PRIMA DONNA
PARTE 10
Uma semana se
passou, depois daquele dia. Petrouska acabou esquecendo de Chris, envolvida na sua paixão por Gina.
Ela agora sempre acompanhava Petrouska em seus passeios matinais, deixando os compromissos
para a tarde. Petrouska desconfiava que Gina tinha medo de que ela conhecesse
alguém que a interessasse, e isso a deixava feliz. Se Gina tinha ciúmes dela,
era porque a ama.
Naquele dia , resolveram ir ao Louvre. Petrouska ficou deslumbrada com
os imensos corredores com espelho de cristal, a decoração suntuosa e a
arquitetura do palácio. Ao seu lado, Gina comentava sobre o que viam,
demonstrando seu conhecimento de história
da arte.
-Veja aquelas
porcelanas, Petrouska. Foram usadas por Maria Antonieta em seu café matinal.
Petrouska aproximava-se e comprovava a veracidade da informação de Gina,
em um pequeno cartaz.
-Como guardou
tudo isso na cabeça? – Perguntou admirada – São muitos objetos expostos !
Gina sorriu.
-Vi tudo isso em livros de arte
francesa. E memorizei.
-Que
memória prodigiosa ! Eu faria confusão de tudo.
-Uma
soprano tem que ter uma boa cultura, querida. Não tive muito estudo, mas
procurei compensar isso lendo muito.
Petrouska
a fitou com admiração.
-Cada
vez a amo mais, Gina. Admiro sua inteligência, sua arte, sua cultura. E
também... sua beleza e temperamento quente.
Gina
riu, apertando seu braço.
-Vai
ver meu temperamento mais tarde, Pet.
O
olhar de Petrouska caiu por acaso em um olhar que a observava. Uns olhos verdes
e curiosos, em um belo rosto de mulher, do outro lado da redoma que protegia as
louças do museu.
Chris.
A garota do quadro.
Petrouska
parou de sorrir, olhando-a e sentindo o remorso tomá-la de assalto. Não a
procurara mais, o quadro jazia esquecido em um armário de seu quarto.
Ela
desviou o olhar para Gina, Olhou-a em silêncio uns instantes e depois
afastou-se, sem olhar para trás.
Petrouska
a seguiu com o olhar, pensando como estaria passando. Estaria com fome ?
Conseguiria vender algum quadro ?
-Quem
é aquela moça, Pet ? Conhece-a ?
Petrouska
voltou os olhos para Gina. Ela a olhava com um olhar felino, cheio de ciúme.
-Não...
– mentiu, para evitar aborrecimentos – Ela olhou-me e fiquei curiosa, só isso.
Gina
apertou seu braço, puxando-a para a saída da sala.
-Ficou
curiosa, ou interessada ?
Petrouska
sorriu, olhando-a nos olhos.
-Que
bobagem, Gina. Sabe que a amo. Ninguém mais me interessa.
-Vai
provar-me isso hoje... – Sorriu ela descontraindo-se.
Voltaram
para casa em um táxi. Petrouska ouvia Gina falar, mas não prestava atenção. Sua
mente se fixara naquele olhos tristes, no remorso por pensar que aquela garota
precisava de ajuda e ela a esquecera.
Depois
de três dias, Petrouska levantou-se e tomou um banho, com a idéia de procurar
Chris. Ela lhe parecera tão triste, devia estar passando dificuldades. Queria
ajudá-la.
Estava
vestindo-se quando Gina surgiu em seu quarto. Dormiam juntas, mas as roupas e
seus pertences ficavam no seu quarto.
-Já
de pé, Pet ? Aonde vai, tão cedo ?
-Vou
andar por aí, Gina.
-Vou
aprontar-me para acompanhá-la.
Petrouska
a encarou séria.
-Não,
Gina. Quero ir só.
Os
olhos azuis se estreitaram.
-Por
quê ?
-Quero
ficar um pouco sozinha. Não foi você quem disse que não devemos perder nossa
individualidade ?
-Muito
bem, Petouska... pegou-me nessa. Mas cuidado com que vai fazer. Pense bem. Não
vou admitir uma traição.
-Gina,
não vou fazer nada errado !
-Ótimo
! Vá, Petrouska. Não é liberdade que quer ? Pois a tem. Como eu tenho, não é
isso ?
Petrouska
a fitou, sentindo a ameaça velada.
-Não
vou mais. Está pensando bobagens.
-Não,
quero que vá! Você está certa. Estamos muito isoladas, com excesso de
convivência. Sabe, estive pensando... estou desconhecendo-me. Sempre fui à
favor da liberdade numa relação amorosa, nunca agi como estou agindo, querendo
vigiá-la, impedir que saia sozinha, por medo de perdê-la. É uma insegurança que
tenho que vencer. Como dizem, o ferro tem que ser passado no fogo, para se conhecer sua têmpera. É isso. Você, se me
ama verdadeiramente, não se deixará envolver por outra mulher que surgir. Tenho
que deixá-la livre para saber a
intensidade de seu sentimento. Vai passar por uma prova de fogo e se
queimar-se, se envolver-se por alguém, é porque não me amava como diz. Prefiro
descobrir isso logo.
-Gina!
Você duvida do meu amor ? Acha que minto para você?
Ela
a encarou gravemente.
-Não,
Pet. Você deve estar sendo sincera. O que temo
é que você esteja enganando à você mesma. Que não esteja avaliando bem o
que sente por mim. Muitas vezes a paixão é confundida com amor. E você, com sua
inexperiência amorosa, pode ter caído nessa armadilha sentimental. Isso vamos
ver.
-Oh,
Gina! Você pensa
que sou uma
idiota, que não sei
avaliar meus sentimentos ? –
Protestou Petrouska,magoada – Pois vou
provar a você que sei o que quero! Que a amo verdadeiramente e só desejo você
!
Ela
a fitou com dúvida no olhar.
-Veremos...
o tempo dirá.
Petrouska
a abraçou, amedrontada com as palavras de Gina. Ela ficou imóvel. Fitou-a nos
olhos.
-Gina
! Eu a amo ! Acredite nisso ! Não estou interessada em ninguém ! só estou com
pena da garota que conheci, ela mora miseravelmente e não tem dinheiro para
comer ! Ia procurá-la hoje para ver se posso ajudá-la, mas desisti disso,
porque não quero que você pense que estou saindo para traí-la.
A
chama do ciúme brilhou nos olhos de Gina.
-Ah,
a garota do quadro ! Então está pensando nela, preocupando-se ! Eu sabia que
havia algo que você estava escondendo-me ! Acertei !
Petrouska
percebeu que mais uma vez errara em ser sincera. O ciúme de Gina só via o lado
ruim da questão. E agora, havia colocado mais suspeitas na cabeça dela.
-O
que acontece é que não confia em mim, Gina. Essa é a essência de nossas discussões – Disse, magoada – Quero ser
sincera com você, mas isso só torna tudo pior, porque você vê coisas onde não há.
-E
acaso você confia em mim? Não acusou-me de ter chamado o conde Salieri aqui
para uma sessão de sexo ? Não proibiu-me de vê-lo ?
