Vida Roubada
Parte 11
Vivien se sentiu como que recuando no
tempo. Por mais que soubesse que aquele encontro iria ocorrer mais cedo ou mais
tarde, não estava preparada para ele. Sentiu-se tomada pelo pânico, sem
palavras, sentindo-se cheia de culpa, como se ela quem tivesse tirado a honra
de Audrey. E Deidre ao seu lado só tornava as coisas piores. Ela iria perceber
que aquele encontro a abalava!
A guerra deixara suas marcas em Audrey.
Ela estava pálida, mais magra, o cabelo sem nenhum trato caindo pelas costas em
melenas sem brilho, o vestido desbotado pelas inúmeras lavagens, meio puído na
barra. Pela mão levava um garoto de mais ou menos quatro anos, louro de olhos
azuis. Ele estava também com roupas rotas, o rosto emagrecido e um olhar
triste, que se ergueu para Vivien como à espera de uma reprimenda.
Antes que Vivien recuperasse a fala,
Audrey a fitou da cabeça aos pés com um sorriso sarcástico, observando o chapéu
da moda, o terno bem talhado, as botas polidas. E o sorriso se tornou um esgar quando fitou Deidre ao lado, bem
vestida e elegante.
-Ora, ora, quem apareceu, vivo e todo
elegante! – Ela disse, com sarcasmo – Se não é o heroico Vicent Talbot! Pelo
que vejo, a guerra não o afetou nada! E não duvido que tenha se aliado aos
ianques!
-A...Audrey... – Gaguejou Vivien, sob o
olhar surpreso de Deidre – Como... como
tem passado?
Arrependeu-se no ato pela pergunta
idiota. Os olhos de Audrey brilharam com uma chama perigosa. Ela a encarou e
falou em tom acusador:
-Como acha que eu tenho passado, Vicent
Talbot? Com um filho para criar, numa guerra, sem muitos recursos? O seu filho,
que você me fez contra minha vontade?
-Eu...eu... sinto muito... – Disse Vivien, baixando os olhos, incapaz de
fitar os olhos de Audrey.
-Sente muito! Que frase linda! Quem
sente sou eu, que não posso nem comprar alimento para alimentar à mim e ao meu
filho! Enquanto você anda por aí com essa mulher bem vestida, irradiando
prosperidade!
Vivien ergueu os olhos e a fitou com
receio.
-Eu posso ajudá-la!... Se precisa
comprar alimentos, eu pagarei! Pode entrar no armazém e comprar o que quiser!
Os olhos de Audrey brilharam de ódio.
-Sabe bem onde enfiar o seu maldito
dinheiro, Vicent Talbot! Não venha tentar acalmar a sua consciência me dando
esmola! Vá para o inferno, onde merecia estar!
E ela se afastou em passadas furiosas,
arrastando o garoto pela mão.
Vivien ficou imóvel, pálida, olhando-a
afastar-se.
-Oh, Vicent! – Disse Deidre,
fitando Vivien com olhar magoado – Por
que não me falou sobre isso? Por que não confiou em mim?
Vivien olhou para Deidre com vergonha.
Chegara o dia temido, de falar a Deidre sobre sua promessa. Mas não agora. Não
ali na rua, às vistas de todos.
-Deidre, depois explicarei tudo. Mais
tarde, em casa.
Deidre a fitou nos olhos e Vivien os
desviou, envergonhada de sua grave falha. Afinal, tinha um relacionamento com
Dreidre há mais de dois anos e não se abrira com ela sobre a promessa de fizera
à Vicent. Agora não havia mais jeito de esconder. E tinha certeza que Deidre
não iria gostar nem um pouco de sua promessa. E agora corria até o risco de
perdê-la, por sua omissão da verdade.
-Espero que esclareça o que está
havendo, Vicent. Porque vejo que há coisas que não me julgou digna de saber –
Disse Deidre, com voz contida.
-Quando chegarmos em casa eu lhe
contarei tudo, Deidre. Agora, por favor, vamos fazer o que viemos providenciar,
as compras para a nossa casa.
Deidre assentiu, mas o resto do tempo
que a acompanhou pela cidade, se conservou calada, os olhos tristes e sem
sorrir, apenas dando sua opinião sobre as compras quando Vivien pedia.
Vivien estava com os nervos à flor da
pele, na expectativa de falar com Deidre. E não ajudava nada seus nervos em ver
como Deidre estava se comportando.
Vivien foi recebida com olhares
suspeitosos pelos comerciantes. Um sulista jovem, bem vestido, mostrando
prosperidade após a guerra? Onde ele estivera, não havia estado na guerra? Mas
quando ele abriu a carteira e pagou com dinheiro vivo da União as compras,
todos se desmancharam em sorrisos. Um freguês endinheirado nesses tempos de
penúria era algo raríssimo e devia ser tratado como rei, sem importar como ele
conseguira escapar da quebra geral.
