Paixão  Proibida

 

LETH  CROSS

 

 

parte 1

 

         Na penumbra aconchegante da buate, Adrian pensava em sua vida. Sozinha na mesa, afogava as mágoas em uma taça de champagne Don Perignon, safra 55, o que por si só já demonstrava que seus problemas não eram de ordem financeira.

 

         O ambiente era luxuoso, frequentado por gente de dinheiro, que podia dispor de cem dólares só para entrar.

 

         E Adrian fazia parte desse seleto grupo de pessoas ricas. Sua família era uma das mais tradicionais da Europa, descendente dos Blazen Von Thissen, da antiga aristocracia austríaca. Seu nome era badalado pela imprensa mundial como uma das mais belas figuras do jet-set, e sabendo que sua foto vendia revistas, os “paparazzis” dos tablóides viviam caçando Adrian com suas câmeras.

 

         A mídia era o terror de Adrian. As insinuações sobre o seu comportamento pouco convencional a irritava  e desesperava, pela reação de seu pai ao ler sobre ela.

 

         Adrian achava injusta a severidade de seu pai com ela. O seu irmão mais velho, Andreas, era um play-boy que só vivia aproveitando a vida, cercado de garotas no iate da família. E seu pai orgulhava-se dele, não lhe negava nada e encarava suas loucuras com benevolência.

 

 Mas com ela, vivia querendo controlar sua vida, alegando que ela era uma mulher e não podia ter a mesma liberdade do irmão. Tinha que escolher melhor as companhias, ver com cuidado onde ia, não expor o nome em escândalos. Essa mesma tarde tivera uma séria discussão com ele. Queria ir para Gstaad esquiar com as amigas, mas ele a intimara a ficar em casa. Andreas ia trazer a namorada no dia seguinte com a família para o final de semana e ela devia estar presente.

 

         Adrian havia se negado a ficar, dizendo que se fosse ficar em casa toda vez que Andreas levase uma namorada para passar o fim de semana, não sairia mais. Seu pai explicou que agora o namoro de Andreas era sério. Estava apaixonado por uma moça francesa, filha de um diplomata. Adrian havia rido, incrédula. Tornara a se negar a ficar. Então, seu pai a ameaçou. Deixaria de depositar dinheiro na conta bancária dela, que iria à zero.

 

         Adrian se revoltara. Mais uma imposição dele! Havia saido batendo a porta do escritório dele com raiva, xingando um palavrão.

 

         Mas não havia se atrevido a ir para Gstaad. Ele podia cumprir a ameaça. E como ficaria, sem dinheiro?

 

         Muito irritada, se conformara em ir para a buate. Mas a sua turma havia toda seguido para Gstaad e só ela permanecera em Paris. Estava ali sozinha e entediada. Arrependia-se de ter ido à boate só para não ficar a sexta-feira em casa, remoendo a sua raiva. Sem sua turma, sentia-se perdida ali.

 

         Olhou em volta, saindo de sua abstração. Os primeiros frequentadores começavam a chegar. A buate ainda estava com poucas pessoas, pois ainda não passava das onze horas da noite. Mais tarde, ela ficaria cheia.

 

         Era uma boate frequentada na maioria por homossexuais. E ela era uma deles. Sim, a bela Adrian, tão badalada pela sua beleza pela mídia, era uma mulher que só gostava do mesmo sexo. Não tinha nenhum complexo por isso, mas sabia que tinha de ser discreta, devido ao nome que carregava.

 

         Mas nem sempre isso acontecia. Os malditos “paparazzi” já a haviam flagrado nua em uma praia em Saint Tropez, outra vez no iate da família com sua turma e quase a pegaram se beijando com uma modelo de modas conhecida, em uma festa, quando estava no jardim da mansão de um amigo homossexual.

 

         Isso que a irritava. Por que não a deixavam em paz?

 

         Uma mulher entrou na buate sozinha, chamando sua atenção.

 

         Tinha uma vasta cabeleira loura e com um porte imponente. De vestido negro e justo, curto , mostrava as pernas sensacionais. Na penumbra não dava para ver o rosto direito, mas o perfil era perfeito.

 

         Adrian ficou olhando-a avançar indecisa e depois sentar em uma mesa perto da pista, no centro. Ela olhou para os casais que dançavam e acendeu um cigarro. Por um momento, a chama do isqueiro iluminou suas feições e Adrian ficou encantada. Ela era linda! Que rosto sensual, que charme! Tinha de conhecê-la! Olhar de perto aquela beleza toda, aquele rosto perfeito.

