Tarde Demais para Esquecer

 

   Leth  Cross

 

Parte  1

 

21 DE JANEIRO DE 2005, 14:00 hs.

 

 

        Devlin estava no meio de uma reunião com os seus diretores  quando recebeu a notícia da morte de seu pai.

 

        Ela interrompeu a reunião e se trancou em seu gabinete com seu secretário particular e amigo Brice, avisando  sua secretária que não estava para ninguém. E então olhou para o amigo, com sua fachada de executiva implacável desmoronando em um olhar perdido, com a cabeça entre as mãos.

 

        -Brice, eu não vou à New Orleans! Eu não posso! - Ela declarou,  com a  voz mostrando como estava transtornada, beirando ao pânico.

 

        Brice sentou diante dela, olhando-a com gravidade e admiração. Mesmo com aquela expressão perdida, Devlin parecia uma deusa caída do Olimpo, com sua imponente beleza. Com seus olhos de um azul de águas mediterrâneas, negros e sedosos cabelos caindo em volta de um rosto de malares proeminentes, queixo forte, nariz reto e lábios cheios e sensuais, Devlin era uma das mais belas mulheres que Brice havia visto, sem contar o corpo perfeito com um metro e oitenta de altura,vestido com elegância em um blazer e calça comprida   de lã cinza, blusa de seda cinza-pérola e botas reluzentes negras de salto alto.

 

Se Brice gostasse de mulher, ele seria apaixonado por Devlin. Mas como ele era gay, ele apenas tinha uma grande amizade por ela, além de uma profunda admiração. Eram amigos de infância e um conhecia tudo sobre o outro.

 

        -Devlin, você não pode evitar isso - ele contestou - A mídia está toda lá, esperando sua chegada. Sua família é conhecida nacionalmente, por Deus! Seu pai era um   senador e estava concorrendo a um segundo mandato ! O que irão falar se você não ir?

 

        Ela se ergueu precipitadamente, agitada, fitando-o impaciente.

 

        -Ele  era uma pessoa  de vida pública, mas eu não sou! Eu vivo de meu trabalho, não devo nada a ninguém! Não tenho que agradar à mídia, como ele !

 

        Brice a segurou pelos ombros, fazendo-a encará-lo.

 

        -Devlin, sabe que não é assim. Queira ou não, você é um membro da família Pearson, além de ser uma conhecida   empresária. Você é conhecida pela mídia e também tem uma imagem a preservar.

 

      Devlin se desvencilhou dele, encarando-o revoltada.

 

        -Uma imagem a preservar! Você está falando como meu pai! Por causa dessa imagem, eu joguei minha felicidade no lixo! Você sabe disso, Brice! Como pode repetir uma frase que ele disse para mim, que destruiu minha felicidade?

 

        -Devlin, vamos ser honestos. Ele falou essa frase para você, mas a decisão foi sua. Você podia ter lutado contra o que ele desejava você fazer. Mas você não se revoltou. Você fez exatamente o que ele mandou. E eu a estou repetindo com um objetivo bem diferente de seu pai: para o seu bem.

 

        Devlin olhou para Brice em silêncio. Ele era a única pessoa que podia falar com ela assim, discordando de suas idéias, mostrando seus erros. Ela sabia que ele estava certo. Realmente, ela não havia desobedecido o desejo de seu pai. Sempre havia sido assim. Ele a dominava. Desde sua infância, Devlin desejava desesperadamente que seu pai a amasse. Fazia tudo para ter a aprovação dele, um sorriso, um gesto de carinho. Mas ele nunca estava satisfeito com ela. Sua mãe havia falecido dois dias após o nascimento dela. E quando Devlin tinha três anos, seu pai havia se casado novamente com uma inglesa, Clarence Wellington. Um ano depois, Devlin tinha um meio irmão, Hugh. E ela logo percebeu o favoritismo de seu pai pelo filho varão. Durante os anos, esse favoritismo era cada vez mais evidente. Seu pai apresentava o filho com orgulho aos amigos, falando de suas qualidades. Devlin queria ser amada como Hugh era. Estudava com afinco, tirava excelentes notas, sabia falar dois idiomas além de inglês, vestia-se com elegância... daria tudo para receber o olhar de orgulho que Hugh recebia de seu pai. E esse desejo a fazia aceitar qualquer ordem de seu pai sem discutir.

 

        Idiota! Esse desejo a havia levado a arruinar sua felicidade! Havia renunciado ao único amor de sua vida para obedecer ao seu pai. Oh, se arrependia disso! Mas naquela época não passava de uma adolescente estúpida e carente.

 

        -O que está pensando, Devlin? Por que não responde à minha pergunta?

 

        Devlin acordou de sua abstração e fitou o amigo com ar desolado.

 

        -Eu sei o que quer dizer... tem razão, tenho que ir... oh, Brice... como vou conseguir ver Elise e controlar-me? E a mulher de meu pai... odeio aquela mulher! Se ela provocar minha paciência, não vou responder por minhas ações! - Disse ela, jogando-se na cadeira de couro atrás da mesa de mogno e entrelaçando os dedos das mãos sob o queixo, com o cenho franzido.

 

        Brice sentou na poltrona diante da mesa, sorrindo tristemente para ela.

 

        -Você vai ter que enfrentar os seus demônios, Devlin.Você acha que ainda ama Elise? Depois de mais de dez anos sem vê-la?

 

        Ela o encarou com olhar sombrio.

 

        -Não sei... só saberei quando vê-la. E isso me amedronta, Brice. E se eu sentir tudo de novo? O que vou fazer? Ela me odeia!

 

        -Por que acha que ela a odeia? Ela já demonstrou isso de alguma forma?

