PRIMA Donna
Parte 4
O almoço com Douglas foi um suplício para Petrouska. Ela arrependeu-se de sua decisão, ouvindo ele fazendo contritas declarações de amor para ela, dizendo que estava apaixonado e se ela o quisesse, seria um escravo dela. Que homem chato, pensou, fitando-o com um sorriso forçado.Estava surpresa em ver aquele rapaz rico, bonito e inteligente simplesmente se reduzir à um homem inseguro e patético, quase implorando amor, por perceber que ela não estava muito interessada por ele.
-Você virou uma obcessão para mim,
Petrouska – Disse ele, pegando sua mão e a fitando apaixonadamente – Não paro
de pensar em você, você enfeitiçou-me.
-Douglas não posso acreditar nisso! Você
é um playboy, deve ter dezenas de mulheres lindas esperando um gesto seu! Por que essa obcessão por mim, que mal
conhece?
-Por que você é diferente, Petrouska!
Você não está querendo me impressionar, me conquistar como as outras! Eu gosto
de mulheres como você, que sabem o que querem, mas não são fáceis!
Petrouska sorriu com ar divertido.
-Ah, já sei, você gosta de mulheres
duronas, que dominam, e não são dominadas! Não é isso?
Os olhos dele luziram.
-É isso! E percebi que você é uma dessas
raras mulheres, Petrouska.
Ela o fitou com curiosidade. Ela podia
ser virgem, mas não era ingênua. Gostava de ler e em suas leituras, lera sobre
sado-masoquismo. Se não estava enganada, Douglas parecia ser um masoquista, à
procura de quem o dominasse. Para confirmar suas suspeitas, ela perguntou:
-Você gosta de também ser dominado
sexualmente, Douglas?
Ele a fitou nos olhos por um tempo,
depois desviou o olhar, sorrindo.
-Prefiro não responder à essa pergunta, e sim perguntar: você
gosta de dominar sexualmente?
Petrouska o encarou séria.
-Não sei.
Ele a fitou surpreso.
-Não sabe?!
-Não. Eu ainda sou virgem, Douglas.
Ele a fitou como se estivesse vendo um
pássaro com dentes.
-Virgem?! Quantos anos tem, Petrouska?
-Vinte e um.
-E com vinte e um anos quer que eu
acredite que é virgem? Uma garota bonita como você? – Ele disse, incrédulo.
Petrouska irritou-se com a dúvida dele e
ergueu-se precipitadamente, dizendo friamente:
-Acho bom que não me procure mais,
Douglas. Passe bem!
E ela se retirou com passos furiosos, ouvindo ele
chamá-la.Ela aproveitou o sinal fechado e atravessou a rua, continuando a
caminhar. Ouviu gritarem seu nome e olhou para trás, gelando. O sinal abriu e
Douglas atravessava correndo , diblando os carros que businavam . Ela ficou
olhando estática, até que ele conseguiu alcançar a calçada e veio rápido em sua
direção, afobado.
-Petrouska! Espere! Quero pedir
desculpas! Eu não devia duvidar do que disse! Por favor, perdoe-me!
Ela o encarou, de olhos arregalados,
com um sorriso nervoso.
-Douglas! Você é louco! Você deve dar
pouco valor à sua vida!
Ele a fitou confuso.
-Por que diz isso?
-Por que digo isso?! Você atravessou a
rua com o sinal aberto!
-Oh! Isso? Nem percebi... estava
querendo alcançar você! – Disse ele, sorrindo timidamente.
Petrouska riu. Douglas era mesmo louco!
Por estranho que parecia, ela passou a olhá-lo com menos prevenção e mais
relaxada.
-Vamos, seu maluco... tenho que voltar
ao teatro.
-Mas prometa que vamos nos ver
novamente! Prometa que vamos sair hoje!
-Humm... não sei. Vou pensar.