 

         Chamou o garçon, que veio solícito. Adrian já era conhecida deles pelas suas generosas gorjetas.

 

         -O que deseja, mademoiselle?

 

         -Conhece aquela loura que está sentada naquela mesa? – Segredou ao garçon, indicando a loura com o queixo.

 

         Ele a olhou atentamente e voltou a fitá-la.

 

         -Não, nunca a vi aqui antes.

 

         -Por favor, diga à ela que eu a  convidei para tomar uma taça de champanhe em minha mesa – Disse, oferecendo uma nota de dez dólares a ele.

 

         O garçon pegou a nota e assentiu. Aproximou-se da loura e inclinou-se para ela, dando o recado.

 

         A loura voltou-se, parecendo surpresa. Olhou para Adrian, mas ela estava em um canto escuro. Adrian sabia que ela não podia vê-la direito, só a silhueta.

 

         Ela falou algo com o garçon e ele voltou. Inclinou-se para Adrian.

 

         -Ela disse que não aceita bebidas de estranhos. Você quem deve ir à mesa dela e  se apresentar. Somente para um drink, nada mais que isso.

 

         Adrian ergueu-se, sorrindo.

 

         -Já é alguma coisa. Obrigada.

 

         Pegou sua taça de champanhe e aproximou-se da loura, que nem siquer a olhava. Ela parecia procurar alguém que não estava ali, circunvagueando o olhar pelo salão. Parou ao lado dela e disse, com voz polida:

 

         -Olá... a pessoa com quem marcou não veio?

 

         Ela voltou o rosto e olhou-a. A luz de um spot incidiu no rosto dela e Adrian percebeu como era belíssima. Os olhos claros a fitaram surpresos, discorrendo-a numa evidente avaliação da cabeça aos pés. Voltou ao seu rosto e fixou-se em seus olhos. Depois de certo tempo, sorriu. Tinha um sorriso lindo, que iluminava ainda mais aquele rosto belo.

 

         -Olá... – Disse, finalmente – Enganou-se, não estou esperando ninguém.

 

         A voz era macia e aveludada, com um sotaque encantador.

 

         -Meu nome é Christine – Disse Adrian, omitindo o verdadeiro nome, como sempre fazia em lugares como o que estava.

 

         -Poso sentar-me?

 

         Ela assentiu e Adrian puxou uma cadeira diante dela, sentando-se. Olhou-a nos olhos, sorrindo.

 

         -Convidei-a para tomar uma taça de champanhe comigo, mas você preferiu que eu viesse aqui. Então, aqui estou.

 

         Ela sorriu mais descontraidamente. Tinha covinhas nos cantos da boca.

 

         -Não deu para vê-la no lugar em que estava. Mas se tivesse visto bem, eu teria ido ao seu encontro.

 

         Adrian riu da sutileza do elogio.

 

         -Então, gostou da minha aparência? Estou aprovada?

 

         Ela a fitou nos olhos com malícia.

 

         -Está. Você é modesta. Sua aparência é impressionante.

 

         Adrian fitou-a calorosamente, deixando de sorrir.

 

         -E a sua é deslumbrante. Como se chama?

 

         -Eu... bem, me chamo Morgana.

 

         -Morgana... muito original. E noto em você um sotaque que não consigo definir de onde.

 

         -Sou filha de poloneses, naturalizada francesa. Mas nasci em Viena.

 

         -Que mistura interessante! Quanto à mim, sou descendente de austríacos, mas sou francesa de nascimento.

 

         -Então, temos algo em comum... o sangue vienense... mas, vem sempre a essa boite?

 

         -Quase sempre. Mas você é a primeira vez que vem aqui, não é?

 

         -Sim. Como sabe? – Perguntou, parecendo tensa.

 

         -O garçon disse que nunca a viu aqui antes. E se eu a tivesse visto, jamais a esqueceria.

 

         Ela pareceu descontraír-se com a resposta. Sorriu.

 

         -Se é um elogio, agradeço e devo dizer a mesma coisa, Christine... Você tem um rosto muito marcante. E é engraçado...parece que a vi antes... me é familiar.

 

         Adrian ficou com receio de Morgana reconhecê-la e dizer que fora enganada, que ela havia mentido o nome. Ela devia ter visto seu rosto em revistas, mas não a reconhecera porque havia lhe dado o nome errado. Não pretendia revelar logo sua verdadeira identidade à uma mulher da qual nada sabia. Só depois que a conhecesse melhor.

