PRIMA DONNA
parte 3
Petrouska acordou com
o telefone do hotel tocando na mesinha de cabeceira da cama. Olhou-o com o
cenho franzido. Quem seria? Gina não sabia seu telefone, além do fato de ter
ido dormir provavelmente de madrugada.
Pegou o fone e o levou
ao ouvido, olhando para o relógio de cabeceira. Eram oito horas da manhã.
-Alô.
-Senhorita Petrouska?
Aqui é a telefonista do hotel. O senhor Douglas Forlan está na linha, completo
a ligação?
-Oh... sim, por favor
– Disse, ainda meio adormecida.
A telefonista liberou
a ligação e a voz de Douglas chegou até Petrouska:
-Bom dia, Petrouska!
– Disse Douglas, alegremente.
Petrouska respondeu
sem muito entusiasmo, bocejando:
-Oh, bom dia,
Douglas...
-Hum... acho que
liguei cedo demais, não? Pela sua voz, minha ligação a acordou.
-Bem, realmente, mas
tudo bem. Preciso mesmo me aprontar para ir para o Metropolitan...
-Menos mal. Desculpe
se interrompi seu sono, mas estava ansioso para falar com você. Sabe que não
deixei de pensar em você desde que se foi da recepção à Gina Verlaine?
Petrouska sentou na
cama, sonolenta.Olhou para o relógio de cabeceira. Sete da manhã. Esse rapaz
devia estar ansioso mesmo!
-É mesmo?
-Verdade. E quero
vê-la o mais cedo possível. Quer almoçar comigo hoje?
-Não sei se será
possível. Tenho que ensaiar com a orquestra e não sei a que horas haverá um
intervalo para almoço.
-Eu espero. Será um
prazer vê-la tocando violino. Passarei no teatro às doze horas. Até lá,
princesa. Não vou tomar mais seu tempo agora.Beijos.
E ele desligou.
Petrouska pousou o fone no gancho e se levantou da cama . Não estava
entusiasmada com o telefonema de Douglas. Sabia que qualquer garota se sentiria
nas nuvens por ser alvo do interesse dele, mas ela não. O rosto de Gina
Verlaine apareceu em seu pensamento, fazendo-a suspirar.
-Maldição! –
Resmungou, indo para o banheiro.
Tomou seu banho
pensativa. Precisava se ligar a alguém, para esquecer aquela paixão insensata
por Gina. E Douglas podia ser a pessoa certa para fazê-la esquecer Gina.
Depois, já vestida,
apanhou o estojo do violino e dirigiu-se para a sala de estar. Seu pai já havia
tomado o seu desjejum, e agora lia o
jornal, já pronto para sair. Ele a fitou com o rosto fechado.
-Bom dia, pai.
-Coma o seu desjejum
rápido. Já estamos atrasados.
Petrouska colocou o
estojo numa poltrona e sentou à mesa, pegando a jarra de suco de laranja,
olhando para o pai curiosa.
-E a ceia? Correu
tudo bem?
Ele a fitou
rapidamente, tornando a baixar os olhos para o jornal em suas mãos.
-Sim. Gina sabe
receber as pessoas.
-E Carla Zamproni?
Ceiou com vocês?
Ele franziu o cenho,
fitando-a.
-Ceiou. Ela está
hospedada com Gina.
Petrouska teve
vontade de rir. Naturalmente, Carla havia atrapalhado os planos de seu pai se
declarar à Gina. Bem feito, ele não se enxergava? Devia ter de vinte anos mais que
ela!
Mas uma idéia a
assaltou: por que aquela mulher estava hospedada com Gina? Eram tão amigas assim?
Ou... algo mais? Ora, que se danassem as duas!
Foi com seu pai para
o teatro. Gina ainda não havia chegado. Petrouska tomou seu lugar na orquestra,
sob os olhares disfarçados de seus colegas.Ela havia prendido seus cabelos para
cima e vestia uma blusa de seda branca e uma saia justa negra, mostrando as
pernas fortes e bem torneadas.
O maestro Vonsky
bateu com a batuta no pódio, chamando a atenção da orquestra.
-Vamos ensaiar a
abertura da ópera, enquanto Gina Verlaine não chega – Avisou.
