Vida Roubada
Com a
separação do governo central, o Estado
da Virgínia se tornou mais um estado confederado, e no intervalo de semanas, os
Estados de Arkansas, Carolina do Norte, Tenessee, Missouri e Kentucky também se
separaram da União e se juntaram aos Estados Confederados. A secessão dos
estados se expandia, assim como a guerra.
Com
o Estado da Virgínia entrando para a guerra, todos os homens foram convocados
para a luta. E Vicent, o filho de um dos mais ilustres homens de Charleston, o
falecido Charles Talbot, devia ser um dos primeiros a dar o exemplo de se
juntar à “nobre causa”, como os sulistas chamavam a guerra contra os nortistas.
Vicent foi procurado por uma comissão
de alistamento militar e não teve alternativa, se alistou nas tropas
confederadas. Por ser de uma família proeminente, foi alistado no cargo de
major e deveria partir dentro de dois dias para se juntar às tropas.
Vivien teve uma séria conversa com seu
irmão, à portas trancadas. Ela sabia que Vicent havia se alistado apenas porque
todos os homens com mais de quinze anos estavam se alistando e ele não queria
que o chamassem de covarde, manchando o nome que carregava. Mas ela sabia que
ele estava cheio de medo, porque nunca havia pegado em uma arma, era avesso à
violência e mal sabia montar em um cavalo.
-Vicent, você não é obrigado a ir para
essa guerra. Desista de bancar o herói e cancele esse compromisso.Alegue que
está doente. O doutor Prescot confirmará, eu conversarei com ele.
Ele a encarou com olhar triste e
conformado.
-Não! Chega de mentiras, Viv! Eu assumi
esse compromisso e não vou fugir dele.Lembre-se, eu sou para todos o corajoso, o abatedor de lince, o habilidoso
filho de Charles Talbot. Eu não posso mostrar o que sou na realidade, Viv.
Tenho que honrar a fama que tenho. Mas dessa vez, sem farsa. Viv, quero provar
à mim mesmo que posso fazer algo louvável. E essa guerra é a minha prova de
fogo. Não quero mais escudar-me em mentiras.
Vivien o fitou com os olhos cheios de
remorso.
-Eu sou a culpada disso tudo. Eu quem
colocou em seus ombros essa fama que agora o obriga a fazer o que não quer. Eu
sinto tanto, Vicent!
Vicent sorriu tristemente e pousou a
mão no ombro de Vivien, afetuosamente.
-Você não tem do que culpar-se, Viv. Se
não fosse você, eu seria um homem que todos desdenhariam. Seria considerado um
maricas medroso. Prefiro que seja como é. A honra de um homem é a coisa mais
importante para ele, e eu a tenho, Viv, graças à você. E não vou perdê-la
agora.
-Vicent! Essa guerra já está perdida,
nosso pai disse isso porque ele conhece bem o poder dos nortistas! Nós seremos
esmagados! Vamos embora daqui, nossos pertences mais preciosos já seguiram para
New York, as ferrovias ainda permitem livre tráfego! Cruzaremos a fronteira
para o estado de Ohio, que não é confederado, e de lá seguiremos para New York,
onde ficaremos em segurança até a guerra acabar! Vamos administrar a companhia
de exportação de nosso pai ! Temos de ser realistas, Vicent. Case-se com
Audrey, se quer mesmo isso, e vamos embora!
Ele a encarou com seus olhos tristes.
-Audrey não quer casar-se comigo, Viv.
E a culpa é minha. Eu preciso dar um tempo à ela para me aceitar, provar que
valho alguma coisa. E vou provar isso lutando na guerra.
-Vicent! É por causa de Audrey
Lancaster que você quer ir para a guerra! – Disse Vivien, surpresa – Agora
entendi, você quer mostrar à ela que você é corajoso, um homem que ela pode
admirar! Vicent, não faça isso! Ela não o ama, não pecebe isso? Se ela o amasse,
não pensaria mal de você. Por que insiste nesse noivado? Você pode morrer por
querer impressionar Audrey Lancaster!
Vicent a fitou com teimosia.
-Eu amo Audrey, Viv. E vou fazer tudo
para que ela me ame.Não adianta tentar convencer-me do contrário. Eu vou
casar-me com ela, quando a guerra terminar.
Vivien suspirou, vencida. Conhecia
bem o irmão para saber que nada adiantaria tentar demover ele de sua decisão. A
teimosia era uma característica dos Talbot. A última vez que vira Audrey havia
sido no funeral de seu pai. E guardara distâcia dela, com medo de deixar
transparecer a paixão que a dominava. Ela percebera sua reserva e a olhara com
um olhar magoado, não insistindo em se aproximar. Deus, era tão difícil conter
o que sentia!
