou indo...

Marcela pediu:

- Espera só um minutinho...

Se vestiu correndo e acompanhou Vivi até a sala, que agora já estava bem mais vazia. Vivi ainda tentou encontrar Carlinha, mas nem sinal dela. Marcela gritou:

- O último a sair bate a porta!

E saiu quase correndo atrás de Gisele. Com Vivi caminhando silenciosamente atrás dela.

 

 

Capítulo 6: Que vá tudo pro Inferno...

Quando Vivi chegou em casa os pais já estavam dormindo. A porta do quarto da irmã estava aberta, ou seja, ela ainda não tinha chegado.

Foi direto para o quarto. Deitou na cama de sapatos mesmo. Levou a mão ao rosto, respirou fundo... Ainda tinha nos dedos o cheiro de Marcela... Um cheiro que a fez sentir uma coisa gostosa por dentro...

Sentou na cama de repente. O que é que estava pensando? Só podia estar louca mesmo... Nunca tinha gostado de mulher...

Mas de alguma forma estranha, indefinível, o que tinha acontecido entre ela e Marcela tinha mudado a vida de Vivi para sempre. Porque queria mais do que tudo voltar a sentir o que tinha sentido naquele quarto com ela...

Num impulso, pegou o telefone e ligou para Carlinha:

- Caramba, Vivi! Onde você se meteu? Te procurei horrores, pela festa inteira...

Vivi suspirou fundo. Sempre tinha contado tudo para Carlinha. Dessa vez não ia ser diferente:

- Ai, amiga... Você não imagina o que aconteceu... 

Carlinha respondeu naquele tom de confidente eterna:

- Fala, amiga... Que foi?

Vivi tomou coragem, e soltou de uma vez:

- A Marcela e eu... Nós... transamos...

Carlinha engasgou do outro lado:

- O que?

- Isso que você ouviu.

Depois de segundos de silêncio, Carlinha bombardeou Vivi de perguntas:

- Como assim? Do nada? E aí, como foi? Foi bom? Quer dizer... como é? Ai, amiga, que doideira! Quero saber tudinho...com detalhes!

Vivi riu da curiosidade da amiga. E contou tudo, exatamente como tinha acontecido. Carlinha apenas ouviu, soltando de vez em quando uma ou outra exclamação surpresa. Quando Vivi terminou, Carlinha deu sua sentença:

- E eu pensava que só os homens eram escrotos...

Imediatamente Vivi defendeu Marcela:

- Também não é assim, né?

Carlinha insistiu:

- Putz, Vivi... Ela não foi exatamente sensível, né?

Mas Vivi não concordou:

- Ela foi sincera...

Carlinha fez um silêncio significativo. A preocupação dela era aparente quando perguntou:

- E você?

Uma pergunta com milhares de interpretações possíveis. Nenhuma que pudesse deixar a voz de Vivi menos trêmula:

- O que você quer dizer?

Carlinha não fez rodeios:

- Quero saber se você tá apaixonada pela Marcela...

Vivi negou. Riu. Disse que era absurdo. Que Carlinha estava delirando. Com tanta convicção que convenceu a amiga.

Mas não conseguiu conter a vontade insana que sentiu... aproximou a mão do nariz, e voltou a aspirar com prazer o cheiro que Marcela tinha deixado nela.

 

Enquanto isso, Marcela estacionava a moto em Ipanema, na calçada em frente ao Empório.

Esperou mais de meia hora até Gisele finalmente aparecer. Ela nem desceu do carro. Mandou Marcela entrar e a levou para o motel mais próximo. E depois de três horas fazendo sexo de todas as formas e modos possíveis, se livrou de Marcela novamente. Depois de Marcela pagar a conta sozinha, é lógico...

Nem a levou de volta. Deixou Marcela na porta do motel mesmo.

Marcela quase gritou de raiva. Teve que pegar um táxi para chegar onde estava a moto:

- Rua Maria Quitéria, por favor.

Com as lágrimas escorrendo pelo rosto dolorosamente.

 

 A amizade de Vivi e Marcela não terminou por causa do que tinha acontecido. Pelo contrário. Vivi ficou muito mais próxima dela. Isso deixou Marcela aliviada e feliz.

Vivi, por outro lado, passou a se sentir incomodada quando Marcela falava de Gisele. E a esperar ansiosamente que Marcela colocasse a mão na coxa dela enquanto conversavam.

Mas isso ela escondeu até de Carlinha. Como um insano, profano, inconfessável segredo. Que extravasava noite após noite antes de dormir, deitada na cama sozinha, de olhos fechados, desejando que fosse a mão de Marcela a tocando debaixo das cobertas.

 

Numa 6ª feira, Vivi foi assistir um show da banda de Marcela pela primeira vez. Na Casa Rosa, em Laranjeiras. Carlinha não quis ir com ela, preferiu sair com um carinha que estava a fim.

Quando Vivi chegou, Marcela estava numa rodinha de amigos, alguns da turma delas da faculdade, e a recebeu com um enorme sorriso:

- Vivi! Se você não viesse eu nem sei...

Pura verdade. Estava realmente contente com a presença dela.

Parecendo esquecer todos os outros, puxou Vivi para um canto.

Tirou um vidrinho do bolso. Abriu, derramou um pozinho branco na parte de cima da mão e ofereceu:

- Special K. Quer?

Vivi sabia muito por alto o que era Special K. Um tipo de tranqüilizante de animais que as pessoas cheiravam em festas, boates e raves... Fosse o que fosse, não importava. Vivi não usava drogas.

- Não, obrigada.

- Ok.

Marcela aproximou a mão do nariz, e cheirou o pó rapidamente. Depois fungou um pouco e esfregou o nariz como se estivesse coçando.

- Vamos. Ainda tenho que mudar de roupa antes de começar.

Vivi não disse nada. Mas detestou o que viu. Não conhecia esse lado dela.

Marcela subiu no palco, e Vivi voltou para o grupo de conhecidos.

Quando o show começou, Vivi quase engasgou com a cerveja que estava bebendo.

Marcela estava com uma calça de couro preta justíssima, e botas do exército. No lugar da pulseira de couro, ela estava usando uma munhequeira preta. Como os outros integrantes, usava uma camiseta (preta também, é lógico!) com o nome da banda escrito em letras vermelhas: �The Mitidos�.

Só que Marcela tinha arrancado a gola, as mangas e a parte de baixo da camiseta, deixando os braços, o colo e a barriga todos de fora. 

Para alívio de Vivi, por baixo da camiseta (dava para ver perfeitamente), ou do que tinha sobrado dela, Marcela estava usando um top.

Como descrever o que Vivi sentiu quando a ouviu cantar pela primeira vez? Já sabia que Marcela tinha uma voz linda, quando ela falava era perceptível. Mas era mais do que isso...

A voz dela continha um emoção que dominava, às vezes doce e suave, às vezes cortante, rascante, desesperada... Deliciosamente entorpecente...

E a forma como ela abraçava e dedilhava a guitarra também era... Inacreditavelmente envolvente... desconcertante... hipnótica...

Vivi demorou alguns minutos para se recompor e perceber que Marcela era canhota. Tocava a guitarra azul � como as mechas do cabelo dela - do lado oposto do que todos os outros faziam.

Mais uma pitada estranhamente sensual e atraente nos inúmeros e maravilhosos mistérios dos quais Marcela era feita...

Nervosa com todas as sensações e vontades inconfessáveis que sentia, Vivi se aproximou do palco, e gritou sem pensar:

- Gostosa!

Marcela viu Vivi se aproximar e colocar as mãos em concha na boca para gritar. Esperava que ela gritasse qualquer coisa, menos aquilo.

Sem saber o quanto de verdade tinha na aparente brincadeira dela, retribui com um sorriso imenso. Que Vivi devolveu quase a cegando com o vibrante resplandecer dos olhos verdes...

Quase, porque não teve como deixar de ver a loira alta, maravilhosa, inconfundível, que entrou e se postou grudada no palco bem na frente dela.

Vivi acompanhou o olhar de Marcela, querendo morrer quando descobriu o motivo dela estar babando, toda derretida.

Principalmente porque, tinha que dar o braço a torcer, a loira era um mulherão escândalo, um monumento mesmo.

Todos pareciam ficar hipnotizados por ela. Menos Vivi, que só olhava para Marcela.

A primeira música acabou, e as pessoas aplaudiram. Marcela começou a tocar sozinha. Sem sair do estilo bem rock and roll da banda. Os outros se entreolharam, perdidos em princípio, porque não era a música que eles tinham ensaiado. Mas Marcela precisava aproveitar o momento. Era perfeito. Começou a cantar, e eles a seguiram:

 

�De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem
e eu estou a lhe esperar
só tenho você... ah... no meu pensamento
e a sua ausência é todo o meu tormento
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno�

Cantou e tocou o primeiro refrão de uma forma provocante, absolutamente sedutora. Arrancando suspiros da platéia.

Deixando Vivi cada vez mais louca por ela, apesar de Marcela cantar o tempo todo com os olhos fixos em Gisele. A música era para ela. E Gisele parecia estar adorando. Isso empolgou Marcela. O segundo refrão foi ainda mais passional, quase selvagem de tão intenso:

 

�De que vale a minha boa vida de playboy
se entro no meu carro e a solidão me dói
onde quer que eu ande tudo é tão triste
não me interessa o que de mais existe
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno�

 

Então, ela deu um suspiro, se jogou de joelhos na beira do palco, para ficar cara a cara com Gisele, e a beijou na boca apaixonadamente.

Arrancando gritos e assobios da platéia, enquanto o outro guitarrista fazia o início do solo sozinho.

O beijo cinematográfico fez Vivi sentir um nó por dentro. Mais estranhamente ainda,  não conseguiu parar de olhar fixamente para delas.

Gisele se afastou, e Marcela se levantou num salto. Terminou o solo junto com o outro cara. Gritou:

- Te amo, Gi!

E voltou a cantar de uma forma absolutamente visceral:

�Não suporto mais
você longe de mim
quero até morrer
do que viver assim
só quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno!

Eu quero que você me aqueça nesse inverno

e que tudo mais vá pro inferno!

e que tudo mais vá pro inferno!
e que tudo mais vá pro inferno!�

(�Quero que vá tudo pro inferno� � Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

 

Terminaram a música com as palmas lá em cima. Começaram a terceira música. Mas Gisele tinha sumido.

Logo depois Marcela a viu, com uma mulher que tinha acabado de chegar, e que Marcela já conhecia, porque... era ninguém menos do que... a mulher de Gisele.

Vivi percebeu que do nada, Marcela começou a cantar mecanicamente, a voz fria, sem nenhuma energia. E depois com raiva, absolutamente agressiva.