-É
diferente. Ele era seu amante, Chris é uma moça que não gosta de mulheres. Não
há maldade em nossa relação.
-É
mesmo ? Sei como são essas coisas, Petrouska. Ela não gosta até provar.
-Ela
já provou e não gostou.
-Ora,
uma mulher bruta e sem sensibilidade ! Até eu não gostaria ! Ouça, chega de
discussão ! Vá procurar essa Chris ! Depois, não venha proibir-me de nada !
-Eu
não vou mais.
-Vai,
sim ! Não quero que diga que eu a impedi de ter amizades! Vá! Faço questão disso! Você vai passar pela sua prova de
fogo.
E
dizendo isso, Gina retirou-se. Petrouska ficou ali olhando para a porta,
indecisa e triste. Será que Gina tinha razão ? Sem que percebesse, estava se
envolvendo com Chris? Não, ela amava Gina! Só tinha pena de Chris! Pois iria
provar à Gina que estava errada! Iria fazer amizade com Chris, ajudá-la, sem
nenhum envolvimento amoroso! Mostraria à Gina que a amava, passaria pela prova
sem queimar-se!
Com
essa decisão, saiu do apartamento.
A
feira de quadros em Montmatre estava cheia de gente.Petrouska caminhou com
dificuldade no meio dos turistas, procurando a banca de Chris. Não a achou no
local que estivera quando a conhecera. Depois de percorrer a feira toda, voltou
ao ponto dela e resolveu perguntar por ela a um rapaz que montara seus quadros
perto. O rapaz a olhou curioso.
-É
amiga de Chris ? Isso é muito bom, porque ela está doente e só.
O
coração de Petrouska se contraiu de apreensão.
-Ela
está doente ? O que tem ?
-Uma
gripe forte. Está de cama há três dias e não tem quem cuide dela. Ela se
alimenta muito mal, deve ser isso.
-Sabe
aonde ela mora ?
-Sim
, ela mora no mesmo prédio que eu. Quer o endereço ?
-Queo
sim, por favor.
-Um
momento.
O
rapaz tirou uma caderneta amassada do bolso, tirou uma folha e Petrouska
estendeu sua caneta para ele. O rapaz escreveu apoiando a folha em um
caixote.Entregou a folha para Petrouska.
-Vá
vê-la, mademoiselle. Ela precisa de alguém para ajudá-la.
Petrouska
olhou para o papel. O endereço era em uma rua desconhecida, perto do Rio Sena.
Agradeceu ao rapaz e pegou um táxi, rumando para o local.
O
chofer parou diante de um prédio em um mau estado, sujo e velho, com as paredes
descascando. Olhou para Petrouska.
-É
esse o endereço.
Petrouska
o olhou, nervosa.
-Pode
aguardar-me ? Pagarei o dobro da corrida. Tenho uma amiga doente aí. Ela pode
precisar ir a um hospital e aqui é difícil passar um táxi.
Ele
a avaliou pelos trajes. Petrouska estava vestida com um blusão de veludo negro
de boa qualidade, calça de lã cinza, blusa branca de algodão e botas negras
luzidias. Via-se que era uma mulher de certa condição financeira.
-Está
bem. Mas pague a corrida adiantada. O resto, na volta. Vou esperar até meia
hora.
-É
o suficiente. Merci.
Deu
o dinheiro e saiu do táxi. A porta do prédio estava encostada. Empurrou-a e
entrou.
Havia
um hall escuro e acanhado, com cheiro de mofo. E uma mulher magra e de olhos
afogados em duas bolsas de olheiras crônicas a olhou dos pés à cabeça, enquanto
passava um pano molhado e sujo no chão
de ladrilhos encardidos.
-O
que deseja ? – Perguntou, com voz fanhosa.
Petrouska
conteve a expressão de náusea. Aquela mulher com roupas sujas, o cheiro de
mofo, aquele lugar escuro, tudo a aturdia e dava nojo. Deus, era aquele lugar
que Chris morava ! Como ela suportava ?
-Quero
falar com Chris – Respondeu, seca.
-Ah,
aquela trambiqueira ! Deve-me dois meses de aluguel e agora inventou que está
doente, para eu não expulsá-la ! Mas diga à ela que só vou esperar até amanhã !
Petrouska
conteve-se para não mandar a mulher para o inferno. Olhou-a friamente.
-Quanto
ela deve ?
-Duzentos
euros ! Uma ninharia, para um bom quarto !
Petrouska
tirou o dinheiro que trazia no blusão. Ainda bem que viera preparada para algo
assim. Separou duas notas de cem e estendeu para a mulher, que as pegou
rapidamente, como se tivesse receio de Petrouska recuar no pagamento.
Colocou-as no soutien e sorriu com os dentes amarelos de nicotina.
-Pronto.
Chris não lhe deve mais nada - Disse
Petrouska, secamente – Onde é o quarto dela ?
-Lá
em cima, mademoiselle... – indicou a mulher subitamente afável – É amiga dela?
Na verdade, Chris não é uma moça ruim... é só meio desorganizada nos
pagamentos...
Petrouska
deixou-a falando sozinha e subiu o lance de escadas até o segundo andar. Olhou
os números nas quatro portas. Viu o 202. Era ali. Bateu na porta.
O
tempo passou sem nenhuma resposta. Bateu novamente com insistência. Nada.
Nervosa, tornou a descer as escadas. A mulher que a recebera a olhou curiosa.
-Chris
não atendeu. Ela está mesmo no quarto ? Perguntou Petrouska, nervosa.
-Claro,
eu fico aqui vigiando a entrada – respondeu a mulher – sabe como é... às vezes
uns tipos esquisitos veem aqui procurar os moradores... mas espere, eu tenho as
chaves de todos os quartos... vou lá ver o que houve...
A
mulher largou a vassoura e subiu , seguida de Petrouska. Tirou um molho de
chaves do bolso da saia e introduziu uma
delas na fechadura da porta. A porta abriu e ela afastou-se para Petrouska
passar.
Petrouska
entrou. O quarto estava escuro. Mas a mulher atrás de si acendeu a luz e Petrouska
pôde ver Chris deitada em uma cama, parecendo dormir. Aproximou-se e debruçou
para olhá-la. Chris suava profusamente, o rosto estava vermelho, os cabelos
empapados de suor. O corpo tremia, coberto por um cobertor vermelho. Um vento
frio entrava pela vidraça quebrada da janela.
Petrouska
a sacudiu suavemente pelo ombro. Ela gemeu baixinho, mas não abriu os olhos.
Tornou a sacudí-la com mais força, chamando:
-Chris...
Chris... acorde...
Ela
abriu os olhos e os piscou, com a claridade da luz. Tornou a fechá-los e os
abriu, olhando para Petrouska com ar confuso.
-Petrouska
! ... Você, aqui ... – balbuciou.
Petrouska
tomou a mão de Chris na sua. Estava gelada.
-Chris,
o que está sentindo ? O que tem ?
-Não
sei... – Disse ela, com voz trêmula – sinto frio... calor... e muita dor quando
respiro...
-Oh,
meu Deus ! Chris ! Você tem que sair daqui ! Acho que você deve ir a um médico
!
