PRIMA DONNA

 

 

parte 2

 

       Petrouska ficou ali no quarto imóvel, sentada na cama, com as belas feições contraídas. A revolta fervilhava em seu íntimo.Deus, seria sempre assim? Cada vez que tentasse subtrair-se do domínio de seu pai, acabar derrotada e humilhada? Ele, com meia dúzia de palavras, demolir seus anseios?

 

        Seu olhar cristalizou-se numa expressão sombria e determinada. Não iria agüentar aquele domínio por muito mais tempo.Estava em seu limite de aceitação. Tinha que fazer alguma coisa. Ainda não sabia como, mas ia abandonar aquela vida que a sufocava.

 

        Tomou um banho com olhar sombrio e vestiu-se com um vestido negro, longo e com um decote discreto, que achava muito sisudo para sua idade.Afinal, tinha apenas vinte e dois anos! Mas seu pai parecia desconhecer isso. Havia sido ele quem escolhera esse vestido, como escolhia todos seus trajes para festas e recepções a que compareciam.

 

        Às vinte horas em ponto, apresentou-se na sala. Seu pai a olhou atento, da cabeça aos pés, como sempre fazia nessas ocasiões. E sorriu satisfeito. Ele estava vestido em seu novo smooking, que comprara numa tourneè na Itália.

 

        -Está  muito bem, apesar de não haver colocado o colar de pérolas que lhe dei – Disse ele aprovadoramete .

 

        -Pai, um colar de pérolas não é para uma jovem usar! –Disse Petrouska, rezando para que ele não a obrigasse a usar o colar que detestava e achava ridículo para uma moça nova usar.

 

        Ele olhou para o relógio de pulso e franziu a testa.

 

        -Vamos indo, não quero me atrasar.

 

        Desceram para a recepção do hotel. Piotr Nicholay havia alugado uma limousine com motorista, que já os aguardava. Logo partiram.

 

        Piotr Nicholay voltou-se para sua filha, que se conservava calada, olhando pela janela do veículo.

 

        -Já ouviu falar em Hugh Forlan?

 

        Ela voltou o rosto, fitando-o inexpressivamente.

 

        -Não.

 

        -Ele é o dono de uma rede de televisão, a NewsCorp. É um homem poderoso no mundo das comunicações e um mecenas.Patrocina várias artes,   principalmente concertos e balé. Procure ser simpática com ele. Poderá nos favorecer com publicidade grátis para a ópera em sua rede de tv.

 

        Petrouska assentiu mecânicamente. Era isso que seu pai esperava dela sempre. Sua anuência aos seus planos mais corriqueiros.Pois faria o jogo dele até cair fora.

 

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        A mansão de Hugh Forlan ficava no Soho, ocupando todo um quarteirão, numa das áreas mais valorizadas de Manhattan. O imenso jardim diante da casa estava todo iluminado e vários carros se espremiam nas alamedas de pedras.Um repucho no meio do jardim jorrava água  iluminada por luzes que as tornavam azul turquesa, proveniente   de uma estátua de ninfa.Podia-se ouvir o som de vozes, risos e música, vindos do interior da mansão.

 

        O motorista abriu a porta da limousine e Petrouska desceu, olhando em volta. Preferia estar em no hotel vendo um filme na tv, do que estar ali. Detestava recepções, onde seu pai a exibia como um filhote amestrado e a obrigava a conversar com gente que nunca tinha visto.

 

        Na entrada Piotr Nicholay entregou o convite ao segurança que guardava a entrada e o homem fez um gesto para que entrassem, sorrindo.Eles passaram pela porta e se viram em um hall luxuoso, com quadros de pintores famosos e avançaram para o salão cheio de gente, mulheres com vestidos de alta costura e homens em elegantes smookings.

 

        Um homem magro e alto, com cabelos grisalhos e vivos olhos cinzentos, veio ao encontro deles sorridente.

 

        -Maestro Vonsky! É um grande prazer recebê-lo em minha casa! – Disse, estendendo a mão e apertando a de Piotr Nicholai efusivamente.

 

        Piotr Nicholai sorriu, deliciado com o cumprimento efusivo do poderoso Hugh Forlan.

 

        -Agradeço a honra de ter sido convidado, mister Forlan.

 

        -Não agradeça, eu quem estou honrado. E quem é essa linda mocinha?

 

        Piotr Nicholai viu o olhar de admiração do homem e apresentou com orgulho:

 

        -É minha filha Petrouska. Ela é violinista de minha orquestra.

 

        Ele estendeu a mão para Perouska, olhando-a sorridente.