Imediatamente descobriu o motivo: a loira estava aos beijos com outra.

Disfarçadamente, se aproximou das duas, a tempo de ouvir a outra dizer:

- Amorzinho, não sei porque você insistiu em vir aqui. Só tem criança e o som é horrível...

A loira deu de ombros e respondeu:

- Tem razão, amor... Vamos sair daqui...

E as duas saíram.

Vivi olhou para o palco. Marcela parecia transtornada. Talvez as outras pessoas não percebessem. Mas Vivi sim. Ver Marcela assim fez o coração de Vivi doer... Sem questionar porque, grudou no palco e gritou:

- Linda!

Marcela olhou para ela e deu um sorrisinho. Triste... Mas um sorriso. Que incentivou Vivi a continuar:

- Maravilhosa! Absoluta! Apertadinha!

Fazendo Marcela cair na risada. E depois presentear Vivi com um novo sorriso. Que a fez estremecer porque... Achou total e deslumbrantemente lindo.

 

 

Capítulo 7: Introdução ao lado negro...

Quando o show acabou, Vivi foi procurar Marcela. Ela estava num canto com o pessoal da banda, fumando um baseado. Ofereceu para Vivi, que recusou, agradeceu e disse:

- Marcela, tô indo...

- Tá de carro?

Os pais de Vivi tinham dado um carro para ela e a irmã dividirem. Por isso  nem sempre Vivi estava de carro. Aquele era um dos dias que estava a pé.

- Não. Mas tá tranqüilo, eu pego um táxi.

Marcela contestou prontamente:

- Nada disso! Você vai comigo! Espera só um pouquinho...

Como recusar?

Só que depois de fumar, Marcela cheirou mais um pouquinho do tal Special K, bebeu uma cervejinha... Começou a parecer que estava um pouco alterada. E que não ia embora tão cedo. Por isso Vivi disse:

- Marcela, tenho mesmo que ir. Falei pra minha mãe que não ia chegar tarde...

Marcela deu uma última tragada no cigarro que estava fumando, o jogou no chão e falou:

- Então vamos.

Passou o braço nos ombros de Vivi e a guiou para onde tinha estacionado. Vivi não conseguiu deixar de estremecer com o contato. Ficou toda arrepiada. Marcela percebeu, mas felizmente, interpretou de outra forma, porque perguntou:

- Tá com frio?

Vivi mentiu, respondeu que sim... E foi muito pior, porque Marcela começou a esfregar as mãos nos ombros e nos braços de Vivi. Fazendo ela esquentar, mas de uma maneira bem diferente da que pretendia...

Então chegaram no carro. Marcela abriu a porta para ela, totalmente sem noção das sensações que as mãos dela tinham despertado.

Vivi entrou e colocou o cinto. Marcela sentou, ou melhor, se jogou no banco ao lado. Rodou a chave, passou a marcha e saiu cantando pneu, em alta velocidade.

Fazendo Vivi se perguntar se era uma boa idéia deixar ela dirigir. Não deu tempo de dizer nada. Foram paradas por um guarda. Não tinham nem como discutir. O estado de Marcela era evidentemente lamentável.

O policial pediu que Marcela descesse do carro, mas ela disse, sorrindo calmamente:

- Não tem como a gente resolver de outro jeito?

A postura do policial mudou completamente, como se Marcela tivesse dito as palavras mágicas. Marcela continuou, fazendo uma cara suplicante:

- Seu guarda, eu sei que tô errada... É a primeira vez que faço isso... Juro... Por favor... Alivia pra mim...

Enquanto falava puxou uma nota de 50 reais da carteira e sutilmente deixou na mão do guarda, que disse:

- Tudo bem. Dessa vez passa... Mas é melhor sua amiga dirigir...

Marcela concordou, obediente e solícita. Vivi desceu, deu a volta e quando chegou do outro lado, Marcela já estava no banco do carona.

Depois que saiu com o carro, Vivi desabafou, completamente indignada:

- Que absurdo, Marcela! Você deu dinheiro pro guarda!

Marcela a olhou sem entender nada. Como se o que tivesse feito fosse a coisa mais natural do mundo:

- Ué, que que tem?

Vivi continuou:

- Acha isso certo?

- Certo?

Marcela riu alto, antes de completar:

- O certo seria o que? Deixar ele me prender, por acaso?...

- Como assim, te prender?

- Por causa disso, ora...

Vivi quase teve um treco quando Marcela abriu o porta luvas e pegou um saco plástico cheio de maconha, um pedaço de papel de seda, e começou a apertar um baseado. Quase gritou:

- Você é maluca?

Marcela voltou a rir. Sem parar de continuar enrolando o troço.

Vivi se dividiu entre a revolta por Marcela agir de forma absurda, e a reação puramente física que sentiu quando ela lambeu sensualmente a seda para fechar o baseado...

- Fica tranqüila... Meu pai me dá dinheiro suficiente pra comprar a polícia do Rio de Janeiro inteira...

Foi aí que Vivi não agüentou:

- Não acredito, Marcela... Logo você, que adora bater no peito dizendo que não se rende ao sistema... E tem a coragem de ficar compactuando com coisas como essas....

Marcela torceu o nariz:

- Ai, que papo careta...

Nossa, a frase teve o poder de tirar Vivi do sério. Quase gritou:

- Nunca pensei que você fosse tão...

Mas se segurou na hora, evitando falar o resto. Marcela a olhou com ar de desafio debochado, do tipo �não aceito ser criticada�:

- Tão o que? Continua...

Vivi não se lembrava de já ter sentido uma fúria tão grande. Disparou:

- Alienada! Inconseqüente! Filhinha de papai!... E quer saber? Joga essa porcaria fora!

Marcela ficou muda de surpresa. Vivi tinha falado sem se importar se ela ia gostar ou não. Sem medo de contrariar. De um jeito que ninguém fazia com Marcela há muito tempo...

E para completar, tinha arrancado o saco plástico da mão dela, deixando o vento levar todo o conteúdo antes de devolver o saco vazio para ela. A mesma coisa com o baseado, que ela destroçou sem deixar um pedacinho de seda para contar a história.

Marcela ficou um tempo observando a ruiva que dirigia ainda bufando de irritação.

- Vivi?

De nada adiantou a vozinha doce que fez. Foi fuzilada pelos olhos verdes. Que tomados pela raiva pareciam mais lindos do que o normal...

Falou de um jeito que sabia que tornaria impossível para Vivi continuar chateada com ela:

- Eu não fiz por mal... Ah... Você não vai deixar de ser minha amiga por causa disso, vai?

Vivi continuou olhando para frente. Mas Marcela percebeu que os olhos voltaram ao normal quando ela respondeu:

- Não, Marcela. Sou sua amiga de verdade. Exatamente por isso nunca vou passar a mão na sua cabeça quando você fizer merda!

Marcela sorriu... Achando Vivi maravilhosamente incrível e linda...

Mas não durou muito tempo. Logo em seguida sentiu o estômago revirando, uma coisa subindo... Marcela abriu o vidro elétrico correndo:

- Tô enjoada...

E vomitou do lado de fora da janela.

 

Depois disso, Marcela ficou de olhos fechados, em silêncio, até chegarem no prédio dela no Leblon. Para falar a verdade, a sensação de tonteira e mal estar não era novidade para ela.

Vivi estacionou na garagem, a ajudou a sair do carro (ela estava meio que, digamos, trocando as pernas) e a acompanhou até o apartamento. Ia se despedir, mas Marcela pediu:

- Vivi... Você pode dormir aqui?

Não teve como não concordar. Não ia ficar tranqüila se deixasse Marcela daquele jeito sozinha.

Ligou para a mãe avisando que ia dormir na casa de uma amiga. Depois de algumas perguntas básicas de mãe, ela concordou, despreocupada. Tinham uma relação de confiança aberta e clara, que Vivi nunca tinha quebrado.

Quando desligou, Marcela estava na cozinha, parada com a porta da geladeira aberta, olhando lá para dentro e rindo, como se estivesse vendo alguma coisa muito divertida.

- Que que você tá fazendo aí?

Marcela se assustou, e derrubou a caixa de leite, sujando todo o chão.

Vivi olhou em volta, procurando um pano ou papel toalha para limpar a sujeira. Como se adivinhasse o pensamento dela, Marcela disse:

- Deixa. Amanhã a empregada limpa.

Pegou um pedaço de pizza gelada, passou � acreditem se quiserem � doce de leite nela, e começou a comer com desespero.

- Larica...

Explicou, falando com a boca cheia. Depois de devorar com gosto aquele negócio repulsivo, pegou uma garrafa de Coca Cola, bebeu no gargalo mesmo, e foi para o quarto esquecendo a geladeira aberta.

Vivi sacudiu a cabeça, reprovando. Pegou a caixa de leite vazia no chão, colocou na pia. Fechou a geladeira, com cuidado para não pisar na poça de leite, e só então foi atrás dela.

Entrou no quarto e levou um susto, porque... Marcela tinha arrancado a roupa, jogado as cobertas no chão e se atirado na cama inteiramente nua. 

Não soube dizer quanto tempo ficou admirando a beleza de Marcela deitada de bruços na cama, abraçando o travesseiro. Com um sentimento intenso, o coração ecoando como se fogo líquido corresse nas veias...

Tentou se controlar. Pensou em cachorrinhos mortos, baratas, lesmas... Qualquer coisa capaz de neutralizar o desejo... Sem muito resultado...

O tribal parecia tatuado na mente de Vivi ao invés de nas costas de Marcela. Absurdamente atraente, delicioso, sensual. Como tudo nela, aliás.

Com muito esforço desviou os olhos. Tirou os brincos de argola, as sandálias e o vestido. Encontrou uma camiseta dela jogada numa cadeira - do Pink Floyd com a gola arrancada. Preta, como todas as roupas de Marcela - e vestiu.

Deitou ao lado de Marcela na cama de casal completamente tensa, sem querer encostar nela, tentando se manter o mais longe possível.

Mas assim que Marcela sentiu o peso no colchão, se virou para Vivi, e a puxou pela cintura, resmungando sonolenta:

- Vem... Faz o que você quiser comigo...

Pega de surpresa, incapaz de continuar controlando ou negando o que queria,  Vivi colou os lábios nos dela, aceitando o convite...

Marcela correspondeu, suspirando deliciosamente. Invadindo a boca de Vivi com a língua, e depois descendo os lábios pelo pescoço dela, provocando gemidos.

Marcela a livrou das roupas  com urgência, as mãos parecendo famintas pela pele dela. Fazendo Vivi se entregar inteira.