Ela
deu um sorriso.
-Médico?...
– arquejou – não posso, Petrouska... não tenho dinheiro para isso...
-Pois
vou levá-la à um ! – Disse, puxando o cobertor. Ela estava completamente
vestida, com blusa, calça jeans e meias.
Petrouska
a pegou pelos ombros, puxando-a suavemente
para cima. Chris sentou e Petrouska a apoiou, passando o braço pelas
costas dela.
-Tente
levantar-se, Chris... eu a ajudo.
Ela
ergueu-se devagar, apoiando-se em seu corpo.Cambaleou e começou a tossir.
Petrouska a apoiou com o corpo e tirou o blusão, colocando-o sobre os ombros
dela.
-Vamos
indo, Chris... devagar...
Ela
passou o braço pela cintura de Petrouska
e foi andando em passos lentos para a porta. Desceram as escadas e
saíram para rua. O táxi aguardava e o motorista abriu a porta para elas
entrarem.
-Para
o hospital mais próximo que conhece ! – Disse Petrouska ao motorista.
Ele
assentiu e arrancou.
Petrouska
olhou para Chris, preocupada, ao seu lado. Ela pousara a cabeça no seu ombro e
fechara os olhos. A respiração parecia difícil. Petrouska pousou a mão na testa
dela. Ardia em febre. Petrouska estava desconfiada que Chris estava com uma
pneumonia e sabia como isso era perigoso.
Foram
atendidas no Hospital Sacre Coeur de Marie. Chris fo levada em uma cadeira de
rodas para exames e Petrouska ficou esperando na sala de espera, nervosa.
Quarenta minutos depois um médico veio ao seu encontro.
-É
parente de Christine Sardu ? – Perguntou.
-Sou
uma amiga.
-Ela
teve que ser internada. Está com pneumonia.
Petrouska
o fitou apreensiva.
-Eu
desconfiava disso ! O estado dela é grave, doutor ?
-Se
não chegasse aqui há tempo, poderia chegar a falecer. Mas agora está sendo
tratada adequadamente e tem boas chances de se restabelecer. Ela está muito
fraca e desnutrida.
-Oh,
doutor ! Faça tudo que for preciso ! Eu pagarei tudo !
Ele
sorriu.
-Não
precisa pedir. Vamos fazer o que pudermos. Agora, passe na recepção para
assinar os documentos de internação.
-Quanto
tempo ela ficará internada ? Poderá receber visitas ?
-Provavelmente,
ficará internada uma semana, no mínimo. Terá que tomar soro, uma transfusão,
pois está muito anêmica. E medicamentos. Quanto às visitas, só depois de
amanhã. Ela precisa de descanso. E uma visita iria cansá-la.
Petrouska
saiu do hospital com a sensação do dever
cumprido. Havia talvez salvado Chris da morte. Agora ela sendo bem atendida,
era o que valia. Tivera que depositar um cheque de mil euros no hospital. O
dinheiro de sua conta diminuíra consideravelmente. Tinha que arrumar urgente um
trabalho para ganhar dinheiro. Com quê ? Vender seus quadros ? Ninguém a conhecia,
era uma pintora como Chris, sem conhecimentos. Voltar a tocar violino ? Era sua
única chance. Tinha um bom currículo como violonista. Era filha do maestro
Vousky. O segundo violino da orquestra dele, o que era uma excelente
recomendação. Pois iria procurar ganhar dinheiro desse modo, mas sem usar o
nome do pai.
Quando
chegou ao apartamento de Gina, encontrou-a no living, bebendo com o Conde
Salieri.
Petrouska
empalideceu e estacou, chocada. Mas Gina a olhou com naturalidade, sentada ao
lado do Conde, que a fitou com um olhar arrogante, com uma taça de vinho na mão. Gina sorriu, um sorriso
cheio de sutil ironia.
-Oh,
aí está Petruska, Salieri ! Querida, chegou cedo ! Pensei que ia varar a noite
em sua visita caridosa !
Petrouska
notou que Gina estava embriagada, pela voz ligeiramente arrastada. Olhou-a com
reprovação, procurando dominar-se para não fazer uma cena. O ciúme explodia em
seu peito, junto com a decepção.
-Vejo
que esteve aproveitando bem a minha ausência, Gina.
Ela
riu, fitando-a .
-Oh,
sem dúvida ! Estamos quites, querida ! Você distrai-se de um modo, e eu, do
outro !
Petrouska
fechou os punhos, irada com aquelas palavras debochadas.
-Com
licença. Vou para o meu quarto, estou cansada – disse, dirigindo-se para a
escadaria que levava ao segundo pavimento. Ouviu a voz de Gina atrás, em tom
revoltado:
-Cansada
? Ah, a visita cansou-a ! Imagino ! Deve ter-se exercitado muito ! Como foi ?
Ela é mais fogosa que eu ?
Petrouska
voltou-se, com os olhos chamejantes. Gina havia se erguido e aproximou-se com
um olhar felino, numa pose agressiva.
-Você
está embriagada ! – Jogou, com raiva – Não é digna nem de ouvir o que aconteceu
com Chris !
-Não
sou digna ? Não sou ? – Gritou Gina, olhando-a furiosa – Então, agora sou uma
mulher indigna ?
-Assim
como está, é ! – Afirmou Petrouska, encarando-a .
Gina
ergueu a mão e vibrou uma violenta bofetada no rosto de Petrouska, que
cambaleou com o golpe.
O
Conde Salieri correu e segurou Gina pelos braços por trás, nervoso.
-Mademoiselles
! – Disse, com energia – Sejam sensatas ! Acalmem-se ! Estão perdendo a cabeça!
Parem com isso !
Gina
começou a soluçar, apontando Petrouska, que a olhava com grande mágoa, com a
mão no rosto.
-Salieri,
já contei tudo à você ! Ela está interessada por outra mulher ! Ela enganou-me,
Salieri ! É uma traidora ! E ainda vem insultar-me ! Oh, odeio-a ! Odeio-a !
-Calma,
Gina ! Vocês estão nervosas ! Acalme-se ! Ouça o que Petrouska tem a dizer !
-Não
quero ouvir nada ! É finito ! Acabou ! Nostro amore non’era vero !
Petrouska
saiu de seu silêncio:
-Tem
razão. Acabou ! E não vou ficar nessa casa nem mais um dia !
E
saiu correndo da sala. Chegou em seu quarto e pegou suas duas malas, jogou
quase toda sua roupa, fechou-as e saiu em passos largos.
No
living, Gina soluçava e o Conde Salieri a acariciava, o que mais enfureceu
Petrouska. Saiu e bateu a porta.
Com
a cabeça em tumulto, pegou um táxi e pediu que o motorista a levasse para um
hotel de preço médio.
))))))(((((((
Dois
meses depois
Gina
olhou sua própria fotografia estampada na News Week, com o título elogioso : A
ESTRELA BRILHA MAIS UMA VEZ.
Em
outra ocasião, seria um motivo de alegria e orgulho. Mas apenas folheou a
revista sem muito interesse, deu uma olhada rápida na reportagem e depois jogou
a revista sobre o sofá, erguendo-se. Foi até o bar e preparou um uísque com
gelo e aproximou-se das vidraças que davam para a avenida.
