PRIMA Donna

Parte 7

 

        Chegaram a Paris sem transtornos durante a tarde. Estava chovendo e elas tomaram um táxi no aeroporto Charles De Gaulle que as levou para a Avenue Foch, um endereço exclusivo de celebridades e milionários. Petrouska já conhecia Paris, seu pai já regera óperas e concertos  ali várias vezes. Mas com Gina, tudo lhe parecia mágico e com novas cores.

 

         O taxi parou diante de um prédio elegante, com suas linhas neoclássicas  e subiram até a cobertura, onde era o apartamento de Gina.

 

         Foram recebidas por uma simpática governanta de cabelos grisalhos e vivos olhos azuis incrustados em um rosto gorducho e rosado, que abriu a porta sorridente.

 

         -Buonna sera, signora Verlaine!

 

         Gina entrou, acompanhada por Petrouska e sorrindo para a governanta.

 

         -Tutto bene per  qui, Genara? – Perguntou Gina em italiano, uma língua que Petrouska dominava bem.

 

         -Si, signora Verlaine!Ma il conde ha telefonato para dire...

 

         -Lascie questo per dopo.Sono stanco di viaggio – Cortou Gina – Genara, esta é Petrouska Vonsky e vai morar aqui à partir de hoje. Ela vai ficar no quarto ao lado do meu, providencie para que esteja pronto para ela ocupá-lo. E tudo que ela pedir, atenda-a como se fosse eu.

 

         A mulher fitou Petrouska surpresa, mas não comentou nada. Assentiu e sorriu para a moça.

 

         -Perfeitamente, signora Verlaine. Seja bem-vinda, signorina.

 

         -Providencie para que nossas malas subam, estão na portaria.E depois, sirva-nos um chá.

 

         A governanta tornou a assentir e retirou-se do luxuoso salão. Gina voltou-se para Petrouska, que olhava em volta impressionada. Puxou-a pela mão.

 

         -Venha, vou mostrar à você o apartamento. É bom que aprenda o quanto antes a se situar nele.

 

         Petrouska a seguiu em silêncio. Estava impressionada com o estilo de vida de Gina. Sabia que ela era famosa e devia ser rica, mas aquele apartamento ultrapassava suas expectativas. Era decorado com um luxo de extremo bom gosto, cheio de peças de arte valiosíssimas. Os móveis eram estilo Luiz XV, os quadros eram autênticos impressionistas  de   de Chagall, Renoir e Monet. Havia um  de uma Madonna do renascentista Raphael! Estátuas de mármore e bronze de deuses e ninfas gregas, tapetes Gobelin e peças de prata adornando mesas. As paredes eram ornamentadas com frisos dourados e arabescos, iluminadas por lustres de cristal.

 

         O apartamento triplex tinha quatro suítes e dois quartos, salão de jantar, living, biblioteca, sala de música à prova de som, onde Gina ensaiava, salão de festas, um escritório, ampla cozinha e um jardim de inverno com piscina térmica. Era enorme e luxuoso, o que fez Petrouska pensar que poderia se perder naqueles corredores e escadas.

 

         Gina riu quando externou sua idéia.

 

         -Você se habituará aqui depressa, Pet. E além de seu quarto, terá um estúdio.Precisa ter seu próprio espaço, como eu.

 

         Petrouska a fitou decepcionada.

 

         -Pensei que iria ficar em seu quarto... Que iria dormir junto de você...

 

         Gina rodeou seus ombros com o braço, sorrindo, fitando-a de perto.

 

         -E vai dormir comigo, bobinha...Quando quiser. A suíte ao lado da minha é muito boa, você vai gostar. Sou uma pessoa de hábitos noturnos e você não conseguiria dormir bem comigo todo dia. É bem melhor assim, confie em mim.

 

                   Petrouska não gostou da decisão de Gina, mas não insistiu. Não queria se mostrar uma pessoa chata, que quisesse se impor no modo de vida de Gina.Se Gina a amasse mesmo, ela não iria agüentar passar as noites em um quarto separado do seu.

 

         Gina mandou a governanta colocar as roupas de Petrouska no closet do quarto que iria ficar e a levou até ele. Era uma suíte toda decorada em tom pastel, luxuosa como a de Gina, com móveis estilo Luiz XV, uma cama enorme estilo medieval, com musas entalhadas em madeira, e belos  quadros com cenas campestres em  requintadas molduras douradas. Havia uma tv de plasma diante da cama, o único toque moderno na decoração. O banheiro era todo em mármore rosa, com banheira Jacuzzi  de onde se podia ver a paisagem das árvores da Avenue Foch e o Arco do Triunfo.

