PRIMA  DONNA

De   Leth   Cross

 

PARTE 1

 

     A introdução da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi, encheu o espaço do Metropolitan Ópera House, ressoando em suas paredes solenemente.

 

         Em seu lugar de segunda violinista, Petrouska lia a pauta musical enquanto suas mãos extraíam os acordes em seu violino, acompanhando a execução da orquestra. Ela era a mais jovem integrante da orquestra e isso a fazia sentir-se insegura e imatura , dominada pela desagradável sensação que não merecia estar no meio daqueles músicos mais experientes, que sempre a olhavam com humilhante condescendência. Mas procurava esconder sua insegurança com uma postura imponente, o olhar altivo e parecendo desligado de seu  redor.

 

         Seus cabelos louríssimos estavam presos em um coque severo demais para os seus vinte e um anos. Os olhos verdes como esmeraldas eram graves, com uma sombra de tristeza, o vestido negro de mangas bufantes e compridas, de punhos de renda francesa completava o lay-out extremamente rigoroso de sua aparência.

 

         O olhar de seu pai, o maestro Piotr Nicholai Vonsky , caiu sobre o seu como uma seta. Um olhar exigente, severo, que ela conhecia muito bem.

 

         Petrouska baixou os olhos para a pauta musical, intimidada. Odiava quando ele a olhava assim, quando executava qualquer peça musical. Aquele olhar, sabia bem, era para lembrá-la que era filha do grande maestro e por isso tinha que superar-se e procurar ser a melhor violinista, para honrar o nome que tinha. Esse era o  peso que carregava,  o nome ilustre de seu pai, que a impedia de viver uma vida normal para sua idade e dedicar-se ao que realmente amava.

 

         Desde tenra idade sofrera a influência repressora do pai. Ele havia ficado viúvo quando Petrouska tinha apenas cinco anos . E sua obcessão para torná-la uma grande musicista deixara de ser abrandada pelos argumentos da mãe. Ele exigia dela um virtuosismo que Petrouska duvidava que atingiria. Faltava à ela a paixão pelo que fazia, o elemento inpulsionador que nos leva a buscar a perfeição. A sua paixão era mesmo a pintura, que praticava escondida do pai, quando ele estava ausente.

        

         Ela ressentia-se do domínio do pai, mas quem conhecia o temperamental maestro, sabia como era difícil ir contra suas idéias. Era um tirano, e para sair de seu domínio, só se afastando dele. E Petrouska estava em seu limite de paciência. Ela sonhava libertar-se dessa tirania e ir viver como realmente desejava, mas ela estava até então como que aguardando um acontecimento em sua vida que provocasse essa atitude. Algo que a impulsionasse a romper com tudo, para mudar de vida. Mas também amava o pai e ficava nessa ambivalência entre o amor pelo pai e a ira em ebulição pelo artista tirano.

 

         A introdução da ópera acabou sob o gesto da batuta do maestro Vonsky. Ele pousou a batuta no pódio e sorriu friamente, dizendo em voz alta:

 

         -Uma hora e meia de pausa para o almoço.

 

         Os integrantes da orquestra se ergueram precipitadamnete, como que com medo do maestro mudar de idéia. Já passava de uma da tarde e estavam ensaiando desde as nove da manhã. Petrouska guardou seu violino no estojo e dirigiu-se para a saída. Pelo menos nessa pausa podia sair para ir almoçar e andar pelas ruas, tomar um pouco de sol, ver gente de outro tipo e respirar um pouco de liberdade. Seu pai sempre almoçava com o produtor da ópera e músicos que o bajulavam.

        

         Klaus, o baixista, aproximou-se dela com um sorriso insinuante. Ele era um jovem atraente, louro e alto, que tinha fama de conquistador. Petrouska o tratava com reservas, mas ele parecia ignorar isso.

 

         -Aceita almoçar comigo, Petrouska? Conheço um ótimo restaurante próximo daqui.

 

         -Já tenho compromisso, obrigada – Respondeu ela, séria. A última coisa que queria era envolver-se com um músico de orquestra, ainda mais um conquistador.

 

         Ele a fitou decepcionado.

 

         -Que pena! Bem, fica para outra vez. Invejo o felizardo que vai ter o prazer de desfrutar de sua companhia...

 

         -Bem, preciso ir – Disse, afastando-se. Saiu do palco e se dirigiu para os bastidores e percorreu o corredor que levava à saída do teatro.

 

         A porta da saída abriu e uma mulher entrou, acompanhada de um homem.Petrouska a reconheceu assim que a viu.  Era Gina Verlaine, a famosa soprano. Ela era considerada pela crítica uma das melhores sopranos da atualidade, rivalizando com Kiri Te Kanawa, considerada a maior soprano viva. De descendência italiana e americana por nascimento, era comparada à Maria Callas tanto no potencial de sua voz quanto no talento dramático para encarnar suas personagens. Também era  considerada uma prima-donna, com seu temperamento forte.

