Tarde Demais
para Esquecer
PARTE 4
Elise
seguiu Devlin até a biblioteca e entrou, passando pela morena, que segurou a
porta aberta para ela entrar. Devlin fechou a porta e voltou-se para Elise, que
a fitava friamente com os braços cruzados.Oh, Deus...Elise estava mais linda
que nunca, o olhar mais maduro, agora de uma mulher feita, que conhecia seu
valor.
Devlin engoliu em seco, mas conseguiu
manter no rosto uma expressão amigável, mas sem a paixão que revolvia em seu
íntimo ao ver Elise tão próxima dela, depois de tantos anos. Mas sabia que ela
estava inatingível, pelo seu olhar frio.
-Não quer se sentar? – Perguntou, com
voz calma, sem trair o que sentia.
-Não, estou bem assim.E acho que nossa
conversa vai ser bem rápida, já que não tenho nada a dizer à você.
Devlin colocou as mãos no bolso do
casaco, olhando para fora, desviando o olhar.Não queria fitar aquele olhar tão
frio, tão sem sentimento, que a feria. Mas sabia que a culpa era toda sua.
-Tudo bem. Então, vou ser objetiva: não
quero mais ver o seu noivo por aqui. Ele não pertence à família, para eu ter
que aturar uma pessoa que me provoca dentro de minha própria casa. A viúva de
meu pai eu tenho que aturar até a leitura do testamento, mas seu noivo, não
tenho nenhum motivo para isso.
A voz de Elise se encheu de sarcasmo:
-Oh, a grande Devlin agora acha que
todos devem obedecer aos seus desejos...agora que seu pai morreu, se julga com
o direito de ser a líder da família, fazendo com que todos a obedeçam...
Devlin a encarou, voltando-se para ela.
-Eu não quero ser líder de ninguém, mas
seu noivo é um homofóbico que pretende me provocar não respeitando minha
sexualidade, e isso não admito!Estou na casa que era de meu pai, sou filha
dele! Tenho o direito de escolher quem a frequenta!
-Mas você está se esquecendo que não é a única Pearson aqui! Eu também sou,
por nome adquirido por casamento, e minha filha, por nascimento!Somos Pearson
como você! E não vamos nos submeter aos desejos de uma pessoa como você!Uma
mulher sem caráter, sem palavra! Temos os mesmos direitos que você, aqui! E não
vou atender ao seu desejo absurdo!
Devlin sentiu uma raiva abrumadora
tomar conta dela. Em dois passos, se aproximou de Elise e a segurou pelos
ombros com força, fitando-a nos olhos e dizendo com voz baixa, mas cheia de
ira:
-Você então espere o pior! A próxima
vez que seu noivinho homofóbico me provocar, vou retrucar com uma surra que o
deixará um mês no hospital!
Elise a fitou com os olhos brilhantes
de ira.
-O que você diz não me impressiona
mais! Você é uma mentirosa! Sua palavra não vale nada!
Essas palavras foram como tapas no rosto de Devlin. Ela sabia
porque Elise as estava dizendo. Ela havia faltado à sua promessa, dez anos
atrás. Deixara Elise esperando-a numa estação de ônibus, para fugirem e irem
viver juntas. À sua mente veio em
flashes rápidos, cenas do seu passado:
Ela e Elise fazendo amor, seus
corpos estremecendo juntos, no êxtase .
Ela
pegando a mão de Elise e beijando os dedos, fitando-a apaixonadamente e
dizendo:
-Ninguém
nunca nos separará, meu amor. Eu a amo tanto...prefiro morrer, a me separar de
você.
Elise
a fitando com adoração, dizendo:
-Eu
prometo que vou amar você sempre, Devlin...vou ser sempre sua...
-Eu
também, Elise...juro que iremos envelhecer juntas, porque nosso amor é e será
para sempre...
-Promete
que nunca me deixará, Devlin?
-Prometo, meu amor...
