Vida Roubada
Deidre indicou o sofá, com um gesto.
-Sente-se, senhor Talbot, vou examinar
sua mão.
Vivien sentou e Deidre sentou ao seu
lado. Vivien sentiu um suave perfume de gardênia que ela exalava. Era um cheiro
de sabonete, um cheiro que se misturava com o aroma da pele de Deidre, que
Vivien achou altamente erótico.
Vivien suspirou. Estava mesmo
precisando ter alguém em sua vida. Há tanto tempo não beijava sequer alguém,
que um simples perfume a excitava. Teve medo de Deidre perceber .
Deidre olhou para sua mão, preocupada.
-Está doendo muito? Logo Genie trará a
a caixa curativos.
-É uma dor suportável, senhora Mackena.
Deidre sorriu, mostrando os dentes
perfeitos.
-É um homem muito educado, sr. Talbot.
Qualquer outro estaria nervoso e xingando-me.
-Seria um sacrilégio xingar uma dama
como a senhora – Disse Vivien, sem pensar muito.
O sorriso de Deidre se ampliou e ela
enrubesceu encantadoramente.
-Obrigada, senhor. É muito gentil.
Vivien arrependeu-se da frase que
dissera. Deidre iria pensar que estava cortejando-a. Mas já estava dito.
A criada chegou com a caixa de
medicamento, entregou à Deidre e saiu.
Deidre abriu-a e retirou algodão, mercúrio cromo e gaze. Olhou para Vivien, molhando um chumaço de algodão no
alcool.
-Dê-me sua mão. Vou desinfetar as
feridas.
Vivien estendeu a mão. Felizmente as
feridas da mordida do cão eram pequenas, apenas dois furos minúsculos.
Deidre segurou na mão de Vivien
delicadamente, passando o algodão na ferida com cuidado. Reparou naquela mão de
dedos longos e elegantes, de unhas cuidadosamente aparadas. Era uma mão grande,
mas delicada, quente e macia.
Deidre sentiu um arrepio percorrer seu
corpo.
Com halilidade, passou também mercúrio
nos ferimentos e depois colocou uma pequena gaze e esparadrapo, para proteger o
curativo.
Vivien sentira uma estranha perturbação
com o toque da mão de Deidre. E notou que sua mão tremia com o toque de Deidre.
Suas mãos estavam trêmulas, denunciando que estava nervosa, por mais que
tentasse se mostrar tranqüila. Diabos, o que estava acontecendo? Estava nervosa
por quê? Estava acaso atraída por Deidre? Como podia isso acontecer, se estava
apaixonada por Audrey?
-Pronto, acabou – Disse Deidre,
erguendo a vista, guardando os medicamentos na caixa – Procure não molhar o
ferimento, pelo menos até amanhã.
Vivien fez menção de erguer-se.
-Obrigado. Agora, devo ir-me.
Deidre a segurou pelo braço, sorrindo.
-Antes, tome um chá comigo, sr. Talbot.
É o mínimo que posso fazer para reparar o mal que meu cão fez ao senhor.
Vivien retribuiu ao sorriso, voltando a
sentar. Surpresa, descobriu que não estava com vontade de ir embora. Mas
perguntou, preocupada:
-Não vai haver problema? A senhora está
sozinha em casa... não é muito apropriado uma senhora sozinha em casa receber
um homem que acabou de conhecer... não quero que arruine sua reputação por minha causa.
Deidre fitou Vivien com um sorriso
tranqüilo.
-Senhor Talbot, sou uma mulher que não se
prende à convenções que cerceiam a liberdade da mulher. Eu vivo de acordo com
minha consciência, e não acho que estou fazendo nada condenável em oferecer ao
senhor um chá. Fique tranqüilo, não me abalo pelo que as pessoas falam de mim.
-Oh... eu apenas ... bem... está bem,
aceito o chá.
Deidre sacudiu um sinete de prata e a
criada apareceu, pressurosa.
-Sim, madame?
-Getie, sirva-nos um chá com biscoitos.
-Vou providenciar, madame – Disse a
criada, se retirando.
Deidre olhou para Vivien avaliadoramente.
As roupas eram elegantes, caíam bem naquele corpo esguio e alto. O aroma da
colônia de Vivien penetrou em suas narinas deliciosamente.
Vicent Talbot era um
homem raro, pensou Deidre, que se
importava em estar exalando um aroma agradável, e não cheiro de suor. Mais um
ponto à favor dele. Iniciou a conversa, querendo matar sua curiosidade:
-Mora sozinho em sua casa, ou com sua
família, senhor Talbot?