-Pois bem, Vicent. Vá para a guerra,
sofra os horrores de conviver com a morte, lute e mate para não morrer! Só
espero que não perca sua vida ou volte aleijado, você é tão jovem e tem tanto
para viver! Se eu pudesse, o impediria de participar dessa guerra, insensata como
todas as guerras! Vicent, vamos lutar contra nossos compatriotas, somos o mesmo
povo!
-Vivien, não diga isso para mais
ninguém, ou vão considerá-la uma traidora! A maioria esmagadora do sul acha a
guerra justa e necessária! Que é uma questão de honra e dever!
-E você? O que acha?
-Eu não sei... não tenho certeza de
nada. Mas vou cumprir meu dever de sulista honrado.
-Você vai lutar por uma causa que nem
acredita! Desista dessa loucura, Vicent!
-Não, Viv! Não insista mais! Prefiro
morrer que viver em desonra. Não suportaria ser considerado um covarde.
-Tolo! Quando estiver no “front”, só
vai pensar em salvar sua vida, e em nada mais! Vai presenciar horrores, vai ter
que matar, vai sentir o medo de morrer! E então verá que honra é apenas uma palavra
sem sentido, que leva os homens a cometerem loucuras! Se tornarem frios
assassinos!
-Minha decisão está tomada, Viv – Disse
Vicent, se erguendo e saindo da sala.
cd
Dois dias depois, Vicent partiu, no vistoso uniforme azul. Vivien se despediu
dele na estação, deixando com ele o seu futuro endereço em New York. Seu pai,
antes de morrer, já havia mandado seu advogado alugar uma casa confortável de
quatro quartos, onde a família se instalaria.
Audrey foi também se despedir, acompanhada pela mãe. Seu pai
estava acamado com uma crise de gota, mas havia ordenado à filha ir se despedir
do noivo. Mesmo com a guerra, tinha esperança do conflito acabar logo e Vicent
se casar com a filha.
Audrey olhou para Vicent com certa
piedade. Ele havia se comportado muito mal com ela, mas numa hora dessa, que
ele estava prestes a partir para uma guerra e talvez não voltasse, seu ódio se
amenizou até ser substituído por piedade. Ali estava um jovem que começava a
viver, e talvez sua vida fosse ceifada por aquela guerra insensata!
Ela estendeu as mãos e segurou as mãos
dele, fitando-o nos olhos .
-Que Deus o acompanhe, Vicent. Lute com
coragem, mas não queira ser um herói, expondo-se ao perigo demasiadamente –
Disse, emocionada – Pense mais em você que na vitória dos confederados, porque
sua vida é muito mais preciosa que uma causa que já está perdida.
Vivien a fitou com admiração. Audrey
pensava igual à ela e dissera as palavras que Vicent precisava ouvir. Ela
demonstrava ser uma pessoa realista, sensata e adulta, apesar de ser bem jovem.
Vicent sorriu, agradavelmente surpreso
com as palavras de Audrey.
-Eu vou lembrar dessas palavras suas,
Audrey. Será minha oração. E quando eu voltar, você será minha esposa.
E sob o olhar de Vivien e da mãe de
Audrey, puxou a moça num abraço e a beijou nos lábios.
Vivien sentiu as agulhas do ciúme
penetrarem dolorosamente em seu coração. Empalideceu, vendo aquela cena,
sentindo também uma incômoda sensação de culpa por sentir-se assim. Não tinha
esse direito.
Audrey
o empurrou e afastou-se ruborizada, olhando para Vivien, parecendo
envergonhada e mortificada.
Vicent se aproximou de Vivien e a abraçou, beijando-a na testa.
-Adeus, Viv. Não se preocupe. Saberei
cuidar-me e serei cauteloso. Quando a guerra acabar, voltarei e viveremos eu,
você e Audrey na nossa fazenda Paradise.
Ela o fitou gravemente.
-Se Paradise ainda estiver de pé,
Vicent. Mas você tem também o endereço da casa que vou morar em New York.
Quando a guerra acabar, saberá onde encontrar-me, se não me achar em Paradise.
O trem apitou, avisando que ia dar
partida. Havia uma multidão se despedindo das tropas que partiam. Mães,
esposas, filhos, irmãos, noivas, namoradas... os soldados nas janelas do trem,
gritando despedidas, outros dando o último beijo e abraço na plataforma, numa
confusão de ruídos.
Vicent correu e embarcou, quando o trem
começou sua marcha lenta. Ele acenou no meio dos outros, os olhos cheios de lágrimas, pela tristeza da partida.