Petrouska abriu a
pauta musical e posicionou o violino no ombro, esperando a regência do maestro
começar. Ele ergueu a batuta e a orquestra começou a abertura da ópera La
Traviata, de Verdi. Os instrumentos de corda, predominantes nessa música,
emitiram suas notas prenunciando a tragédia de Violetta Valery, a trágica
personagem principal da ópera, uma prostituta de luxo que se apaixona por um
rapaz a quem é forçada a renunciar e
acaba morrendo de tuberculose no final da ópera, cujo libreto foi baseado no
romance de Alexandre Dumas “A Dama das Camélias”, grande clássico literário.
No meio da música,
Petrouska viu Gina chegar. Ela aproximou-se devagar, vestida elegantemente com
blusa de seda negra de mangas compridas, e calça cinza de corte clássico,
reto.Os cabelos presos em um coque, estava linda, o olhar percorrendo a
orquestra e finalmente se fixando no seu. Um olhar enigmático, mas que aos
poucos foi mostrando admiração vendo Petrouska tocando violino. Emocionada com
aquele olhar, Petrouska esmerou-se na execução.Fitava Gina e recebia de
volta a chama daqueles olhos azuis, que
não a deixavam um minuto sequer.
O rosto dela estava
agora com uma expressão de enlevo que fez Petrouska encantar-se. Tocou para
ela, mergulhada em um encantamento em que via somente Gina. Em sua imaginação,
estavam sozinhas em meio a uma nuvem dourada, em uma paisagem paradisíaca.
A música
terminou.Gina ainda a fitou por um momento, mas depois voltou-se para falar com
o pai de Petrouska e o encanto se quebrou.
-Bom dia, Vonsky. Barbera
já chegou?
O maestro franziu o
cenho, com desgosto.
-O secretário
particular dele ligou dizendo que ele está com uma forte gripe, acamado.
Os olhos de Gina
luziram de indignação.
-Como?! Então, estou
sem o meu parceiro para ensaiar? Devia ter mandado avisar-me, Vonsky! Acordei
cedo para nada! – Disse ela, mostrando seu conhecido temperamento de
prima-donna.
Petrouska teve
vontade de rir da cara de seu pai. Era impressionante como Gina conseguia
reduzir o orgulhoso maestro a um mísero ser confuso e aflito.
-Eu soube há apenas
minutos, Gina! Mas podemos ensaiar a ária Sempre Libera, em que ele aparece
quase nada – Argumentou o maestro, com tom humilde.
Gina olhou para o
maestro, irada.
-Não vou ensaiar
sozinha! Aquele estúpido deve estar é de ressaca, de alguma farra! Sei bem a
fama que ele tem! Pois não vou ficar aqui enquanto Barbera ronca em sua cama!
Vou para o hotel e só voltarei quando me disserem que Barbera está aqui, pronto
para ensaiar! Passe bem, maestro!
E Gina retirou-se com
passadas furiosas, deixando o maestro com uma cara atoleimada.Petrouska ouviu
os risinhos abafados dos componentes da orquestra.Eles haviam adorado a cena. O
maestro Vonsky ser tratado daquele jeito por alguém era inédito e eles
sentiam-se vingados da tirania do orgulhoso maestro.O maestro colhia os frutos
do que semeara.
O maestro estava
pálido, mas voltou-se para a orquestra com um olhar feroz.
-Vamos ensaiar mais
uma vez a abertura da ópera! – Gritou.
Ele ergueu a batuta e
a orquestra começou a executar a música.Petrouska deu os acordes em seu
violino, junto com os outros. O olhar do maestro Vonsky caiu sobre ela e ele
fez um sinal para a orquestra parar.
-Petrouska! – Gritou
ele, irado – Está desafinando! Será que ainda não aprendeu a tocar seu
instrumento de forma aceitável?
Um silêncio pesado
caiu no recinto.Todos olharam para Petrouska com mórbida curiosidade e
divertimento, querendo ver a reação que teria.
Ela ergueu-se,
encarando o pai com revolta.
-Não queira descontar
em mim sua frustração por Gina Verlaine ter abandonado o ensaio! Se Gina
Verlaine o deixou aí plantado e foi embora, não me use para tentar restaurar
sua autoridade diante dos membros da orquestra!
Ela guardou seu
violino no estojo sob o olhar de todos e se dirigiu para a saída.
