PRIMA DONNA

 

 

parte 3

 

        Petrouska acordou com o telefone do hotel tocando na mesinha de cabeceira da cama. Olhou-o com o cenho franzido. Quem seria? Gina não sabia seu telefone, além do fato de ter ido dormir provavelmente de madrugada.

 

        Pegou o fone e o levou ao ouvido, olhando para o relógio de cabeceira. Eram oito horas da manhã.

 

        -Alô.

 

        -Senhorita Petrouska? Aqui é a telefonista do hotel. O senhor Douglas Forlan está na linha, completo a ligação?

 

        -Oh... sim, por favor – Disse, ainda meio adormecida.

 

        A telefonista liberou a ligação e a voz de Douglas chegou até Petrouska:

 

        -Bom dia, Petrouska! – Disse Douglas, alegremente.

 

        Petrouska respondeu sem muito entusiasmo, bocejando:

 

        -Oh, bom dia, Douglas...

       

        -Hum... acho que liguei cedo demais, não? Pela sua voz, minha ligação a acordou.

 

        -Bem, realmente, mas tudo bem. Preciso mesmo me aprontar para ir para o Metropolitan...

 

        -Menos mal. Desculpe se interrompi seu sono, mas estava ansioso para falar com você. Sabe que não deixei de pensar em você desde que se foi da recepção à Gina Verlaine?

 

        Petrouska sentou na cama, sonolenta.Olhou para o relógio de cabeceira. Sete da manhã. Esse rapaz devia estar ansioso mesmo!

 

        -É mesmo?

 

        -Verdade. E quero vê-la o mais cedo possível. Quer almoçar comigo hoje?

 

        -Não sei se será possível. Tenho que ensaiar com a orquestra e não sei a que horas haverá um intervalo para almoço.

 

        -Eu espero. Será um prazer vê-la tocando violino. Passarei no teatro às doze horas. Até lá, princesa. Não vou tomar mais seu tempo agora.Beijos.

 

        E ele desligou. Petrouska pousou o fone no gancho e se levantou da cama . Não estava entusiasmada com o telefonema de Douglas. Sabia que qualquer garota se sentiria nas nuvens por ser alvo do interesse dele, mas ela não. O rosto de Gina Verlaine apareceu em seu pensamento, fazendo-a suspirar.

 

        -Maldição! – Resmungou, indo para o banheiro.

 

        Tomou seu banho pensativa. Precisava se ligar a alguém, para esquecer aquela paixão insensata por Gina. E Douglas podia ser a pessoa certa para fazê-la esquecer Gina.

 

        Depois, já vestida, apanhou o estojo do violino e dirigiu-se para a sala de estar. Seu pai já havia tomado o seu desjejum,  e agora lia o jornal, já pronto para sair. Ele a fitou com o rosto fechado.

 

        -Bom dia, pai.

 

        -Coma o seu desjejum rápido. Já estamos atrasados.

 

        Petrouska colocou o estojo numa poltrona e sentou à mesa, pegando a jarra de suco de laranja, olhando para o pai curiosa.

 

        -E a ceia? Correu tudo bem?

 

        Ele a fitou rapidamente, tornando a baixar os olhos para o jornal em suas mãos.

 

        -Sim. Gina sabe receber as pessoas.

 

        -E Carla Zamproni? Ceiou com vocês?

 

        Ele franziu o cenho, fitando-a.

 

        -Ceiou. Ela está hospedada com Gina.

 

        Petrouska teve vontade de rir. Naturalmente, Carla havia atrapalhado os planos de seu pai se declarar à Gina. Bem feito, ele não se enxergava? Devia ter de vinte anos mais que ela!

 

        Mas uma idéia a assaltou: por que aquela mulher estava hospedada com Gina? Eram tão amigas assim? Ou... algo mais? Ora, que se danassem as duas!

 

        Foi com seu pai para o teatro. Gina ainda não havia chegado. Petrouska tomou seu lugar na orquestra, sob os olhares disfarçados de seus colegas.Ela havia prendido seus cabelos para cima e vestia uma blusa de seda branca e uma saia justa negra, mostrando as pernas fortes e bem torneadas.

 

        O maestro Vonsky bateu com a batuta no pódio, chamando a atenção da orquestra.

 

        -Vamos ensaiar a abertura da ópera, enquanto Gina Verlaine não chega – Avisou.