Vivien acenou, gritando recomendações
ao irmão, vendo o trem ganhar velocidade e se afastar. Na plataforma, a
multidão gritava e acenava com bandeirinhas confederadas. E o trem foi se
afastando, até sumir numa curva da ferrovia.
Vivien e Audrey se olharam. Cada uma
tentando esconder seus sentimentos, com medo da verdade. Audrey sorriu, um
sorriso sem alegria.
-Você vai mesmo para New York, Vivien?
– Perguntou Audrey.
-Vou, Audrey. E aconselharia você e
seus pais a saírem daqui também, nosso estado é bem perto dos estados
nortistas. Breve seremos atacados. Não vou ficar aqui esperando o ataque.
A mãe de Audrey falou com voz cheia de
medo:
-Eu já pedi ao meu marido para
vendermos tudo e ir para um lugar mais seguro, mas ele disse que não vai fugir,
vai esperar os ianques com a arma na mão.
-Oh... lamento que ele as exponha ao
perigo, senhora Lancaster. Se precisar de ajuda por algum motivo, pode procurar ajuda em nossa fazenda. Já instruí
os criados da casa para ajudarem nossos
amigos, em caso de necessidade, como abrigo, comida, remédio...
-Nós agradecemos, miss Vivien, e não
vamos recusar ajuda, se precisarmos.
-Bem, devo ir agora... – Disse Vivien,
sentindo o olhar de Audrey sobre ela – Estou organizando tudo para viajar
amanhã.
-Não será perigoso viajar atravessando
para o lado inimigo? – Perguntou Audrey, fitando-a preocupada.
Vivien sorriu, fitando os belos olhos
verdes.
-Eu vou viajar com dois criados até a cidadezinha de Parkersburgh na divisa de Virgínia com Ohio,
seguir para Athens, já no estado de Ohio, e daí para Columbus, onde tomarei um
trem para New York. Felizmente, o bloqueio ao nosso estado, por enquanto não foi decretado pelo governo
central.
Audrey desviou o olhar, mas Vivien pôde
ver neles preocupação. Será que Audrey se preocupava com ela?
-Bem, desejo-lhe sorte nessa viajem,
Vivien. Se puder escrever nos dando notícias, agradecerei.
-Não sei se o correio entre os estados
nortistas e sulistas continuará, Audrey. Mas vou ver o que posso fazer.Boa sorte
para vocês – Disse Vivien, formalmente, sorrindo com esforço.
Em seu íntimo tinha vontade de abraçar
Audrey, beijá-la, chamá-la para ir com ela para New York. Mas não podia. Tinha
que manter a formalidade de uma pessoa que mal conhecia a outra. Assim,
despediu-se da mãe de Audrey, fez votos de melhoras para o pai de Audrey e se
afastou, sentindo seu coração pesado, com a sensação que deixava seu coração
ali, com Audrey.
cd
À
noite, Vivien estava preparando a
bagagem que iria usar, quando uma idéia audaciosa lhe ocorreu: e se chegasse em
New York como um homem, com a identidade de seu irmão? Ele estaria ausente por
muito tempo e ela poderia se passar por ele. Sabia que como mulher teria
dificuldades em gerir os negócios herdados do pai, por que os homens não
estavam habituados a negociarem com uma mulher, e muito menos serem comandados
por uma. E também, durante a viagem, era realmente perigoso em tempo de guerra
duas mulheres viajarem sem uma companhia masculina. Já um homem, mesmo um
rapazinho com uma velha criada,
pareceriam menos desprotegidos.
Vivien foi ao quarto do irmão e
escolheu algumas roupas no armário. Despiu-se e vestiu a calça comprida cinza,
cortou um lençol em uma longa faixa, que enrolou sobre os seios pequenos,
disfarçando-os, vestiu uma camisa azul de seda, colocou o laço de veludo no
pescoço e o colete. Ergueu o rosto, se olhando no espelho. Nada mal. Sem aquele
cabelo comprido, até que convenceria como homem.
Sem hesitar, pegou a tesoura que um
criado usava para aparar o cabelo de Vicent e começou a cortar o cabelo sem
hesitação, com as longas mechas caindo no chão do banheiro. Procurou imitar o
corte do cabelo de Vicent, que o usava em longas mechas até a nuca . Quando
terminou, olhou-se satisfeita. Bem, tinha que ensaiar os seus jestos, para
serem mais secos, sem trejeitos femininos. Sua postura, seu andar...
Voltou ao quarto e pegou um paletó de
Vicent. Vestiu-o. Voltou-se e deu de cara com Mooke, que a fitava espantada.
