Vida
Roubada
Parte 12 – final
Apesar da
destruição da guerra, a Casa Vermelha era uma das poucas privilegiadas que se
conservava em pé, sem nenhum sinal dos ataques dos ianques. A Casa Vermelha, de
Anette Valois, era na verdade um pédio de dois andares, com uma larga porta
principal, antigamente guarnecida por um forte porteiro, mas agora simplesmente
fechada. Na fachada, uma placa anunciava, eufemisticamente: Casa de Show.
Vivien respirou fundo, como se
preparando para o passo decisivo que iria dar em sua vida, e desceu da
charrete, amarrando as rédeas na madeira diante da casa. Com passos decisivos,
subiu os três degraus de madeira e pousou a mão na maçaneta, girando-a. A porta
abriu e Vivien a empurrou, abrindo-a.
Nunca havia estado ali, mas seu irmão,
sim. Com alívio, viu que o grande salão pintado de vermelho estava vazio, sem
ninguém ali. Podia olhar em volta para se familiarizar com o lugar.
No fundo do salão havia um palco, com
cortinas em mau estado, de veludo vermelho. Em um canto, uma pianola. Uma
pequena pista no meio do salão, rodeada de mesas, e no canto esquerdo um balcão
para servir bebidas. Mas as prateleiras de bebidas estavam vazias, demonstrando
que os ianques haviam estado no local e haviam levado todas as garrafas.
Vivien suspirou, com as mãos nas
cadeiras. Onde estavam as mulheres da casa? Onde estava Audrey?
Um súbito choro de criança chegou aos
seus ouvidos.Vivien ergueu o rosto, alerta. O choro vinha lá do pavimento
superior. Ela viu a escada que levava ao andar superior e se dirigiu para ela,
subindo cautelosamente, procurando não fazer nenhum ruído. Chegou a um corredor
com várias portas e no final dele, uma porta entreaberta com uma placa: Madame
Valois. O choro da criança vinha de lá.
Vivien avançou e parou diante da porta
entreaberta, olhando pela abertura, cautelosamente.
Audrey Lancaster tentava alimentar seu
filho deitado na cama com uma colher e um prato nas mãos, mas ele chorava e recuava
o rosto, dizendo em tom choroso:
-Não quero! Não gosto de mingal!
Uma
mulher ao lado de Audrey olhava a cena com ar desolado, com a mão apoiada no
rosto. Ela era uma mulher de seus trinta anos, alta, de bastos cabelos negros
anelados, um rosto atraente, de traços aristocráticos. Os olhos negros
contrastavam com a pele alva e imaculada.Trajava uma blusa branca de algodão
com as mangas arregaçadas até os cotovelos e uma saia cinza de sarja.
Audrey olhou para o menino e falou com
preocupação:
-Mas é isso que tem para comer, Justin!
Por Deus, coma ! Você precisa ter forças para vencer a gripe!
-Audrey! – Disse a mulher, com voz
calma – Não insista. Justin não gosta de mingal. Vou comprar um frango e
batatas com aquele dinheiro que ainda temos, para fazer uma sopa para ele.
Audrey olhou para a mulher com
preocupação.
-Anette, não podemos gastar aquele
dinheiro! Temos de juntar para ir embora daqui!
Vivien olhou para a mulher com surpresa.
Então, aquela era Anette Valois! A dona da Casa Vermelha! Mas... não parecia
ser uma cafetina. Pelo menos, como imaginava as cafetinas, com decotes
indecentes, excesso de pintura e gestos vulgares. Aquela mulher parecia tão...
decente!
-Mas querida, Justin precisa se
alimentar bem! Ele está em fase de crescimento e está doente!
Audrey pousou o prato sobre uma mesinha
com a colher e suspirou desanimada. O garoto se voltou de costas para a mãe e
fechou os olhos. Parecia febril e fraco.
Anette Valois se aproximou de Audrey e
a abraçou por trás. Audrey pousou a
cabeça no ombro de Anette, que beijou seus cabelos carinhosamente e suspirou.
-Ah, meu amor... seja paciente com
Justin... ele é uma criança tão adorável!
-Eu o amo também, querida, mas Justin
tem que entender que estamos sem dinheiro! Tem que comer o que tiver! Ah, como
sonho com o dia de sair daqui! Ninguém mais me olhar com olhar acusador, ser
xingada de prostituta pelas puritanas da cidade, meu filho ser xingado de
bastardo pelas outras crianças!
-Nós vamos conseguir, meu amor... tenha
paciência. Só estou esperando essa casa ser vendida, para pegar o dinheiro para
começarmos nova vida.Mas o sr. Bishop disse que está difícil a venda. Todo
mundo está sem dinheiro. Temos que esperar as coisas melhorarem.
Vivien ouvia e via tudo petrificada
pela surpresa. Audrey e Anette Valois eram amantes!
Justamente nessa hora Audrey olhou para
a porta e se afastou de Anette, perguntando com voz amedrontada:
-Quem está aí?
Vendo-se descoberta, Vivien acabou de
abrir a porta, enbaraçada por estar espionando.
-Sou eu. Ouvi vozes... aqui em cima...
– Disse, hesitante.
O rosto de Audrey se encheu de cólera,
ao vê-la.
-Você! Ouvindo atrás das portas, como
um espião! Muito próprio de você, seu cafajeste!
Anette fitou Vivien com o cenho
franzido e perguntou à Audrey, sem deixar de fitar aquele homem alto e bem
vestido, que parecia envergonhado:
-Quem é esse homem, Audrey?Ele não me é
estranho...acho que já o conheço, mas não me lembro o nome dele...
-Esse homem é Vicent Talbot, o causador
de toda minha infelicidade, Anette! – Disse Audrey, com a voz carregada de
ódio.
Anette ficou vermelha de raiva. Os
olhos se estreitaram.
-Vicent Talbot?! O maldito estuprador,
que a tomou contra sua vontade?
-Ele mesmo, Anette! Esse cafageste
ainda tem a coragem de vir aqui, atrás de mim!
-Maldito cafageste! – Gritou Anette.
No momento seguinte, uma furiosa Anette
se lançou contra Vivien, que, desprevinida, recebeu um chute entre as pernas,
que a lançou no chão. Anette Valois era também uma mulher alta, e forte. Com
agilidade deu outro chute nas costelas de Vivien, que gritou de dor e se
encolheu. Anette veio dar outro chute, mas Vivien conseguiu segurar o tornozelo
dela e o puxou com força. Anette se desequilibrou e caiu no chão de costas.
Vivien não a deixou se recuperar. Se levantou e pulou sobre a mulher,
montando-a, pegando-a pelos cabelos e a esbofeteando, fitando-a com raiva.
-Sua cafetina, não é melhor que eu!
Você vai engolir esses insultos...
Algo pesado se abateu contra sua cabeça
e Vivien caiu para a frente, desmaiada.
Anette a empurrou para o lado e se
sentou, fitando Audrey com os olhos arregalados.
-O que fez, Audrey? Eu podia ter
manejado sem sua ajuda!
Audrey mostrou para ela a arma que
guardavam à mão para se protejerem.