 

        -Não. Como ela poderia? Desde que eu saí de New Orleans, nunca mais a vi! Mas sei que ela me odeia. Brice, avalie o que aconteceu. Eu faltei à   promessa  que fiz à ela. Fui uma covarde. Como ela não deveria odiar-me?

 

        Brice respirou fundo, fitando-a nos olhos.

 

        -Você ainda a ama, Devlin. Não negue. Seu casamento não durou mais de um ano, e desde seu divórcio você  nunca se ligou a alguém por mais de uma  semana . Você não leva ninguém à sério, sua fama de conquistadora no meio gay é conhecida. Isso acontece porque você ainda ama Elise. E agora, quem sabe se vocês finalmente terão uma chance para serem felizes? O maior obstáculo ao amor de vocês acabou.

 

        Ela o fitou com reprovação.

 

        -Brice,   meu pai está morto! Recuso-me a pensar que a morte dele vai servir para eu ter alguma vantagem! Por Deus, homem, ele nem sequer foi ainda enterrado! E além do mais, li em uma revista que ela está   noiva de um empresário.

 

        Brice sustentou seu olhar com tranquilidade.

 

        -Sei que você amava seu pai, mas seja realista, por Deus, Devlin! Reconheça que seu pai nunca se importou com sua felicidade, ele sempre a manipulou, sabendo que você faria tudo que ele quisesse para ter a aprovação e o amor dele, como Hugh! Ele obrigou você a fazer coisas que destruíram sua felicidade, como abandonar Elise e casar com Mark! Diga-me, você é feliz por ter feito isso com sua vida? Claro que não!

 

        Devlin se ergueu da cadeira e deu as costas ao amigo, fitando a paisagem nevoenta pela vidraça da janela, sentindo a verdade dessas palavras martelar dolorosamente em seu peito. Depois de certo tempo, ela respondeu com voz trêmula, sem se voltar:

 

        -Sei que você está dizendo verdades que eu custei a perceber, Brice. Mas eu percebi essas verdades tarde demais. Agora, é muito tarde para tentar consertar meus erros. É tarde para pedir perdão, tarde demais para esquecer a única mulher que amei. Tenho que viver com isso.

 

        -Acho que mais uma vez você está errada, Devlin. Pelo menos uma vez na vida, lute pela sua felicidade! Chegou a sua chance! Elise está viúva, praticamente livre! Se ela ainda a ama, ela largará esse industrial por você.

 

        Devlin se voltou e encarou o amigo, com uma tênue esperança no olhar. Será que ela ainda podia ter a chance de ser feliz com a mulher que não havia esquecido?

 

        -Brice, frete um jatinho para New Orleans. Vou para casa fazer minha mala.

 

        Brice evitou sorrir com sua vitória, conservando o rosto impenetrável.

 

        -Para quando quer o vôo?

 

        -Dentro de duas horas. Eu apanharei você em seu apartamento com minha limousine.Esteja pronto esperando. Chamarei da portaria.

 

        -Ok.

 

        Devlin então se retirou, com seu andar sensual de manequim.

 

*******************************

 

        Elise Belmont Pearson olhou-se no espelho criticamente, abservando cada detalhe de seu vestido negro. Ela sabia que essa cor ficava bem nela, afinal era uma loura, só que hoje seria uma cor de luto e isso a fazia ficar   deprimida.

 

        Nunca gostara do seu sogro, sabia que ele era manipulador e insensível, só dava valor à sua carreira política e ao seu falecido filho, que seria seu herdeiro político. Nunca se importara com a felicidade da filha, manipulando-a, fazendo-a ser uma fantoche em suas mãos. Mas apesar disso, ele era o avô de sua filha.

 

        Ela havia recebido a notícia da morte do sogro com incredulidade. É sempre difícil acreditar que uma pessoa ainda forte e saudável de repente não está mais viva. O sogro havia se despedido dela um dia antes, indo iniciar um tour por diversas cidades do estado de Louisiana. E hoje pela manhã, havia sido acordada com a notícia que o bimotor que  o levava para a cidade de Baton Rouge havia caído, matando ele e o piloto.

 

        Quando Hugh havia falecido dois anos atrás por uma overdose, ela não havia se surpreendido. Afinal, sabia que ele era um viciado em cocaína desde quando se casaram. Havia se casado com ele apenas por pressão de seus pais e mágoa de Devlin. Uma união que nunca deu certo, com ela cumprindo seu dever de esposa com extrema frieza. Hugh, depois de seis meses de casamento, desistiu de ter sexo com ela e começou a ter várias amantes. Elise sabia de cada uma delas, porque o marido não era nada discreto. Muitas vezes ela o surpreendeu beijando uma mulher nas festas que iam . E quantas vezes ela ouviu ele falando frases vulgares de paixão para suas conquistas no telefone. Quantas vezes ouviu ele dizer que não se divorciava dela porque isso prejudicaria   sua imagem.

 

        Hugh não se divorciara dela por causa de motivos políticos. Já era um deputado e pretendia concorrer ao cargo de governador. Elise não se divorciara porque sua filha era muito pequena e não queria que ela fosse filha de pais divorciados como ela, e também porque tinha a secreta esperança de um dia Devlin voltar para casa. E quando esse dia chegasse, ela iria estar lá, olhando-a  com todo o desprezo do mundo. Ela sentia uma grande mágoa por Devlin, um sentimento forte de rejeição que ela classificava erroneamente como ódio. Devlin a havia ferido profundamente e essa ferida permanecia aberta abaixo da couraça protetora que envolvera seu coração contra novos sentimentos que a tornassem vulnerável.

 

        Ela respirou fundo, pensativamente. Agora, depois de longos anos, iria ver Devlin novamente! Devlin iria chegar dentro de duas horas, de acordo com a informação de Brice ao telefone. Iriam se rever depois de dez anos.  Como deveria agir? O que dizer? Elise franziu o cenho nervosamente.

