Paixão  Proibida

 

Parte  5

 

        

         Chegaram quando principiava  o anoitecer. Felizmente não havia ninguém à vista e Adrian subiu para o seu quarto rapidamente e Agnes foi para o seu.

 

         Ao entrar, Agnes teve uma surpresa. Myrian a esperava, ao lado de um cinzeiro cheio de pontas de cigarro. Ao vê-la entrar, ergueu-se e a fitou com ódio.

 

         -Você é mesmo uma mulherzinha baixa, uma cadela da pior espécie ! Estava trepando com Adrian, não é ? Ofereceu-se à ela, tenho certeza !

 

         Agnes a fitou com raiva e impaciência.

 

         -Oh, não ! Novamente topar com você em meu quarto, é demais ! Será que não percebe que está fazendo um papel ridículo ? Vá vigiar seu namorado !

 

         Myrian a encarou com fúria no olhar.

 

         -Sua puta ! Você está fazendo isso para agredir-me ! Eu sei ! Você pensa que tenho algo com Adrian e quer mostrar que pode tirá-la de mim !

 

         Agnes a fitou com deboche, com as mãos na cintura.

 

         -Deixe de ser idiota ! Se eu quisesse agredí-la, ia trepar é com Andreas !

 

         -Não vai porque ele não a quis !

 

         -Ora, porque não insisti ! Mas não me provoque, porque posso tentar de novo ! E dessa vez você não chegará para atrapalhar !

 

         -Não desvie a conversa ! Você trepou com Adrian, não foi ?

 

         -Quer saber ? Trepei ! E foi ótimo ! Fomos para um hotel e fizemos amor até cansar ! E daí ? O que você tem com isso ?

 

         -Sua vagabunda ! Já pensou se nossa mãe souber o que fez ?

 

         -Não venha com ameaças, que você também não é um modelo de virtude ! Não é melhor que eu ! Namora Andreas e está de olho na irmã dele ! Ah, se ele souber disso !

 

         Myrian a fitou desafiadoramente, sem medo.

 

         -Quer contar para ele ? Vá ! Eu deixo ! – Disse, com provocação.

 

         Agnes a olhou com desprezo.

 

         -Eu, contar ?! Estou pouco me importando com você e Andreas ! Quero que vocês se danem ! É bem feito para ele, aquele corno idiota ! Ouça, deixe-me em paz e eu não me meterei em sua vida, ok ? Fique com o seu querido Andreas e eu ficarei com Adrian !

 

         Myrian olhou-a com ódio e saiu, batendo a porta.

 

         Agnes jogou-se na cama, rindo divertida.

 

         -Ela está louca de ciúmes de Adrian ! Oh, isso está muito divertido ! Minha querida irmã, quero que você se dane !

 

))))))((((((

 

         Adrian descansou até às oito da noite. Então, levantou-se e tomou um banho para acabar de despertar e escolheu sua roupa com cuidado. Queria estar bem elegante aos olhos de Myrian.

 

         Estava arrependida de ter saído com Agnes. Arranjara um problema. Não sentia nada por ela. Até o desejo se esgotara vendo-a se masturbar. Fora excitante,  mas não sentia mais nada por ela. Agnes havia sido apenas mais uma por quem sentira um desejo passageiro. Ah, seria tão bom se sentisse isso por Myrian também ! Não sofreria mais ao vê-la com Andreas ! Iria conversar com Agnes. Diria que não queria prosseguir com aquela ligação. Ela teria que entender e se conformar.

 

         Vestiu um conjunto de blazer e calça comprida de Armani de cor cinza, com um toque ousado pela ècharpe vermelha em volta do pescoço. Perfumou-se e desceu.

 

         Todos estavam jogando gamão no terraço. Seu pai, Myrian e Andreas jogavam concentrados e Agnes assistia, com uma taça de champanhe na mão. Adrian aproximou-se e sentou na mureta do terraço, cumprimentando:

 

         -Boa noite ! O jogo parece estar emocionante !

 

         Myrian ergueu os olhos, observando-a . Um olhar enigmático, que Adrian não conseguiu decifrar. Tornou a baixar os olhos para o jogo. Já Andreas, sorriu de bom humor.

 

         -Estou ganhando disparado, Adrian.

 

         -Cuidado ! –Disse Agnes, com ironia – Sorte no jogo, infeliz no amor ! Conhece esse ditado ?

 

         Myrian ficou vermelha, mas Andreas riu. Olhou para Agnes e rebateu :

 

         -Sou feliz no jogo e no amor ! Sou um cara de muita sorte, Agnes.

 

         -Passearam muito, Adrian ? – Perguntou Myrian, fitando-a com certa ironia.

 

         Adrian a olhou com naturalidade, sorrindo.

 

         -Bastante. Agnes e eu fomos até Valois.

 

         -Ah ... – Fez ela, baixando o olhar para o jogo.

 

         Madame Olga sorriu para Adrian com simpatia.

 

         -Estou muito satisfeita com a amizade de você e Agnes. Vá lá em casa qualquer dia para tomar um chá.

 

         Adrian sorriu para ela, sentindo remorso por ela confiar em sua pessoa. Se ela soubesse !

 

         -Irei sim, madame. Obrigada pelo convite.

 

         Ernest olhou para a filha com o cenho franzido.

 

         -Pelo que percebi, Adrian só não estreitou conhecimento com Myrian. Adrian, por que não a leva para conhecer o seu quarto, como fez com Agnes ? Vocês duas precisam se conhecer melhor, quando Andreas se casar com Myrian ela virá morar aqui. Que tal quebrar esse gelo ?

 

         Adrian olhou para Myrian. Ela enrubesceu como um tomate, mas não ergueu os olhos.

 

         -Bem , foi falta de oportunidade ... – Disse, desajeitada – Ela está sempre com Andreas e não quero separá-los.

 

         Andreas a fitou com um soriso de estímulo.

