Tarde Demais
para Esquecer
Leth cross
PARTE 2
5 de janeiro/ 2005
Elise estava de pé
ao lado de sua sogra diante do pódio
improvisado pelas estações de tv diante da mansão, para a rápida entrevista
coletiva. Pessoalmente, Elise achava aquilo um circo, mas não queria discutir
com sua sogra. A mulher impusera seu ponto de vista, dizendo que a nação
esperava uma declaração da família Pearson sobre a tragédia. E agora falava
diante dos inúmeros microfones e câmeras focalizados nela.
Elise conteve-se para
não sorrir com sarcasmo. Certo, a mulher havia perdido o marido tragicamente,,
mas nem isso diminuía seu orgulho e desejo de ser o centro das atenções.
Clarence havia se colocado entre ela e Vicky, abraçando-as pelos ombros,
representando o papel de uma personagem numa tragédia grega, cheia de
dramaticidade.
-Como a nova
representante da família Pearson, desejo expressar meus agradecimentos pelos
telegramas de amigos e admiradores de meu marido, morto tão tragicamente. Mesmo
em nossa dor, eu senti que devia levar uma palavra de conforto à nação, que
também sofre essa perda irreparável! – Disse Clarence, com voz sofredora.
-Senhora Pearson, a
nova representante da família não seria Devlin Pearson, filha de Gilmore
Pearson? –Perguntou um repórter.
Clarence Pearson
fitou o repórter com um brilho de irritação no olhar.
-A filha de meu
inesquecível esposo há muito tempo renunciou ao seu lugar nessa família, ela
tem uma vida própria e não creio que se incomodará em perder seu tempo com
nossos problemas – Declarou, para espanto de Elise e excitação dos repórteres.
Aquela declaração confirmava os rumores que Devlin Pearson Montford estava com
relações cortadas com a família. E isso era um bom prato para a imprensa se
alimentar.
-Apesar das idéias
erradas de minha madastra, estou aqui para retomar o meu lugar na família e se
for necessário, liderá-la.
Todos se voltaram
para quem havia falado aquelas palavras com uma voz alta e clara, ressoando
aveludada nos ouvidos que a ouviram. Elise também olhou, congelada pela emoção.
Jamais esqueceria aquela voz, mesmo com os anos passando.
Atrás do aglomerado
das pessoas que ouviam, filmavam ou fotografavam o trio composto por Clarence,
Elise e Victoria Pearson, estava Devlin, olhando para a sua madastra com
desafio. Mais linda que nunca, vestida com um longo casaco de couro negro, que
ia até os joelhos, com gola e punhos de arminho, blusa de lã branca e calça
comprida cinza-chumbo. O frio da tarde de outono fazia suas faces coradas, e
seus olhos brilhavam como águas marinhas.
Depois da surpresa
inicial, todos os fotógrafos e cinegrafistas se voltaram apressados para
filmá-la e fotografar, esquecendo as três mulheres no pódio.
Devlin avançou em
passos lentos, sem se importar com o tumulto que a cercava, sem deixar de fitar sua madastra que a
fitava com os olhos lançando adagas de ódio.
Elise a fitava
estática, sentindo seu coração se agitando furiosamente no peito. A mulher que
amara tanto, que a havia feito sofrer tanto, depois de longos anos estava ali,
se aproximando cada vez mais. Tentou desesperadamente manter sua fisionomia
tranquila, sem mostrar as emoções que tumultuavam seu coração: mágoa,
ressentimento, admiração, atração, esperança.
Vicky se desprendeu
de seus braços e correu ao encontro da tia, com um olhar que implorava atenção
e boas vindas.
O olhar de Devlin
caiu sobre a garota de cabelos louros e olhos verdes e se abrandou. Ela era a
cópia viva de Elise.
Vicky parou há dois
passos de Devlin, que havia parado fitando-a atentamente. Com um gesto cheio de
insegurança, estendeu a mão para Devlin.
-Sou sua sobrinha
Vicky – Disse, com voz infantil trêmula – Posso... posso dar um abraço em você?
Devlin olhou para a
garota pensativamente por alguns segundos. Então, inclinou-se para a frente e
estendeu os braços para Vicky, com um sorriso curvando os cantos de sua boca
sensual.
-Olá, Vicky... –
Sussurrou – Sim, ficarei muito contente em ganhar um abraço seu.