Olhou
para a paisagem nevoenta, pensativa.
Sentia-se
infeliz. Desde que Petrouska saíra de sua vida, havia se jogado em aventuras
loucas, na ânsia de esquecê-la. Mas não
conseguia. O sentimento continuava machucando, a saudade atormentando-a, o
arrependimento de não ter sido mais compreensiva, deixando o ciúme dominá-la.
Havia sido rude e a magoara, fazendo-a sumir de sua vida.Devia ter confiado no
amor que ela sentia, deixá-la conhecer outras pessoas e fazer amizade, ao invés
de ficar acusando-a de traição. E chegara a agredí-la fisicamente ! Ah, o ciúme,
o veneno do amor ! Agora estava ali sofrendo, sem saber onde encontrá-la para
pedir humildemente que voltasse, porque não conseguia ser feliz sem ela.
Dois
meses ! Dois meses sem ao menos ter qualquer notícia dela. Petrouska havia
sumido de circulação. E isso a preocupava também. Como estaria vivendo ?
Estaria passando privações ? Oh, se soubesse onde estava !
O
telefone tocou. Como das outras vezes, desde que Petrouska se fôra, atendeu-o ansiosa.
Suspirou, desanimada, reconhecendo a voz do Conde Salieri.
-Gina?
-Fale,
Salieri...
-Estou
aqui com uma pessoa que deseja muito conhecê-la. Posso ir com ela até aí ?
-Salieri,
não estou com vontade de conhecer minguém – Disse, desanimada.
-Gina,
você tem que reagir ! Ouça, não estou falando sobre uma pessoa qualquer ! É uma
pessoa muito especial ! Você, quando vê-la, vai concordar comigo !
-Então,
deixe de rodeio e diga logo de quem se trata !
-Muito
bem... vou estragar a surpresa, mas já que quer assim... a pessoa é Donna
Gardner.
Donna
Gardner ! Uma das mais badaladas estrelas de Hollywood ! Além de bela, era
prestigiada pelo seu talento como atriz, já havia sido indicada para o Globo de
Ouro duas vezes, por dois papéis marcantes. Será que ela conseguiria
fazê-la esquecer Petrouska? Ia tentar,
mais uma vez.
-Bem,
ela é mesmo interessante, Salieri. Onde a conheceu ?
-Estamos
aqui em um restaurante, o Tribeca Planet. Ela chegou acompanhada de um amigo
meu e fomos apresentados. Quando falei de você, ela disse que tinha muita
vontade de conhecê-la pessoalmente. E ficou louca quando disse que você está em
N.Y. e que tenho acesso à sua casa.
Gina
sorriu, lisonjeada. Uma atriz conhecida como Donna Gardner estar louca para
conhecê-la, era demais para seu ego. Mas não estava entusiasmada, como seria
normal.
-Bem,
traga-a aqui, Salieri. Vamos ver se ela corresponde à sua imagem no cinema.
O
Conde riu.
-Acho
que corresponde e ultrapassa, Gina... até logo.
Ele
desligou e Gina suspirou, tomando mais um gole de uísque. Ah, se fosse
Petrouska quem tivesse ligado ! Aí sim, estaria eufórica e ansiosa !
Uma
hora depois, Donna Gardner chegou. Só em cumprimentá-la, Gina percebeu o interesse dela não era apenas
porque admirava sua voz. O olhar que percorreu seu corpo e se fixou em seus
olhos, disse tudo.
E
ela era linda, mais que no cinema. Uma loura curvilínea, traços perfeitos,
olhos azuis e boca sensual.
Entre
alguns drinkes, ela falou que admirava a música erudita e dentre as cantoras
líricas, Gina era a que mais admirava. Gina tinha uma voz maravilhosa e um
grande carisma no palco.
Gina
riu, brincando:
-Só
no palco? E pessoalmente ?
Ela
a fitou nos olhos, com olhar intenso.
-Pessoalmente,
é uma mulher envolvente, charmosa e atraente, Gina.
Gina
a fitou avaliadoramente, sorrindo.
-Você
é tudo isso também, Donna.
Ela
sorriu, envaidecida. Olhou atrevidamente para a boca de Gina, falando baixinho:
-Você
me dá um tesão incrível, Gina...
Gina
ergueu a mão e passou na coxa descoberta pelo vestido, que tinha uma abertura
frontal. Donna estremeceu, suspirando.
Gina
olhou para o Conde, que acompanhara o gesto com um olhar excitado, sentando
diante delas.
-Salieri,
não está na hora de ir embora ? Já passa da uma da madrugada.
Ele
a olhou sorrindo.
-Fiquem
à vontade... esqueçam que estou aqui.
Gina
o olhou séria.
-Não,
Salieri. Nunca mais quero que veja...
-Mas
ficarei quieto, prometo...
Gina
ergueu-se, puxando Donna pela mão.
-Tudo
bem, fique aí, imaginando. Nos vamos para o meu quarto. Nada de espectadores,
Salieri.E se retiraram, ouvindo Salieri praguejar sozinho. Subiram as escadas e
Gina abriu a porta do quarto, entrando com Donna. Fechou a porta e a olhou.
Donna sorria, tirando o vestido.
-O
velhote ficou furioso por ser privado do espetáculo. – Comentou, colocando o
vestido sobre uma poltrona. Apenas de calcinha, pois estava sem sutian,
aproximou-se e e agarrou Gina pelos
ombros, esmagando as bocas em um beijo ardente. A língua de Donna penetrou na
boca de Gina, sugando e acariciando, provocando um arrepio de desejo.
Ela
despiu Gina com as mãos ansiosas e olhoupara o sexo dela com desejo.
-Deus,
você é um tesão, Gina... – Disse, baixinho.
Gina
a empurrou para cama, caindo sobre ela. Agora, era ela quem possuía as
mulheres. Só havia sido passiva com Petrouska. Com outras, era ela quem
atacava, como se sua passividade com Petrouska fosse algo especial que queria
preservar.
Atacou
Donna com a boca, com os dedos, fazendo coisas que enlouqueceram Donna. Ela
gemia, remexia-se, arquejava, falando palavras que incitavam Gina , pela sua
lubricidade:
-Pegue-me...
mate-me de prazer... enfie os dedos... enfie! Ah... Ahhhh...
Donna
começou a gritar histericamente. Gina a beijou na boca, para fazê-la calar, mas
ela a mordeu, fora de si. Irritada, Gina
a esbofeteou, afastando-se. Donna a olhou alucinada.
-Isso
! Quero que me bata ! Isso me excitou, Gina... Mais... mais...
Gina
tornou a bater nela, dessa vez nas coxas. Donna arqueou o corpo, sacudindo-se
em um orgasmo intenso.