A boca de Marcela subiu para a orelha de Vivi, mordiscando o lóbulo, causando arrepios... E então, sussurrou baixinho:

- Te amo, Gi...

 

 

Capítulo 8: Migalhas dormidas do teu pão...

Vivi gelou. Sentiu todos os músculos do corpo ficarem rígidos. O pior foi a dor que sentiu, como se alguma coisa implodisse dentro do peito.

As carícias apaixonadas de Marcela continuaram, mas tinham perdido todo o encanto, porque não eram para ela.

Tentou se livrar das mãos de Marcela inutilmente. Ela resmungou e lutou para poder continuar tocando em Vivi. Depois rolou, deixando Vivi presa debaixo dela... Encostou a boca na de Vivi, enroscou a língua na dela...  O piercing deslizando entre elas, a dureza do metal frio um estimulante erótico a mais...

No mesmo instante, o corpo de Vivi parou de obedecer. Amoleceu, derreteu, se ofereceu...

Marcela começou a se mover contra ela, as coxas encaixadas deliciosamente.... Vivi perdeu o ar, o chão, toda e qualquer noção além do incontrolável vulcão que explodiu no contato eletrostático das peles... Inevitável... Incontrolável... Irresistível...

Gemeu baixinho quando Marcela escorregou as pernas entre as dela e os sexos se encostaram. Causando um prazer inédito, insuportável, incoerente, de respirar umidamente o que sentia por ela...

Apaixonada, ardente, exigente... Era a febre de Marcela em cima dela. Que contagiou Vivi completamente. Se deixou levar como se não houvesse nada além daquele momento.

Passou a mão nas costas de Marcela, a apertando mais contra ela... Adorando  receber a respiração dela ardendo descompassada no pescoço, entre gemidos sussurrados de forma absolutamente inebriante e incoerente...

Marcela sentiu o corpo estremecer, abriu os olhos por um instante e, mesmo sem entender porque, as ondas de prazer aumentaram imensamente quando se deparou com... o verde profundo dos olhos que a acompanharam num gozo  embriagante e intenso.

 

Vivi ficou ali deitada, o corpo de Marcela largado, adormecido, pesando deliciosamente em cima dela.

Se sentindo culpada, angustiada, envergonhada, perdida... Por não ter conseguido resistir... por ter transado com Marcela mesmo sabendo que ela pensava que estava com a tal Gisele...

Mas por um breve momento, os olhos tinham se encontrado, e Vivi tinha tido quase certeza de que Marcela soube que era ela...

Não, estava tentando se enganar. Querendo achar uma desculpa, algum tipo de alívio, e mais do que tudo, coragem para encarar Marcela no dia seguinte.

Marcela se mexeu sensualmente, ainda dormindo. Apertou Vivi com mais força, suspirou junto ao ouvido dela... Despertando novamente a sensação traiçoeira que fazia Vivi se arrepiar inteira.

Vivi passou a mão no rosto, nos cabelos... Sem saber o que fazer.

Tudo bem, sentia uma atração incontrolável por Marcela. Mas isso não queria dizer que fosse algo mais do que físico. Não podia estar apaixonada por ela, podia?

Já não tinha mais como afirmar que não gostava de mulheres. Na verdade não sabia. Nunca tinha olhado para outras, Marcela era a primeira e única, só tinha olhos para ela...

Mas apaixonada? Impossível! Detestava o jeito anarquista e caótico dela, a forma como não se importava com nada nem ninguém. Com exceção da tal Gisele. Por quem parecia nutrir um sentimento masoquista nada saudável também.

Estar apaixonada por ela não fazia o menor sentido.

Marcela se moveu novamente, descendo um pouco o corpo e encostando a cabeça no ombro de Vivi.

O melhor que tinha a fazer era tirar Marcela de cima dela, se vestir e fingir que nada tinha acontecido. Mas antes, precisava aproveitar, só um pouquinho...

Acariciou os cabelos dela. Marcela sorriu. Vivi não resistiu: a beijou no rosto, na testa, aspirou o cheiro dela... Encostou a boca nos lábios deliciosos, que imediatamente corresponderam...

Foi tão bom o que aquele beijo roubado a fez sentir, que desistiu completamente de a afastar. Envolveu Marcela num abraço apertado, e suspirando de prazer, acabou adormecendo também.

 

No dia seguinte, Marcela se deixou ficar deitada, semi-adormecida, preguiçosamente de olhos fechados. Se recusando a acordar e voltar à realidade, porque... estava com um sentimento maravilhoso, que não sentia há muito tempo.

Tinha tido um sonho delicioso com Gisele. Onde tinham feito amor de uma forma totalmente diferente. Depois Gisele a tinha abraçado e beijado de um jeito que... Marcela gostaria que fosse o de sempre...

O mais engraçado, estranho mesmo, é que no sonho tinha visto... dois olhos muito verdes... Muito parecidos com os olhos de...

Foi quando sentiu um movimento atrás dela. Abriu os olhos num susto, olhou para trás e gelou... Quando viu Vivi deitada de bruços nua na cama ao lado dela.

Levou as mãos à cabeça, com um profundo desespero. Não sabia muito bem o que tinha acontecido, o que tinha feito... Esperava que nada que deixasse Vivi ofendida, chateada nem magoada com ela...

A única coisa que lembrava era de uma sensação de prazer misteriosamente intensa e... verde... Levou as mãos à cabeça de novo, pensando: �Puta Merda!�

Mas apesar do arrependimento, Marcela era apenas humana... Inevitável que aproveitasse para deixar os olhos percorrerem Vivi inteira...

Muito, mas muito linda mesmo... Mais do que isso... No rosto uma expressão meiga, quase ingênua... Que em contraste com as formas nada inocentes do corpo bem feito faziam uma combinação irresistivelmente sedutora e atraente.

Um brilho verde tirou Marcela daqueles pensamentos... Vivi tinha acordado e a olhava de um jeito preocupado, quase tenso...

Ia abrir a boca para falar, quando a voz da mãe soou no corredor, dizendo:

- Marcela! Preciso conversar com você!

E então a mãe já estava dentro do quarto. O primeiro impulso de Marcela foi se colocar na frente de Vivi, tentando esconder a nudez dela. Felizmente, a mãe tapou os olhos e saiu assim que percebeu que Marcela tinha companhia.

Marcela olhou para Vivi, que estava - mais do que vermelha - roxa de vergonha. Ficou sinceramente sem graça por causa dela:

- Ai, Vivi... Nossa, desculpa... Mil desculpas mesmo... Vou ver o que minha mãe quer... Me espera aqui, por favor? Desculpa... Só um momento...

Vestiu uma calça jeans larga e a camisa do Pink Floyd que Vivi tinha usado na véspera, e saiu, fechando a porta atrás dela. 

Vivi sentou na cama, o rosto ainda queimando, completamente sem graça... Vestiu a calcinha e o vestido, colocou as sandálias e os brincos, e - que jeito? - ficou sentada na beira da cama esperando Marcela.

 

- Antes da srta. falar qualquer coisa, a porta do seu quarto estava aberta.

Foi a primeira coisa que a mãe disse, já sabendo que Marcela ia reclamar.

A segunda foi:

- Filha, até quando você pretende viver assim?

O que Marcela não pretendia era ouvir mais um dos intermináveis discursos sobre amadurecer e ter responsabilidade, por isso respondeu:

- Não acredito que você entrou no meu quarto a essa hora da manhã pra me dizer isso...

- São duas horas da tarde, Marcela!

Marcela deu de ombros:

- Minha banda tocou ontem. Deixei recado na sua secretária, mas pra variar, você não deve ter tido tempo...

Fazer a mãe se sentir culpada por trabalhar demais era uma estratégia que Marcela usava desde os sete anos de idade... Sempre dava certo:

- Não fala assim, filha... Fiz compras pra você. Daqui a pouco o supermercado entrega. Também trouxe a faxineira, pra tentar dar um jeito nessa bagunça.

- Tudo bem. Mas fala que no meu quarto é só fazer a cama e varrer o chão... Se mexer nas minhas coisas mato ela!

Deu as costas para a mãe e voltou para o quarto com a indiferença displicente de sempre.

 

Vivi desligou o celular, depois de avisar a mãe que já estava indo, e olhou mais uma vez para a porta, nervosa. Esperava que Marcela não quisesse conversar sobre o que tinha acontecido na véspera.

Com certeza ela não lembrava direito. E Vivi não queria ter que contar, muito menos entrar em detalhes, porque... Só de lembrar se arrepiava inteira.

Marcela estava olhando para ela quando acordou. Mas tinha sido tão rápido que nem tinha dado tempo de ver a expressão dos olhos dela.

Olhou em volta. No geral, o quarto de Marcela era uma apologia ao caos. O pesadelo de qualquer mãe. Parecia que um furacão tinha passado por ali e deixado tudo revirado, de pernas para o ar.

Roupas e sapatos espalhados pelo chão, em cima da cadeira, da mesa... O armário inteiro deveria estar vazio...

Uma tv de plasma daquelas que ficam penduradas na parede na frente da cama, um home theater com caixas de som enormes, com milhares de CDs e DVDs de música jogados por cima e dos lados, empilhados tão tortos, que Vivi teve certeza de que poderiam cair a qualquer momento.

Na escrivaninha um laptop aberto, papéis amassados, canetas espalhadas, bonequinhos dos �Beatles� e do Submarino Amarelo, um microfone antigo - do tipo que se usava nos tempos do r&aaacute;dio - num pequeno pedestal, e dois cinzeiros cheios de restos de cigarro e cinzas.

E prateleiras, muitas prateleiras, uma verdadeira biblioteca de códigos e livros de direito que pela poeira acumulada, pareciam nunca ter sido lidos.

Impossível saber a cor das paredes, porque eram totalmente revestidas por  pôsteres de shows e bandas, colados quase que um por cima do outro, com alguns símbolos da anarquia pichados com �spray� preto, numa verdadeira poluição visual que era... a cara de Marcela.

Ao lado da cama duas �cases� - com o violão e a guitarra dela - e um amplificador com um monte de fios embolados caindo por todos os lados.

Foi quando a porta se abriu, e Marcela entrou novamente no quarto.

Marcela voltou para o quarto torcendo para que Vivi não comentasse a noite passada. Preferia não lembrar, com certeza.

Porque nunca, em todas as vezes que tinha ficado mal a ponto de esquecer, tinha feito algo que prestasse.

Quando entrou Vivi estava toda vestida, sentada na beira da cama, olhando para o lado, pensativa.

Levantou os olhos de esmeralda quase que imediatamente. Como se esperasse que Marcela falasse algo. Então Marcela se desculpou de novo pela mãe ter entrado de repente. Evitando mencionar que elas estavam nuas na cama, é claro. Vivi se levantou, parecendo aliviada, e disse:

- Preciso ir.