 

         Ergueu-se e falou, tentando distraí-la daquela observação:

 

         -Já que não aceitou o meu champanhe, aceita dançar comigo?

 

         Ela em resposta ergueu-se. Adrian fitou aqueles olhos claros e viu neles um vivo interesse. Isso a emocionou. Aquela mulher a atraía muito. Só em pensar em dançar com ela, sentiu um arrepio.

 

         Caminharam para pista e Adrian voltou-se para ela, tomando-a nos braços. Ela envolveu seu pescoço com os braços e encostou o corpo no seu. Adrian sentiu uma espécie de choque e estremeceu. Notou que ela sentiu a mesma coisa, porque também tremeu e a fitou nos olhos suspirando. Adrian sentiu então uma grande emoção tomá-la de assalto.

 

         Começaram a dançar. Adrian sentia o perfume dela, o calor e maciez do corpo contra o seu, movendo-se sensualmente, e a emoção aumentou.

 

         Estava surpresa consigo mesma. Quando, antes dessa noite, se sentira assim nos braços de uma mulher? Nunca! Nem tendo relações sexuais. Sempre sentia desejo, um desejo crescente de ter a mulher. Mas isso depois de muitas carícias ousadas. Mas aquela emoção era diferente. Não pensava em sexo somente, mas sim em mantê-la em seus braços em um amplexo interminável, em olhá-la no mais íntimo do ser, para conhecê-la mais, se perder naqueles olhos translúcidos.

 

         Ela fechou os olhos e aproximou o rosto, tocando no seu.

 

         Adrian suspirou, apertando-a contra si. Que toque delicioso, o do rosto de Morgana! Parecia veludo, com o perfume de uma flor. Sem poder conter-se, esfregou os lábios suavemente no rosto de Morgana, em um impulso de carinho e desejo. Ela estremeceu, as unhas arranhando levemente a sua  nuca.

 

         Em gesto natural e impensado, Adrian pegou o rosto de Morgana com a mão e o virou para sua boca. Olhou para os lábios macios que tremiam à espera e esmagou-os com os seus, em um beijo cheio de paixão.

 

         Ela abandonou-se ao beijo, entreabrindo os lábios e deixando a língua de Adrian invadir a sua boca. Recebeu-a e a sugou avidamente, bebendo a saliva de Adrian como uma náufraga sedenta, as mãos apertando seu rosto.

 

         Foi um beijo intenso, que fez o coração de Adrian disparar. Morgana afastou-se lentamente e a fitou nos olhos com um olhar de embriagada.

 

         -Vamos sentar... estamos dando um show aqui...

 

         Adrian a soltou a contragosto. Queria continuar abraçando aquela mulher maravilhosa, que a enfeitiçara.

 

         Sentaram-se novamente, só que dessa vez, na mesa de Adrian, que a puxou pela mão.

 

         Morgana a fitou com ar cismativo.

 

         -Você é diabólica, Christine...

 

         -Por quê? – Perguntou Adrian, fitando-a surpresa.

 

         -Enfeitiçou-me em pouco tempo... oh, você descontrolou-me!... Quase entreguei-me na pista à você, sem pensar onde estava...

 

         Adrian sorriu, olhando-a com malícia.

 

         -Não quero ser convencida, mas sabe que já ouvi muito essa frase?

 

         Os olhos de Morgana se estreitaram.

 

         -É mesmo? Então, sou apenas uma a mais a dizer, não é? Você deve ser uma conquistadora... que leva para a cama quem bem entende...

 

         Adrian a fitou nos olhos.

 

         -Não sou dizer que sou uma santa, Morgana. Realmente, tenho facilidade em conquistar uma mulher. Mas o que eu quero explicar dizendo isso, é que é a primeira mulher que consegue tocar-me com essa frase. Nunca mulher alguma conseguiu que eu ficasse tão impressionada, só através de um simples olhar. Estou surpresa comigo mesma.

 

         -Quantas mulheres já teve, Christine?

 

         -Inúmeras. Mas nunca alguém como você.

 

         Ela ficou olhando-a pensativamente.

 

         -Talvez você também já tenha dito essas palavras para as outras mulheres que teve.

 

         Adrian a fitou calorosamente.

 

         -Não, Morgana. Você é a primeira. Estou sendo sincera.

 

         Ela sorriu amargamente.

 

         -Será que está sendo mesmo sincera? Tenho minhas dúvidas.

 

         Adrian enrubesceu. Estava mentindo para ela. Seu nome não era Christine. Mas diria a ela no momento oportuno, não naquele, que só faria aumentar a desconfiança dela.