Eles foram caminhando de volta para o
teatro. Ambos pensativos, mergulhados em seus pensamentos. Quando chegou diante
do teatro, Petrouska voltou-se para Douglas com ar decidido.
-Precisamos conversar muito, Douglas.
Mas não aqui, no meio da rua, ou no teatro.
-Posso fazer uma sugestão? – Ele
perguntou, visivelmente inseguro.
-Faça.
-Posso ir pegá-la para jantar comigo?
Jantar em meu apartamento. Também preciso falar com você em um lugar que
ninguém nos interrompa.
-Hummm... não sei...
-Prometo me comportar. Jamais faria algo
que você não quisesse, Petrouska.
-Está bem. Dê-me seu endereço.
-Não quer que a pegue no hotel?
-Não. Eu irei ao seu encontro.
Ele pegou um cartão no bolso do casaco e
estendeu para ela.
-Às oito da noite, está bom para você?
–Perguntou, entregando o cartão à ela.
-Está ótimo. Até a noite, Douglas.
E sem mais, ela entrou no teatro .
A orquestra já estava à postos, mas seu pai
ainda não havia chegado. Ela mordiscou o lábio inferior, um gesto típico seu
quando estava contrariada. Seu pai devia estar aproveitando o almoço para
cortejar Gina Verlaine. Será que ele não percebia que era muito velho para ela?
E Gina? Estaria interessada? Sabia que muitas mulheres davam mais valor à fama e dinheiro que à
beleza de um homem. Quantas mulheres lindas se casavam com homens bem mais
velhos porque eles eram famosos e ricos! Seria Gina uma desse tipo?
Eles chegaram minutos depois. Petrouska
observou que seu pai estava sorridente
e Gina sorria de algo que ele dizia. Petrouska sentiu um intenso ciúme
tomá-la, quase lhe tirando a respiração. Teve vontade de correr até eles e
esbofetear Gina, mas conteve a idéia louca . Ela não tinha nenhum direito de
fazer isso. Gina nem devia desconfiar o que ela sentia. Sentiu a raiva crescer
em seu íntimo. Por que não era Gina quem estava apaixonada por ela, e não
Douglas ? Por que nunca poderia ter Gina para ela?
O olhar de Gina veio como uma seta ao
encontro do seu. Torturada por seus pensamentos, Petrouska desviou o olhar, com
o semblante fechado. O que adiantava fitar o fruto proibido? Ela jamais seria
sua! Maldição! Tinha que esquecê-la! Tinha que tirá-la da cabeça! Será que
Douglas serviria para isso?
Gina sentiu o olhar cheio de animosidade
de Petrouska. E sentiu como se lhe cravassem um punhal. Petrouska a detestava!
Nem aceitara ir almoçar com o pai, porque ela também iria! Que inferno, aquela
garota a estava deixando louca! E o pior é que cada vez que a via, se
apaixonava mais!
Se entregou ao ensaio, vestindo a
personagem Violetta Valèry. E cantou a ária Sempre Libera com ardente
convicção, como a personagem, dizendo que sempre livre ela ia pela vida de
alegria em alegria, sem querer amar. Mas sabia no fundo que eram apenas
palavras. Como Violetta, ela já estava presa na teia do amor.
)))))))(((((((
Petrouska chegou pontualmente no
endereço. Seu pai havia sorrido quando falou que ia encontrar com o filho de
Hugh Forlan. Ele ficou no hotel lendo um livro e Petrouska havia saído com a
determinação de terminar aquela ligação com Douglas. Havia colocado apenas um
vestido negro simples, que usava nos ensaios da orquestra. Seduzir Douglas não
fazia parte de seus planos.
Ele abriu a porta e a fitou com os olhos
brilhando, fazendo uma mesura, muito elegante em uma camisa social branca Ralph
Lauren, jeans desbotados Calvin Klein e botas de couro negro.
-Boa noite, Petrouska! Entre, por favor!