        

          Gina olhou-a sorrindo, vendo Petrouska com um ar impressionado à cada detalhe que descobria.

 

         -Gostou de suas instalações?

 

         Petrouska a fitou procurando não se mostrar desanimada, como se sentia realmente.

        

         -É tudo muito lindo, Gina, obrigada.

 

         -Vou mandar transformar um dos quartos em um estúdio para você pintar. Amanhã vou conversar com um amigo, que é um famoso arquiteto.

 

         -Não precisa fazer isso, Gina.

 

         -Preciso, sim! Eu tenho minha sala de música para ensaiar, e você terá o estúdio para trabalhar tranqüila. Agora, tenho que deixá-la... Preciso dar uns telefonemas para meu empresário, meus amigos...fique à vontade, Petrouska. Aproveite para descansar da viagem.

 

         E Gina se retirou, deixando Petrouska só.

         Petrouska olhou em volta, com a incômoda sensação que Gina tinha uma vida independente  da sua, na qual ela teria uma participação menor, só ultrapassando limites que Gina permitisse. A separação delas em dois quartos era o indício dessa barreira que Gina impunha entre elas.

 

         Teve um pensamento de revolta.Por Gina, havia deixado a companhia de seu pai, seu trabalho na orquestra, só para ir viver com ela! E agora Gina estabelecia limites em seu relacionamento!

 

         Procurou acalmar-se pensando que independentemente de Gina, já havia decidido deixar a orquestra e a companhia de seu pai. Gina apenas precipitara sua decisão. Foi para o quarto arrumar suas roupas no closet, dispensando a arrumadeira, que chegou depois. Acabou a tarefa e tomou um banho de ducha, dispensando a banheira. Vestiu-se com blusa de algodão branca de mangas compridas, calça jeans preta e calçou botas . Perfumou-se, penteou os cabelos curtos e saiu do quarto.

 

         Passou diante do quarto de Gina e bateu. Ninguém respondeu e ela avançou pelo corredor, que desembocava em uma escadaria que descia para o andar inferior do triplex. Desceu-a e encontrou a governanta, que a fitou com discrição, continuando a andar, passando por ela. Petrouska a chamou e ela parou, voltando-se.

 

         -Genara, onde está a signora Verlaine? – Perguntou.

 

         Ela indicou uma porta no fundo do imenso salão.

 

         -Está lá na biblioteca, signorina.

 

         -Obrigada – Disse Petrouska, se dirigindo para a porta.Atrás dela, a voz da governanta soou como uma advertência:

        

         -A signora Verlaine disse que não quer ser incomodada. Está com visita.

 

         Petrouska voltou-se e fitou a governanta com desafio.

 

         -É mesmo? Obrigada pelo aviso, mas ele não se aplica à mim.

 

         Continuou seu caminho e girou a maçaneta da porta indicada, abriu-a e entrou.

 

         Gina estava sentada em um sofá bem próxima à um homem velho. Ela pareceu assustar-se com sua chegada, porque ergueu-se precipitadamente e a fitou empalidecendo. Já o velho, que devia ter uns sessenta anos, apenas ergueu as sobrancelhas hisurtas  e a contemplou com um ar entre curioso e aborrecido, como se Petrouska tivesse interrompido algo importante.

 

         Petrouska sentiu uma onda de ciúmes invadi-la como ácido, queimando seu coração. Com olhar desconfiado, fitou-os calada, sem saber se ficava ou se retirava. Pela reação de Gina, algo lhe disse que aquele velho era muito mais que um amigo dela.

 

         Gina pareceu controlar-se rapidamente. O olhar serenou e ela a fitou enigmaticamente, como fazia quando não queria revelar seus sentimentos.

 

         -Petrouska, estou ocupada. Genara não avisou?-Perguntou, com voz fria.

 

         Petrouska a fitou com o olhar magoado. Suas palavras saíram com tom chocado:

 

         -Avisou. Mas eu não pensei que eu também estivesse incluída entre as pessoas proibidas de procurá-la quando recebe uma visita. Quer que eu me retire?

 

         Gina respirou fundo e respondeu:

 

         -Não, Petrouska. Já que está aqui, quero apresentar-lhe o conde  Benuto Salieri.

 

         Petrouska olhou para o velho. Ele ergueu-se e fez uma ligeira mesura, mas os olhos a fitaram com frieza. Petrouska fez um ligeiro aceno com a cabeça, tentando não ser grosseira. Não havia gostado nem um pouco daquele homem. O rosto parecia de um fauno, o nariz aquilino lembrava uma ave de rapina. Antipatizou com ele instantaneamente.

 

         Ele desviou o olhar para Gina, que parecia olhar para ele com receio. Pelo menos, assim pareceu à Petrouska.