 

        A entrada de sua filha Vicky a tirou de seus perturbadores pensamentos. Fitou-a com amor e orgulho. Vicky era uma miniatura sua, aos oito anos. Os mesmos cabelos louros, os mesmos olhos verdes. Ela correu para a mãe, abraçando-se à ela apertadamente. Elise abraçou a filha pelos ombros, beijando-a nos cabelos.Sabia que Vichy estava sofrendo muito com a morte do avô. E não podia fazer nada para aliviar isso.

 

        Vichy desatou a chorar. Elise a susteve nos braços, acariciando os cabelos louros dela e falando frases de consolo.

 

        Depois de muito tempo, Vichy parou de chorar. Ela enxugou os olhos e assoou o nariz nos lenços de papel que Elise estendeu e ergueu a cabeça, fitando o rosto preocupado da mãe.

 

        -  Tia  Devlin vem para o enterro de   vovô?

 

        -Sim. O amigo dela já ligou, informando que eles chegarão dentro de uma hora - Respondeu Elise, olhando para a filha atentamente.

 

        Os olhos de Vichy brilharam por um momento.

 

        -Vou conhecer minha tia pessoalmente, finalmente ! Eu a vi  na revista. Ela é tão bonita!

 

        Elise olhou para Vichy com reprovação.

 

        -Eu já disse a você várias vezes para esquecer sua tia. Ela não gosta de você. Os únicos tios que gostam de você são meus  dois irmãos.

 

        Vichy a fitou sem parecer convencida. Ela era teimosa em suas convicções e Elise via nisso um traço dela mesma. Como podia censurá-la?

 

        - Ela nunca disse que não gosta de mim!

 

        -É verdade, mas ela precisa dizer? Ela nunca quis conhecer você, nunca veio para seu aniversário, ou  mandou um simples telegrama, ou  deu um telefonema!

 

        -Eu sei que vovó não gosta dela. É por isso que ela não vem aqui. E vovô também não gostava dela.

 

        -Victoria Anne Pearson! - Exclamou Elise, admirada - Por que está falando isso?

 

        - Eu ouvi vovó falando dela com vovô. Ela disse que minha tia era má ! Que não queria ela aqui. Que ela era uma mulher que devia ser chicoteada até ter vergonha!  E vovô riu, achando graça!  Mamãe, eu perguntei à vovó porque minha tia devia ser chicoteada e ela disse que era porque minha tia era muito má, pior que uma assassina! É verdade?

 

        Elise sentiu seu rosto queimando de raiva. Por mais que estivesse magoada com Devlin, o que a antipática sogra havia dito sobre a  filha do seu marido era demais! Fitou Vicky com os olhos brilhando, contendo sua raiva.

 

        -Não, Vicky. Ela estava errada. Devlin não é tão ruim assim. Ela apenas não liga para as pessoas.

 

        -Eu quero falar com ela, mamãe! Ela é minha tia! Não acredito que ela é má!

 

        -Bem, lavo minhas mãos! Se ela tratar você mal, não se queixe depois.

 

        Vichy a fitou com uma certeza no olhar.

 

        -Ela não vai me tratar mal.

 

        Bateram na porta. Elise deu graças a Deus por essa interrupção. Ela estava nervosa tendo Devlin como assunto entre ela e sua filha. Foi atender, abrindo a porta. Sua governanta a fitou com preocupação.

 

        -A senhora Wellington pediu para você descer, Elise. Disse que a imprensa deseja algumas palavras.

 

        Elise fitou sua governanta com um sorriso sarcástico. Bertha havia pegado ela no colo, havia acompanhado sua vida, vibrando com suas alegrias e sofrendo com suas tristezas. Elise não escondia nada da fiel empregada e amiga. E uma coisa que tinham em comum era a antipatia por Clarence Wellington, a esnobe inglesa mãe de Hugh.

 

        -Ela pediu ou ordenou? Clarence Wellington nunca pede, ela ordena!

 

        Bertha sorriu com cumplicidade.

 

        -Bem, ela ordenou, mas eu não queria aborrecer você com esse detalhe.

 

        Elise suspirou, pegando a filha pela mão.

 

        -Vamos, Vichy. Ou sua avó pode novamente fingir estar passando mal com outra subida da pressão sanguínea.

 

        Vichy a acompanhou de cabeça baixa.

 

*************************

 

         Duas horas depois, olhando pela janela do avião, Devlin tinha uma expressão ausente no rosto. As recordações  que enchiam sua mente eram de um passado distante, mas ainda estavam vívidas em sua mente como se fossem de ontem e também ainda machucavam seu coração pela perda da sua felicidade.

 

        O dia que havia renunciado ao amor da mulher que amava loucamente.

 

        O dia que havia aceitado casar com Mark Montford.

 

        O dia que havia saído de New Orleans.

       

        Como seu pai a havia manipulado, fazendo-a seguir seus desejos, na esperança de ser amada!

       

        Ela queria seguir sua vocação e estudar arquitetura, mas sabia que seu pai não aprovava sua escolha. E como sempre, ele vencera sem muitos argumentos, fazendo-a se matricular na Universidade de Tulane para ser uma médica.  Devlin não lutara contra o domínio dele porque queria desesperadamente que ele a amasse, que se orgulhasse dela.

 

Sabia o que a levava a querer desesperadamente a aceitação de seu pai. O seu complexo de culpa pela morte de sua mãe. Ela  havia falecido horas depois de seu nascimento e isso parecia ter provocado em seu pai uma rejeição por ela que não diminuía com o passar dos anos. Ele pagava para ela as melhores roupas, os melhores colégios, promovia em seus aniversários grandes festas, dando à ela caros presentes, mas o que mais Devlin queria, ele negava: um sorriso de aprovação, um gesto de carinho, uma palavra afetuosa.