E Marcela respondeu imediatamente:

- Eu levo você.

- Não precisa...

Mas Marcela já tinha pego a chave do carro, colocado os óculos escuros e  calçado um par de Havaianas pretas:

- Imagina se vou te deixar ir sozinha! Vem...

Vivi a seguiu pelo corredor, rezando para não dar de cara com a mãe de Marcela. Para alívio de Vivi, a sala estava vazia. Ouviu vozes vindo da cozinha. Marcela passou direto. Já estavam na frente do elevador, quando Vivi perguntou:

- Não vai avisar sua mãe?

Marcela deu de ombros, fazendo uma cara do tipo: �pra que?�.

Para Vivi era impensável sair de casa sem beijar a mãe.  Fez uma expressão de desaprovação tão grande que Marcela acabou voltando e gritando da porta:

- Mãe! Vou levar minha amiga e já volto!

E em se tratando de Marcela, que não dava satisfação nem quando morava com os pais, isso era absolutamente surpreendente.

 

Quando chegaram na garagem, Marcela viu na hora que o carro estava bem estacionado demais para ter sido dirigido por ela. Mas não fez comentários. Foi abrir a porta para Vivi e viu que a lateral inteira do carona (incluindo a maçaneta) estava toda vomitada. Impediu que Vivi chegasse perto, dizendo:

- Melhor você entrar pelo outro lado.

Vivi obedeceu, sem falar nada. Sabendo muito bem a razão da porta estar... como dizer? Interditada...

As duas se mantiveram caladas, até Marcela perguntar:

- Se importa se eu lavar o carro antes de deixar você?

Para Vivi não era sacrifício nenhum ficar um pouco mais de tempo com ela. Mas respondeu de forma corriqueira, para Marcela não perceber:

- Tudo bem.

 

Marcela parou no primeiro posto. Por sorte não tinha fila, e entraram no lava a jato direto. Assim que a máquina começou a passar pelo carro, jogando água com sabão, Marcela fechou os olhos e apertou as laterais da testa com os dedos. Vivi perguntou:

- Tá com dor de cabeça?

- Um pouco...

Os esfregões passaram no capô e nas laterais do carro, cobrindo todas as janelas de espuma. Vivi disse de um jeito muito, mas muito carinhoso mesmo:

- Me dá sua mão.

Marcela olhou surpresa para aqueles olhos verdes lindos. Sorrindo, e não parecendo ter nenhum tipo de segundas intenções.

Estendeu a mão, e Vivi �pinçou� aquela pele que liga o polegar e o indicador com o polegar e o indicador dela, explicando:

- É um ponto de do-in. Dizem que passa a dor...

Apertou sem fazer força, sabendo que só de apertar levemente o tal ponto já ia doer um pouco. Marcela soltou um �ai!�, fez uma careta, e implicou:

- Passa, com certeza... Da cabeça pra mão...

As duas riram juntas. Gostosamente.

Os jatos d�água tiraram toda a espuma. O carro  ficou totalmente lavado e pronto. Mas elas não estavam prestando a menor atenção, porque...

O riso se transformou. Sem que nenhuma das duas pudesse definir em que. Marcela tirou os óculos escuros. Olhando fundo nos olhos verdes, que cintilaram como duas estrelas.

Vivi se permitiu mergulhar na intensidade indomável daqueles olhos negros. O coração acelerando incrivelmente no peito.

O olhar de Marcela se tornou exatamente igual ao da véspera. Naquele momento em que os olhos tinham se encontrado, se tocado e pulsado num incrível turbilhão de prazer.

Marcela continuou olhando para Vivi, tomada por um estranho sentimento de �dejá vu�, que não conseguia entender. E de repente os olhos verdes se tornaram... incandescentes...

Fazendo Marcela sentir um desejo incoerente de se deixar ofuscar pelas duas fogueiras de esmeralda eternamente...

Mas um carro buzinou atrás delas, a tirando do estado de quase hipnose em que se encontrava.

Marcela soltou a mão das de Vivi, desviou os olhos e sacudiu a cabeça, como que afastando um encantamento.

Olhou para frente, rodou a chave, e saiu com o carro. Completamente consciente que o brilho verde a acompanhava a cada movimento.

 

Um desconfortável silêncio se estabeleceu durante o resto do caminho. Vivi observava Marcela atentamente. Ela parecia estranhamente tensa. Vivi se perguntava porque.

Assim que parou em frente ao prédio dela, Vivi agradeceu e desceu do carro apressada. Se despedindo com um �tchau� ao invés dos dois beijinhos de sempre.

Marcela sentiu um inexplicável aperto no peito. E a chamou sem querer:

- Vivi!

Ela se virou, com um brilho doce e fascinante nos olhos:

- Que?

Marcela não percebeu, mas ficou parada de boca aberta, os olhos presos nos dela. Vivi sorriu, aumentando a intensidade do brilho verde. Marcela sorriu de volta, inconscientemente. E só então conseguiu responder:

- Nada não... Esqueci...

- Tá... Se lembrar me liga...

Virou e começou a se afastar do carro. Apenas para Marcela a chamar novamente:

- Vivi...

Ela se virou. Marcela disse a primeira coisa que veio à mente:

- O trabalho de constitucional...

Porque na verdade tinha mais uma vez cedido à vontade insana que sentiu de não a deixar ir embora.

- Que que tem?

Foi a resposta de Vivi, já com a mão na porta.

- Quando a gente vai fazer?

Vivi não estava entendendo nada, mas nada mesmo. Parecia que Marcela estava inventando conversa para... Para que? Não, bobagem dela... Com certeza ela tinha esquecido o que tinham combinado mesmo...

- Segunda, depois da aula. A gente vem direto da faculdade e almoça aqui em casa, ok?

- Ok...

Marcela ficou ali parada, olhando Vivi entrar no prédio. E só saiu com o carro depois que a porta se fechou atrás dela.

 

Assim que chegou em casa ligou para Gisele. A loira atendeu como sempre:

- O que você quer?

- Te ver... Tô morrendo de saudade de você...

- Já? A gente se viu ontem, Marcela...

Marcela lembrou de Gisele aos beijos com a esposa. Suspirou, com a voz suplicante ao dizer:

- Por favor, Gi... ontem você me deixou lá sozinha...

Gisele riu, debochada:

- Eu tava com a minha mulher. Queria que largasse ela pra ficar com você?

Marcela insistiu com uma voz muito doce e derretida:

- Ai, Gi... Você me tortura, sabia? Preciso te ver, amorzinho... Hoje ainda... Por favor... Não consigo ficar sem minha loira gostosa... Por favor, Gi...

A voz de Gisele mudou. Se tornou provocante e sexy:

- Não sei se tô a fim, gatinha...

Gatinha. Era assim que Gisele chamava Marcela quando estava de bom humor ou querendo alguma coisa. Isso era um ótimo sinal. Queria dizer que ela ia ceder. Marcela completou:

- Vou te fazer gozar muito, amor...

Com um riso absolutamente cafajeste, Gisele concordou.

 

Marcela se jogou no colchão ao lado de Gisele. Totalmente suada e esgotada depois de uma maratona de 6 horas de sexo selvagem, incontrolável... E sem nenhum afeto. Pelo menos por parte de Gisele.

Passou a mão nos cabelos e olhou para a loira pelo espelho no teto. A nudez esplendorosa à mostra, o corpo relaxado, um sorriso safado nos lábios. Parecia estar completamente saciada.

Marcela, por outro lado, continuava incansável, faminta, impaciente, ávida... Como se buscasse algo e não encontrasse...

Deitou novamente em cima de Gisele. A beijou na boca, desceu os lábios pelo pescoço, pelos seios... A loira gemeu:

- Ai, gatinha... Você hoje tá insaciável...

Marcela começou a mover o corpo, se esfregando nela quase com brutalidade. Com raiva daquele desejo estranho e interminável... Gozou rápido, de uma forma tensa, rude, violenta.

Depois, se deixou cair em cima de Gisele, o rosto enterrado nos cabelos amarelos, tremendo porque... Não estava de forma alguma satisfeita.

 

Na segunda feira depois da aula, estavam Lu, Carlinha e Vivi no carro dela. Marcela seguia na frente de moto. De vez em quando emparelhava com elas, sempre do lado da janela de Vivi... E ficava sorrindo para ela.

Sentada no banco de trás, Lu não podia estar com a cara mais feia. Aproveitou um momento em que Marcela não estava perto para desabafar:

- Não entendi, Vivi... Nada a ver chamar essa... esquisita pra fazer trabalho com a gente...

Vivi imediatamente a cortou:

- A Marcela é minha amiga.

Carlinha pôs lenha na fogueira:

- Lu, se eu fosse você não falava mal da Marcela perto da Vivi...

Indignada demais para se controlar, Lu continuou:

- Vão acabar dizendo que nós somos iguais a ela... Como, aliás, já tão falando de você, Vivi...

Aí sim, Vivi ficou possessa:

- Como assim, falando o que?

- Você sabe muito bem...

Lu falou um pouco sem jeito, como quem sabe que não está sendo politicamente correta, mas não consegue evitar pensar daquele jeito. Vivi não aliviou:

- Não, não sei. Tão falando que eu sou o que?

Lu falou baixinho, quase sussurrando:

- Lésbica...

Vivi deu uma gargalhada, antes de dizer:

- E se eu for? E se eu te disser que já transei com mulher e gostei?

Carlinha coçou a cabeça, fez cara de quem sabe que o desastre é iminente... E tentou salvar intercedendo:

- Vamos mudar de assunto, gente?

Inutilmente. Porque Lu soltou uma exclamação de nojo, e completou:

- Te conheço, Vivi. Sei muito bem que você não é sapatão...

Aquilo despertou em Vivi uma raiva cega. Incoerente. Que a fez estacionar o carro do nada. Marcela percebeu e parou a moto um pouco mais na frente, sem entender o que estava acontecendo.

Ainda não tinham chegado na casa de Vivi. Estavam naquela ruazinha do lado do viaduto que se pega para entrar na rua Pinheiro Machado quando se vem da rua das Laranjeiras.

- Você acha que me conhece!

Foi a frase de Vivi antes de descer do carro e caminhar na direção de Marcela, os olhos soltando faíscas verdes.

Marcela mal teve tempo de desmontar da moto e tirar o capacete, preocupada:

- Que foi, Vivi? Algum problema?

A resposta de Vivi foi passar os braços ao redor do pescoço de Marcela, a olhar fundo nos olhos, e colar a boca na dela num longo, profundo e apaixonado beijo.