 

        -Petrouska? Um nome bem apropriado para uma filha sua, maestro. Conheço o balé Petrouska e o considero um dos mais belos, apesar de o meu predileto ser o balé Giselle. Encantado, Petrouska.

 

        Ela retribuiu o aperto de mão, corando ligeiramente.

 

        -Muito prazer, mister Forlan.

 

        -Ah, deixe de formalidade! Para você e o maestro, sou apenas Hugh, combinado?

 

        Ela assentiu, pouco à vontade sob o olhar daquele homem famoso e poderoso. Ele pareceu notar seu mal estar e se voltou para Piotr Nicholai.

 

        -Gina Verlaine ainda não chegou. Pensei que ela viria com você, mas vejo que me enganei.

 

        -Não chegou? – Repetiu o maestro, franzindo o cenho – Eu me ofereci para pegá-la no hotel, mas ela recusou a oferta e disse que estava esperando uma amiga chegar ao hotel, com quem viria!

 

        -Bem, então deve estar à caminho. Ela está no Plaza, não é longe daqui. Venham, quero apresentá-los a algumas pessoas.

 

        E Hugh Forlan apresentou-os a várias pessoas, que Petrouska só conhecia através de revistas. Atores, bailarinos, escultores, pintores, empresários, críticos, todos pertencendo à nata do "jetset".

 

        Alguns a olharam com curiosidade e interesse, mais por sua beleza ingênua que por ser filha do maestro. Mas Petrouska não se esforçou em se mostrar simpática e cordial como seu pai desejava. Respondia às perguntas com monossílabos e logo a deixaram sozinha em um canto, para seu alívio. Já seu pai, que adorava conviver com pessoas famosas, reuniu-se em um grupo de convidados falando e sorrindo, envaidecido com as atenções daquelas pessoas ilustres.Era isso que ele gostava, ser admirado e bajulado, com seu orgulho sendo afagado.

 

        Gina Verlaine chegou, atraindo a atenção de todos. Belíssima em um vestido longo, de tecido cintilante, justo até o meio das coxas e se soltando em drapeados até os pés. O decote mostrava o colo imaculado em tom cremoso, os cabelos presos para cima descobriam os delicados ouvidos adornados por brincos de diamantes.

 

Ao seu lado, uma mulher loura, de cabelos compridos e de olhar arisco e orgulhoso, em um longo vermelho. Devia ter uns trinta anos  e era atraente, mas sua beleza não chegava aos pés da beleza que Gina espargia.

 

Petrouska ficou olhando-as, bebericando uma taça de champanhe que um garçon a serviu.Viu Gina Verlaine receber os cumprimentos efusivos de Hugh Forlan  e ser cercada por várias pessoas. Ela sorria contidamente, sabedora de ser o centro das atenções.

 

O maestro Vonsky acercou-se dela com um sorriso que surpreendeu Petrouska. Nunca o vira com aquela expressão de encantamento. Ele parecia deslumbrado, olhando para Gina Verlaine.

 

Petrouska sentiu uma emoção desconhecida, com a cena. Uma ira crescente pelo seu pai, que parecia devorar Gina com os olhos.

 

Como os homens eram bobos! – Pensou, com irritação – Não podiam ver uma mulher bonita que ficavam como lobos em volta da presa! Pobre Gina, ser alvo do olhar de um velho babão como seu pai! Será que ele não se enxergava? Gina não era para o bico dele!

 

        Petrouska fitou Gina, procurando ler sua reação ao olhar de seu pai.Ela o ouvia falar e sorria, mas um sorriso apenas polido de uma pessoa educada. Ela não tinha um ar fascinado como seu pai. Ela parecia mais uma rainha recebendo as homenagens de um súdito qualquer. E a loura ao lado dela parecia estar aborrecida com o diálogo entre Gina e seu pai. Mal sorria e olhava para seu pai com ar de enfado. Interessante...

 

        O olhar de Gina Verlaine circulou pelo salão e encontrou o seu. A expressão dela mudou, ficando séria, e o olhar paralizou-se no seu.

 

        Petrouska sustentou aquele olhar, entendendo subitamente o motivo da fascinação que ele despertava nas pessoas.Era um olhar direto como uma flexa, enigmático, belo, magnético, que prendia quem o fitasse.Petrouska sentiu um arrepio percorrer seu corpo, fitando aqueles olhos azuis como safiras.

 

        Gina comentou algo com seu pai, que voltou-se e a viu. Disse algo a Gina e sorriu, fazendo um gesto com a mão para Petrouska aproximar-se.