 

         Ele quem rompeu o incômodo silêncio que se fizera:

 

         -Bem, minha cara, concluiremos nossa conversa  em outra ocasião. Ligarei para você – Disse, apanhando o, sobretudo no sofá.

 

         Ela o fitou com um ligeiro sorriso, o olhar parecendo pedir desculpas.

 

         -Tudo bem, Salieri, aguardarei.

 

         Ele pegou a mão de Gina e beijou-a rapidamente, olhou para Petrouska e falou inexpressivamente:

 

         -Uma boa noite para vocês.

 

         Ele se retirou e um silêncio pesado caiu entre elas. Gina parecia esperar um comentário de Petrouska, que continha-se para não fazer perguntas contundentes, pelo ciúme que sentia. Finalmente, ela perguntou, com voz contida:

 

         -Quem é esse homem?

 

         Gina a fitou com aquele olhar enigmático.

 

         -Não o apresentei? O conde Benuto Salieri.

 

         -Não perguntei quem ele é, mas o que é em sua vida.

 

         Gina desviou a vista, fitando um ponto da biblioteca.

 

         -Ele é um amigo.

 

         -Um amigo... – repetiu Petrouska, com ironia – deve ser um amigo muito especial, se você o recebe e manda avisar que não quer ser interrompida. Ou faz isso quando recebe qualquer visita?

 

         Gina voltou a fitá-la. Percebeu um leve rubor nas faces dela. O olhar agora estava inseguro.

 

         -Onde está querendo chegar, Petrouska?

 

         -A lugar nenhum. Apenas não gostei desse homem!

 

         -Não gostou por quê?

 

         -Um pressentimento meu.

 

         -Petrouska, tenho vários amigos e o conde é um deles. Não posso submeter minhas amizades à sua aprovação, para admití-los em minha casa. Eu a amo e a chamei para morar comigo, mas nossa relação tem que ter limites que não firam nossa liberdade individual. Tenho uma vida própria e você terá a sua. Pode ter amizades independentes de meu círculo de amizades, sem minha interferência em suas escolhas de amigos.

 

         Gina disse isso em tom desafiante, encarando-a orgulhosamente.Petrouska a fitou nos olhos e desabafou:

 

         -Então, é esse o amor que me oferece? Diz que me ama, mas não tenho o direito de partilhar sua vida, sem limites? Você estabeleceu uma barreira entre nós, como que limitando minha participação em sua vida em um nível mínimo! Na verdade, já percebi que você me quer ao seu lado como um cãozinho de estimação, ao qual você poderá procurar quando quiser ter uma distração! Um cão de estimação dá prazer ao dono fazendo gracinhas e festas, eu dou prazer em uma cama! E depois de satisfeita, a dona esquece o animal para tratar de coisas sérias, não permitindo que ele interfira em sua vida! É isso que quer de mim! Que eu aja como um cãozinho!Ficar em meu canto sem questionar nada, até ser procurada para matar o seu desejo!

 

         -Petrouska! Que comparação absurda! Eu só não desejo que nossa relação anule a nossa individualidade! Eu tenho experiência nisso, Petrouka, já passei por várias relações que se deterioraram por falta de liberdade individual, e não quero que isso aconteça entre nós!

 

         -Isso que diz não passam de palavras, Gina! Na teoria é ótimo, mas na prática não funciona! Sinto-me excluída de sua vida, pelos seus limites impostos! Então, quer liberdade? Pois vai tê-la, e eu também! Mas depois, não se queixe! Não venha perguntar-me sobre os amigos que terei, ou dizer que não os aprova! Eu farei o mesmo que você, não responderei nem deixarei de lado qualquer um deles! – Disse em tom revoltado, os olhos cheios de lágrimas.

 

         Gina, que a fitava com ar angustiado, se aproximou e abraçou Petrouska apertadamente, rodeando seu corpo com os braços. Petrouska ficou imóvel e tensa, com sua ira impedindo-a de retribuir.

 

         -Oh, Petrouska! – disse Gina em seu ouvido, com voz aflita – Nosso primeiro dia em Paris, em uma nova vida, e já estamos brigando! Não quero isso! Eu a amo, não percebeu ainda? E também a desejo muito, não posso ficar muito tempo ao seu lado sem beijá-la, abraçá-la! Por favor, procure entender-me! Não briguemos mais, não posso suportar ver você com raiva de mim!

 

         Ao ouvir aquelas palavras cheias de sentimento, Petrouska sentiu sua raiva evaporar-se. Realmente, elas se amavam tanto, por que dar lugar à desconfiança, ao ciúme? Rodeou o corpo de Gina com os braços e se apertou contra ela, erguendo o rosto buscando a boca que desceu em um átimo e se esmagou contra a sua, apaixonadamente.