 

         -Acho que papai tem razão. E se vocês ainda não puderam conversar melhor por minha causa, abro mão com prazer da companhia de Myrian. Leve-a até seu quarto, Adrian. Acho que Myrian deve estar achando que você não gostou dela, preferindo a companhia de Agnes.

 

         Myrian olhou para Andreas com rubor intenso.

 

         -Não force sua irmã à uma coisa que ela não deseja, Andreas. A simpatia tem que nascer expontânea.

 

         Adrian sorriu, sem outra saída. Não queria que Andreas suspeitasse que tinha algo contra Myrian.

 

         -Está enganada, Myrian. Será um prazer conhecê-la melhor. Se quiser, podemos ir em meu quarto agora. Vou mostrar à você minha coleção de discos.

 

         Olga olhou para a filha com incentivo.

 

         -Vá, Myrian. Adrian está sendo muito gentil, aproveite para conhecê-la melhor.

 

         Myrian ergueu-se e olhou para Adrian, com um leve sorriso.

 

         -Está vendo, Adrian, eles querem que nos tornemos amigas. Sou forçada a atendê-los.

 

         Adrian sorriu em resposta.

 

         -Venha, vamos lá.

 

         E Myrian saiu ao lado de Adrian. Agnes as olhou com um olhar cheio de raiva. Olhou para a mãe e disse:

 

         -Vou também conversar com elas.

 

         A mãe dela a fitou com severidade.

 

         -Não, fique aqui ! Que coisa feia, Agnes, quer monopolizar a amizade de Adrian ! Deixe-as se conhecerem melhor !

 

         Agnes mordeu os lábios, sem poder fazer nada. Idiotas ! Elas iam era acabar na cama ! Andreas era um corno, mesmo !

 

         Andrian abriu a porta do quarto e fez um gesto para Myrian entrar. Ela passou por Adrian e entrou, olhando em volta com disfarçada curiosidade. Adrian fechou a porta e a encarou com um sorriso malicioso.

 

         -Está assustada de ter vindo comigo até o covil do lobo ? Fique tranquila, não vou atacá-la.

 

         Myrian a encarou, cruzando os braços.

 

         -Não tenho medo de você. Principalmente agora, que sei estar esgotada de fazer amor com Agnes.

 

         Adrian a fitou surpresa.

 

         -Ela disse isso à você ?

 

         -Sim. E não adianta negar, Adrian.

 

         Adrian sentou no sofá, fitando-a com cinismo.

 

         -Bem, não nego nem confirmo. Por que deveria ? Você não tem nada com a minha vida. E  Agnes não é nenhuma garotinha ingênua,  não pode acusar-me de ter seduzido sua pura irmãzinha.

 

         Myrian sentou ao seu lado, cruzando as pernas sensacionais. Adrian não pôde evitar de olhá-las.

 

         -Agnes, pura ? Sei que minha irmã é uma galinha, que dá em cima de todas as pessoas que a interessam ! Mas você também não fica atrás ! Se parecem muito, no comportamento.

 

         Adrian a fitou com raiva no olhar.

 

         -Oh, quem fala ! Agnes pelo menos é autêntica, não disfarça o que é numa falsa moral ! Você é bem pior que ela ! Uma dissimulada, calculista !

 

         Myrian a encarou com desafio. Os olhos luziam.

 

         -Você diz isso tudo, mas no fundo me deseja ! Eu vejo isso em seus olhos ! Por mais que queira disfarçar !

 

         Adrian a fitou com raiva. A raiva que sentia por saber que ela não trocaria Andreas por ela, por pensar que Myrian não a amava. Isso a fazia sofrer.

 

         -É o que pensa, mas não é verdade ! Eu a odeio, isso é o que sinto agora por você !

 

         Ela a olhou nos olhos, um olhar que estremeceu Adrian.

 

         -Será verdade o que diz ? Vou provar que está mentindo.

 

         E Myrian aproximou-se de Adrian com um olhar cheio de fogo e paixão, que a atordoou. Pegou a cabeça de Adrian entre as mãos e a fitou à um palmo do rosto, fazendo Adrian sentir o perfume dela, o hálito perfumado, os olhos a fitando com fogo.

 

         -Eu quero você, Adrian... – Sussurrou – E sei que me quer também... esqueça esse ódio idiota e desfrute comigo esse fogo que nos consome quando estamos juntas...

 

         E a boca pousou na de Adrian em um beijo ardente e sensual, esfregando os lábios, a língua movendo-se sensualmente, procurando a de Adrian e a sugando lentamente.

 

         Adrian não resistiu. Abraçou-a impetuosamente e correspondeu ao beijo intensamente, sentindo uma emoção violenta tomá-la de assalto. Era inútil resistir à aquela paixão poderosa, ao amor que pulsava em seu peito por aquela mulher diabólica que a dominava apenas com um olhar.

 

         Beijou-a inebriada de paixão, querendo tê-la toda. E Myrian também parecia tomada pelo mesmo sentimento. As mãos macias apertavam sua cabeça, depois desceram pelas costas, alisando-a com nervosismo, os dedos se enterrando em sua pele. Ela gemeu contra seus lábios, mordiscando-os.

 

         Separaram-se quase sem fôlego e Myrian a fitou com a paixão luzindo no olhar.

 

         -Adrian... como desejei isso... oh, como você tem me torturado com sua indiferença... – Declarou, com voz rouca de emoção.

 

         Ela ergueu a saia, pondo-se de pé e tirou a calcinha de renda negra, olhando-a ofegante.

 

         -Sugue-me, Adrian... quero sentir sua boca sugando-me com loucura...

 

         Adrian não resistiu. Como que hipnotizada, pegou-a pela cintura e ajoelhou-se diante dela, tomando o sexo na boca e sugando-o vorazmente. Ela colocou um pé no sofá e abriu as coxas maravilhosas, empurrando-se contra sua boca e ofegando. Toda ela tremia.

 

         -Ah, querida... assim... como faz bem... enlouquece-me !

 

         Adrian a sugava perdendo a noção de tudo mais que não aquele sexo delicioso, do cheiro suave de Myrian em suas narinas, o gosto do amor em sua boca. Amava-a, desejava-a como nunca desejara ninguém.