O rosto de Vicky se
abriu em um sorriso radioso e ela se jogou nos braços de Devlin, abraçando-a
apertadamente. Devlin retribuiu o gesto e se ajoelhou, apertando nos braços o
corpinho esguio da garota, que pousou a cabeça em seu ombro. O clarão dos flashes
iluminou a cena, com o acionamento das câmeras fotográficas.
Devlin afastou-se
momentos depois e olhou para a garota, que a fitou com um doce sorriso.
-Eu queria tanto
conhecer você de perto, tia Devlin... vamos ser amigas?
Devlin se ergueu e
tomou-a pela mão, sorrindo.
-Claro, Vicky...
depois conversaremos melhor, ok?
-Ok... posso ficar
perto de você?
-Pode, se quiser. Venha.
Ela recomeçou a
caminhar de mão dada com Vicky, indiferente às câmeras de filmagem e fotos. Seu
olhar dessa vez caiu sobre Elise, que as fitava com um olhar inexpressivo.
Devlin parou diante do pódio e voltou-se para a multidão de repórteres,
colocando-se diante dos microfones.
-Senhores, acabei de
chegar e pretendo ter alguma privacidade com minha família. Espero que entendam
isso e colaborem. Nós estaremos divulgando qualquer novidade sobre o
acontecimento através do meu amigo e assessor Brice Wolf – Disse Devlin,
indicando seu amigo que havia chegado sem despertar qualquer alarde e agora
caminhou para junto da família.
Brice estendeu a mão
para Clarence Pearson, mas ela ignorou a mão estendida e apenas assentiu com a
cabeça, orgulhosamente. Ele voltou-se para Elise, imperturbável.
-Meus pêsames, Elise.
Nunca pensei que voltaríamos a nos encontrar em uma circunstância como essa.
Elise apertou a mão
de Brice formalmente. Ela sabia que Brice era o melhor amigo de Devlin e isso a
fazia olhá-lo com desconfiança.
-Realmente, Brice. O
destino nos prega cada peça, não acha?
-Vou entrar, esse circo
está demais para o meu gosto – Disse a viúva Clarence, mal humorada. Devlin
havia estragado tudo com sua chegada, arrebatando a atenção de todos.
Ela entrou e Devlin
pegou Vicky pela mão, entrando em seguida. Elise e Brice a seguiram logo,
fechando a porta.
Clarence Pearson
voltou-se para Devlin com um olhar brilhante de raiva. Ela era alta e magra,
mas Devlin era mais alta que ela uns dez centímetros e ela teve que erguer o
rosto para encará-la.
-O que veio fazer
aqui, após tantos anos ausente? Veio atrás do prestígio do nome que meu filho e
meu marido possuíam? Devia ter permanecido onde estava, sua presença não é
bem-vinda aqui! Não gostamos de pervertidas como você respirando nosso mesmo
ar!
Devlin soltou a mão
de Vicky e olhou friamente para sua madrasta, com um olhar perfurante.
-Ouça, sua vaca
pomposa e ridícula! – Disse Devlin, entre dentes – Você durante anos fez a
cabeça de meu pai contra mim, usou e abusou do prestígio do nome de meu pai
para a abertura de portas que jamais seriam abertas se não fosse o nome Pearson, apoderou-se de tudo que pertencia à
minha mãe, dilapidando no jogo. Mas isso acabou! Eu voltei e dessa vez não vou
baixar a cabeça para você! Tenho tanto direito a estar aqui como você, ou até
mais! Eu tenho o sangue dos Pearson nas veias, você não!
A mulher levantou a
mão para esbofetear Devlin, mas ela a segurou pelo pulso e a fitou de perto,
com os olhos brilhando de fúria.
-Nunca... mais...
faça... isso! –Disse lentamente, enfatizando cada palavra – A não ser que
queira que eu torne público que você é uma viciada em jogo, perdendo nos
cassinos todas as jóias de minha mãe, que eram herança de família. Que traía
meu pai com o seu motorista, até seu filho descobrir e despedir o motorista.
Clarence Pearson
empalideceu, fitando Devlin com os olhos arregalados. Devlin deu uma risada
curta.
-É, querida
madrasta... sei de tudo... eu saí dessa casa há anos, mas um detetive
particular sempre me manteve à par de tudo que acontecia aqui. E então, vai
continuar falando sobre minha moral, sendo a sua tão baixa?
Clarence Pearson fez
a única coisa que podia: abandonou o hall de entrada apressadamente.
Devlin sorriu e olhou
para Elise, que a fitava pensativamente, assimilando as descobertas sobre a sua
sogra.
