Tarde Demais para Esquecer

PARTE 5

 

         Devlin, Bryce e Victoria estavam sentados à mesa no meio do jantar quando Elise chegou com seu noivo e a viúva Clarence chegou quase em seguida. Todos três pararam na entrada do salão confusos. Mas foi a viúva quem teve primeiro uma reação, aproximando-se e colocando as mãos na cintura com ar autoritário.

 

         -O que significa isso?! – Perguntou, em tom duro.

 

         Devlin a fitou calmamente, tomando um gole de vinho.

 

         -Significa que estamos em meio à um bom jantar, Clarence – Disse Devlin, tranquilamente.

 

         A viúva ficou vermelha de raiva.

 

         -Em meio ao jantar?! E quem autorizou a antecipação do horário do jantar, que deveria ser servido somente as nove, com minha presença? – Gritou a mulher, com voz irritada.

 

         Devlin a fitou com um olhar frio e cheio de desprezo.

 

         -Eu, Devlin Pearson. Alguém nessa casa tem que ter um pouco de bom senso e saber que o jantar deve ser servido na hora que já tradição na família, e não sacrificar os outros por seu egoísmo, como você fez.

 

         Clarence ergueu o rosto em um olhar desafiador e orgulhoso, dizendo:

 

         -Eu sou a viúva de Gilmore Pearson, e por direito, herdeira dessa casa e agora a líder da família! Você, Devlin, já não faz parte dessa família há muito tempo, desde que saiu dessa casa e ficou ausente por anos, não vindo visitar seu pai nem nas festas de final de ano!Eu a recebi aqui apenas por caridade, entendendo o momento especial!

 

         Devlin se ergueu lentamente, vermelha de ira, se aproximando da megera, que aos poucos foi abandonando a pose altiva, fitando a enteada com receio. Os olhos de Devlin pareciam duas pedras de gelo, fitando-a. Devlin parou diante dela,   apenas dois passos e falou com voz cortante:

 

         -Só não esbofeteio essa cara porque não quero sujar minha mão em um excremento  como você, sua víbora! Você é suja, sua língua só verte maldades e mentiras! Se você é a líder e herdeira dessa casa,  é o que iremos ver quando o testamento for aberto!

 

         -Não irá esperar muito, mocinha! – Disse a viúva, mas recuando um passo – Já contatei o tabelião e ele virá amanhã pela tarde fazer a abertura do testamento! E você então será expulsa dessa casa, que está conspurcando com sua presença de baixa moral!

 

         -Senhora Pearson, por favor, vamos parar com essa discussão! – Disse Elise  nervosa, olhando para a mulher com reprovação – Estamos aqui para jantar, e não para discutir, principalmente com minha filha presenciando essa discussão deplorável! Vamos tentar jantar em paz!

 

         -Isso, Carence, queiram ou não, você é a nova líder da família! – Disse Dennis, fitando Devlin com desafio – Não se aborreça com o que não vale à pena!

 

         Devlin fitou o noivo de Elise e seu olhar gelado.

        

         -É o que iremos ver, senhor Campbell!

 

         Ela fitou Vicky, que se aproximou e a abraçou pela cintura. Seu olhar suavisou e ela sorriu, acariciando o rosto da garota.

 

         -Até amanhã, Vicky... – Disse, suavemente.

 

         -Mas tia, ainda não acabou de jantar! – Protestou a garota, fitando-a decepcionada – Você disse que ia me mostrar seu pendrive com suas músicas favoritas!

 

         -Amanhã farei isso, Vicky... agora preciso ir respirar um pouco de ar puro...até amanhã.

 

         E dizendo isso, Devlin se desvencilhou dos braços de Vicky e saiu com passadas rápidas. Brice se levantou e deixou a sala também, levando Vicky pela mão, dizendo que ia ver tv com ela.

 

         -Oh, graças a Deus, a sala ficou livre daqueles dois degenerados! – Disse a viúva, se sentando à mesa – Podemos jantar sem suas baixas companhias!

 

         -Com certeza, Clarence! – Riu Dennis, sentando diante da mulher.

