Rica e Famosa
Parte 2
Karla acordou com uma uma voz que a chamava, trazendo-a de volta do mundo dos sonhos. Abriu os olhos e viu diante dela o rosto de Elaine, que a fitava com o cenho franzido.
-Acorde, Karla! Ainda bem que eu resolvi vir conferir se você ia mesmo estar pronta quando Peter chegasse!
Karla passou a mão pelos olhos, incomodada pela claridade da janela aberta. O lençol que a cobria deslizou até a cintura, mostrando seus seios magníficos aos olhos de Elaine, que recuou a cabeça, sorrindo.
-Você não gosta mesmo de dormir com uma roupa, não é? Céus, Karla, se eu gostasse de mulher, diante disso eu já estaria na cama com você!
Karla riu, fitando a amiga e levantando-se da cama. Seu corpo nu brilhava à luz do sol, como uma estátua bronzeada.
-E o que aconteceria ? Nada, por que você é minha amiga. E a única mulher bonita que eu não tenho desejo.
Elaine enrubesceu. Ela era uma bela morena, alta e elegante, com cabelos curtos com um corte moderno. Ninguém diria hoje que ela havia sido uma garçonete no bar em que Karla iniciara sua carreira.
-O que me tranquiliza... estou à salvo do seu irresistível charme - Respondeu ela, cruzando os braços - Anda, vá tomar sua ducha e se aprontar, Peter estará aqui dentro de meia hora.
-Certo, certo! Enquanto tomo meu banho, faça um café para mim.
-Oh, a vida de agente, secretária, confidente, baby-sitter e amiga de Karla Wings às vezes é muito cansativa! - Gemeu Elaine, saindo do quarto.
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A curta viagem transcorreu tranquila. Karla contou a Elaine de suas duas noites. Da festa na casa de Doug e da sua noite seguinte, em um bar frequentado por gays e lésbicas, onde foi disfarçada com lentes de contato verdes e cabelo preso para cima em uma boina, vestindo-se com simples calças jeans e blusa. Elaine riu, quando contou que ela havia se interessado por uma loura linda, mas quando foi convidá-la para dançar, a voz grossa da loura revelou seu verdadeiro sexo.
-E o que você fez, então? - Perguntou Elaine, entre risos.
-Desculpei-me e saí correndo! - Respondeu Karla, rindo - É impressionante como um homem pode se transformar em uma mulher bonita! As drag-queens são logo identificadas, mas uma mulher vestida com sóbria elegância, com cabelos compridos naturais e pele lisa, é difícil de ser identificada como homem! Tenho de ter mais cuidado! É claro que depois disso, não fui convidar mais nenhuma mulher para dançar!
-E passou a noite sozinha?
-Acredite ou não, apenas tomei duas cervejas e fui para casa.
-Ah, então foi bom isso ter acontecido! Senão, eu teria encontrado você com uma mulher na cama, fazendo sexo. E iria ser difícil você conseguir se aprontar a tempo!
Karla a olhou séria.
-Sabe muito bem que nunca levo mulheres para minha casa, Elaine. Para isso, tenho um apartamento.
-Eu sei, só estava brincando. Sua "garçonière" é a sua toca para comer suas vítimas!
Karla riu.
-E minhas vítimas amam a minha toca! Além de quatro quartos e demais cômodos, tem um salão com luz negra e som de buate, um bar com vários tipos de bebida, uma sala com uma tv de 50 polegadas para passar filmes eróticos, um banheiro com uma Jacuzzi e um quarto com uma vista da cidade e uma cama enorme para o término da noitada.
Elaine riu da excentricidade da amiga. Ela podia se dar ao luxo de manter um apartamento fechado que havia custado quase dois milhões de dólares, apenas para suas noitadas com mulheres.
Chegaram em Los Angeles e foram recebidas por uma limousine que as transportou direto para o hotel, acompanhadas pelo guarda-costas Tony. Karla apenas lavou as mãos e penteou seus longos cabelos, enquanto sua bagagem era colocada em seu quarto. Logo tornaram a sair, agora rumo a Artist Produtions.
