A Sensual
Virna
PARTE 6
Capítulo
9
Quando
chegou em casa, encontrou Paola sentada na sala de estar, folheando uma revista
com olhar sombrio e expressão fechada. Ela a encarou e Alex resolveu ser
cínica:
-Que
cara! Quem morreu? – Perguntou, avançando pela sala.
Paola
ergueu-se e cruzou os braços, fitando-a acusadoramente.
-Posso
saber onde esteve até agora? – Perguntou ela, em tom frio.
-Passeando
por aí – Respondeu Alex, dirigindo-se para o quarto, com Paola no seu encalço.
-Passeando
onde? Estou aqui desde as cinco horas da tarde, preocupada, e você passeando!
Alex
chegou ao quarto e abriu a porta do
closet. Guardou seu blazer e se dirigiu para o banheiro, onde despiu a calça e
fitou Paola com o cenho franzido.
-O
que pensa, Paola? Que sou uma criança? Que tenho que sair somente com você e
dar conta de tudo que faço? Ouça, eu gosto de você, mas não venha querer mandar
em mim!
-Não
quero mandar em você! Mas podia ter avisado que ia sair!
Alex
despiu a blusa, ficando somente de sutian e calcinha. Colocou as roupas no
gavetão de roupas usadas, respondendo impaciente:
-Fiquei
com vontade de sair de repente.Será que tinha que ir até a faculdade e avisar à
você, porque seu celular estava desligado? Maldição! Fico trancada nesse
apartamento noite e dia! Mal vejo a luz do sol! Pareço uma prisioneira! Sabe de
uma coisa? Vou sair quando quiser e não vou avisá-la! Não sou nenhuma mulher
dependente de alguém, entendeu? Nem de você ou
de qualquer outra pessoa!
Paola
a fitou, assustada com suas palavras .
-Tudo
bem, Alex...desculpe-me...não direi mais nada... pode sair quando quiser...
Alex
a fitou com um sorriso sarcástico.
-Pode
sair?! Paola, não preciso de seu consentimento! Vou sair quando quiser e ponto
final!
Paola
começou a chorar e Alex a fitou arrependida de suas palavras.Sentiu-se uma
pessoa má, traiçoeira. Estava traindo Paola com a mãe dela! Era uma canalha!
Mas agora não tinha mais forças para terminar a relação com Virna. A diabólica
mulher a conseguira em sua teia de sedução e agora que havia provado o fruto
proibido, não podia mais lutar contra aquela atração poderosa que a empurrava
para os braços de Virna. Pobre Paola! O mais certo era abrir o jogo com ela,
mas como dizer para ela que estava apaixonada por Virna? Temia a reação de
Paola. A reação dela seria imprevisível. Paola era muito ciumenta e
temperamental, sem muito autocontrole. Poderia fazer uma loucura, contra ela
mesma, ou contra Virna.
Se
trancou no banheiro para um necessário banho. Estava com o perfume de Virna no
corpo e tinha receio de Paola perceber. Acabou de tirar a roupa e tomou um banho, pensando no que estava
acontecendo com ela.
Virna
estava dominando seu pensamento. O que havia começado como uma simples atração
sexual, sem nenhum pensamento além de um único encontro sexual, estava tomando
um rumo no qual ela não tinha mais controle. Virna havia conseguido o que
nenhuma mulher depois de Ariadne conseguira: fazê-la apaixonar-se perdidamente.
Os momentos com Virna não saíam de sua mente, queria estar com ela repetindo tudo
que fizeram, fitando aqueles olhos cheios de desejo, ouvir aquela voz aveludada
sussurrando em seu ouvido, beijando aquela boca sensual... estava completamente
apaixonada, era inútil negar a si mesma.
Nunca
conhecera uma mulher como Virna. Ela era linda, elegante, inteligente, culta,
instigante, segura de si, com um temperamento sensual que deixava qualquer um
louco, sem ser piegas e ciumenta como tantas que tivera. Ela sabia como se
conduzir com um amante, deixando o parceiro ou parceira sempre querendo mais. E
ao lado dela, a pobre Paola simplesmente desaparecia como uma estrela sob a luz
do sol.
E
ela não era somente sua! Havia Lorenzo entre ela e Virna. Um rival temível,
porque Virna gostava de ser cortejada por um homem, ter a atenção dele e um homem podia ser visto com ela
abertamente como seu par, sem ser um escândalo. Virna prezava seu nome ilustre,
era uma condessa da antiga nobreza italiana, não iria querer expor sua
reputação sendo abertamente amante de uma mulher. E como ficaria ela ? Sendo
amante de Virna nas sombras, dividindo ela com Lorenzo? Ou, pior ainda, seria ela apenas um brinquedo
para Virna, com quem ela brincaria até enjoar e depois lhe dar um belo pontapé
no traseiro?
Esse
pensamento fez seu coração se contrair de angústia. Não, não podia pensar
assim, ou ficaria louca! Tinha que empenhar-se em conquistar Virna
completamente, para tê-la só para si! E o resto que se danasse! O amor nos faz
egoistas, reconheceu mais uma vez. Só desejamos a pessoa amada, e se existe
outra que nos ama, a ignoramos, não importa quem seja. Se Paola a ama, se
Lorenzo ama Virna, nada disso importa. Queria Virna para ela.
Acabou
o banho, enxugou-se e vestiu um pijama de seda azul. Não voltou para o quarto,
para evitar discutir com Paola. Deitou no sofá da sala, ligando a tv. Não
demorou mais de meia hora para Paola aparecer na sala. Ela se sentou na beira do sofá, fitando-a com
tristeza nos olhos negros.
-Alex,
não vai jantar?
Alex
a encarou séria.
-Não
estou com muita fome.
-Alex,
não fique com raiva de mim... – Pediu ela, com voz trêmula.
-Não
estou com raiva de você, Paola. Apenas não quero discutir.
Paola
subitamente desatou em um pranto convulsivo e a abraçou apertadamente, pousando
a cabeça em seu ombro. Alex foi tomada por pena daquela garota que mesmo tendo
seus defeitos, a amava. Abraçou-a e a beijou nos cabelos carinhosamente.
-Não
chore, Paola... não há motivo para isso... – Disse, suavemente.
Ela
apertou-se contra seu corpo, deitando-se sobre ele.
-Há,
sim! Eu sinto que você não me quer mais! Cada dia que passa, eu a sinto mais
longe de mim!
-Paola, você está enganada... apenas estou
cheia de problemas...
Ela
ergueu o rosto, fitando-a com os olhos cheios de lágrimas.
-Não
estou, não! Você mudou, Alex! O que está havendo? Você conheceu alguém? Quem é
ela?
Alex
a encarou, indecisa se falava a verdade. Optou por uma estratégia:
-Paola,
não tenho outra mulher (tecnicamente, isso era verdade, pensou. Virna não era
sua). Mas, e se eu estivesse interessada em alguém e terminasse com você? Você
não iria ficar muito tempo sozinha, Paola. Você é jovem e bela, ainda tem muito
para viver! Eu contei à você minha experiência, não contei? Ariadne deixou-me
arrasada, mas com o tempo a esqueci! Quando temos nossa primeira paixão,
achamos que vamos morrer, se a pessoa nos deixar. Mas nos recuperamos e vamos
em frente. Decepções amorosas fazem parte da vida, Paola! Você as terá, como eu
tive. Isso é normal.