-Moro apenas com minha criada, senhora
Mackena.Como deve ter notado por meu sotaque, sou sulista e saí de Charleston
fugindo da guerra.
-Oh... tem família grande lá em
Charleston, senhor?
-Não. Meus pais são falecidos e tenho
apenas um irmão gêmeo que está lutando na guerra – Respondeu, sem mentir – Eu
vim para New York cuidar dos negócios da família.
Deidre sentiu surpresa com a resposta de Vivien. Sabia que em tempo de guerra, muitos homens jovens se
casavam com as noivas ou namoradas, querendo possuí-las logo, porque talvez não
voltassem mais e queriam deixar uma descendência. Era a afirmação da vida
diante da ameaça de morte. Mas Vicent Talbot
fizera algo diferente: viera para New York cuidar dos negócios da
família. Não havia se juntado às tropas confederadas em um impulso de patriotismo
impensado, como os outros. Isso acirrou sua curiosidade:
-Por que não se alistou para a guerra,
senhor Talbot? É por acaso um pacifista?
Os olhos de Vivien encararam Deidre com
gravidade e disse com voz contida:
-Não sei se posso ser chamado assim,
senhora Mackena. Para mim, um pacifista é alguém que defende ardorosamente seu
desejo de paz, participando de movimentos para esse objetivo. Eu apenas
considero essa guerra uma grande loucura, compatriotas se matando por uma causa
que poderia ser resolvida com negociações. Ninguém é vencedor de uma guerra,
porque em todas as facções há perda de vidas. Por não acreditar nessa guerra,
vim para New York cuidar dos negócios.
Deidre sorriu suavemente, encarando
aqueles magníficos olhos azuis.
-Você é um pacifista, Vicent
Talbot! Somente com essas poucas palavras, disse um eloqüente discurso sobre a
guerra. E é isso que os pacifistas fazem, tentam mudar mentes com palavras, não
com armas.
Vivien sorriu.
-Bem, nunca pensei nisso. E a senhora?
É também contra a guerra?
-Todas as pessoas sensatas são sempre
contra a guerra, senhor Talbot.Aliás, posso tratá-lo por Vicent? Você é tão
jovem, deve ser da minha idade, para eu ficar tratando-o tão formalmente.
Vivien a fitou surpresa. Era totalmente
inadequado uma mulher tratar um homem que não fosse seu marido ou namorado pelo
primeiro nome, mesmo sendo de idades próximas, como elas pareciam ser. Mas isso
a agradou em Deidre. Ela mesma detestava o excesso de formalidade de sua época.
-Bem... pode, senhora Mackena. Mas
também permita-me tratá-la apenas por Deidre. Mas com uma condição: somente
quando estivermos à sós. Não quero comprometer sua reputação.
Deidre sorriu encantadoramente, os
belos olhos verdes brilhando.
-Eu não ligo muito para o que pensam de
mim, Vicent. Sou assim, detesto hipocrisia e as convenções de nossa sociedade.
Muita gente na cidade que resido acham que sou louca, porque vivo além de
nossa época. Dirijo os negócios de meu falecido marido, escrevo poesias, saio
sozinha e defendo o voto para as mulheres. Eu acho que as mulheres são muito
oprimidas pela sociedade, sem nenhum direito.
Vivien a fitou cheia de admiração. Uma
sufragista! E uma mulher que lutava contra a opressão masculina, que agia como
desejava, mesmo se expondo à críticas! Mais corajosa que ela própria, que havia
se escondido sob uma identidade falsa para ter liberdade. Na pele de Vicent,
ela não estava exposta às críticas e condenações, como Deidre. Comparando-se
com ela, sentia-se uma covarde.
Deidre entendeu mal o seu silêncio.
Fitou-a meio decepcionada.
-Está chocado com minhas idéias, não é,
Vicent? Eu estou acostumada à essa reação dos homens. Eles se afastam de mim,
quando exponho minhas idéias.
Vivien, em um impulso, segurou a mão de
Deidre e a apertou suavemente, fitando-a com um sorriso.
-Não estou chocado, Deidre, mas sim
cheio de admiração pela sua coragem. É uma mulher excepcional e a admiro por
suas idéias, com as quais concordo plenamente. A mulher, em nossa sociedade, é
muito oprimida. Somente o fato de não poder recusar o homem que seus pais
aprovam para ser seu marido, é uma prova do que digo.
Deidre a fitou com olhar espantado,
enrubescendo. A mão dela tremeu dentro da mão de Vivien, que era maior. Vivien
soltou a mão dela, sorrindo. Deidre suspirou e falou, cheia de admiração:
-É o primeiro homem a quem exponho
minhas idéias e não me recrimina, Vicent! Oh, ainda há uma esperança para
mulheres como eu! Devem haver outros homens como você, de
mentes abertas!