 

 

Capítulo 9: Detalhes e Desejos...

Marcela arregalou os olhos, surpresa... E então correspondeu, abraçando Vivi pela cintura e colando o corpo no dela. Sentiu Vivi suspirar e se aconchegar toda contra ela, a mão a acariciando no pescoço de uma forma tão suave e carinhosa que fez Marcela estremecer.

Vivi entreabriu os lábios e na mesma hora a língua de Marcela procurou a dela, o piercing causando o efeito delicioso de sempre.

As mãos de Marcela percorreram as costas de Vivi, a pressionando mais contra o corpo que parecia queimar como o dela.

Foi quando Vivi se lembrou que estavam numa rua que não era muito movimentada, mas que também não era completamente deserta. Que Lu e Carlinha deveriam estar no mínimo chocadas dentro do carro, e que não sabia como ia explicar aquilo para Marcela.

Por isso e só por isso interrompeu o beijo e se afastou. Desejando continuar nos braços dela.

A respiração de Marcela estava tão alterada quanto a dela. Nenhuma das duas disse nada. Ficaram apenas se olhando profundamente. O negro dos olhos parecendo mais claro. Prisioneiro do atordoante brilho verde.

Carlinha buzinou, gritando:

- Vivi! Detesto interromper, mas... vamos, né?

Vivi recuou três passos, andando de costas, sem desviar os olhos dos de Marcela. E então se virou e voltou para o carro.

Lu estava muda. Paralisada. Vivi também estava muito calada. Mas Carlinha, para variar, não podia deixar de dizer:

- É, Lu... Parece que você não conhece a Vivi tão bem quanto pensava, né?

E riu às gargalhadas. Vivi saiu com o carro. Passou por Marcela que continuava lá parada, olhando para ela estática.

Confusa, perdida, desorientada... Ainda sob o efeito ardente e macio dos lábios dela... Era como Marcela estava se sentindo quando o carro de Vivi passou por ela.

Vivi a tinha beijado de um jeito que fez Marcela desejar se render, conquistar, pertencer, ganhar e se perder naquele incêndio que Vivi provocava.

Coisa totalmente incoerente, levando em conta que Marcela era louca e absolutamente apaixonada por Gisele. E que Vivi era - sim, ela era, porque o que tinha acontecido entre elas não queria dizer nada � hetero.

Só podia estar carente. Muito carente, aliás.

Pegou o capacete que tinha deixado na garupa, colocou na cabeça, subiu na moto, e seguiu atrás do carro guiado pela dona dos olhos verdes que a confundiam completamente.

 

Vivi não falou mais nada até chegarem no Leme e entrarem na garagem do prédio dela. Na verdade, Carlinha ficou falando sozinha, soltando várias tiradas engraçadas que aos poucos foram melhorando o clima tenso que tinha se estabelecido dentro do carro.

Marcela estacionou a moto num canto, onde Vivi tinha indicado. E ficou esperando por elas perto do elevador. Subiram com Carlinha tagarelando sem parar, daquele jeito dela super divertido, que não permitia que ninguém ficasse sem rir. Como eu já disse antes, ela era realmente muito engraçada.

A primeira coisa que Marcela reparou quando entraram na sala, foi um oratório imenso, com duas velas, dois vasos com plantas verdes, um sino, e alguns potes que não soube identificar.

Vivi explicou, ao ver o olhar interrogativo de Marcela:

- Sou budista.

Mais do que isso, Vivi era �fukuchi�, ou seja, tinha nascido numa família budista. Marcela continuou prestando atenção:

- O que nós vamos fazer agora chama �Daimoku Sansho�, que é recitar o NAM MYOHO RENGUE KYO três vezes.

Marcela ficou muito curiosa:

- Recitar o que?

- NAM MYOHO RENGUE KYO!

Repetiram Lu e Carlinha juntinhas, mais do que acostumadas. Afinal de contas, eram amigas de Vivi há muito tempo. E apesar de não serem budistas, faziam Daimoku Sansho em sinal de respeito, sempre que entravam e saiam da casa de Vivi.

Vivi entregou um cartãozinho para Marcela, onde tinha o mantra escrito:

- Mas você não precisa fazer se não quiser...

Marcela sorriu. E disse:

- Não, eu quero. Só queria entender pra que...

O interesse de Marcela fez os olhinhos verdes brilharem de forma irresistível:

- É pra cumprimentar o Gohonzon...

Marcela estava um pouco tonta com o monte de nomes japoneses. Vivi percebeu:

- É um pergaminho, vou abrir pra você ver.

E dizendo isso, abriu as portas do oratório, e uma luz acendeu lá dentro  automaticamente. Marcela pôde ver um pergaminho cheio de escritos que obviamente não conseguiu ler, porque eram todos ideogramas.

Isso a deixou um pouco confusa, porque sempre achou que budismo tinha a ver com aquela imagem do Buda que as pessoas colocam em cima de moedas com a barriga de frente para a porta.

Como se adivinhasse os pensamentos dela, Vivi falou rindo:

- Você deve estar se perguntando: �cadê aquele Buda gordinho?�, né? Aquele é o Buda Amida, não tem nada a ver com o nosso budismo, que é o de Nitiren Daishonin. Mas depois, se você quiser, te explico tudinho, ok?

Marcela concordou com a cabeça. Lu e Carlinha se aproximaram delas, juntando as mãos como se faz na meditação, mas de olhos abertos, olhando para o pergaminho. Marcela as imitou. Vivi apontou o centro do pergaminho, dizendo:

- Olha pra cá. Pra essa parte que parece um coração, tá vendo?

Marcela fez que sim. Vivi bateu o sino três vezes, juntou as mãos e as quatro disseram juntas � Marcela com uma certa dificuldade, mas conseguindo acompanhar até que bem:

- NAM MYOHO RENGUE KYO... NAM MYOHO RENGUE KYO� NAM MYOHO RENGUE KYO�

Depois Vivi fechou o oratório, e quando elas se viraram, deram de cara com a mãe de Vivi, com um enorme sorriso:

- Que bom, meninas! Parabéns! Só de recitar uma única vez já se acumula a boa sorte de entrar na vibração do universo...

- Oi, tia...

Disseram Lu e Carlinha, de novo ao mesmo tempo.

- Lu! Carlinha! Queridas! Tava com saudade de vocês...

Beijou Lu e Carlinha, e depois parou na frente de Marcela, dizendo:

- Você eu ainda não conheço...

De uma forma simpaticíssima. Que fez Marcela dizer com um sorriso:

- Marcela... Muito prazer...

- Marcela, o prazer é todo meu! Eu sou a Lúcia, mãe da Vivi. Fique à vontade, viu?

Deu dois beijinhos em Marcela. E depois abraçou e beijou Vivi muitas vezes. Vivi retribui, sem oferecer nenhuma resistência. Parecendo estar gostando muito até.

Coisa que surpreendeu Marcela porque... se a mãe fizesse isso com ela na frente das amigas, ia morrer...

 

O pai de Vivi estava trabalhando. A irmã fazia medicina, passava o dia inteiro no Fundão. Por isso a mesa estava posta para cinco. E Marcela teve outra surpresa, quando viu um enorme pedaço de carne assada. Perguntou baixinho para Vivi, que estava sentado ao lado dela:

- Vocês comem carne?

- Claro! Você tá confundindo com o Zen Budismo. Não é o mesmo budismo, sabe?

A mãe de Vivi completou, com muito mais paciência:

- No nosso budismo qualquer pessoa pode atingir o estado de Buda � é um estado, não é uma pessoa � que existe dentro de todos nós. E pra isso não é preciso se afastar da sociedade nem qualquer tipo de prática austera. Pelo contrário.

Vivi completou, com os olhos cintilando significativamente quando encontraram os de Marcela:

- Como a flor de Lótus, que nasce da lama. Quanto mais lama em volta dela, mais bonita é a flor...

Marcela sorriu, os olhos negros parecendo cintilar de volta. Criando um  brilho entre elas, perceptível para todas que estavam na mesa.

Lu abaixou os olhos, fingindo estar muito entretida com a comida. Carlinha sorriu, um pouco nervosa. A mãe de Vivi as observou atentamente, e depois disse, sem desmanchar o sorriso do rosto:

- A Vivi te explica tudo. Afinal de contas, você é �chakubuku� dela...

Marcela fez uma cara tão perplexa, que Vivi riu. Depois explicou:

- Literalmente, �chakubuku� quer dizer tirar o sofrimento e mostrar a  felicidade... Mas o que minha mãe quer dizer é: eu apresentei você pro budismo, ou seja, você é minha �chakubuku�. Entendeu?

Marcela fez que sim com a cabeça. Tirar o sofrimento e mostrar a  felicidade... É, realmente, sempre que estava com Vivi sentia uma alegria intensa... Do nada...

Carlinha encerrou o assunto com uma daquelas frases bombásticas dela:

- É igual em �O Pequeno Príncipe: tu és eternamente responsável por aquele que cativas�. No caso de vocês, por aquela que cativas, não é mesmo?

Carlinha riu sozinha. Lu manteve a cabeça enterrada no prato. A mãe de Vivi apenas olhou de Marcela para a filha com um leve sorriso surpreso nos lábios.

Marcela olhou para Vivi, sem entender a sensação estranha que fez todo seu corpo pulsar mais rápido. De uma forma inexplicável, cativa era a palavra certa. Dos magníficos olhos verdes. Que tinham sobre ela um poder quase mágico.

Com uma expressão absolutamente perdida, tentou encontrar uma resposta nas faíscas verdes. Inutilmente.

Porque Vivi desviou os olhos, evitando que Marcela lesse a verdade expressa neles... E deixando que a mãe visse e tivesse certeza que...

Se a frase de Carlinha estava certa, Marcela já era inteiramente responsável por Vivi...

 

Depois do almoço foram para o quarto de Vivi. Marcela quase riu. Aquele quarto era o oposto do dela...

Todo arrumadinho e... rosa... tão absurdamente rosa... Marcela nem sabia que existiam tantos tons de rosa diferentes...

Em cima da cama de solteiro uma colcha e almofadas - cor de rosa, é claro... Do lado da cama, uma mesinha com um computador cheio de adesivos brilhosos. Em cima do gabinete, miniaturas das meninas super poderosas.

Uma estante com muito menos livros do que bonecos de pelúcia � de todos os tamanhos, tipos e formas, até um urso polar tinha!

Normalmente, Marcela diria que o quarto era... fresco. Mas como era o quarto de Vivi, achou fofo, uma gracinha mesmo.