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Renee estava aguardando a chegada de Karla Wings com nervosismo. Ainda não a conhecia pessoalmente e essa seria uma reunião curta para expor sua idéia sobre o clip e discutir os detalhes da produção. Até então, tudo havia sido discutido com a agente de Karla, mas agora ela daria a aprovação final. E Karla seria facilmente contentada com projeto? A fama de criadora de confusão não animava muito.
Evin estava atrasado para a reunião, o que a deixava mais nervosa. Ele havia telefonado dizendo que estava preso em um engarrafamento.Maldição, ele iria funcionar como um mediador em sua conversa com Karla, se a discussão se tornasse dura entre elas, e agora teria que lidar com a temperamental cantora sozinha!
-Ok, Renee, você pode fazer isso - disse ela para si mesmo, baixinho - Você é uma mulher segura de si, competente no que faz, sempre resolveu seus problemas profissionais sem a ajuda de alguém. Então, mesmo que Karla Wings seja uma mulher arrogante, criadora de confusão, uma puta sobre rodas, você vai poder lidar com isso.
O interfone tocou e Renee atendeu com voz enganosamente firme:
-Que é, Laura?
-A senhorita Wings e sua agente Elaine Hatts acabaram de chegar.
-Conduza elas até minha sala - Respondeu, levantando-se nervosa. Forçou um ar profissional despreocupado e preparou-se para colocar um sorriso tranquilo no rosto.
Um minuto depois, a porta foi aberta pela sua secretária e Karla Wings e Elaine Hatts entraram.
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Karla olhou para a atraente loura, que a fitou com um olhar curioso. Mais que isso, aquele olhar era também mesclado com receio, como se a loura a temesse.
"Uau!" - Pensou Karla, olhando-a da cabeça aos pés " - Essa mulher é algo mais!"
Ela tinha cabelos curtos e louros, uns olhos verdes como duas esmeraldas e um corpo de curvas nos lugares certos, delineado pela saia justa negra e a blusa de seda branca. As pernas fortes e bem torneadas se mostravam tentadoramente. Não era alta, não devia ter mais que um metro e sessenta, mas ela fazia jus ao ditado que dizia: "os melhores presentes vêm sempre nas menores embalagens."
Seu olhar atento subiu novamente para o rosto. A loura tinha feições delicadas, um rosto que possuía alguma coisa infantil, dando-lhe um ar de adolescente. Seria o nariz ligeiramente arrebitado? Ou seu olhar ?
Ela enrubesceu visivelmente ao seu olhar avaliador e adiantou-se estendendo a mão para Elaine, sorrindo. Que sorriso adorável!
-Como tem passado, senhorita Hatts? - Disse ela, com voz suave - É um prazerr vê-la novamente.
Elaine apertou a mão dela e sorriu.
-Muito bem, senhorita Custon. Como tratamos, aqui estamos para tratar da produção do clip. Apresento a você Karla Wings. Karla, essa é Renee Custon, a produtora e diretora do clip.
Renee estendeu a mão para Karla, fitando-a nos olhos. Karla a tomou na sua e sentiu um arrepio percorrer seu corpo, ao toque macio e quente. Olhou aqueles olhos verdes e se sentiu perdida neles.
-"Inferno, que está acontecendo comigo?" - Pensou, surpresa com o que sentia -"Por que me sinto como se a tivesse conhecido antes? Tenho certeza que é a primeira vez que a vejo. Jamais esqueceria um rosto como esse. E esse arrepio que senti... nunca antes uma mulher provocou isso em mim com um simples aperto de mão."
-É um prazer conhecê-la, senhorita Wings - Ouviu ela dizer, sacudindo sua mão.
Karla sorriu, fitando-a nos olhos.
-O prazer é todo meu, Renee.