 

         Elise sentou ao lado do noivo, mas o fitou com reprovação.

 

         -Dennis, eu lhe agradeceria se ficasse fora dessa discussão e se abstivesse de fazer comentários. Isso é assunto de família. Você deve ficar neutro.

 

         Dennis a fitou surpreso.

 

         -Eu não disse nada demais!

 

         -Oh, que é isso, Elise! – Disse a viúva, esperando a copeira servir seu prato – Dennis é seu noivo, é quase da família! Ele tem direito de opinar! Aliás, se eu fosse você, não deixaria a sua filha se apegar à essa degenerada, que infelizmente é minha enteada. Ela pode querer influenciar a pequena Victoria em coisas erradas, se me entende...

 

         Elise encarou a sua sogra com indignação.

 

         -Senhora Pearson, eu posso não ser amiga de Devlin, por ter tido problemas com ela, mas chegar ao ponto de concordar com suas idéias à respeito de que ela possa ser nociva à minha filha, discordo totalmente! Não gosto de Devlin, mas a conheço bastante para saber que ela jamais tentaria influenciar uma criança sobre suas preferências sexuais! Ela não é um monstro, senhora Pearson!

 

         A viúva Pearson fitou a nora com um sorriso sardônico.

 

         -Espero que você não esteja enganada, cara Elise. Bem, de qualquer forma, amanhã resolveremos isso. Vou tomar posse definitiva da casa e dos negócios de Gilmore e vou ter a satisfação de convidar essa moça a se retirar dessa casa.

 

 

LLLLLLLLLLLLLLLI

 

 

         Devlin acordou com batidas na sua porta. Levantou sem muita pressa e foi abrir, vestida com o seu pijama de seda azul da Prússia, que marcava seu corpo atlético e sensual, pisando no tapete  fofo que forrava o quarto. Abriu a porta e deparou com Brice com uma bandeja nas mãos e Vicky com uma rosa branca, os dois a fitando sorridentes.

 

          -Bom dia, Devlin! – Disseram, em coro.

 

         Devlin, à despeito de uma noite mal dormida, com sua ira pela viúva Clarence e Dennis Campbell a remoendo, sorriu para Vicky, com sua inocência e bom humor a contagiando. Se um dia quisesse ter uma filha, queria que fosse como Vicky.

 

         -Bom dia! – Disse, se afastando para eles entrarem – É tão bom ser despertada por vocês!

 

         Vicky lhe estendeu a rosa, falando com orgulho:

 

         -Colhi para você, na estufa de vovô.

 

         Devlin se inclinou, pegando a rosa e dando um beijo na testa da criança. Aspirou a rosa,dizendo:

 

         -Muito obrigada, meu anjo. Você é uma boa menina, Victoria ! E você, Brice, está me acostumando mal, trazendo meu desjejum no quarto!

 

         Ele riu, avançando e colocando a bandeja na mesinha de cabeceira da cama.

 

         -A culpa disso é de Vicky, que foi acordar-me para trazer seu desjejum, essa menina não sossega quando quer uma coisa! Mas esse luxo vai acabar, porque tenho que voltar para New York. Minha secretária ligou, dizendo que preciso estar lá o quanto antes, para assinar documentos importantes para nossos clientes japoneses. As exportações precisam ser liberadas – Disse Brice, sentando aos pés da cama.

 

         Devlin sentou na cama, com as pernas cruzadas e colocou a bandeja sobre as coxas, depois de colocar a rosa cuidadosamente sobre a mesinha. Tomou um gole de café, saboreando o gosto forte.

 

         -Ah, é mesmo, os negócios não podem ficar parados. Ainda bem que você sempre me assume quando viajo, assim posso ficar aqui mais uns dias. Quando vai, Brice?

 

         -Hoje às duas da tarde, já reservei a passagem.E você, quando pretende voltar para New York, Devlin?

 

         -Não sei – Respondeu ela, colocando dois cubos de açúcar no café – Talvez dentro de uma semana, no máximo.

 

         -Não acha que já demorou o bastante? Você e a viúva Pearson estão à ponto de trocarem tapas.

 

         Ela fitou o rosto preocupado dele e sorriu.

