Tarde Demais para Esquecer

PARTE 6

 

        Vicky entrou no  quarto de sua mãe e a fitou surpresa. Elise estava vestida com um dos seus melhores vestidos, um branco com finas alças cruzando nas costas de decote rebaixado atrás quase até a cintura, caindo pelos quadris arredondados e coxas e pernas  fortes por suas horas no salão de ginástica nos fundos da mansão. As sandálias prateadas de salto agulha lhe davam uma altura que a tornava mais elegante e os cabelos presos realçavam seu perfil bem feito.

         -Mami, vai sair? – Perguntou Vicky, decepcionada.

 

         Ela fitou a filha com um sorriso forçado.

 

         -Sim, Dennis convidou-me para jantar fora.

 

         -Oh, pensei que ia jantar comigo e Devlin! Mas vai sair com aquele homem chato! – Disse a garota, fazendo beicinho.

 

         Elise suspirou, sentando diante da penteadeira e se inclinando para o espelho, passando  baton nos lábios. Pintou os lábios cuidadosamente e se voltou para a filha, que se sentara numa poltrona e a observava com o cotovelo apoiado no móvel e a mão sustentando o rosto.

 

         -Eu achei melhor sair. Devlin está com uma amiga aqui na casa e não estou com vontade de conversar com elas no jantar.

 

         -Por que, mami? Marla é uma moça tão simpática, além de muito bonita!

 

         Elise fitou a filha, desagradavelmente surpresa.

 

         -É uma moça simpática ou parece? – Comentou com sarcasmo – Você acaso já conversou com ela, para saber se é simpática?

 

         -Sim, tia Devlin estava mostrando à ela a casa e fui acompanhá-las. Marla disse que sou uma menina muito bonita e disse que quer ser minha amiga. Ela é tão divertida!

 

         Elise mordeu o lábio inferior, irritada. Aquela ruiva não se contentara apenas em ter  Devlin para ela, estava também tentando conquistar a admiração de sua filha!

 

         -Vicky, não confie em uma pessoa que acabou de conhecer!

 

         -Mas ela é amiga de tia Devlin! Deve ser legal, como minha tia!

 

         O telefone tocou. Elise o pegou e atendeu.

 

         -Alô...

 

         -Elise, sou eu, Dennis. Não vou poder ir jantar fora com você. Fui convocado para uma reunião urgente com meus sócios e estou embarcando para o Texas. Vou ficar ausente 3 dias.

 

         -Logo hoje, Dennis? Precisava tanto conversar com você! O testamento foi aberto e Devlin herdou essa casa. Eu preciso sair daqui.

 

         -Eu já soube,  Clarence ligou para mim se queixando e perguntando se ela podia contestar o testamento, eu mandei ela falar com um advogado. Bem, querida, preciso ir. Quando eu retornar, eu ligo para você.  Um beijo.

 

         -Boa viagem... – Disse Elise, decepcionada. Agora, teria de aturar Devlin se desmanchando para aquela ruiva dos infernos! E Dennis, havia sido frio e indiferente ao seu problema. Maldição!Havia escolhido o homem errado!

 

         -O que houve, mami? – Perguntou Vicky, vendo a expressão sombria da mãe.

 

         Elise a fitou sorrindo forçadamente.

 

         -Mudança de planos. Dennis viajou e vou ter que jantar com Devlin e a amiga dela.

 

         -Eu vou jantar no meu quarto. Bertha fez minha comida predileta e vou comer vendo o novo filme de Harry Porter. Adoro ele, mami!

 

         -Hummmm...então, Bertha fez pizza e milk shake? Você sabe que não deve comer muito essas comidas gordurosas, Vicky... tem que ter uma alimentação mais saudável... pizza, só uma vez por mês.

 

         -Ah, mãe, deixa...Bertha vai me fazer companhia, vai ser divertido!

 

         Elise suspirou. Como recusar uma coisa à sua filha querida?Ela sempre preferia comer em seu quarto, pois podia ver tv e pedir suas comidas favoritas. Ela dizia que comer com adultos era sem graça, eles sempre discutiam problemas à mesa. E com a velha Clarence morando ali, não deixava de ser uma verdade. A velha sempre implicava com algo.

 

         -Tudo bem, Vicky... boa diversão e apetite. Vou descer, o jantar já deve estar começando.