Só então reparou nas fotos penduradas na parede. De Vivi dançando. Bem pequenininha, depois com um sorriso desdentado na frente, um pouco maiorzinha, e então, já adolescente... Mas nenhuma recente, de Vivi como Marcela conhecia. Não agüentou de curiosidade:

- Você dança?

- Dançava... Machuquei o joelho, quatro anos atrás, e não pude mais...

Vivi disse com um sorrisinho triste. Que fez Marcela sentir um aperto no coração, entendendo perfeitamente como se sentiria se não pudesse mais cantar ou tocar. 

- Sinto muito...

Marcela falou de um jeito tão sincero e profundo, que Vivi percebeu que ela tinha compreendido o que parar de dançar significava para ela.  E isso a surpreendeu completamente.

Foi Lu quem interrompeu:

- Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, meninas, mas... vamos começar?

Sentaram no chão, mas ainda ficaram algum tempo fazendo comentários sobre os professores, as aulas, até o assunto ser as notas da prova de constitucional que a professora tinha entregado. Marcela apenas observava, sem dizer nada. Vivi perguntou baixinho:

- Que foi? Tá tão calada...

Mas Lu ouviu, e aproveitou para soltar um veneno:

- Ela não deve ter o que falar, né? Passa todas as aulas ouvindo música...

Ao que Marcela respondeu, com um tom de superioridade irritante:

- Até agora nenhuma aula me fez falta...

Lu riu, com uma ironia tão grande, que foi quase um tapa:

- Até parece! Quanto você tirou na prova, hein? Fala!

Marcela riu com desdém, e respondeu:

- Não te interessa.

Vivi tentou apaziguar os ânimos:

- Meninas, por favor... Menos...

Lu insistiu:

- Não, já que ela é tão fodona, quero saber a nota dela... A minha foi oito e meio.

Colocou a prova no meio da roda, em desafio, como se fosse um jogo. Pediu a prova de Carlinha e a de Vivi também:

- Vamos lá, coloquem as cartas na mesa.

Carlinha colocou, muito sem jeito. Elas viram um sofrível sete e meio. Vivi se recusou, irritada:

- Vamos parar com isso?

E então a própria Marcela disse:

- Não, mostra a sua prova, Vivi. Tá na boa...

Vivi então colocou a prova no chão. Um nove. A mais alta até então.

Marcela abriu um sorriso. Parecia estar jogando pôquer. Pegou a prova na mochila e jogou com desprezo por cima de todas as outras.

Deixando as três de queixo caído porque... tinha tirado nove e meio.

E ainda tirou onda dizendo:

- Sinto muito, meninas... Mas numa família como a minha, a gente aprende a diferença entre uma constituição outorgada e uma promulgada antes de cair o primeiro dente de leite...

 

Depois da revelação bombástica que foi a nota de Marcela, Lu ficou quieta. Terminaram o trabalho sem mais incidentes.

Vivi acompanhou as amigas, descendo no elevador com elas. Lu e Carlinha ficaram na portaria. Vivi seguiu com Marcela até a garagem.

Quando Marcela colocou o capacete e subiu na moto, Vivi tomou coragem para tentar explicar o inexplicável:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela abriu o vidro do capacete e gritou:

- Que? Não escutei...

Vivi repetiu:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela deu um sorriso provocante, e olhou bem dentro dos olhos verdes:

- O beijo?

Deixando Vivi totalmente sem jeito:

- É... Eu queria... quer dizer... não queria... ai...

E escondeu o rosto com as duas mãos, morta de vergonha e se achando uma idiota completa.

Marcela sorriu, achando graça. Muita graça mesmo. Até o pescoço de Vivi estava vermelho. Tirou e pendurou o capacete, desceu da moto, e se aproximou dela:

- Ei...

Pegou nos pulsos de Vivi com delicadeza, e afastou as mãos dela do rosto. De uma forma absolutamente suave, a fez levantar a cabeça e olhar para ela.

A escuridão dos olhos negros parecia estrelada... por um brilho verde sedutor... Que Vivi não reconheceu como o reflexo fulgurante de seus próprios olhos...

Marcela aproximou a boca lentamente - o coração a galope no peito - e abriu os lábios sobre os de Vivi de uma forma absolutamente ardente e sensual.

 

 

Capítulo 10: Porque a gente é assim?...

O efeito do beijo sobre Vivi foi eletrizante. Sentiu a onda de calor se espalhar por cada parte do corpo como uma reação em cadeia.

Os lábios de Marcela se moviam sobre os dela de uma forma exigente, sedutora que a fez abrir os lábios inconscientemente para dar acesso à língua dela.

Marcela segurava o rosto de Vivi entre as mãos. Sentiu que ela a enlaçou e puxou com suavidade pela cintura, soltando um pequeno suspiro quando os corpos se encostaram.

Doce... Muito doce... era o gosto de Vivi, que parecia derreter sob os lábios de Marcela.

E então, de repente, a entrega dela se transformou. Em chamas. Atordoantes como as que Marcela já tinha visto tantas vezes dentro dos olhos verdes.

Subiu a mão pelas costas de Marcela, a comprimindo mais contra o corpo dela. Encontrou a nuca, enfiou os dedos entre os cabelos dela arrancando um gemido. E foi a vez de Marcela se derreter...

Vivi poderia ficar ali a vida inteira, as bocas, línguas e corpos colados, respirando juntas quase como se fossem uma só... E o jeito como Marcela a segurava... como se naquele instante, ela e Vivi se pertencessem...

Mas então ouviram um alarme. Da sirene que avisa que a porta da garagem está abrindo.

Rapidamente se separaram, e ficaram se olhando sem nada dizer.

Um carro passou por elas, o motorista cumprimentou Vivi, que respondeu com um aceno de mão. Quando voltou a olhar, Marcela já estava montada na moto, colocando o capacete.

Vivi colocou as mãos nos bolsos de trás da calça jeans, meio sem jeito. Marcela percebeu, mas estava confusa, sem saber o que fazer também. Deu um sorriso para Vivi, e disse � porque não tinha o que dizer:

- Te ligo...

Mas era evidente que não tinha a menor intenção de ligar. E aproveitando a porta da garagem ainda aberta, ligou a moto e saiu. Saiu, não: fugiu é a melhor palavra.

 

Vivi não ficou esperando ela sair. Assim que Marcela passou por ela de moto, deu as costas e entrou no elevador, absolutamente furiosa.  Com Marcela, com o beijo, e acima de tudo, consigo mesma.

Entrou em casa e viu a mãe sentada em frente ao gohonzon fazendo daimoku (recitando NAM MYOHO RENGUE KYO). Olhou para o relógio: cinco e meia.

Puxou uma cadeira, sentou atrás dela, e começou a recitar também. Só conseguiu começar a se acalmar depois de 20 minutos. Depois de mais dez minutos, a mãe se levantou. Vivi passou para a cadeira da frente, e continuou.

Quando a irmã de Vivi chegou em casa, já passava das sete horas. E Vivi ainda estava lá.

Pela forma como Vivi recitava, parecia estar desafiando algum obstáculo muito grande. Beijou Vivi rapidamente, para não interromper. Depois foi até a cozinha, beijou a mãe, e perguntou:

- Que tá acontecendo?

Não precisou explicar sobre o que estava falando. Tinha certeza que a mãe também tinha percebido. E que, conhecendo as filhas como conhecia, até já sabia a resposta. Mas dona Lúcia apenas disse, com um sorriso sábio nos lábios:

- Vamos esperar ela nos dizer...

 

Marcela saiu do prédio de Vivi com a cabeça a mil. Sem entender direito o que sentia, nem o porque de ter feito aquilo. Não fazia o menor sentido ter beijado Vivi. Eram amigas. Mas por quanto tempo? Muito pouco se Marcela continuasse agindo daquele jeito...

Verdade que os olhos verdes tinham um efeito quase hipnótico sobre Marcela. Que a encantavam completamente...

E quando tinha levantado o rosto de Vivi e o enfeitiçante brilho de esmeraldas mergulhou nos olhos dela, Marcela tinha sido dominada por uma  estranha loucura. Que a impedia de pensar ou desejar outra coisa além de provar aqueles lábios novamente...

Resolveu fazer o que sempre fazia quando queria esfriar a cabeça e pensar. Foi até o Leblon, na rua do canal, subiu até o mirante e estacionou a moto.

Sentou na mureta de pedra e olhou em volta. A maioria das pessoas ia lá por dois motivos: fumar maconha ou trepar. Vários carros estavam estacionados, com as janelas fechadas, algumas bem embaçadas por sinal...

A própria Marcela já tinha trepado com Gisele ali várias vezes. Pelo puro prazer do risco...

Um pouco mais embaixo, três pessoas dividiam o que tinha sobrado de um cigarrinho de maconha � mal dava para ver a ponta acesa, mas o cheiro era inconfundível.

Marcela abriu o saco plástico que tinha na mão, tirou um baseado já apertado lá de dentro, acendeu com o Zippo e tragou.  Fechando os olhos, sem se importar com a vista magnífica. Tentando desesperadamente escapar do que  não saía da cabeça: dois cintilantes olhos verdes e as chamas que a consumiam.

 

Nos dia que se seguiram, quase não se falaram. Na 6ª feira, Vivi estava sentada sozinha na cantina quando Marcela se sentou na frente dela, meio sem graça:

- Oi, Vivi...

A resposta de Vivi foi seca, totalmente diferente do tom doce de sempre:

- Oi.

 Marcela enrolou, puxou vários assuntos, tentou ser divertida, mas só conseguiu respostas monossilábicas e frias. Sem suportar a indiferença dela, disse:

- Não vou agüentar se você continuar me tratando assim...

A frase surtiu o efeito desejado. A voz de Vivi soou bem diferente:

- Assim como?

Marcela a olhou fundo nos olhos. E se arrependeu, porque na mesma hora foi ofuscada pelo inebriante verde:

- Fria, distante... Quero você como era antes...

Vivi suspirou profundamente. Tinha decidido se afastar de Marcela, mas... bastou um único olhar, e a voz maravilhosa falando como se não existisse nada no mundo além delas, para Vivi ficar tentada a ceder...

Os olhos negros a fitavam sem desviar ... deixando Vivi vislumbrar neles uma tempestade de sentimentos. Um profundo e escuro tormento... Que fez Vivi se comover. E tornando a idéia de resistir absolutamente impossível.

Vivi tocou na mão de Marcela em cima da mesa, recebendo em troca um sorriso absolutamente lindo. Que a fez voltar a ficar completa e inevitavelmente prisioneira do encanto dela...

Tanto que concordou em assistir ao show da banda de Marcela aquela noite na Lapa... Quase que sem querer...

 

O lugar estava cheio. Era um evento chamado  BOEMIA ROCK! Que acontecia no Casarão Cultural dos Arcos da Lapa, onde a cada 6ª feira três bandas diferentes tocavam.