-Dei uma coronhada na cabeça dele. Logo
se recobrará.
Anette olhou para Vivien, caída meia de
lado, inconsciente.
-Estranho...
-Estranho, o quê? – Perguntou Audrey.
Anette passou a mão pelo rosto de
Vivien, o cenho franzido.
-Tem certeza que é mesmo Vicent Talbot?
-Claro! Por que pergunta?
-Sabe que conheço bem os homens,
Audrey... nunca gostei de homem, mas fui obrigada a deitar com muitos, para
sobreviver, até que me tornei dona dessa casa.
-Sei disso. E daí? – Disse Audrey,
erguendo as sobrancelhas.
-Esse homem... Vicent Talbot... não tem
o cheiro característico dos homens. E nem a barba. O rosto dele é liso como de uma
mulher! E quando eu o chutei entre as pernas... um homem sempre fica sem ação
mais tempo que ele ficou.
-O que quer dizer com tudo isso,
Anette?
-Que acho que esse homem não é um homem
de verdade, entende?
Audrey colocou as mãos na cintura, um olhar
incrédulo no rosto.
-Está insinuando que ele é uma mulher?!
-Bem... sim! Ou não me chamo Anette
Valois!
-Isso é loucura! – Riu Audrey – Esse é
o homem que me estuprou!
-Bem, vamos tirar a prova... – disse
Anette, se debruçando sobre Vivien.
-Como?
Anette fitou Audrey sorrindo,
desabotoando a calça de Vivien.
-Vamos ver se ele tem os atributos de
um homem.
-Anette! Vai despir esse homem?!
Anettte não respondeu. Com a prática de
anos, abriu a braguilha da calça e puxou para baixo a ceroula de malha branca.
Primeiro surgiu um artefato que Anette
observou ser uma meia recheada com panos, imitando o formato de um pênis, presa
à um cinto fino de veludo azul.
E sob esse artefato, um púbis sem um
pênis abaixo, mas sim dois grandes lábios, inegavelmente femininos, com cabelos
sedosos e negros.
Anette indicou o sexo com um gesto,
sorrindo para a assombrada Audrey.
-Eu não disse? É uma mulher ! Bem,
Audrey... a não ser que ele tenha sofrido uma inexplicável metamorfose, seu
odiado Vicent não é essa mulher!
A verdade penetrou na cabeça de Audrey
como uma luz acendendo na escuridão.
-Oh, meu Deus! Essa é Vivien! – Disse,
agitada.
Anette a fitou.
-Vivien? A irmã de Vicent Talbot?
-Sim! É ela! Tem de ser ela! Vivien e
Vicent eram gêmeos!Oh, meu Deus!
-E porque ela está vestida como homem?
Por que se passa pelo irmão?
-Não sei...Ela deve ter um bom motivo,
Anette! Deus, ela está muito machucada? Será que eu a feri mortalmente? -
Perguntou Audrey, com os olhos cheios de medo.
-Calma! Ela está respirando, não está
sangrando... vamos colocar ela na cama. Traga uma toalha com água fria, para
molhar o rosto dela.
Com o coração aos pulos, Audrey ajudou
Anette a colocar Vivien na cama e foi
apanhar uma toalha. Anette levou o sonolento Justim para o quarto dele e o
colocou na cama. Ele adormeceu logo, devido à febre.
cd
Vivien abriu os olhos, sentindo sua cabeça latejando. Gemeu, tentando
se sentar, quando viu o rosto de Audrey debruçado para ela com olhar
preocupado, mas ela a pegou pelos ombros e a forçou a deitar novamente, falando
com voz calma:
-Fique deitada. Você deve estar tonta
da pancada, Vivien.
Vivien?! Audrey estava se referindo à
ela como Vivien?!
Audrey percebeu o olhar cheio de medo
de Vivien e sorriu suavemente.
-Não tenha medo. Eu sei que você é
Vivien, mas prometo que não vou falar para ninguém.
Vivien empalideceu, chocada por ver
descoberta sua verdadeira identidade. Logo por quem, por Audrey, que nutria um
justificado ódio por Vicent! Esse ódio se estenderia à ela?
Seu olhar caiu sobre Anette Valois,
atrás de Audrey. Ela a fitava de braços cruzados, com um olhar nada amigável.
-Como... como você descobriu quem eu
sou, na verdade? – Perguntou Vivien, com voz hesitante.
Um leve sorriso passou pelos lábios de
Audrey.
-Bem, não fui eu quem descobriu isso.
Foi Anette. Ela desconfiou que você não era um homem e fez uma verificação...
inegável.
O olhar de Vivien baixou para seu
próprio corpo e viu a calça desabotoada. Ela enrubesceu intensamente,
advinhando como Anette havia confirmado suas suspeitas.
-Oh! Maldição! – Gemeu, enterrando o
rosto nas mãos.
Audrey a fitou com olhar intrigado.
-Por que assumiu a personalidade de
Vicent, Vivien? O que houve com ele? E porque veio procurar-me?
Vivien retirou as mãos do rosto. Tinha
que encarar a realidade. Agora estava em um beco sem saída, a não ser que fosse totalmente honesta com Audrey.
Será que ela entenderia?
Vivien baixou o olhar, envergonhada e
com medo da reação de Audrey à verdade. E Anette Valois a fitando cheia de
suspeita não melhorava nada.
Audrey percebeu a hesitação de Vivien e
seu receio. Voltou-se para Anette e falou com suavidade, pousando a mão no
braço da mulher:
-Anette, por favor, nos deixe a sós. Vivien e eu temos coisas a
esclarecer uma à outra .
Anette
hesitou, fitando Audrey com preocupação.
-Audrey,
acha prudente isso? E o que tem para conversar com ela, que não posso saber?
Audrey pousou a mão no braço de Anette, falando
suavemente:
-São
coisas de família, Anette. Lembre-se que fui noiva do irmão dela. Tenho uns esclarecimentos a fazer. Você não
confia em mim?
-Sim,
claro, meu anjo...mas... não confio nela!
Audrey
sorriu, dirigindo Anette para a porta do quarto.
-Não
há nada com que se preocupar. Vivien não tem culpa do procedimento do irmão.
Ela sempre me pareceu uma boa pessoa. Deixe-nos a sós, minha querida. Depois a
chamarei.
-Está
bem, Audrey. Vou deixar você à sós com ela porque confio em você. Mas não
confio nessa maluca travestida de homem. Se ela fizer algo inadequado, grite
meu nome.
E
com um último olhar de advertência para Vivien, ela saiu e Audrey fechou a
porta.
Audrey
se voltou para Vivien, que havia se sentado na cama e agora abotoava a
braguilha da calça. Ela se aproximou e sentou na cadeira ao lado da cama,
fitando Vivien com preocupação.
-Você
está bem?
Vivien
acabou sua tarefa e a fitou no rosto, pela primeira vez, sem receio.
-Fora
uma dor latejante na cabeça e nas costelas, estou bem, sim...
Audrey
enrubesceu, embaraçada.