Com as compras de móveis, panos para cortinas e roupas de
cama feitas, Vivien e Deidre foram almoçar no único restaurante em atividade em
Charleston, na rua principal. Notava-se que o estabelecimento havia sido
recentemente reformado dos vestígios dos ataques ianques, com nova pintura e
mesas novas.
Elas mal tocaram na salada de batatas
com peito de frango, acompanhada por uma garrafa de vinho. Estavam nervosas e ansiosas pela conversa
que teriam. Pouco depois saíram restaurante e voltaram para casa. As compras seriam enviadas mais tarde, menos os móveis,
que haviam sido escolhidos em um
catálogo e a maioria deles seria ainda fabricados.
Chegaram em casa e Deidre a fitou nos
olhos.
-Onde prefere conversar, Vivien? No
quarto, ou na biblioteca?
Vivien a
fitou insegura. Deidre nunca a chamava de Vivien fora de seus momentos íntimos.
Por que agora o fazia? Era uma forma de mostrar que algo havia mudado entre
elas?
-No quarto.
Lá, ninguém nos interromperá – respondeu.
Subiram
para o quarto. Entraram e Vivien fechou a porta atrás dela, encarando Deidre,
que a fitava espectante, com um olhar onde se lia o medo. Vivien sabia qual o
medo que Deidre sentia: o medo da verdade, como ela própria sentia. Pobre
Deidre! Estava à ponto de ser ferida por suas palavras. Vivien engoliu em seco
e falou com suavidade:
-Não
quer se sentar? É uma longa estória.
Deidre
fez um gesto nervoso com as mãos.
-Não,
deixe de rodeios, Vivien! Vamos direto ao assunto, por Deus! Não percebe minha
ansiedade?
Vivien
assentiu e se sentou numa cadeira em mal estado, um dos poucos móveis
remanescente da destruição ianque. E começou a falar. Falou de seu encantamento
por Audrey, como sofreu em saber que ela era a noiva de seu irmão, que ela
nunca teria a menor chance com ela. E como aquele sentimento aos poucos foi
desvanescendo até se apagar em seu coração cansado de sofrer por um amor
impossível. Uma amor que definhou com o passar dos anos. E depois, a volta de
seu irmão, mortalmente doente, que lhe confessou ter desvirginado Audrey, e a
promessa que ele a fez fazer, de casar com Audrey para reparar o ato cometido
contra a honra dela.
Deidre,
que a ouvira falar sem um aparte, encostada perto da janela com os braços
cruzados, avançou e pousou as mãos sobre os ombros de Vivien, que ergueu o
rosto e fitou aqueles olhos cheios de lágrimas, o rosto com uma expressão de
revolta e dor.
-Então,
tudo é simples assim, para você? Me engana durante mais de ano e meio, usa-me
como um brinquedo, até reencontrar o grande amor de sua vida, a qual deve
desposar, para calar a consciência de
seu falecido irmão? – Ela disse entredentes, sacudindo Vivien pelos ombros – É
isso? Ama-me tão pouco, que vai deixar-me por Audrey Lancaster, com essa
desculpa que deve cumprir a promessa que fez ao seu irmão?
Vivien se
ergueu, tirando as mãos de Deidre de seus ombros e as segurando com firmeza,
fitando-a entre angustiada e magoada.
-Como pode
duvidar de meu amor por você, Deidre? Então acha que eu fingi amar você por
tanto tempo, aguardando a hora de encontrar Audrey? Que apenas a usei? Que
desejo casar com Audrey? Eu a amo, Deidre! Nunca duvide disso!
Deidre a
fitou com indignação e dor.
-O que
devo pensar? Você escondeu essa promessa que fez há tempos atrás até hoje! Por
que não me contou antes, para eu saber em que estava me metendo?Se eu soubesse
de sua promessa, não teria vindo para Charleston, junto com você!
-Deidre,
eu tive medo de perder você! Eu sabia que quando soubesse de minha promessa,
você não me aceitaria mais! E eu amo você, Deidre! Eu não posso viver sem você!
-Ama-me?
Como pode afirmar isso, se pensa em casar com Audrey, para cumprir a promessa
que fez?
-Eu...eu
não sei, Deidre! Aliás, nem sei se ela vai querer casar comigo, ela sempre
pareceu não gostar de Vicent! Você viu como foi nosso reencontro!
-Ah, mas
aposto que se você revelar para ela quem é na verdade, Audrey Lancaster vai
querer casar na hora! É só se revelar como fez comigo, fique nua diante dela! –
Disse Deidre, com feroz sarcasmo.
Vivien
enrubesceu, largando as mãos de Deidre e passando-as pelos bastos cabelos.
-Por Deus,
Deidre! Eu não quero casar com Audrey! Meu amor por ela morreu! Aliás, nem sei
se foi amor verdadeiro, porque não resistiu à distância e ao tempo. Acho que
foi mais uma paixão de adolescente. Eu me encantei com a imagem dela, pela
beleza, por ser algo inatingível. Amor é o que sinto por você, Deidre. Eu
a amo ! – Disse Vivien, com uma voz
rouca, cheia de sentimento.