É uma honra recebê-la em minha casa!
Petrouska passou por ele, sentindo o
cheiro da colônia que ele usava.
O apartamento, como pensava, era imenso
e luxuoso, com um living com três ambientes e o terraço onde se descortinava a
Quinta Avenida. A decoração era em branco e preto, com paredes brancas e móveis
negros. Nas paredes, enormes quadros
abstratos e surrealistas de
pintores famosos, como Pollock e
Salvador Dali. Ele a conduziu a um imenso sofá de couro negro e mostrou a
garrafa de champanhe no balde de prata, sobre a mesa posta para dois.
-Aceita uma taça de champanhe como
aperitivo?
-Hummm... está bem. Uma taça não me fará
mal.
Ele encheu duas flutes e lhe estendeu
uma.
-Que essa seja a primeira vez de muitas
vindas aqui, Petrouska – Brindou ele, erguendo a taça.
-Bem... acho difícil isso, Douglas.
-Por que? Venha, sente-se – Disse ele,
sentando no sofá. Ela sentou ao lado dele, voltando-se para encará-lo.
-Por que depois que as apresentações da
ópera terminarem, vou embora. Não vivo na América, e sim em Munique.
-Oh... – disse ele, com ar decepcionado.
Mas logo recuperou-se – Mas eu posso passar temporadas na Alemanha. Eu conheço
Munique, é uma cidade encantadora.
Petrouska suspirou, fitando-o séria.
-Douglas... não acho que devemos
continuar nos vendo.
Ele a fitou com ar desolado, dando um
sorriso triste.
-Eu já havia percebido que você não quer
nada comigo. Mas eu não estava querendo reconhecer... que você é outra garota
que não me quer.
Ela o fitou surpresa.
-Já houve outras garotas que não o
quiseram, Douglas?
Ele baixou a cabeça, fitando a taça na
mãos, evitando encará-la.
-Sim... várias.
-Como pode acontecer isso?! Você é um
rapaz rico, bonito, inteligente, culto... o que há de errado?
-Não posso dizer... iria rir de mim.
-Bem, ajuda você a dizer, eu confessando
que não estou interessada em você porque estou apaixonada por uma mulher?
Ele ergueu a cabeça, fitando-a
assustado.
-Você?! Você é uma lésbica?!
-Por enquanto não sei o que sou,
Douglas. Porque ainda não beijei ou tive sexo com ninguém. Não sei se vou
gostar de ter sexo com uma mulher. Mas eu estou apaixonada por um mulher.
-Quem é ela, Petrouska?
-Não posso dizer – Disse ela, desviando
o olhar.
-Não pode ou não quer, Petrouska?
Ela o encarou calmamente.
-Não quero. Ela não sabe o que eu sinto
por ela.
-Eu a conheço?
Petrouska hesitou, mas logo negou:
-Não... não conhece...
-Petrouska, você está mentindo. Vi a sua
hesitação. Eu devo conhecê-la. E acho que sei quem é.
Petrouska o fitou desafiante.
-Se sabe quem é, diga!
-Gina Verlaine.
Os olhos de Petrouska se arregalaram,
surpresa com a resposta do rapaz.
-Como... como pôde saber quem era? –
Confirmou, sem poder negar.
Douglas sorriu com um brilho de malícia no
olhar.
-Petrouska, sou um homem vivido. E vivo
em um meio de pessoas de mente mais aberta, no show business tenho amigos e
amigas homossexuais. Eu havia notado seu modo de fitar Gina Verlaine, mas não
queria acreditar que estava certo em minhas suspeitas. Mas agora, quando você
me declarou que está apaixonada por uma mulher, matei a charada.
Ela baixou a cabeça, sentindo-se muito
exposta ao olhar especulativo de Douglas. Estava embaraçada, sentindo-se
vulnerável e com medo de ser tão transparente o que sentia. Se seu pai
descobrisse o que sentia por Gina...