Paola
se sentou na cama, a encarando com olhos tempestuosos de ciúmes.
-Esse
discurso todo é para dizer-me que você está me traindo? Eu não aceito traição!
Eu mato você e a putana que estiver com você, Alex! Você é minha! Só minha!
Alex
a encarou com indignação.A empurrou e se ergueu, fitando-a nos olhos.
-Não
sou propriedade sua! Eu não devo e não vou ficar com uma mulher sem a desejar!
Se você acha isso, vou mostrar que está enganada! Está tudo terminado entre
nós! Chega! Não suporto mais os seus ciúmes!
Paola
aproximou-se e a abraçou fortemente, rodeando suas costas. Alex tentou
desvencilhar-se, mas ela não permitiu, chorando agarrada à ela.
-Perdoe-me,
Alex! Eu não pensei no que disse!
-Paola,
nós somos muito diferentes, nossa relação não tem futuro!
-Não
fale assim! Eu a amo, Alex! Farei tudo que quiser, mas não me deixe!
Alex
respirou fundo, acalmando-se. Parou de tentar separar-se dela e a encarou ,
sentindo-se cansada daquela cena patética.
-Está
bem, Paola... vamos parar essa dicussão. Estou cheia de problemas com a minha
vernissage e quero dormir cedo.
Paola
ergueu o rosto, fitando-a com tristeza.
-Vamos
jantar, amore. Você precisa se alimentar.
-Está
bem. Ponha no microondas um prato leve.
-Pode
ser souflê de legumes?
-Pode.
Paola
foi esquentar o jantar e Alex suspirou. Não seria fácil fazer Paola aceitar a
separação. Sensatez era uma palavra
desconhecida no vocabulário dela.
Jantaram
diante da tv, vendo um filme musical, Chicago. A bela Catherine Zeta-Jones
estava estonteante no filme, dançando e cantando com uma voz belíssima. Uma voz
parecida com a de Virna...
Foram
dormir. Alex deitou de costas para Paola, dizendo que estava cansada, o que era
verdade, depois da tarde com Virna. Mas Paola era persistente. Ela se colou em
seu corpo por trás e Alex sentiu a mão dela penetrar pela cintura do pijama e
tocar seu clitóris com dedos práticos. Alex segurou o pulso dela, para
impedí-la de prosseguir, mas Paola mordiscou seu pescoço, lambeu, gemendo
baixinho, o sexo se espremendo em suas nádegas. Alex voltou-se com esforço de
frente para ela, fitando-a no escuro.
-Paola,
hoje não... estou cansada...
-Oh,
Alex... só um pouco... estou louca de tesão...- Sussurrou Paola.
Alex
percebeu que não iria conseguir evitar o ato sexual com Paola. Então, optou
para um recurso: fantasiar que estava com Virna.
-Está
bem. Mas com uma condição: não diga nada, Paola.
-Por
que, Alex?
-Por
que eu quero assim.
-Está
bem... eu quero é ser possuída por você...de qualquer jeito.
De olhos
fechados, possuiu Paola, pensando estar possuindo Virna. E esgotou Paola com
carícias loucas, até ela cair na cama exausta. Mas a fantasia não funcionou
totalmente. O cheiro de Paola era diferente, o corpo, os gemidos, as reações.
Ela precisou lembrar de várias cenas de
sexo com Virna para poder ter um orgasmo.
E ali no
escuro, com uma satisfeita Paola adormecida em seus braços, Alex pensou em
Virna com saudade até adormecer.
Capítulo
10
O dia seguinte
amanheceu com o céu azul. Fazia frio, mas não estava nevando ou chovendo e Alex sorriu animada, pensando
que ia ver Virna dentro de poucas horas.
Paola
estava sorridente, depois da noite de sexo e Alex pensou que fizera a coisa
certa. Se Paola estivesse mal humorada, seria difícil convencê-la a ir almoçar
fora e o plano de Virna iria por água abaixo.
Durante o
café Alex sugeriu saírem para almoçar e Paola concordou sorridente. Aliviada,
Alex foi para o estúdio pintar, em sua normal
rotina diária. Paola não devia ficar desconfiada de nada, tinha de agir
normalmente, mesmo que sua ansiedade a fizesse desejar ir logo para o
restaurante.
Uma hora
antes da combinada com Virna, Alex já estava pronta, com um conjunto de calça e casaco de lã azul da
prússia, blusa de malha branca e botas negras de salto alto. Paola optou por um
pulôver vermelho, calça jeans desbotada, botas e uma echarpe de lã azul escuro.
Na cabeça, um gorro de lã branco, constratando com seus cabelos escuros e anelados.
Alex a
fitou com admiração. Paola era uma bela moça. Não teria dificuldade em
conquistar um homem, quando elas se separassem. Ela apenas teria de ter juízo
para não se envolver com rapazes do tipo dos que andava antes. Não a amava, mas
gostava da ingênua garota e sua esperança era vê-la um dia feliz com alguém que
a amasse de verdade.
Levada por
uma onda de ternura, passou o braço pelos ombros de Paola e a beijou no rosto.
Paola a fitou sorrindo, caminhando para o carro que estava estacionado na garagem
do edifício.
-Hummm...
a que devo esse beijo? – Perguntou ela.
-Você está
bonita nessas roupas, Paola – Respondeu, abrindo o carro e entrando. Paola
sentou ao seu lado, fitando-a sorridente.
-Oh,
finalmente um elogio! Há quanto tempo você não me faz um !
-Mentirosa!...
Eu sempre elogio sua beleza, Paola.
-Hummmm...
quer desistir de ir ao restaurante,
voltar para o apartamento e fazer amor até não agüentar mais?
Alex a
fitou de olhos arregalados e Paola deu uma risada.
-Estou
brincando! Vamos almoçar, que é melhor!
Alex riu
aliviada, dando partida ao carro.
Chegaram
ao restaurante, que estava com lotação média, e o maitre as conduziu até uma
mesa, que dava para uma paisagem bucólica, com um rio e árvores margeando. Alex
encomendou um bom vinho da região toscana e antepasto para entrada. Só iria
pedir o prato principal quando Virna chegasse.
Sentimentos
contraditórios se degradiavam em seu íntimo, mais uma vez: remorso por ter
trazido Paola para almoçar ali para enganá-la com um plano armado, ansiedade
para ver Virna outra vez e a sensação de impotência para lutar contra a sua
paixão pela fascinante mulher.
O garçon
trouxe os pedidos e serviu o vinho. Paola ergueu sua taça, sorridente.
-A que
vamos brindar?
-À vida, Paola.
Não é bom viver? A vida é bela.
-Então,
bebamos à nossa vida ! – Brindou Paola.