 

         -É verdade, mas ela vai ter que aturar-me, Brice. Eu antes de ir embora, quero ter certeza de algumas coisas que ficaram pendentes em minha vida, entende?

 

         Ele olhou para Vicky, que os olhava com os cotovelos apoiados na cama, as mãos apoiando o rostinho sério.

 

         -Vicky, vá ver tv, está passando uns desenhos ótimos no canal Disney, enquanto converso com sua tia.

 

         Ela se ergueu, sorrindo.

 

         -Tá bom, sei que vocês querem conversar coisas de adultos, não é?

 

         -É isso, Vicky – Confirmou Devlin – Só uns minutos, depois vou tomar uma ducha e depois a procuro no living, ok?

 

         -Ok. Vou esperar lá, vendo tv.

 

         Vicky se retirou e fechou a porta. Brice fitou Devlin com olhar grave.

        

         -Porque não vamos embora logo após a leitura do testamento? É quase certo que o seu pai vai deixar essa casa para a viúva , você vai esperar ela ter a chance de expulsar você daqui?

 

         Devlin o encarou com olhar subitamente duro.

 

         -Brice, o jogo ainda não acabou. Na verdade, mal começou. Brice, eu quero sair daqui depois dessa  víbora que sempre me odiou, que jogou meu pai contra mim. Uma mulher sem moral, que traía meu pai com o motorista, e se julga no direito de condenar-me pelo que sou. E eu tenho dúvidas se ela vai herdar essa casa, ou os negócios dele. Porque mesmo que ele não tenha deixado quase nada para mim, ele ainda tem uma nora e uma neta, que sei que ele amava.

 

         -Devlin, sei muito bem que o que a está prendendo aqui é a presença de Elise. Você tem esperança de reconquistá-la. Mas eu acho a sua esperança inútil. Ela está noiva, breve estará casada! Ela já a esqueceu depois desses anos todos, Devlin! Aceite essa realidade e venha comigo! Você pode ter quem quiser, há mulheres lindas que você conquistaria com a maior facilidade! Você sabe disso! Por que ficar aqui se martirizando?

        

         Devlin empurrou a bandeja para a mesinha de cabeceira e se ergueu, fitando Brice agitada, os belos olhos cheios de lágrimas súbitas. Passou as mãos pelos cabelos negros, que caíam em cascatas sedosas pelos seus ombros largos.

 

         -Eu não vou sair daqui sem uma luta final, Brice! Eu sei que errei muito com ela, eu a abandonei e destruí sua confiança em mim, destrocei seu coração, mas eu acho que um amor como o que tivemos não morre assim! Eu nesses anos todos tentei esquecê-la em dezenas de corpos de mulheres lindas, mas foi inútil! Ninguém consegue me fazer sentir o que sinto por ela! Nenhum beijo apaixonado dessas mulheres que tive me fez sentir um décimo que sinto só em vê-la ! Eu preciso de Elise para voltar a ser feliz, Brice! E vou lutar com todas minhas armas para tê-la de volta!

 

         -Lutar como, Devlin? A perseguindo com declarações apaixonadas?

 

         -Não! Pelo contrário! Eu conheço bem Elise, Brice! Ela jamais ficaria com uma pessoa que não tivesse amor próprio, que se humilhasse por amor! Eu tenho que reconquistá-la é mostrando-me indiferente à ela. E já tenho um plano. Marla vai ajudar-me, ela chega hoje à tarde.

 

         Brice a fitou surpreso.

 

         -Marla Stein? Ela vem para cá hoje?

 

         Devlin sorriu, sentando-se novamente na cama. Seu olhar brilhou, dizendo:

 

         -Sim, e ela vai ajudar-me em meu plano para reconquistar Elise!

 

         Brice riu, se erguendo e colocando as mãos na cintura, falando com voz afetada:

 

         -Mulher, você é mesmo perigosa, hein? Já até imagino o que vai fazer: vai fingir que Marla é sua amante! Vai meter ciúmes na pobre da loura! Mas você acha que Elise vai cair nesse jogo? Ela é loura, mas já percebi que ela não é nada burra, querida!