-Sinhô Vicent! Ocê vortô !
Cumo aconteceu isso?
Vivien riu. Para Mooke estar falando
errado, ela devia estar muito transtornada. Sabia que sua mãe havia se
empenhado para ensinar à sua ama a falar corretamente, para os filhos também
não adotarem aquele modo errado de falar, com a convivência com a ama. Mooke
aprendera a falar corretamente, mas quando estava nervosa, falava como os
outros escravos, errando as palavras. Resolveu tentar enganar Mooke mais um
pouco. Olhou-a séria, colocando as mãos nos bolsos da calça.Falou, baixando a
voz duas oitavas:
-Fugi, Mooke. Resolvi não ficar no meio
daquela tropa.
-Sinhô Vicent, isso num é certo! O
sinhô fez uma coisa errada!
-Não, Mooke, eu fiz a coisa certa. Eu
não ia agüentar ficar sem o conforto de minha casa – Disse Vivien, indo até a
janela, para ficar onde houvesse bastante claridade, para ver se Mooke a
reconhecia.
-Sinhô Vicent, vô chamar sua irmã! O
sinhô percisa de uns conseios!
Mooke ia saindo, quando Vivien a
segurou pelo braço, rindo.
-Não precisa, Mooke! Eu já estou aqui,
não vê? Sou eu, Vivien!
Mooke arregalou os olhos, colocando a
mão na boca, assombrada.
-Virge Maria! Miss Vivien! É mermo
ocê?!
-Sou, Mooke! E já vi que meu disfarce
está perfeito! Posso me passar por Vicent! Você não me reconheceu, você, que
nos criou!
-Miss Vivien, parece coisa do demo! Ocê
cortô seus cabelos tão lindos! Está iguarzinha ao seu irmão! Mas, purquê fez
isso?
Vivien explicou. Mooke a olhou com
desaprovação.
-Humphh ! Isso é uma coisa perigosa,
Miss Vivien! E se a veudade for discuberta?
-Ninguém vai descobrir nada, Mooke! Se
você não percebeu, ninguém mais vai perceber! Acostume-se a me chamar pelo nome
de meu irmão! E pare de falar errado, você sabe falar as palavras certas!
-Hunnff! E quando o sinhô... o senhor
Vicent voltar?
-Eu volto à minha real identidade!
Todos pensarão que a irmã dele quem chegou, quando eu aparecer como mulher! Já
está decidido, Mooke! Eu vou para New York como Vicent! Sairei daqui como
Vivien e adotarei a identidade dele quando estiver longe de Charleston.
E assim foi feito. Vivien saiu na manhã
seguinte em uma carruagem vestida com o
vestido negro e um chapéu com um laço de veludo que disfarçava os cabelos
curtos, acompanhada de Mooke e seu marido, o velho Vinicius, que estava à par
do disfarce de Vivien e era de inteira confiança em sua discrição. O velho
dirigiu a carruagem de dois cavalos por três horas, até sair fora da estrada e
se esconder atrás de uma pedra, parando. Vivien então se trocou dentro da
carruagem, ajudada por Mooke.
Tirou o vestido e o espartilho foi
substituído por uma faixa de linho com colchetes, apertando os seios, a calça
de rendas por uma ceroula justa de malha de algodão branca do irmão, e
também uma camisa de seda azul, calça
comprida de cor escura, colete cinza e um jaquetão de camurça marron escuro.
Complementando, botas de cano longo, luvas de fino couro negro, e chapéu de
abas curtas marron, combinando com o jaquetão. Quem a fitasse agora, apenas
veria um rapaz elegante viajando com seus criados.
O velho Vinicius e Mooke a fitaram
boquiabertos, quando ela desceu da carruagem e entregou o vestido para Mooke
guardar. Vivien não existia mais. Ali estava Vicent Talbot, para quem olhasse!
Mooke se benzeu e Vivien riu, uma
risada grave, rouca, sensual. Isso não mudara.
-Então, Vinicius? O que acha, vou
conseguir me passar por homem na viagem?
-Miss Vivien, ocê assim engana inté o
demo!
Vivien o fitou séria.
-Senhor Vicent, Vinicius! Senhor
Vicent! Por muito tempo, não sei até quando, eu serei para todos Vicent Talbot!
Não esqueça isso!
-Pode deixar, miss... sinhô Vicent! Num
vô esquecê mais!
-Ótimo... vamos indo agora. Temos que
chegar à cidade de Athens à tempo de conseguir quartos e jantar. E para isso, não podemos chegar
muito tarde.