 

 A culpa que sentia pela morte de sua mãe, com o comportamento frio de seu pai, aumentava. E tentando compensar ele de sua perda, ela fazia tudo para agradá-lo, mesmo que não fosse o que ela desejasse. Mas por mais que se esforçasse, ele apenas a olhava com fria indiferença.

 

        As lembranças vieram em sua mente com a força de um vagalhão, submergindo-a no passado. Um passado que a havia marcado para sempre, que nunca esqueceria.

 

 

 

*************************

 

1995

 

Universidade de Tulane, Louisiana

 

 

        Elise Belmont avançou pelo campus da universidade, olhando excitada em torno, procurando algum rosto familiar. Sabia que muitas amigas suas da escola secundária estavam também começando esse ano na universidade e queria contatá-las. Tendo uma turma de pessoas conhecidas ia fazer sua adaptação à vida universitária ser mais fácil. Havia chegado há duas horas na universidade e já havia se instalado no pequeno apartamento que iria dividir com outra aluna. Agora, estava conhecendo as dependências do lugar que iria viver nos próximos cinco anos.

 

        Seus olhos caíram sobre uma imponente limousine negra que havia acabado de parar na entrada do prédio principal da universidade. O motorista uniformizado saltou e abriu a porta traseira. Uma moça alta desceu da limousine graciosamente  com um homem de cabelos grisalhos e olhou em volta com ar entediado.

 

        Elise parou, olhando-a cheia de curiosidade. A moça era incrivelmente charmosa. O corpo longilíneo e esguio estava vestido com elegância despojada: blusa de seda cinza-pérola, blazer e calça comprida em tom mais escuro, botas de salto alto, negras e luzidias. Os cabelos negros e lisos caíam pelos ombros como seda, emoldurando um rosto de traços fortes, como os altos malares, o nariz aquilino, a boca sensual e o queixo anguloso. Ela estava usando óculos escuros e não dava para ver seus olhos, mas o que se via já dava para ver que era muito linda.

 

        O homem grisalho a pegou pelo braço e disse com tom autoritário:

 

        -Vamos, Devlin. O reitor nos espera. Ele é um homem ocupado como eu, não pode esperar muito. Depois você pega sua bagagem.

 

        Ela assentiu e afastou-se com o homem em direção ao prédio da administração.

 

        Elise observou a moça afastando-se com a cabeça baixa. Engraçado, não a conhecia, mas algo dentro dela a fez sentir como se conhecesse a moça há muito tempo. E algo a fez perceber que Devlin era uma moça triste, o que a fez ter vontade de procurá-la e dizer que ela não estava só. Que podia ter uma amiga. 

 

        Uma hora depois, Elise já havia encontrado duas amigas da escola secundária. Trocaram impressões do lugar e das pessoas.

 

        -Já foram ver a piscina olímpica? - Perguntou Wendy, uma mocinha gordinha de cabelos curtos  e ruivos - É enorme e cheia de garotos lindos! Cada corpo!

 

        Carol olhou para a amiga com olhar crítico. Ela era morena, com um rosto de certa beleza, alta e magra, e seu sonho era ser modelo.

 

        -Você devia seguir o exemplo deles e fazer algum exercício! Você está muito gorda, Wendy! Assim, não vai conseguir nenhum desses garotos atléticos que admira tanto!

 

        -Já conhecem as suas colegas de quarto? - Perguntou Elise, mudando o foco da conversa, com pena do ar infeliz de Wendy.

 

        -Eu já. É uma loura metida a ser sexy, precisam ver suas roupas colantes! - Disse  Carol, com desgosto.

 

        -A minha colega é uma moça dentuça, com óculos com grau tão forte que seus olhos ficam distorcidos pelas lentes - Comentou Wendy, rindo - Mas parece ser legal. Ela disse que seu forte é Física. Ótimo, já tenho a quem pedir ajuda.

 

        As duas olharam para Elise, que sorriu dizendo:

 

        -Eu ainda não conheci minha colega. Ela ainda não chegou. Mas prometo dizer à vocês sobre ela quando a garota chegar.

 

        Escurecia quando Elise despediu das garotas e foi de volta para seu quarto. Ia tomar um banho e comer um sanduíche que havia comprado na lanchonete da faculdade. Estava cansada e pretendia dormir cedo. No dia seguinte começariam as aulas, pela manhã.

 

        Ela girou a chave na fechadura e empurrou a porta. E viu que agora havia outra pessoa no quarto. A luz estava acesa, um som portátil tocava uma música erudita e sobre a cama ao lado da sua havia uma mala aberta, com roupas.

 

        Elise entrou e fechou a porta. Ouviu o som da ducha no banheiro. Sua colega de quarto estava tomando um banho. Elise se sentou em sua cama, prestando atenção à música. Concerto para Piano e Orquestra  Número 1,  de Tchaikovsky. Humm, quem seria a garota que gostava de música erudita? Ficou ouvindo, recostada no travesseiro, com as mãos cruzadas sob a nuca.

 

        Elise ouviu a ducha ser desligada e momentos depois a porta do baneiro abriu e uma moça completamente nua saiu, esfregando seus cabelos vigorosamente com uma toalha. Elise reconheceu a moça que havia chegado na limousine.

 

        Ela não a viu no canto escuro do quarto, dirigindo-se para o som portátil na pequena estante e colocando outro CD. Elise ficou olhando-a boquiaberta, sem reação. Já havia visto amigas sem roupa, no vestiário do ginásio e banheiro coletivo, quando praticava natação. Mas aquele corpo era diferente de todos que  já vira. Era perfeito!