-Desculpe-me...
fui eu quem bati com a coronha de uma arma na sua cabeça. Eu pensei que você
era Vicent, e fiquei com medo de Anette não conseguir controlá-lo.
-Sei...
eu já havia imaginado que Vicent não seria bem-vindo, depois do nosso encontro
na cidade. Mas eu preciso ter uma séria conversa com você, Audrey.
-Por
que? Seu irmão a mandou aqui? Por que está usando a identidade dele? Se Vicent
a enviou aqui para fazer alguma proposta, eu não quero nada que venha dele! Eu
o odeio! – Disse Audrey, o olhar se tornando duro e encolerizado.
Vivien
respirou fundo. Chegara a hora de abrir-se inteiramente para Audrey. A verdade
era imperativa, agora. Fosse qual fosse a reação de Audrey, o pior ela já
sabia, sua verdadeira identidade. Encarou-a e falou com sinceridade:
-Não
vim aqui mandada por Vicent, Audrey. Isso não seria possível, porque ele está
morto.
Audrey
a fitou arregalando os olhos. Mas foi a única reação. Falou sem emoção:
-Sinto
muito, por você.
-Eu
sei que você o odiava. E sei o motivo. Ele me contou, em seu leito de morte.
Mas ele estava arrependido, Audrey.
Audrey
a fitou nos olhos. O olhar continuava duro, cheio de rancor.
-Seu
irmão se arrependeu? O que quer que eu faça? Que mande rezar uma missa por sua
alma? Ele se arrependeu tarde demais!
Vivien
a fitou chocada com as palavras cheias de sarcasmo de Audrey.
-Audrey,
sei que meu irmão errou, mas a intenção dele foi fazer você esperar...
-Não
se atreva, Vivien Talbot! Não se atreva a vir defender o que seu irmão fez
comigo! – Gritou Audrey, apontando o dedo para ela, os olhos se enchendo de
lágrimas inesperadas.
Vivien
ergueu as mãos, em sinal de paz.
-Ok,
está bem, Audrey... eu entendo... eu posso avaliar o que sente. Não estou
querendo defender meu irmão, eu não ...
-Não,
você não pode avaliar o que sinto, Vivien Talbot! Você não sabe o que é ser uma
jovem cheia de sonhos, achando que um dia encontraria o amor, e ser obrigada a
abdicar de seus sonhos porque o pai ambicioso concordou em entregar sua filha
única como futura esposa de um rapaz presunçoso, que não aceitava o fato de uma
moça não querer nada com ele! Eu disse à seu irmão inúmeras vezes que eu não
queria casar com ele, pois não o amava, mas ele teimosamente dizia que eu
acabaria amando-o! Porque ele era presunçoso demais para aceitar que alguém não
o quisesse! – Completou Audrey, com voz cheia de revolta.
-Audrey,
meu irmão não era presunçoso, ele apenas estava cego pela paixão que sentia por
você! Eu mesma tentei fazê-lo ver a realidade, que você não o amava, mas ele
não queria ver a realidade!
-Seja
o que for que ele sentia, não justifica o que fez comigo! Ele me estuprou,
Vivien! Ele foi lá em casa sabendo que meu pai estava ausente, inventou que
havia esquecido seu casaco na biblioteca, e quando fui buscar, ele foi junto e
trancou a porta. E me atacou, dizendo que eu tinha que ser dele! E com isso,
ele destruiu minha vida! – Disse Audrey, com lágrimas deslizando pelo rosto.
Vivien
a olhou comovida e pesarosa.
-Oh,
Audrey, eu sinto tanto! Vicent a prejudicou, eu sei. Fui à sua casa e seu pai
me recebeu com xingamentos, pensando
que eu era Vicent. Ele disse que a expulsou de casa porque você teve um filho.
Eu fiquei revoltada por saber que ele a expulsou de casa e não liga para o
neto.
-Você
esteve na casa de meu pai?! O que foi fazer lá, Vivien?
-Audrey...
é uma longa estória.
-Tenho
todo o tempo do mundo para ouvir. Fale, Vivien.
Vivien
falou sobre a velha prática de assumir a identidade de Vicent para poder fazer coisas proibidas à ela, por ser
mulher. Falou da descoberta de sua sexualidade com as meninas do colégio. E do
dia que voltou para casa e adotou um novo modo de vestir-se, e cortou os longos
cabelos à altura dos ombros, provocando a ira do seu pai, que a proibiu de ir à
festa de noivado de Vicent.
-Mas
eu fui à festa escondida dele. Estava curiosa para ver a mulher por quem meu
irmão havia se apaixonado – Disse Vivien, quase num sussurro.
Audrey,
que até então a ouvia em completo silêncio, a encarou, falando com voz
emocionada:
-Eu
me lembro de você, olhando a festa pela janela. Eu percebi que era a irmã gêmea
de Vicent e fui falar com você, mas você pareceu com medo de algo e foi embora.
Eu senti algo tão estranho, como se já a conhecesse... queria muito ser sua
amiga, conhecê-la melhor... mas a guerra veio e você se foi.
Vivien
a fitou. Estava cheia de mentiras, de simulações. Resolveu dizer toda a
verdade. Falar tudo para Audrey era uma necessidade, uma espécie de catarse.
-Eu
fugi porque tive medo do que senti, Audrey – Declarou, baixinho – Eu a vi e
fiquei encantada... eu me apaixonei por você. Eu me sentia mal, porque você era
a noiva de meu irmão. E então, meu pai morreu, depois veio a guerra. Vicent foi para a guerra lutar e eu fui para New
York gerir os negócios. E tive a idéia de adotar a identidade de meu irmão,
porque ninguém respeitaria uma mulher dirigindo os negócios de meu pai.
Audrey
a fitou surpresa.
-Você
se apaixonou por mim?!
Vivien
baixou os olhos.
-Sim... eu sofria com isso, Audrey...
só com o passar do tempo eu consegui esquecê-la.Então,
meu irmão apareceu em New York. Desertou da guerra, fugindo da batalha de
Guettysburg. Ele estava gravemente enfermo e morreu no dia seguinte, depois de
me fazer prometer fazer uma coisa em nome dele. Meu irmão me contou o que fez à
você, Audrey. E estava arrependido. Ele me fez prometer que me casaria com
você, usando a identidade dele. Seria uma forma de resgatar a dívida moral que
tinha com você e fazê-la sua herdeira. E vim aqui para cumprir minha palavra,
Audrey.
Audrey a fitou erguendo as
sobrancelhas.
-Como sempre, ele planejou meu futuro
sem consultar-me. Bem próprio de Vicent. Ainda não percebeu que seu irmão era
um egoísta e manipulador, que queria manipular o destino de quem o cercasse?
Pois eu não vou mais fazer nada além do que achar melhor para mim e meu filho!
-Audrey... você tem um filho de Vicent. Não seria bom ele ter o nome do pai?
Audrey a encarou, suspirando. Pareceu
pensativa, e depois a encarou com decisão no olhar.
-Você não conhece nada do que passei
nessa guerra, Vivien. O que acha que passei nesses quatro anos e meio? Que
fiquei numa redoma de proteção, enquanto esperava seu irmão vir cumprir sua
promessa de casamento?