-Você concorda com as
palavras de minha madastra? Não sou bem-vinda nessa casa?
Elise procurou ser
fria e objetiva, dizendo secamente:
-Creio que minha
opinião é irrelevante para você. O que penso não mudará nada. Já que se deu bem
com Vicky, ela lhe mostrará os aposentos onde irá ficar.
E com isso, Elise
retirou-se.
Devlin ficou olhando
ela afastar-se com um olhar triste. Finalmente deixou a emoção surgir em seu
rosto. Como havia lutado contra o desejo de pegá-la entre os braços e beijá-la
com a saudade que sentia! Elise estava mais linda que nunca. Os anos haviam
transformado a adolescente numa linda mulher.
-Não fique triste.
Ela gosta de você.
Devlin olhou surpresa
para a garota que a fitava atentamente.
-Por que acha que
estou triste por causa de sua mãe?
-Porque ficou triste
com o que ela disse – Respondeu Vicky com sua lógica simples de criança.
Devlin sorriu,
fitando-a.
-Ah, fiquei? E por
que acha que ela gosta de mim?
-Porque ela sempre
briga com minha avó quando ela
fala mal de você.
-É mesmo? E o que ela
fala ?- Perguntou, olhando para Brice e trocando um olhar de entendimento. Ele
observava o diálogo delas com um sorriso divertido, de braços cruzados.
Vicky a fitou
hesitante.
-Não vai ficar com
raiva de mim, se eu falar o que ela disse ?
Devlin acariciou o
rosto dela.
-Claro que não,
Vicky. Somos amigas, não somos?
Vicky sorriu
luminosamente.
-Somos, sim. Então,
vou falar.
-Fale.
-Bem, ela disse que você é
uma ridícula sapatão querendo imitar os homens, que devia ser internada
para tratamento psi... psi...
-Psiquiátrico –
completou Devlin, já vermelha de raiva.
-Isso! E então minha
mãe disse para ela que você é melhor que muito homem metido a machão. Que se o
filho dela fosse como você, ele seria melhor.
Devlin trocou um olhar com Brice. A ingênua criança havia em
poucas palavras revelado o tipo de relacionamento que seus pais tinham. Então,
Elise não amava o marido, como pensava! A chama da esperança cresceu em seu
coração.
Sorriu para a garota
que a fitava espectante e tomou-a pela mão.
-Bem, agora leve-me
até o quarto que foi reservado para mim, Vicky. Brice, vou trocar de roupa e
logo me reunirei à você na biblioteca.
Vicky sorriu e a
conduziu para o pavimento superior da mansão. Devlin olhou em volta, matando a
saudade da casa em que vivera tantos anos. A não ser as novas cortinas nas
janelas e a nova cor das paredes, nada mais havia mudado. Era uma casa decorada
em estilo clássico, com móveis Chippendale que haviam pertencido à família por
gerações. Então, a mão de sua madrasta não havia conseguido mudar muita coisa
na casa.
Vicky a levou ao seu
antigo quarto. Mas quando entrou, percebeu que ele não tinha mais nada a ver
com seu antigo aposento. O papel azul das paredes havia sido trocado por papel
de cor rosa, uma cor que odiava e sua madrasta sabia disso. Os móveis eram
todos novos, de cor marfim, bem diferentes dos antigos feitos de mogno. Quadros
de flores substituiam as paisagens campestres que Devlin tanto gostava.
Ela olhou em volta
com uma expressão decepcionada. Aquele quarto agora nem parecia mais o que
passara sua infância e adolescência. Clarence conseguira desfigurá-lo
completamente, com seu gosto duvidoso.
Ela olhou para Vichy,
que a fitava atentamente.
-Mamãe disse que você
ia odiar a transformação. Mas vovó falou que você não mandava em nada aqui. E
que nunca voltaria.
Devlin respirou
fundo, tentando acalmar sua vontade de ir procurar a sua madrasta e xingá-la
dos piores nomes que conhecia. Sentou numa poltrona e olhou para Vichy.
-Ela estava
obviamente errada, Vichy. Estou aqui e pretendo ficar um bom tempo.
Os olhos de Vichy
luziram de alegria.
-Verdade? Oh, que
bom! Vamos dar muitos passeios juntas, não?
Devlin sorriu.
-Com certeza, Vichy.
Meu pai ainda cria cavalos ? Poderíamos passear neles.
-Sim, temos cinco.
Horace cuida muito bem deles.