 

         Elise beijou a filha e desceu. Pensou em pedir o jantar em seu quarto, mas descartou a idéia. Não queria que Devlin pensasse que estava intimidada depois da leitura do testamento. Iria sair daquela casa de cabeça erguida.

 

         Encontrou Devlin de pé olhando a paisagem lá fora, com uma expressão pensativa. Ela agora estava com um terninho azul escuro, blusa vermelha e botas de salto alto. Estava apoiada em um móvel, com um copo de vinho na mão.

 

         -Boa noite...sua amiga ainda não desceu para o jantar? –Perguntou, se aproximando.

 

         Devlin voltou-se, fitando-a da cabeça aos pés, com um evidente olhar de admiração que deu imenso prazer à Elise. Mas logo uma expressão de indiferença ocupou a outra, como uma máscara.

 

         -Marla deve estar se aprontando. Ela dormiu um pouco à tarde, para se recuperar da viagem.

 

         Elise sorriu com sarcasmo, indo até o bar e se servindo de um uísque com água gasosa.

 

         -Awwwww, de onde veio a ruiva, para ficar tão cansada?

 

         -A ruiva tem nome. E Marla está descansando porque chegou ontem de Paris e hoje veio para New Orleans, o seu relógio biológico ainda não se ajustou ao novo   fuso horário – Respondeu Devlin calmamente.

 

         Elise tomou um gole de uísque e a encarou, segurando o copo numa pose afetada.

 

         -Hummmm...sua nova amante deve gostar de você, para fazer esse grande sacrifício!

 

         -Elise, poupe-me sua ironia. Sim, ela gosta muito de mim, e eu dela. Muito mais que seu noivo, que não está aqui com você!

 

         -Ele não está aqui porque tem seus negócios a tratar, e é um homem responsável!

 

         Devlin se aproximou e parou diante de Elise, fitando-a com um sorriso que irritou a loura.

 

         -Será negócios mesmo, Elise? Ou será que seu noivo está colocando um bom par de chifres na sua cabeça?

 

         Elise a fitou com indignação.

 

         -Dennis jamais faria isso comigo! Ele me ama! Ele não é como você, que mentia quando dizia amar-me, que faltou à sua promessa de ir embora comigo para construirmos nossas vidas juntas!

 

         Devlin a fitou sem poder disfarçar a dor que veio aos seus olhos.

 

         -Meu Deus, Elise! Eu era uma mocinha de apenas dezeseis anos! Eu não sabia nada da vida, eu tinha meus medos e inseguranças! Eu era estupidamente dominada por meu pai!

 

         -E eu? Também era uma mocinha, mas já sabia o que queria! E ia deixar tudo para ir embora com você! Mas você faltou à sua palavra, foi uma covarde!- Disse Elise, com os olhos se enchendo de lágrimas .

 

         -Elise!Eu cheguei a me preparar para ir embora! Mas meu pai me surpreendeu fazendo as malas e...

 

         -Chega, não quero ouvir mais nada! Isso é passado, não é? Agora isso não importa mais! Nossas vidas tomaram outro rumo, meu amor por você é passado, está morto!

 

         -Elise, eu...

 

         -Boa noite, meninas!

 

         A saudação interrompeu o que Devlin ia dizer. Ela se voltou e viu Marla fitando-as com um sorriso divertido nos lábios, belíssima em um vestido de cetim azul de amplo decote,    com seu caimento marcando  cada curva do corpo esguio, descendo até os pés.

 

         -Olá, Marla...estavávamos esperando-a para o jantar – Disse Devlin, se recuperando.

 

         -Ah, então a espera acabou! Mas antes, também vou tomar também um aperitivo. Devlin, prepara um martini com gelo para mim?

 

         -Claro... martini seco ou doce? – Sorriu Devlin, sabendo que o jogo começara.

 

         -Querida, você sabe muito bem que só tomo martini branco doce com cereja – respondeu Marla, piscando o olho.

 

         Devlin foi ao bar preparar a bebida e Marla voltou-se para Elise, que a fitava com o cenho franzido.

 

         -Este vestido ficou lindo em você, Elise. Quem o criou?

 

         -Vera Wang...eu gosto do estilo dela... – respondeu Elise, contendo seu estado de espírito e procurando ser educada. Marla Stein não tinha culpa do que Devlin lhe fizera anos atrás, então não tinha motivo para ser fria com ela. Tinha que engolir o ciúme que estava ferroando seu coração e ser gentil com a moça.