O presente a trouxe de volta ao ser
empurrada por Elise, que tentou se desvencilhar de suas mãos, fitando-a com rancor .
-Está me machucando!
Devlin a soltou, desculpando-se:
-Desculpe-me... mas você também está me
magoando com tanto ódio...
Elise a fitou com um olhar onde parecia
estar com vários sentimentos se digladiando dentro dela.
-Não acho que você merece nem o meu
ódio, Devlin. Ódio é um sentimento forte. Eu só consigo sentir por você
indiferença. Para mim, você está morta.
E voltando-se, saiu da biblioteca,
deixando Devlin ali imóvel, arrasada com as palavras dela.
Devlin sentou em uma poltrona, olhando
para a porta que havia fechado atrás de Elise. E agora sem testemunha do que
sentia, escondeu o rosto nas mãos e um soluço incontido saiu de seu peito.
Oh, Deus! Estava sofrendo com a frieza
de Elise! As palavras dela a estavam ferindo como punhais, nunca havia se
sentido tão sem valor, sem dignidade, uma ninguém! A indiferença de Elise era
devastadora!
-Oh, Elise! – Gemeu – Eu posso suportar
o seu ódio, mas o seu desprezo, não!
Havia o ditado que o ódio e o amor são
faces da mesma moeda, mas a indiferença, não tinha nada a ver com amor! Era o
nada! – Pensou Devlin, sentindo as lágrimas molhando seu rosto. Ficou ali
chorando sua dor, sentindo-se derrotada, pensando que ela ainda sentia amor por
uma mulher que não sentia mais nada por ela. Elise agora devia amar o noivo,
pois havia se enfurecido com seu pedido de não trazê-lo mais ali em sua casa.
Mas Devlin não era mais aquela garota
dominada pelo pai. Ela havia se tornado uma mulher vivida, havia aprendido as
lições da vida. E uma lição que havia aprendido era não se dar por vencida sem
uma boa luta. Para se conquistar algo, tinha de lutar. E essa luta tinha de ter
uma estratégia.
Ela parou de chorar e enxugou os olhos
com as mãos. Uma expressão determinada surgiu em seu rosto.
-Elise, você vai voltar para mim... –
Sussurrou – Você não pode ter esquecido um amor como o nosso... e eu vou lutar
com todas as armas que puder, para ter seu amor novamente... e dessa vez, será
para sempre.
))))))((((((
-Mamy , porque está chorando?
Elise voltou o rosto, surpresa pela voz
da filha. Não a vira chegar. Estava em seu quarto e se sentia deprimida. Ao contrário
do que pensara, jogar na cara de Devlin aquelas palavras cheias de desprezo,
que durante anos esperara a oportunidade de dizer para Devlin, não a fazia se
sentir vingada, satisfeita e aliviada. E sim sentia-se deprimida, sórdida,
fria, má. O olhar de Devlin, quando dissera que ela não merecia nem seu ódio,
não saía de sua mente. O seu rancor havia se esvaído, dando lugar à uma
sensação incômoda de arrependimento e
mal estar. Como pudera ser tão fria com a mulher que amara tanto?
Amara... ou ainda amava?
-Mamy...
responda, por favor...
-Uh? Oh, não é nada, filha... apenas um
cisco...
Vicky a fitou incrédula.
-Um cisco?! Aqui, dentro do quarto? Sem
vento e poeira?
Elise sorriu fracamente, enxugando os
olhos com as pontas dos dedos e abraçando a filha, colocando-a sentada em suas
coxas.
-Você é uma garota esperta demais para
o meu gosto...
Vicky abraçou a mãe, fitando-a nos
olhos, com um sorriso matreiro.
-Mamy, sou criança, mas não sou burra.
Por que estava chorando? Pela morte de meu avô sei que não é, você não gostava
dele...
Elise encarou a filha, forçando um ar
indignado.
-Victoria Pearson! Foi essa a educação
que lhe dei? Duvidar do que sua mãe diz?!