A viagem foi relativamente fácil.
Chegaram ao anoitecer em Athens e pernoitaram em um modesto hotel, mas muito
limpo e com boa comida. Todos os empregados atenderam o distinto gentleman com
cortesia, e Vivien percebeu os olhares interessados das mocinhas que jantavam com
os pais nas mesas vizinhas. Um teste para ela e um afago em seu ego, quando uma
delas lhe sorriu docemente.
No dia seguinte o velho Vinicius voltou
para Charleston com a carruagem e Mooke e Vivien tomaram um trem para New York.
E sem grandes atropelos, chegaram à New York um dia depois. No dia seguinte, o
governo central decretou o bloqueio dos portos dos estados confederados. Daí em
diante, a saída de sulistas dos estados confederados teria que passar por
bloqueios de soldados ianques, que podiam prender qualquer pessoa suspeita.
cd
Vivien e Mooke se instalaram na casa que
o advogado de seu pai havia alugado. Era uma casa confortável de quatro
quartos, rodeada por um jardim, em um bairro da classe média novaiorquina. Bem
mais modesta que a mansão Paradise, mas Vivien gostou da casa e do lugar. Na
praça em frente da casa se viam crianças brincando ou passeando com as mães,
carruagens parando para pegar pessoas elegantes, homens conversando sob a
sombra dos carvalhos ou lendo seus jornais sentados em bancos. Era uma rua
cheia de vida e movimento e Vivien gostava disso.
O
advogado de seu pai a havia recebido
com cortesia, dizendo o quanto sentia a morte de seu cliente e amigo. Vivien não notou nele nenhuma suspeita,
quando se apresentou como Vicent. E ele a levou até a companhia de exportação
de seu falecido pai, apresentando-a ao contador da firma, que a olhou com
simpatia:
-Vicent Talbot? É exatamente como seu
pai o descrevia para nós. Meus pêsames pelo falecimento de seu pai, senhor. Sou Hugh Manesman. Tudo
que quiser saber sobre a companhia, pode perguntar-me.
Hugh Manesman era um homem magro, meio
calvo, com inteligentes olhos azuis sob os óculos de lentes grossas e nariz
aquilino. Vivien simpatizou logo com ele.
Ela olhou em volta, com as mãos nos
bolsos da calça. Havia ensaiado seus gestos, ninguém suspeitaria de sua
identidade, vendo aquele rapaz alto, de gestos seguros e olhar firme.
-É um bom escritório, sr. Manesman.
Trabalha sozinho aqui? Quantos empregados possuímos?
-Aqui no escritório temos eu, o meu
ajudante, uma secretária, e uma mulher que faz a faxina e café. No armazém do
porto, temos dois vigias. Os homens que estocam e embarcam o algodão são
contratados por dia de trabalho.
Vivien encarou o homem com seriedade.
-Quero que me explique tudo sobre nossa
companhia de exportação, sr. Manesman. Desde quando a mercadoria chega do sul,
até quando é embarcada.
-Tudo bem, senhor. Vou apanhar os
livros fiscais para lhe mostrar.
Vivien aprendeu rápido . Com
sua inteligência e vontade de aprender, logo passou a entender o mecanismo das
exportações de cereais e algodão. A companhia importava café,seda e
especiarias. Exportava algodão, trigo e milho. Em poucos dias, tomou uma
decisão:
-Sr. Manesman, temos que inverter
nossos negócios. Vamos importar mais trigo e milho, ao invés de exportar.E
também importar açúcar e café.
Ele a fitou sem entender aquela
reviravolta.
-Os negócios estão indo bem. Por que
mudar?
Ela sorriu com astúcia.
-Os estados do sul estão em guerra, sr.
Manesman. E é do sul que vem o algodão para as indústrias de tecidos. Logo
faltará no mercado essa matéria-prima. Os preços subirão e nós teremos algodão
estocado. E também teremos milho, trigo, café e açúcar, a preços bem mais
altos.
O contador olhou para aquele rapaz com
novo respeito.
-Realmente, é uma estratégia
inteligente que não me havia ocorrido, rapaz. Acho que estou acomodado com os
negócios e nem pensei nisso. Mas terá que alugar muitos armazéns para estocar
as mercadorias e esperar elas valorizarem, para vender.
-Pois faremos isso. Alugaremos armazéns
e silos.Nosso estoque de trigo e milho já foi vendido?
-A venda está sendo feita na bolsa de valores
de New York.
-Suspenda a venda. Não vamos exportar
mais nada. E só venderemos quando os preços subirem.
-Tudo bem, sr. Talbot. Vou avisar ao
corretor o quanto antes.