 

        Petrouska caminhou lentamente ao encontro deles, sem conseguir desviar os olhos daqueles que a contemplavam com uma expressão enigmática. Sentiu um arrepio, como se eles a tocassem e produzissem choques com o toque. Parou diante deles em silêncio.

 

        -Gina, esta é minha filha Petrouska – Apresentou o maestro, com tom solene.

 

        Gina Verlaine sorriu, e seu sorriso luminoso tornou seu rosto mais belo, olhando para Petrouska nos olhos.

 

        -Petrouska! – Repetiu, com sua voz aveludada – Um nome original e belo, da personagem de um balé famoso. Muito bem escolhido, Vonsky. Muito prazer, Petrouska.

 

        Petrouska sorriu, encabulada. Sentia-se como uma adolescente ao se ver diante de seu ídolo: boba e sem palavras.Aquela mulher tinha a capacidade de deixá-la nervosa e enfeitiçada, olhando aquele olhar misterioso como de uma esfinge.

 

        -Eu já a vi antes no Metropolitan, durante o ensaio – Continuou Gina, sem deixar de fitá-la.

 

        -Sim – Confirmou Petrouska, aliviada em poder dizer alguma coisa e sair daquele mutismo encantado – Sou uma das violinistas da orquestra de meu pai.

 

        O sorriso de Gina se ampliou e seus belos olhos brilharam.

 

        -Então, vamos nos ver muitas vezes ainda, Petrouska.

 

        -Sem dúvida, senhorita Verlaine.

 

        Petrouska sentiu seu nervosismo aumentar. Sob o olhar do pai, não conseguia ser natural em suas atitudes.E ainda mais diante de Gina Verlaine. Reparou que a cor dos olhos dela oscilava entre o azul de cristal ao cinza metálico, conforme a luz os iluminavam. Teve o súbito desejo absurdo de tomar aquele rosto entre as mãos e admirar aqueles olhos bem de perto, ver as nuanças daquelas pupilas magníficas.

 

        Foi Gina quem desviou o olhar para seu pai.

 

        -Naturalmente, sendo sua filha, ela deve ser uma excelente violinista, Vonsky.

 

        O maestro sorriu com orgulho.

 

        -Ela vai chegar à perfeição em minhas mãos, Gina. Petrouska é um pouco rebelde, mas tem talento.

 

        Petrouska resolveu sair dali. Sentia-se como uma idiota, com seu pai falando sobre ela como se não estivesse presente.

 

        -Com licença, vou ao toalete – Disse, se afastando antes que seu pai replicasse.

 

        Foi para o toalete, depois de receber orientação de um dos criados uniformizados. O toalete ficava por trás das escadarias que levavam ao segundo pavimento da mansão. Era luxuoso, com poltronas para descanso, uma   bancada de mármore com três lavatórios e três reservados. O espelho de cristal tinha uma bela moldura dourada com arabescos.

 

        Petrouska lavou as mãos e se olhou no espelho diante dela. Estava ruborizada, os olhos acesos. Era estranha a excitação que sentia. O coração disparado, as mãos trêmulas...

 

        Mas sabia o motivo disso: o olhar de Gina Verlaine.Um olhar que causava nela sensações que nunca sentira antes. Estava fascinada por aquela mulher. Será que era normal sentir aquilo por uma mulher? Será que era apenas admiração por Gina ser uma pessoa famosa? Ou... estava atraída sexualmente por ela? Esse último pensamento a amedrontou. Seria uma homossexual?

 

        Pensou em sua vida amorosa. Era nula. Vivia fechada em um mundo em que não cabia nenhuma paixão. Comandada por seu pai, não tinha tempo nem liberdade para namorar, passear, em suma, fazer as coisas que qualquer mocinha fazia. É claro que muitos rapazes da orquestra tentavam convidá-la para sair com eles, mas nenhum a interessava. O que seria isso? Até então, nunca se preocupara com sua falta de interesse pelo sexo oposto, mas agora pensava à respeito com preocupação.Sua falta de interesse é porque era homossexual? O que sentia por Gina era atração sexual?

 

        Fechou os olhos, imaginando  abraçando-a e a beijando na boca. A idéia lhe pareceu atraente, devia ser uma delícia, beijar aqueles lábios vermelhos e carnudos. Mas, e depois? O que faria?

 

        Sua imaginação prosseguiu, excitando-a. O corpo nu de Gina contra o seu...aquele rosto cheio de paixão...