Renee desviou o olhar para Elaine, enrubescendo mais uma vez.
-Queiram se sentar... desejam beber alguma coisa? Um vinho, um refrigerante, café?
-Eu aceito água - Disse Karla, sentando-se no sofá de couro negro que foi indicado e cruzando as longas pernas. Elaine sentou ao lado dela e respondeu:
-Eu aceito um refrigerante. Coca cola, se tiver.
Renee apertou um botão em sua mesa e pediu:
-Laura, traga duas águas geladas e uma coca cola, por favor.
Ela desligou e se sentou em uma poltrona diante das duas mulheres, cruzando as pernas com elegância.
-Fizeram uma boa viagem? - Perguntou, olhando para Elaine.
-Sim, foi tudo bem, senhorita Custon - Respondeu Elaine.
Karla olhava Renee Custon atentamente, sem dizer nada. Tinha medo de falar uma inconveniência. O que gostaria mesmo de fazer era levantar-se, tomá-la entre os braços e beijá-la ardorosamente. Estava sentindo uma atração tão incrível pela loura, que sentia uma umidade entre as pernas. Seu coração pulsava forte pelo desejo que sentia, e isso a estava deixando assustada. Que diabos estava acontecendo com ela?
A reunião foi surpreendentemente calma,sem nenhum atropelo. Renee submeteu seu roteiro à cantora, que não fez nenhuma restrição. Tudo foi combinado e o início da produção do clip foi marcado para ser iniciado dentro de dois dias. Renee precisava desse tempo para transportar os equipamentos e acomodar a equipe da filmagem perto da locação. Haveria também cenas em estúdio, mas isso seria após as filmagens de locação.
Depois de duas horas discutindo os detalhes, a reunião terminou e Karla Wings e sua agente se despediram. Elaine e Karla deram o número dos seu telefones celulares para se comunicarem. Apertaram as mãos e as duas foram embora.
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Renee colocou as mãos no rosto, apoiando os cotovelos na mesa. Seu olhar estava perdido no espaço, pensando no que acabara de acontecer.
Havia acabado de conhecer Karla Wings pessoalmente.
E desde que seu olhar havia caído sobre ela, Renee descobriu coisas nela mesma que não sabia . Como explicar aquela atração incrível que sentiu ao fitar aqueles olhos incrivelmente azuis, aquele rosto de beleza exótica? Havia se sentido como uma colegial em sua primeira paixão. Suas mãos tremeram, seu rosto ficou quente de rubor, um arrepio correu pelo seu corpo. Foi com muito esforço que conseguiu agir naturalmente, sentindo seu coração disparar ao sentir o olhar de Karla percorrendo seu corpo. E durante a reunião, ouvindo aquela voz profunda e sensual, vendo aqueles olhos magnéticos fitando-a, aquelas mãos grandes mas delicadas, de dedos longos, segurando o roteiro, apoiando o queixo forte, movendo-se para enfatizar suas palavras, quase perdia o pensamento da reunião.
Karla, com sua simples presença, havia mostrado à ela uma faceta de sua personalidade que desconhecia: que uma mulher podia atraí-la sexualmente.
Isso a assustou. A sua vida tão bem planejada podia sofrer um golpe que destruiria tudo.
-Oh, Deus! - gemeu - O que devo fazer? Elas iriam trabalhar juntas, por um bom tempo! Poderia resistir, se Karla tentasse conquistá-la? Havia percebido os olhares dela. E sabendo como Karla era em sua vida sexual, era bem provável que ela insinuasse algo.Poderia resistir?
A razão gritava que devia resistir com todas suas forças. Mas o desejo de provar aqueles lábios, sentir o corpo de Karla contra o seu, era uma tentação muito forte.
Renee levantou da cadeira com um suspiro. Maldição, estava louca? Era noiva de Evin, planejavam casar-se dentro de um ano, não podia jogar seu futuro pela janela por uma aventura com uma mulher que usava as outras como brinquedos.