 

         Ela estremeceu violentamente e gemeu alto. Adrian a amparou, quando ela cambaleou no êxtase e a abraçou pelas coxas. Myrian a puxou pelos cabelos, fazendo-a erguer-se e a beijou ardentemente na boca, apertando-se ao seu corpo. Afastou-se e a fitou com paixão.

 

         -Sente-se... agora sou eu quem vai sugar você toda...

 

         E as mãos desceram o fecho da calça de Adrian, puxaram para baixo, junto com a calcinha. Empurrou Adrian para o sofá e ajoelhou-se diante dela, abrindo as coxas com mãos impacientes e atacando o sexo de Adrian com avidez.

 

         Adrian ficou imóvel, sentindo aquela boca quente sugando-a com loucura. Até que não agüentou mais e gozou estremecendo, gemendo baixinho, em um orgasmo intenso.

 

         Mas Myrian prosseguiu. Parecia não querer parar. E Adrian teve outro orgasmo, apertando a cabeça dela entre as coxas. Tornou a abrí-las e ela se ergueu. Ela a fitou nos olhos, acariciando seu rosto.

 

         -Não se negue mais, Adrian... você é minha loucura... quando eu a procurar, venha ao meu encontro. E eu lhe darei todo o prazer que puder sentir...

 

         Adrian não teve forças para negar ou concordar. Ela a havia deixado inerte, de tanto prazer. Viu-a tornar a colocar a calcinha, sorrir para ela e sair do quarto silenciosamente.

 

         Somente alguns minutos depois Adrian conseguiu erguer-se do sofá e vestir a calcinha e a calça. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e retocou a leve maquiagem que usava. Tornou a descer e a primeira coisa que viu foi Myrian e Andreas abraçados, afastando-se para o jardim. Agnes não estava presente, o que a fez ficar aliviada. Ela perceberia pelo seu rosto o que havia acontecido. Olhou para os dois, sentindo o ciúme machucá-la.

 

         Madame Olga a fitou sorrindo.

 

         -Formam um lindo casal, Andreas e Myrian, não?

 

         Adrian a fitou com um sorriso forçado.

 

         -É, sim.

 

         -Myrian disse que vocês agora estão amigas. Que você tem discos muito bons e prometeu que um dia a chamará para ouví-los com mais tempo.

 

         -É verdade – Confirmou, dessa vez sem remorso – Ela é uma pessoa muito legal. Um pouco fechada, mas quando conversa, é uma companhia agradável. Gostei de conversar com ela.

 

         -Que ótimo ! Vá nos visitar qualquer dia ! Será um prazer recebê-la.

 

         -Irei, sim.

 

         O pai de Adrian a fitou satisfeito.

 

         -Adrian é um pouco rabugenta, mas é uma boa garota, madame. Suas filhas vão gostar de tê-la como amiga.

 

         -Sem dúvida, senhor Ernest !

 

         Adrian os olhou. Pobres pais ingênuos !

 

         Jantaram no salão de refeições. Agnes apareceu  e olhava para Adrian com um olhar de acusação, mas ela fingiu ignorá-los. Myrian a fitava disfarçadamente de vez em quando, mas dava sua atenção maior para Andreas, o que fez Adrian ficar cheia de ciúmes e decepcionada. Myrian a estava usando para matar os seus desejos, só isso. Teria forças para resistir, se ela voltasse a procurá-la ? Achava que não, infelizmente. Amava-a, estava se sentindo escrava daquela mulher. E isso a deprimia. Onde estava sua personalidade arrogante e fria ? Onde estava sua autoconfiança ? Myrian anulara isso nela, reduzindo-a à uma mulher fraca e submissa aos desejos dela. Como isso a fazia sofrer ! Ah, um dia Myrian iria provar o mesmo veneno ! Um dia, iria vingar-se dela.

 

Assim que o jantar terminou, Adrian pretextou uma forte dor de cabeça e foi para seu quarto. Não agüentava mais ver Myrian com Andreas. Isso a deixava infeliz, sofrendo. Tomou algumas dose de uísque e caiu em um sono profundo. Mas dessa vez, fechou a porta com chave, para não ser incomodada. E no dia seguinte, quando despertou, passavam das onze da manhã. Soube pela camareira que as visitas já tinham ido embora cedo. Haviam batido em seu quarto para a despedida, mas ela estava dormindo e não os ouvira.

 

         Adrian respirou aliviada. Pelo menos tão cedo não veria Myrian com Andreas. E nem Agnes. Sabia que Andreas ia viajar para Londres no dia seguinte e ficaria fora mais de uma semana. Pelo menos, teria dias mais tranquilos.

 

         Estava triste, deprimida . Sua vida estava monótona, um lixo. O que poderia fazer ? Viajar para Gstaad ? O que adiantaria, se o que sentia não havia lugar que a livrasse daquela tristeza e revolta ? Ah, Myrian ! O que estava fazendo com ela !

        

         Dois dias se passaram. Agnes telefonara várias vezes, mas Adrian havia ordenado que deviam dizer que ela não estava para ninguém. E os criados cumpriam sua ordem fielmente, dizendo que Adrian não se encontrava em casa.

 

         Mas nessa manhã, Adrian resolveu atender o telefone quando ele tocou. Estava cansada de ficar sozinha em casa durante o dia e de noite ir para a boite embebedar-se, sem nenhuma companhia. Suas amigas já deviam ter voltado de Gstaad e provavelmente a tinham procurado. Pegou o telefone sem fio e o atendeu.

 

         -Alô.

 

         -Adrian ?

 

         Aquela voz ! Reconheceu-a e ficou gelada.

 

         -Sim, sou eu.

 

         -Aqui é Myrian. Quer encontrar-se comigo ?

 

         Adrian demorou a responder, muda de emoção :

 

         -Onde ?

 

         -Estou no Museu do Louvre. Devo sair dentro de vinte minutos. Quer apanhar-me aqui ?

 

         -Sim... onde a encontro ?