-Petrouska! – Gritou
o maestro, fitando a filha incrédulo e vermelho de raiva – Volte para o seu
lugar!
Ela parou e voltou-se
para ele, fitando-o com frieza.
-Você é um tirano,
pai! Trata todos que o cercam como se fossem seus escravos! E o seu saco de
pancadas sou eu, mas agora chega! Estou me demitindo agora!
E ela saiu, como Gina
Verlaine saíra momentos atrás: com passadas furiosas, o queixo erguido e o
olhar desafiador.
Na porta do teatro,
olhou para os lados, indecisa. Optou pela direita e saiu sem destino, sentindo
a ira ser substituída por um profundo ressentimento. Pensou então que não iria
voltar atrás. A decisão estava tomada. Não podia mais agüentar ser humilhada
pelo seu pai diante de todos.
Parou diante de uma
loja, dois quarteirões depois. Era um salão de beleza e ela sorriu com a idéia
que veio à sua mente. Entrou, tomando uma decisão.
Uma elegante
recepconista veio logo atendê-la.
-Bom dia, tem hora
marcada?
Petrouska olhou para
a alta loura e falou:
-Na verdade, não. Ia
passando e resolvi cortar meus cabelos. Tem algum cabelereiro disponível?
-Não sei. Vou
consultar a agenda. Um momento. Pode sentar, enquanto aguarda – Disse,
indicando confortáveis poltronas de couro.
Petrouska sentou,
enquanto a moça foi falar com outra diante do computador. Ela voltou minutos
depois, sorrindo.
-A senhorita está com
sorte, uma cliente desmarcou. A companhe-me.
Uma hora e meia
depois, Petrouska saiu do salão com os cabelos cortados em um corte moderno,
com uma franja desfiada na testa, a nuca batida.
Petrouska sorria
satisfeita. Os cabelos curtos a haviam rejuvenescido, parecendo uma
adolescente, era mais confortável e se sentia mais bonita com eles assim. Vida
nova, nova aparência! O cabelo cortado
seria o símbolo de sua mudança de vida.Pouco se importava se não
gostassem. Ela gostava e isso era o bastante.
Resolveu ir para o
hotel. Faria suas malas e esperaria seu pai chegar. Enfrentaria a fúria dele ,
diria tudo que sempre se contivera em dizer, e iria embora. Viveria de suas
pinturas. Podia passar por mil dificuldades, mas não voltaria para ele.
Quando abriu a porta
do apartamento, ouviu o telefone tocando.Entrou, fechou a porta e foi atender
com voz neutra, ocultando sua ansiedade.
-Alô.
-Petrouska! Estou há
mais de meia hora ligando para aí!
Ela reconheceu a voz
de Douglas.
-Oh, é você,
Douglas...
-Estive no teatro e
disseram que você discutiu com seu pai e saiu. Fiquei preocupado. Você está
bem?
-Estou, Douglas.
Obrigada pela preocupação, mas está tudo bem.
-Posso ir até aí,
pegá-la para almoçar?
Petrouska ia negar,
mas pensou que sua mudança tinha que incluir o modo como encarava os homens.
Tinha de deixar de ser aquela garota inexperiente, sem vida própria.Pois iria
mudar tanto, que nem seu pai a reconheceria.
Assim, falou com
falsa alegria:
-Oh, boa idéia.
Estarei esperando-o .
Ele desligou e
Petrouska foi para o banheiro. Tomou um banho e começava a vestir-se quando o
telefone tocou. Ela atendeu e a recepção avisou que Douglas estava lá e se ela
queria que ele subisse. Petrouska concordou e desligou o telefone, acabando de
vestir uma saia e uma blusa de malha .Logo ouviu a batida na porta e foi atender.
Abriu-a e Douglas a fitou atônito, vestido com roupas esportivas.
Ela riu da cara dele,
afastando-se para ele entrar.
-Fiquei tão diferente
assim?
Ele passou por ela,
fitando-a aturdido.
-Jesus! O que fez com
seu lindo cabelo?
Ela o fitou com desafio.
-Enjoei dele longo e
cortei. Não gostou?
-O corte está ótimo,
mas seus cabelos longos eram tão lindos! Por que os cortou?
-Tive vontade. E
gostei do resultado. É mais fácil de cuidar.