Gina
começou a mover-se sobre ela, frenética, até que atingiu o êxtase, apertando-se
contra Donna. Deitou ao lado dela, mas Donna avançou e tomou seu sexo na boca,
sugando-o avidamente. Gina gemeu, deixando-a continuar. Mas antes de atingir
novo êxtase, puxou-a pelos cabelos brutalmente e girou o corpo, deitando sobre
ela, forçando-a a deitar de bruços. Empurrou-se contra ela, esfregando-se num
vai-e-vem ligeiro e ritmado. Donna gemia, masturbando-se com a mão. Logo as
duas alcançaram o orgasmo , mais uma vez.
Gina
voltou-se de costas para ela, lembrando de Petrouska. Maldição! Não acreditava!
Nem Donna conseguira tirar Petrouska de sua cabeça ! Durante o ato sexual,
conseguia tirá-la do pensamento, envolvida pelo prazer de possuir uma bela
mulher. Mas quando se satisfazia, a sua parceira perdia o encanto. Fora do sexo, não sobrava mais nada, porque não
havia amor, o sentimento que une duas pessoas.
Mas
em Donna, o efeito foi inverso. Estava encantada com Gina, apaixonada, agora
que tivera sexo com ela. Já a admirava pela aparência e voz, e agora que a
tivera na cama, rendia-se ao fascínio de Gina. Dela emanava uma atração
poderosa, que mulher nenhuma lhe despertara. E que mulher ! Era magnetizante,
envolvente.
Abraçou-a
por trás, encostando-se no corpo dela.
-Gina...
estou apaixonada por você... – disse, empolgada – quero ficar com você...
Gina
não se voltou. Falou, sem emoção:
-Sabe
que é impossível, Donna... você tem sua vida agitada e eu tenho a minha, que
também não é menos trepidante... amanhã volto para Paris, onde moro. Só vim
aqui em N.Y. para lançar um álbum. Devo ir amanhã à tarde à um coquetel para
a imprensa, e à noite viajo para Paris. Não nos veremos mais, sua vida é
aqui na América.
Donna
a beijou no pescoço.
-Então
eu irei a Paris, Gina. Terminarei um filme dentro de uma semana e vou tirar uns dias de descanso,
antes de iniciar outro. Eu a encontro em Paris.
-Não
sei se vai gostar de ficar comigo. Não sou uma pesoa fácil de lidar.
-Nem
eu sou, querida. Mas estou louca por você e valerá à pena. Depois veremos o que
fazer.
Gina pensou. Ora, por que não ? Estava só. Tinha que ficar com alguém, para não enlouquecer pensando em Petrouska. Donna era ideal. Uma mulher linda, fogosa e que não iria grudar nela, pois tinha um tipo de profissão que a faria viajar sempre.
-Está bem... se quer correr o risco...
-Quero,
Gina... e amanhã vou ao seu coquetel. Ou tem problema ?
-Como
vou explicar sua presença ?
-Oh,
sou uma amiga sua... que vai prestigiar seu coquetel de lançamento do álbum.
Gina sorriu. Seria bom. Talvez Petrouska
tomasse conhecimento desse coquetel e saberia que ela estava com Donna. Talvez
isso a sacudisse, fazendo-a procurá-la.
No
dia seguinte, foi ao coquetel com Donna. Foi um rebuliço geral. Os fotógrafos
tiraram várias fotos com elas juntas, fizeram perguntas sobre como se haviam
conhecido. Gina deixou Donna responder, com um sorriso:
-Um
amigo nos apresentou, numa festa. Admiro muito Gina Verlaine como artista e
como pessoa. Não há dúvida que ela é a maior soprano de nossa atualidade.
Compará-la com a Callas é uma injustiça, porque ela é bem melhor. Seria mais
justo compará-la à Tebaldi, ou Kiri te Kanawa.
Os
repórteres se agitaram. Donna Gardner entendia de canto lírico e desprezava uma
diva como Maria Callas ! Colocava Gina Verlaine nas alturas !
No
dia seguinte, a foto das duas juntas saiu nos jornais. Gina ao lado de Donna,
ambas sorrindo uma para outra. A manchete as enalteciam:
DUAS
ESTRELAS SE ENCONTRAM E BRILHAM!
Bem
longe dali, em Paris, Petrouska comprou o New York Times e viu a foto e leu o
texto. Falava do lançamento do album de Gina, com elogios pela voz cada vez
melhor e comentava a presença de Donna Gardner, com o comentário da atriz sobre
Gina.
Olhou
a foto mais uma vez, após ler o texto. Uma dolorosa saudade, mesclada com ciúme
intenso, tomou conta de seu íntimo.
Então,
Gina estava com Donna Gardner! Disso não tinha nenhuma dúvida. Para Donna
Gardner se dar ao trabalho de comparecer ao lançamento do álbum de Gina, falar
aqueles elogios rasgados, era porque estava envolvida sentimentalmente. E o olhar de Donna traduzia toda sua admiração.
Gina
já a esquecera ! Estava com uma mulher linda e famosa, talvez nem lembrasse
mais dela.
Nesses
dois meses que passaram, quantas vezes fôra assaltada pela vontade louca de
procurá-la, de dizer que não estava suportando ficar longe dela, que a
aceitaria de qualquer jeito, com ou sem Salieri ! Só se contivera porque estava
tentando refazer sua vida sem ajuda dela. Queria procurar Gina como uma vencedora, quando não
precisasse de nada que ela oferecesse, além do amor. Provar que tinha valor,
que conseguiria um lugar ao sol sozinha, por seus próprios meios. E estava
quase conseguindo. Iria no dia seguinte fazer um teste com um regente de
renome, para ocupar o cargo de violinista, vago com a morte de um integrante.
Leon Petroviski era o regente da Orquestra de Zurique e tinha um alto prestígio
internacional. Se conseguisse esse posto, sua situação financeira
seria substancialmente melhorada.
Sua carreira como pintora estava fraca. Conseguira pintar dois quadros,
que vendera em Montmatre cada um por cem euros. Um dinheiro que nem dera para
pagar um aluguel de um apartamentozinho na rua Rive Gouache, que alugara.
Tivera que inteirar o pagamento com o resto do dinheiro que tinha no banco.
E
agora, suas ilusões haviam ido por terra, ao ver aquela foto no jornal. Gina
não voltaria para ela. Já a havia esquecido.
-É
ela, Petrouska ?
Petrouska
voltou a cabeça. Chris inclinara-se por trás dela a olhava a foto de Gina no
jornal. Ela, quando havia se restabelecido da pneumonia, fôra morar com
Petrouska no apartamento. Chris era uma garota imprevisível, com ótimo senso de
humor, uma companhia que ajudava Pretrouska a sair da depressão que muitas
vezes a invadia. Ela demonstrava sua gratidão à ajuda de Petrouska com uma
dedicação e amizade à toda prova.
-É,
Chris... e como vê, está muito bem acompanhada.
Chris
notou um tom amargo na voz de Petrouska. Olhou-a com compreensão.
-É
uma amiga dela, Petrouska...
Petrouska
ergueu-se e jogou o jornal para o lado .Encarou Chris com um sorriso sarcástico,
tentando disfarçar seu real espírito.
-Amigas
! Não sou idiota, Chris ! Conheço bem a Gina ! Ela não dispensaria uma mulher
como Donna Gardner !