Ela respirou fundo, tomando sua decisão.
-Muito bem, Karla Wings... - sussurrou - você não vai vencer dessa vez...
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Elaine olhou para Karla de soslaio. Ela estava atipicamente calada, olhando pela janela do carro, de volta para o hotel. Havia estranhado ela desde quando a reunião começou. Karla, ao contrário das outras vezes, não havia objetado nada, não havia perdido seu gênio e procurado impor seu ponto de vista, que nunca coincidia com quem apresentasse uma idéia à ela. Havia sido de uma docilidade surpreendente.
Finalmente, sem poder conter mais sua curiosidade, Elaine perguntou, com certa malícia:
-O que há com você?
Karla a fitou com uma expressão aérea.
-Humm? O que disse?
-Perguntei o que há com você.
Karla arqueou uma sombracelha.
-Por que está perguntando isso?
-Ora, Karla! Eu conheço você! Não vai dizer que você está agindo como sempre, não? Você não se alterou na reunião, não discordou de nada, ouviu mais do que falou, e agora está aí com essa cara de quem está sonhando acordada... isso tudo é mérito de Renee Custon?
Ao ouvir o nome de Renee, um sorriso se formou nos lábios de Karla e ela respondeu com os olhos brilhando, a voz cheia de entusiasmo:
-Ela é mesmo especial, não acha? Inteligente, linda, uma mulher de classe, com uns olhos verdes como um campo de primavera...
Elaine riu.
-Oh, não acredito! Karla Wings falando assim de uma mulher! Será que finalmente você foi flexada por cupido? Oh, pensei que nunca veria esse dia!
Karla enrubesceu e deu um tapa brincalhão no braço da amiga.
-Elaine, não exagere! Estou interessada nela, sim! E isso não é incomum! Você sabe que adoro mulheres bonitas!
-Ah, mas nunca ouvi você descrever a cor dos olhos de uma mulher comparando com um campo de primavera! Isso é novo! Karla Wings se tornou uma poeta!
Karla riu, desconsertada.
-Foi um deslize, que não vai se repetir! Mas reafirmo que ela é algo mais! Elaine, eu quero aquela mulher!
Elaine ficou séria.
-Por quanto tempo, Karla? Para uma noite? Uma semana? Tenho uma notícia para você: Renee Custon é noiva. E sei que é uma mulher séria, não se lança em aventuras. Acho melhor você refrear seu entusiasmo, por que dessa vez você não vai conseguir o que deseja. Ela, pelo que sei, não gosta de mulher.
Karla a fitou com o cenho franzido.
-Ela é noiva? Bem, não seria a primeira noiva que eu levo para a cama. E você sabe que muita mulher que diz não ser lésbica, não se recusa a ter uma aventura com outra. Quanto à ela ser séria, isso não é impedimento para termos uma noite de amor. Ela não precisará mudar sua vida para isso.
-Bem, acho que você não devia tentar conquistá-la. Ela vai trabalhar para nós, e eu acho que negócios e prazer não se misturam.
Karla sorriu.
-Minha regra número um. Mas ela vale à pena quebrar essa regra.
-Bem, você é uma pessoa adulta. Você quem sabe o que fazer. Depois, não diga que eu não avisei.
-Não se preocupe comigo, Elaine. Eu sei manejar essas coisas.
Caíram novamente em silêncio.
Karla, na verdade, estava decepcionada por saber que Renee Custon era noiva. Então, tinha um rival na conquista da mulher. Mas isso não a faria desistir. Queria aquela mulher de qualquer jeito. Ela a fizera sentir coisas que nunca pensara sentir. Como agora, estava sentindo ciúme dela com o noivo, ao imaginar que um homem a tocava, a beijava. Isso era uma loucura, havia acabado de conhecê-la!
É claro que nunca confessaria isso a Elaine. Ela iria rir. Mas dentro de sua mente, ela havia decidido: teria Renee Custon para ela, somente.
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Continua na parte 3
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