Vivien sentiu uma grande vergonha por
estar enganando aquela moça com sua falsa identidade. Pobre Deidre! Não havia
homem algum que desse razão às idéias dela. Porque também era uma mulher, e não
um homem de mente aberta, como ela pensava.
-É uma luta difícil a sua, Deidre. Vai
encontrar sempre muita incompreensão em seu caminho, mas faço votos que consiga
o que quer.
-Eu sei que é difícil ser como sou,
Vicent. Mas não é um sonho impossível. Um dia as mulheres serão livres para
trabalhar fora de casa, votar, ter sua opinião respeitada e escolher seu
próprio destino, além de um casamento.
-Sim, acho que no futuro isso será
possível. Mas em nossa época, acho pouco provável. O homem só vê a mulher como
uma pessoa para ser a mãe de seus filhos, serví-lo e obedecê-lo. Isso é
lastimável – Disse Vivien, com sinceridade.
Deidre a fitou cheia de admiração.
-É um homem raro, Vicent, com idéias
liberais e avançadas. A mulher que for sua esposa será uma mulher muito feliz!
Vivien enrubesceu e baixou os olhos,
sentindo-se envergonhada de receber aquele elogio que não merecia. Deidre
pousou a mão em seu braço.
-Não fique encabulado, Vicent. Você nem
imagina como é horrível para uma mulher ser casada com um homem que detesta,
devido à um casamento imposto!
Vivien ergueu os olhos, fitando-a com
curiosidade.
-Você era feliz em seu casamento,
Deidre?
A criada chegou com uma bandeja,
depositando-a sobre a mesinha de chá. Deidre despediu a criada e ela mesma
serviu Vivien.
-Açúcar? – Perguntou ela, com voz
suave.
-Não, está bom assim, obrigado.
Deidre estendeu a xícara de chá para
Vivien e seus dedos se tocaram. Vivien sentiu-a estremecer, tremendo também.
Deidre enrubesceu, baixando os olhos para a xícara, enquanto colocava açúcar e mexia.
-Respondendo sua pergunta, devo dizer
que não era feliz. Eu casei-me sem amar o meu marido.
-Por que casou-se sem amar ao seu
marido? Casou-se por imposição de seus pais? – Perguntou Vivien, sabendo muito
bem que aquelas perguntas eram inapropriadas para um homem perguntar à uma
mulher que mal conhecia. Mas Deidre não era uma mulher comum, ligada às
convenções.
Deidre ergueu os olhos, fitando-a.
Agora parecia calma e controlada.
-Sim, como a maioria das mulheres de
nossa sociedade, casei-me por imposição dos meus pais. Jefferson era um homem
rico e meus pais acharam que era o melhor partido que eu poderia arranjar. Não
tive chance de recusar. Eu era uma mocinha de dezessete anos que temia o pai.
Mas eu aprendi que ser subserviente não
é a melhor forma de ter algum direito.
-Oh... deve ser horrível ser casada
dessa forma, não?
Deide tomou um gole de chá, antes de
responder, com olhar pensativo:
-Realmente. Meu marido era o oposto do
homem que eu sonhava encontrar.
-E como era o homem que sonhava,
Deidre?
Os olhos verdes se fixaram nos de
Vivien com um brilho súbito.
-O homem de meus sonhos era um homem
que me considerasse um ser igual à ele em inteligência e direitos. Um homem
terno, compreensivo, sem a arrogância masculina de achar que as mulheres só
existem para procriar e serví-los. E meu marido não era nada disso. Era
autoritário, arrogante, sem sensibilidade.
-Oh... lamento ouvir isso.
Deidre sorriu, fitando-a nos olhos.
-Não lamente, Vicent. Eu acho que a experiência foi
importante para mim e o saldo foi positivo. Eu deixei de ser uma garotinha
amedrontada. Cresci como mulher. Meu marido era um homem cheio de arrogância,
mas quando ficou doente, reconheceu os seus erros e pediu-me perdão. Ele morreu
em meus braços, vítima de pneumonia.
-
Vivien achou que já havia demorado ali
o bastante. Ergueu-se.
-Bem, agora devo ir-me, Deidre. Tenho
coisas a fazer em casa.
Ela ergueu-se também, fitando Vivien
com um sorriso encantador.
-Hoje à noite irei à uma festa de
amigos. Será uma festa com poucos convidados, devido à guerra. Não gostaria de
acompanhar-me, Vicent? Garanto que se divertirá, meus amigos são pessoas muito
inteligentes e divertidas.