Ele sorriu, fitando-a
apreciativamente.
-Bem, não ficou mal.
Você é linda e qualquer modo de seu cabelo fica bem em você. É que fiquei
surpreso com a mudança. Você parece outra pessoa. Mais moderna, mais jovem...
-Que bom, é isso que
eu queria.Não quer sentar-se?
-Não, temos que ir.
Eu fiz reserva no Gino’s, um restaurante no bairro Tribeca, já ouviu falar?
-Não, mas confio em
seu bom gosto.Vamos indo então, Meu pai pode chegar a qualquer momento e não
quero falar com ele agora.
-Tudo bem, Petrouska,
eu entendo. Vamos então.
Saíram e foram para o
restaurante no BMW último tipo de Douglas, que abriu a porta para ela como um
perfeito cavalheiro. Foram conversando sobre amenidades e Petrouska percebeu
que ele era um rapaz divertido, com uma
cultura acima da média e um eclético apreciador de música, da erudita ao Hip Hop..
No restaurante,
comeram um delicioso medalhão grelhado com batatas dourè ao molho de
alcaparras, conversando sobre vários assuntos. Petrouska não se sentia nem um
pouco atraída sexualmente pelo rapaz, apesar de reconhecer que ele era bonito e
agradável. Estava gostando da companhia dele, ria das coisas que ele dizia, com
seu senso de humor, mas era somente isso. Ele poderia ser um bom amigo, mas
nada mais.
A imagem de Gina
Verlaine veio à sua mente, atordoando-a . Era ela quem queria, por mais que
procurasse tirá-la de sua mente. Ah, que deliciosa emoção tivera, ao receber
aqueles beijos formais no rosto, quando haviam se despedido!
-Petrouska, o que há?
Parece não estar me ouvindo, com um olhar perdido...
Ela o fitou, saindo
de sua abstração.
-Oh, desculpe-me... o
que dizia?
-Que estou muito
interessado em você. Que gostaria de vê-la mais vezes.
-Oh! Estou lisonjeada
por seu interesse, Douglas. Mas há quantas mulheres já disse isso? – Disse em
tom de brincadeira, não querendo levar à sério as palavras dele.
Ele a fitou sério.
-A nenhuma. Você é a
primeira que digo isso.
-Acho que está
exagerando. Você deve ser o alvo do interesse de várias moças, nas festas que
vai. Deve ser muito requisitado.
-Petrouska, posso ser
franco com você?
-Claro, Douglas.
Adoro franqueza.
-Bem...normalmente,
eu não preciso fazer nenhum esforço para conseguir uma garota, para levá-la
para a cama. Por que sou rico, conhecido, sou inteligente e charmoso...
Petrouska riu com
sarcasmo, fitando-o .
-Humm... que
modéstia, a sua...
Ele riu também.
-Eu sei, isso soa
arrogante, não? Mas é o que a imprensa diz de minha pessoa. E as moças
concordam.Mas, como dizia, eu realmente já andei com muitas garotas, todas
ansiosas para ir para a cama comigo. E foi somente isso, sexo. Nenhuma delas
tinha qualidades que me atraíam além de um corpo bonito. Você é muito mais que
um corpo bonito, Petrouska.
Petrouska o fitou
erguendo suas sobrancelhas.
-E o que o faz pensar
assim?
-Já percebi que você
é diferente dessas garotas. Você esteve sozinha comigo em um apartamento de
hotel sem querer me levar para a cama. Você não está interessada em um bom
papel nos seriados que a tv de meu pai produz. Você não está tentando me
convencer como sou especial e como está apaixonada por mim... Petrouska, você é
uma garota especial.
Petrouska suspirou.
Ah, se fosse Gina quem estivesse falando assim com ela!...
-Douglas, como já
disse, estou lisonjeada por suas palavras, mas vamos ser menos sérios. Eu levo
uma vida bem diferente da sua e não moro na América. Mal nos conhecemos, vamos
apenas desfrutar sem compromisso da companhia um do outro, está bem?
Ele a fitou
decepcionado.
-Por enquanto, isso é
tudo que desejo, Petrouska. Você não parece estar compartilhando o meu
interesse, mas vou lutar contra isso. Vamos nos conhecer melhor . Sei que a
ópera irá estrear dentro de uma semana e vai ter uma temporada de três semanas. Só peço à você que me dê a chance
de estar com você, de você conhecer-me melhor.