-Faça isso, sr. Manesman. E agora.
Manesman saiu e Vivien sorriu. Ia fazer
os bens de Vicent dobrarem de valor, no mínimo. E quando ele voltasse, seria
mais rico.Poderia dar à Audrey uma vida de rainha. Audrey merecia o melhor.
cd
De maio de 1861 a junho de 1863, a guerra
continuou ceifando vidas e destruindo
cidades, que se tornaram tristes monumentos da imbecilidade humana, que
é a única espécie do planeta que guerreia entre si, em nome de causas que nunca
justificam o massacre de inocentes.
Vivien mantinha-se informada de cada batalha pelos jornais, mas
isso não a contentava. Os contatos com os estados do sul estavam rompidos e ela
não sabia o que estava acontecendo em Charleston ou nos demais estados
sulistas, a não ser pela ótica dos nortistas. Angustiava-se pensando no irmão e
em Audrey, sem saber notícias. Mas não podia fazer nada, a não ser rezar pelos
dois.
O mês de junho foi particularmente
angustiante. Havia lido que no estado da Virgínia haviam ocorrido onze batalhas e que várias cidades
haviam sido tomadas pelas tropas da União. Mas a vitória de uma ou outra parte
ainda estava indefinida e o final da guerra era improvável nesse ano.
Os negócios iam muito bem. Vivien agira
acertadamente, estocando os cereais e o algodão. Vendera tudo com alto lucro,
porque os preços haviam disparado com a escassez dos produtos. A guerra servira
para Vivien quadriplicar a fortuna da família, e não sentia remorso nenhum, já
que quem comprava os produtos eram os nortistas, seus inimigos, que estavam
promovendo verdadeiros massacres. Lera nos jornais que eles haviam atacado uma aldeia
de índios Shoshones em Idaho porque os guerreiros ajudavam os confederados e
haviam massacrado homens, mulheres e crianças, que tentaram fugir mergulhando
no rio e sendo alvo dos soldados.
Seu sangue sulista agora falava mais alto
que a antiga idéia que os dois lados da luta eram o mesmo povo. As coisas que
lia e ouvia dos ianques, desejando o esmagamento total dos Estados
Confederados, a fizera ver que seu
senso de irmandade só existia em sua mente.
A fortuna que ganhara a fazia sentir-se
vingada das atrocidades que os ianques cometiam contra os sulistas. Se o seu
pai estivesse vivo, iria se orgulhar dela. Não, ele se orgulharia era de
Vicent, que estava lutando na guerra.
Havia assumido tanto a personalidade
dele, que mesmo em casa exigia que Mooke a tratasse por Vicent. Dizia que era
mais seguro, pois alguém poderia ouvir Mooke chamando-a de Vivien e tudo seria
descoberto.
Mooke benzia-se e erguia o rosto para o
céu, murmurando que Deus perdoasse aquela mentira. Mas como Vivien prometera
voltar à sua verdadeira identidade quando Vicent voltasse da guerra, ela
conformava-se.
Mas na verdade, Vivien não pretendia
mais voltar à sua identidade de mulher. Como homem ela tinha uma liberdade que
nunca teria se fosse Vivien novamente. E não suportaria voltar a ser uma moça
sem liberdade, trancada dentro de casa aguardando um pretendente para casar e
ter filhos. Como Vicent, ela era tratada pelos homens como um igual, usufruindo
respeito e liberdade, podia externar suas idéias e opiniões e ser ouvida.
Como gostava de sair, depois de um dia
de trabalho, e andar pelas ruas tranquilamente, entrar em um bar e pedir uma
cerveja e ficar apreciando o movimento na rua! Ver os olhos das moças pousarem
nela com interesse, enrubescerem e
sorrirem quando ela correspondia ao flerte, demonstrando que se sentiam
atraídas por sua figura! Era um prazer flertar com as mocinhas.Infelizmente,
não podia fazer mais que isso. Namorar e envolver-se seria perigoso.
Audrey era uma lembrança que aquecia o
seu coração. Lembrava dela e suspirava de saudade e preocupação, pensando como
estaria, naquela guerra insana. Mas não podia fazer nada. Os estados do sul
estavam incomunicáveis com os do norte. E quando a guerra acabasse, Vicent
voltaria e iria se casar com Audrey. Tinha que esquecer de Audrey Lancaster.
Vivien estava agora quase com vinte
anos e com essa idade, os hormônios estão em alvoroço e o desejo a assaltava
constantemente. Partia para o prazer solitário e isso a deixava frustrada, pensando
se um dia teria também direito ao amor. Ter novamente um corpo feminino para abraçar, uma boca para beijar, um rosto
para acariciar...