-À nossa
vida, Paola... – Concordou Alex, erguendo também a taça. Bebeu um gole e olhou
para a entrada do salão, pressentindo a chegada de Virna. E a viu entrar, elegantíssima
toda de negro em um casaco e calça
colante de couro, blusa de gola alta
e botas de cano alto . Linda, elegante,
com uma aura de perigo que ainda não havia percebido nela.
Alex
tentou não demonstrar nada em sua expressão, mas falhou. Seus olhos brilharam e
Paola, de costas para a entrada, percebeu seu olhar e se voltou. Empalideceu
quando viu Virna parada na entrada, falando com o maitre.
-Oh, nãoooo... – Gemeu.
Virna
olhou em volta e as viu. Um sorriso veio aos lábios sensuais e ela se aproximou
em um andar provocante, movendo os quadris sinuosamente, as mãos nos bolsos do
casaco. Ela se debruçou ao lado de Paola, fitando Alex nos olhos.
-Ora,ora,
quem encontro aqui! Minha querida filha e sua amiga Alex! Mas que surpresa! –
Disse, com uma ponta de sarcasmo na voz.
Alex saiu
de seu enlevo com esforço e sorriu, estendendo a mão, antes que Paola
falasse alguma grosseria à Virna.
-Como vai,
signora Del Fosco? Aceita sentar em nossa mesa?
Virna
apertou sua mão e Alex sentiu um arrepio percorrer seu corpo, ao tocar naquela
mão macia e quente. Virna olhou para Paola, que ainda a fitava em silêncio,
pálida pela surpresa.
-Não vou
incomodar?
-Claro que
não, signora Del Fosco, sente-se, por favor...
O maitre puxou
a cadeira para Virna sentar e ela sentou diante de Alex, entrelaçando os dedos
longos, com unhas pintadas de uma tonalidade discreta.
-Estou
surpresa de encontrá-las juntas! Paola disse-me que você estava em Roma! –
Comentou Virna, sorrindo e piscando um olho para ela.
-Oh...eu
estive em Roma e voltei ontem. Aceita uma taça de vinho, signora Del Fosco?
Virna riu
com sua risada grave, sensual.
-Aceito,
mas peço que me trate simplesmente por
Virna. Signora Del Fosco é um modo que apenas meus criados e estranhos
me tratam. E você é uma... amiga de Paola.
Alex
enrubesceu, percebendo a ironia na voz de Virna. Fez um gesto e o garçon veio
já com outra taça, na qual serviu Virna. Ela a ergueu, numa saudação.
-Ao nosso
reencontro, Alex.
Paola
então saiu de seu mutismo:
-Você
marcou encontro com Lorenzo aqui?
Virna a
fitou com naturalidade e bebeu mais um gole de vinho antes de responder:
-Não. Eu
estava passando e deu-me vontade de almoçar aqui.
Ela olhou
para Alex com aqueles olhos maravilhosos, passando a beira da taça nos lábios.
Alex olhou para Paola. Ela a fitava com um olhar ciumento e Alex sorriu,
fingindo não perceber.
-Então,
vamos fazer os pedidos da comida? – Perguntou.
-Sim, vou
escolher – Disse Paola secamente, enfiando a cara no menu, visivelmente
contrariada.
Alex fitou
Virna. Ela lhe piscou o olho, com ar divertido.
-O que vai
escolher, Virna?
-Humm...sei
que todos os pratos daqui são deliciosos. Escolha para mim, Alex.
Alex sorriu
e olhou o menu. Tinha uma lista extensa. Olhou-a indecisa. Estava nervosa
sentada ali entre Virna e Paola, com medo de deixar transparecer o que sentia
por Virna à Paola. Suas mãos tremiam.
A perna de
Virna tocou a sua, por baixo da mesa, causando-lhe um arrepio. Ergueu os olhos
por cima do menu. Ela a fitava maliciosamente, com um ligeiro sorriso nos
lábios sensuais. Ela esfregou a perna lentamente. Alex ficou mais nervosa e
recolheu a perna, quebrando o contato.
-Vou pedir
Medaglioni di cinta al chianti. Que acha, Virna? – Perguntou, com voz um pouco
trêmula.
Virna lhe
sorriu inocentemente.
-Um ótimo
pedido, Alex. Peça o mesmo para mim.
Alex
voltou-se para Paola, que continuava com o rosto metido no menu.
-Já
escolheu, Paola?
Paola
depositou o menu na mesa com um gesto brusco, fitando-a com olhos
tempestuosos.Estava incomodada com a presença de Virna e mostrava claramente.
-Sim. Vou
pedir Carpacio di Zucchine.
Alex
chamou o garçon com um gesto e elaas fizeram os pedidos.O garçon se afastou e
Virna retomou o diálogo, quebrando o silêncio na mesa:
-Alex, o
que tem feito? Perguntei por você à Paola uma vez e ela disse-me que você anda
muito ocupada, por isso não foi mais à nossa casa.
-Ah...tenho
pintado muito, Virna. Vou expor dentro de um mês na Galeria Da Vinci.
Ela ergueu
as sobrancelhas e disse, com sarcasmo, fitando Paola:
-Então, é
uma pintora? Pensei que estudasse arquitetura com Paola!
Paola a
fitou enrubescida, pêga na mentira.
-Menti para
você, para não ficar investigando a vida de Alex, como sempre faz com meus
amigos.
-Tudo bem,
Paola. Não vou fazer drama por uma mentira idiota – Disse Virna, fitando Alex
novamente – Mas, Alex, o que pinta em seus quadros?
-Atualmente,
pinto pessoas... meu estilo é impressionismo e essa será minha primeira
exposição.
-Oh... já
distribuiu os convites?
-Não.
Ainda estou elaborando uma lista.
-Se
quiser, posso ajudá-la. Conheço muita gente importante. Isso dará prestígio à
sua exposição e será comentada pela imprensa, tendo uma excelente divulgação.
-Bem, não
estou em condições de recusar uma ajuda dessas...aceito e fico muito grata à
você, Virna... – Respondeu sorrindo.
Paola a
tocou no braço e quando Alex a fitou, falou surpresa e aborrecida:
-Alex,
acha mesmo que precisa da ajuda de Virna?!
Alex a
fitou inocentemente. Já esperava aquela reação.
-Paola,
não entende? É importantíssimo que uma vernissage seja frequentada por pessoas
conhecidas pela mídia! Isso que dá prestígio à exposição e gera notícia! E sua
mãe me está oferecendo essa ajuda preciosíssima! Além do mais, são possíveis
compradores!
-Claro –
Reforçou Virna – Conheço importantes jornalistas, críticos de arte,
colecionadores...Alex, vou ajudá-la. Ouça, tive uma idéia: Nesse fim de semana
vou dar um jantar lá em casa para alguns convidados selecionados.E posso
aproveitar esse evento para apresentá-la à eles, como minha amiga. Marcello
Dotti, um famoso crítico de arte, estará lá. Será bom ele conhecê-la. E ele é
um crítico muito respeitado pelos colecionadores de arte.