 

        Petrouska abriu a pauta musical e posicionou o violino no ombro, esperando a regência do maestro começar. Ele ergueu a batuta e a orquestra começou a abertura da ópera La Traviata, de Verdi. Os instrumentos de corda, predominantes nessa música, emitiram suas notas prenunciando a tragédia de Violetta Valery, a trágica personagem principal da ópera, uma prostituta de luxo que se apaixona por um rapaz  a quem é forçada a renunciar e acaba morrendo de tuberculose no final da ópera, cujo libreto foi baseado no romance de Alexandre Dumas “A Dama das Camélias”, grande clássico literário.

 

        No meio da música, Petrouska viu Gina chegar. Ela aproximou-se devagar, vestida elegantemente com blusa de seda negra de mangas compridas, e calça cinza de corte clássico, reto.Os cabelos presos em um coque, estava linda, o olhar percorrendo a orquestra e finalmente se fixando no seu. Um olhar enigmático, mas que aos poucos foi mostrando admiração vendo Petrouska tocando violino. Emocionada com aquele olhar, Petrouska esmerou-se na execução.Fitava Gina e recebia de volta  a chama daqueles olhos azuis, que não a deixavam um minuto sequer.

 

        O rosto dela estava agora com uma expressão de enlevo que fez Petrouska encantar-se. Tocou para ela, mergulhada em um encantamento em que via somente Gina. Em sua imaginação, estavam sozinhas em meio a uma nuvem dourada, em uma paisagem paradisíaca.

 

        A música terminou.Gina ainda a fitou por um momento, mas depois voltou-se para falar com o pai de Petrouska e o encanto se quebrou.

 

        -Bom dia, Vonsky. Barbera já chegou?

 

        O maestro franziu o cenho, com desgosto.

 

        -O secretário particular dele ligou dizendo que ele está com uma forte gripe, acamado.

 

        Os olhos de Gina luziram de indignação.

 

        -Como?! Então, estou sem o meu parceiro para ensaiar? Devia ter mandado avisar-me, Vonsky! Acordei cedo para nada! – Disse ela, mostrando seu conhecido temperamento de prima-donna.

 

        Petrouska teve vontade de rir da cara de seu pai. Era impressionante como Gina conseguia reduzir o orgulhoso maestro a um mísero ser confuso e aflito.

 

        -Eu soube há apenas minutos, Gina! Mas podemos ensaiar a ária Sempre Libera, em que ele aparece quase nada – Argumentou o maestro, com tom humilde.

 

        Gina olhou para o maestro, irada.

 

        -Não vou ensaiar sozinha! Aquele estúpido deve estar é de ressaca, de alguma farra! Sei bem a fama que ele tem! Pois não vou ficar aqui enquanto Barbera ronca em sua cama! Vou para o hotel e só voltarei quando me disserem que Barbera está aqui, pronto para ensaiar! Passe bem, maestro!

 

        E Gina retirou-se com passadas furiosas, deixando o maestro com uma cara atoleimada.Petrouska ouviu os risinhos abafados dos componentes da orquestra.Eles haviam adorado a cena. O maestro Vonsky ser tratado daquele jeito por alguém era inédito e eles sentiam-se vingados da tirania do orgulhoso maestro.O maestro colhia os frutos do que semeara.

 

        O maestro estava pálido, mas voltou-se para a orquestra com um olhar feroz.

 

        -Vamos ensaiar mais uma vez a abertura da ópera! – Gritou.

 

        Ele ergueu a batuta e a orquestra começou a executar a música.Petrouska deu os acordes em seu violino, junto com os outros. O olhar do maestro Vonsky caiu sobre ela e ele fez um sinal para a orquestra parar.

 

        -Petrouska! – Gritou ele, irado – Está desafinando! Será que ainda não aprendeu a tocar seu instrumento de forma aceitável?

 

        Um silêncio pesado caiu no recinto.Todos olharam para Petrouska com mórbida curiosidade e divertimento, querendo ver a reação que teria.

 

        Ela ergueu-se, encarando o pai com revolta.

 

        -Não queira descontar em mim sua frustração por Gina Verlaine ter abandonado o ensaio! Se Gina Verlaine o deixou aí plantado e foi embora, não me use para tentar restaurar sua autoridade diante dos membros da orquestra!

 

        Ela guardou seu violino no estojo sob o olhar de todos e se dirigiu para a saída.