Douglas tomou sua mão e a apertou,
fitando-a sem reprovação.
-Não fique com medo. Não estou com raiva
de você por estar apaixonada por Gina. Eu até entendo. Ela é uma mulher
fascinante. E para que não fique em desvantagem comigo, vou também contar à
você um segredo meu.
Petrouska o encarou, intrigada.
-Um segredo seu? Acha que deve
contar-me?
Ele suspirou, tomando um gole da bebida.
Fitou-a com olhar subitamente grave.
-Eu sou muito intuitivo. E sei que posso
confiar em você.
-Hum... obrigada pela confiança.
-Petrouska...eu não consigo ter uma
relação estável com qualquer mulher. Eu sei que muitas me desejam, porque sou
rico e filho de um homem poderoso no mundo do show business... mas elas se
desencantam depois que eu as levo para a cama.
Petrouska o encarou franzindo o cenho.
-Por que? Você... é... hum... – Disse,
embaraçada, sem saber como falar a palavra que poderia humilhar o rapaz.
Ele sorriu amargamente.
-Pode dizer a palavra. Está achando que
sou impotente, eu sei. Mas não é bem isso. Vou te contar do começo, para que
entenda, Petrouska.
E ele começou, com voz sem emoção,
olhando para a vista que as vidraças do living descortinavam, as luzes da
cidade:
-Eu tinha quinze anos quando meu pai se
divorciou de minha mãe. Ela casou-se logo novamente e me deixou morando com meu
pai, pois minha mãe só gosta mesmo de suas jóias e roupas.
-Oh... sinto muito... – Disse Petrouska,
com pena do rapaz.
-Não sinta. Eu a odeio e quero que ela
se dane – Disse Douglas, sem emoção – Continuando... meu pai um dia apareceu em casa com uma mulher trinta anos mais jovem que
ele, Diane Custon.
A voz de Douglas se reduziu quase a um
sussurro. Ele não a fitava, estava com o olhar perdido, como se estivesse
regressado ao passado.
-Ela era linda, Petrouska.Eu a fitava
disfarçadamente, durante o jantar, sabendo que ela era a estrela do novo filme
que meu pai estava produzindo e que ela estava ali jantando com ele porque era
sua nova amante. Era sempre assim. Toda
vez que ele começava um novo filme, se envolvia com a atriz principal e tinham
um romance que só durava até as filmagens acabarem.
Petrouska não comentou nada, deixando-o
falar. Algo lhe dizia que Douglas queria se desabafar de algo que o
atormentava.E ele prosseguiu:
-Eu me apaixonei por ela, Petrouska.
Cada vez que ela ia dormir lá em casa, eu a fitava mudo, sem coragem de dizer
uma palavra. Queria ser espirituoso, desenvolto, mas quando a via, ficava mudo
e trêmulo, fitando-a como um idiota. E Diane me tratava com frieza, aquele tipo
de tratamento distante que um adulto dá à uma criança chata.
Ele respirou fundo e continuou:
-Uma noite, depois do jantar, eu notei
que o clima entre eles não estava bem. Mal se falavam, com evidente tensão. Em
vez de subir para meus aposentos depois do jantar, como sempre fazia, fingi me
retirar e me escondi, para ver o que eles iriam fazer. E logo o que ouvi foi
meu pai xingá-la com raiva.
-Sua vaca! Eu
estaria louco se casasse com você! Tire isso da cabeça!
-Seu velho nojento! Já recusei me casar
com homens bem melhores que você! Quem pensa que é? Iludiu-me esse tempo todo!
Mas vou vingar-me! Você vai conhecer quem é Diane Custon!
-Você não passa de uma vagabunda que
teve sorte! Não tem talento algum, só um belo rosto e um bom par de tetas!
Devia ser agradecida de eu dar à você o papel principal do filme!