 

         Devlin não pôde evitar rir, com sua risada gutural e sexy.

 

         -Eu sei que é um jogo velho, mas as pessoas sempre caem, porque o ciúme as deixam sem pensar claramente. E se eu notar que Elise está com ciúmes, será o sinal que ainda sente amor por mim! Então, eu apenas a convencerei que a amo, e seremos felizes para sempre! Ah, Brice! Estou cheia de esperanças!

 

         Ele cruzou os braços, fitando-a duvidoso.

 

         -Espero que suas esperanças não acabem no ralo, amiga. Agora, vou fazer minha mala. Não gosto de deixar nada para a última hora, sabe disso.

 

 

LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLI

 

         Devlin olhou o avião levantar vôo e sumir entre as nuvens, respirando fundo. Consultou seu relógio de platina e diamantes Rolex. Brice havia ido, e Marla iria chegar dentro de meia hora. Ainda bem que os vôos de Brice e Marla tinham apenas meia hora de diferença, não teria que esperar muito. Dentro de uma hora, teria de estar em casa, para a abertura do testamento.

 

         Com cinco minutos de atraso, o jatinho fretado por Marla chegou. Devlin esperou pacientemente ela desembarcar e a encontrou na saída dos portões.

 

         Marla, como sempre, atraía olhares por onde passasse, em qualquer lugar do planeta. Era uma ruiva alta, de corpo esguio mas com curvas harmoniosas, um tipo parecido com a modelo Gisele Büchen, dona de uma elegância natural e uma simpatia cativante. Estava vestida com casaco de camurça marron, blusa de lã branca de gola rolê, uma ècharpe marron escuro, calças jeans  Versace e botas de cano alto  Prada.Um gorro de peles branco protegia sua cabeça do frio. Com uma maleta na mão, ela veio ao encontro de Devlin  com um enorme sorriso nos lábios.

 

         -Devlin!

 

         Caíram uma nos braços da outra, abraçando-se apertadamente.

 

         -Oh, Devlin, sinto tanto pela sua perda! – Sussurrou Marla, em seu ouvido - Eu sei que você amava muito seu pai...

 

         Devlin afastou-se, fitando a amiga.

 

         -Sim, foi uma perda sentida, mas não quero falar mais sobre isso, Marla. Meu pai nunca me amou... e agora, não adianta eu sentir nada... o que devo fazer é prosseguir com minha vida... e lutar para reconquistar a felicidade a que renunciei por causa dele.

 

         -Estou aqui para isso, amiga... – Disse Marla, fitando-a com carinho – O que eu puder fazer para ajudar você reconquistar a mulher que ama, eu farei.

 

         Devlin sorriu.

 

         -Obrigada, Marla. Sabia que podia contar com você.

 

         -Agora, vamos ser práticas e sair desse aeroporto, estou louca para sair desse lugar frio.

 

         -Certo, onde estão suas malas?

 

         Marla indicou o carregador com quatro grandes malas no carrinho de bagagem e Devlin gemeu.

 

         -Oh, meu Deus, quando você vai aprender a carregar somente o essencial numa viagem?

 

         -Hey, tenho que estar bem vestida! –Protestou Marla, rindo – Afinal, vou ser a rival da inesquecível Elise Belmont! É uma rival poderosa, tenho de estar linda!

 

         Devlin riu, dizendo:

 

         -Vamos, às três da tarde o tabelião vai chegar para abrir e ler o testamento de meu pai.

 

         No trajeto, Devlin foi relatando a Marla os acontecimentos da noite anterior e combinando como procederiam. Marla a ouviu atenta, sem apartes. No final, apenas disse, sorrindo:

 

         -Vamos lá, quero ver Elise Belmont se retorcer de ciúmes ao ver-me com você, Dev.

        

LLLLLLLL

 

         O cenário estava pronto para o ato. No escritório do falecido senador Pearson, a viúva vestida com um  conjunto de casaco e saia negros, um olhar orgulhoso no rosto, esperava impaciente. Elise, com um vestido simples azul escuro, aguardava com Vicky ao lado. Ela havia dispensado a presença do noivo, dizendo que aquele acontecimento era estritamente familiar. Dennis havia feito uma cara de contrariedade, mas não havia protestado.