-Douglas, não conte com isso. Como sabe,
briguei hoje com meu pai e me demiti da orquestra.Não sei ainda se vou ficar
aqui em New York. Preciso arranjar um meio de ganhar a vida.
-Petrouska, deixe-me
ajudá-la! Você pode trabalhar na tv de meu pai, vou falar com ele...
-Não, Douglas. Por
favor, não quero que me ajude. Eu posso me arranjar com meu próprio esforço.
Vou pintar, vou tocar em outra orquestra, vou fazer o que puder para poder
viver minha vida sem depender de ninguém.
-Mas, como vou vê-la,
se for embora?
-Eu pretendo ficar em
New York pelo menos uma semana. Vou procurar emprego aqui. Se não conseguir,
vou embora.
-E eu irei até onde você estiver, Petrouska.
Ela olhou para o
relógio de pulso . Uma da tarde. Olhou para Douglas.
-Tenho que ir. Meu
pai já deve ter chegado do teatro e preciso ter uma conversa com ele.
-Vou pedir a conta.
Posso ir buscá-la para jantar hoje comigo?
-Não, hoje não. Vou
conversar com meu pai seriamente e talvez não tenha espírito para sair.
-Tudo bem, Petrouska.
Não vou pressioná-la. Amanhã então
poderemos jantar juntos?
-Não sei. Ligue para
mim depois de meio dia.
-Está bem.
Quando Petrouska
chegou em casa deparou com seu pai sentado na sala de estar, olhando tv com uma
expressão fechada. Ele a viu entrar e a
fitou com olhar atônito.
-Que diabos fez em
seu cabelo?! – Perguntou, com incredulidade.
Ela o encarou,
tentando demonstrar uma serenidade que não sentia.
-Cortei-o.
-Cortou?! Você fez
uma loucura, sem consultar-me! Está parecendo um menino, com esse cabelo!
Ela deu de ombros,
sentando-se diante dele e o encarando.
-Fo uma decisão
pessoal minha e o senhor deve respeitar. Em minha aparência, mando eu.
Ele a fitou
boquiaberto e passou a mão nos cabelos, em um gesto de desalento.Ela esperou a
explosão de raiva, mas o que ouviu foi uma voz cheia de amargura:
-Não a reconheço mais,
Petrouska! Onde está aquela garota dócil, que não fazia nada que me
desagradasse, obediente e sensata? Você agora só vive desafiando-me,como se de
repente me odiasse! O que está havendo com você? Quem a está jogando contra
mim?
-Ninguém está me jogando
contra você, pai! O que aconteceu é que simplesmente eu cresci! E não quero
passar toda minha vida só fazendo o que você achar melhor para mim. Tenho o
direito de ter meus sonhos e desejos independentes de suas vontades. Acho que
cheguei ao meu limite de aceitar suas ordens e humilhações! Por isso me demiti
da orquestra. Quero fazer o que realmente gosto e para você não tentar
impedir-me, vou me afastar de você. Vou sair daqui e me hospedar em um hotel
mais barato, até conseguir um apartamento para morar.
Ele a fitou com ar
derrotado e falou com tristeza:
-Não pensei que odiasse tanto tocar violino! Que quisesse
se afastar de mim. Que não reconhecesse meus cuidados com você, para ser uma
grande violinista.
-Não são cuidados,
são imposições! – Discordou ela, erguendo as mãos em um gesto nervoso – Eu até
gosto de tocar violino. E gosto de música erudita. Mas não de tocar sob sua
regência! Você me usa como exemplo para a orquestra e me humilha pela menor
falta diante de todos! E além disso, deseja de mim uma perfeição que nunca
terei! Por que o meu dom maior é a pintura, pai! Mesmo que você não me dê valor
nessa arte, é o que gosto de fazer! E só podemos fazer algo com perfeição se
temos paixão por isso! E minha paixão é a pintura, não tocar violino!
Ele ergueu os olhos,
encarando-a . Com uma humildade que Petrouska não julgava possível ele possuir.
-Talvez eu tenha
exagerado. Exigi muito de você. Mas a minha intenção sempre foi torná-la uma
exímia violinista, a melhor da atualidade. Pensei que depois você iria me
agradecer por isso.