 

         Petrouska não havia comparecido à apresentação da soprano à orquestra, nem ao jantar dela com o seu pai, o diretor e produtor da ópera, por ter estado acamada com uma gripe. E agora, a vendo aproximar-se, a fitou cheia de curiosidade. Afinal, a admirava pelo talento e sabia que ela seria a intérprete da personagem principal da ópera La Traviata.

 

         Gina Verlaine era bem alta e esguia, com um andar imponente e sensual. Os cabelos negros e lisos, o rosto marcante e exótico, de altos malares, belíssimos olhos azuis, boca sensual, queixo forte e anguloso. Um rosto belo e enigmático, que emitia uma forte personalidade. O “tailleur” branco acentuava dua cútis bronzeada e as curvas sensuais de seu corpo. Era muito mais bonita pessoalmente que em fotos, pensou Petrouska, já bem próximo dela.

 

         Os olhos de Gina Verlaine a fitaram com atenção. Seus olhares se cruzaram quando passaram bem próximas e Petrouska sentiu um arrepio percorrê-la, ao sentir aqueles olhos nos seus e o suave perfume que se desprendia dela.

        

         “Com mil demônios - pensou Petrouska, perturbada e surpresa com a reação de seu corpo à bela soprano -  o que é isso? Desde quando um olhar e um perfume de mulher despertam essa reação em meu corpo?! Que coisa louca!”

 

         Respirou fundo, abrindo a porta da saída. De uma coisa, tinha certeza: Admirava Gina Verlaine por ser tudo que gostaria de ser: Talentosa, independente, dona de uma vida cheia de bons momentos, uma mulher famosa, admirada e realizada.

 

         A luz lá de fora a ofuscou por um momento. Com residência fixa em Munique, New York a fascinava por sua vida trepitante, cheia de movimento e luz. Ali se vivia intensamente! Oh, como gostaria de viver em New York!

 

         Inconscientemente, começou a cantarolar :

 

         Start spreading the news...

         I’m leaving today…

         I want to be a part of it,

         New York, New York…

         There vagabond shoes,

         Are longuing to stray…

         Right through the very heart of it ,

         New York, New York…

 

         Algumas pessoas a fitaram com curiosidade e ela calou-se, envergonhada.

 

)))))) ((((((

 

         Petrouska estava admirando um quadro em uma galeria de arte, quando olhou para o relógio de pulso e tomou um susto. Duas e meia da tarde! Seu horário de almoço já se havia esgotado! Havia perdido o sentido do tempo apreciando os quadros impressionistas de Van Gogh, os nife de Miró e os de seu ídolo Salvador Dali, no Metropolitan Museum.

 

         Correu pela rua em pânico. Sabia o que a esperava. Seu pai iria chamar sua atenção diantes de todos! E como sempre, não a pouparia de uma humilhação, porque dizia que ela tinha de dar o bom exemplo, por ser sua filha.

 

         Ela entrou no teatro ofegante pela corrida. Atravessou o corredor dos bastidores e chegou ao palco. Seu pai regia a orquestra e Gina Verlaine, na aria Sempre Libera. Petrouska parou indecisa. Se fosse tomar o seu lugar na orquestra, iria atrapalhar seus colegas que tocavam. O melhor era esperar a aria acabar .

 

         O olhar de seu pai caiu sobre ela, frio como gelo. Petroska teve vontade de sair dali correndo, mas não podia fazer isso. Apenas se postou na coxia, prestando atenção à Gina Verlaine. Sua voz parecia o trinado de um pássaro, elevando-se nos agudos mostrando a sua potência vocal e precisão nos gorgeios. A aria Sempre Libera era uma das mais difíceis de ser cantada, muitas sopranos não conseguiam emitir todos os gorgeios requeridos, mas Gina Verlaine mostrava porque era considerada uma nova Maria Callas. Pessoalmente, Petrouska a achava mais semelhante à Victoria de Los Angeles, um monstro sagrado da música erudita.

 

         O tenor que a acompanhava não possuía o mesmo brilho. Ele cantava sem emoção, preocupado com a técnica. Bruno Barbera, um tenor ainda começando a carreira. Mas todos sabiam que La Traviata era Gina Verlaine, e isso bastava. Ela era a estrela que levaria o público ao teatro. Com uma boa orquestra e Gina Verlaine cantando, o resto perdia a importância.

 

         Aos poucos Petrouska foi se acalmando, fascinada por Gina Verlaine cantando. Quando a aria acabou, Gina fez um gesto para o maestro. Sua voz soou clara:

 

         -Preciso de um descanso de dez minutos.