 

         Elise tinha poucas expectativas sobre a herança. Ela nada tinha a receber, os bens que seu falecido marido havia deixado para ela já havia recebido após a morte dele. Mas sua filha, neta do senador, devia ser contemplada com alguma coisa. Era claro que a maior parte dos bens iria para a mulher do senador. E o que ele deixaria para a filha mal amada? Dinheiro? Terras? Ou nada?

 

         Olhou para o relógio na parede, um antigo e imponente Elgin, relíquia da família Pearson. Faltavam apenas cinco minutos para as três da tarde. Devlin havia saído para levar Brice no aeroporto e ainda não havia voltado. Por que estava demorando tanto? O tabelião Simpson já havia chegado e apenas esperava a chegada de Devlin para iniciar a leitura.

 

         Ela ouviu passos se aproximando e em seguida Devlin entrou, de mão dada com uma ruiva elegante e bela.

 

         Em choque, ela viu Devlin dirigir-se para o tabelião, anunciando:

 

         -Boa tarde, sou Devlin Pearson, filha do senador. Se estava esperando-me para começar a leitura, já pode iniciar.

 

         O tabelião sorriu, parecendo encantado com as duas belas mulheres. Apertou a mão que Devlin havia estendido e respondeu:

 

         -Claro, podemos iniciar, senhorita . Muito prazer, Adam Simpson ao seu dispor.

 

         A viúva fez uma careta de desgosto, protestando:

 

         -Essa moça que chegou com minha enteada não pertence à família. Ela não pode estar aqui para a leitura do testamento.

 

         Devlin fitou a viúva com desafio.

 

         -Ela vai ficar, porque é minha convidada.

 

         -Senhor Simpson, diga à essa mulher para se retirar! – Disse a viúva, com voz alterada.

 

         A ruiva ergueu as mãos em sinal de paz, dizendo conciliadoramente:

 

         -Calma, senhora, vou sair... Devlin, vou esperá-la no living.

 

         Devlin a fitou com um olhar de desculpa.

 

         -Está bem, Marla, mas se quiser, pode esperar-me no meu quarto. Poderá tomar uma ducha quente, trocar de roupa...

 

         -Vou esperá-la no living – Disse a ruiva, se retirando, não sem antes lançar um olhar curioso sobre Elise.

 

          Devlin se sentou em uma poltrona e cruzou as longas pernas, olhando expectante para o tabelião.

 

         Elise sentiu que seu coração estava em tumulto. A chegada de Devlin com a ruiva a havia abalado de uma forma inconcebível. Estava trêmula de ciúmes, de raiva de Devlin, por ter trazido aquela mulher ali! Era claro que a ruiva era uma nova conquista dela! Miserável, cretina, cadela! Os piores nomes vieram à sua mente para xingar Devlin. Ela não valia nada!

 

         À custo, conseguiu concentrar sua atenção no que o tabelião dizia:

 

-...em gozo de minhas faculdades mentais, determino: a casa de praia em Los Angeles, com tudo que possui em seu interior, como móveis, peças de arte e quadros...

 

         Elise olhou para Devlin. Ela ouvia atenta, as mãos com os dedos entrelaçados no colo, aparentemente desligada das pessoas perto dela. Como estava linda! Os cabelos negros  dessa vez presos em uma trança única, o terninho cinza e a blusa de seda branca, as botas negras de salto agulha, tudo mostrava sua elegância e beleza. E Devlin ia entregar tudo isso para aquela ruiva! Aquela ruiva quem ia desfrutar da beleza de Devlin, de seu fogo sexual, ouvir seus gemidos de prazer, sentir aquela pele aveludada, o cheiro inebriante,   tocar e beijar aquele corpo divino, ter o prazer imensurável de ver Devlin ter um orgasmo...ah, como era maravilhoso o tempo que podia ter Devlin para ela, apaixonada!