 

        -Petrouska! – Gritou o maestro, fitando a filha incrédulo e vermelho de raiva – Volte para o seu lugar!

 

        Ela parou e voltou-se para ele, fitando-o com frieza.

 

        -Você é um tirano, pai! Trata todos que o cercam como se fossem seus escravos! E o seu saco de pancadas sou eu, mas agora chega! Estou me demitindo agora!

 

        E ela saiu, como Gina Verlaine saíra momentos atrás: com passadas furiosas, o queixo erguido e o olhar desafiador.

 

        Na porta do teatro, olhou para os lados, indecisa. Optou pela direita e saiu sem destino, sentindo a ira ser substituída por um profundo ressentimento. Pensou então que não iria voltar atrás. A decisão estava tomada. Não podia mais agüentar ser humilhada pelo seu pai diante de todos.

 

        Parou diante de uma loja, dois quarteirões depois. Era um salão de beleza e ela sorriu com a idéia que veio à sua mente. Entrou, tomando uma decisão.

 

        Uma elegante recepconista veio logo atendê-la.

 

        -Bom dia, tem hora marcada?

 

        Petrouska olhou para a alta loura e falou:

 

        -Na verdade, não. Ia passando e resolvi cortar meus cabelos. Tem algum cabelereiro disponível?

 

        -Não sei. Vou consultar a agenda. Um momento. Pode sentar, enquanto aguarda – Disse, indicando confortáveis poltronas de couro.

 

        Petrouska sentou, enquanto a moça foi falar com outra diante do computador. Ela voltou minutos depois, sorrindo.

 

        -A senhorita está com sorte, uma cliente desmarcou. A companhe-me.

 

        Uma hora e meia depois, Petrouska saiu do salão com os cabelos cortados em um corte moderno, com uma franja desfiada na testa, a nuca batida.

 

        Petrouska sorria satisfeita. Os cabelos curtos a haviam rejuvenescido, parecendo uma adolescente, era mais confortável e se sentia mais bonita com eles assim. Vida nova, nova aparência! O cabelo cortado  seria o símbolo de sua mudança de vida.Pouco se importava se não gostassem. Ela gostava e isso era o bastante.

 

        Resolveu ir para o hotel. Faria suas malas e esperaria seu pai chegar. Enfrentaria a fúria dele , diria tudo que sempre se contivera em dizer, e iria embora. Viveria de suas pinturas. Podia passar por mil dificuldades, mas não voltaria para ele.

 

        Quando abriu a porta do apartamento, ouviu o telefone tocando.Entrou, fechou a porta e foi atender com voz neutra, ocultando sua ansiedade.

 

        -Alô.

 

        -Petrouska! Estou há mais de meia hora ligando para aí!

 

        Ela reconheceu a voz de Douglas.

 

        -Oh, é você, Douglas...

 

        -Estive no teatro e disseram que você discutiu com seu pai e saiu. Fiquei preocupado. Você está bem?

 

        -Estou, Douglas. Obrigada pela preocupação, mas está tudo bem.

 

        -Posso ir até aí, pegá-la para almoçar?

 

        Petrouska ia negar, mas pensou que sua mudança tinha que incluir o modo como encarava os homens. Tinha de deixar de ser aquela garota inexperiente, sem vida própria.Pois iria mudar tanto, que nem seu pai a reconheceria.

 

        Assim, falou com falsa alegria:

 

        -Oh, boa idéia. Estarei esperando-o .

 

        Ele desligou e Petrouska foi para o banheiro. Tomou um banho e começava a vestir-se quando o telefone tocou. Ela atendeu e a recepção avisou que Douglas estava lá e se ela queria que ele subisse. Petrouska concordou e desligou o telefone, acabando de vestir uma saia e uma blusa de malha .Logo ouviu a batida na porta e foi atender. Abriu-a e Douglas a fitou atônito, vestido com roupas esportivas.

 

        Ela riu da cara dele, afastando-se para ele entrar.

 

        -Fiquei tão diferente assim?

 

        Ele passou por ela, fitando-a aturdido.

 

        -Jesus! O que fez com seu lindo cabelo?

 

        Ela o fitou com desafio.

 

        -Enjoei dele longo e cortei. Não gostou?

 

        -O corte está ótimo, mas seus cabelos longos eram tão lindos! Por que os cortou?