-Bem... eu sei que não deve ter sido
fácil...
Audrey sorriu com desdém, entre lágrimas.
Enxugou-as quase com raiva e encarou Vivien.
-Sabe! Você não sabe nada, Vivien
Talbot! Acaso imagina o que poderia acontecer com uma garota de dezessete anos
no meio de uma guerra, tendo como protetor apenas um pai bêbado?
Vivien baixou a cabeça, embaraçada,
incapaz de encarar Audrey. Sentia vergonha do ato do irmão, como se fosse ela
quem o tivesse praticado.
-Tem razão, não sei de nada... –
Sussurrou.
Audrey respirou fundo, tentando se
acalmar.Falou com voz contida:
-Quando você e Vicent foram embora
daqui, me senti desgraçada, Vivien. Eu já sabia que havia perdido minha honra e
corria o risco de engravidar. E eu... também sofri por sua ausência, Vivien...
eu me sentia estranhamente atraída por você... e isso me confundia e torturava.
Vivien a fitou surpresa e emocionada,
mas Audrey prosseguiu, de cabeça baixa, fitando as mãos no regaço:
-Mas não demorou Charleston sentir os
efeitos da guerra. A cidade foi atacada pelos ianques e começou as nossas
dificuldades. Os empregados de nossa casa se foram e fiquei só com meu pai e a
cozinheira, Maddy. Com meu pai sempre bêbado, xingando a perda dos escravos,
não foi difícil três meses depois, os ianques invadirem nossa casa e levarem tudo que podiam, além de Maddy ser
estuprada e morta pelos homens. Eu tive a sorte de ser alvo do interesse do
capitão do batalhão, que impediu que os homens também me violentassem,
reservando-me para ele. Então, nos dois dias que ficaram aqui, ele me obrigou a
dormir com ele, submetendo-me aos seus desejos.
Vivien a fitou profundamente chocada
com a revelação.
-Oh, Audrey! Nunca imaginei que você
passasse por algo assim! Meu Deus! Deve ter sido horrível! E esse homem não
respeitou nem o fato de você estar grávida?
Audrey ergueu o rosto e a encarou com
tristeza.
-Eu não estava grávida.
-Como assim?!
-Vicent não me engravidou. Vinte dias
depois que vocês se foram, eu tive o meu período.
Vivien a fitou surpresa.
-Então... o seu filho não é filho de
Vicent?!
-Exato. Vicent desvirginou-me, mas não
me engravidou. Quem o fez foi o capitão ianque.
-Oh!... – Disse Vivien, sem ter o que
dizer.
Audrey sorriu com amargura.
-Fique tranqüila, Vivien. Seu irmão não
é pai de meu filho.
-Audrey, essa notícia não me faz achar
que a dívida moral dele com você terminou. Meu Deus, Audrey! Como deve ter
sofrido!
Audrey suspirou, fitando a janela do
quarto.
-Sim, sofri muito, Vivien. Mas não mais
por culpa do seu irmão, e sim pelo meu pai, que não me deu um pingo de apoio. Quando
o capitão se foi com seu batalhão, afugentado pelas nossas tropas confederadas,
meu pai me expulsou de casa, dizendo que não iria sustentar uma filha que havia
deitado com um ianque. Que eu havia desonrado seu nome.
-Que miserável! Seu pai é pior que um
ianque! – Disse Vivien, revoltada.
Audrey a encarou com tranquilidade.Seus
olhos verdes brilharam.
-Deus escreve certo por linhas tortas,
Vivien. Porque essa expulsão me fez vir para a Casa Vermelha, pedir ajuda à
Anette Valois. Ninguém na cidade quis me ajudar, porque eu havia deitado com um
ianque. E eu vim no único lugar que não teria esse julgamento injusto. Anette
ainda estava com a casa em atividade, e recebeu-me com um carinho que nunca
encontrei em ninguém.
- Recebeu-a com carinho, porque ela a
levou para sua cama? – Vivien perguntou, com uma ponta de sarcasmo.
Audrey a encarou com indignação.
-Está completamente enganada sobre
Anette Valois, Vivien! Ela é muito mais humana e mais digna que essas mulheres
puritanas da cidade, com corações duros e línguas afiadas para condenar os
outros! Ela foi piedosa com meu sofrimento, colocou-me para trabalhar na
cozinha, para evitar eu ter contato com os clientes. E quando descobri que
estava grávida, ela deu-me inteiro apoio, tratando-me com carinho, e não como
uma pecadora!
-Desculpe-me...acho que a julguei mal.
O olhar de Audrey se suavizou.
-Quando eu tive meu filho, desejei sair
daqui da cidade, recomeçar vida nova. Foi então que Anette se declarou para
mim, dizendo que me amava, pedindo que eu ficasse até a guerra acabar, que
então ela iria embora comigo. Eu na verdade também estava apaixonada por ela,
eu me apaixonei aos poucos, descobrindo como ela é maravilhosa. E agora,
estamos juntando dinheiro para ir embora daqui.
Vivien suspirou, fitando Audrey.
-Isso quer dizer que não aceita
casar-se comigo, para seu filho ter o nome de um pai, Audrey?
-Não, Vivien. Não concordo com uma
farsa por causa de um nome. Nem se ele fosse filho de Vicent. Minha consciência
não me daria paz. Meu filho iria fazer parte de uma mentira. E você não tem
nada com os atos de seu irmão. Não deixe que o peso dessa promessa continue a atrapalhar sua vida. Porque eu
sei que na verdade você deve amar aquela moça que estava com você aquele dia.
Vivien sorriu com tristeza.
-Seu nome é Deidre. Mas ela foi embora
quando eu falei sobre a promessa que fiz ao meu irmão. Ela deixou uma carta,
dizendo que me deixava livre para decidir minha vida, porque havia entre nós a
promessa e a vida de uma criança.
-Ela agiu com muita dignidade, Vivien.
Em outra circunstância, talvez até pudéssemos ser amigas.
-Audrey, agora que sei que ama Anette
Valois e o que pensa de um casamento entre nós, quero ao menos ajudar vocês a
realizar o sonho de uma nova vida. Eu posso comprar a Casa Vermelha e dar a
vocês um bom dinheiro para iniciar a vida em qualquer lugar que deseje. Mas eu
tenho outra proposta a fazer à Anette.
Audrey a fitou surpresa.
-Que proposta?
-Chame-a . Assim, explico tudo uma só
vez.
Audrey se ergueu e colocou a mão no
ombro de Vivien, fitando-a nos olhos.
-Vivien... eu fui apaixonada por você.
Mas a guerra nos separou, trilhamos outros caminhos. E hoje, eu amo Anette. E
aposto que você ama Deidre. Deve estar sentindo como se tivesse tirado um peso
dos ombros, ficando livre dessa promessa.
Vivien pegou a mão de Audrey e a beijou
reverentemente.
-Você é uma mulher forte, sensata e
lutadora, Audrey...vou ficar orgulhosa se aceitar ser minha amiga.Eu quero
ajudar vocês.
Audrey sorriu, os olhos brilhando.