-Bem... não sei... seus amigos não me
conhecem e sou um sulista...
-Oh, tenha certeza que meus amigos não
se aborrecerão com esse detalhe, eles são todos pacifistas e contra essa guerra
insana. Por favor, quer fazer-me companhia?
Vivien não resistiu à aquele olhar
implorativo. Sorriu, pegando a mão dela entre as suas.
-Está bem, você venceu... a que horas
devo vir buscá-la?
Deidre sorriu deliciada, apertando sua
mão suavemente.
-Às sete e meia da noite, eu já aluguei
uma carruagem que virá me buscar essa hora.
-Está bem. Estarei aqui.
Deidre a levou até a porta e Vivien se foi,
pensando se fizera a coisa certa. Mas estava cansada da solidão em que vivia.
Deidre viera colorir seus dias.
cd
Vivien chegou à porta da casa de Deidre
pontualmente. E ela veio recebê-la linda, em um vestido de veludo verde, com um
belo chale de lã branco, os olhos luzindo como estrelas.
-Boa noite, Deidre – Disse Vivien, se
inclinando galantemente, pegando a mão enluvada que lhe foi estendida – Devo
dizer que está encantadora, esse vestido é de muito bom gosto e lhe cai
divinamente.
Deidre fitou o jovem que lhe sorria,
sentindo uma doce emoção. Ele estava impecável em seu terno de tweed escuro,
camisa de seda branca e chapéu de feltro negro, de abas curtas, a última moda
vinda de Paris. Vicent Talbot era um homem elegante, e um gentleman.
-Oh, obrigada, Vicent! E você também
está muito elegante. Entre, a carruagem não deve demorar, mas está frio aqui
fora.
Eles iam entrar, mas nesse momento a
carruagem chegou e parou diante da casa. Deidre apanhou sua pequena bolsa de
veludo rapidamente na sala e saiu com Vivien, que galantemente lhe ofereceu o
braço, para ela caminhar até a carruagem. Deidre pousou a mão em seu braço e
Vivien sentiu pela primeira vez a deliciosa emoção de conduzir uma bela mulher
para uma carruagem como qualquer cavalheiro de boa educação.
Eles embarcaram na carruagem e ela
saiu, levando o casal para a festa.
Vivien mergulhou em um silêncio cheio
de nervosismo, sentada ao lado de Deidre. O que dizer, como se comportar? Não
tinha nenhuma prática em manter conversa com damas em uma carruagem, sentada
tão próxima! O que um homem faria, nessa situação? Sobre o quê conversaria? Não queria parecer um idiota.
Mas Deidre logo a deixou à vontade,
falando sobre seus amigos. Contou que eram pessoas ligadas de alguma forma à arte,
que se conheceram em eventos culturais e se reuniam uma vez por mês para
falarem sobre isso, dançar, ler poesias e cantar. Ela os conhecera ainda
solteira, havia se afastado do convívio quando se casara e fôra para
Massachusetts, mas agora estava voltando ao convívio deles.
-Eu pretendo voltar a morar aqui em New
York, depois que vender minha casa em
Massachusetts – Completou Deidre – E comprar uma aqui.
-A casa em que está não é sua? –
Perguntou Vivien.
-Não, é de uma amiga, que emprestou-me para
passar alguns dias.Vim passar as festas com meus pais, mas preferi ficar
hospedada fora da casa deles. Eu e meu pai não nos damos muito bem, ele
desaprova totalmente minhas ações. Acha que é uma vergonha eu estar dirigindo
os negócios de meu falecido marido.
-Qual o tipo de negócios de seu
falecido marido?
-Uma fábrica de tecidos. Com a guerra,
os negócios se ampliaram.Fabricamos por encomenda os tecidos dos uniformes dos
soldados. Mas eu pretendo vender a fábrica e montar uma escola, quando a guerra
acabar.
Pouco depois, chegaram à casa onde
haveria a festa. Era uma casa grande e confortável em uma rua arborizada. Foram
recebidas por uma mulher magra de cabelos grisalhos, muito simpática. Deidre
fez as apresentações e a mulher sorriu para o belo e elegante rapaz que a
cumprimentou beijando sua mão galantemente.
-Entre, meu jovem rapaz, esteja à
vontade – disse a mulher, fazendo um gesto com a mão.
Vivien entregou o chapéu à criada e
Deidre o chale. Avançaram para o salão, onde grupos de pessoas conversavam e
bebiam.
Vivien foi apresentada à várias
pessoas, sendo acolhida com cordialidade, o que a aliviou. Os homens eram todos
bem mais velhos que aquele “rapaz” ainda imberbe e as mulheres beiravam os
trinta anos. Então, Vicent e Deidre eram o casal mais jovem e não representavam
ameaça para ninguém.