 

         -Eu a espero na entrada principal.

 

         -Vou para aí agora.

 

         -Espero-a .

 

         Ela desligou e Adrian sentiu as têmporas latejando. Uma exultação a dominou, como se tivesse recebido a notícia que ganhara um prêmio valioso. Pegou seu carro e saiu em disparada.

 

         O trânsito estava congestionado no centro e ela xingava, impaciente, olhando o relógio de pulso. Em mais de meia hora, chegou. Viu logo Myrian  aproximar-se, em frente ao portão principal. Ela a viu e correu, entrando no carro.

 

         Adrian a fitou emocionada. Ela estava linda, com um conjunto azul marinho, os cabelos presos em um coque. Ela a fitou com um sorriso encantador.

 

         -Vamos para a Rive Gouache. Tem um apartamento lá em que poderemos ficar.

 

         Adrian deu partida no carro e a fitou desconfiada.

 

         -De quem é esse apartamento ?

 

         -De um amigo meu. Ele está viajando e deu-me a chave para olhá-lo de vez em quando.

 

         -Nunca foi lá com Andreas ?

 

         Ela sorriu.

 

         -Não. Por quê ?

 

         -Se tivesse ido com ele, eu não iria lá.

 

         Myrian a fitou séria.

 

         -Jamais faria isso com você, Adrian.

 

         Adrian a fitou por um instante.

 

         -Tenho minhas dúvidas.

 

         Ela pousou a mão em sua coxa. Adrian estremeceu.

 

         -Não, não faria. Julga-me muito mal, Adrian. Pode não acreditar, mas tenho alguns escrúpulos.

 

         -Espero que sim.

 

         -Oh, Adrian... estou louca para ser sua... trabalhei pensando no que fizemos em seu quarto e não resisti, telefonei para encontrar com você...

 

         Adrian a fitou emocionada. Será que Myrian realmente sentira sua falta ?

 

         A mão dela deslizou pela sua coxa e tocou em seu sexo, suavemente. Adrian estremeceu e a fitou. Ela sorriu, retirando a mão.

 

         -Concentre-se na direção... vou conter a minha ansiedade...

 

         Não falaram nada até chegar ao prédio. Myrian lhe deu o endereço e Adrian parou diante de um prédio antigo de três andares. Estacionou e desceram. Entraram no prédio. Subiram pela escada larga até o segundo andar e Myrian dirigiu-se para uma porta. Tirou uma chave da bolsa e a abriu. Adrian a seguiu e entrou. Olhou em volta, enquanto Myrian fechava a porta. Era um escritório, com móveis antigos. Tinha uma sala de espera com dois sofás e alguns quadros nas paredes. Tudo muito conservador e sério.

 

         Myrian abriu uma porta onde havia uma placa em que se lia:    DEVON – SÓ ENTRE AO SER CHAMADO.

 

         Ela seguiu Myrian, olhando em volta curiosa. Era uma sala com uma mesa, um grande sofá e uma poltrona. O chão era atapetado de vermelho.

 

         -Isso é um escritório de quê? – Perguntou Adrian, voltando-se para Myrian, que tirava o casaco.

 

           um consultório de análise. Meu amigo é um analista.

 

         -Um lugar meio... esquisito para se amar, não ?

 

         Ela a encarou, sorrindo maliciosamente.

 

         -Acho excitante. É diferente.

 

         Adrian sorriu.

 

         -Sem dúvida.

 

         Myrian a olhava apreciativamente, desabotoando a blusa. As narinas fremiam, denunciando sua emoção. Os olhos brilhavam.

 

         Tirou a blusa jogando-a para o lado. O sutian de renda mal cobria os seios eretos, convidativos. Ela puxou o fecho da saia e a deslizou pelas coxas, mostrando as pernas envoltas em meias finas, junto com a calcinha negra. Começou a tirá-la lentamente, olhando-a com sensualidade. Tirou-a, desceu as meias e o soutien, ficando completamente nua. Estendeu os braços para Adrian, com os lábios entreabertos soltando suspiros, os olhos brilhando de desejo.

 

         Adrian avançou, dominada por uma louca sensação. Pegou-a pelos ombros com força e esmagou a boca naqueles lábios tentadores, que tremiam à sua espera.

 

         Foi um beijo delirante. Suas bocas se sugavam com sofreguidão, as mãos de Myrian se enterrando em seus cabelos, apertando sua cabeça, a perna se erguendo e cruzando em suas coxas, prendendo-as. Ela gemia de volúpia.

 

         As mãos de Adrian pegaram nas nádegas macias , puxando-a contra si. Empurrou-a para cima da mesa, fazendo-a deitar de costas, com a impaciência do desejo louco que sentia. Suas bocas se separaram e ela a olhou ofegando, abrindo as pernas e falando com voz rouca:

 

         -Venha... venha... pegue-me...

 

         Adrian ergueu as pernas dela e as colocou em seus ombros. Desceu o rosto e mordiscou o púbis louro, beijou-o, enlouquecida. Ela gemeu e arqueou os quadris ao seu encontro. Adrian tomou o sexo dela na boca, sugando fora de si. Penetrou-a com os dedos, mexendo-os, sentindo-a estremecer de prazer, as coxas apertá-la em tremores que anunciavam a aproximação do orgasmo.

 

         E ela gritou, arqueando-se toda, as mãos apertando-a no auge. Depois ficou imóvel, relaxada, o peito subindo e descendo na respiração ofegante.

 

         Adrian afastou-se e se despiu frenética, olhando-a com desejo. Myrian permanecia deitada, de olhos fechados.

 

         Completamente nua, Adrian debruçou-se para ela e a beijou ardentemente, puxando-a para cima. Myrian sentou na mesa e a abraçou, retribuindo o beijo com sofreguidão. Adrian sentiu as pernas dela a enlaçarem e apertarem, mostrando que ela já estava novamente excitada.