Vicky a fitou muito séria, um olhar
cheio de compreensão.
-Mamy, não precisa disfarçar. Sei que
está chorando porque discutiu com tia Devlin.
-Oh! Agora deu para ficar escutando
atrás das portas? Que feio, Vicky! – Disse Elise, com tom cheio de reprovação.
-Eu não ouvi atrás das portas! – Protestou
Vicky, fazendo beicinho – Com a cara que você saiu da biblioteca, vi logo que
haviam discutido! Eu vi quando entrou ali com tia Devlin. E depois ela saiu também, com cara de quem havia
chorado. Oh, mamy, eu gosto tanto de tia Devlin! Não brigue com ela, por favor!
Elise suspirou e apertou o rosto contra
o da filha. Afastou-se e a encarou.
-Por que gosta tanto dela? Devlin nunca
quis conhecer você, nesses anos todos!
-Mamy, sabe muito bem que ela não vinha
aqui porque meu avô não deixava! Ele dizia que tia Devlin tinha de ficar
distante de nós!
-Eu sei, filha...mas se ela quisesse
mesmo nos visitar, teria enfrentado seu pai!Sua tia sempre foi dominada pelo
seu avô, Vicky. Acho que foi a única pessoa que ela amou na vida.
A voz de Elise soou cheia de amargura e
ressentimento.
Vicky a fitou pensativamente.
-Eu sei que você gosta dela, mãe. Por
que não a perdoa?
Elise olhou para a filha espantada.
-Gosto dela? Quem... quem disse isso a
você?
-Ouvi minha avó comentando que você e
tia Devlin eram muito amigas... e que vocês iam fugir juntas... então, você
gostava dela. Por que não gosta mais, mamy?
Elise afastou Vicky de seu colo e se
ergueu, vermelha de raiva.
-Aquela velha fofoqueira! A quem ela
disse isso? Quando?
-Ela disse isso ao senhor Campbell, o seu noivo, Mamy! E ele disse que não estava gostando nada de
tia Devlin vir para o funeral de meu avô.
Elise mordiscou o lábio inferior,
engolindo um palavrão. A megera estava atiçando o ódio de Dennis contra Devlyn! E pior, deixando sua filha
desconfiar de sua antiga relação com
Devlyn! Uma criança! Como Victoria iria reagir, o dia que soubesse a verdade?
-Vicky, não dê atenção ao que sua avó
diz! Ela odeia Devlin!
Vicky suspirou, apoiando o rosto nas mãos,
apoiando os braços na poltrona que sua mãe estivera sentada.Seu rostinho estava
grave.
-Mamy, não tenha vergonha de dizer que
gosta de tia Devlin. Eu também gosto.
Elise contemplou Vicky e não pôde
deixar de sorrir da inocência da filha.
-Eu gostava dela, Vicky, mas ela traiu
minha confiança.
-O que ela fez?
-Um dia eu direi à você. Quando
você tiver mais idade para entender as
coisas dos adultos.
-Droga! Sempre você diz isso para mim,
mamy, quando pergunto por que brigou com minha tia!
-Vicky, vou tomar um banho para
me aprontar para o jantar. Por que não faz o mesmo?
Vicky fez beicinho,
olhando para a mãe com ar emburrado.
-Tudo bem... já
conheço esse modo de você não querer falar as coisas para mim, mamy... até mais
tarde.
Devlin digitou
rapidamente os números em seu celular e colocou o aparelho no ouvido. No
terceiro toque uma voz feminina atendeu, em tom sonolento:
-Alô...
Devlin riu.
-Marla! Não acredito que você está dormindo às seis da tarde!
-Devlin! Oh, minha
querida amiga! Cheguei hoje de Paris e estou morta de cansaço, por isso
estava dormindo para me recuperar! Mas,
venha até meu apartamento! Estou cheia de novidades, você e eu podemos ir numa
festa que me convidaram, mais tarde...
-Marla... não estou
em New York. Estou em New Orleans.