Vivi sentiu um profundo alívio por Carlinha ter concordado em ir com ela. Não ia suportar ficar sozinha.

Na verdade, estava ali sem saber porque. Afinal de contas, era uma verdadeira tortura ver Marcela tocando sem poder...

Sem poder o que? Era exatamente por isso que não deveria estar ali... Porque ficar perto dela só a fazia desejar coisas impossíveis e sofrer.

Marcela se aproximou, com um enorme sorriso. De tênis all star, jeans,  camiseta e munhequeiras pretas... Linda, linda de morrer.

Deu dois beijinhos em Vivi, cumprimentou Carlinha, se desculpou e... rapidamente desapareceu.

 

Marcela ficou com as pernas bambas na hora em que Vivi a olhou, ou seria mais certo dizer: a devorou com os olhos.

E depois, quando beijou Vivi no rosto, os olhos verdes se fixaram na boca de Marcela de um jeito que fez o coração dela disparar no peito. Por isso e só por isso, se afastou dela correndo.

Chegou perto do pessoal da banda, que estava fumando um baseado num canto. Depois de uns tapinhas conseguiu quase voltar ao normal.

Na hora certa, porque... eram a primeira banda a se apresentar.

 

Carlinha achou o comportamento de Marcela muito mais do que estranho:

- Que será que deu nela?

Vivi deu de ombros, e respondeu irônica:

- Mais fácil desvendar os mistérios do universo do que entender a Marcela...

Então ouviu a voz maravilhosa já tão conhecida dizendo no microfone:

- Boa noite! Nós somos os �The Mitidos�, e vamos começar com uma música

de um poeta genial, que acima de tudo, nunca deixou de dizer a verdade: Cazuza!

O baterista começou tocando sozinho. Marcela ficou balançando o corpo, sentindo o ritmo com os olhos fechados e um sorriso irresistível. Entrou tocando junto com o outro guitarrista e o baixista, e só então cantou, daquele jeito irreverente, selvagem e absurdamente provocante dela:

 

�Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que que a gente é assim? É...

Agora fica comigo
E não não desgruda de mim, não
Vê se ao menos me engole, baby
não me mastigue assim...

Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que a gente é assim?�

Durante o breve instrumental, Marcela falou, com um sorriso irônico, rebelde, agressivo:

- E eu continuo queimando até a última ponta...

Foi muito aplaudida pelos maconheiros de plantão. Voltou a cantar ainda entre gritos, palmas e assobios:

 

�Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que a gente é assim?�

 

Vivi foi passando pelas pessoas e se aproximando até ficar em frente aos olhos negros. Quase sem querer, como se o jeito magnético de Marcela cantar, respirar e ser a puxasse para perto dela.

Marcela estava absolutamente consciente da presença de Vivi. Tão próxima que as chamas verdes pareciam subir no palco e incendiar Marcela inteira.

Exatamente nesse momento, começou a parte mais lenta da música. Por coincidência, ironia do destino, ou magia...

Marcela se deixou ofuscar nas esmeraldas incandescentes, que resplandeceram ainda mais quando cantou, para Vivi inteiramente:

�Você tem exatamente
Três mil horas pra parar de me beijar
meu bem, você tem tudo
Tudo pra me conquistar

Você tem apenas um segundo
Um segundo pra aprender a me amar
Você tem a vida inteira, baby,
                                                                                                                          a vida inteira
Pra me devorar!�

 

A forma como Marcela a olhou enquanto cantava... Fez o corpo de Vivi responder como se Marcela a tocasse... A respiração se tornando difícil conforme a pele inteira ia ardendo num delicioso pulsar que começava entre as pernas... Incontrolável sensação de desejo... A mesma que viu florescer nos olhos negros... E que Marcela também reconheceu...

Por questão de minutos, foi como se as almas se encontrassem.
Fazendo Marcela terminar de uma forma muito menos ácida. Principalmente a última frase, onde pareceu realmente parar e se questionar:


�Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que a gente é assim?�

(Porque a gente é assim? Barão Vermelho - Cazuza/Frejat/Ezequiel Neves)

 

Vivi ficou ali parada, frente a frente com Marcela, que também estava estática. Os olhos ligados como imãs, sem reparar nas pessoas aplaudindo em volta.

A segunda música começou, e Marcela começou a tocar e cantar automaticamente, um pouco perdida ainda...

Conseguiu retomar o controle de si mesma quando desviou os olhos dos de Vivi. Apenas por segundos, porque... Gisele estava se aproximando, estranhamente sorridente, acompanhada por duas amigas.

Quando procurou Vivi novamente com os olhos, ela tinha desaparecido.

 

 

Capítulo 11: Raspas e Restos...

Vivi acompanhou o olhar de Marcela. Viu a loira se aproximando dela, e não agüentou: virou e saiu puxando uma Carlinha completamente perplexa:

- Vivi, espera... Onde você tá indo?

Só parou quando já estavam do lado de fora. Carlinha continuou:

- Não tô entendendo nada... A Marcela tava cantando pra você... Parecia até que só tinham vocês duas ali... Foi lindo, Vivi...

- É... foi lindo...

Disse isso e desabou. Abraçou Carlinha, e começou a chorar. Um choro baixinho, doído, sofrido demais. Carlinha abraçou a amiga, querendo ajudar, mas ainda não estava entendendo nada:

- Por que você saiu desse jeito? Pensei que você gostasse dela...

Vivi levantou o rosto. Olhou para a amiga, enxugou as lágrimas. Apenas para elas voltarem a escorrer quando disse:

- Gosto. Amo. Tô completamente apaixonada, louca por ela... Mas pra Marcela, não passo de um estepe... Só sirvo pra quebrar o galho, e ainda assim em último caso...

Enxugou as novas lágrimas. Dessa vez definitivamente. Carlinha a olhava muito séria, parecendo estar pensando bem no que ia dizer:

- Olha, amiga, não quero me meter, mas... Pra quem tá olhando de fora... A Marcela parece caidinha por você...

Vivi sacudiu a cabeça, sem dar ouvidos a Carlinha. Coitada, não sabia de nada, e estava querendo ajudar...

Apenas pediu, sem conseguir disfarçar o quanto sua voz estava tristonha:

- Vamos pra casa... Por favor...

 

Depois que Vivi desapareceu, para Marcela pareceu que tudo perdeu a cor. Tocou as três últimas músicas tão sem empolgação que o outro guitarrista perguntou se ela estava se sentindo bem.

Agradeceu a platéia, saiu do palco, e estava ajudando a guardar as coisas quando Gisele a puxou pelo braço:

- Quero que você conheça minhas amigas...

Marcela estranhou. Gisele nunca a apresentava a ninguém. Mas não disse nada. Deixou que Gisele a puxasse pela mão, enquanto passavam no meio das pessoas.

Pararam em frente a duas mulheres que aparentavam ter a idade de Gisele, mas que não eram, nem de longe, tão bonitas quanto ela. Gisele comentou com elas:

- E então? Minha gatinha não é um tesão?

Disse isso com a mão no pescoço de Marcela, com um orgulho de proprietária, como se ela fosse um objeto. As duas amigas concordaram animadamente. Gisele completou:

- Marcela, essas são Silvia e Amanda. Hoje é o aniversário de casamento delas. 12 anos... Uma vida, né?

- Oi, Marcela...

As duas falaram juntas, devorando Marcela com os olhos. Marcela apenas respondeu, sem dar muita atenção:

- Oi.

E se virou para beijar Gisele, mas ela desviou a boca, praticamente ordenando:

- Bom, se você já acabou por aqui, vamos...

Puxou Marcele sem nem dar tempo dela perguntar: �Pra onde?�

 

Muito aborrecida por Gisele a ter deixado ir sozinha no carro, Marcela seguiu as três até uma casa na Urca. Estacionou na garagem ao lado do carro delas.

Quando chegaram na sala, Gisele se acomodou num sofá e as duas num pufe grande, daqueles que afundam.

O chão da sala era todo revestido de carpete branco. Por causa dele tiraram os sapatos. Marcela caminhou até o sofá, e Gisele a fez se ajoelhar no chão, entre as pernas dela. A beijou sensualmente, a segurando pela nuca, descendo a mão pelas costas de Marcela, causando arrepios. Apertando as nádegas dela, dizendo:

- Você é um tesão, garotinha...

Amanda entregou dois copos de Whisky com gelo para Gisele. Que colocou um deles na mão de Marcela, dizendo:

- Toma... Bebida de gente grande... Quem sabe você cresce...

Apertou a bochecha de Marcela como se ela fosse criança, rindo da cara dela. Depois falou como quem dá uma ordem:

- Aperta um pra gente.

Marcela tirou o conhecido saco plástico do bolso, com um sorriso:

- Já tenho um prontinho...

- Então acende, baby...

Marcela acendeu o baseado com o Zippo, deu dois tapinhas, e passou para Gisele. Sentou no chão, encostada nas pernas dela. Silvia e Amanda se aproximaram. Sentaram na frente de Marcela.

Quando o baseado chegou pela terceira vez nas mãos de Gisele, ela chamou Marcela:

- Vem cá...

Marcela se ajoelhou, e aproximou o rosto, já sabendo o que ela queria. Gisele virou o baseado ao contrário, colocando a parte acesa dentro da boca, com cuidado. Marcela tapou um lado do nariz e respirou fundo quando Gisele soprou a fumaça na narina destapada.

Conseguindo o efeito de explosão que Gisele sabia que Marcela adorava. Gisele a beijou de leve nos lábios, e Marcela voltou a se sentar aos pés dela, toda feliz.

Quando acabou o baseado, Silvia bateu quatro carreiras de coca no vidro da mesinha ao lado do sofá. Gisele imediatamente se levantou. Marcela nem se moveu. Ficou desfazendo a ponta que tinha sobrado, para reaproveitar num novo baseado.

Silvia e Amanda olharam interrogativamente, e Gisele ironizou:

- Ela não gosta... Só curte coisinha de criança mesmo...

As três riram. Marcela continuou apertando o baseado, como se não fosse com ela. Se tinha uma coisa que detestava, era cocaína.

Tinha experimentado uma única vez, para nunca mais. Além de ter ficado totalmente travada - a noite inteira tentando gozar sem conseguir - depois não  dormiu nada. E o dia seguinte a fez desistir definitivamente de repetir: olheiras profundas, as maçãs do rosto e o nariz totalmente dormentes, uma dor horrível no maxilar e uma depressão do tipo: se sentia um pano de chão sujo e amassado. Esse tinha sido o resultado.