 

        Abriu os olhos, sentindo-se louca. Se Gina Verlaine soubesse o que estava imaginando com ela! Provavelmente a olharia com frio desprezo. Uma mulher como ela devia ter muitos admiradores e pelo menos um amante apaixonado.Quem era ela, para sonhar tão alto, nada menos que com Gina Verlaine? Idiota, tinha que encarar a realidade: ela era ninguém, diante de Gina Verlaine. Um zero à esquerda.Era melhor tirar Gina de sua cabeça.

 

        Voltou para o salão. Seu pai continuava ao lado de Gina Verlaine, mas agora haviam várias pessoas ao redor dela, conversando. Ficou de longe olhando, tomando outra taça de champanhe. Não queria fazer parte daquele grupo. Não teria muita coisa a falar e Gina a acharia uma idiota.

 

        O olhar de Gina circulou pelo salão como que procurando alguém, e mais uma vez, quando encontrou o seu, paralizou-se. Petrouska a encarou, sentindo o coração disparar. Será que era a ela que Gina estava procurando com o olhar? E ao encontrá-la, havia acabado a busca, fixando-se nela?

 

        Era uma hipótese absurda, mas o olhar continuava lá, fixo no seu, enquanto falava, ria, bebia champanhe. Um olhar enigmático, mas que a escolhera entre tanta gente.

 

        Sentiu um arrepio de prazer. Gina Verlaine, uma mulher tão desejada, olhando-a insistentemente...

 

        Para testar esse pensamento, afastou-se para outro lugar, entregou a taça vazia ao garçon e apanhou outra, voltando-se, tomando um gole. E a decepção caiu sobre ela como uma ducha fria. O olhar de Gina não a havia acompanhado. Ela ria, olhando para um homem que falava com ela.

 

        Tola! – Pensou, suspirando – Pretenciosa! Gina Verlaine nem devia desconfiar de suas impressões. Ela que estava fantasiando sobre um olhar que devia só ser movido pela curiosidade. Gina devia estar olhando-a porque era filha do maestro da ópera que encenaria. Esse pensamento a entristeceu. Idiota, não tinha nada que ficar imaginando coisas sobre Gina Verlaine. Tinha que tirar aquelas idéias de sua cabeça. Mas, como?

 

        -Ainda não fomos apresentados.

 

        Petrouska voltou-se assustada. Um rapaz louro, muito elegante em um smooking, lhe sorria. Tinha um rosto de feições finas, com olhos azuis e um sorriso franco, sem a malícia que Petrouska estava acostumada a ver nos olhos masculinos quando a fitavam. Sorriu aliviada por ter surgido alguém para distraí-la dos seus perturbadores pensamentos.

 

        -É, acho que não – Respondeu.

 

        O sorriso dele se ampliou e ele se aproximou, parando diante dela.

 

        -Podemos corrigir isso. Sou Douglas Forlan. E você é Petrouska.

 

        Ela o fitou surpresa.

 

        -Como sabe meu nome?

 

        -Vi quando chegou. Fiz minhas pesquisas. Você é a filha do maestro Vonsky.

 

        -Realmente...

 

        -Mas você é muito mais que isso. É uma joia preciosa.Eu a estava observando, encantado.

 

        Petrouska fitou-o com ironia.Ele era um playboy, querendo conquistá-la com uma conversa que conhecia bem. Riu, achando graça da situação: ela olhando para Gina Verlaine com interesse, e ele olhando para ela.

 

        Ele a fitou franzindo a testa.

 

        -Por que riu? Achou engraçado o que eu disse?

 

        -Oh, não, desculpe-me se causei essa impressão. Eu ri de outra coisa.E não tem nada a ver com você – Mentiu.

 

        -Hum. Menos mal.Petrouska, quer ir até o terraço, tomar um pouco de ar fresco?

 

        Petrouska olhou para Gina Verlaine.Ela a fitava novamente. Um olhar fixo, o rosto sério, com uma expressão fechada. Pois que fosse para o inferno! Estava deixando-a maluca! O melhor a fazer era não prestar mais atenção nela. E aquele rapaz poderia ajudá-la nisso.

 

        -Quero. Vamos.

 

        Ela foi para o terraço e começaram a conversar. Douglas contou que era diretor do núcleo de seriados da rede de seu pai.Falou sobre seu trabalho com visível orgulho e ela achou que ele estava querendo impressioná-la.Mas ele estava enganado se pensava que estava despertando interesse nela. Não queria envolver-se com um filhinho do papai, que se achava irresistível por ser rico. Não era isso que desejava em sua vida.