 

         Petrouska olhou para o pai. Normalmente, ele não aceitaria esse pedido. Mas dessa vez ele assentiu com um sorriso, para surpresa de todos. Gina Verlaine mostrava o seu poder.

 

         Ele voltou-se para Petrouska e seu sorriso mudou para uma expressão dura. Ele a indicou com a batuta, falando alto, em tom cortante:

 

         -Nossa segunda violonista chegou atrasada. Essa pausa foi providencial para ela explicar-se. Por que chegou atrasada, Petrouska?

 

         Todos os olhares se voltaram para ela. Aguns membros da orquestra com deboche, Gina Verlaine com curiosidade.

 

         Petrouska engoliu em seco. Estava sendo pior que imaginara. Seria melhor se ele a repreendesse em um canto do palco, sem muitas testemunhas, mas ele queria sua humilhação total, chamando sua atenção diante de todos como se fosse uma criança .

 

         Pela primeira vez em sua vida, sentiu mais revolta que vergonha. O olhar de Gina estava sobre ela, esperando sua reação. Não, ela não iria presenciar seu medo, sua submissão ao pai autoritário. Ergueu o queixo desafiadoramente e falou com uma calma que não sentia intimamente:

 

         -Não pude chegar antes!

 

         Os olhos de seu pai emitiram chispas, ficando vermelho com a postura claramente desafiante da filha.

 

         -Por que? Tinha algo mais importante a fazer que estar em seu posto? – Perguntou ele, asperamente.

 

         Petrouska o encarou. Ele não iria conseguir humilhá-la mais uma vez diante de todos. Não diante de Gina Verlaine.

 

         -Não foi proposital – Declarou, calmamente – Mas se não acha desculpável, vou retirar-me.

 

         Ele a fitou perplexo. Percebeu seu olhar desafiante . A tímida Petrouska, que sempre acatava suas ordens, estava ali diante de todos , fitando-o sem medo, falando calmamente, mesmo tendo praticado uma falta!

 

         -Está suspensa por hoje – Disse o maestro, com voz fria – Seu comportamento é indigno dessa orquestra. Da próxima vez, perderá o cargo.

 

         Petrouska o encarou  impassível.

 

         -Faça o que achar melhor – Disse, girando nos calcanhares e se afastando com o queixo erguido arrogantemente.

 

         Gina Verlaine sorriu, trocando um olhar com o tenor.

 

         -A garota tem coragem.

 

 

))))))((((((

        

 

         Petrouska saiu do teatro com uma deliciosa sensação de liberdade. Mesmo tendo sida dispensada pelo pai, sentia-se como que liberta de pesados grilhões de ferro. Pela primeira vez na vida, não se deixara ser humilhada passivamente, de olhos baixos, cheia de vergonha e medo. Pela primeira vez o enfrentara com dignidade, sem encolher-se como um cachorrinho medroso. E agora percebia que era assim que deveria ter agido sempre. Era bem melhor enfrentar a ira de seu pai do que intimidar-se e ficar sofrendo calada. De tudo, a humilhação era o pior castigo.

 

         E o que a levara a agir assim?

 

         O olhar de Gina Verlaine. Aqueles olhos belíssimos que a fitavam curiosos, esperando sua reação. Não suportaria ver aqueles olhos tingir-se de piedade ou desprezo por presenciar sua humilhação passiva. Não suportaria que Gina Verlaine a considerasse uma pessoa sem personalidade, sem brios, medrosa e covarde.

 

         Por que a opinião de Gina era importante para ela era um mistério, mas era o que sentia. E levada por aquela deliciosa sensação de liberdade, resolveu fazer compras, renovar seu guarda-roupa e andar pela cidade. Andou pela Broadway olhando os cartazes das peças musicais, pela Quinta Avenida admirando os edifícios luxuosos, as vitrines, as pessoas.

 

Entrou na Bergdorf Goodman e percorreu vários departamentos, escolhendo calças compridas, blusas, cintos e sapatos. Um par de botas Prada  e um casaco de couro Donna Karan completou sua compras, usando o cartão de crédito de dependente de seu pai. Ele não poderia reclamar. Ela depositava todo o seu dinheiro ganho na orquestra na conta conjunta que possuíam e raramente a usava.

 

         A  noite caía quando voltou ao hotel Regency , cheia de bolsas de compra. Pediu a chave na portaria e o recepcionista a informou que seu pai já a havia  apanhado.Ela armou-se de coragem e subiu para o seu andar. Ao primeiro toque na campainha, seu pai abriu a porta e a fitou com desaprovação.

 

         -Onde esteve até agora, Petrouska?