-Pai, você quer me
tornar uma exímia violinista por orgulho seu. Quer que a filha do maestro
Vonsky seja a melhor, porque tem o seu nome. Você quer satisfazer um desejo
seu, sem se importar com o que quero para mim. Isso é puro egoísmo! Você zombou
das minhas qualidades como pintora sem ao menos ver um quadro meu! Quase acabou
com meu sonho de persistir nessa arte!
Mas eu vou continuar a tentar realizar meu sonho, pai. Queira você ou não!
Ele suspirou e a
encarou calmamente. No seu olhar só havia tristeza, para surpresa dela.Estava
vendo um lado do pai que nunca pensara existir. Para onde tinha ido toda a
arrogância dele?
-Petrouska... se
realmente sabe o que quer, se acredita no sonho que tem, vá até o fim. Muitos
gênios da música e da pintura foram incompreendidos no seu tempo.Van Gogh,
Mozart, e tantos outros, só tiveram o verdadeiro valor reconhecido anos depois
de suas mortes. Van Gogh ficou louco e cortou a própria orelha, desesperado, Mozart compunha músicas maravilhosas e vivia
na penúria, no inverno tinha que ficar dançando quase a noite inteira para não
morrer congelado, por não ter condições de aquecer a casa! E nunca desistiram
de sua arte! Eu zombei de sua ambição como pintora deliberadamente, para ver se
você iria desistir ou tentar mostrar-me que eu estava errado. Porque um artista
que acredita em sua arte e a ama, pode sofrer críticas arrasadoras, mas
prossegue, movido pela paixão por sua arte.
Petrouska o ouviu em
silêncio, absorvendo aquelas palavras. Pela primeira vez, seu pai se dava ao
trabalho de explicar um ato seu. Então, ele não agira por crueldade, mas para
testá-la em sua vocação.
Fitou-o com menos
agressividade e mais compreensão.
-Acho que entendi o
que quis fazer, pai. Mas continuo firme em meus propósitos, não desisti da
pintura. Por isso me demiti da orquestra. E se quiser impedir-me de dedicar-me
à pintura, vou embora. O que tem a dizer?
Ele a encarou
derrotado.
-Não vou impedí-la
mais de seguir o seu sonho, Petrouska. Sei reconhecer quando fui vencido pelos
fatos. Mas quero fazer um pedido, como maestro da orquestra. Poderá atender-me?
Petrouska o fitou
surpresa. Seu pai estava pedindo algo à ela! Pedindo e não impondo! Era uma
novidade incrível!
-Fale... – Pediu.
-Petrouska, não
abandone a orquestra agora. Estamos a menos de uma semana da estréia e não
temos tempo de ensaiar outro violinista. Prometo que não vou mais chamar sua atenção.
Vou tratá-la com menos rigor, já vi que meu método de fazer de você uma
virtuose não funcionou. Não sou um idiota que não reconhece a derrota. Cumpra o
contrato até o fim das apresentações e prometo liberá-la sem problemas. Poderá
então seguir sua vocação – Ele disse, com voz trêmula.
Petrouska achou o
pedido razoável. E viu como seu pai estava abatido, a arrogância dele havia
sumido como por mágica. Será que aquele homem arrogante era no fundo um
sentimental, que se escondia numa máscara de tirano?
-Está bem. Mas
reafirmo que La Traviata será a minha última apresentação na orquestra, e se
minha nova atividade der certo, a última para sempre em geral.
O maestro suspirou
aliviado, sorrindo para ela.
-Amanhã recomeçaremos
o ensaio. Gina e Barbera estarão à postos.
-Mas ele não está
gripado?
-Não, ele mentiu. Fui
ao hotel dele e o surpreendi bêbado com uma garrafa de uísque na mão. Quase dei
uma surra naquele vagabundo. Coloquei ele sob a ducha fria e ameacei
processá-lo por prejudicar o ensaio da orquestra, ocasionando perdas e danos.
Amanhã ele vai ensaiar, tenho certeza.
Ele abriu os braços,
fitando-a com afeto.
-Agora, dê um abraço
no seu velho pai.