-E eu aceito sua amizade, Vivien. Com
muito orgulho.
cd
Vivien
olhou para o seu relógio de bolso, impaciente. Faltava mais de meia hora para o
trem chegar à New York. Estava ansiosa para
encontrar com Deidre. Tinha certeza que ela havia voltado a se instalar na casa
que alugara perto da sua antiga casa em New York.
Estava ansiosa e feliz. Finalmente, podia ser feliz com a
mulher que amava sem o medo de ter que cumprir uma promessa e perder o amor de
Deidre. Tudo havia se resolvido maravilhosamente com Audrey.
Audrey e Anette haviam aceitado a sua proposta: Ela havia comprado a Casa Vermelha
por um preço bem maior que o valor real, para ajudar os duas mulheres, e com o
dinheiro elas haviam comprado uma confortável casa na cidade vizinha. Vivien
havia também comprado para elas um prédio em um dos melhores pontos da cidade,
e estava reformando-o todo, para ser um dos melhores hotéis da cidade. Era uma
forma de dar à elas um meio de se sustentarem, viverem com dignidade.
Livre de sua promessa, Vivien estava ansiosa para ver
Deidre, dizer que nada mais as separaria e pedir perdão pelo sofrimento que
causara.
O trem chegou pontualmente em New York. Vivien se hospedou
em um hotel e tomou um banho, trocando as roupas empoeiradas e suadas da
viagem, e saiu logo depois. Entardecia e as ruas estavam cheias de gente,
aproveitando a brisa fresca dessa hora crepuscular.
Vivien, em um elegante terno de casemira cinza, foi à
procura de Deidre.
cd
Deidre Mackena contemplou com tristeza
mais um final de tarde, através da vidraça de sua janela. O sol havia se posto
no horizonte e agora vinha se aproximando a noite. Ela suspirou e saiu da
janela, se sentando na cadeira diante da escrivaninha, fitando a carta
inacabada. Em um gesto de desespero, a pegou e rasgou em vários pedaços, como
havia feito com tantas outras naqueles meses que estava longe de Vivien. Ela
cruzou os braços e pousou a cabeça neles, sentindo seu peito se apertar com a
dor da saudade. Lágrimas ardentes vieram aos seus olhos, que estavam com
círculos enegrecidos em volta, pelas noites mal dormidas.
-Oh, Vivien, Vivien, meu amor...
volte para mim, querida... – Sussurrou.
Onde ela estaria, o que estaria fazendo
naquele exato momento? Estaria nos braços de Audrey Lancaster? Estaria se
preparando para o jantar com Audrey e o sobrinho, filho de Vicent? Esses
pensamentos a consumiam.
Uma de suas amigas, Evelyn Connoly, a
havia visitado e se mostrara assustada com sua aparência, fizera mil perguntas
e Deidre havia se esquivado das respostas, só dizendo que estava sofrendo por
sua separação de Vicent, sem no entanto dizer o motivo dessa separação. Evelyn,
que era doutora, havia lhe receitado um
fortificante e restaurador de apetite, achando-a muito pálida e magra. Mas não
comprara a receita. O seu mal não seria curado com remédios, mas somente com a
presença de Vivien.
Deidre, quando havia voltado para New
York, havia se instalado novamente
na casa que residia quando conhecera
Vivien, até resolver sua vida. Tinha esperança que Vivien logo a procuraria,
assim que resolvesse o problema de sua promessa. Talvez casasse com Audrey
apenas para dar um nome à ela e à
criança, cumprindo sua promessa, e ajudando a moça e o sobrinho
financeiramente, para terem uma vida digna, e depois voltasse para ela. Mas essa esperança se esvaía à cada dia que
passava, e agora, era como uma vela com tênue chama, que logo se apagaria de
vez.
Bateram na porta. Deidre falou com voz
sem vida:
-Entre.
A sua empregada entrou, fitando-a com
certa preocupação.
-Já estou indo, senhora Mackena. O jantar já está pronto, em cima do fogão.
Precisa de mais alguma coisa?
-Não, Betty, pode ir. Até amanhã –
Respondeu, forçando um sorriso.
A mulher a fitou parecendo querer falar
algo, mas mudou de idéia e respondeu:
-Boa noite, senhora Mackena.
E ela se foi, fechando a porta. Deidre
suspirou. A mulher já havia se acostumado com seu modo e não insistia mais em
lhe servir a comida. Ela trabalhava ali o dia inteiro, mas à noite ia para sua
própria casa, cuidar do marido. Assim Deidre achava melhor. Preferia ficar
sozinha, sem ninguém vendo seu sofrimento.
Foi para a sala de estar pegar um livro
para tentar se distrair, quando tornaram a bater na porta. Foi atender e se viu
diante de sua amiga, Evelyn Connoly. Ela sorriu alegremente, passando por ela e
entrando.
-Deidre Mackena, vá se aprontar, que
vamos sair para jantar fora!
Deidre a fitou desanimada. Evelyn era
uma amiga sua de infância. Ela a havia apoiado sempre, e ao longo de seu
casamento infeliz, também sempre estivera do seu lado dando apoio. Atualmente,
Evelyn tentava animá-la para sair de sua depressão, mas Deidre já recusara
vários convites para sair.
-Evelyn... já disse que não ando com
espírito para sair.
-Ah, mas hoje você vai!Eu já estou
cansada de saber que você está infeliz, que terminou com seu amado Vicent! Pena
que eu não cheguei a conhecê-lo, por estar terminando meus estudos longe daqui!
Porque eu iria ter uma séria conversa com ele! Mas esqueça ele por uma noite,
eu comprei convites para uma peça estrelada por Sarah Bernhardt, uma nova atriz
da Comedie Française, que está fazendo muito sucesso na Europa, e a companhia
veio se apresentar aqui! E se eu perder essa peça porque você não quer fazer-me
companhia, vou culpá-la para sempre!
-Evelyn...
-Por favor? -- Pediu Evelyn, batendo os cílios com cara de
cachorro pidão.
Deidre riu e deu um tapinha no ombro da
amiga.
-Está bem, está bem! Mas só vou para contentá-la!
Evelyn riu também, abraçando a amiga.
-Oh, obrigada, Deidre! Coloque seu
melhor vestido, o teatro é frequentado pela fina sociedade de New York, já
sabe!
cd
Mais uma vez Vivien bateu na porta da
casa onde Deidre deveria estar. Nada. E pela total falta de iluminação
interior, ela não estava em casa. Lembrou que era uma sexta feira, um dia que
os novaiorquinos costumavam sair para se divertirem.
-Maldição! Onde ela poderia ter ido?
Vivien sorriu, depois de ficar
pensativa. É claro! Deidre devia ter
ido ao teatro! Havia passado diante do teatro e havia visto a multidão de
pessoas na fila para entrar! Deidre
adorava tudo relacionado à arte, e não iria faltar à apresentação de Sarah
Bernhardt !
Ela voltou para a carruagem que alugara
e mandou o cocheiro se dirigir para o centro da cidade, na área onde havia
vários teatros. Havia ali um projeto para se abrir novas ruas, mas devido à
guerra, o projeto ainda não havia saído do papel.