-Foi visitar a
família?! Aconteceu alguma coisa?
-Meu pai morreu,
Marla, em um desastre de avião.
-Meu Deus! Eu não
sabia, Devlin!
-Eu imaginei, você
estava ausente.
-Eu vou imediatamente
para onde você está! Vou fretar um jatinho e...
-Calma, Marla, não
precisa vir com tanta urgência! Meu pai foi enterrado há dois dias atrás, o pior já passou... agora
eu tenho que conviver com essa perda e conformar-me.
Devlin e sua amiga
Marla conversaram por quase uma hora. Marla e ela se conheciam há mais de cinco
anos, Marla e ela haviam tido um “affair” que durou apenas um mês, até chegarem
à conclusão que se davam melhor como amigas do que amantes. Elas eram parecidas
demais para darem certo juntas: ambas
ricas, temperamentais, volúveis em suas conquistas, acostumadas a conquistar
com um olhar e depois de consumada a conquista, partirem para outra. Mas da
relação ficara um carinho recíproco, uma amizade sólida, fazendo cada uma fazer
o que pudesse para ajudar a outra, como um pacto. Devlin sabia tudo da vida de
Marla, que também sabia tudo sobre sua vida.
Devlin contou os seus
desentendimentos com Elise e Marla lhe propôs um plano que a encheu de
entusiasmo: Marla iria passar uma semana em New Orleans e fingiria ser sua
amante. Devlin desligou com um sorriso, os olhos se estreitando.
-Agora vamos ver se
não sente nada mesmo por mim, Elise... – sussurrou – Vamos ver isso em
breve...nada como ficarmos em pé de igualdade... você com Dennis Campbell, eu
com Marla Stein.
Com novo ânimo, resolveu
finalmente jantar com o resto da família. A bruxa da viúva de seu pai,
Clarence, precisava ser enfrentada.
Às oito da noite,
como era tradição na residência dos Pearson, o jantar era servido. Mas nessa
noite, quando Devlin chegou ao salão de
refeições, ela o encontrou vazio. Numa
rápida busca, encontrou Brice e Vicky jogando videogame no salão de jogos.
Devlin cruzou os
braços, sorrindo divertida.
-Muito bem, ao invés
de estarem na mesa para o jantar, estão aí brincando! Onde está o resto do
pessoal? Já são oito horas!
Vicky a fitou
sorridente, interrompendo o jogo.
-Oh, tia Devlin, o
jantar só é servido as nove, depois que vovô morreu!
Devlin ergueu as
sobrancelhas.
-Às nove?! Por quê?
-Vovó disse que agora
o jantar não precisa ser tão cedo, meu avô quem gostava de jantar às oito da
noite. Agora ela pode ver tranqüila o programa da Ophrah antes de jantar. O programa era na mesma
hora do jantar e ela o perdia quando
vovô estava em casa.
Devlin fitou a garota
incrédula, colocando as mãos na cintura.
-Espere aí... sua avó
adiou o horário do jantar apenas para ver seu programa de tv, sabendo que você
é uma criança, e deve jantar e ir dormir mais cedo? Quebrou uma tradição nessa casa, colocando o horário
do jantar bem tarde, apenas pensando no que ela gosta?
Vicky assentiu, se
erguendo do sofá e abraçando Devlin.
Brice as fitou sorrindo.
-Essa velha é mesmo
uma bruxa, Devlin – Disse ele – Só falta a vassoura. Ela já me jogou
indiretas para eu ir embora.
Devlin beijou a
cabeça de Vicky, os olhos azuis adquirindo um brilho perigoso.
-Ela fez isso com
você? Bem, eu vou colocar essa bruxa no lugar dela! – Disse, entredentes.
-Meu Deus, algo me
diz que esse jantar vai ser memorável! – Disse Brice, rindo.
Nota:
É um prazer estar em uma nova “casa”, depois de tanto tempo,
o Xena Fictions, onde fui tão bem recebida.Obrigada, Nanda.
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