 

        -Tive vontade. E gostei do resultado. É mais fácil de cuidar.

 

        Ele sorriu, fitando-a apreciativamente.

 

        -Bem, não ficou mal. Você é linda e qualquer modo de seu cabelo fica bem em você. É que fiquei surpreso com a mudança. Você parece outra pessoa. Mais moderna, mais jovem...

 

        -Que bom, é isso que eu queria.Não quer sentar-se?

 

        -Não, temos que ir. Eu fiz reserva no Gino’s, um restaurante no bairro Tribeca, já ouviu falar?

 

        -Não, mas confio em seu bom gosto.Vamos indo então, Meu pai pode chegar a qualquer momento e não quero falar com ele agora.

 

        -Tudo bem, Petrouska, eu entendo. Vamos então.

 

        Saíram e foram para o restaurante no BMW último tipo de Douglas, que abriu a porta para ela como um perfeito cavalheiro. Foram conversando sobre amenidades e Petrouska percebeu que  ele era um rapaz divertido, com uma cultura acima da média e um eclético apreciador de música, da  erudita ao Hip  Hop..

 

        No restaurante, comeram um delicioso medalhão grelhado com batatas dourè ao molho de alcaparras, conversando sobre vários assuntos. Petrouska não se sentia nem um pouco atraída sexualmente pelo rapaz, apesar de reconhecer que ele era bonito e agradável. Estava gostando da companhia dele, ria das coisas que ele dizia, com seu senso de humor, mas era somente isso. Ele poderia ser um bom amigo, mas nada mais.

 

        A imagem de Gina Verlaine veio à sua mente, atordoando-a . Era ela quem queria, por mais que procurasse tirá-la de sua mente. Ah, que deliciosa emoção tivera, ao receber aqueles beijos formais no rosto, quando haviam se despedido!

 

        -Petrouska, o que há? Parece não estar me ouvindo, com um olhar perdido...

 

        Ela o fitou, saindo de sua abstração.

 

        -Oh, desculpe-me... o que dizia?

 

        -Que estou muito interessado em você. Que gostaria de vê-la mais vezes.

 

        -Oh! Estou lisonjeada por seu interesse, Douglas. Mas há quantas mulheres já disse isso? – Disse em tom de brincadeira, não querendo levar à sério as palavras dele.

 

        Ele a fitou sério.

 

        -A nenhuma. Você é a primeira que digo isso.

 

        -Acho que está exagerando. Você deve ser o alvo do interesse de várias moças, nas festas que vai. Deve ser muito requisitado.

 

        -Petrouska, posso ser franco com você?

 

        -Claro, Douglas. Adoro franqueza.

 

        -Bem...normalmente, eu não preciso fazer nenhum esforço para conseguir uma garota, para levá-la para a cama. Por que sou rico, conhecido, sou inteligente e charmoso...

 

        Petrouska riu com sarcasmo, fitando-o .

 

        -Humm... que modéstia, a sua...

 

        Ele riu também.

 

        -Eu sei, isso soa arrogante, não? Mas é o que a imprensa diz de minha pessoa. E as moças concordam.Mas, como dizia, eu realmente já andei com muitas garotas, todas ansiosas para ir para a cama comigo. E foi somente isso, sexo. Nenhuma delas tinha qualidades que me atraíam além de um corpo bonito. Você é muito mais que um corpo bonito, Petrouska.

 

        Petrouska o fitou erguendo suas sobrancelhas.

 

        -E o que o faz pensar assim?

 

        -Já percebi que você é diferente dessas garotas. Você esteve sozinha comigo em um apartamento de hotel sem querer me levar para a cama. Você não está interessada em um bom papel nos seriados que a tv de meu pai produz. Você não está tentando me convencer como sou especial e como está apaixonada por mim... Petrouska, você é uma garota especial.

 

        Petrouska suspirou. Ah, se fosse Gina quem estivesse falando assim com ela!...

 

        -Douglas, como já disse, estou lisonjeada por suas palavras, mas vamos ser menos sérios. Eu levo uma vida bem diferente da sua e não moro na América. Mal nos conhecemos, vamos apenas desfrutar sem compromisso da companhia um do outro, está bem?

 

        Ele a fitou decepcionado.