Ela partiu para cima dele aos tapas, gritando palavrões. Meu
pai a prendeu pelos pulsos e a colocou de bruços na mesa de jantar. Ela
debatia-se e ele a dominava com facilidade, rindo. E eu vi meu pai levantar a
saia dela, baixar a calcinha, abrir a sua própria calça e violentar Diane, que
chorava e gritava. Depois ele saiu, a deixando ali.
Eu saí de meu
esconderijo e me aproximei dela. Estava furioso com meu pai pelo que havia
feito. Ela me viu e se levantou da mesa, se recompondo apressada e dizendo:
-O que estava
olhando, garoto curioso?
Eu falei
revoltado:
-Meu pai foi um
canalha. Eu vi como ele a tratou.
Ela me fitou
ajeitando a saia.
-Viu? Viu o quê?
-Tudo! Ele não
merece nem tocar em seus pés, Diane... você é uma mulher para ser tratada como
uma rainha! Você devia ter um homem que a adorasse, que a amasse como merece!
Ela me fitou com
malícia.
-Hummm, e você
seria esse homem, não é?
-Eu seria... se
me quisesse – Eu respondi, baixando os olhos.
-Quantos anos
tem, Douglas?
Eu a encarei.
-Quinze.
-Já trepou com
uma mulher?
-Nnnão... mas eu...
sei como é... já vi filmes...
Ela riu e se
aproximou de mim, erguendo meu queixo e me fitando avaliadoramente.
-É um garoto
bonito, Douglas... e aquele filho da puta merece um bom par de chifres. E você,
por ser filho dele, é o candidato mais interessante para isso. Mas primeiro,
deixe-me ver o material.
Petrouska
o fitou erguendo as sobrancelhas.
-Ver o material?
Douglas a fitou sorrindo embaraçado.
-Meu pênis. Ela queria ver o tamanho.
-Oh! – Fez Petrouska, enrubescendo
intensamente – E aí? Você se tornou amante dela? Corte os detalhes, por favor.
-Está bem... resumindo o relato, eu me
tornei amante de Diane nessa mesma noite. Ela foi para o meu quarto e ela
começou a usar-me como instrumento de vingança ao meu pai.
Ele se ergueu, fitando a paisagem lá
fora e continuou, com voz trêmula:
-Desculpe-me...bem,
resumindo, ela me fez entrar em uma relação sado-masoquista. E eu me submetia,
apaixonado, até que ela cansou de mim e me despediu friamente, dizendo que ia
para Londres fazer um novo filme e que não queria continuar aquela relação. Eu
implorei, chorei, mas ela manteve-se irredutível. Mandou-me embora friamente e
nunca mais a vi. Mas aquela experiência marcou minha vida. Em todas as outras mulheres que tive depois, eu
procurei e procuro ainda um traço de Diane. E nenhuma consegue me dar prazer
como ela. Eu procuro uma mulher que me excite como Diane, que me domine e me
faça fazer loucuras. E por isso, as mulheres não gostam de ter sexo comigo.
Elas geralmente não gostam de um homem que goste de ser dominado numa cama.
Petrouska
fitou o rapaz sob nova compreensão. Ele era um masoquista. E quanto mais o
repelisse e destratasse, mais apaixonado ficaria. Que loucura!
-Douglas,
estou entendendo-o. Mas aviso que não tenho nada a ver com Diane Custon. Nunca
faria com você as coisas que ela fazia. Não sou sádica, nem iria para a cama
com uma pessoa sem amor.
Ele
a fitou com ar decepcionado.
-Eu
estou interessado em você, Petrouska. E eu acho que você tem algo de Diane. Não
sei bem o que é, mas depois de muito tempo, estou muito atraído por uma mulher.
E acho que podemos tentar...
Ela
se ergueu do sofá, fitando-o com ar decidido.
-Douglas,
o máximo que podemos ser é amigos. Não sou sádica e não estou apaixonada por
você. Não sou a mulher que procura.
Os
olhos dele luziram de cólera.