-Já ouvi
falar dele – Comentou Alex, visivelmente impressionada – Se ele gostar de meu
trabalho, estarei feita! Mais uma vez agradeço, Virna.
Virna
sorriu alegremente.
-Então,
está combinado! O jantar será no sábado às oito da noite. Mas será conveniente
você chegar uma hora mais cedo, para se entrosar com os convidados. O traje
será formal, Alex.
-Pode
deixar, vou caprichar na aparência – Sorriu Alex. Ela se voltou para Paola –
Você também vai estar lá, não é?
Paola a
fitou com a fisionomia fechada.
-O que me
resta, senão participar desse jantar com pessoas chatas! – Declarou, com
desprezo na voz.
Alex achou
melhor ignorar o comentário. Felizmente os pratos chegaram e começaram a comer.
Paola comeu em silêncio, concentrada na comida. Virna continuou conversando com
Alex, mostrando seus conhecimentos de arte. Contou que já havia trabalhado como
marchand para um pintor espanhol e tivera sucesso. E completou, com ar divertido:
-Mas
quando misturamos trabalho com romance, não deu mais certo. Juan se tornou
ciumento e chato, então terminei o romance e o negócio entre nós.
Alex
fitou-a com ciúmes. Virna era uma conquistadora, uma galinha! Teve vontade de
insultá-la, mas conteve-se à custo. Voltou-se para Paola, querendo revidar
provocando ciúme em Virna.
-Paola,
está tão quieta! Fale alguma coisa...
Paola a
fitou sem sorrir.
-Você e
Virna têm muito o que conversar. Prefiro apenas ouvir.
-Mas sua
opinião é importante, para mim. Fale o que pensa, quero ouví-la...
Alex
percebeu o olhar gelado de Virna. Ela contraiu os lábios e cruzou os talheres,
deixando de comer. Passou o gardanapo no canto dos lábios e tirou do bolso do
casaco um cartão.
-Bem,
Tenho que ir agora. Lorenzo vai chegar lá em casa dentro de uma hora.
Alex
estendeu a mão e segurou no pulso de Virna, fitando os olhos frios.
-Por
favor, Virna. Fique mais um pouco – Pediu.
Virna a
encarou . Viu o arrependimento nos olhos de Alex, mas falou:
-Tenho
mesmo que ir, Alex.
-Então,
aceite que eu pague sua refeição.Por favor.
Virna
fitou Paola. Ela as fitava com os olhos brilhando de ciúmes. Achou melhor
abreviar a discussão:
-Tutto
bene, Alex. Grazie.
Alex
soltou seu pulso e ela se ergueu e sorriu para Alex.
-Então,
até sábado, Alex. Seja pontual, por favor. Ciao, Paola.
E ela se
afastou, com seu andar sensual, movendo
os quadris . Alex teve uma vontade louca de ir com ela, mas estava com Paola.
Sentiu uma grande frustração.
-Afinal,
ela se foi! – Comentou Paola, com mau humor – Depois de estragar o nosso
almoço!
Alex a
fitou de cenho franzido.
-Não acho,
Paola. Ela foi muito gentil em querer ajudar-me.
-É, você
aceitou ajuda dela! Não esperava isso de você, Alex!
Alex a
fitou irritada.
-Seu ciúme
a torna egoista, Paola! Devia estar contente, em ver que estou sendo
ajudada!
-Você não
entende o propósito dela, Alex? Ela quer que você fique dependente dela, para
depois poder manipulá-la! Virna vai acabar destruindo o que existe entre nós!
Como ela
estava certa! – Pensou Alex, com tristeza – E o pior é que Virna já conseguira!
Ao ver Virna se retirando para ir ao encontro de Lorenzo, isso a havia
arrasado.Ela ia se entregar à aquele homem! Isso era insuportável, como
conseguiria passar o resto do dia, imaginando-a nos braços de Lorenzo? Virna
era diabólica, dissera que ia encontrar-se com ele só para enciumá-la. E agora
estava sofrendo!
-O que
está pensando, Alex? Por que está com essa expressão tão triste?
Alex olhou
para Paola e forçou um sorriso.
-Não é
nada, apenas preocupada com a vernissage. Vamos embora. Esse lugar está me
deprimindo.
Pediu a
conta, impaciente. Queria sair dali. Sozinha, sem a companhia de Paola, para ir
atrás de Virna. Mas não podia! Paola estava com ela e Virna com Lorenzo!
Maldição!
A conta
chegou, pagou e saíram. Alex pegou o carro e saiu em disparada.
-Alex,
posso saber o que a está atormentando? – Perguntou Paola, fitando-a preocupada.
Alex
respirou fundo. Tinha que acalmar-se, ou Paola iria desconfiar do que sentia.
Tinha que vencer a sua angústia . Não adintava querer jogar a culpa em Paola,
por que ela não merecia.
-Estou
nervosa com a exposição, porque estou insegura – Mentiu – Não sei se me sairei
bem.
Paola
suspirou, aliviada. Apertou sua mão.
-Ah,
entendo...mas para entender, preciso saber o que sente! Fico nervosa em vê-la
assim, sem saber o que está sentindo... fique tranqüila, amore... vai dar tudo
certo. Você é uma excelente pintora.
Alex foi
se acalmando. Tinha que manter a cabeça fria, ou faria uma loucura. Iria chegar
em casa e enfiar-se no seu trabalho,
para não pensar em Virna. Olhou para Paola com gratidão.
-Obrigada
pela força, Paola. Você é uma garota muito legal.
Ela lhe
sorriu .
-Essa é a
Alex que gosto!
No
apartamento, Alex trocou de roupa, colocando uma velha calça jeans e camiseta .
Olhou para Paola pensativamente e falou:
-Vou
pintar. Quer posar para mim?
Paola a
fitou surpresa. Alex sempre que pintava nus, contratava modelos por hora. Paola
tinha vontade de ser pintada por Alex, mas tinha receio de pedir e ser
recusada. E agora ela a convidava!
-Claro,
amore, será uma honra! É uma forma de participar de seu trabalho – Disse Paola,
sorridente.
-Então,
tire toda a roupa.
-Vai
retratar-me nua?
Alex
sorriu, divertida.
-Claro,
sabe que minha atual fase é pintar nus.
-Tutto
bene, amore...
E assim,
Alex submergiu em sua arte, fazendo surgir com suas mãos ágeis o retrato de
Paola nua. E conseguiu terminá-lo no dia seguinte, canalizando toda sua angústia
e inquietação para a pintura. E começou a pintar outro, compulsivamente. Em
três dias, tinha três quadros de Paola pintados. Havia pintado incansavelmente,
parando apenas para comer, tomar banho e dormir. Estava exausta, mas sentia-se
vitoriosa. Não havia procurado Virna nem por telefone.
Naquele
sábado pela manhã, Alex contemplou os três nus de Paola com orgulho. Eram os
melhores quadros que havia pintado. O primeiro representava Paola de pé, ao
lado de uma janela, cobrindo os seios com o braço esquerdo e o sexo com a mão
esquerda, sorrindo timidamente. O jogo de luz e sombra dava um belo efeito no
rosto e corpo. O segundo retratava Paola sentada numa cadeira, com as mãos
prendendo os cabelos, o belo rosto concentrado, com ar sonhador. A luz incidia
em seus cabelos e corpo, criando uma imagem etérea. O terceiro mostrava Paola
adormecida, deitada de lado, com uma expressão inocente.