Devlin franziu o
cenho.
-Quem é Horace?
-O novo tratador. Foi
vovó quem o contratou.
-E o que houve com
Alfred, o nosso tratador de muitos anos?
Vichy a fitou
gravemente.
-Ele morreu há três
anos, tia Devlin.
-Morreu?! – Perguntou
Devlin, tristemente surpresa – Como?
-Do coração. Ele já
estava doente há certo tempo.
Devlin lembrou com
pesar do velho Alfred, tão gentil e amoroso com os cavalos que cuidava, que
chamava “seus meninos”. Era mais uma parte de seu passado que se havia ido.
-Quem ainda trabalha
na casa, Vichy? Espero que não sejam todos estranhos para mim.
-Bem, dos antigos
empregados resta apenas Bessie, a cozinheira. Os outros foram todos contratados
por minha avó. Ela disse para minha mãe que empregados velhos eram um bando de
inúteis, que não tinham mais força para fazer o serviço bem feito. Só não
despediu Bessie porque vovô adorava a comida dela e não permitiu.
Devlin contraiu os
punhos, furiosa. Aquela megera havia despedido os empregados fiéis e eficientes
como se fossem lixo! Ah, mas isso ia acabar! Agora, as coisas iriam mudar!
-Quem é a nova
governanta então, Vichy?
Vichy sorriu,
fitando-a nos olhos.
-É Bertha. Ela era
empregada na casa de minha mãe, quando minha mãe era solteira. Eu adoro ela!
Devlin sorriu.
Conhecia Bertha, ela sempre a tratara muito bem quando ia se hospedar na casa
de Elise, nas férias do colégio. Era uma descendente de alemães, muito limpa,
correta e afetuosa.
-Oh, pelo menos
alguém que conheço e gosto... – comentou, pegando o interfone. Olhou para Vichy
– Qual o número que ela atende?
-O número 1.
Devlin digitou o número
e logo ouviu a voz gutural de Bertha:
-Serviços gerais, em
que posso serví-lo?
Devlin sorriu da
formalidade da mulher.
-Bertha, sou eu,
Devlin! Lembra-se de mim? Devlin Pearson!
-Oh, Deus! Devlin Pearson! Claro, minha filha, como
eu poderia esquecer de você, a bela e amável amiga de Elise? Como está, minha
filha? Sinto que tenha retornado por um acontecimento tão triste!
-A vida nos causa
essas surpresas, Bertha. Vichy disse-me que você agora é a governanta dessa
casa. Estou feliz que seja você, apesar de saber que minha madrasta despediu
quase todos antigos empregados.
-É verdade, somente
Bessie ficou. O que posso fazer por você, minha filha?
-Quero apenas que
mande um empregado trazer minha bagagem para meu quarto. Quero tomar um banho e
trocar de roupa.
-Irá logo em seguida,
senhorita Devlin! O seu motorista deixou as malas do senhor Wolf e as suas no
hall de entrada. As do sr. Wolf já estão em seu quarto, só estava esperando a
senhorita decidir onde ficaria.
Devlin sorriu com
amargor.
-Vou ficar no meu
antigo quarto, apesar de estar irreconhecível. Pode mandar as malas para cá.
-Perfeitamente,
senhorita.
Devlin desligou o interfone e olhou para
Vichy, que a fitava atenta.
-Agora preciso ficar só.
Depois conversaremos, ok? Vou tomar um banho quente e descansar umas duas
horas.
Vichy sorriu e
dirigiu-se para a porta.
-Está bem. Quer que
alguém venha acordá-la?
-Hummm, mande alguém
acordar-me meia hora antes do jantar. Preciso comer alguma coisa, minha única
refeição hoje foi copos de café e dois biscoitos.
Vichy assentiu e
saiu, fechando a porta atrás dela. Devlin respirou fundo e olhou em volta,
sentindo o peso da tragédia abater-se sobre ela novamente. Queria mostrar-se
forte, agir como se nada tivesse acontecido, mas no fundo de seu coração, o
vazio da morte de seu pai a estava fazendo sofrer. E mais uma vez, ela chorou,
sentindo a perda do único homem que havia desejado ter o afeto.
***********************
Elise apertou o
travesseiro contra o rosto, enquanto as lágrimas deslizavam incontidas. O
impacto emocional da presença de Devlin, depois de tantos anos, se abatia sobre
ela com uma força que não esperava sentir mais. O ressentimento que sentia pela
traição de Devlin não impedia a emoção de ter visto novamente de perto aquele
rosto inesquecível, ter ouvido aquela voz grave e sensual, ter contemplado
aqueles olhos magnéticos que sempre a conduziram louca.