-Por
que está me recusando? Você não é melhor que eu! Você está interessada em uma
mulher! Você pensa que é uma lésbica, mas garanto que se provar um homem, vai
ver que estava enganada! Isso é uma loucura que está querendo fazer, não é
normal!
Petrouska
o fitou furiosa.
-Você,
dizendo-me o que é ou não normal?! Você, que gosta de sexo bizarro, que é um
masoquista? E agora quer me dizer o que
é certo e errado?! Eu pensei que você fosse liberto desse tipo de preconceito,
mas vejo que enganei-me com você! Admite seus próprios erros e os acha normais,
mas condena os de outra pessoa!
-Mas
eu gosto do sexo oposto, como deve ser!
Você, não! Percebe a diferença? – Disse ele, pegando-a pelos ombros.
Petrouska
se desvencilhou dele, empurrando-o, os olhos cheios de ira.
-Hipócrita,
preconceituoso, estúpido! O sol não nasceu só para você, Douglas! Ele nasceu
para toda a espécie de ser humano! Ainda bem que você se mostrou quem realmente
é: um medíocre cheio de preconceito!
Ele
a fitou assustado, visivelmente arrependido de suas palavras.
-Petrouska,
desculpe-me! Eu não queria ofendê-la!
-Mas
ofendeu! E quero distância de gente como você, insensíveis e cheias de falsa
moral! Você tentou vulgarizar e rebaixar um sentimento que trago dentro de mim,
que considero o que melhor sinto, desde que me entendo por gente! Agora chega,
Douglas! Não quero ser amiga de um homem como você!
E
dizendo isso, correu para a porta, a abriu e saiu, batendo-a atrás de si.Desceu
pelas escadas, para Douglas não ter tempo de alcançá-la. Pegou um táxi e voltou
para o hotel.
))))))((((((
As
cortinas se cerraram na cena final, Violetta morta nos braços de Alfredo, e o
público irrompeu em aplausos e gritos .
-Bravo!
Bravo!
Gina
veio ao palco várias vezes, agradecer os aplausos estrondosos, acompanhada do
maestro Vonsky e o tenor Barbera, com uma corbeille de flores nos braços.
Depois de várias aparições, as cortinas se cerraram definitivamente e Gina foi
cercada por várias pessoas, felicitando-a.
Petrouska
aproximou-se timidamente. Queria avisar ao seu pai que não iria para a
comemoração da estréia, com ele e Gina. Estava cansada, e não queria encontrar
com Douglas que certamente estaria na comemoração, além de ficar torturando-se
vendo Gina cercada de admiradores, sem poder ter a atenção dela.
O olhar de Gina caiu sobre o seu, quando
aproximou-se. Ela sorriu, e Petrouska sentiu suas pernas fracas, ao contemplar
aquele rosto belo iluminado pelo sorriso de dentes branquíssimos e perfeitos.
-Vonsky, aí está Petrouska – Disse, com
simpatia – Ela vai nos acompanhar na comemoração, não vai?
O maestro sorriu para Petrouska,
dizendo:
-Claro que ela vai, Gina.Afinal, ela
também contribuiu com sua execução, mesmo não sendo a spalla, não é, Petrouska?
Petrouska ia responder, quando Douglas
se acercou, olhando-a ansioso.
-Petrouska, pode vir comigo? Queria falar com você. Podemos ir juntos para a festa da comemoração.
Petrouska o fitou friamente. Douglas,
desde aquela noite no apartamento dele, vivia telefonando para ela,
procurando-a no hotel, mas ela nunca o recebia ou atendia seus telefonemas. A
insistência dele a estava irritando. Resolveu ser brutal. Talvez isso o fizesse
desistir.
-Não temos nada a falar, Douglas.Espero que
entenda isso de vez e me esqueça – Disse, friamente.
Douglas empalideceu e falou com voz
mortificada:
-Não sabia que não queria ao menos ser
minha amiga. Tudo bem.