 

         Myrian desceu da mesa e girou o corpo, colocando Adrian encostada no móvel. Ajoelhou-se  e  abriu as  coxas  de  Adrian com   gestos bruscos, tomando  o  sexo  dela na boca , sugando-o com loucura, as mãos apertando as coxas de Adrian, machucando-as com sua louca ansiedade.

 

         Adrian mexeu-se contra aquela boca faminta que a sorvia toda. Pegou-a pela cabeça, apertando-a , gemendo de dor e prazer. Gozou em pouco tempo, apertando-se contra ela.

 

         Myrian prosseguia, alucinada. Adrian a puxou pelos cabelos e ela subiu, esfregando os lábios pelo seu corpo em beijos e chupões que deixavam marcas. A boca alcançou a sua e grudou-se em um beijo faminto.

 

         Adrian a arrastou para o sofá, caindo sobre ela, espremendo-se arrebatada em um vai-e-vem alucinante, com Myrian abraçando-a fortemente, mordendo o seu ombro, dando pequenos gritos de prazer. Cruzou as pernas em suas ancas, apertando-a contra si. Gozaram simultâneamente, gritando alto a razão de suas loucuras:

 

         -Adrian ! Oh, Adrian !

 

         -Myrian ! Amor !

 

         Quedaram-se imóveis, uma nos braços da outra, suadas e cansadas, mas querendo mais. Adrian com a cabeça pousada no peito de Myrian, sentindo uma felicidade plena, por estar nos braços de quem amava com todo o seu ser. Queria desesperadamente que ela dissese que a amava também. Essa confisão que a faria ter certeza que ela só seria sua. Ergueu o torso, olhando-a nos olhos. Myrian sorriu,  olhando seus seios.

 

         -Você me ama, Myrian ? – Perguntou, ansiosa.

 

         Ela desprendeu-se de seus braços e sentou no sofá. Deixou de sorrir e respondeu com outra pergunta :

 

         -E você, ama Agnes ?

 

         -Você  sabe que não. Eu amo você, Myrian.

 

         Ela apanhou seu soutien no chão. Olhou-a com malícia.

 

         -Diz amar-me,mas trepou com Agnes.

 

         -Não foi bem assim. E não tenho nada com ela.

 

         -Hum... vamos ver... mais isso não muda nada entre nós.

 

         Adrian encarou-a .

 

         -Isso quer dizer que vai continuar com Andreas, mesmo depois que nos encontramos hoje?

 

         Ela a olhou de frente.

 

         -Vou. E você, continuará sua vida de sempre, indo para a cama de outras mulheres.

 

         Adrian a fitou decepcionada e com raiva.

 

         -Você quer ficar comigo e com Andreas?

 

         Ela sorriu ambiguamente, colocando o sutian.

 

         -Não é bom para você ? Me terá sem nenhum compromisso e sem abrir mão de suas conquistas.

 

         Adrian a fitou intrigada.

 

         -Não consigo entendê-la ! Você se entrega à mim com uma paixão louca, mas depois diz coisas como não se importasse  nem um pouco comigo ! O que quer, afinal ? O que sente ? Você gosta de Andreas, mas quer ter sexo comigo ?

 

         Ela vestiu a calcinha e começou a colocar as meias, sentada na poltrona. Olhou-a séria.

 

         -Andreas é a minha vida aparente, minha segurança. Você é a minha paixão irresistível. Eu não ficaria com ele, se não pudesse com isso ter você.

 

         Adrian a fitou decepcionada. Ela havia sido clara. Queria-a para matar sua sede de sexo, mas não abria mão de Andreas, que significava seu futuro e sua segurança. Não a amava, pouco se importava com quem ela ficasse.

 

         Levantou-se e começou a se vestir sem olhá-la. Quando colocou o blusão, ela veio por trás e abraçou-a fortemente, encostando o rosto em suas costas.

 

         -Eu a quero, Adrian... desejo-a demais... vamos ser sensatas, sem romantismos bobos. Eu nunca me negarei a ser sua. Basta procurar-me.

 

         Adrian queria dizer que não aceitava aquela situação humilhante, xingá-la, mas não tinha forças para isso. Amava-a tanto, que tinha que conformar-se com o que ela se dispunha a lhe dar. Não tinha forças para recusar as migalhas que Myrian dava.

 

         Voltou-se e a beijou alucinadamente. Ela correspondeu com igual intensidade, apertando-a nos braços. Adrian afastou-se e a fitou com amargura. Ela sorriu.

 

         -Vou embora – Disse Adrian, contendo-se para não insultá-la, com a raiva que sentia.

 

         -Vai encontrar-se com outra ? – Perguntou ela, sem deixar de sorrir.

 

         Adrian olhou-a sem responder. Dirigiu-se para a porta em passos largos e saiu.

 

         Ela saiu dali deprimida. O que adiantara ter Myrian nos braços com paixão, se sabia que ela não seria somente sua, que ela continuaria com Andreas, em uma relação que iria acabar em casamento ? Myrian estava fazendo um jogo no qual só haveria um perdedor : Ela.

 

         Revoltou-se. Se Myrian pensava que ia ficar à disposição dela, estava muito enganada ! Ela estava muito confiante em seu amor e a submetia à aquela situação humilhante. Pois iria reagir, nem que sofresse infernalmente !

 

         Voltou para casa. Tomou um banho e aprontou suas malas. Deixou recado com o mordomo que estava indo para Gstaad. Ligou para a companhia aérea e reservou o vôo que havia adiado no fim de semana. Preferia viajar em um avião de carreira do que usar o jatinho de sua família. Toda vez que o usava, seu pai ficava fazendo mil perguntas, com  quem iria, para onde ia, quanto tempo ia demorar, etc.

 

         Queria ver como se sentiria longe de Myrian. Se agüentaria ficar mais de duas semanas sem vê-la. Era uma prova que queria passar, para ver se a esquecia.

 

         Saiu da mansão e entrou no Mercedes, dirigido pelo motorista da família.

        

))))))((((((

 

 

         O aeroporto de Orly estava lotado. Era época de férias e várias pessoas partiam ou chegavam, numa mistura de vários idiomas.