 

        -Por enquanto, isso é tudo que desejo, Petrouska. Você não parece estar compartilhando o meu interesse, mas vou lutar contra isso. Vamos nos conhecer melhor . Sei que a ópera irá estrear dentro de uma semana e vai ter  uma temporada de três semanas. Só peço à você que me dê a chance de estar com você, de você conhecer-me melhor.

 

         -Douglas, não conte com isso. Como sabe, briguei hoje com meu pai e me demiti da orquestra.Não sei ainda se vou ficar aqui em New York. Preciso arranjar um meio de ganhar a vida.

 

        -Petrouska, deixe-me ajudá-la! Você pode trabalhar na tv de meu pai, vou falar com ele...

 

        -Não, Douglas. Por favor, não quero que me ajude. Eu posso me arranjar com meu próprio esforço. Vou pintar, vou tocar em outra orquestra, vou fazer o que puder para poder viver minha vida sem depender de ninguém.

 

        -Mas, como vou vê-la, se for embora?

 

        -Eu pretendo ficar em New York pelo menos uma semana. Vou procurar emprego aqui. Se não conseguir, vou embora.

 

        -E eu irei  até onde você estiver, Petrouska.

 

        Ela olhou para o relógio de pulso . Uma da tarde. Olhou para Douglas.

 

        -Tenho que ir. Meu pai já deve ter chegado do teatro e preciso ter uma conversa com ele.

 

        -Vou pedir a conta. Posso ir buscá-la para jantar hoje comigo?

 

        -Não, hoje não. Vou conversar com meu pai seriamente e talvez não tenha espírito para sair.

 

        -Tudo bem, Petrouska. Não vou pressioná-la. Amanhã  então poderemos jantar juntos?

 

        -Não sei. Ligue para mim depois de meio dia.

 

        -Está bem.

 

        Quando Petrouska chegou em casa deparou com seu pai sentado na sala de estar, olhando tv com uma expressão fechada. Ele  a viu entrar e a fitou com olhar atônito.

 

        -Que diabos fez em seu cabelo?! – Perguntou, com incredulidade.

 

        Ela o encarou, tentando demonstrar uma serenidade que não sentia.

 

        -Cortei-o.

 

        -Cortou?! Você fez uma loucura, sem consultar-me! Está parecendo um menino, com esse cabelo!

 

        Ela deu de ombros, sentando-se diante dele e o encarando.

 

        -Fo uma decisão pessoal minha e o senhor deve respeitar. Em minha aparência, mando eu.

 

        Ele a fitou boquiaberto e passou a mão nos cabelos, em um gesto de desalento.Ela esperou a explosão de raiva, mas o que ouviu foi uma voz cheia de amargura:

 

        -Não a reconheço mais, Petrouska! Onde está aquela garota dócil, que não fazia nada que me desagradasse, obediente e sensata? Você agora só vive desafiando-me,como se de repente me odiasse! O que está havendo com você? Quem a está jogando contra mim?

 

        -Ninguém está me jogando contra você, pai! O que aconteceu é que simplesmente eu cresci! E não quero passar toda minha vida só fazendo o que você achar melhor para mim. Tenho o direito de ter meus sonhos e desejos independentes de suas vontades. Acho que cheguei ao meu limite de aceitar suas ordens e humilhações! Por isso me demiti da orquestra. Quero fazer o que realmente gosto e para você não tentar impedir-me, vou me afastar de você. Vou sair daqui e me hospedar em um hotel mais barato, até conseguir um apartamento para morar.

 

        Ele a fitou com ar derrotado e falou com tristeza:

 

        -Não pensei que   odiasse tanto tocar violino! Que quisesse se afastar de mim. Que não reconhecesse meus cuidados com você, para ser uma grande violinista.

 

        -Não são cuidados, são imposições! – Discordou ela, erguendo as mãos em um gesto nervoso – Eu até gosto de tocar violino. E gosto de música erudita. Mas não de tocar sob sua regência! Você me usa como exemplo para a orquestra e me humilha pela menor falta diante de todos! E além disso, deseja de mim uma perfeição que nunca terei! Por que o meu dom maior é a pintura, pai! Mesmo que você não me dê valor nessa arte, é o que gosto de fazer! E só podemos fazer algo com perfeição se temos paixão por isso! E minha paixão é a pintura, não tocar violino!

 

        Ele ergueu os olhos, encarando-a . Com uma humildade que Petrouska não julgava possível ele possuir.