-Petrouska,
você não está sendo justa. Pelo que me contou, Gina Verlaine nunca a traiu.
Vocês terminaram por ciúmes dela com você. E isso mostra que ela a amava muito.
-Muito
bem, você a defende... ou não quer magoar-me, concordando comigo. Mas pode
dizer o que acha, Chris ! Não vai magoar-me, como pensa.
-Acha
bom ficarmos falando sobre Gina ? Pois eu acho melhor você esquecer essa
mulher. Não teve mais ninguém desde que se separou dela. Isso é ruim para você.
Fica aí se martirizando, esquece de viver, quando tem tantas mulheres
interessadas em você ! Dê uma chance a si mesma, Petrouska ! Arrume alguém para
curar suas feridas! Só se esquece um amor quando se arruma outro, sabia ?
Petrouska
ficou olhando-a, contendo-se para não gritar que não queria mais ninguém, que
só amava Gina e a amaria sempre, mas entendeu que esse era o seu mal. Tinha que
reagir. Chris tinha razão. Não esqueceria Gina se continuasse solitária,
sofrendo em silêncio, rejeitando a vida. Tinha que esquecer aquele amor. E
tinha, para isso, que arranjar alguém.
Suspirou,
encarando Chris.
-Você
tem razão. Não posso mais continuar iludindo-me. Perdi Gina para sempre. Vou
começar a viver, Chris.
Chris
sorriu, aliviada.
-Oh!
Finalmente abriu os olhos! Faça como eu,
Petrouska! Namore, divirta-se, mas não se prenda a ninguém ! Somos tão jovens,
temos tanto pela frente!
Petrouska
quis contestá-la, dizer que ela não entendia o que era um amor profundo, uma
paixão intensa, mas calou-se. Não adiantava dizer nada. Tinha que aceitar a
realidade. Perdera Gina definitivamente, por ser ingênua e achar que ela
ficaria à sua espera, sofrendo sua ausência como ela sofria, que não se ligara a mais ninguém, até
ter condições de procurá-la. Agora, era tentar recomeçar sua vida amorosa, que
ficaria em suspenso.
Chris
a beijou no rosto, olhando-a com carinho.
-Adoro
você , Petrouska, como a uma irmã que nunca tive. Quero vê-la feliz. Vamos sair
hoje à noite. Quer ir em que lugar ?
Petrouska
a fitou sorrindo, procurando mostrar-se animada. Aquele amor por Gina ficaria
agora escondido de todos. Ela seria uma outra Petrouska. Com os pés no chão,
menos sentimental, mais cínica em suas
relações amorosas.
-Vamos
ao Le Goulon.
Chris
sorriu, divertida.
-aquele
clube de gay ? Ah, já vi que começa a reagir! Muito bem, iremos ! Vou telefonar
para Paul, para irmos juntos ! Sabe que ele não liga para isso, ele acha
divertido ver aqueles homens vestidos de mulher...
-Cuidado
ele não acabar gostando, Chris...
Chris
olhou para Petrouska com ar superior, numa pose afetada e cômica.
-Eu
me garanto,meu bem ! E se isso acontecer, eu
coloco outro no lugar dele bem rápido!
Petrouska
riu . Ainda bem que Chris sempre conseguia fazê-la esquecer os seus problemas
com seu humor.
À
noite de Paris é um festival de luzes. São fontes iluminadas, letreiros, a
torre Eiffel dominando a paisagem, carros e gente circulando numa busca
frenética de viver.
Petrouska
gostava daquela agitação. E o Le Goulon era animado por música, conversas,
dança e luzes piscando na pista apertada. Ali não se pensava nos problemas do
dia, todos queriam divertir-se.
Ela
entrou com Chris e Paul, olhando em volta com olhos prescutadores . Dessa vez,
não sairia dali sozinha, como sempre fazia.
-Ainda
bem que reservamos mesa – disse Chris, puxando Petrouska pela mão,
espremendo-se para passar – está muito cheio, para uma quinta-feira.
Conseguiram
chegar até a mesa reservada. E tiveram a surpresa de encontrá-la já ocupada por
uma mulher, que bebia uísque e olhava em volta com um olhar perdido.
Chris
inclinou-se para ela , dizendo que a mesa estava reservada. Ela olhou para
Chris surpresa e balançou a cabeça negativamente. Falou alguma coisa.
Chris
voltou-se para Petrouska, que olhava em volta.
-Petrouska,
ela não fala francês ! É americana. Você,
que sabe inglês, explique à ela a situação !
Petrouska
olhou para a mulher, inclinando-se. Ela a fitou no rosto, depois nos olhos.
Tinha belos olhos negros. Um rosto bonito, de cabelos esvoaçantes, de traços
bem feitos e boca sensual.
-Desculpe,
mas essa mesa foi reservada para nós – disse Petrouska, em inglês – o garçon
não avisou ?
-Reservada
? Oh, paguei ao garçon vinte euros para conseguir-me uma mesa e ele deu-me esta
!
-Sabedoria
dele. Pegou o dinheiro e criou esse problema . Vou chamá-lo. Qual deles indicou
a mesa ?
Ela
olhou em volta. Apontou um garçon que servia outra mesa próxima. Petrouska foi
até o homem e bateu no ombro dele.
-Oui
, mademoiselle ?
-Você
colocou uma pessoa na mesa que reservamos.
-Sim?
... Qual delas ?
Petrouska
indicou com o dedo. Ele sorriu desajeitado.
-Oh
! Enganei-me, mademoiselle ! Mas vou dar um jeito nisso ...
Aproximou-se
da mesa onde estava a mulher e falou baixinho, no ouvido dela. A mulher sacudiu
a cabeça, olhando para Petrouska.
-O
que ele disse ? – Perguntou a mulher – Não atendendo.
O
garçon olhou para Petrouska.
-Eu
a mandei sair da mesa, mas ela não entendeu. Eu tinha avisado à ela que só
poderia ficar até a chegada de quem reservou a mesa.
Petrouska
olhou com reprovação para o garçon.
-Já
imagino tudo. Ela deu-lhe o dinheiro para sentar e você explicou isso em francês, língua que ela não entende. E
agora ela tem que sair por uma mesa que pagou.
O
garçon riu amarelo e olhou para a mulher, puxando-a pelo braço.
-Vai
ter que sair, mademoiselle – disse , em francês.
Petrouska
olhou para o garçon, irritada.
-Não
seja indelicado com a moça ! Tudo bem, deixe ela ficar ! Eu me entendo com ela
.
-Pois
não, mademoiselle – agradeceu o garçon, aliviado e saindo à francesa.
Chris
já havia se sentado com Paul e observava a cena com um ar divertido. Petrouska
puxou a cadeira diante da mulher e sentou-se, sorrindo para ela.
-O
garçon a enganou, mas não precisa sair. A
mesa dá para quatro. À menos que não queira ficar com mais gente na
mesa... – explicou, em inglês .
A
mulher sorriu, descontraindo-se. Tinha um belo sorriso, cabelos negros jogados
para trás em camadas reluzentes, contrastando com a pele clara e a boca vermelha.
-Oh,
não me importo, até acho bom ter companhia ! Vim prá cá sozinha - Respondeu.