 

         Adrian colocou sua bagagem em um carrinho e dirigiu-se para o balcão da companhia aérea. Pegou a passagem e fez a pesagem da bagagem, que consistia em duas malas. A recepcionista devolveu os canhotos da bagagem e Adrian caminhou para a fila de embarque. Havia chegado em cima da hora.

 

         A fila de embarque estava grande. Postou-se no final, aguardando pacientemente sua vez.

 

         A mulher na sua frente voltou-se e a olhou. Adrian fitou casualmente o rosto dela e achou-o familiar.

 

         Ela estava de óculos escuros, mas pôde perceber que era muito bonita. Tinha lábios cheios, pintados de um vermelho vivo, contrastando com a pele clara. Os cabelos eram castanhos bem claros, caindo em ondas esvoaçantes pelos ombros. Estava elegantemente vestida com um casaco de peles preto e com luvas de couro da mesma cor.

 

         Adrian desviou o olhar, olhando em volta. O movimento do setor de embarque estava intenso. O que fazia a fila andar devagar.

 

         A mulher tornou a voltar-se e olhá-la. Adrian a fitou intrigada. Será que a conhecia ? O rosto não lhe era estranho.

 

         Ela a olhou da cabeça aos pés, em um olhar avaliador. Adrian sustentou o olhar dela, quando se fixou em seu rosto. Ela sorriu, mostrando dentes perfeitos e branquíssimos e Adrian sorriu também, formulando a pergunta que tinha na mente :

 

         -Nós nos conhecemos ?

 

         Ela voltou-se completamente, sorrindo confusa.

 

         -Como disse ? Não falo francês – Disse, em inglês.

 

         Adrian tornou a formular a pergunta em inglês. Ela a fitou aliviada.

 

         -Que bom que sabe o meu indioma ! Estava sentindo-me meio perdida aqui, sem falar nenhuma língua européia ! Não, não a conheço pessoalmente. Mas você é Adrian Von Thissen, não é ? Já a vi em muitas revistas.

 

         -Sou. E você, quem é? Seu rosto não me é estranho.

 

         Ela tirou o óculos, olhando-a nos olhos. Adrian então a reconheceu. Aqueles olhos dourados, juntamente com aquele sorriso, eram muito conhecidos.

 

         -Laureen Lancer, muito prazer – Ela disse , estendendo a mão.

 

         Adrian a apertou, olhando-a com um sorriso. Ela era uma das mais conhecidas anchor woman da televisão americana. Fazia um programa de entrevistas e muitas vezes Adrian a via na tv à cabo de sua casa. Admirava as perguntas inteligentes e a beleza dela. O programa dela era um sucesso na  América.

 

         -O prazer é todo meu – Disse, com sinceridade – Sou uma fã de seu programa.

 

         Ela arregalou os olhos dourados, rindo.

 

         -É mesmo ? Mas que honra ! Sabe que sempre tive uma grande vontade de entrevistá-la ?

 

         -E por que não o fez ?

 

         -É muito difícil encontrá-la em um local. Viaja muito, não é ?

 

         -Realmente. Agora, por exemplo, estou indo para Gstaad.

 

         -Oh, que coincidência ! Também estou indo para lá ! Que ótimo, já tenho uma companhia agradável para viajar ! Ou você está acompanhada ?

 

         Adrian sorriu.

 

         -Não estou só.

 

         -Ah, então vou sentar ao seu lado ! Importa-se ?

 

         -Claro que não, será um prazer.

 

         Adrian a fitou com interesse. Ali estava uma mulher que poderia fazê-la esquecer Myrian. Linda, inteligente e simpática.

 

         Faz perguntas sobre o trabalho dela e Laureen respondia com um sorriso amistoso, não se negando a contar fatos pitorescos sobre os seus entrevistados, durante as entrevistas.

 

         Chegou a vez delas embarcarem. Sentaram-se na parte da primeira classe, na área destinada a fumantes.

 

         Laureen cruzou as pernas, mostrando a Adrian que tinha pernas esculturais. Tirou as luvas e o casaco e acendeu um cigarro, fitando-a nos olhos.

 

         -Quer um também ?

 

         -Não . Fumo raramente.

 

         -Eu também, mas quando estou nervosa, então fumo muito. Morro de medo de andar de avião. Já viajei inúmeras vezes , mas não consigo dominar esse medo.

 

         Adrian sorriu, olhando-a. Colocou logo o cinto de segurança, antes da aeromoça pedir.

 

         -Não parece ser medrosa.

 

         Laureen sorriu, colocando também o cinto.

 

         -Só tenho medo de avião. Na   decolagem e na aterrissagem, pois disseram-me que são os momentos mais críticos em um vôo.

 

         -Pode deixar que seguro sua mão no momento da decolagem... sei que isso dá uma sensação de segurança.

 

         -Ah, agradeço. Realmente alguém mostrando solidariedade nesse momento, dá uma sensação de conforto. Mas , diga-me uma coisa. Vai hospedar-se em que hotel, Adrian ?

 

         -Não vou ficar em um hotel. Nossa família possui um chalé em Gstaad.

 

         -Ah, esqueci que os Von Thissen devem ter residências em  várias  cidades do mundo ! – Riu Laureen.

 

         A comissária de bordo deu as instruções de praxe e avisou que o avião ia começar o processo de decolagem. Pediu que os pasageiros não fumassem e Laureen apagou o cigarro no cinzeiro da poltrona e empalideceu. Adrian a observava e olhou-a divertida.

 

         -Calma. O avião ainda não começou a decolar.

 

         Ela sorriu palidamente, as mãos agarrando a poltrona com força.

 

         -Não brinque ! Meus pais morreram em um acidente aéreo. É um trauma que tenho.

 

         Adrian parou de sorrir.

 

         -Oh ! Sinto muito... então , tem um motivo forte para ter medo de andar de avião.

 

         O avião chegou à pista de decolagem. Parou, acionando os motores na força máxima, para pegar velocidade.

 

         Adrian olhou para Laureen. Ela estava extremamente pálida, mordia os lábios, olhando para a frente.