 

        -Talvez eu tenha exagerado. Exigi muito de você. Mas a minha intenção sempre foi torná-la uma exímia violinista, a melhor da atualidade. Pensei que depois você iria me agradecer por isso.

 

        -Pai, você quer me tornar uma exímia violinista por orgulho seu. Quer que a filha do maestro Vonsky seja a melhor, porque tem o seu nome. Você quer satisfazer um desejo seu, sem se importar com o que quero para mim. Isso é puro egoísmo! Você zombou das minhas qualidades como pintora sem ao menos ver um quadro meu! Quase acabou com meu sonho de persistir  nessa arte! Mas eu vou continuar a tentar realizar meu sonho, pai.  Queira você ou não!

 

        Ele suspirou e a encarou calmamente. No seu olhar só havia tristeza, para surpresa dela.Estava vendo um lado do pai que nunca pensara existir. Para onde tinha ido toda a arrogância dele?

 

        -Petrouska... se realmente sabe o que quer, se acredita no sonho que tem, vá até o fim. Muitos gênios da música e da pintura foram incompreendidos no seu tempo.Van Gogh, Mozart, e tantos outros, só tiveram o verdadeiro valor reconhecido anos depois de suas mortes. Van Gogh ficou louco e cortou a própria orelha, desesperado,  Mozart compunha músicas maravilhosas e vivia na penúria, no inverno tinha que ficar dançando quase a noite inteira para não morrer congelado, por não ter condições de aquecer a casa! E nunca desistiram de sua arte! Eu zombei de sua ambição como pintora deliberadamente, para ver se você iria desistir ou tentar mostrar-me que eu estava errado. Porque um artista que acredita em sua arte e a ama, pode sofrer críticas arrasadoras, mas prossegue, movido pela paixão por sua arte. 

 

        Petrouska o ouviu em silêncio, absorvendo aquelas palavras. Pela primeira vez, seu pai se dava ao trabalho de explicar um ato seu. Então, ele não agira por crueldade, mas para testá-la em sua vocação.

 

        Fitou-o com menos agressividade e mais compreensão.

 

        -Acho que entendi o que quis fazer, pai. Mas continuo firme em meus propósitos, não desisti da pintura. Por isso me demiti da orquestra. E se quiser impedir-me de dedicar-me à pintura, vou embora. O que tem a dizer?

 

        Ele a encarou derrotado.

       

        -Não vou impedí-la mais de seguir o seu sonho, Petrouska. Sei reconhecer quando fui vencido pelos fatos. Mas quero fazer um pedido, como maestro da orquestra. Poderá atender-me?

 

        Petrouska o fitou surpresa. Seu pai estava pedindo algo à ela! Pedindo e não impondo! Era uma novidade incrível!

 

        -Fale... – Pediu.

 

        -Petrouska, não abandone a orquestra agora. Estamos a menos de uma semana da estréia e não temos tempo de ensaiar outro violinista. Prometo que não vou mais chamar sua atenção. Vou tratá-la com menos rigor, já vi que meu método de fazer de você uma virtuose não funcionou. Não sou um idiota que não reconhece a derrota. Cumpra o contrato até o fim das apresentações e prometo liberá-la sem problemas. Poderá então seguir sua vocação – Ele disse, com voz trêmula.

 

        Petrouska achou o pedido razoável. E viu como seu pai estava abatido, a arrogância dele havia sumido como por mágica. Será que aquele homem arrogante era no fundo um sentimental, que se escondia numa máscara de tirano?

 

        -Está bem. Mas reafirmo que La Traviata será a minha última apresentação na orquestra, e se minha nova atividade der certo, a última para sempre em geral.

 

        O maestro suspirou aliviado, sorrindo para ela.

 

        -Amanhã recomeçaremos o ensaio. Gina e Barbera estarão à postos.

 

        -Mas ele não está gripado?

 

        -Não, ele mentiu. Fui ao hotel dele e o surpreendi bêbado com uma garrafa de uísque na mão. Quase dei uma surra naquele vagabundo. Coloquei ele sob a ducha fria e ameacei processá-lo por prejudicar o ensaio da orquestra, ocasionando perdas e danos. Amanhã ele vai ensaiar, tenho certeza.

 

        Ele abriu os braços, fitando-a com afeto.

 

        -Agora, dê um abraço no seu velho pai.