 

         -Sobre o que sinto, estou.

 

         Ela sorriu, apertando sua mão. Os olhos mergulharam nos seus, com a paixão luzindo neles.

 

         -Mas isso não importa, agora. O que importa é que quero ir para cama com você, Christine. Hoje, se possível.

 

         Adrian sentiu um arrepio de desejo.

 

         -Hoje? Quer ir à um motel comigo? Conheço vários que aceitam casais de mulheres. Eu também a desejo muito, Morgana.

 

         Ela ergueu-se. Olhou-a de um modo que Adrian quase a tomou nos braços para beijá-la como louca.

 

         -Então, vamos agora. Quero ser sua logo, Christine.

 

         Adrian jogou uma nota de cem dólares sobre a mesa e levantou-se, seguindo Morgana. Ela tinha um andar provocante, movendo os quadris sensualmente.

 

         Lá fora o frio estava cortante. Adrian correu para seu carro, uma Ferrari vermelha último modelo e abriu a porta, entrando. Debruçou-se e abriu a porta para Morgana. Ela entrou e a fitou,  erguendo as sombrancelhas.

 

         -Esse carro é seu?

 

         Adrian a encarou, ligando o carro.

 

         -É. Por que a surpresa?

 

         Notou que os olhos de Morgana eram cinza-azulados, na claridade do neon da buate.

 

         -Não pensei que fosse uma garota tão rica.

 

         Adrian riu, saindo com o carro.

 

         -Por que diz isso? Não tenho elegância e classe?

 

         Ela sorriu, olhando para frente.

 

         -Não, pelo contrário. Tem uma classe no porte, nas roupas, nos gestos, que logo vi que é uma mulher refinada. Mas o lugar que a conheci é meio... suspeito. Deve ter muita mistura de classes.

 

         Adrian tornou a rir.

 

         -Morgana, lembra quanto pagou para entrar? Essa boite é frequentada por pessoas que possuem muito dinheiro! É só verificar os preços das bebidas e da entrada.

 

         Ela sorriu, fitando-a.

 

         -Eu sei, mas sempre nesses lugares existem os penetras, que conhecem o porteiro, a gerência... e vim aqui sem muita informação. Passei, vi o nome, e resolvi vir mais tarde. Mas seu estado financeiro não importa para mim. Eu a desejaria mesmo se fosse uma garçonete.

 

         -Obrigada, mas deve saber que  essa buate é muito famosa no meio dos homossexuais ricos. Todos eles vêm aqui.

 

         Morgana tomou sua mão entre as dela e a fitou apaixonadamente.

 

         -Estava com tanto medo quando entrei... sabia que era frequentada por homossexuais. Sempre quis ir em uma, mas nunca tive coragem. Mas hoje me decidi. E conheci você. Sabe que é linda?

 

         Adrian a fitou de relance. Estava dirigindo em alta velocidade, ansiosa para chegar ao hotel, para ter Morgana.

 

         -Morgana, já esteve com uma mulher na cama?

 

         -Não. Mas tenho pensado muito nisso. E quero saber o que realmente sentirei.

 

         Adrian sentiu a decepção dominá-la.

 

         -Ah!... então serei sua cobaia de experiência...

 

         -Oh, não! Como pode pensar isso de mim? Não sou calculista, Christine. Não chegaria a ir para a cama com uma mulher que não despertasse as minhas emoções. Mas você conseguiu. Estou louca para ser sua.

 

         Adrian ficou calada. Queria Morgana de qualquer jeito. Mesmo que ela estivesse desejando apenas uma experiência. Queria conquistá-la completamente, porque estava se descobrindo apaixonada por ela. Era uma paixão inesperada  e assustadora por sua intensidade.

 

         -Quantos anos tem, Christine? – Perguntou Morgana, tirando-a de seus pensamentos.

 

         -Vinte e oito. E você?

 

         -Vinte e sete. Pensei que você tivesse menos idade. Parece uma garota. É bom que não seja. Gosto de pessoas adultas. E o que faz na vida, Chris?

 

         Adrian pensou rápido. Não queria dizer que era filhinha do papai, sem uma atividade, e inventou:

 

         -Sou uma executiva.

 

         -É mesmo? Interessante! De que firma?

 

         A voz dela soou cheia de ironia. Adrian perturbou-se. Será que ela desconfiava que estava mentindo?

 

         -É uma multinacional, mas não quero dizer o nome.

 

         -Ah!... tudo bem, não quero meter-me em sua vida particular.