Petrouska caiu entre
os braços dele, emocionada. Há quanto tempo seu pai não a abraçava? Desde que
era uma garota de quatorze anos! Ele a apertou nos braços, beijando seus
cabelos, dizendo com voz embargada:
-Quando sua mãe
morreu, eu achei que não devia ser mais sensível aos sentimentos para não
sofrer, Petrouska... e fui me tornando uma pessoa fria sem perceber...tentei
dedicar todo meu sentimento à música, sem notar que você havia crescido e
precisava de afeto...de viver seus próprios sonhos. Você hoje me fez enxergar
como estava errado... e quase perdi seu afeto de filha. Eu a amo, Petrouska. E
não quero que tenha raiva de mim. Perdoe seu velho pai que apenas quer o melhor
para você?
Ela se afastou e
fitou o pai nos olhos. Os olhos dele estavam marejados de lágrimas!
-Vamos esquecer o que
passou, pai. Eu o amo também e fico feliz em saber que por baixo daquela
fachada arrogante ainda tem um coração.
-Por que não
aproveita o resto da tarde e vai fazer umas compras? Você sempre desejou
comprar suas roupas sem minha interferência na escolha.
Ela o fitou com os
olhos brilhando de excitação.
-Está falando sério?!
-Claro! Vou mudar meu
modo de tratar você, filha. E a começar por hoje.Eu finalmente enxergo que
cresceu e pode comprar suas roupas sem minha interferência.
-Oh! Vou poder compar
as roupas que sempre sonhei! Oh, pai, obrigada!
Ele sorriu, fitando
os olhos brilhantes da filha.
-Esse brilho em seus
olhos eu não vejo há anos, Petrouska! Vá, vá comprar as roupas que quiser!
))))))((((((
Quando chegaram ao
Metropolitan no dia seguinte, Gina Verlaine já estava lá, estudando a pauta
musical. Ela ergueu os olhos e suas sobrancelhas se ergueram ao ver Petrouska
entrar no palco. Os belos olhos azuis refletiram admiração e isso deixou
Petrouska emocionada e satisfeita.
A aparência de
Petrouska havia mudado totalmente, de um dia para o outro. As roupas sisudas
que a envelheciam deram lugar a roupas modernas, de cores claras e de corte que
valorizavam seu corpo de curvas harmoniosas. O cabelo cortado e as roupas
modernas tornavam Petrouska uma graça,
uma jovem desejável e elegante.
Gina quase não
conseguia disfarçar seu olhar, que percorreu o corpo de Petrouska . Quase
lambeu os lábios como um lobo faminto. O top branco de lycra com um decote
mostrando o colo imaculado, o contorno dos seios empinados e de bom tamanho, a
cintura fina e o estômago bem definido à mostra, com a calça de cintura baixa,
colante nos quadris redondos e coxas
fortes, era uma tentação para quem a fitava.
Por Dio! – Pensou
Gina, olhando-a de soslaio, tentando disfarçar o desejo que a assaltou – Eu
poderia facilmente me perder naquele colo, beijando e mordiscado aquela pele
cremosa! Minhas mãos descerem por aquelas curvas provocantes, apertando e
acariciando, minha boca sugando cada curva e reentrância, sentindo o gosto da
pele, seu cheiro, sua textura! Ah, Petrouska, se soubesse o que está fazendo
comigo!
Sentia-se tão
excitada, que se não tivesse que ficar ali para ensaiar, iria se masturbar em
seu camarim, pensando em Petrouska. Mas como não podia, ficou imóvel, vendo o
maestro se aproximar e parar diante dela, sorridente.
-Bom dia, Gina! Hoje
não teremos problema, não é?
Ela continuou fitando
Petrouska tomar seu lugar na orquestra, sendo observada pelos surpresos
colegas.
-Não, não teremos –
Respondeu mecânicamente.
-Bem, então vamos
começar o ensaio – Disse o maestro, fitando o tenor Barbera, que estava
humildemente já no palco, a postos.
Petrouska posicionou
o violino no pescoço, fitando o pai, mas sentindo o olhar de Gina sobre ela.
E o ensaio começou.
Gina Verlaine e o tenor começaram a cantar a ária “Um di, felice, etera” e
muitas vezes os olhares delas se encontravam. Petrouska se emocionava, mas
também se confundia. Por que Gina a olhava tanto? E que olhar!Ela cantava e a
fitava como se estivesse cantando só
para ela!