 

        Na primeira pausa que ele fez, ela falou com tom irônico:

 

        -Douglas, você escolheu mal sua companhia para hoje.

 

        Ele a fitou surpreso.

 

        -Escolhi mal? Por quê?

 

        -Não sou uma mocinha à procura de um bom papel em um seriado, nem uma garota à procura de um namorado rico. Isso diminuiu muito suas chances comigo.

 

        Ele a fitou espantado e depois riu, com ar divertido.

 

        -Petrouska, você pensou que eu estava querendo impressioná-la! Puxa, como me julga mal! Só em olhá-la, sei que não é uma garota desse tipo! Eu conheço uma garota que quer usar-me para conseguir alguma coisa há uma milha de distância!

 

        -Bem, folgo em saber disso.

 

        -Petrouska, esqueça quem sou. Pense apenas que sou um rapaz que a viu e interessou-se por você.

 

        Petrouska sorriu e relaxou, desarmando-se o suficiente para conversar com ele durante mais de duas horas, durante o jantar. Gina estava sentada entre seu pai e Hugh Forlan, e Petrouska procurou não prestar atenção nela, conversando com Douglas. Trocaram idéias sobre vários assuntos e Petrouska percebeu que Douglas era um rapaz culto e vivido. Havia estudado em Londres e conhecia toda a Europa, se interessava por música erudita, pintura, cinema e teatro. Contou vários fatos pitorescos ocorridos com ele em suas viagens e Petrouska riu com prazer, sentindo-se bem em conversar com aquele rapaz alegre e inteligente. Depois do jantar ele a levou novamente para o terraço e continuaram conversando sobre vários assuntos, e Petrouska reconheceu que Douglas tinha uma personalidade cativante.

 

        Seu pai surgiu no terraço, acompanhado por Gina Verlaine e a amiga. Viu Petrouska com Douglas e sorriu aprovadoramente. Já Gina Verlaine a fitou com um olhar enigmático como sempre.

 

        -Vejo que está em boa companhia, Petrouska – Disse o maestro – Mas temos que ir embora agora. Nosso  rapaz vai nos desculpar, não é? Amanhã temos que começar os ensaios cedo.

 

        Douglas ergueu-se com Petrouska, sorrindo.

 

        -Claro que sim, maestro. Sei como é disciplinado em seu trabalho.

 

        Ele voltou-se para Petrouska e estendeu um cartão.

 

        -Meu endereço e o número de meu celular, Petrouska. Posso ter o seu também?

 

        -Estou no hotel Regency – Disse Petrouska, apanhando o cartão e sentindo-se nervosa sob o olhar do pai e de Gina.

 

        -Hotel Regency? Em que apartamento?

 

        -Estamos na suite presidencial – Disse o maestro, com orgulho.

 

        -Oh, naturalmente, maestro – disse Douglas, fitando o homem. Ele voltou-se para Petrouska e pegou sua mão, fitando-a nos olhos.

 

        -Boa noite, Petrouska. Tive um prazer imenso em conhecê-la.

 

        -Boa noite, Douglas – Disse Petrouska ruborizada, retirando a mão. Sentia-se mal em ter aquela conversa sendo vista por seu pai e Gina Verlaine.Tinha a sensação de que estava cometendo um ato vergonhoso.

 

        Petrouska se afastou com seu pai, Gina e a amiga dela, que a fitava de soslaio, sorrindo.Gina com seu pai ao lado, andando na frente, a loura e ela seguindo atrás.

 

        -Você encantou o rapaz, Petrouska! – Comentou  a amiga de Gina, sorrindo maliciosamente. – Tenho certeza que vão engrenar um romance apaixonado!

 

        Petrouska fitou a mulher. Ela sorria com satisfação.

 

        -Ainda não fomos apresentadas. Como se chama? – Perguntou, curiosa. Afinal, quem era aquela mulher que estava com Gina?

 

        -Oh, é mesmo! Sou Carla Zamproni.Eu entendo que não saiba quem sou. Gina ofusca as pessoas ao seu lado e sempre é o centro das atenções.

 

        Petrouska a fitou com mais atenção. Percebeu o orgulho na voz da mulher, quando falou sobre Gina.Isso demonstrava que Carla Zamproni também era fascinada pela bela soprano.

 

        -É amiga de Gina Verlaine há muito tempo? – Perguntou, fitando a mulher, querendo matar sua curiosidade.

 

        -Há mais ou menos seis meses.

 

        -Você também é cantora lírica?

 

        A loura a encarou.

 

        -Sim, sou mezzo-soprano. Participei da ópera Tosca  com Gina no Scala de Milano, onde nos conhecemos.