-Estão
lindos, Alex! – Disse Paola, com admiração – Não é porque sou a modelo, mas
considero esses nus os melhores que já fez. Eles exalam vida!
Alex
concordou com ela. Talvez a sua angústia tenha resultado em algo positivo, no
final de contas. Realmente, eles transmitiam vida, os rostos tinham emoção.
-Vai
colocá-los na exposição?
-Não
sei... acho que sim. Modéstia à parte, estão mesmo muito bons.
-Como vai
chamá-los?
-As três
faces da inocência – Declarou, sem pensar muito.
Paola a
fitou espantada.
-As três
faces da inocência?! Por quê?
Alex a
fitou séria.
-Não
reparou nas expressões suas retratadas? Mostram inocência. E os corpos têm
forma de adolescentes. As poses são naturais, sem malícia.
-É assim
que me vê? – Perguntou Paola, sorrindo.
-É, sim.
Você é uma garota ingênua e romântica, Paola.
Paola a abraçou
e beijou apaixonadamente. Alex correspondeu, sentindo uma grande ternura pela
moça.Se não fosse Paola,como teria conseguido passar aqueles dias sem ver
Virna? Sentia-se grata e quando Paola apertou-se contra ela, insinuando-se, não
teve coragem de afastá-la. E o pensamento de Virna sendo possuída por Lorenzo a
fez decidir satisfazer o desejo de Paola. Levou-a para o quarto e a possuiu com
ternura, pensando que infelizmente o destino a fizera apaixonar-se pela mãe
dela, numa ironia cruel. Queria tanto que Paola fosse feliz!
Paola
atingiu o orgasmo e depois a fitou curiosa.
-E você,
Alex? Não vai satisfazer-se? O que quer que eu faça?
Alex a
fitou em silêncio. Não, não iria fingir até nisso!
-Estou
cheia de preocupações, tensa com esse jantar...vamos deixar para amanhã, Paola.
Amanhã estarei mais disposta, depois do jantar em sua casa.
-Minha
casa! Casa de Virna, você quer dizer! – Disse Paola, mudando de humor – Não
considero aquela casa minha! Quando eu completar a maioridade, vou sair de lá e
comprar um apartamento para mim. Não vou continuar morando com aquela mulher
insuportável! Eu não...
-Paola,
irá comigo ao jantar? – Cortou Alex, irritada por Paola falar daquele jeito de
Virna.
-Vou, por
que você irá! Oh! Detestarei esse jantar! Naturalmente, Virna vai convidar os
seus amigos chatos, que só falam em arte!São todos uns esnobes, como ela!
Alex
levantou da cama e se dirigiu para o banheiro, fechando a porta. Suspirou.
Finalmente, ia ver Virna novamente. Como ela a receberia? Calorosamente, ou
formal, acompanhada por Lorenzo?
Capítulo
11
A villa
estava toda iluminada, quando chegaram. O carro de Alex entrou pelos portões,
após identificar-se com o segurança
contratado, e estacionou no pátio de entrada. Ali já estavam diversos carros de
luxo e Alex xingou baixinho.Paola havia se atrasado em ficar pronta e agora
havia chegado às oito horas e não às sete, como ela havia combinado com Virna.
Saíram do
carro e Alex olhou para Paola. Reconheceu que ela estava linda, com um vestido
branco decotado, maquiada, com meias e sapatos de saltos altos.Já ela mesma
optara por um terninho justo de tecido
prateado, de Versace, com gravata borboleta
de strass azul da prússia, compondo uma imagem exótica, como queria, mas
sem ficar masculinizada.
A própria
Virna veio recebê-las, assim que entraram. Estava estonteante em um longo cor de vinho de seda pura, com decote em V e
mangas bufantes até os cotovelos. Os cabelos presos mostrando os delicados
ouvidos enfeitados com brincos de diamantes e o colo que o decote generoso
mostrava, com um colar de diamantes
combinando com os brincos.
Ela sorriu
luminosamente, mostrando os dentes perfeitos
e branquíssimos entre os lábios vermelhos, os olhos luzindo em um sorriso de boas-vindas.
-Buona
notte, Alex! – Disse, estendendo as mãos – Está elegantíssima!
Alex
segurou as mãos dela, apertando-as,
retribuindo o sorriso, querendo também dizer o quanto ela estava
deslumbrante, mas sabendo que não podia, tendo Paola ao lado.
-Obrigada,
Virna... desculpe o atraso.
-Não tem
importância, Alex... – Respondeu Virna, fitando Paola – A filha pródiga volta
lar... como está, Paola?
-Muito
bem, Virna – Disse Paola, sorrindo forçadamente.
Virna
pegou Alex pelo braço e sorriu para Paola.
-Vou
apresentar sua amiga aos meus convidados.
Virna
avançou pelo hall de entrada com Alex, seguidas por Paola. Virna sorriu para
Alex, dizendo com satisfação:
-O crítico
de arte Marcelo Dotti já chegou. Vou apresentá-lo à você. Já estão aí também
alguns colecionadores de arte. Se eles gostarem de você, irão à sua vernissage.
-Agradeço
ao seu esforço, Virna – Sorriu Alex.
Ela
apertou o seu braço e levou-a até o salão principal.
Os amigos
de Virna estavam espalhados pelo luxuoso salão, conversando e bebendo. Uma
música suave tocava, fazendo fundo à conversação. Virna começou apresentando-a
à um jornalista, Marco Vinello, um homem muito simpático que prometeu ir à sua
vernissage fazer a cobertura do evento. Depois foi apresentada ao crítico de
arte Marcelo Dotti, um homem gordo de inteligentes e penetrantes olhos, que declarou que iria à
sua vernissage porque Virna lhe pedira e nunca negaria um pedido dela. Foi
apresentada dpois à alguns colecionadores de arte, empresários, uma estilista
de moda e uma modelo, Sofia Martinelli, uma bela e elegante mulher alta, de
cabelos negros cortados em estilo Chanel, olhos castanhos bem claros e boca
carnuda. Simpática, pediu que Alex se sentasse ao seu lado no sofá, para
conversarem. Alex sentou, fitando-a com um sorriso amistoso.
-Alexandra,
você não acha que Virna devia ser modelo? Ela tem uma figura maravilhosa para
isso! Estatura, porte, elegância e beleza. Pena que ela abomina a idéia, diz
que uma nobre desfilar é sinal de decadência.
Virna, de
pé diante delas, riu.
-Não
comece, Sofia!Já sabe o que penso. Fique aí conversando com Alex enquanto vou
mandar o garçon vir serví-las com champanhe.
Virna
afastou-se com o seu andar magestoso. Alex ficou olhando-a afastar-se com
admiração. Virna era mesmo uma dama. Movia-se com graça e classe, providenciando
para que seus convidados fossem bem atendidos. Dava atenção a todos sem
distinção, com um sorriso luminoso.