 

        O corpo da moça possuía uma musculatura delineada sob a pele dourada e macia, mostrando força e vitalidade. Os seios eram de tamanho médio, eretos, com auréolas pequenas e rosadas. Os músculos que cobriam o estômago eram delicadamente delineados até o ventre chato, do traseiro redondo e empinado partiam as coxas e pernas fortes e longas.

 

        A moça voltou-se e viu Elise.

 

        Ela possuía o par de olhos mais lindos que Elise já havia visto em alguém. Eram azuis, de um azul de cristal, magnéticos e sedutores. Mas aqueles olhos não pareciam satisfeitos em vê-la.. A moça colocou a toalha na frente do corpo e ergueu as sombracelhas, fitando-a com ar crítico.

 

        -Devia ter anunciado sua chegada.

 

        A voz era rouca, soando quente e sexy.

 

        Se Elise fosse uma garota tímida, teria se intimidado com aquele olhar. Mas ela não era, então apenas levantou e cruzou os braços, olhando para a moça com um ligeiro sorriso.

 

        -Por que deveria? Quer culpar-me por ter vindo para o quarto nua, mesmo sabendo que era um quarto dividido com outra moça?

 

        A morena enrubesceu e a fitou desajeitada, mordiscando o lábio inferior.

 

        -Eu... pensei... que a minha colega de quarto não iria chegar logo... eu vi suas coisas no banheiro, mas pensei que iria demorar...

 

        -Pensou errado. Sou Elise Belmont, sua colega de quarto. Muito prazer - Disse Elise, estendendo a mão, sorrindo.

 

        -Oh...  e eu sou Devlin Pearson... o prazer é meu, Elise - Disse ela, apertando a mão de Elise.

 

        Elise sentiu a maciez e calor da mão de Devlin cobrir a sua. Sentiu um arrepio subir pela sua mão e um deslumbramento em fitar aqueles magníficos olhos de perto. Confusa com o que sentia, desprendeu a mão.

 

        Devlin sorriu e foi até sua mala, enrolando a toalha em volta do corpo. Escolheu algumas roupas e voltou-se para Elise.

 

        -Vai tomar banho agora? Se vai, eu me vestirei aqui no quarto.

 

        -Sim, espere um pouco, vou pegar algo para vestir.

 

        Elise foi até o pequeno armário onde havia colocado parte de suas roupas e pegou uma calcinha, um  pijama de flanela e uma toalha de banho. Sorriu para Devlin e foi para o banheiro.

 

        Estava secretamente alegre por ter Devlin como sua companheira de quarto. Ela não parecia ser muito sociável, mas  pelo menos não parecia ser chata e de mau gosto, o que já era uma vantagem. E ela era tão linda... melhor dizendo, magnífica, fascinante.

 

        Elise sorriu de si mesma ao último pensamento. Que entusiasmo era esse, pela beleza de Devlin? Nunca se entusiasmara pela beleza de uma mulher! Elise, controle-se! Está sendo ridícula! - Pensou, abrindo as torneiras.

 

        Após a ducha quente, vestiu-se e voltou ao quarto. Devlin havia desligado o som. Agora estava deitada na cama sob as cobertas, lendo um livro. Elise leu o título na capa. Guerra e Paz, de Leon Tostoi. Oh, a garota era culta!

        Elise sentou em sua cama, sacando o sanduíche da sacola de papel e oferecendo:

 

        -Aceita um pedaço?

 

        Devlin a fitou, baixando o livro.

 

        -Não, obrigada. Já jantei quando cheguei.

 

Elise pegou o copo descartável com o milkshake de morango e tomou um gole.

 

-Jantou na lanchonete da faculdade?! O aviso disse que só abririam amanhã! A maioria dos alunos só chegará amanhã.

 

        -Não, eu e meu pai jantamos com o reitor.

 

        Elise a fitou impressionada. Devlin parecia inconfortável com a revelação, ao invés de orgulhosa.

 

        -Uau! Que prestígio! - Disse Elise, rindo - quem é seu pai, o governador de Louisiana?

 

        Devlin enrubesceu, baixando os olhos para o livro.

 

        -Não, ele é senador. Não é uma questão de prestígio, mas de interesse.Meu pai vai votar à favor de um aumento de verbas para as universidades estaduais.

 

        -Quem é seu pai?

 

        Ela respondeu sem fitá-la, com voz quase inaudível:

 

        -Gilmore Pearson.

 

        -Oh! Um republicano! Eu prefiro os democratas. Mas confesso que não sou muito engajada em política.Prefiro dedicar minha atenção a outras coisas.

 

        -O que faz muito bem - Disse Devlin, com certo amargor.

 

        Elise percebeu o desgosto na voz de Devlin. Sentiu-se triste em imaginar que Devlin não era feliz. Oh, gostaria que ela fosse tão feliz! Desviou o assunto para outro mais ameno:

 

        -Já vi o filme desse livro que você está lendo. Foi um épico sobre a Russia, quando Napoleão a invadiu. Adorei as cenas mostrando a nobreza russa, e a personagem que Audrey Hepburn fez.

 

        Devlin a fitou surpresa, com novo interesse no olhar.

 

        -Você gosta de filmes épicos? Oh, eu adoro! Tenho todos que gosto em minha casa! Ben Hur, Spartacus, Quo Vadis, Cleópatra... sei que são filmes antigos e as garotas de nossa idade estão mais interessadas em ver filmes com Brad Pitt e Leonardo Di Caprio, mas eu sou fã de filmes épicos e comprei todos eles.

 

        -Oh, eu também amo esses filmes! - Disse Elise, entusiasmada – Charlton Heston fez seu personagem em Bem Hur tão bem que que ganhou o Oscar!Eu vejo na tv à cabo vários filmes antigos e biografias desses atores.