E ele afastou-se.
-Petrouska! Porque foi tão estúpida com
o rapaz? – Perguntou o maestro, indignado – Não a eduquei para fazer isso!
Petrouska fitou o pai com irritação.
-Eu não quero nada com ele, será que ele
não percebe isso? Tive que ser mais dura para ele entender!
-Você vai pedir desculpas ao rapaz! O que fez foi uma grosseria inadmissível! – Disse o maestro, com voz autoritária.
Gina, que fitava a cena surpresa, sentiu a chama da esperança nascer em seu peito. Talvez estivesse errada em suas suposições! Petrouska não estava interessada em Douglas Forlan, mesmo ele sendo rico e bonito! E então, poderia ter uma chance! E ela iria se agarrar à essa chance com unhas e dentes! Assim pensando, falou sorrindo, pegando Petrouska pelo braço e falando para o maestro:
-Vonsky, deixe que eu converso com Petrouska! Isso deve ser uma conversa entre mulheres, não entre pai e filha, você parece não entender que Petrouska é uma garota que já sabe o que quer!
O maestro sorriu, envolvido pelo charme de Gina.
-Oh, tudo bem, dê uns conselhos à ela, Gina.
Gina se voltou para Petrouska, que a fitava tremendo de emoção pelo contato de sua mão no braço dela.
-Venha comigo até meu camarin, Petrouska. Os cavalheiros nos esperarão. Tenho que trocar de roupa e retirar a maquiagem.
Petrouska a acompanhou, tonta de emoção. Ela a estava levando para o seu camarin! Iam ficar à sós, ia ver ela trocar de roupa!
Atravessaram os bastidores e o corredor que levava aos camarins, com Gina recebendo cumprimentos efusivos de várias pessoas. Gina sorria, acenava, parava para uma foto, mas não largou seu braço até entrarem no camarin e fechar a porta com o trinco. Então, voltou-se para Petrouska com seu olhar enigmático.
-Petrouska, não gosta de mim?
Petrouska a fitou assustada.
-Eu?! Não, não tenho nada contra você... por que está me perguntando isso?
Gina sorriu ambiguamente, se aproximando de Petrouska.
-É a impressão que me dá. Nunca acompanhou eu e o maestro a um almoço, durante os ensaios.
-Oh... dei essa impressão? Mas nós nem nos conhecemos direito! Nunca nos falamos!
-Justamente.Você nunca quis conhecer-me melhor. Sempre evita os lugares que estou. Por que?
Petrouska a fitou confusa. A grande Gina Verlaine preocupada com os seus sentimentos em relação à ela? Por que? Estava interessada nela? Absurdo! Gina simplesmente não admitia que alguém não a bajulasse.
-Ajude-me a tirar essa roupa. Desabotoe o vestido atrás – Disse Gina, voltando as costas para ela.
Petrouska contemplou as costas douradas de sol, com os músculos aparecendo sob a pele lisa. Depois de hesitar, começou a desabotoar o vestido, sentindo choques com seus dedos tocando a pele quente e macia.O cheiro do perfume dela também era maravilhoso, intoxicante.
-E então, não vai responder? – Perguntou Gina, com a voz estranhamente alterada.
-Oh! Está bem... Eu não tenho nada contra você, Gina. Foi tudo coincidência. Não a evitei.– Mentiu.
Petrouska terminou sua tarefa e Gina desceu o vestido pelos ombros, até ele deslizar para o chão. Ela mesma retirou a armação que dava volume à saia e saiu daquele enredo de roupas, somente em um conjunto de calça e sutian de renda negra.
Petrouska foi impotente para desviar os olhos. Gina tinha um corpo belíssimo e atraente, de ombros largos, seios de bom tamanho, braços com musculatura levemente definida, assim como o abdômem, o ventre chato, sem uma grama de gordura, as coxas longas e fortes. Tudo em um tom dourado de sol, como uma fruta madura pronta a ser saboreada.