-Você a
admira muito, não é, Alexandra?
Alex fitou
Sofia, saindo de sua contemplação.
-Trate-me
simplesmente por Alex. O que disse? Estava distraída.
-Que você
deve admirar Virna muito – Disse Sofia, indicando Virna com o queixo – Vi isso
em sua expressão, vendo-a afastar-se.
Alex
sorriu, um pouco embaraçada por ser tão transparente o que sentia.
-Bem, é
verdade. Admiro muito Virna. É uma mulher inteligente e...
-Eu sei,
eu sei... – Riu Sofia – Virna encanta a todos! Somos amigas há muitos anos. Eu
a conheço desde quando era uma mocinha, frequentamos o mesmo colégio.
Alex a
fitou interessada.
-É mesmo?
Fale-me sobre esse tempo!
Um garçon
as interrompeu, inclinando-se com uma bandeja com taças de champanhe. Sofia
pegou duas e estendeu uma para Alex, sorrindo com ar cúmplice.
-Está
curiosa, não? Tudo bem, vou contar, mas
que isso fique entre nós. Sabe guardar segredos?
Alex a fitou
com reprovação.
-Se vai
contar coisas privadas que eu não deveria saber, não acha que Virna ficaria
aborrecida? Não quero ser indiscreta com a vida dela.
Sofia riu,
depois de tomar um gole de champanhe.
-Não vou
contar nada que seus amigos não saibam. Sei que a conhece há pouco tempo, ela
me falou como se conheceram. E ela disse que você é uma nova amiga dela. Só vou
contar coisas para que você a conheça melhor e entenda sua aparente frieza.
-Bem...
sendo assim, se vai ajudar-me a entendê-la... vá em frente – Disse Alex, já
morrendo de ansiedade.
-Virna era
uma mocinha filha de nobres falidos, que perderam a fortuna com a guerra. A mãe
era uma mulher doente e o pai a traía até com as criadas. Aos dezesete anos, a
mãe faleceu e o pai a induziu a casar-se com Enzo Morandi, um homem riquíssimo,
mas bem mais velho que ela. Ela não o
amava e demonstrava isso claramente. Mas foi criada pelos pais dizendo à ela
que o que era mais importante era o seu nome ilustre, que a pior desgraça era
ser pobre, e isso a fez casar-se com um homem que não amava. Enzo sabia que não
era amado e morria de ciúmes dela. E a engravidou contra a vontade dela, que
não tinha mais de dezoito anos. Ela
ficou revoltada, não queria ter um filho tão jovem, queria formar-se em engenharia.
Mas teve de abandonar os estudos por
imposição do marido, que desejava ela apenas
ter que administrar a casa e criar os filhos que teriam.
-Virna
queria ser engenheira? Nunca imaginaria isso...- Comentou Alex, impressionada.
Sofia
sorriu, divertida.
-Também
ainda me surpreendo com isso. Mas lhe contei tudo isso para que entenda a
relação dela com Paola. Ela era quase uma adolescente quando teve Paola, fruto
de um casamento sem amor, de um homem que impediu que realizasse seu sonho. Com
apenas dezoito anos, Virna não estava preparada para a maternidade, ainda mais
para ter um filho de um homem que não amava. Então, Virna sempre repudiou Paola, deixando-a aos
cuidados das babás. Tinha muitas brigas com o marido, a quem culpava por ela
ser infeliz. Ele começou a traí-la com várias mulheres, dizendo que as outras o
desejavam mais que ela. Estavam em vias de se divorciarem, quando Enzo morreu
de um enfarte. Virna herdou os bens do marido e ficou riquíssima. Adotou
novamente o nome de solteira, do qual tanto se orgulha.
-Realmente,
agora entendo porque Virna e a filha não se dão bem. Mas isso não justifica a
falta de amor entre elas – Comentou Alex, pensativa – Sofia, você disse que é
amiga de Virna. E me conta uma estória na qual Virna parece uma bruxa de contos
de fadas, na qual Paola é a garotinha infeliz e Virna a bruxa sem coração?
Estou chocada. Você pinta Virna como um monstro de frieza, uma mulher que é
movida apenas pelo amor ao dinheiro e ao nome ilustre.
Sofia deu
uma risada, fitando-a nos olhos.
-Oh, eu
dei essa impressão de Virna? Então, você não entendeu onde quis chegar: Virna é
uma mulher que teve de renunciar aos seus sonhos por causa de seus pais esnobes
e mesquinhos, que a induziram a casar com um homem que não amava e a fez infeliz.
Ela foi criada achando que era uma pessoa superior ao povo sem nobreza. E
quando seu pai foi à falência, percebeu que era o dinheiro que mandava, e ela
precisava tê-lo para manter seu nome com dignidade. E pagou um preço alto,
renunciando aos seus sonhos e casando com um velho. E isso explica a falta de
amor maternal por Paola, fruto de uma maternidade que não desejava e de um
homem que não amava. Ela nunca soube o que é amar, Alex. Ninguém mostrou amor
por ela.Nem os pais, profundamente esnobes, nem o marido, egoísta e possessivo.
-E o que
houve, depois que o marido dela morreu? Ela não se apaixonou por ninguém?
-Ela teve
vários amantes, Alex. Mas não amou nenhum deles. Virna criou uma muralha em sua
volta, de cinismo e autoproteção. Não permite ninguém atravessar essa muralha.
Acha que o amor é algo que escraviza e nos torna imbecis. Eu a admiro por ser
uma mulher forte, que superou seus problemas e hoje é uma pessoa admirada e
respeitada. Tem uma vasta cultura, fala três idiomas e administra seus negócios
com sucesso.Bem, isso tudo a ajuda a entender melhor a relação de Virna e
Paola, não?
Alex
encarou Sofia friamente.
-Realmente.
Mas, por que contou-me toda essa estória? Conta a vida de Virna a todas as
amigas dela? Desculpe-me dizer isso, mas acho que foi muito indiscreta em falar sobre a vida
privada de Virna.
Sofia
sorriu, fitando-a avaliadoramente.
-Como
disse antes, conheço Virna há muitos anos. Sou sua melhor amiga. Eu não
contaria tudo isso a qualquer pessoa. Mas à você, posso contar.
Alex
estreitou os olhos, fitando-a desconfiada.
-Por que
pode contar-me?
-Por que
sou confidente de Virna. E ela está louca por você.
Alex
enrubesceu violentamente. Olhou para Sofia com o coração disparado.
-De onde
tirou essa idéia? Virna não é homossexual!
-Eu sei
disso, minha cara Alex... mas não sou idiota ou cega. Quando cheguei, Virna
disse-me que está louca para terminar com Lorenzo, porque está envolvida em uma
paixão fortíssima. Não quis dizer-me quem é, mas conheço Virna muito bem.
Quando ela falou-me sobre você, dizendo que é uma pintora que vai ajudar, seus
olhos brilhavam como nunca vi. E quando você chegou, eu percebi como vocês se
olharam.Pareciam emitir uma troca de raios. Minha querida, a paixão está
impressa nos olhos de vocês, quando se olham!