 

         -Ah, eu gosto também dela, mas meu costureiro preferido era Versace. Ele morreu, mas a irmã Donatela está fazendo um bom trabalho. Já Devlin adora Armani, não é, amor?

 

         Devlin se aproximou com a taça de martini e entregou à Marla.

 

         -Sim, sou fã de Armani. Gosto da sobriedade dele.

 

         Marla sorriu e pegou a taça, falando:

 

         -Aposto que este terninho é dele...cai como uma luva em seu corpo, Dev...não acha, Elise? Dev não é elegantíssima?

 

         Elise fitou a ruiva com um sorriso forçado. Intimamente, estava se remoendo de ciúmes. A ruiva chamava Devlin de Dev!Elas deviam ser amantes! E Devlin tivera a coragem de trazer aquela mulher para a casa em que morava, isso era um acinte! Sem vergonha, cínica!

 

         -Ah...bem...é, sim... – Disse, reticente.

 

         Devlin sorriu, fitando Marla.

 

-Elegantíssima é você, Marla. Uma modelo de vinte e dois anos que já está perto do topo como uma das mais bem pagas do mundo. E nesse vestido, está deslumbrante.

 

         Marla passou a mão cariciosamente pelo rosto de Devlin, numa carícia ligeira.

 

         -Obrigada pelo cumprimento, Dev. Você é um amor, sempre me proporcionando palavras encantadoras.

 

         -Para você, sempre tenho palavras assim, Marla – Disse Devlin, olhando carinhosamente para a ruiva.

 

         Elise sentiu o seu rosto queimando. À custo conteve a vontade de esbofetear Devlin e gritar para Marla  que  Devlin  já havia falado para ela coisas mais românticas e profundas que aquele elogio bobo! Mas sabia que não podia fazer isso. Não tinha nenhum direito, Devlin não era sua, nunca havia sido! Assim,  voltou-se para se dirigir para o salão de jantar dizendo com voz controlada:

 

         -Bem, enquanto vocês ficam aí trocando jogando confete uma na outra, vou jantar.

 

         E se retirou rapidamente.

 

         Marla olhou para Devlin sorrindo.

 

         -Primeiro tempo do jogo, um para nós, zero para Elise.

 

         Devlin sorriu e colocou a taça sobre a mesinha, fitando Marla com esperança.

 

         -Você acha que ela  ficou com ciúmes de mim?

 

         -Meu amor, se aqueles olhos verdes faiscando, querendo fulminar-me quando eu elogiei você, não era demonstração de um ciúme louco, não sei  mais o que é! Ela quase rosnou, quando saiu! – Comentou Marla, rindo.

 

         Devlin passou as mãos pelos cabelos, respirando fundo.

 

         -Então, vamos para o round 2...

 

         -Sem exageros, Devlin, ou ela vai desconfiar que é tudo uma armação. Elogios já chegam por hoje. Agora, vamos partir para ação.

 

         Foram para o salão de jantar. Elise estava sentada tomando ainda seu uísque, com uma expressão fria no rosto. O copeiro aguardava ordens para servir o jantar, em pé no canto do salão. Devlin deu a ordem, puxando a cadeira para Marla sentar :

 

         -Pode começar a servir, Jonas.

 

         Ele assentiu e foi buscar o primeiro prato, que era uma leve sopa de cogumelos e presunto.

 

         Devlin sentou ao lado de Marla,  sentando diretamente diante de Elise. Jonas serviu a sopa, mas Devlin notou que Elise nem tocou no prato, preferindo pedir ao copeiro que servisse à ela uma taça de vinho.

 

         Devlin não pôde evitar de comentar:

 

         -Vai misturar bebidas, Elise? Não é uma boa idéia, sabe disso.

 

         -Obrigada pela preocupação, estou comovida, mas vou tomar vinho   – Disse Elise, com ironia na voz.

 

         Marla diplomaticamente evitou a réplica de Devlin, perguntando:

 

         -Victoria não vai jantar com a gente? Gostei de sua filha, Elise. Ela é uma menina inteligente, educada e encantadora.

 

         Elise sorriu. Qual a mãe que não gosta que elogiem seus filhos?