 

        O gelo havia sido quebrado. Conversaram sobre cinema até altas horas da noite. Quando foram dormir, já haviam começado uma amizade  que alegrava a ambas. Era tão raro garotas na sua idade gostarem de filmes antigos, ainda mais épicos, pensou Devlin, sorrindo no escuro . Afinal, talvez não fosse ser tão ruim estudar Direito naquela faculdade.

 

***********************************

 

        Elas se tornaram amigas inseparáveis. Estudavam, se divertiam e praticavam  esportes juntas.  Nada incomum para duas colegas de quarto, mas nesse caso, era muito mais que a convivência  no mesmo quarto facilitava. Elas se completavam como o dia e a noite, o Yan e o Yn. Duas faces de uma mesma moeda.

 

        Elise era extrovertida e acessível, Devlin introvertida e fechada à amizades. Elise era brincalhona e divertida, Devlin era séria, com um temperamento propenso a ser sarcástico ou melancólico. Mas essa diferença parecia ser o equilíbrio entre uma e outra. A proximidade de Elise suavisava o temperamento de Devlin, que também tornava Elise mais realista em sua visão ingênua das pessoas, confiando em qualquer uma que dizia ser sua amiga.

 

        Devlin não gostava nada de suas amigas Wendy e Carol e demonstrava isso claramente. Dizia que elas eram falsas, burras e aproveitadoras. Elise começou a prestar atenção ao comportamento delas e acabou dando  razão à Devlin, se afastando das antigas amigas aos poucos, pretextando desculpas para não sair com elas. Wendy e Carol sabiam a quem culpar esse distanciamento. Passaram a odiar Devlin, colocando um apelido nela que pegou como fogo em palha: ” Miss Antipatia Lavada em Melancolia.” As garotas que invejavam a beleza de Devlin,   sua mente brilhante e talento para esportes se apegaram à esse apelido como uma arma a ser usada para desmerecer sua personalidade.

 

        Mas a amizade delas prosseguiu, inabalável. E no feriado do Dia de Ação de Graças, elas se separaram pela primeira vez desde que se conheceram. Devlin foi passar o dia tradicional com sua família, e Elise com a sua.

 

        E foi então que Devlin percebeu o quanto Elise era importante para ela. Sentia a falta dela com uma intensidade que a atordoava, a comemoração do feriado foi uma tortura, só contava as horas para voltar para a universidade para rever Elise. E para tornar as coisas piores para ela, seu meio irmão havia trazido um amigo para passar o feriado com eles, Alfred Montford, que ficou atrás de Devlin tentando conquistá-la. Ele era alto e magro, dono de um rosto agradável, mais velho que Devlin dez anos. Mas Devlin não estava interessada nele, nem em qualquer outra pessoa que não fosse Elise.

 

        Quando finalmente chegou a hora de  voltar para  a universidade, na despedida seu pai falou com um tom autoritário, fitando-a nos olhos:

 

        -Quero que trate Alfred Montford com mais atenção da próxima vez que ele vier à nossa casa. Ele pertence a uma das mais prestigiadas famílias texanas, dona de um dos maiores frigoríficos do país.  E ele ficou encantado com você.

 

        Devlin sentiu-se acuada. Nunca ousaria desafiar as vontades e ordens de seu pai e baixou a cabeça, assentindo derrotada.

 

        Mas seu humor mudou quando viu Elise. Seu coração batia descompassado quando entrou no quarto que dividiam e a viu sentada na cama, com uma blusa de malha larga, pronta para deitar-se.

 

        Já havia visto Elise várias vezes com esse traje. Ela gostava de dormir com uma velha e larga blusa de malha e calcinha, apenas. Mas dessa vez Devlin observou atentamente os seios eretos soltos sob a blusa, com os biquinhos sobressaindo sob o tecido, os quadris arredondados, as coxas e pernas fortes e bem torneadas, de uma tonalidade de pêssego maduro. Teve vontade de abraçar aquele corpo, passar as mãos naqueles seios e coxas..

 

        Elise a viu entrar e sorriu luminosamente, fitando-a.

 

        -Devlin! Finalmente chegou! – Exclamou, com alegria.

 

        Confusa e assustada com o que sentia, Devlin sorriu hesitantemente, desviando o olhar para sua cama. Avançou e se sentou na cama, jogando sua mochila de roupas no chão.

 

        -Uffff, finalmente! Foi um feriado muito chato! _ comentou, fazendo uma careta.

 

        Elise a fitou com curiosidade.

 

        -Não gostou? Por que?

 

        Devlin a fitou hesitante. Devia falar a verdade, que havia sentido a falta dela de uma maneira torturante? Não... Elise iria achar que ela estava louca. Optou por uma meia-verdade:

 

        -Meu meio irmão levou um amigo para passar o feriado em nossa casa. O homem ficou o tempo todo atrás de mim, me cortejando para namorar com ele. Isso foi tão chato, estava louca para vir embora. O pior é que meu pai quer que eu o trate melhor da próxima vez que ele for lá em casa.

 

        Elise sorriu, fitando-a atenta.

 

        -Ele é feio?

 

        Devlin a fitou ficando rubra de embaraço.

 

        -Eu...não sei...

 

        -Não sabe?! – Perguntou Elise, divertida.

 

        -Eu... não o observei muito... – Disse, baixando a vista.

 

        -Não pode descrevê-lo? Como ele é? Baixo, alto, magro, gordo?

 

        Devlin a fitou de cenho franzido.

 

        -Bem... ele é alto, magro, de cabelos negros e olhos azuis.Deve ter uns vinte e oito anos, é bem velho!

 

        Elise riu, achando graça.

 

        -Com vinte e oito anos ele não é velho. Pela descrição que fez, ele deve ser um homem bonito.

 

        Devlin a fitou com os olhos brilhando de raiva.