-Você está
enganada, Sofia. Virna apenas me admira como pintora.
-Não acho
que seja apenas isso. Você é uma bela mulher, inteligente e charmosa, Alex. E
Virna está fascinada por você, é fácil perceber.
Alex riu,
preferindo não negar ou confirmar nada. O melhor era levar na brincadeira.
-Acha isso
de mim? Obrigada, mas sua suposição está errada.Sou apenas uma amiga de Paola,
que Virna quer ajudar.
-E por falar
em Paola, eis ela que chega! – Anunciou Sofia, sorrindo.
Alex
voltou-se e viu Paola aproximar-se. Ela percebeu o ciúme luzindo nos olhos da
garota e suspirou.
-Alex,
esqueceu de mim? – Disse ela, sentando-se ao seu lado sorrindo.
Alex
fitou-a franzindo o cenho. Paola não tomava jeito!
-Não,
Paola. Estou conversando com Sofia, conhece-a?
Paola
fitou Sofia com um sorriso sarcástico.
-Claro, é
a confidente de Virna. Como vai, Sofia?
-Bem,
Paola. E seu namorado, não veio com você?
-Meu
namorado? Refere-se à Giulio?
-Esse
mesmo.
Paola deu
uma risada sarcástica.
-Sofia,
você está muito desatualizada! Eu terminei com Giulio há mais de um ano!
-E está
com quem, agora?
-Sofia, está
confundindo-me com Virna! Ela quem troca de amantes como quem troca de
roupa!Você é sua confidente, então diga: com qual desses homens ela vai levar
para a cama hoje? Por que Lorenzo não está aqui, então ela já deve tê-lo
substituído por outro! Ela não fica sem homem, tem furor uterino!
Alex olhou
para Paola com a ira brilhando em seus olhos. Chegou a odiá-la, nesse momento.
Sua voz saiu embargada pela raiva, sem poder controlar-se:
-Como pode
falar assim de sua mãe, Paola? Você é podre, asquerosa!
Paola a
fitou assustada. Viu o ódio brilhando nos olhos de Alex, que se ergueu e falou
entredentes:
-Estou com
nojo de você, garota ridícula!
E ela
afastou-se em passos largos, tremendo de raiva. Como ela ousava falar assim de
Virna? Aquela garota idiota, que nem chegava aos pés de Virna! Lamentava que
Sofia havia presenciado a cena, mas não pudera se conter. Como podia Paola ser
tão maldosa, falar como se Virna fosse uma cadela no cio, capaz de deitar com o
homem que estivesse mais próximo!
Parou em
um canto e olhou em volta. Lá estava Virna, conversando com um casal de amigos.
Ela voltou-se como sentindo o seu olhar e a viu. Disse alguma coisa para o
casal e veio ao seu encontro.
-O que
houve, Alex? Está com uma expressão tão transtornada! – Disse suavemente,
fitando-a com preocupação.
-Paola
aborreceu-me – Declarou, tentando se acalmar.
-Paola? O
que ela disse ou fez?
-Ela
falou-me coisas desagradáveis e a deixei com Sofia – Explicou, sem querer
revelar à Virna as palavras de Paola, para não a aborrecer.
-O que ela
disse, Alex? Algo sobre nós?
-Não!...
ela ficou com ciúmes de mim e Sofia – Mentiu.
-Oh... não
ligue para o que ela diz, Alex. Amanhã venha encontrar-se comigo aqui. Ela irá
para a faculdade e nós teremos toda a tarde para fazer amor – Disse Virna
baixinho, pegando-a pelo braço.
Alex fitou
aqueles olhos azuis e sentiu um arrepio de desejo. Sorriu.
-Virna...queria
ter você hoje, não amanhã.
Virna
sorriu sensualmente, os olhos semi-cerrados.
-Hoje é impossível,
Alex. Amanhã...quero deixá-la com bastante vontade...
-Já estou,
Virna...
-Amanhã
terá mais...
-Sádica...
Virna
olhou além dela e deixou de sorrir, franzindo o cenho.
-Oh!
Lorenzo acabou de chegar! Ele havia me falado que ia passar esse fim de semana
em Roma, à negócios... nem o convidei para o jantar... que chateação! Tenho que
ir falar com ele, Alex. Depois falo com você.
Alex ficou
olhando Virna ir até a entrada do salão. Lorenzo havia chegado com Antonio,
ambos vestidos com trajes à rigor. Lorenzo beijou Virna no rosto e ela apertou
a mão de Antonio.
Alex
sentiu o ciúme dominá-la. Lorenzo, o amante oficial de Virna, estava ali! E ela tinha que aceitar ser
relegada a segundo plano!Ele ia dormir com ela!
Virna
aproximou-se com os dois. Ela não parecia à vontade. O sorriso parecia falso,
os olhos frios.
-Lorenzo,
lembra-se de Alex? – Perguntou ela, parando diante de Alex.
Lorenzo
pegou a mão que Alex estendeu e a levou aos lábios.
-Como poderia
esquecer uma jovem tão bela? Como vai, Alex?
Alex
sorriu com esforço e desprendeu a mão.
-Vou bem,
obrigada, Lorenzo.
Antonio
adiantou-se e segurou a mão de Alex, fitando-a friamente.
-Olá,
Alex. A última vez que nos vimos eu não tive sorte, mas hoje já sei como
conquistar a bela Paola.
-É mesmo?
Boa sorte, então. Faço votos que tenha sucesso – Disse Alex, com indiferença,
ainda cheia de raiva de Paola – Ela está ali naquele canto com Sofia – Disse,
indicando com o queixo.
-Com
licença, Alex. Vou apresentar Lorenzo a alguns amigos meus que ele não conhece.
Depois nos falaremos mais – Disse Virna, séria.
-Tudo bem,
Virna – Disse Alex, afastando-se.
Ela foi
para o outro extremo do salão e pegou uma taça de champanhe com o garçon. Ficou
ali observando Virna de longe, apresentando Lorenzo aos amigos. Estava ficando
furiosa. Lorenzo era o amante oficial,
que Virna se orgulhava, que podia ser
apresentado aos amigos como seu amante, noivo, etc... enquanto ela era a
amante escondida, que devia ser
disfarçada em amiga, a amante que Virna não tinha coragem de apresentar aos
amigos como tal. O pequeno segredo sujo dela.
Bebeu
outra taça, afogando na bebida sua raiva e ciúme.
)))(((
No extremo
do salão, Paola chorava no ombro de Sofia. A reação de Alex às suas palavras
contra Virna fôra demais para ela. O ódio que vira brilhar naqueles olhos e
aquelas palavras duras que Alex havia dito a desesperaram, mas também a
revoltaram. Alex havia falado que ela era podre! Que estava com nojo dela! E
tudo por causa de Virna! Ela não a queria mais, devia estar interessada em
Virna, para ter se revoltado tanto! Mas ia vingar-se daquele desprezo!
Sofia a
afastou suavemente e ergueu seu rosto com a mão, fitando seus olhos.