 

         Pela sua mente passou a desfilar vários momentos de prazer que tivera com Devlin. Sentiu sua excitação crescer. Cruzou as pernas, quase gemendo. Devlin sabia dar prazer à uma mulher! Aquela boca gostosa beijava tão bem, sugava...

 

         -Não é possível isso! Gilmore não fez isso comigo! Não acredito! Esse testamento é falso!

O grito histérico da viúva Clarence despertou Elise de seus pensamentos eróticos. Olhou assustada para a mulher, que havia se erguido e olhava para o tabelião furiosa.

 

-Senhora, está insinuando que lavrei um testamento falso? Devo dizer que esse testamento foi feito com três testemunhas, que são o deputado Frederic Wilson, o senador Willian Carson, e o juiz Alfred Beaton. Todos nós podemos processá-la por calúnia! – Disse o tabelião, em tom frio.

 

A viúva engoliu em seco, percebendo que iria ter que lutar contra três homens poderosos, que poderiam arruiná-la com pedidos de indenização por danos morais. Ela se sentou, dizendo entre ódio e amargura:

 

-Ele só deixou-me algumas ações e uma casa em Boston! Maldito! Somente isso a quem dedicou trinta anos de vida cuidando dele! Não é justo, não é justo!

 

-Senhora, peço que se controle para eu poder acabar de ler o testamento! -  Pediu o tabelião, com impaciência.

 

Ela se calou e ele prosseguiu:

 

-Para minha filha Devlin Pearson, deixo a casa em que ela passou sua infância, Pearson Hill, com todos os objetos que decoram o seu interior, sejam móveis, peças de arte, quadros e untesílios. Deixo também investimentos em ações no valor de dez milhões de dólares, e a casa de praia em Big Sur com todos seus pertences.

 

Devlin olhou para a viúva com um brilho de vitória nos olhos. Era o que mais queria: ter a casa em que passara sua infância, cheia de recordações, e também para expulsar dali aquela víbora que havia desfigurado a decoração de bom gosto original, que despedira os criados mais fiéis e queria dominar todos que a cercavam.

 

-Para minha neta Victoria Belmont Pearson, deixo as fazendas,  com todo o seu rebanho de gado, o frigorífico Babybiff, o rancho Las Calinas em Amarillo, a casa de Miami com todos seu pertences e uma conta de investimentos no City Bank no valor de vinte milhões de dólares, a ser administrada por sua mãe até completar a idade de vinte e um anos.

 

Elise ouviu tudo surpresa. Não havia dúvidas que a melhor contemplada com a herança era sua filha  Victoria. O velho Pearson não mentia quando dizia que amava muito sua neta.

 

-Agora, senhoras, devo ler uma carta redigida pelo  senador Pearson, que nos instruiu para que fosse aberta apenas por ocasião da leitura do testamento – Anunciou o tabelião, tirando de sua pasta um envelope e o abrindo com uma espátula. Retirou duas folhas de papel e pigarreou, começando a ler:

 

“Sei que quando essa carta for aberta, será o dia da abertura de meu testamento e sei que desagradei à minha esposa Clarence e surpreendi minha filha Devlin e a minha neta Victoria. Então, agora eu explico as razões que me levaram a dividir meus bens dessa forma:

 

À Clarence, minha esposa por trinta anos:

 

Eu me casei com você, Clarence, achando que seria a mulher perfeita para mim, depois da perda da minha amada mulher Marjorie. E junto ficamos até o fim de minha vida. Sim, juntos, como era adequado para minha carreira política. Sempre fui um homem que honrou o nome que recebi de meus pais. E fiz tudo para engrandecê-lo. Para isso, tive de passar por cima de muitos desagrados e vergonhas pessoais. Exigi muito de meus filhos, mas também de mim mesmo. E para o bem do nome de nossa família, continuei casado com você, mesmo conhecendo sua relação com o nosso motorista. Engoli meu orgulho e ira pelo bem de meu honrado nome. Mas agora, chegou a hora do acerto de contas. E você está recebendo  mais do que merece, mulher adúltera! E se for para a justiça brigar por mais ou comentar essa carta com alguém fora da família, uma cláusula no testamento a deserdará. 