 

        Petrouska caiu entre os braços dele, emocionada. Há quanto tempo seu pai não a abraçava? Desde que era uma garota de quatorze anos! Ele a apertou nos braços, beijando seus cabelos, dizendo com voz embargada:

 

        -Quando sua mãe morreu, eu achei que não devia ser mais sensível aos sentimentos para não sofrer, Petrouska... e fui me tornando uma pessoa fria sem perceber...tentei dedicar todo meu sentimento à música, sem notar que você havia crescido e precisava de afeto...de viver seus próprios sonhos. Você hoje me fez enxergar como estava errado... e quase perdi seu afeto de filha. Eu a amo, Petrouska. E não quero que tenha raiva de mim. Perdoe seu velho pai que apenas quer o melhor para você?

 

        Ela se afastou e fitou o pai nos olhos. Os olhos dele estavam marejados de lágrimas!

 

        -Vamos esquecer o que passou, pai. Eu o amo também e fico feliz em saber que por baixo daquela fachada arrogante ainda tem um coração.

 

        -Por que não aproveita o resto da tarde e vai fazer umas compras? Você sempre desejou comprar suas roupas sem minha interferência na escolha.

 

        Ela o fitou com os olhos brilhando de excitação.

 

        -Está falando sério?!

 

        -Claro! Vou mudar meu modo de tratar você, filha. E a começar por hoje.Eu finalmente enxergo que cresceu e pode comprar suas roupas sem minha interferência.

 

        -Oh! Vou poder compar as roupas que sempre sonhei! Oh, pai, obrigada!

 

        Ele sorriu, fitando os olhos brilhantes da filha.

 

        -Esse brilho em seus olhos eu não vejo há anos, Petrouska! Vá, vá comprar as roupas que quiser!

       

))))))((((((

       

        Quando chegaram ao Metropolitan no dia seguinte, Gina Verlaine já estava lá, estudando a pauta musical. Ela ergueu os olhos e suas sobrancelhas se ergueram ao ver Petrouska entrar no palco. Os belos olhos azuis refletiram admiração e isso deixou Petrouska emocionada e satisfeita.

 

        A aparência de Petrouska havia mudado totalmente, de um dia para o outro. As roupas sisudas que a envelheciam deram lugar a roupas modernas, de cores claras e de corte que valorizavam seu corpo de curvas harmoniosas. O cabelo cortado e as roupas modernas  tornavam Petrouska uma graça, uma jovem desejável e elegante.

 

        Gina quase não conseguia disfarçar seu olhar, que percorreu o corpo de Petrouska . Quase lambeu os lábios como um lobo faminto. O top branco de lycra com um decote mostrando o colo imaculado, o contorno dos seios empinados e de bom tamanho, a cintura fina e o estômago bem definido à mostra, com a calça de cintura baixa, colante nos quadris  redondos e coxas fortes, era uma tentação para quem a fitava.

 

        Por Dio! – Pensou Gina, olhando-a de soslaio, tentando disfarçar o desejo que a assaltou – Eu poderia facilmente me perder naquele colo, beijando e mordiscado aquela pele cremosa! Minhas mãos descerem por aquelas curvas provocantes, apertando e acariciando, minha boca sugando cada curva e reentrância, sentindo o gosto da pele, seu cheiro, sua textura! Ah, Petrouska, se soubesse o que está fazendo comigo! 

 

        Sentia-se tão excitada, que se não tivesse que ficar ali para ensaiar, iria se masturbar em seu camarim, pensando em Petrouska. Mas como não podia, ficou imóvel, vendo o maestro se aproximar e parar diante dela, sorridente.

 

        -Bom dia, Gina! Hoje não teremos problema, não é?

 

        Ela continuou fitando Petrouska tomar seu lugar na orquestra, sendo observada pelos surpresos colegas.

 

        -Não, não teremos – Respondeu mecânicamente.

 

        -Bem, então vamos começar o ensaio – Disse o maestro, fitando o tenor Barbera, que estava humildemente já no palco, a postos.

 

        Petrouska posicionou o violino no pescoço, fitando o pai, mas sentindo o olhar de Gina sobre ela.

 

        E o ensaio começou. Gina Verlaine e o tenor começaram a cantar a ária “Um di, felice, etera” e muitas vezes os olhares delas se encontravam. Petrouska se emocionava, mas também se confundia. Por que Gina a olhava tanto? E que olhar!Ela cantava e a fitava como se estivesse cantando só  para ela!