Além disso, achava péssima a energia das pessoas que cheiravam. Uma coisa meio na fissura de ficar cheirando mais e mais, misturada com uma neura meio paranóica... Bem diferente daquele estado �tô na paz� que tanto gostava na maconha. E do efeito �tô na pista� do Special K e do Ecstase... É, definitivamente, cheirar não era a praia de Marcela...

Ficou ali fumando o baseado dela, enquanto as três cheiravam em volta da mesa, parecendo insaciáveis. Várias carreiras, exatamente como Marcela tinha calculado.

Ficaram nessa ainda por algum tempo, porque Marcela fumou meio maço de cigarros, e as quatro juntas beberam duas garrafas de Whisky quase inteiras.

Marcela, diga-se de passagem, também não tinha o hábito de beber Whisky. Preferia cerveja, que achava bem mais light...

Já estava meio tonta quando Gisele voltou para o sofá e a puxou, fazendo com que Marcela se ajoelhasse de novo entre as pernas dela.

Colou a boca na de Marcela, depois desceu os lábios pelo pescoço dela, fazendo Marcela se derreter. Provocou, mordiscando o lóbulo da orelha que se oferecia... E sussurrou baixinho no ouvido dela:

- Quero que você seja o meu presente pras minhas amigas...

Marcela não acreditou no que ouviu. Ficou paralisada. Depois olhou para Gisele, perplexa.

A loira a segurou pelos cabelos com tanta força, que arrancou um gemido de dor. Depois disse, deixando bem claro que o que estava em jogo era se ia ou não sair com Marcela novamente:

- O que gosto em você, gatinha, é que sempre faz tudo que eu quero...

Marcela respirou fundo. Olhou Gisele nos olhos, e balbuciou com a voz tremendo:

- Tá...

Foi só o que conseguiu dizer. Gisele a beijou quase com violência. Depois falou:

- Não precisa fazer nada. Elas não querem que você toque nelas. Querem só te comer. É só você ser bem passiva e gozar. Nada demais. Não me decepciona, tá?

Silvia e Amanda a esperavam, a poucos passos de distância. Tinham colocado um CD. Marcela reconheceu a voz de Janis Joplin com facilidade. Cantando �Summertime�.  

Marcela se aproximou das duas mulheres - que a olhavam como se ela fosse um pedaço de carne - como quem caminha para o cadafalso.

 

Os pais de Vivi estavam viajando. Tinham ido para um curso de aprimoramento do budismo em São Paulo. A irmã tinha ido dormir na casa do namorado.

Sozinha em casa, ficou perambulando, sem ter o que fazer.

Comeu um sanduíche, escovou os dentes, encheu a banheira de água quente e ficou imersa lá dentro, ouvindo música. �All Over Me� (Erin Kelly).

Evitando pensar em Marcela. Inutilmente. Os olhos negros olhando profundamente para ela enquanto cantava estavam gravados, encravados em sua mente. Apareciam mesmo sem querer.

Àquela hora, com certeza, Marcela estava nos braços da loira insuportável. Toda derretida e apaixonada, como sempre.

O simples pensamento fez Vivi ficar com tanta raiva que escorregou e acabou ficando submersa. Sentou rapidamente. Por sorte, o fio dos fones era comprido, senão teria afogado o MP3...

Saiu da banheira, se enxugou, passou hidratante no corpo, secou e penteou os cabelos, mas continuava sem sono nenhum.

Vestiu uma blusa e uma calça, foi até a sala, abriu o oratório, acendeu as duas velas e um incenso, e começou a fazer daimoku.

Depois de 15 minutos, o coração se acalmou. Foi ficando com sono... Bocejou... Bateu o sino 3 vezes, fez Sansho, fechou o oratório e apagou as velas.

Quando chegou no quarto, vestiu a camisola, deitou na cama e adormeceu instantaneamente. O tranqüilo sono dos justos...

 

Silvia e Amanda caíram em cima de Marcela de uma forma faminta, voraz, quase vampiresca. Uma na frente dela, e outra atrás.

Silvia mordeu, chupou, beijou e lambeu a nuca de Marcela, enquanto Amanda fazia a mesma coisa em toda a extensão do pescoço. Parecendo sincronizadas.

Como tinha prometido para Gisele, Marcela se entregou completamente nas mãos delas. A livraram da blusa, do jeans, da calcinha, as mãos a acariciando, tocando e explorando com pressa...

As bocas se colaram nos seios dela, fazendo Marcela gemer... Gisele apenas observava, sentada no sofá tão perto que se Marcela estendesse a mão conseguiria encostar nela...

Então Silvia voltou a abraçar Marcela por trás, a mão descendo entre as coxas, a tocando com uma precisão de anos de prática. Dizendo:

- Que gostosa... Toda molhada...

Amanda encaixou a coxa de Marcela entre as dela, e a penetrou com os dedos, ordenando:

- Rebola, delícia... Mexe gostoso...

Marcela obedeceu. Sem que Silvia parasse de acariciá-la. Brincaram um tempo com ela, trocando entre elas quem a acariciava, quem a penetrava... Fazendo um sanduíche de Marcela, se esfregando nela com vontade, gemendo e a fazendo gemer cada vez mais alto.

A música mudou. Ainda Janis Joplin. Dessa vez cantando �Kozmic Blues�.

Amanda e Silvia se beijavam, entre elas somente. Porque nenhuma das duas encostou a boca na de Marcela. Muito menos tiraram a roupa. Apenas Marcela estava completamente exposta, nua, como um brinquedinho perfeito para ser usado.

Os dedos de Silvia se tornaram mais ousados. Tocaram Marcela em outro lugar... Amanda continuou a movimentar os dedos dentro dela, enquanto Silvia penetrava Marcela por trás.

Marcela gemeu alto... Quanto mais vergonha e a repulsa sentia, mais ficava excitada... De uma forma estranhamente perversa, inaceitável.

Sentindo Marcela começar a estremecer, Amanda e Silvia aceleraram os movimentos, sussurrando sem que Marcela conseguisse mais saber quem dizia o que:

- Goza, tesão... Goza... Isso, gostosinha... Assim...

As estocadas dentro dela se tornaram mais profundas, mais fortes... Todos os músculos do corpo de Marcela se contraíram e ela gozou demoradamente.

Amanda e Silvia a soltaram e ela quase caiu. As pernas estavam bambas... Gisele a chamou de uma forma que foi quase carinhosa. Mas o tipo de carinho que se usa com um bicho de estimação:

- Vem aqui, vem...

Marcela obedeceu. A respiração ainda ofegante. Gisele a fez sentar no colo, de costas para ela.

Amanda e Silvia estavam se beijando, no mesmo lugar onde Marcela antes estava com elas. O CD de Janis Joplin continuava tocando. A música tinha mudado novamente: �Maybe�.

Gisele fez Marcela se encostar nela. A beijou no pescoço, a mordeu na nuca... Tocou os seios dela com as duas mãos, fazendo Marcela suspirar de prazer. Desceu acariciando a barriga, as coxas, abriu as pernas levando as de Marcela junto. Começou a acariciar o sexo dela, arrancando gemidos.

Amanda e Silvia observavam, agora bem mais perto... Marcela abraçou Gisele pelo pescoço, e fechou os olhos, querendo fingir que estava sozinha com ela. Pediu:

- Quero gozar pra você, Gi...

Mas Gisele respondeu junto ao ouvido dela:

- As meninas querem mais de você, gatinha...

Então Amanda e Silvia já estavam com as línguas em Marcela. Deslizando, explorando, mergulhando dentro dela com intensidade. Enquanto Gisele continuava acariciando os seios de Marcela, a beijando no pescoço, na nuca, provocando Marcela habilidosamente.

E foi tortura. Uma longa e demorada tortura. Porque cada vez que Marcela estava perto de gozar elas paravam. Gisele a abraçava, e Amanda e Silvia seguravam as pernas de Marcela, a impedindo de se mexer...

Chegando a um ponto tão insuportável que Marcela começou a pedir, a suplicar, a implorar. Gisele riu, e sussurrou no ouvido dela:

- Isso, garotinha... Pede pra gozar... Implora, vai...

Marcela obedeceu, sem se importar. E quando finalmente gozou, foi com uma sensação de alívio e prazer tão intensos, que pensou que fosse desmaiar.

Demorou algum tempo para conseguir abrir os olhos e se mover.

Amanda e Silvia tinham desaparecido. A música tinha parado, deixando um silêncio que ecoava.

Gisele a olhava com um sorriso satisfeito nos lábios. Fez Marcela sair do colo dela e se sentar no sofá. Levantou, encheu um copo e entregou para ela, dizendo:

- Você merece, linda... Isso e muito mais...

Marcela bebeu o Whisky, praticamente virando o copo de uma só vez. Confusa, magoada, constrangida, envergonhada... Parecendo que tinha tido toda a energia vital arrancada, sugada por aquelas mulheres. Vampiras de almas.

A cabeça rodava... Mas por incrível que pareça, a dose de Whisky a fez voltar no tempo, para o exato momento em que tinha cantado olhando nos olhos de Vivi. Sentiu uma coisa tão forte no peito, que se levantou impulsivamente.

Catou as roupas espalhadas, se vestiu, pegou o saco plástico, calçou o All Star... Tudo isso sob o olhar incrédulo de Gisele.

- Aonde diabos você vai?

Saiu sem responder, sem nem olhar para trás. Abriu a garagem e saiu com o carro deixando a porta escancarada.

Sem idéia de que horas deveriam ser. Só sabia que já era dia claro. Tinha amanhecido sem Marcela nem perceber.

A luz e as  pessoas que já estavam na rua a incomodaram. Pareciam límpidas demais, em contraste com o que Marcela carregava por dentro.

As lágrimas escorreram rosto abaixo, embaçando a visão dela. Chorava não por dor, culpa ou outro tipo qualquer de sofrimento.

Muito pior do que isso. Chorava por não estar conseguindo sentir nada. Como se dentro dela houvesse restado apenas uma perversa espécie de ausência, de morte, de vácuo.

Colocou os óculos escuros e acendeu a ponta que sobrou do último baseado. Em vão. Não conseguiu nenhum tipo de conforto ou consolo. Apenas aquele vazio que permanecia, estático.

Em frente ao Canecão, sentiu um frio na espinha, as mãos ficaram geladas...

Ainda conseguiu perceber que estava com a pressão baixa, mas... Não deu tempo para nada. A vista escureceu como uma tela de cinema em �fade out�.

Apagou completamente.

O carro se lançou contra a grade que separa as pistas em frente ao Shopping Rio Sul. Acertando e batendo feio. E se tornando uma massa disforme e retorcida de aço, ferro e vidro estilhaçado.

 Parte 2

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