 

        Petrouska calou-se. Não queria parecer uma bisbilhoteira da vida de Gina Verlaine.Mas intimamente, sentiu um ciúme absurdo de Carla com Gina. Ela convivia com Gina. Devia saber tudo sobre a vida íntima de Gina. Como a invejava!

 

        Tomaram lugar na limousine. O maestro sentou ao lado de Gina e Petrouska sentou ao lado de Carla, que não parecia nem um pouco satisfeita pelo maestro ter usurpado seu lugar ao lado da soprano. Gina se mostrou indiferente, sempre com seu olhar enigmático, parecendo esconder suas emoções. Ela fitou Petrouska e perguntou:

 

        -Vai nos acompanhar em um drink  em minha suite no hotel? Tenho coisas a tratar com seu pai, sobre a ópera.

 

        Petrouska fitou o pai, surpresa.Ele não havia comentado isso com ela. Ele nem a olhou, fitando Gina deslumbrado.

 

        -Não, Petrouska deve estar cansada e vai dormir – Disse ele para Gina – Vamos deixá-la diante do Regency e prosseguir para seu hotel. Petrouska não aprecia a vida noturna, Gina.

 

        -Oh! É uma pena! – Disse Gina, parecendo decepcionada – Tem certeza que não quer vir conosco?

 

        Petrouska entendeu que seu pai não queria que ela fosse com eles  e respondeu com frieza, dominada pela raiva contida:

 

        -Não, senhorita Verlaine. Pretendo dormir cedo. Amanhã tem ensaio.

 

        -Eu não falei? – Disse o maestro, sorrindo Petrouska não aprecia essas saídas noturnas.

 

        Gina encarou Petrouska com um olhar intenso.

 

        -Precisa aprender a viver, Petrouska. A música é importante em nossas vidas, mas não deve ser tudo. Há muitos outros prazeres na vida.

 

        Petrouska a encarou, em um assomo de coragem.

 

        -Eu sei. Mas sou jovem e meu tempo chegará, para desfrutar esses prazeres.

 

        O maestro e Carla Zamproni riram. Mas Gina não fez coro. Ficou fitando-a muito séria.

 

        -Sem dúvida, Petrouska. É uma bela moça e ainda bem jovem. Terá muitas oportunidades para desfrutar a vida..

 

        -Caríssima Gina – Disse Carla, rindo – não percebeu que Petrouska já está se encaminhando para os prazeres da vida? Ela estava muito bem acompanhada pelo jovem Forlan!

 

        Gina franziu o cenho, como se aquela lembrança não a agradasse.Mas isso logo foi substituído por um sorriso, fitando Petrouska.

 

        -Ah, é verdade...o filho de Hugh Forlan. Está começando bem, Petrouska.

 

        Petrouska percebeu uma leve ironia na voz de Gina.Olhou-a atenta, mas ela já desviara o olhar para seu pai. Eles começaram a falar sobre a ópera La Traviata. Petrouska olhou para seu pai e sua dúvida se desfez. Ele estava apaixonado por Gina. Ele a fitava extasiado.

 

        Novamente foi acometida de ciúmes de Gina. Ah, queria que Gina olhasse só para ela! Mas tinha medo do que sentia. Tinha medo de Gina perceber e rir dela. Deus, o que fazer? Nunca se vira atraída por alguém, ainda mais por uma mulher! Não sabia como agir, como saber se Gina aceitava o que sentia.Não tinha nenhuma chance que ela a quisesse. Ou tinha?

 

        A limousine a deixou na porta do hotel e prosseguiu. Petrouska subiu para o apartamento nas nuvens.Na despedida, Gina a beijara nos dois lados do rosto, em um cumprimento à francesa. Sentira aqueles lábios macios em sua pele, o perfume dela, que a inebriou.Não podia enganar a si mesma mais. Estava apaixonada por Gina Verlaine.

 

        Despiu-se e foi deitar. O rosto de Gina a perseguiu até conseguir dormir.

 

 

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        Já era  duas da madrugada quando  o maestro foi embora e Gina Verlaine despiu seu vestido de noite e vestiu um pijama de seda negra. mas ao invés de ir dormir, serviu-se de uma dose de uísque e olhou pela vidraça do living para a paisagem lá fora pensativamente.

 

        Os olhos estavam tristonhos e em seu gesto nervoso de morder o lábio inferior, deixava transparecer que algo fervilhava em seu íntimo, consumindo-a.