 

        Petrouska não podia acreditar que Gina estava interessada nela. Era o seu desejo que a fazia fantasiar, a ver coisas que só existiam em sua imaginação! Mas o fato é que os olhos dela sempre a buscavam os seus, numa insistência intrigante. E a voz belíssima, em gorgeios, chegava aos seus ouvidos como um cântigo de uma sereia seduzindo-a:

 

                A quel’amor, quel’amor ch’è palpito...

                Dell’universo,

                Dell’universo entero...

                Misterioso, misterioso altero,

                Croce... croce e delizia...

                Croce e delizia...

                Delizia ao core.

 

        Petrouska a fitava, emocionada. Tinha vontade de correr até Gina e abraçá-la, beijá-la com toda sua emoção.Mas só podia ficar ali olhando-a e tocando seu violino.

 

        O ensaio terminou no fechamento do ato 1. O maestro cumprimentou Gina sorridente, dizendo que ela estava perfeita. E ele liberou a orquestra, dizendo que os ensaios continuariam depois do almoço.

 

        Petrouska guardou o violino no estojo e aproximou-se deles lentamente. Queria ver o olhar de Gina de perto. Ver se ainda havia aquela chama em seu olhar. Gina estava linda, em um terninho de cor cinza e blusa de gola roulê negra. Os cabelos presos em um coque, com uma franja desfiada cobrindo a testa. Aqueles olhos azuis a fitaram e um sorriso belíssimo iluminou seu belo rosto.

 

        -Ah, aí está a sua bela filha, maestro Vonsky! – Gina disse, com voz calorosa – Ela deu uma repaginada no visual e ficou muito bem!

 

        Petrouska sorriu, o rosto corando pelo elogio.

 

        -Não quer ir almoçar comigo e seu pai? Vamos a um excelente restaurante grego, a duas quadras daqui.

 

        Justamente nesse instante, Douglas chegou, aproximando-se. Gina o viu e seu sorriso se apagou. Ela fitou Petrouska, que o fitava com um olhar inexpressivo.

 

        -Seu namorado chegou, já sei que não vai querer almoçar com seu pai e comigo – Disse ela, com voz neutra.

 

        Douglas chegou e cumprimentou o maestro e Gina. Olhou para Petrouska com admiração.

 

        -Está linda, Petrouska.

 

        Petrouska sentiu-se mal em ser elogiada na frente de Gina. Engraçado, sentia-se como se a tivesse traindo! Uma sensação absurda, não tinha nada com a bela soprano!

 

         -Não querem almoçar com Gina e eu? – Perguntou o maestro, sorrindo.

 

        -Não, não gosto de comida grega – Mentiu Petrouska, ansiosa para sair dali, sentia-se uma idiota diante de Gina com Douglas.

 

        Gina a fitou com decepção. Petrouska não queria sua companhia! Ela preferia aquele garoto filhinho do papai! Claro, como podia ser diferente! Ele era bonito, rico e inteligente! É claro que uma moça como Petrouska ficaria encantada por ele! Ela nem devia suspeitar que Gina, a soprano, estava apaixonada por ela! Petrouska não era gay! Idiota, idiota, como fôra se apaixonar por ela?!

 

        -Vamos, Vonsky – Disse, adiantando-se e se afastando. O maestro a seguiu apressado, acenando para Douglas uma despedida.

 

        Douglas fitou Petrouska admirado.

 

        -É a primeira pessoa que conheço que não gosta de comida grega!

 

        Ela o fitou de cenho franzido.

 

        -Não me lembro de ter marcado encontro com você para almoçar.

 

        Ele sorriu desajeitado.

 

        -Desculpe-me, se atrapalhei algum plano seu...mas estava ansioso para vê-la... e resolvi vir convidá-la para almoçar. Pensei que também estivesse ansiosa para ver-me. Mas acho que me enganei...

 

        -Não é isso, Douglas. Mas confesso que não foi uma boa idéia você vir aqui agora., sem avisar.

 

        Douglas ficou olhando-a chocado com as palavras dela. Ele parecia desolado e infeliz. Petrouska teve pena dele e sorriu.

 

        -Bem, mas já que está aqui, vamos almoçar.

 

        Petrouska suspirou. Ah, quem dera que fosse Gina que estivesse assim atraída por ela!

 

         

Continua na parte 4

 

 

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