A festa começou com a apresentação de
uma soprano cantando uma peça musical, seguida por um pianista que tocou com brilhantismo uma alegre valsa,
que era a nova febre dos salões, popularizada por Strauss nas grandes cidades
do mundo. Depois, Deidre foi chamada para declamar uma poesia de sua autoria.
Ela tomou lugar no centro do salão e disse, com um sorriso tímido:
-Vou declamar um poema que escrevi dias
atrás. Se chama “Procura”.
E ela começou, com ar sonhador, sem
fitar ninguém em especial:
Quando me for, o que deixarei?
Restos de saudade, alguém que
não beijei?
Encontrarei a compreensão que
tanto almejei?
Um mundo de amor, que aqui não
encontrei?
Serei feliz, como nunca fui em
vida?
Serei lembrada por alguém, ou
logo esquecida?
Serei só um nome, esquecido no
tempo?
Apenas uma cruz a se desfazer
no vento?
A vida só tem sentido se
houver amor!
Mas eu ainda não o encontrei!
Então, quando me for, o que
deixarei?
Ah, o amor... como será esse
sentimento?
Como nos romances, intenso e
arrebatador?
Ou apenas causador de inefável dor?
Quero
sentí-lo, mesmo por um breve instante!
Amar e ser amada, quão divino
deve ser!
Em um beijo apaixonado, de
prazer enlouquecer!
Amor, dádiva dos deuses!
Ah, beijar o ser amado
infindáveis vezes!
Lábios com lábios em um beijo
sensual
Amar deve ser um prazer sem
igual!
Essa última estrofe foi declamada com
os olhos de Deidre se encontrando com os olhos de Vivien e se prendendo em um
olhar emocionado. Ficaram se fitando como que esquecidas de tudo que as
rodeavam, enquanto as pessoas aplaudiam Deidre com entusiasmo.
Voltaram para casa tarde da noite e
quando chegaram já era quase uma hora da madrugada. Desceram da carruagem e
Vivien conduziu Deidre até a porta dela. Voltaram-se e Deidre a fitou com um
sorriso luminoso, os olhos brilhando como estrelas.
-Boa noite, Vicent. Espero que tenha
apreciado a noite com meus amigos.
Vivien sorriu, pegando a mão de Deidre
e a fitando nos olhos.
-Foi uma noite inesquecível, Deidre.
Obrigado. Adorei conhecer seus amigos. São pessoas muito agradáveis e cultas.
-Então, quando o convidar para outras
festas, aceitará?
-Com prazer, Deidre.
Deidre sorriu encantada e sem Vivien
esperar, ela se ergueu nas pontas dos pés e deu um casto beijo no rosto dela.
Afastou-se e entrou, dizendo com um sorriso:
-Boa noite, Vicent.
Vivien ficou ali parada por uns
momentos, a mão onde os lábios macios de Deidre haviam pousado. Sorriu
maravilhada, mas logo o sorriso sumiu de seu rosto. Deidre não havia beijado
Vivien, havia beijado Vicent, um homem. Um bom partido para um casamento, não
uma moça desajustada em sua identidade.
Caminhou para casa com ar triste,
pensando que o amor não era mesmo para ela poder ter. Audrey, por quem sentira
paixão, era noiva de seu irmão. Deidre, por quem se sentia cada vez mais
atraída, pensava que ela era um homem. Maldição! Quando ia aprender a ser só,
não esperar ter alguém para amar?
Entrou em casa e Mooke veio correndo ao
seu encontro, com expressão transtornada. Vivien a fitou surpresa e preocupada.
-O que houve, Mooke?
-O sinhô Vicent! – Disse Mooke, os olhos cheios de lágrimas – Ele tá aqui, miss Vivien! Ele chegô!
No dia 1 de junho de 1863, o
general confederado Robert E. Lee, após longa marcha, chega com
suas tropas a Guettsburg , à procura de suplimentos para
poder continuar sua ofensiva às cidades do norte. Sua
brigada ataca a divisão de cavalaria da União
O general Lee decide furar o
cêrco, sem saber, por deficiência de comunicação, que poderia ter
recuado e se salvado do cêrco, pois a
O ataque se torna um
desastre e as tropas confederadas sofrem uma grande derrota, com o
general fugindo com o restante das tropas, mas tendo a perda de 5.000
cavalos, 630 canhões, 569 toneladas de munição, 3500 homens mortos, 14.500
feridos, 13.600 desaparecidos ou capturados.
Os confederados jamais se
recuperaram dessas perdas, e a batalha de