Petrouska
estendeu a mão , no cumprimento americano.
-Muito
prazer. Meu nome é Petrouska.
Ela
apertou sua mão suavemente.
-E
o meu é Melissa.
-Bem,
Melissa, estamos apresentadas, quer tomar uma bebida conosco ?
Ela
olhou para Chris e Paul, que as observavam com malícia.
-E
eles, quem são ?
-Oh,
desculpe-me! Cristine e Paul. São namorados.
Ela
sorriu para eles, inclinando-se. Chris falou para Petrouska, sabendo que
Melissa não ia entender, por não falar francês:
-Vá
em frente, Petrouska ! Ela é uma bela mulher, e você está sozinha !
Petrouska
olhou para Chris com reprovação.
-Chris
! Quanta malícia ! Ela pode até não gostar de mulher ! Só porque ela está nesse
clube, já a julga assim ? Você não é homossexual, nem Paul, e estão aqui !
-Petrouska,
como é ingênua ! Não viu como ela a olhou, quando parou perto da mesa ? –
Retrucou Paul, rindo.
-O
que estão falando ? – Perguntou Melissa, olhando para eles, curiosa.
Petrouska
olhou para ela, sorrindo.
-Nada
de importante.
Pediram
as bebidas ao garçon. Petrouska pediu creme de menta, Chris e Paul vinho
branco, Melissa, outro uísque.
Petrouska
sentia o olhar de Melissa fixo nela. Será que
Paul tinha razão ? Seria muito bom, se fosse verdadeira a suposição
dele. Olhou para Melissa. Ela sorriu, acariciando o copo com dedo indicador.
Tinha mãos lindas, alvas, dedos longos e delicados. O olhar não se desviou do
seu com a inspeção que fez.
-Você
está a espera de alguém ? – Perguntou Melissa, sorrindo.
-Não.
E você ?
-Também
não. Vim aqui por curiosidade. Ia passando, vi a boate e entrei.
-E
o que está achando do ambiente ?
-Sem
nada que choque, felizmente. Sei que estou em um mundo diferente do meu, mas
vejo que as pessoas estão aqui somente para se divertirem. Não tem nada demais.
-E
se uma mulher a abordasse ?
Ela
a fitou nos olhos.
-Se
fosse como você, não me incomodaria.
-Como
eu? Como assim ? – Sorriu Petrouska.
-Você
é uma mulher atraente, Petrouska. E muito bonita. Nem um pouco masculinizada. É
um tipo que atrai, que não assusta. E tem classe, vejo isso em seus gestos, na
maneira de se expressar... e nas roupas.
Petrouska
riu, fitando-a .
-Acha
isso ? Então, posso chamá-la para dançar ?
-Por
que não ? – Respondeu, erguendo-se.
Petrouska
a acompanhou para a pista. Olhou-a andando e sentiu a classe de Melissa no
andar elegante. O blazer de lã cinza, a saia justa vermelha, as pernas em meias
finas, o scarpin negro, tudo demonstrava que era uma mulher de classe e
charmosa.
Ela
voltou-se de frente, olhando para Petrouska nos olhos. Petrouska a enlaçou e
sentiu o corpo esguio juntar-se ao seu. Estremeceram juntas, como se um choque
as tivesse interligado. Petrouska a encarou, Melissa era mais alta que ela, mas
seus corpos se encaixavam maravilhosamente.
Melissa
aproximou o rosto, pousando-o no seu. Petrouska sentiu um arrepio, ao toque
daquela pele macia, do perfume delicioso que volatizava dela. Apertou-a
levemente pela cintura e sentiu-a estremecer. Melissa afastou o rosto e a
encarou.
-Estou
surpresa comigo mesma... – disse, olhando para Petrouska nos olhos, na boca.
-Por
quê ?
A
voz de Petrouska vibrou trêmula.
-Estou
sentindo coisas que nunca senti antes... – respondeu Melissa.
-Que
coisas ? – Perguntou, Petrouska, com voz
baixa.
-Vontade
de que me aperte mais... de beijá-la...
-Verdade,
Melissa ? É mesmo incrível...
-O
que é incrivel ?
-Estou
sentindo isso tudo também...
Os
dedos de Melissa se enroscaram nos seus cabelos. Ela agora estava com a
respiração opressa.
-Quer
ir embora comigo ? Tenho um apartamento perto daqui. – Perguntou Melissa, com
os olhos presos nos seus.
-Agora
?
-Sim,
agora...
Petrouska
parou de dançar. Pegou-a pela mão.
-Vamos.
Vou só avisar os meus amigos.
Petrouska
foi até a mesa e avisou a Chris que não iria dormir em casa. Ela a olhou com
malícia, assentindo. Melissa pagou toda a conta, sob protestos de Petrouska.
Saíram e Melissa a olhou.
-Está
com carro ?
-Não.
Não tenho carro.
-Então,
vamos no meu.
Melissa
a levou até um Mercedes branco, último tipo, estacionado do outro lado da rua.
Abriu-o, entrou e abriu a outra porta para Petrouska entrar.
Petrouska
sentou ao lado dela, olhando-a com admiração. Melissa tinha um perfil perfeito.
Se não estivesse apaixonada por Gina, se apaixonaria por ela.
Ela
deu partida, saindo suavemente.
-Onde
você mora, Melissa ? – Perguntou Petrouska, quebrando o silêncio entre elas.
Ela a olhou rapidamente, fazendo uma manobra.
-Em
Montmatre.
-Está
na França há pouco tempo, não é ?
-Sim.
A negócios.
Ela
calou-se e Petrouska não fez mais
perguntas. Não queria mostrar-se indiscreta. Ela talvez estivesse querendo
somente uma aventura de uma noite, e para isso não precisava falar muito sobre
ela. Ótimo. Também não queria uma ligação permanente. Agora, só desejava de uma
mulher sua satisfação sexual.
Vinte
minutos depois, Melissa parou diante de um prédio antigo, mas bem conservado.
Saíram do carro e entraram no prédio. Petrouska notou o hall espaçoso e bem
decorado, a iluminação discreta, tudo demonstrando bom gosto e sobriedade.
Tomaram
o elevador e desceram no terceiro e último andar. Melissa abriu a porta do
apartamento e sorriu para Petrouska.
-Seja
bem-vinda, Petrouska. Entre.
Petrouska
passou por ela, entrando no apartamento. O hall era espaçoso e de bom gosto,
como a entrada do prédio.
Melissa
a levou numa sala de estar decorada com móveis sólidos e de boa qualidade.
Indicou uma poltrona para Petrouska, avançando para uma estante e colocando uma
música suave no cd. Voltou-se, sorrindo ao ver Petrouska em pé, admirando um
quadro na parede.
-Gosta
de pintura?
-Sim.
Ela
aproximou-se, parando ao lado.
-É
um Monet legítimo. Comprei-o em um leilão.
Petrouska
voltou-se para ela, com as mãos nos bolsos do casaco. Olhou-a nos olhos. Ela
retribuiu, olhando-a com certo receio.
-Nunca
antes estive com uma mulher, Petrouska. Terá que tomar todas as iniciativas.