Quando chegou ao teatro, viu a grande
fila para comprar a entrada. Felizmente havia cambistas no local e ela não se
importou em despender uma alta quantia por um bilhete na terceira fila de
cadeiras. Tudo para achar Deidre.
Depois de enfrentar mais uma fila para
entrar, ela se sentou e olhou para os camarotes à sua esquerda. Nada. O olhar
foi percorrendo os camarotes, e de repente paralizou-se em um belo par de olhos
verdes que a fitavam fixamente.
O coração de Vivien disparou. Ali
estava Deidre! Linda, em um vestido de veludo azul escuro! Seus olhos se encontraram
e ficaram se fitando, estáticas.
Vivien notou que Deidre estava pálida,
parecia mais magra. Mas nem por isso menos linda. Notou que ela estava no
camarote com um homem e uma mulher, ambos jovens e de boa aparência. Quem seriam?
O ciúme penetrou em seu coração como um punhal.
Deidre inclinou a cabeça levemente, em
um cumprimento, mas sem sorrir. Vivien correspondeu, emocionada. O que devia
fazer? Ir logo falar com ela? Não, era melhor esperar o intervalo da peça.
Deidre não fizera nenhum sinal para ela ir até onde estava.
A peça começou. Logo Sarah Bernhardt
surgiu, com uma presença que cativou a todos. Mas Vivien mal prestava atenção,
com seu olhar sendo atraído pela figura de Deidre. Como a amava! Ela estava
adorável!
Deidre a fitava quase furtivamente, dividindo seu olhar entre ela e a
peça. Notou que Deidre estava agora ruborizada, um leve sorriso nos lábios.
Finalmente veio o intervalo e Vivien se ergueu rapidamente, se dirigindo
para o salão de chá, onde o público podia fumar, conversar e tomar um drink.
Vivien logo viu Deidre com o casal, conversando. Vivien, insegura, passou por
eles e foi até o balcão, comprar uma xícara de café. Então, sentiu uma mão
pousar suavemente em seu ombro. Voltou-se e viu Deidre diante dela, fitando-a
com um olhar cheio de ansiedade.
-Vivian... – Sussurrou, com voz trêmula – Não ia falar comigo?
Vivien a fitou emocionada. Ah, que vontade louca de a tomar nos braços e
beijá-la! Mas não podia, tinha que seguir as regras da decência da época.
-Não tinha certeza que seria bem recebida... não quis ser inconveniente.
-Inconveniente?! Jamais será inconveniente para mim, Vivi... Vicent!
O casal aproximou-se delas e olharam para Vivien com curiosidade e
simpatia. Deidre fez as apresentações:
-Esses são meus amigos, Evelyn
Connoly e seu noivo, Malcon Ruppert. E esse é Vicent Talbot, o sulista e
antigo vizinho meu, que agora mora em Charleston.
Sulista e antigo vizinho? Vivien
esperava ser muito mais que isso. Disfarçando sua ansiedade, estendeu a mão
para o rapaz e sua noiva, achando-os simpáticos.
-Muito prazer, Vicent! – Disse Evelyn,
com um sorriso malicioso – Deidre já me falou sobre você, sabemos que é um
destruidor de corações femininos!
Vivien enrubesceu intensamente,
sorrindo embaraçada. O que Deidre teria dito sobre ela à amiga? Felizmente
Deidre veio logo em seu socorro:
-Minha amiga adora embaraçar as
pessoas, Vicent. Não ligue para o que ela diz.Ela apenas está jogando com palavras. Está aqui há muitos
dias?
Vivien a encarou com firmeza,
recuperando sua calma.
-Cheguei hoje ao entardecer, Deidre. E
apenas tomei um banho, troquei de roupa e fui procurá-la. Não a encontrei na
sua antiga casa e imaginei que devia ter vindo ver a peça de Sarah Bernhardt.
Sei como gosta de arte. Vim aqui para ver se a encontrava – Disse, com
sinceridade.
-Oh... – disse Deidre, enrubescedo, sem
ter muito que dizer, o coração batendo loucamente, ao novamente poder
contemplar aqueles olhos azuis.
Ficaram se fitando intensamente,
esquecidas de quem as rodeava. A risada abafada de Evelyn foi que as despertou
do encantamento.
-Vamos, o intervalo logo vai terminar,
depois vocês conversam bastante.
Malcon convidou Vivien para ficar no
camarote deles e ela aceitou. Voltaram para lá e Vivien sentou ao lado de
Deidre. Logo o segundo ato começou e Vivien pegou a mão de Deidre, segurando-a
com carinho. Deidre suspirou e apertou a sua,em um mudo gesto de carinho.
Vivien sentiu um calor percorrê-la, ao
toque daquela mão quente e macia. E mal prestou atenção à peça, sentindo a mão
de Deidre acariciar a sua, entrelaçar os dedos nos seus, a proximidade dela,
com o seu perfume.
Finalmente a peça terminou e Vivien e
Deidre aplaudiram aéreamente. Elas declinaram o convite do casal para jantarem
e se despediram na saída do teatro. Evelyn abraçou Deidre, se despedindo, e
sussurrou em seu ouvido, com malícia:
-Por Deus, Deidre! Esse que é Vicent
Talbot? Não é à toa que você estava tão abatida pela falta dele! Um homem como
esse é mesmo para deixar qualquer mulher definhando de paixão!Vá, eu entendo
sua pressa de ficar à sós com ele!
Deidre enrubesceu intensamente com o
comentário da amiga. Terminaram as despedidas e se dirigiram para a carruagem
que as esperava. Se instalaram e a carruagem partiu.
Vivien não se refreou mais. Puxou
Deidre para seus braços e ela veio ansiosa, passando os braços pelo pescoço de
Vivien, suas bocas se encontrando em um beijo cheio de paixão. Deidre sugou sua
boca como se fosse uma náufraga sedenta, a língua buscando a sua em um ímpeto
arrebatador. E Vivien mais uma vez sentiu-se enfeitiçada por aqueles lábios
deliciosos, pelo cheiro da pele, dos cabelos, do toque das mãos, daquele corpo
contra o seu. Era uma emoção que mulher nenhuma antes a fizera sentir.
Deidre se afastou e a fitou nos olhos,
ansiosa, angustiada, as mãos percorrendo seus cabelos, seu pescoço. Na
escuridão da noite, mal podiam se ver, a não ser por um ocasional poste de luz
à gas.
-Oh Vivien, diga-me que você voltou
para ficar comigo, que ninguém mais vai nos separar!
Vivien pousou um dedo nos lábios dela,
suavemente, a fitando com amor.
-Acalme-se, querida...shhhhhhh...
chame-me por Vicent, ou o condutor da carruagem vai ficar chocado em saber que
sou uma mulher – Sussurrou Vivien, sorrindo – E respondendo à sua pergunta, Eu
prometo que de hoje em diante, você não terá que se preocupar com mais nada que
possa nos separar, a não ser que eu morra.
-Não fale em morte, não fale... – Disse
Deidre, acariciando seu rosto, fitando-a com os olhos cheios de amor – Eu
preciso tanto de você, Vicent...isso quer dizer que você resolveu seu problema
com Audrey e o filho dela?