 

        A música do cd era a ária "È strano...è strano", da ópera La traviata. A voz de Kiri te Kanawa, a famosa soprano neo-zeolandeza, uma das melhores sopranos vivas, cantava com sentimento a famosa ária, mas Gina dessa vez não prestava atenção, apesar de admirar muito Kiri.

 

        -Por que está tão inquieta, Gina?

 

        Gina voltou o rosto e fitou Carla, que sentada no enorme sofá da sala a fitava com um olhar cheio de suspeita.

 

        -Não estou inquieta – Respondeu Gina, afastando-se da janela e sentando diante de Carla numa poltrona, tomando um longo gole de uísque.

 

        -Eu a conheço bem, Gina. Você tem andado muito inquieta desde seu primeiro ensaio da ópera.O que a preocupa?

 

        Gina encarou a mulher com impaciência.

 

        -Quer fazer o favor de deixar-me em paz com os meus pensamentos? –Disse, com certa irritação na voz.

 

        Carla ergueu-se e se aproximou de Gina, ajoelhando-se diante dela e a abraçando pelas pernas.Ergueu o rosto, fitando Gina com olhar queixoso.

 

        -Você está ignorando-me desde que chegamos a New York. Só a vejo nervosa e pensativa! Nem quer ter sexo comigo!

 

        Gina a olhou com complacência, tomando outro gole de uísque.

 

        -Você sabe que fico assim toda vez que estou preparando-me para  estrear um trabalho.Já devia estar acostumada. Eu a avisei que não teria tempo para você, mas você insistiu em acompanhar-me.E recusou o contrato na Alemanha, mesmo eu a advertindo que estava cometendo um erro.

 

        Carla a fitou com olhar acusador.

 

        -Gina, recusei o contrato por sua causa! Mas você não dá valor à isso,  só me dá o mínimo de atenção!

 

        Gina ergueu-se do sofá, mas Carla não soltou suas pernas. Ela a fitou irritada.

 

        -Que inferno, Carla! Suas cobranças me chateiam mais que tudo! Por que não volta para Milano e vai cuidar de sua vida profissional? Eu não tenho tempo para ficar pajeando você! Eu tenho minha vida para cuidar!

 

        Carla apertou a cabeça contra as pernas de Gina, falando acusadoramente:

        -Você quer se ver livre de mim! É por isso que diz isso! Você não me ama mais! Como pode ser tão fria?

 

        Gina fitou Carla com frieza.

 

        -Carla, nunca disse que a amava! Não invente promessas que nunca fiz! Lembra como tudo começou entre nós? Começamos a trabalhar juntas na ópera, você se apaixonou por mim e insistiu muito para eu ter uma aventura com você. Eu acabei cedendo, mas esclareci que não queria compromisso sério com ninguém! Então, não pode cobrar-me nada! Solte-me!

 

        Carla soltou as pernas de Gina, fitando-a com súbito ódio, o reverso do amor.

 

        -Não venha com desculpas, você está é interessada em outra mulher! Por isso fica aí com olhar perdido, ignorando minha presença! Quem é ela? Diga! Tenha a dignidade de falar a verdade! – Gritou.

 

        Gina afastou-se uns passos, fitando Carla com raiva.

 

        -Se pensa isso tudo de mim, por que permanece junto à mim? Quem tem que ter dignidade é você, deixando-me em paz!

 

        -Então, é verdade! Você não me quer mais, está com a cabeça em outra!

 

        -Chega, Carla! Vamos acabar com esse tormento! Eu estou cheia de suas lamúrias, de suas suspeitas! Se você não tem coragem de tomar uma atitude, eu tenho! Não quero mais nada com você! Quero que vá embora amanhã, no primeiro vôo para Milano!

 

        Carla a fitou aturdida e indignada.

 

        -Está mandando-me embora?!

 

        Gina a fitou com uma frieza que transformava seus olhos em duas pedras de gelo.

 

        -Estou, Carla. Acabou. Não agüento mais. Vá viver sua vida longe de mim! Eu quero paz!

 

        -Não pode estar falando sério!

 

        Gina deu um sorriso frio.

 

        -Duvida?

 

        Gina pegou o telefone na mesinha de centro e discou para a recepção do hotel.

 

        -Alô. Aqui é Gina Verlaine, da suite presidencial. Por favor, encerrem a conta de Carla Zamproni, do apartamento 1003. Sim, dela mesma. E coloquem a despesa em minha conta. Ela vai viajar amanhã . E providenciem um táxi para ela depois de meio dia, para o aeroporto. Sim, está ótimo. Obrigada.