 

A viúva ficou imóvel, o rosto pálido, os olhos cheios de ódio, mas contendo-se com esforço. O tabelião prosseguiu: 

 

“À minha filha Devlin:

 

Eu sei que você, minha filha, tem muitas mágoas de mim, seu pai. Eu sei que exigi muito de você, e talvez tenha falhado em meu papel de demonstrar afeto paternal por você. Mas se exigi demais de você, foi para que se preparasse para a dura realidade de pertencer à uma minoria discriminada por toda sociedade. Eu quis provar à você que nem sempre nossas escolhas de vida são as melhores para nossa felicidade, mesmo sendo o que achamos que somos. Eu sempre exigi muito de você, sei disso, mas sempre pensando em sua felicidade. E sua felicidade jamais poderia ser tendo uma ligação condenada pela sociedade. Um dia você vai dar-me razão. E por ter sido uma filha que procurou  honrar meu nome, mesmo  tendo recaídas na luxúria, eu a contemplei nesse testamento com o que mais amou: a casa em que foi criada e que passava suas férias, além de uma quantia significativa. Eu a amei ao meu modo, Devlin. Não tivesse seu nascimento causado a morte de minha amada Marjorie, eu teria lhe demonstrado meu afeto.  

 

Devlin apertou os lábios,  sentindo o coração apertado por sentimentos contraditórios de ressentimento, raiva, e pena de seu pai. Pobre infeliz! Ele nunca a havia amado, e se desculpava com frases de efeito, tentando justificar-se! A única verdade em tudo que havia  sido dito para ela, era o fato dele   nunca ter conseguido  perdoá-la por ter sido a causa da morte de sua mãe, devido a problemas do parto. Mas não ia mais abater-se por quem nunca a havia amado. Aprendera a duras penas a pensar mais em si mesma e ser objetiva. Assim, seu rosto continuou impassível, ouvindo o tabelião, que continuou:

 

“Á minha neta Victoria:

 

Você é o  futuro dessa família. A árvore que dará sementes, ao contrário de minha filha. Você dará prosseguimento à  novos membros da família, gerando descendentes do nome Pearson, e como tal, a fiz herdeira da maioria dos negócios de nossa família, bem como os investimentos   e imóveis  citados no testamento. Faça por onde merecer esses bens e seja uma mulher do qual seu avô poderia se orgulhar. Sei que estou colocando o peso de todas minhas expectativas em seus ombros, mas assim deve ser. Você é uma Pearson e como tal deve honrar esse nome.

 

  Assim seja feita minha vontade

 

   Gilmore Pearson.

 

O tabelião se calou e fechou a carta, colocando-a novamente no envelope, anexando aos documentos.

 

-Isso é um absurdo! – Disse a viúva  Clarence, se erguendo – Ou esse testamento é falso, ou Gilmore estava louco!

 

Devlin se ergueu e se aproximou da viúva, parando diante dela e dizendo em tom cortante:

 

-Você ouviu o que ele falou. Se contestar o testamento, será deserdada. Quer arriscar? E falando nisso, como ouviu, essa casa agora é minha! Você tem vinte e quatro horas para sair daqui . Sua presença aqui não tem mais nenhum respaldo legal.

 

A viúva fitou Devlin com ódio no olhar, mas se retirou em passadas furiosas.

 

Elise se ergueu também e a fitou com frieza, de mãos dadas com a filha.

 

-Quer que eu e Victoria nos retiremos também? Agora que a casa é toda sua, não  a incomodaremos com nossa presença. Só peço uns dias para que possamos arranjar uma casa para morar.

 

Devlin fitou aqueles olhos lindos e frios.

 

-Vocês podem ficar aqui o tempo que quiserem – Respondeu, com voz suave – A presença de vocês não me incomoda e eu gosto muito de Vicky.

 

Vicky sorriu radiante para ela. Elise não demonstrou nenhuma alegria.

 

-Bem, não vamos ficar aqui por muito tempo. Talvez nos mudemos para uma das fazendas que Victória herdou.

 

-Mãe, eu não quero ir! – Choramingou Vicky, segurando o braço da mãe – Quero ficar perto de tia Devlin!