Vivien
fitou-a com ar apaixonado, pegando as mãos dela e as beijando
reverentemente.
-Está tudo maravilhosamente resolvido,
Deidre. Vou contar a você tudo que descobri.
E Vivien contou tudo que havia
acontecido e o que Audrey lhe havia revelado. Deidre a ouviu soltando
exclamações de espanto.Quando Vivien terminou o relato, ela suspirou de alívio.
-Quer dizer que Audrey Lancaster não
foi engravidada por seu irmão, mas sim por um ianque... e ela acabou se
apaixonando pela mulher que a acolheu na Casa Vermelha... e não quis aceitar
seu oferecimento de casar-se com ela apenas para dar um nome ao filho dela e à
ela mesma...apesar de ter tido uma paixonite por você e você ter estado
apaixonada por ela...
Vivien sorriu, percebendo uma ponta de
ciúme na voz de Deidre, mas fingiu não perceber isso.
-Sim, ela me surpreendeu, Deidre...
Audrey é uma mulher corajosa e desinteressada...ela sabia que um casamento
desses lhe daria direito à herança de tudo que possuo, mas ela se negou a
participar dessa farsa, alegando que não queria envolver seu filho em uma
mentira.
Deidre continuou fitando-a com mal
disfarçado ciúme.
-Oh, você está admirando-a por isso...
mas eu acho que ela simplesmente fez
uma escolha entre você e quem ela ama verdadeiramente. Venceu o amor.
Vivien a encarou de perto, fitando
aqueles olhos que a encantavam, pegando o rosto dela entre as mãos.
-Acho que você tem razão. E estou feliz
dela ter uma pessoa que ela ama e que também a ama e protege. E por falar em
escolha, por que você veio embora para New York sem se despedir de mim, Deidre?
Isso me magoou muito, eu não esperava que você desistisse de mim tão fácil.
Levou um bom tempo para essa mágoa arrefecer.
-Não podia suportar ver você ao lado de
Audrey, Vivien. Eu me sentia tão frágil, tão insegura... eu sabia que você iria fazer a proposta de
casamento à ela. E tinha quase certeza que Audrey aceitaria.Afinal, ela estava
passando por problemas financeiros e teria uma vida de rainha se casando com
você, além de garantir o futuro do filho. Eu já me sentia derrotada. Fugi para
não ver você chegar e dizer-me que iria casar com Audrey. Eu tive medo de ver
em seus olhos que estava feliz pela aceitação dela à sua proposta.
-Oh, Deidre! Como pôde pensar isso?!
Não acredita em meu amor? – Perguntou Vivien, com mágoa.
Os olhos de
Deidre a fitaram com adoração.
-Estou tentando minimizar minhas
inseguranças em relação à você, meu amor. Se fugi sem me despedir, é porque
sabia que não conseguiria tomar essa atitude fitando seu olhos. E agora acredito totalmente em seu amor, depois
que voltou e perdoou minha covardia e insegurança. Eu a amo e farei tudo para
merecer seu amor.
-Você já merece, querida...
Suas bocas se encontraram em um
beijo profundo. Foram interrompidas pela carruagem parar e o cocheiro anunciar
que haviam chegado.
Elas
desceram e Vivien pagou ao cocheiro, sob protestos de Deidre. Elas entraram na casa e se fitaram, quando a
porta foi fechada. Um lampião de gas
iluminava o ambiente fracamente, com a chama reduzida.
Não havia
mais nada a dizer. Deidre tomou Vivien pela mão e subiram para o quarto.
No quarto,
à meia luz, uma despiu a outra, os olhos apaixonados percorrendo cada pedacinho dos corpos se incendiando de paixão,
de encantamento, de amor. Suas bocas se buscavam incansáveis, as mãos cheias de carícias, passeando pelas curvas e
reentrâncias, despertando gemidos de prazer. Deidre entregou-se como nunca,
permitindo Vivien tomá-la em várias posições que a tornava inteiramente
vulnerável, mostrando-se sem nenhum pudor aos olhos lúbricos do seu amor, que a
levava à loucura total.
Que emoção louca, para Deidre,
sentir o sexo de Vivien umidecido se roçando em seu corpo, a
mão forte , mas delicada , se
insinuando entre suas coxas afastadas
ao máximo para receber o afago tão desejado, os bicos duros dos seios de Vivien
tocando suas costas, esfregando, à cada movimento de seus quadris, a respiração
quente dela em seu ouvido, quando falava coisas excitantes, com aquela voz
profunda, rouca, inebriante...
Que prazer
inenarrável Vivien sentia, com o corpo da mulher amada se entregando totalmente
à ela, sem nenhuma reserva, totalmente vulnerável, com uma confiança que somente um amor verdadeiro propicia, ouvindo os
gemidos de Deidre, seus sussurros, pedindo que a tomasse toda, que ela era sua,
que a amava loucamente e queria ser possuída de todas as maneiras.
O êxtase
simultâneo sacudiu os corpos suados, provocando gritos que se perderam na noite
. E outros se repetiram, porque elas estavam embriagadas de paixão e queriam descontar o tempo que
estiveram afastadas.
Finalmente vencidas pelo cansaço,
ficaram abraçadas, com Deidre com a cabeça pousada no ombro de Vivien, que
alizava seus cabelos com um olhar pensativo.
-O que está pensando, amor? –
Perguntou Deidre, curiosa.
Vivien voltou o rosto e a fitou
sorrindo.
-Estou pensando o quanto a amo. E
como seria feliz se você aceitasse casar comigo. Ter o meu nome, ser minha
esposa.
Deidre a fitou emocionada.
-Oh, eu seria tão feliz em ter seu
nome, em ser sua esposa! Está falando sério?
-Claro que
sim. Bem, você sabe que vivo uma vida roubada de meu irmão. Só posso me casar
com você com o nome dele. Mas eu quero que viva comigo abertamente, sem
precisarmos esconder nosso amor. Não quero que você seja motivo de comentários
maldosos do povo da cidade por viver com um homem sem ser casada. Quero que
seja respeitada e aceita em qualquer lugar sem provocar comentários.
Deidre riu, erguendo o corpo para fitá-la nos olhos, se apoiando
no cotovelo esquerdo.
-Oh, você
quer fazer de mim uma mulher honesta, Vivien Talbot! Isso é muito cavalheirismo
de sua parte! E como não sou boba como Audrey Lancaster, eu aceito o pedido com
muito gosto! Como recusar uma proposta dessa, de um tipo irresistível como
você? Vão invejar-me por ser a esposa do “homem” mais bonito de Charleston!
Vivien
enrubesceu e a puxou contra si, emocionada.
-Oh,
Deidre, estou tão feliz! Deidre Talbot! Minha esposa!
Seus
lábios se encontraram em um beijo profundo. Depois,
adormeceram.
cd
Todos aguardavam a
noiva chegar, principalmente ela.