 

        -Para mim, ele é um velho, um chato, não gosto dele! – Declarou, com voz alterada pela raiva de Elise pensar que Mark Montford era bonito.

 

        Elise a fitou surpresa com aquele desabafo mau humorado de Devlin.

 

        -Tudo bem, Devlin, não vamos mais falar nisso!

 

        Devlin a fitou arrependida de sua alteração.

 

        -Desculpe-me... você não tem culpa de minha estadia em casa ter sido desagradável. E você, como passou o feriado?

 

        -Oh, nada excepcional. Como sabe, meus pais são divorciados e passei o feriado com minha mãe e meus dois irmãos. Minha mãe anunciou que vai se casar com o melhor amigo de meu pai. Meus irmãos quase tiveram um ataque do coração, foi um clima muito tenso. Eles acham que minha mãe já estava traindo nosso pai antes do divórcio - Relatou Elise, sem emoção na voz.

 

        -Oh... sinto muito, Elise...

 

        Elise a fitou calmamente.

 

        -Sente por quê? Por minha mãe ter sido esperta? Meu pai nunca deu muita atenção à ela. Sempre viajando à negócios, deixando ela sozinha com os filhos. Acho que ela fez uma escolha certa. Quando eu me apaixonar, vou querer atenção constante da pessoa que eu amar. Não estou certa?

 

        Devlin assentiu, sem palavras. Quando ela se apaixonar... então, ela não estava apaixonada por alguém. Ela não sentia o mesmo que estava sentindo. Mas prometeu a si mesma que ia fazer de tudo para Elise se apaixonar por ela.

 

 

 


        Quando as férias da faculdade chegaram, Devlin estava feliz por ter passado de período com altas notas, mas infeliz em pensar que iria ficar afastada de Elise por mais de um mês. Moravam na mesma cidade, poderiam visitar uma a outra, mas isso para Devlin era pouco. Ela estava acostumada a conviver com Elise quase vinte e quatro horas por dia. A única hora que se separavam era quando iam para suas salas de aula, porque faziam cursos diferentes. Então, essa separação estava deixando Devlin infeliz.

 

        Na última noite antes de irem para suas casas, elas conversavam no quarto, bebendo chocolate quente que haviam preparado no microondas e ouvindo música baixinho, sentadas no felpudo tapete que forrava o meio do quarto. Lá fora a neve cobria o campus da faculdade, com as luzes refletindo na sua brancura, dando um aspecto mágico à paisagem.

 

        Elise estava encantadora com um gorro de lã azul escuro e uma blusa de lã da mesma cor, sobre uma calça de malha grossa cinza. Ela estava de pernas cruzadas, abraçada com um ursinho de pelúcia que Devlin havia dado à ela como presente de aniversário. Devlin estava recostada na poltrona, os cabelos negros caindo pelos ombros largos cobertos por um pulôver listrado de branco e preto e calça de malha negra. Os pés estavam calçados por meias grossas de lã.

 

        -Ouça essa música, Devlin... – Disse Elise, suavemente – É tão linda, não acha?

 

        Devlin sorriu, ouvindo a voz suave do cantor.

 

        -Loves in the air...   sim, essa música é linda.

 

        Ficaram ouvindo em silêncio. Devlin se sentiu mais apaixonada que nunca. Não podia negar mais a paixão e o amor que sentia por Elise. Mas tinha medo de abrir-se para ela. E se Elise a repudiasse, com nojo? Nunca haviam falado sobre sexo e paixão. Era um assunto tabu entre elas.

 

        Elise rompeu o silêncio quando a música estava terminando:

 

        -Ahhhh... eu queria ser amada como uma personagem de filme romântico... mas acho que na vida real não existe amor como  os dos filmes... – Ela declarou, em meio a um suspiro.

 

        Devlin a fitou apaixonadamente.

 

        -Por que acha isso? Já ouviu falar que a ficção copia a realidade e vice-versa? Tudo pode acontecer, Elise. É só acreditar e desejar muito, que o seu desejo acaba acontecendo. Às vezes o amor está tão próximo de nós e não o vemos!

 

        Elise riu, fitando-a com franca curiosidade.

 

        -Não sabia que você era romântica, Devlin! Honestamente, nunca esperei ouvir você dizer algo assim!

 

        Devlin a encarou com uma sobrancelha erguida.

 

        -Por que se admira? Eu não sou muito diferente das garotas de minha idade... também tenho sonhos e desejos!

 

        -É que sempre a achei tão racional! Tão... séria! Não consigo imaginar você beijando um rapaz!

 

        -Oh!... Acho que vou sentir-me insultada! – Disse Devlin, forçando um sorriso – Você está querendo dizer que sou uma mulher fria, sem sentimentos?

 

        Elise baixou os olhos, enrubescendo.

 

        -Não! Não é isso! É que... oh, não sei explicar!

 

        -Tente... temos bastante tempo – Encorajou Devlin, sorrindo.

 

        Elise ergueu os olhos encarando Devlin com um sorriso tímido.

 

        -É que você nunca falou sobre seus namorados... somos amigas, mas não falamos sobre isso...

 

Devlin a fitou com receio. Agora estava séria. Devia abrir seu coração? E se ela a repudiasse? Resolveu reverter o alvo:

 

        -Nem você fala nada. E nunca a achei fria e sem sentimentos.

 

        Elise riu.

 

        -Acho que mereci essa observação. Mas eu não disse que a acho fria e sem sentimentos, Devlin.

 

        -Não? E o que acha, então?

 

        Elise ficou séria, fitando-a nos olhos.

 

        -Eu não consigo imaginar você beijando um rapaz porque você é uma pessoa com uma personalidade tão forte, que não consigo imaginar você sendo dominada por um homem. Sabe o que quero dizer? Você é uma garota forte, dominadora... diferente.