 

Elise alisou o rosto da filha, fitando-a séria.

 

-Sua tia breve irá embora, Vicky. E além disso, ela agora está muito bem acompanhada e não poderá dividir sua atenção – Completou, com tom sarcástico.

 

Vicky se desvencilhou da mãe e veio até Devlin, fitando-a com os belos olhos verdes cheios de lágrimas.

 

-É verdade, tia Devlin? Não vai ter mais tempo para mim?

 

Devlin fitou a garota com um olhar afetuoso, pegando-a pela mão.

 

-Não, Vicky. Sua mãe está enganada. Vou sempre ter tempo para você, estando nessa casa. Você vai conhecer Marla e tenho certeza que se darão bem. Poderemos sair as três juntas...

 

-Minha filha não irá sair com vocês! – Disse Elise, puxando Vicky pelo braço.

 

Devlin a fitou com olhar surpreso.

 

-Por que não? Posso assegurar que Marla é uma ótima pessoa, de conduta correta!

 

-É verdade, mami, eu reconheci ela! A moça que chegou com tia Devlin é uma pessoa famosa! Ela saiu na capa da Vanity Fair!

 

-Depois decidiremos isso, Vicky, venha – Disse Elise, encarando Devlin e falando em tom sarcástico: - Não demore muito, Devlin Pearson, sua...amiga deve estar indócil esperando-a!

 

E voltando-se, saiu arrastando Vicky pela mão.

 

Devlin passou as mãos pelos cabelos  e riu, sua risada gutural.

 

-Está dando certo, Devlin! – Disse baixinho, socando o ar – Elise mordeu a isca!

 

Exultante, foi ao encontro de Marla no living.Encontrou-a sentada em um sofá, folheando uma revista. Ela a olhou chegar e colocou a revista sobre a mesinha de centro, expectante.

 

-Huummmm...pelo seu rosto, deve ter herdado a maior parte da fortuna do seu pai...

 

Devlin riu e dirigiu-se para o bar, que tomava quase a metade  da parede esquerda do living e pegou uma garrafa de uísque.

 

-Quer uma dose?

 

-Aceito, está frio...mas ,  conte-me, o que aconteceu?

 

-Bem, eu não esperava muito de meu pai, mas ele surpreendeu-me, me deixando o que eu mais queria, essa casa, além de dez milhões em investimentos – Respondeu Devlin, colocando uísque em dois copos .

 

-Somente isso, Devlin?! Seu pai tem uma imensa fortuna, isso é ninharia!

 

Devlin se aproximou, entregando um copo à ruiva e sentando no sofá ao lado dela.

 

-Eu não preciso do dinheiro do meu pai, Marla. Eu já tenho um bom patrimônio que herdei de minha avó, o qual investi bem e agora possuo meu próprio negócio que vai muito bem. Mas a casa tem um valor afetivo para mim  que aquela bruxa não  possuía. Ela só queria ter o prazer de continuar a desfigurar essa casa , para me provocar. Agora. A casa é minha! Dei à bruxa vinte e quatro horas para sair daqui.

 

-E para quem ele deixou a maior parte da sua fortuna?

 

-Para a sua neta, Victoria, filha de Elise. Muito bem pensado. Eu concordo com a escolha. Vicky vai dar continuação aos descendentes da família, esse peso deixou os meus ombros, graças a Deus. Mas o melhor de tudo, Marla, é que notei que Elise já está com ciúmes de você!

 

Marla deu uma gargalhada, jogando a cabeça para trás. Depois a fitou com ar divertido.

 

-Hummm, acho que vou adorar fazer esse jogo com você! Vai ser divertido!

 

-Para mim, vai ser é emocionante! Ah, ver aquela mulher com ciúmes de mim, reconhecer que ainda me ama e aceitar-me de volta, é tudo que sonho!

 

Marla ergueu o copo, numa saudação.

 

-Ao seu sucesso! Salut!

 

Devlin ergueu o seu, sorrindo cheia de esperança.

 

-Salut!

 

        

LLLLLLLLLLLL

 

 

         Continuará na parte 6

 

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