A verdade inegável a
fez gemer baixinho: ainda amava Devlin desesperadamente, mesmo depois desses
anos todos. Mesmo depois de sua traição. Será que podia lutar contra esse
sentimento e ignorar sua presença na casa? Não sabia.
-Oh, Devlin, por que
voltou? – Sussurrou – Para fazer-me sofrer mais do que já sofro?
**************************
Devlin virou o corpo
na cama, mais uma vez. O seu desconforto não era porque a cama era
desconfortável, e sim os pensamentos que revolviam em sua mente, impedindo-a de
dormir um pouco.
Elise. Depois de
tanto tempo, estava em um mesmo lugar que ela, respirando o mesmo ar. Sentia a
presença dela em cada parte da casa, naquele mesmo quarto haviam trocado tantos
beijos apaixonados, tantas carícias cheias de desejo...
Suspirou, sentindo o
coração se contrair de tristeza. Isso agora era passado. Elise agora a odiava.
Ela havia demonstrado isso claramente, na recepção fria que lhe dera. Nunca
mais beijaria aqueles lábios, nunca mais sentiria a carícia daquelas mãos,
nunca mais ouviria a voz dela gritar seu nome no auge da paixão, nunca mais
teria o corpo dela em seus braços...
Pare! – Pensou, com
raiva dela própria – Não pense mais nisso, só conseguirá torturar-se! Esqueça o
passado!
Sua garganta começou
a doer, com um nó formando do choro que prendia. Como podia controlar o sentimento
que ameaçava vir novamente à tona, depois de tantos anos sufocado? Aquele amor
desesperado, aquela paixão poderosa pela única mulher que amara em sua vida?
Aquele amor que tentara afogar em tantos outros braços, sem sucesso.
-Oh, Deus! – Gemeu.
***********************************
O funeral de Gilmore
Pearson foi realizado dois dias depois, sendo transmitido na íntegra pela
estação de tv local para todo Estado de Louisiana, com flashes para o país.
Os telespectadores viram emocionados as
lágrimas de Victória, quando beijou o esquife do avô, o choro da viúva
Clarence, o olhar triste de Elise e a expressão da filha Devlin, quem de longe, se mostrava mais devastada com a morte do membro da família
Pearson. Nos poucos momentos que tirou seus óculos escuros para enxugar suas
lágrimas, na cerimônia fúnebre, todos
viram em seu olhar a profunda dor da perda.
Elise olhava a cunhada disfarçadamente,
por trás de seus óculos escuros. Seu sogro estava sendo enterrado, mas não
podia pensar em mais nada que o sofrimento de Devlin. Ela devia estar tão
desesperada! Sabia do profundo amor de Devlin pelo pai, um amor não
correspondido.
Muitas vezes ela havia chorado em seus
braços pela falta de afeto de seu pai, que parecia só amar o filho varão. E Elise
nutria pelo velho uma profunda aversão, por causar esse sentimento de rejeição
da mulher que ela amava.
Olhou mais uma vez. Devlin, mesmo em seu
sofrimento, estava linda. O tailleur
Armani negro, as meias e sapatos
da mesma cor, o rosto lavado sem nenhuma maquiagem, os cabelos presos em um
simples coque, tudo nela transpirava beleza, elegância e classe, mesmo numa
circunstância tão traumática.
Elise suspirou. Ah, Devlin! Como a havia
amado!
Devlin sentiu o olhar de Elise. Mas não
o devolveu. Ali não era o lugar nem o momento para isso. Havia evitado
encontrar-se com ela não saindo de seu quarto nem para comer, nesses dois dias.
Somente Vicky e Brian tinham acesso ao seu quarto, além dos empregados, que
traziam a comida.
Ela apenas se alimentava com leite, café e
torradas, sem ânimo para comer alimentos mais sólidos, apesar da insistência de
Brian para ela se alimentar direito. O resultado disso é que estava se sentindo
fraca e ansiava para a cerimônia acabar logo.
Subitamente, ela sentiu a vista
escurecer e um profundo mal-estar a
dominou. Ela cambaleou e tentou apoiar-se em alguma coisa, estendendo as mãos,
mas só encontrou o vazio. Ela deslizou para o chão da igreja, mergulhando na
escuridão.
Continua
na parte 3