Era um dia de domingo. Vivien acordou e depois de seu banho,
vestiu-se e desceu para o café da manhã. Mooke a serviu e Vivien tomou o
desjejum lendo o jornal, concentrada. As manchetes, como sempre, eram da
guerra. Ela deixou o jornal de lado e se levantou. Mooke a fitou preocupada.
-Não vai à missa, senhor Vicent?
Ela olhou para Mooke desanimada.
-Não. Nevou muito e as calçadas estão cheias de neve. Vou
apenas dar uma volta no jardim.
Mooke sacudiu a cabeça, continuando a
cortar legumes para o almoço. Vivien saiu para o vento frio, mas não desistiu.
Apenas levantou a gola do sobretudo e de deu alguns passos, olhando a paisagem
coberta de neve. Tudo parecia um cartão postal. Caminhou à esmo, observando
dois esquilos numa árvore. Parou no extremo do jardim. O terreno da casa era
delimitado apenas por uma cerca de sebes de meio metro de altura, cuidadosamente
aparada. Olhou para o outro lado, curiosa. Uma mulher vestida com um casaco de
peles e gorro de lã azul passeava com um caõzinho pela coleira.
Achou graça na cena. O cãozinho estava
com um sueter de lã xadrez e era um
poodle branco. Ele praticamente arrastava a dona, andando rapidamente.
-Vamos, Puck! – Disse a mulher, com voz
juvenil – Faça logo o seu pipi, porque aqui está muito frio!
O cãozinho viu Vivien e começou a latir
estridentemente. Com um arranco, soltou-se da mão da mulher e correu para
Vivien, latindo.
A mulher voltou o rosto, fitando Vivien
surpresa. Mas logo correu no encalço do animal, gritando:
-Puck! Volte aqui!
Mas Puck pulou a cerca de sebe e
alcançou Vivien, que achando que o cão estava fazendo festa para ela, se
abaixou e tentou acariciá-lo na cabeça. O aparentemente inofensivo cãozinho
mordeu a mão de Vivien. Com a dor, ela instintivamente bateu no focinho dele,
tentando libertar a mão. Puck ganiu e soltou sua mão, correndo para a mulher
que chegava ofegando. Ela pegou a corrente e ele se escondeu atrás dela,
ganindo.
A
mulher olhou para Vivien, preocupada. E Vivien se viu olhada por um par de
belos olhos verdes incrustados em um rosto de pele rosada pelo frio, de traços
perfeitos. Os cabelos que escapavam do gorro de lã eram louros, de um louro bem
claro. Ela lembrava Audrey vagamente, por causa dos olhos verdes e cabelos
louros, mas a semelhança acabava ali.
Aquele olhar era de uma pessoa que sabia o que queria, sem a imaturidade dos de
Audrey. Vivien percebeu logo que ali estava uma mulher charmosa, inteligente, e
consciente de seu poder de sedução.
-Queira aceitar minhas desculpas,
senhor! – Disse ela, com sua voz aveludada – Meu cão o machucou muito?
Vivien fitou a mão, que doía. A luva de
lã que usava estava rasgada e um filete
de sangue a manchava.
-Seu cãozinho fez um estrago em minha
luva, mas acho que o ferimento é pequeno – Respondeu Vivien, com sua voz
grave.Havia praticado essa voz durante todo seu tempo em New York, e agora falava com naturalidade, quase sem
forçar.
A moça fitou sua mão e fez uma
expressão consternada.
-Oh, está sangrando! Deixe-me ver como
está o ferimento...
E
sem nenhuma cerimônia, pegou sua mão pelo pulso e retirou a luva
cuidadosamente, puxando-a pelos dedos com prática.
Vivien olhou para as mãos dela. Eram
delicadas, envoltas em luvas de couro fino negro. Seu olhar subiu para o rosto.
Ela olhava sua mão com olhar atento.
-Puck fez dois furos em sua mão –
Disse, erguendo o olhar consternado – Deve estar doendo bastante, senhor.
Vivien puxou a mão, fitando-a. Os olhos
eram da cor do mar, com pontos dourados em torno da íris.
-Tudo
bem. Vou passar um medicamento.
Os olhos verdes a fitaram intensamente,
fazendo Vivien enrubescer.
-A culpa disso é toda minha, senhor.
Ficarei menos preocupada e envergonhada se deixar que eu cuide de seu
ferimento. Venha até minha casa, por favor.
Vivien sorriu.
-Não é necessário. Eu mesma posso
cuidar disso.
Mas a moça a fitou com ar decidido.