 

        Gina desligou e olhou para Carla, colocando  seu copo de uísque vazio sobre a mesa e cruzando os braços.

 

        -Pronto, eles vão encerrar sua conta.Já está tudo resolvido. Agora, só falta marcar sua passagem de volta para Milano. Você mesma marca, ou quer que eu faça?

 

        Carla ergueu-se do chão e tentou agredir Gina, cheia de ódio. Gina segurou os pulsos dela facilmente, fitando-a com ar divertido.

 

        -Sua miserável! – Vociferou Carla, tentando se soltar inutilmente – Você não presta! Mas um dia receberá de alguém o mesmo desprezo com que trata suas conquistas! Por Dio, desejo com todas as minhas forças que isso aconteça, para você provar do mesmo veneno! Putana!

 

         -Seja mais original, Carla! Não repita chavões de pessoas perdedoras!É muito mais digno ir embora sem falar essas coisas, praguejar e xingar! Você não tem do que queixar-se! O tempo que ficou comigo, viajou para vários países sem gastar um tostão, ganhou diversos presentes valiosos e teve uma vida que muitos invejariam!

 

        -Mas eu perdi bons contratos por sua causa, sua miserável!

 

        -Mentirosa, perdeu apenas um! Não seja por isso, vou dar à você uma boa quantia que dará para você viver bem até arranjar um bom contrato. Cem mil dólares, o que acha?

 

        Os olhos de Carla brilharam de cobiça. Gina sabia muito bem com quem lidava. Mas a mulher deixou de lutar e se afastou, fitando Gina com raiva.

 

        -Você sabe onde enfiar esse dinheiro, sua putana! Não me interessa seu dinheiro! – Gritou  ela, saindo e batendo a porta.

 

         Gina respirou fundo e se jogou no sofá, com uma expressão de desgosto. Aquele método nunca falhava. Dinheiro era a palavra mágica para suas conquistas saírem de sua vida sem fazer nenhum escândalo. Isso era um alívio, mas também a entristecia. A aceitação do dinheiro provava que as mulheres que tivera em sua vida não a amavam desinteressadamente. Juravam amor e paixão, mas o que realmente sentiam era o orgulho de estarem convivendo com uma celebridade, sendo íntimas, desfrutando de uma boa vida. Ainda bem que nunca acreditava nelas.

 

        E agora, estava se sentindo infeliz. Não por causa de Carla, mas sim porque sua autoconfiança estava baixa. Tudo por causa de uma garota que nem podia imaginar que a famosa Gina Verlaine  estava à cada dia mais atraída por ela.

 

        Petrouska. Aquele rosto de beleza angelical, aqueles olhos incrivelmente verdes, aquela boca que pedia beijos, os cabelos louros como trigo maduro.

 

        Maldição! Tinha que tirar aquela garota da cabeça! Ela não era gay, ela estava interessada no filho de Hugh Forlan !

 

        Desde que a vira no teatro, ficara fascinada. E a cada vez que a via, o encanto aumentava. Petrouska! Até o nome dela era lindo. Só mesmo ela para ter um nome extraído de uma personagem de balé. Quando a via, seu olhar se paralizava nela, incapaz de olhar para outra coisa. E procurava não demonstrar em seu olhar o desejo que a consumia. E nessa noite, quando a vira com Douglas Furlan, que ciúmes sentira dela! Tinha que conter-se, mas era um suplício. E sentia-se impotente para reagir.

 

        Apertou as mãos, em desespero. Pela primeira vez na vida, estava sofrendo por causa de uma paixão recalcada, um amor impossível.

 

        Impossível? Essa palavra nunca existira em seu vocabulário, quando queria concretizar um desejo.Desde quando era uma obscura filha de um modesto joalheiro.Havia vencido muitas barreiras para ser o que era hoje, uma mulher rica, famosa, reconhecida pelo seu talento.

 

        Imaginou Petrouska tocando violino. Queria ser um pintor para eternizar essa cena belíssima, aquela garota dona de um rosto belo, um corpo com a postura de uma dançarina clássica, tocando o instrumento musical. Um momento mágico, em que seus olhos se encontrariam, uma cantando, a outra tocando, envolvendo-as numa aura de romantismo.

 

        Uma chama resoluta brilhou em seus olhos azuis.

 

        -Não vou mais ficar assim inerte, sofrendo! – Disse baixinho – Vou lutar para ter o amor de Petrouska, contra tudo e contra todos!

 

        E foi dormir com essa resolução.

 

))))))((((((

       

 Continuará na parte 3

 

 

 

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