 

        -Não sei se me sinto elogiada ou insultada... – Disse Devlin, sorrindo.

 

        -Oh, pode sentir-se elogiada, Devlin! – Disse Elise, com ênfase – Eu admiro sua personalidade, acho você uma garota diferente e especial.

 

        Devlin sentiu seu coração bater mais depressa em seu peito. Era agora ou nunca. Estava cansada de esconder o que sentia. Se Elise fosse mesmo a garota maravilhosa que ela pensava, ela ia receber sua revelação sem se chocar muito.

 

        -Obrigada, Elise. Sua opinião   é muito importante para mim e estou feliz com suas palavras. Mas eu não falo em rapazes porque ... não me sinto atraída por eles.

 

        Elise a fitou surpresa.

 

        -Não se sente atraída por eles? Então... sente atração por... garotas?

 

        Devlin baixou os olhos, incapaz de continuar fitando Elise. Iria arriscar sua amizade com ela, mas não queria mentir.

 

        -Sinto atração por uma garota, apenas – Sussurrou timidamente.

 

        -Oh... e... quem é ela?

 

        -Você.

 

        Devlin esperou a reação de Elise, com medo, de olhos baixos. Os segundos se passaram e como o silêncio persistia, medrosamente ergueu os olhos para olhar para Elise. E foi tomada pela surpresa ao vê-la com lágrimas nos olhos.

 

        -Elise! Perdoe-me, eu não queria chocá-la! – Disse, nervosamente – Faça de conta que eu não disse nada, esqueça o que falei!

 

        Elise sorriu docemente, com as lágrimas escorrendo pela face. Devlin achou a visão mais linda do mundo e tremeu quando ela tomou sua mão e a levou ao rosto, inclinando-o ao seu toque .

 

        -Acha que estou chocada? – Disse Elise, com voz emocionada – Você é tão boba, Devlin! Acaso não percebe que estou chorando de emoção? Que o que revelou-me é o que eu sonhava e rezava para acontecer, todas as noites? Acaso não notou que estou apaixonada por você loucamente, que a olho ansiosa para beijar esses lábios lindos?

 

        Devlin a contemplou sentindo-se como nas nuvens. Aquilo era tão maravilhoso que parecia um sonho. Ela debruçou-se para Elise, que a fitava nos lábios com um olhar de fome.

 

        -Elise... eu posso... – Começou a pedir, hesitante.

 

        -Beije-me logo, sua boba – Disse Elise, sorrindo.

 

        Devlin não hesitou mais. Ela pousou as mãos nos ombros de Elise, que colocou a mão em sua nuca e a puxou para baixo, fazendo seus lábios se juntarem.

 

        O primeiro beijo. Seu coração parecia explodir de emoção. Seus lábios se roçaram e Elise acariciou os lábios de Devlin com a ponta de sua língua, pedindo entrada. Devlin entreabriu os lábios e sentiu a língua macia e quente de Elise penetrar entre seus dentes, invadir sua boca e acariciar sua língua, depois sugá-la suavemente, fazendo-a estremecer dominada por uma violenta emoção. Retribuiu à deliciosa carícia e momentos depois se separaram com as respirações ofegantes.

 

        Elise acariciou seu rosto, fitando-a com os olhos semi-cerrados.

 

        -Hummmm... você beija muito bem... com quem aprendeu a beijar, Devlin? – Perguntou, com voz rouca de emoção.

 

        Devlin a fitou timidamente.

 

        -Nunca beijei antes alguém. Você é a primeira.

 

        Elise ergueu as sobrancelhas, surpresa.

 

        -Eu sou a primeira pessoa quem você beija?!

 

        -Sim.

 

        -Não está mentindo?

 

        Devlin a fitou com mágoa.

 

        -Por que iria mentir para você? Não acredita em mim?

 

        Elise a abraçou impetuosamente.

 

        -Eu acredito em você, querida... é que você beijou tão bem...

 

        -Eu simplesmente imitei o que você fazia. Agora, eu pergunto: com quem você aprendeu a beijar?

 

        Devlin não pôde evitar o tom ciumento na voz. Elise baixou os olhos, embaraçada.

 

        -Bem... eu tinha um namorado, Tom Mackinley, no colégio... saímos algumas vezes e nos beijamos. Nosso namoro não durou mais que um mês. Ele era muito chato, só falava em sua equipe de futebol.

 

        Devlin ergueu o rosto dela com a ponta de seus dedos, fitando-a nos olhos.

        -Ele beijava melhor que eu?

 

        Elise sorriu docemente.

 

        -Não. Nem tem comparação, você ganha disparado. Seus lábios e pele são mais macios,  seu cheiro é mais agradável, sua boca tem um sabor maravilhoso, seu beijo é muito melhor. Você gostou de meu beijo?

 

        Devlin a puxou contra o corpo, deixando de lado sua timidez. Elise agora a fazia ter auto-confiança, sentindo-se desejada.

 

        -Adorei, e como prova, que tal praticar mais?

 

        -Estou à sua disposição, senhorita...

 

        E seus lábios se grudaram em um beijo profundo.

 

))))))((((((

       

        Seus pensamentos foram interrompidos pelo aviso do piloto que iriam pousar em dez minutos e deveria colocar o cinto de segurança. Devlin fez o que ele pedia e olhou para seu amigo Brice.

 

        -Estamos chegando. O circo já deve estar armado pela minha madrasta.

 

        -Tenha calma, Devlin.

 

        -Estou tendo, Brice. Preciso disso para enfrentar meus demônios do passado.

 

        Eles se calaram, cada um entregue aos seus pensamentos. Em dez minutos o jatinho aterrissou.

 

 

 

Continua na parte 2

 

 

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