 

         -Ela preferiu jantar em seu quarto, vendo um desenho no dvd. Sabe como são as crianças, preferem comer coisas simples... às vezes, deixo ela comer uma pizza, hamburguer...você gosta de crianças?

 

         -Adoro! Lógico, gosto de crianças educadas... tenho três sobrinhos, filhos de minha irmã.

 

         -Os sobrinhos de Marla são mesmo uns amores, todos três muito divertidos, lembra aquele dia que os levamos para passear nos estúdios da Universal? Nos divertimos muito! – Comentou Devlin  rindo.

 

         O sorriso de Elise morreu. Devlin havia levado os sobrinhos de Marla para visitar os estúdios da Universal? Então, a relação dela com a modelo era séria! Estava se envolvendo com a família dela! Sentiu uma abrumadora sensação de perda, de inveja de Marla, de ciúme de Devlin. Maldição! Por que sentia tudo isso? Devlin tinha de ser ignorada por ela! Não tinha de se importar com quem ela se envolvesse! Devlin era passado em sua vida!

 

         Marla passou a mão no rosto de Devlin, fitando-a nos olhos  com um sorriso, numa carícia ligeira.

 

         -Claro que lembro, paixão! Foi um dia inesquecível! Não foi?

 

         Devlin pegou a mão de Marla e a levou aos lábios, beijando-a carinhosamente, fitando-a.

 

         -Sabe que jamais vou esquecer aquele dia, Marla.

 

         Marla sorriu, fitando-a.

 

         -Nem eu, Dev... você estava tão romântica...

 

         Elise olhava a cena com crescente ciúme e raiva. Não agüentava mais. Aquilo estava lhe dando náusea! Aquelas duas descaradas, sem-vergonhas, ali se derretendo diante dela! Tinha que sair dali, ou iria perder a cabeça e fazer um escândalo! E não podia fazer isso. Não podia deixar elas perceberem o que sentia.

 

         Assim, ergueu-se precipitadamente, dizendo em um sussurro:

 

         -Com licença, não me sinto bem.

 

         Saiu com passos rápidos, sem dar chance de Devlin ou Marla reagirem.

 

         Marla olhou para Devlin, excitada.

 

         -Você viu? Ela não agüentou ver-me acariciando seu rosto! Ela está morrendo de ciúmes! Dev, Elise nem podia disfarçar, aposto que deve estar dando chute na própria sombra!

 

         Devlin a fitou com o olhar cheia de esperança.

 

         -Você acha mesmo? E o que devo fazer agora?

 

         -Aproveite que ela está frágil e confusa! Jogue todo seu charme, pegue ela e faça uma declaração de amor, beije-a ardentemente, e ela vai cair em seus braços! Vai lá, Dev!

 

         -Você acha mesmo que ela vai corresponder ao meu beijo, que vamos fazer  as pazes?

 

         -Claro, não perca tempo, vá atrás dela!

 

         Devlin se ergueu e foi apressada procurar Elise. Seu coração batia apressado, cheio de ansiedade. Conseguiria fazer Elise reconhecer que elas eram feitas uma para a outra?

 

LLLLLLLLLLLL

 

         Elise sentia uma pressão no peito, parecia sufocar. O ciúme, a raiva, a dor, aqueles ingredientes fervilhavam em seu íntimo, tinha que fazer algo ou ia enlouquecer! Aquelas cínicas, deviam estar rindo dela! Oh, que ódio, que vontade de pegar as cabeças das duas e bater uma na outra! Ah, tinha que liberar aquela raiva!

 

         Chutou a cadeira da varanda, onde havia se refugiado. A cadeira caiu para o lado, mas isso não a satisfez. Queria quebrar uma coisa, pensando ser a cabeça daquela ruiva convencida!

 

         Viu a pequena estátua de cerâmica. Aquela estátua havia sido comprada pela viúva Clarence Pearson. E ela já havia ido embora bem cedo, para não se despedir de ninguém. Ótimo! Aquela peça servia para desabafar sua raiva! Jogou-a contra a porta com toda força, mas nesse momento a porta se abriu e Devlin chegou à varanda, ficando na mira do objeto. Ela nem teve tempo de se desviar. Apenas arregalou os olhos, recebendo o projétil certeiro da estátua em sua cabeça, ouvindo o grito de surpresa de Elise, antes de desabar no chão desmaiada.

 

        

Continua na parte 7    

          

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