 

         Despiram-se febrilmente e se entregaram ao desejo que as consumia ali mesmo no chão atapetado da biblioteca. Gina parecia fora de si. Mordiscava sua boca, seus seios, enfiava os dedos longos em seu sexo, cavalgava-a por trás, esfregando o sexo molhado nas nádegas macias, colocava Petrouska em várias posições excitantes, olhando-a com um jeito que fazia Petrouska enlouquecer e também retribuir os  carinhos loucos.Pedia coisas com voz transtornada de desejo, gemia, se remexia, com uma expressão tão sexy, que Petrouska mergulhou em um mar de lascívia, só emergindo após um êxtase intenso, que a sacudiu espasmódicamente. Caiu para o lado, esgotada.

 

         Depois de alguns minutos, olhou para Gina ao seu lado, refazendo-se do orgasmo que tivera. Como era linda, fascinante! Queria-a desesperadamente, amava-a demais, mesmo que ela a relegasse à um segundo plano em sua vida. Ela estava deitada de lado, com a cabeça sobre o braço dobrado, parecendo uma deusa adormecida, os cabelos negros espalhados no tapete e na pele dourada, perfeita, o rosto magnífico com aquela boca vermelha ...

 

         Ela abriu os olhos e sorriu sensualmente para Petrouska.

 

         -Minha deliciosa garota...o que me olha tanto?

 

         Petrouska se debruçou para ela, fitando-a de perto.

 

         -Observo você, Gina...adoro observá-la após fazer amor.

 

         Ela a fitou com malícia.

 

         -Só após? Antes não?

 

         -Sempre. Mas após fazer amor, você parece uma deusa adormecida nos braços de Eros...

 

         Gina deu uma risada cristalina.

 

         -Uma deusa! Você sim, Pet, parece uma deusa, ou uma valquíria das lendas teutônicas, que veio ao mundo dos humanos para dar-me prazer.

 

         Foi a vez de Petrouska rir.

 

         -Eu, uma valquíria? Com meus traços eslavos? Está cometendo um engano, Gina!

 

         -Não, sei bem que as valquírias são de uma lenda alemã. Mas as imagino como você.

 

         -Oh, obrigada...só sinto não ter o poder delas... para raptá-la para um paraíso desconhecido, para ser só minha.

 

         -Não precisa raptar-me para isso, amor...sabe que sou sua e pode ter-me quando quiser.

 

         Petrouska a encarou séria.

 

         -Não é verdade. Só posso tê-la nos momentos que você estiver livre, sem seus amigos por perto. Não posso nem procurá-la quando estiver com alguém aqui na biblioteca!

 

         Gina a fitou, acariciando seu rosto.

 

         -Oh, Pet, como é desconfiada! Tudo bem! Quando eu estiver na biblioteca com alguém, pode vir procurar-me!

 

         -Mesmo que a pessoa seja o conde Salieri?

 

         Gina fez uma expressão de desgosto e se colocou de pé agilmente.

 

         -Oh, lá vem você de novo com isso! – Reclamou, procurando sua calcinha.

 

         Petrouska se ergueu também.

 

         -Você não respondeu. Posso ou não vir aqui, se estiver com aquele velho?

 

         Gina não respondeu, colocando a calcinha e procurando as outras roupas jogadas no chão e poltronas.

 

         -Responda, Gina! – Exigiu Petrouska, irritada com o silêncio dela.

 

         Gina colocou as mãos na cintura e a fitou com ar sombrio.

 

         -Este assunto está encerrado, já falamos dele.

 

         -Não, não está! Você está é fugindo da pergunta! O que há afinal entre você e esse velho?

 

         Gina a fitou atormentada.

 

         -Mas que inferno!! Per Dio!Pare com isso, Petrouska! Você quer torturar-me?

 

         -Não, quero apenas a verdade! Fale, Gina! Não minta para mim, ou não vou perdoá-la nunca, se descobrir que você está me ocultando algo!

 

         Gina se voltou para ela, os olhos azuis cheios de lampejos sinistros.Parecia alguém derrotada numa batalha.

 

         -Tutto bene, você quer saber. Eu queria contar à você no momento propício, quando você me conhecesse melhor, mas você está forçando-me a precipitar as coisas... – Disse, em tom derrotado . Sentou numa poltrona e enterrou a cabeça nas mãos, olhando para a chão. A voz saiu sem emoção:

 

         -O conde Salieri é meu amante há vários anos.

        

 

Continuará na Parte 8

 

 

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