-Paola,
você e Alex são amantes, não?
Paola a
fitou assustada, parando de chorar.Sofia sorriu.
-Não fique
assustada, entendo você. Isso é mais comum do que pensa, conheço várias
mulheres que são lésbicas. No mundo da moda há muito disso. E você com Alex,
percebi logo. Vocês chegaram juntas e notei seus olhares ciumentos quando Alex
conversava comigo.E agora está aí chorando porque ela a ofendeu.
Paola não
teve ânimo para negar. Estava arrasada e precisava desabafar sua angústia com
alguém. Sofia parecia confiável.
-O que
devo fazer, Sofia?- Perguntou, com um fio de voz – Há tempos tenho notado que
Alex mudou. E agora, disse-me aquelas palavras horríveis!
-Reaja.
Não adianta chorar, garota. Digo isso por experiência própria.
-Reagir
como? Que posso fazer?
-Minha
querida, use as armas que você puder. Se suas lágrimas não comovem Alex, mude
de atitude. Talvez ela esteja muito confiante de seu amor. Passe a ser mais
fria. Provoque ciúmes nela. Finja interessar-se por outra pessoa. Se ela gostar
de você, ela voltará correndo para os seus braços, pedindo outra chance!
-Mas, e se
ela não ligar e não voltar?
Sofia
sorriu da pergunta ingênua. Pobre Paola, estava competindo com Virna, uma
mulher que sabia conquistar qualquer um! Ou qualquer uma...mas queria Paola
reagisse. Quem sabe ela se desligasse de Alex, tendo outra pessoa...
-Paola, se
isso não der certo, então você terá certeza que não vale à pena gastar seu
tempo com ela e partirá para outra! Seja esperta, garota!
Paola
enxugou os olhos com as mãos e a fitou decidida.
-Tem
razão, Sofia. Alex está muito segura do meu amor. Pois vou mudar isso! Ela vai
ver como é ruim sentir ciúmes!
Nesse
instante, Antonio chegou. Paola o fitou como se ele fosse sua tábua de
salvação.
-Antonio!
Que prazer, vê-lo aqui! – Disse, sorrindo para o rapaz.
Ele sorriu,
satisfeito com o bom acolhimento de Paola.
-Olá,
Paola...Está linda...
Sofia
ergueu-se do sofá.
-Bem,
Paola, até logo. Deixo-a em boa companhia.
Paola
ergueu-se também.
-Até logo,
Sofia, e obrigada.
Sofia
sorriu e afastou-se.
Antonio a
fitou timidamente.
-Eu estava
ali no canto observando-a há um certo tempo. Fiquei com receio de aproximar-me
porque vi que você estava chorando e bastante transtornada. Só quando notei que
parou de chorar resolvi me aproximar.Não quis chegar em um mal momento... posso
saber porque estava chorando?
Ela pegou
a mão do rapaz e a apertou, sorrindo, pensando que ali estava o instrumento de
sua vingança. Alex iria ver!
-Bem, eu
estava chorando por alguém que não merece... e adorei ver você aqui. Estou
percebendo que estava perdendo meu tempo, podendo estar com uma pessoa tão
agradável como você...
Antonio
sorriu eufórico. A bela Paola estava claramente flertando com ele! Aquele era
seu dia de sorte! Desde que conhecera ela, não a tirava da cabeça. Mas não
havia mais procurado ela por causa do fiasco do dia em que se conheceram. Havia
sido um bobo diante de Paola e Alex. Mas
hoje resolvera aparecer, acompanhando Lorenzo. E parecia que sua sorte estava
mudando!
Ele
ofereceu o braço à ela, galanteador.
-Bela
Paola, seja meu par essa noite e vamos nos conhecer melhor!
-Com
prazer, Antonio!
)))(((
Alex
estava na quinta taça de champanhe quando resolveu ir ao terraço tomar um pouco
de ar fresco. A noite estava fria, mas precisava ficar só. Não agüentava mais ver
Virna ao lado de Lorenzo. Foi até a porta envidraçada e a abriu. Saiu para o
terraço e encostou a porta. Não pretendia demorar ali, apenas respirar ar puro
para combater o efeito da bebida.
Ouviu um
gemido baixo à sua esquerda e sorriu. Alguém estava namorando no terraço. Ainda
bem que eles não a estavam vendo, atrás de uma estátua de bronze em tamanho
natural.
-Paola...
você está me deixando louco...
Alex teve
um choque ao ouvir a frase, dita pela voz excitada de um homem. Não era
possível! Tinha que ver com seus olhos! Devia ser outra Paola!
Ela
esticou o pescoço, olhando. E viu algo que a fez ficar boquiaberta, imóvel.
No outro
extremo do terraço, viu Paola e um rapaz agarrados em um abraço. Ele estava de
costas para Alex, e podia ver o rosto de Paola sobre o ombro dele, passando a
língua na orelha dele, as mãos segurando a cabeça do rapaz.
Ele
afastou-se um pouco e olhou para o rosto de Paola, voltando-se um pouco de
lado. Alex percebeu que a mão direita dele estava dentro do decote de Paola. Ela
gemeu e o beijou ardentemente. Depois, desprendeu a boca para dizer:
-Quero que
me possua agora, Antonio...
-Aqui? Não
é perigoso?
-Dane-se o
perigo! Eu quero agora!
Eles
falavam baixinho, mas dava para Alex ouvir. Alex ouvia e via tudo imóvel, como que grudada no chão. A
incredulidade a tornava sem ação. Podia esperar tudo de Virna, mas de Paola!
E ficou
ali vendo Paola sob a luz da lua cheia abrir a calça de Antonio, colocar para
fora o sexo já ereto e o acariciar lentamente, fitando o rapaz com um sorriso.
-Oh,
Paola! Sua mão é deliciosa... – gemeu o rapaz – Mas quero entrar em você...
-Antonio,
espere...vou tirar minha calcinha...
Paola
afastou-se um pouco, levantou a saia e desceu a calcinha pelas pernas,
retirando-a e entregando ao rapaz.
-Ponha no
bolso. Depois que acabarmos, me dê – Disse ela.
Antonio
riu baixinho.
-Você
pensa em tudo, Paola...
-Anos de
prática... venha...
Ela ergueu
a saia e encostou na mureta. Antonio se aproximou e arremeteu contra ela, que
ergueu uma perna e rodeou a coxa do rapaz. Paola rodeou o pescoço dele com os
braços, os olhos fechados, gemendo baixinho. O rapaz começou a dança do sexo,
movendo-se contra Paola com estocadas firmes.
-Ohhh,
Antonio! Com mais força! Mais fundo! – Gemeu Paola.
Alex
sentiu uma náusea forte dominá-la. Queria sair dali correndo, mas continuava
imóvel, vendo aquela cena inacreditável. Paola, a doce Paola, a ingênua Paola,
a garota que jurava amá-la, ali, se entregando à um rapaz que mal conhecia!
Vagabunda! – Pensou, sentindo ódio e nojo, suas mãos se contraindo de ira.
Continua na parte 7
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