As
lágrimas começaram a descer dos olhos de Deidre, incontidas. Ela se aproximou
de Vivien e a abraçou apertadamente, o corpo tremendo contra o seu. Vivien a
abraçou também e Deidre ergueu o rosto, fitando seus olhos com um desespero que
comoveu Vivien.
-Eu quero
que me possua agora, Vivien, como nunca...me faça ter prazer, me faça esquecer
meu medo de perdê-la... agora...seja minha completamente, igual como quero ser
sua.
E ela
passou a mão pela sua nuca, puxando-a para o encontro ansioso de suas bocas
famintas. Foi um beijo violento, transbordante de paixão, quase brutal, pela
sua intensidade que misturava raiva, medo, desespero, paixão. Suas línguas se
acariciaram, se sugaram, os dentes mordiscando, as mãos apertando, acariciando,
os corpos se espremendo.
As mãos de
Deidre puxaram o paletó que Vivian vestia, abrindo-o e Vivien se afastou para
tirá-lo, jogando-o no chão. Ela fitou o olhar ardente de Deidre e se aproximou,
começando a despí-la com pressa, seu desejo crescendo à vista do corpo
delicioso da loura. Uma foi despindo a outra entre beijos famintos e em pouco
tempo, estavam completamente nuas. Deidre foi suspensa por Vivien com as mãos
em suas coxas, deslizando-a para cima, até Deidre envolver as pernas na cintura
de Vivien, os braços envoltos em seu pescoço. Vivien sentiu o sexo molhado
contra seu estômago e sua paixão se intensificou. Carregou-a até uma velha
poltrona e a depositou nela, inclinando a cabeça para os seios de bicos duros e
róseos.
-Aãããhhhhhh
– Gemeu Deidre, abrindo as pernas e as descansando nos braços da poltrona – Oh,
Deus, como é bom...
Vivien
começou a sugar um dos seios, enquanto seus dedos burilavam o outro, pinchando
o bico.
-Penetre-me,
Vivien... fundo... – Gemeu Deidre, movendo os quadris.
Vivien
juntou dois dedos, penetrando com cuidado na abertura molhada, que se apertou
em volta deles, em contrações.
-Aããããããhhhh
... mais... mais fundo... – Gemeu Deidre, louca de prazer.
Vivien
começou a mover os dedos ritmicamente na vagina, o polegar esfregando no pequeno clitóris, aumentando o prazer. Não
durou muito tempo para Deidre atingir o orgasmo gemendo,estremecendo
violentamente, com Vivien tentando abafar os gemidos dela com beijos ardentes,
seus dedos penetrando fundo, com Deidre erguendo os quadris para mais.
Depois,
foi Deidre quem lhe deu um prazer intenso, sugando-a com uma habilidade que a
enlouqueceu, fazendo-a gritar, sem se importar com mais nada. A tarde veio
encontrá-las caídas uma nos braços da outra, exaustas de tanto se amarem.
Vivien sorria feliz. Deidre a
havia perdoado de seu segredo. Ela não ia deixá-la. Ela a amava tanto, que mais
uma vez haviam superado um fato que poderia tê-las separado.
Fitou
amorosamente o rosto pousado no seu ombro, adormecido. Deidre era mesmo a
mulher de sua vida. Nada conseguiria separá-las. Tinha que dar um jeito de
cumprir sua promessa sem se separar de Deidre. Como ainda não sabia, mas iria
pensar nisso. Talvez Audrey concordasse em casar com ela apenas para dar um
nome ao filho, mas viverem separadas. Ela daria uma gorda pensão à Audrey,
compraria uma casa para ela, pagaria a educação do filho de Vicent...
Adormeceu
com a cabeça cheia de planos.
Anoitecia
quando acordaram. Tomaram um banho na banheira esmaltada, se vestiram e
desceram para o jantar. Mooke as serviu com presunto, queijo e batatas,
fitando-as com um olhar cheio de malícia que elas ignoraram. Deidre sorria e
comeu um pouco, mas não parecia muito feliz. Seu sorriso era forçado, seus
olhos permaneciam tristes e fugiam dos olhares de Vivien.
Foram para
a cama cedo, e dessa vez se amaram com infinita ternura. Seus beijos eram
cheios de amor, os corpos se movendo juntos lentamente, as mãos se procurando,
em carícias. Para Vivien, o ato era uma reafirmação do amor entre elas, mas
para Deidre era uma despedida.
Porque na manhã seguinte, quando Vivien acordou, viu que Deidre não estava ao seu lado, na cama improvisada no chão. No travesseiro ao lado, uma folha de papel espetada com um alfinete. Vivien a pegou com as mãos trêmulas, sabendo bem o que aquilo significava: Deidre a havia abandonado!
Continua na parte 12 - conclusão
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