-É minha obrigação fazer o curativo, já
que foi meu cão quem o feriu. Por favor, senhor, deixe-me cuidar de sua mão.
Vivien hesitou. Quanto mais amizades
fizesse, mais perigo para sua identidade ser descoberta. Até agora se limitara
a apenas ter relações de trabalho e comerciais com as pessoas, depois de adotar
a identidade de homem. Recusava convites para jantares e festas, dos homens com
quem se relacionava no seu negócio, que
queriam lhe apresentar as filhas em idade de casar, achando-a um bom partido.
Mas já estava cansada de ficar em casa sem ter alguém inteligente para
conversar, rir, trocar idéias. Sua solidão pesava.
Olhou para a moça, que aguardava
olhando-a atenta.
-Está bem... aceito o oferecimento,
senhorita...
A moça sorriu docemente.
-Senhora – Corrigiu - Sou viúva.Deidre Mackena. E o senhor é...
-Vicent Talbot.
Ela fez um gesto para a casa vizinha.
-Acho que somos vizinhos, senhor
Talbot. O senhor mora nessa casa, não?
-Sim, há quase três anos. E a senhora?
-Estou aqui para as festas de fim de
ano e devo ir embora depois do ano
novo. Moro em Massachusetts – Respondeu ela, caminhando para a casa
vizinha, puxando Puck pela corrente, depois do animalzinho ter urinado em um
canto. O cãozinho nem parecia o mesmo cão feroz. Com a dona perto, andava
saltitante e feliz.
Deidre subiu as escadas da casa e abriu
a porta, fitando Vivien com um ligeiro sorriso.
-Siga-me, senhor Talbot.
Vivien a seguiu. E viu-se em um grande
hall de entrada e depois, em um salão confortável e bem decorado. Uma criada
apareceu, uniformizada.Era branca, ao contrário das criadas do sul.
-Getie, quero que apanhe o estojo de
primeiros socorros no meu quarto – disse Deidre, tirando o casaco e o gorro, os
entregando à criada – E coloque Puck em sua cama para dormir.
A criada pegou o cãozinho pela coleira
e se retirou.
Vivien não pôde deixar de admirar os
belos cabelos louros de Deidre, que caíam pelos ombros em mechas fulgurantes.
Sem o pesado casaco, podia ver o corpo esguio e elegante. Não era alta, mas
possuía graça e beleza em seu porte e movimentos. O vestido verde de
veludo fazia os seios sobressaírem
sensualmente.
Desde Audrey, uma mulher não a
impressionara tanto. Deidre era uma bela mulher. E aparentemente, sem
compromisso. Audrey era um sonho proibido e distante, que tinha de sufocar.
Deidre, não. Na pior das hipóteses,
podia ser sua amiga, alguém com
quem pudesse conversar e passar horas agradáveis.
Deidre indicou um sofá de veludo
vermelho, começando a tirar as luvas.
-Sente-se, senhor Talbot. Vou lavar
minhas mãos e já volto.
Vivien sentou no sofá, olhando em
volta. Viu sobre um aparador no canto uma foto. Levantou-se e foi ver. Era
Deidre ao lado de um homem bem mais velho, com uma barba negra e olhar sisudo.
Ele a abraçava possessivamente pela cintura, com ar de dono. A expressão de
Deidre era de quem estava no lugar errado e com o homem errado.
-Eu e meu falecido marido, há três anos
atrás. Ele faleceu seis meses depois dessa foto.
Vivien voltou-se, surpresa. Deidre lhe
sorria amistosamente.
-Desculpe-me... – Disse Vivien,
enrubescendo – Não quis ser indiscreta, olhando seus objetos pessoais...
-Não tem importância, senhor
Talbot...se eu não quisesse que alguém visse essa foto, não a teria aí, à vista
de todos.
Se fitaram de muito perto. Vivien, com
um sorriso de desculpas. Deidre, com um olhar avaliador.
Deidre fitou aqueles olhos magníficos,
admirando aquele azul de cristal. O olhar percorreu os cabelos negros jogados
para trás, a pele imaculada e imberbe, a boca de lábios cheios e sensuais,
naturalmente vermelhos, os dentes perfeitos e branquíssimos, o nariz reto e o
queixo forte. Vicent Talbot era o homem mais lindo que já vira. Ele tinha uma
beleza tão grande que chegava quase a ser feminina. E isso a agradou. Ele não
parecia um daqueles homens rudes e cheios de empáfia, que achavam que o mundo
pertencia à eles e as mulheres eram feitas para serví-los e terem filhos.
E Deidre pensou que ali estava um homem
que seria muito fácil de amar.