 

         Ela passou por ele com uma expressão despreocupada. Mas por dentro, tremia. Ele sempre a deixava assim, quando   cobrava suas  atitudes. Mas ia mudar isso!

 

         -Fui dar uma volta por aí e fiz algumas compras.

 

         Ele fechou a porta e a encarou cruzando os braços, de cenho franzido.

 

         -Você não parece muito preocupada com seu ato indisciplinar de hoje. Parece até que foi comemorar, fazendo compras.

 

         Ela o encarou, forçando um olhar tranquilo.

 

         -Não fiz nada demais.

 

         Ele ficou vermelho de raiva.

 

         -Acha que não?! A minha filha, que devia dar o exemplo, chegou atrasada ao ensaio por algum motivo fútil!  E ainda respondeu-me com arrogância, quando lhe chamei a atenção!Já pensou se os demais a imitarem?

 

         Petrouska respirou fundo e se dirigiu para seu quarto. Ele a seguiu.

 

         -Responda à minha pergunta! – Orednou ele, com voz imperativa.

 

         Petrouska colocou as bolsas sobre a cama e voltou-se, encarando-o.

 

         -Estou cansada de servir de exemplo, pai. Se acha que vou arranhar sua autoridade na orquestra, demita-me.

 

         Ele a fitou perplexo. Se ela o tivesse esbofeteado, teria o mesmo efeito.

 

         -Eu, demití-la?! Percebe bem o que está dizendo?

 

         -Pai, sei muito bem o que estou dizendo. E não me importaria em sair da orquestra.

 

         O maestro Vonsky fitou a filha como se ela tivesse enlouquecido.

 

         -Não se importa de sair da orquestra?! Então, eu a incentivo a ser uma grande violinista, a coloco na orquestra preparando-a para ser a spalla da orquestra, e você não se importa em sair?! Sabe quantas pessoas gostariam de estar em seu lugar?

 

Ela enfrentou seu olhar com um outro indignado.

 

-Não me importa! Pai, você não me incentiva, impõe! Meu sonho não é ser uma grande violinista. Você sabe disso e finge não saber, porque  é isso que quer para mim!

 

Ele a encarou com mágoa. Falou em voz baixa:

 

-Eu quero o melhor para você. Por isso eu a lapido, para ser perfeita no que faz.

 

-O que você pensa ser o melhor para mim, não é o que acho  melhor. Eu tenho outro sonho, pai. Eu quero ser pintora. É o que gosto de fazer.

 

Ele a fitou incrédulo.

 

-Pintora?! Desde quando julga que tem talento para isso?

 

-Já pintei alguns quadros surrealistas. Quem viu, gostou. Pinto desde os doze anos.

 

-Desde os doze anos? E nunca me mostrou ou comentou que pintava!

 

A voz do maestro estava cheia de mágoa. Se pretendia comover Petrouska, falhou.

 

-Para que, meu pai? Para você recriminar-me e proibir essa minha atividade, dizendo que eu deveria concentrar-me apenas na música?

 

-Não faria isso, se reconhecesse que tem talento para pintar. Quem viu seus quadros e disse que eram bons? Algum expert em pintura? Quem?

 

Ele atingiu o ponto fraco de Petrouska. Ele o conhecia há anos: a insegurança dela em seu próprio valor. E  usou esse conhecimento sem piedade . Viu ela baixar os olhos e enrubescer. E seu tom se tornou exigente:

 

-Quem viu seus quadros? Quem?

 

-Dimitri... Sonia... – Sussurrou Petrouska, sem fitá-lo. 

 

Ele sorriu vitorioso.

 

-Nossos criados! Aqueles imbecis, que se virem um quadro de cabeça para baixo não vão reparar a diferença! Então, é esse o tipo de gente que julgou seu talento para a pintura?! Petrouska, você é mesmo muito ingênua!

 

Ela o fitou magoada. Ele estava destruindo seu sonho, ridicularizando seu dom, sem mesmo ver seu trabalho! Como podia ser tão cruel? Mas não tinha forças para argumentar. Estava sentindo-se miserável, perdida.

 

Ele a fitou com arrogância, sabendo que a havia vencido mais uma vez.

 

-Chega de sonhos de grandeza! Sabe o que você seria, se não fosse violinista de orquestra? Ninguém! Apenas a apagada filha do maestro Nicholay Vonsky! E agradeça que eu quero fazer de você alguém! Coloque isso na cabeça! Agora, vá aprontar-se, que iremos jantar com Gina  Verlaine no apartamento de Hugh Forlan. Ele é um grande incentivador das artes e o patrocinador da ópera La Traviata, e está dando uma recepção em homenagem à Gina. Sairemos dentro de uma hora.

 

E ele retirou-se, deixando-a infeliz e arrasada.

 

 

 

 continua na parte 2

 

 

 

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