O altar havia sido improvisado sob a sombra de um imenso
carvalho, uma idéia de Audrey. Todo decorado com lírios e rosas brancas, para o
qual convergia um tapete vermelho. Os convidados, em suas melhores roupas,
aguardavam o início da cerimônia sentados em bancos dispostos dos lados do
tapete, com sorrisos de expectativa, alguns cochichando sobre a demora da
noiva.
Vivien olhou em volta, com as mãos cruzadas diante do corpo,
sentindo o coração em tumulto pela ansiedade
e a sensação que estava cometendo um crime. Era uma farsa que ia
concretizar-se, mas somente ela sabia disso: ela era o noivo!
Mas quem diria que ela não era um homem, vendo aquele rapaz
de alta estatura, esguio e de ombros largos, cabelos negros cortados curtos,
vestido com um terno escuro numa pose imponente? Certo, sua pele imberbe do rosto não era um sinal de
masculinidade, nem os lábios cheios e naturalmente vermelhos. Porém, o queixo angular forte e o olhar
determinado e direto, demonstravam força e coragem, dons que as pessoas costumavam
associar aos homens somente. A força de seu olhar, seus gestos firmes e secos,
eram outros atributos masculinos.
Não, ninguém suspeitava da masculinidade do noivo. Ainda
mais que seu passado era repleto de conquistas femininas.
Vivien comprimiu os lábios, lembrando desse detalhe. Era uma
fama que a aborrecia, mas nada podia fazer. Herdara isso de seu irmão, como
herdara também toda a vida dele: o nome, a identidade sexual, suas fraquezas,
seu passado. E agora, seu futuro.
E Audrey faria parte de desse futuro. Somente isso já valia
os riscos que correria. Estava jogando com toda sua vida pelo prêmio de ficar
com Audrey.
Os acordes da orquestra contratada se fizeram ouvir, tocando
a marcha nupcial. Isso era o sinal que a noiva estava chegando. Vivien olhou
para trás, e engoliu em seco, nervosa e emocionada.
Lá vinha ela! Linda no vestido de noiva branco, os cabelos
louros presos numa grinalda de flores, aproximando-se de braço dado com o pai.
Vivien ficou fitando-a, imóvel pela emoção.
O rosto de Audrey estava grave, os
olhos verdes fitando-a com certa desconfiança, como se soubessem de sua
verdadeira identidade. Mas Vivien sabia que eles apenas espelhavam a
desconfiança de uma mulher que ia casar-se apenas para livrar-se da desonra e
ruína da família, mesmo sem amar o noivo.
Vivien
desceu o degrau e foi ao encontro dela, estendendo a mão. Audrey apoiou a mão
na sua, deixando-se conduzir ao altar. Seus olhares se encontraram e Audrey
contraiu o rosto, demonstrando que o toque de suas mãos havia produzido nela
alguma sensação. Vivien não sabia se essa sensação era de repulsa ou atração. A
mão dela estava gelada.
Vivien soltou a mão dela e olhou para a frente. O padre
Weston começou a cerimônia, com sua voz de barítono.
Vivien respirou fundo. Agora não tinha mais volta.
“Consummatum est”.
-Nãoooooooooo!!!!!!!
O
grito ecoou no quarto, alto, cheio de desespero, fazendo Deidre despertar e sentar assustada na cama . Olhou
para Vivien, que tinha os olhos fechados, mas falava com angústia na voz:
-Não... não quero...
não com ela... não... NÃO!!!!!!!!!!!
Deidre se debruçou para Vivien e a sacudiu pelos ombros, percebendo que
ela estava tendo um pesadelo. Ela se debateu e Deidre disse com suavidade, mas
com um bom tom de voz:
-Acorde, Vivien! Você
está sonhando! Acorde!Acorde!
Vivien
abriu os olhos ofegante, fitando-a assustada. Se sentou na cama, desvencilhando
das mãos de Deidre e olhou em volta, para certificar-se que estivera mesmo
sonhando. A claridade do dia que surgia a confortou , ao ver Deidre a fitando
preocupada. Estendeu os braços e abraçou Deidre apertadamente contra o corpo,
suspirando de alívio. Deidre a beijou no rosto, sentindo-a tremer.
-O
pesadelo foi muito feio? – Perguntou
com carinho.
Vivien
afastou-se lentamente e a fitou nos olhos. Suspirou e esclareceu:
-Bem...não
seria um pesadelo antes de tê-la conhecido, Deidre. Seria até um sonho muito
desejado. Mas hoje, depois de ter você em minha vida, é um pesadelo, porque eu
amo você muito e quero passar minha vida com você.
O
cenho de Deidre se franziu, confusa.
-Que
sonho ou pesadelo foi esse?
-Eu
me casando com Audrey, Deidre. Meu Deus! Parecia tão real!O engraçado é que eu
queria casar-me com ela, estava feliz. Mas depois do casamento, eu lembrei de
você e fiquei desesperada com o que tinha feito. Queria fugir, mas ela não
deixava, me abraçando.
Deidre
a fitou com amor, acariciando o seu rosto.
-Pobre
amor! Eu acho que você sonhou com o casamento com ela porque me propôs
casamento antes de dormir. Como por muito tempo estava preocupada com a
promessa que fez ao seu irmão, ela me substituiu como noiva.
Vivien
suspirou, abraçando-a novamente, sentindo uma grande paz e alegria tomar seu
coração.
-Deve
ser isso, amor. A gente às vezes tem tantos sonhos loucos...e temos tantas
impressões erradas das pessoas... o ser humano comete muitos erros de
avaliação.E eu também cometo os meus.
-Sim,
somos seres passíveis de erros. É a natureza humana, querida.Venha, deite-se ao
meu lado. Ainda é muito cedo e fomos dormir muito tarde.
Vivien
sorriu e se deitou. Deidre se aninhou em seus braços e em pouco tempo estavam
novamente dormindo.
Em um altar construído ao ar livre na fazenda Paradise, Deidre Mackena
e Vicent Talbot se casaram, numa cerimônia íntima que apenas poucos convidados
e testemunhas compareceram. A tarde ensolarada de verão estava radiante e o sol
brilhava entre nuvens brancas como algodão, em um cenário belíssimo para o
acontecimento.
Vivien, em um terno negro, e Deidre, em seu belo vestido de noiva, se
fitavam embriagadas de felicidade.
E lá estavam Audrey e Anette, com o pequeno Justin, elegantes e
risonhas, presenciando a felicidade dos noivos. Elas também estavam felizes,
porque agora moravam em uma bela casa com conforto, possuíam um hotel que lhes
dava uma vida digna e eram respeitadas. Uma sincera amizade se formara entre
elas e os noivos e Deidre e Audrey se visitavam e trocavam confidências,
receitas e sujestões de roupas e decoração, como duas boas amigas, sob os
olhares divertidos de Vivien e Anette, que preferiam falar de negócios. Justin
era muito apegado à Vivien, a quem chamava “tio Vicent”, que o estava ensinando
a montar .
E assim, depois de uma guerra que dividiu uma nação, a vida refloresceu, espalhando a esperança de melhores dias. Mesmo levando uma vida
roubada, Vivien seria feliz até o fim de sua vida, com a mulher que amava.
FIM
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