 

         O avião saiu correndo na pista. Laureen começou a transpirar na testa, parecendo apavorada. Adrian, em um impulso, a abraçou, rodeando os ombros dela com o braço. Ela escondeu o rosto em seu ombro, enquanto o avião corria e alçava vôo.

 

         Adrian gostou daquele contato. Dava para sentir o perfume dos cabelos dela, abaixo de seu nariz. Apertou os ombros dela, até o avião ganhar altura e estabilizar o vôo.

 

         A aeromoça avisou que já podiam retirar o cinto de segurança e fumar. Adrian tirou o braço dos ombros de Laureen, que afastou-se sorrindo.

 

         -Obrigada, Adrian. Você conseguiu acalmar-se no momento crucial. Deve achar-me uma idiota, não ?

 

         Adrian sorriu para ela.

 

         -Não. Tem muitas pessoas que possuem esse medo. É muito comum. Está viajando de férias ? Alguém a espera em Gstaad ?

 

         Ela a fitou nos olhos.

 

         -Estou de férias, mas ninguém me espera.

 

         Adrian a fitou surpresa.

 

         -De férias, sozinha ? Ouça, aceitaria ficar hospedada em minha casa ?

 

         Ela sorriu, agradavelmente surpresa.

 

         -Oh, que convite gentil ! Está falando sério ?

 

         -Estou. Você é uma companhia agradável e também estou sozinha. Pretendo ficar em Gstaad umas duas semanas.

 

         -Ah, então aceito, com muita honra !

 

         Adrian sorriu, satisfeita. Iria conquistar aquela mulher. Iria passar dias sozinha com ela e seria muito bom. Talvez ela a fizesse esquecer Myrian.

 

         O lanche chegou, com canapés e champanhe. Adrian ergueu a taça, olhando para Laureen com um sorriso.

 

         -Ao nosso conhecimento.

 

         Ela ergueu a sua , sorridente.

 

         -Idem. Adorei conhecer você. Confesso que tinha uma idéia falsa de você, atravéz da mídia.

 

         Adrian a fitou curiosa.

 

         -Que idéia ? Posso saber ?

 

         -Que era uma moça prepotente, orgulhosa ao extremo, mal humorada e completamente louca em suas atitudes.

 

         Adrian riu, admirada.

 

         -Deus, tudo isso ?! E por que acha agora que não é bem assim ?

 

         Ela a encarou séria.

 

         -Porque percebi que na verdade você é muito simpática, gentil e solidária, além de não ser nem um pouco esnobe.

 

         Adrian a fitou nos olhos , dizendo :

 

         -Mas só sou gentil e simpática com quen gosto ou admiro. Os jornalistas, principalmente os da imprensa escrita, adoram fustigar as pessoas conhecidas como eu, com comentários maldosos ou mentiras. Ganhei a fama de temperamental porque certa vaz um fotógrafo conseguiu invadir minha privacidade com uma teleobjetiva e tirou uma foto minha nua, em uma praia particular de uma amiga minha. Quando o encontrei numa festa, dei uma bofetada na cara dele e os tablóides publicaram o acontecido.

 

         -Fez isso com toda razão... eu sou jornalista, mas reconheço que existem uns profissionais que só vivem farejando escândalos e fofocas. Mas não é o meu caso. Só faço entrevistas, procurando mostrar ao público o lado humano das personalidades que entrevisto, com respeito.

 

         -Eu sei. Já disse que sou sua fã.

 

         Laureen sorriu encantadoramente.

 

         -Fico muito lisonjeada com isso. Uma mulher de seu gabarito, ser minha fã !

 

         -Chega de elogios ! – Riu Adrian – Senão, vou começar a desfilar os meus sobre você, e vou envergonhá-la! 

 

         Em quarenta e cinco minutos chegaram a Gstaad. Elas não notaram o tempo passar, conversando sobre vários assuntos. Quando o avião começou a aterrissar, Adrian segurou na mão de Laureen, apertando-a até o avião parar. Gostou do contato daquela mão quente e macia. Ela ficou nervosa, mas a olhou com um sorriso agradecido.

 

         Cumpriram as formalidades legais e saíram do aeroporto, pegando um táxi.

 

         Laureen ficou encantada quando o táxi parou diante do belíssimo chalé da família de Adrian. Ele ficava numa colina, cercado por pinheiros e diante de um lago, tendo ao fundo a paisagem das montanhas cobertas de neve.

 

         -Que lugar lindo, Adrian ! Oh, vou adorar ficar aqui !

 

         O chalé era de madeira rústica envernizada, com dois pavimentos e amplas janelas, rodeado por um terraço coberto.

 

         Os criados vieram pegar as malas e lhes deram boas-vindas. Elas entraram e Laureen olhou para o amplo living com lareira e móveis de couro. O chão era todo forrado de peles.

         -É muito confortável e aconchegante – Comentou ela, olhando para Adrian.

 

         -Acompanhe Elga, Laureen. Ela a conduzirá a um quarto de hóspedes. Depois, desça. Estarei esperando-a aqui, logo que trocar de roupa.

 

         Laureen seguiu a governanta e Adrian subiu para o seu quarto. Abriu a porta, entrando.

 

         O quarto era enorme, com decoração rústica como todo o chalé. Tirou a roupa da viagem, trocando-a por uma calça colante de lã azul-marinho, blusa de algodão e pulôver branco com arabescos vermelhos. Calçou botas forradas de peles e desceu para o living.

 

         Minutos depois, Laureen chegou. Estava muito atraente com calça colante de lã negra e pulôver de listras pretas e brancas. O corpo era esguio e bem feito. Ela lhe sorriu, parando diante dela.

 

         -Adorei o quarto. É muito confortável e tem uma vista maravilhosa para as montanhas.

 

         Adrian, que estava sentada em uma pose displicente no sofá, ergueu-se olhando-a apreciativamente.

 

         -O que vai querer beber ?

 

         -Um conhaque. Estou ainda com um pouco de frio – Respondeu, enrubescendo. Devia ter percebido o olhar avaliador de Adrian.