Se Gina tinha alguma dúvida da atração de Petrouska por ela, isso se desfez com o olhar de fome com que a garota percorreu seu corpo. Gina sentiu um arrepio de prazer, como se aqueles olhos a tivessem tocando. Por Deus, o que sentiria quando a boca de Petrouska a tocasse?
Teve vontade de pegá-la e a jogar sobre o sofá do camarin, para devorar aquela boca vermelha, mas conteve-se. Não queria assustar a garota.
-Você não tem mais nada com Douglas Forlan? – Perguntou, se sentando diante do espelho e começando a retirar a pesada maquiagem teatral, retirando os cílios postiços.
-Douglas? Eu nunca tive nada com ele.
Gina a fitou pelo espelho.
-Então, não está interessada nele, definitivamente?
Petrouska resolveu ser maliciosa. Cruzou os braços e a fitou com desafio.
-Por quê? Está interessada nele e quer saber se tem o caminho livre?
Gina jogou a cabeça para trás e riu, fitando-a com um ar divertido.
-Acha que estou interessada naquele garoto?! Conhece-me muito mal, Petrouska!
A voz soou cheia de ironia, desconcertando Petrouska, reconhecendo que havia sido agressiva.
-Tem razão. Conheço-a muito mal. E por isso não entendi porque me chamou ao seu camarin.
-Quero conhecê-la melhor. Vai à comemoração? É uma boa ocasião para nos conhecermos melhor.
Petrouska fitou aqueles olhos magníficos pelo espelho e foi sincera:
-Não acho. Você vai estar tão assediada que mal poderá trocar umas palavras com qualquer pessoa.
Gina sorriu, fitando-a, passando um creme no rosto para retirar a maquiagem.
-E você estaria interessada em conhecer-me melhor? Sem ninguém mais que nós duas por perto?
Petrouska enrubesceu. Ela a estava deixando nervosa. Estaria se divertindo com o seu nervosismo? Mas agora era tudo ou nada:
-Sim, Gina. Gostaria muito de conhecê-la melhor.
Gina suspirou, como se tivesse ultrapassado um grande obstáculo. Apanhou sobre a bancada um bloco com caneta e escreveu rapidamente. Retirou a folha, dobrou-a e estendeu para Petrouska, voltando-se e a fitando calorosamente.
-Amanhã, procure-me nesse endereço, por volta das duas da tarde. É em Statten Island, fora de New York, você precisará pegar um táxi. Mas lá nós poderemos nos conhecer melhor.
Petrouska pegou o papel e a fitou com um sorriso tímido.
-Estarei lá, Gina. Até amanhã.Eu... não vou à comemoração. Não quero mais falar com Douglas, e sei que ele estará lá.
-Acho que tem razão em não ir. Será uma festa tediosa, mas eu infelizmente, não posso faltar – Disse Gina, sorrindo para ela – Até amanhã.
Se fitaram em silêncio sorrindo, e Gina foi até a porta, a abriu e Petrouska saiu. Estava se sentindo nas nuvens, em estado de maravilhosa estupefação. Ia encontrar com Gina amanhã! Haviam marcado um encontro! Ela queria conhecê-la melhor!
Seu coração batia descompassado, cheio de esperança.Será que Gina estava também atraída por ela? Seria possível? Ou ela estava fantasiando demais um simples gesto de cortesia? Não, havia algo mais! Aqueles olhos magníficos a haviam fitado com um calor fora do normal, com vivo interesse. Quantas pessoas gostariam de estar em seu lugar? Oh, Gina! Mal podia esperar o dia seguinte chegar!
O dia seguinte marcaria a confirmação de suas esperanças, ou a desilusão total.Estava com medo disso, mas não aguentava mais as suas dúvidas. Tinha que conhecer a verdade!
Continuará na parte 5