Petrouska
sorriu. Pegou a mão dela, que tremia.
-Não
fique nervosa. Aja naturalmente. Faça o
que tiver vontade de fazer – disse, apertando a mão dela.
Ela
abraçou Petrouska, rodeando o pescoço dela com os braços, encostando o corpo
trêmulo no outro. Petrouska a abraçou pela cintura, apertando-a contra si. A
boca desceu ao encontro da outra que tremia.
Foi
um beijo quente, ansioso e cheio de desejo. No primeiro momento, Melissa
parecia ter medo, mas logo descontraiu-se e o corpo abandonou-se nos braços de
Petrouska, espremendo-se, a língua avançando e acariciando, sugando também.
Ela
afastou-se ofegante e vermelha de excitação.
-Venha
Petrouska... – Sussurou.
Ela
a levou para o quarto, um aposento finamente decorado, com uma grande cama
forrada de peles. Olhou para Petrouska com encantador olhar ansioso.
Petrouska
avançou e a tomou nos braços, beijando-a ardentemente. Ela correspondeu com a
mesma intensidade, tremendo. Entre beijos, Petrouska a despiu e despiu-se
também. Olharam-se, cada uma admirando admirando a outra. O olhar de Melissa
exprimia um desejo intenso, percorrendo o corpo de Petrouska, que deu dois passos e a beijou ardentemente, mais uma
vez. Melissa gemeu, mordiscando os lábios de Petrouska. Caiu na cama, puxando
Petrouska em um abraço.
E
a primeira relação sexual de Melissa com uma mulher começou surpreendendo-a
pelo prazer intenso que sentia, pela emoção que a tomou. Petrouska usava seu
corpo com uma habilidade inimaginável, arrancando tremores de prazer, gemidos,
frases que dizia empolgada, entregando-se totalmente, como jamais se entregara
antes.
Petrouska
sentia um desejo louco, depois da abstinência de dois meses. Seu corpo jovem
precisava satisfazer-se e Melissa a empolgava com sua reação, mostrando tanto
prazer. O sexo agora comandava suas ações. Ter prazer ! Sentir o gozo sacudir
seu corpo ! Sentir a mulher gozar em seus braços ! Isso que importava ! O amor era um sentimento
maléfico, que só trazia sofrimento. Pois ia matá-lo dentro de si! Expulsar a
lembrança de Gina de sua mente !
Melissa
gozou, gemendo longamente, sacudindo-se. E Petrouska logo depois teve seu
prazer, trincando os dentes para não gritar, apertando-se contra Melissa.
Depois,
ficaram deitadas em silêncio. Não havia nada a dizer. Não havia amor entre
elas, que as fariam ficar trocando beijos e palavras de amor, não havia o
carinho que sobrevém o ato sexual, quando existe amor entre duas pessoas.
Petrouska
olhou para Melissa. Ela mantinha os olhos fechados, mas sabia que ela estava
acordada. Sabia também como ela devia estar se sentindo. Fizera sexo com uma
quase estranha. Nada sabia uma da outra. O que as havia unido naquela cama fôra
apenas o desejo, que já havia sido aplacado. Não restava mais nada.
Ergueu-se
da cama e começou a recolher suas roupas do chão. Começou a vestir-se.
-O
que está fazendo ?
Petrouska
voltou o rosto, vestindo a calça comprida. Melissa a olhava surpresa.
-Vou
embora.
-Embora?!
Por quê ?
-Quero
ir dormir em minha casa.
Melissa
ergueu-se, aproximando-se e parando diante de Petrouska, com o belo corpo nu.
Encarou-a com ansiedade.
-Petrouska,
por que não quer ficar? Fiz algo que a desagradou? Não gostou de fazer amor
comigo ?
-Não,
não é isso. Pelo contrário, gostei muito de fazer sexo com você. Mas quero ir
embora.
-Mas
é tão tarde! Por que não fica? Poderíamos nos amar mais... eu... só estava
descansando.
Petrouska
acabou de vestir a blusa. Pegou o blusão e a olhou séria, nos olhos.
-Você
não me conhece. Só sabe o meu primeiro nome, somos quase duas estranhas. Eu
também nada sei sobre você. O que nos uniu foi o sexo, que já foi
satisfeito.Então, para que ficar ?
-Oh,
Petrouska, desculpe-me! Não quis mostrar-me uma pessoa fria, desinteressada em
conhecê-la melhor...fique... vamos conversar...
-Não
, Melissa. É melhor eu ir agora. Vamos deixar as coisas nesse ponto. Foi ótimo
ter feito sexo com você, mas acabou.
Melissa
pegou um robe e vestiu-o, nervosamente. Olhou para Petrouska com incredulidade.
-Está
falando sério? Quer ir embora?
-Sim,
Melissa. Pode levar-me até a porta ?
Os
olhos de Melissa brilharam de ira. Mordeu os lábios.
-Muito
bem, se insiste tanto em ir, vá!
Passou
por Petrouska e a levou até a saída em passos estugados. Abriu a porta e fitou
Petrouska com frieza.
-A
saída está livre – Disse, secamente – Pode ir.
Petrouska
a encarou.
-Lamento
que tenha ficado com raiva. Adeus.
Passou
por ela e saiu.
Quando
chegou em casa , foi até o quarto e olhou em volta. Chris não estava. Devia ter
ido para um hotel com Paul. Despiu-se, tomou um banho de chuveiro e jogou-se na
cama, adormecendo logo.
Chris
chegou pela manhã, por volta das nove horas. Acordou Petrouska, fazendo cócegas
nela, rindo.
-E
então, conquistadora? Como foi a noite? Conte , quero saber tudo !
Petrouska
sorriu, sentando-se na cama.
-Puxa
Chris! Não dormi quase nada e você acorda-me para querer saber bobagens ?
-Bobagens?!
O reinício de sua vida amorosa? Ah, você vai contar-me ! Como é ela?
Fogosa? Gostosa, numa cama ?
Petrouska
riu, levantando-se.
-Fique na curiosidade ! Pensa que vou contar essas
coisas? Foi bom, só posso dizer isso.
-Ah!
Então, apaixonaram-se! Trocaram altas juras de amor eterno, não?
Petrouska
a encarou, deixando de rir.
-Não,
Chris. Ela não disse nada, depois. Ficou calada, fingindo que estava dormindo.
Eu sei porque. Para não estreitarmos a relação. Só sei que ela tem posses, pelo
carro e o apartamento. Mas não conversamos nada. Ela nada sabe de mim, nem eu
dela. E acho que foi melhor assim.
Chris
a olhou admirada.
-Que
coisa esquisita! Não conversaram, não marcaram um novo encontro?
-Não,
ela ficou com raiva, porque vim embora.
-Ela
deve ter medo de envolver-se. Deve ser isso.
-Talvez.
Bem, vou para o banheiro. À tarde tenho uma audição marcada com o maestro
Petrovsky e tenho que ensaiar um pouco.
-Ah,
a audição! Oh, Petrouska! Torço por você ! Mas agora vou preparar um desjejum para nós, estou
faminta !
Continuará na parte 11
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