 

         -Boa pedida, vou acompanhá-la nessa escolha – Disse, dirigindo-se para o bar.

 

         Ela a seguiu até o enorme bar que tomava todo o lado direito do living, com dez tamboretes de couro. Adrian pegou a bebida na imensa prateleira com as mais variadas bebidas e Laureen sentou em um tamborete, debruçando-se no balcão, olhando-a colocar o conhaque em taças bojudas.

 

         -Não está à espera de alguém chegar, Adrian ?

 

         Adrian estendeu a taça para ela, fitando-a séria.

 

         -Não, não espero ninguém.

 

         -Veio para cá com a intenção de ficar só, como eu ?

 

         -Você veio para Gstaad para ficar só ?

 

         Laureen baixou os olhos para a taça, que aquecia nas mãos.

 

         -Sim. Mas você desviou-me do meu propósito, com seu convite.

 

         Adrian rodeou o balcão, sentando em um tamborete ao lado de Laureen. Fitou-a atenta.

 

         -Por que queria ficar só ? Poso saber ?

 

         Ela a encarou com ar grave.

 

         -Estou fugindo de uma relação complicada. Vim para cá para pensar, fazer um balanço de minha vida.

 

         Adrian a fitou surpresa.

 

         -Ah, não ! É muita coincidência ! Vim para cá pelo mesmo motivo !

 

         Laureen a fitou admirada.

 

         -Veio pelo mesmo motivo ?! É incrível... mas no seu caso, aposto que quer terminar, mas o homem não quer. O meu problema é mais complicado. Ainda tenho dúvidas. Não sei se devo continuar ou não.

 

         Adrian sorriu maliciosamente.

 

         -Nossos problemas são parecidos, mas existe uma diferença fundamental.

 

         -Que diferença ? – Perguntou ela, curiosa.

 

         Adrian a olhou pensativa. Podia confiar em uma jornalista ? Mesmo sendo uma jornalista séria ?

 

         -Desculpe-me, mas não posso dizer.

 

         -Porque sou jornalista ?

 

         -Exato. Desculpe-me, mas é esse o motivo.

 

         Ela a encarou nos olhos.

 

         -Adrian, estou aqui não como jornalista, mas como uma mulher comum, com um problema. Dou-lhe minha palavra, se acredita nela, que tudo que eu ouvir e ver aqui em sua casa não será comentado com ninguém. Minha área de jornalismo não é a notícia nem a fofoca. E mesmo que fosse a área de notícia, eu sou uma pessoa que respeita as outras e tenho escrúpulos.

 

         Adrian leu naqueles olhos a sinceridade. Acreditou nela. Tomou um gole do conhaque e perguntou, especulativa :

 

         -Você é preconceituosa ?

 

         -Eu ?! Não. Trabalho em um meio que as pessoas têm que ter a mente aberta. Por quê ?

 

         -Porque vou confiar em você e revelar algo muito íntimo. Eu a admiro como jornalista e espero poder admirá-la como ser humano.

 

         Ela sorriu, também tomando um gole do conhaque.

 

         -Puxa, que responsabilidade a minha ! Mas, pode confiar em mim.

 

         -Pois bem : vim para cá fugindo de uma pessoa pela qual estou apaixonada, mas não posso ter.

 

         Laureen sorriu, divertida.

 

         -Só isso ?! Fez tanto suspense, que pensei que era uma coisa grave !

 

         Adrian continuou, decidida :

 

         -Mas acontece que essa pessoa é uma mulher. E está quase noiva de meu irmão.

 

         Laureen deixou de sorrir e a fitou olhando em silêncio. Adrian sorriu.

 

         -Está chocada ? Eu esperava essa reação.

 

         Ela respirou fundo. Pestanejou, olhando-a nos olhos.

 

         -Não estou chocada, mas surpresa – Declarou, calmamente – A imagem que se tem de você em geral, é que é uma devoradora de homens.

 

         Adrian riu, descontraindo-se.

 

         -Eu imagino. Inventam para mim mil romances com amigos meus.

 

         -E nunhum é verdade ?!

 

         -Nenhum. Adoro as mulheres e sou bem definida no que gosto. Nunca tive um homem em minha vida, nem quero ter.

 

         Olhou-a tão de perto que notou que Laureen enrubesceu quase que imperceptivelmente. Sorriu para ela.

 

         -E agora, Laureen ? Não vai contar-me seu problema também ?

 

         Ela sorriu, fitando-a divertida.

 

         -Depois dessa revelação, o meu é meio sem graça. Tenho um caso com um produtor de tv há três anos. Ele é casado com uma colega minha, somos muito amigas. Ela é louca por ele e isso dá-me um complexo de culpa enorme. Já tentei terminar o caso, mas ele é insistente. E agora propôs-me casamento, quer divorciar-se dela. Vim para cá pensar. Na verdade, não sei se quero assumir um relacionamento tão definitivo com ele. Sou muito independente e não sei se o amo ou estou envolvida em uma paixão que vai acabar.

 

         Adrian a fitou com tristeza.

 

         -Você tem mais sorte que eu. Porque não tenho dúvidas de querer Myrian para mim. Mas ela só me quer para sexo. Quer ser minha amante, mas vai casar-se com meu irmão. E eu não tenho forças para recusá-la, quando me procura. Mas não quero continuar traindo meu irmão. Vim para cá tentar esquecê-la.

 

         Ela sustentou seu olhar. Estava séria e atenta.

 

         -Não posso opinar nada, Adrian. Você deve resolver seu problema sem interferências alheias, como eu o meu.

 

         -Não é fácil. Você é mais sensata e madura que eu.

 

         -Não, não sou. Não me meti numa situação complicada ? Se fosse sensata, não teria me envolvido nessa situação.

 

         Adrian ergueu a taça, com um sorriso triste.

 

         -Um brinde à duas mulheres insensatas !

 

         Laureen riu e ergueu a sua taça também.

 

 

Continua na parte 6

        

 

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