Petrouska não podia
acreditar que Gina estava interessada nela. Era o seu desejo que a fazia
fantasiar, a ver coisas que só existiam em sua imaginação! Mas o fato é que os
olhos dela sempre a buscavam os seus, numa insistência intrigante. E a voz
belíssima, em gorgeios, chegava aos seus ouvidos como um cântigo de uma sereia
seduzindo-a:
A quel’amor,
quel’amor ch’è palpito...
Dell’universo,
Dell’universo entero...
Misterioso, misterioso altero,
Croce...
croce e delizia...
Croce e
delizia...
Delizia ao
core.
Petrouska a fitava,
emocionada. Tinha vontade de correr até Gina e abraçá-la, beijá-la com toda sua
emoção.Mas só podia ficar ali olhando-a e tocando seu violino.
O ensaio terminou no fechamento
do ato 1. O maestro cumprimentou Gina sorridente, dizendo que ela estava
perfeita. E ele liberou a orquestra, dizendo que os ensaios continuariam depois
do almoço.
Petrouska guardou o
violino no estojo e aproximou-se deles lentamente. Queria ver o olhar de Gina
de perto. Ver se ainda havia aquela chama em seu olhar. Gina estava linda, em
um terninho de cor cinza e blusa de gola roulê negra. Os cabelos presos em um
coque, com uma franja desfiada cobrindo a testa. Aqueles olhos azuis a fitaram e
um sorriso belíssimo iluminou seu belo rosto.
-Ah, aí está a sua
bela filha, maestro Vonsky! – Gina disse, com voz calorosa – Ela deu uma
repaginada no visual e ficou muito bem!
Petrouska sorriu, o
rosto corando pelo elogio.
-Não quer ir almoçar
comigo e seu pai? Vamos a um excelente restaurante grego, a duas quadras daqui.
Justamente nesse
instante, Douglas chegou, aproximando-se. Gina o viu e seu sorriso se apagou.
Ela fitou Petrouska, que o fitava com um olhar inexpressivo.
-Seu namorado chegou,
já sei que não vai querer almoçar com seu pai e comigo – Disse ela, com voz neutra.
Douglas chegou e
cumprimentou o maestro e Gina. Olhou para Petrouska com admiração.
-Está linda,
Petrouska.
Petrouska sentiu-se
mal em ser elogiada na frente de Gina. Engraçado, sentia-se como se a tivesse
traindo! Uma sensação absurda, não tinha nada com a bela soprano!
-Não querem almoçar com Gina e eu? –
Perguntou o maestro, sorrindo.
-Não, não gosto de
comida grega – Mentiu Petrouska, ansiosa para sair dali, sentia-se uma idiota
diante de Gina com Douglas.
Gina a fitou com
decepção. Petrouska não queria sua companhia! Ela preferia aquele garoto
filhinho do papai! Claro, como podia ser diferente! Ele era bonito, rico e
inteligente! É claro que uma moça como Petrouska ficaria encantada por ele! Ela
nem devia suspeitar que Gina, a soprano, estava apaixonada por ela! Petrouska
não era gay! Idiota, idiota, como fôra se apaixonar por ela?!
-Vamos, Vonsky –
Disse, adiantando-se e se afastando. O maestro a seguiu apressado, acenando
para Douglas uma despedida.
Douglas fitou
Petrouska admirado.
-É a primeira pessoa
que conheço que não gosta de comida grega!
Ela o fitou de cenho
franzido.
-Não me lembro de ter
marcado encontro com você para almoçar.
Ele sorriu
desajeitado.
-Desculpe-me, se
atrapalhei algum plano seu...mas estava ansioso para vê-la... e resolvi vir
convidá-la para almoçar. Pensei que também estivesse ansiosa para ver-me. Mas
acho que me enganei...
-Não é isso, Douglas.
Mas confesso que não foi uma boa idéia você vir aqui agora., sem avisar.
Douglas ficou
olhando-a chocado com as palavras dela. Ele parecia desolado e infeliz.
Petrouska teve pena dele e sorriu.
-Bem, mas já que está
aqui, vamos almoçar.
Petrouska suspirou.
Ah, quem dera que fosse Gina que estivesse assim atraída por ela!
Continua
na parte 4