 

         Chegaram ao hotel. Adrian pediu um apartamento com seu nome fictício e pagou adiantado. Eles não exigiam documentos, mas cobravam o dobro, para casais do mesmo sexo que iria apenas pernoitar.

 

         Subiram no elevador e chegaram ao andar. Adrian abriu a porta com a chave e entrou, em seguida Morgana.

 

         Ela olhou em volta. Uma sala acolhedora e bem decorada , em tom pastel. Olhou para Adrian.

 

         Adrian aproximou-se do frigobar, abrindo-o e olhando as bebidas.

 

         -Tem vodka, uísque e champanhe. O que vai querer?

 

         -Não quero tomar nada. Já bebi o bastante.

 

         Adrian a encarou. Sentia-se nervosa, pela primeira vez não sabia como iniciar. Morgana a intimidava com sua calma, olhando-a pensativamente.

 

         -Quer ouvir música? Há som ambiente. É só ligar.

 

         Morgana aproximou-se e parou diante dela, olhando-a nos olhos. O olhar emitia fogo, desejo.

 

         -Não. Eu quero é que você me pegue, Christine – Sussurrou.

 

         E ela pegou-a com as mãos, puxando-a para si, beijando-a ardentemente, quase mordendo-a em sua louca ansiedade.

 

         Puxou Adrian para o chão, agarrando-a, apertando-se contra seu corpo com uma tal loucura que Adrian perdeu a cabeça.

 

         Adrian arrancou o vestido dela com gestos bruscos, sentindo-a contorcer-se sob o seu corpo, gemendo contra sua boca, sem parar de beijá-la com ardor. As mãos de Morgana passaram pelas suas costas, deslizaram pelo seu rosto, apertando-o, e se enterraram em seus cabelos curtos e negros, puxando-os. Girou o corpo, rolando no chão, e se colocou em cima de Adrian, montada, olhando-a com loucura, as mãos arrancando suas roupas numa impaciência febril.

 

         Adrian olhou para os seios dela, admirando-os. Eram seios belos, de bicos rosados, eretos. O olhar desceu para as coxas roliças envoltas em meias negras de nylon, com ligas e calcinha de rendas negras. Apertou o sexo dela por cima da calcinha, sentindo uma onda de desejo.

 

         -Chris! – Ofegou Morgana, puxando o fecho de sua calça comprida com impaciência – Quero você... depressa...

 

         Puxou a calça de Adrian e jogou-a para o lado. Sentou-se com as pernas abertas sobre seu sexo, mexendo-se louca de desejo.

 

         Adrian enlouqueceu. Pegou-a pela cintura e sentou. Com um puxão, arrancou a calcinha dela, rasgando-a . Empurrou-a para trás e deitou sobre ela, beijando-a sofregamente, as mãos abrindo as pernas dela, apertando-se. Morgana empurrou sua cabeça para baixo, gemendo alucinada. Estava fora de si.

 

         -Chupe-me, Christine! Quero sentir sua boca me chupando! – Disse com voz ofegante, erguendo as pernas e as abrindo.

 

         Adrian tomou o sexo dela na boca, sugando-o alucinada, sentindo o cheiro suave de Morgana excitá-la ainda mais. Ela gritou de prazer, apertando-se contra sua boca, fora de si.

 

         -Penetre-me! Penetre-me! – Gemeu alto.

 

         Adrian a penetrou com dois dedos, sentindo como ela estava úmida de excitação, vendo-a mexer-se freneticamente, as mãos arranhando o tapete. As mãos dela pegaram os seus cabelos, nervosas, o corpo se mexendo, dando gemidos de prazer. Sacudiu-se espasmódicamente, atingindo o êxtase e gritando frases ardentes, apertando Adrian com as mãos e as coxas. Caiu para trás, ofegando.

 

 Montou sobre ela, subindo pelo corpo dando chupões, louca de desejo. Tirou a própria calcinha e começou a apertar-se contra ela com movimentos sinuosos. Morgana deslisou sob seu corpo e tomou seu sexo na boca, sugando-o avidamente, as mãos prendendo suas coxas.

 

         Adrian atingiu o orgasmo contraindo-se e gemendo. Mas ela não parou. Continuou sugando-a, agora metendo os dedos, até Adrian ter outro orgasmo. Então ela subiu pelo seu corpo, lambendo-o todo, mordiscando, beijando. O rosto se nivelou com o seu e ela sorriu, fitando-a nos olhos.

 

         -Ambas enlouquecemos, Christine... não sei o que deu em mim... essa fúria que me fez perder a cabeça... mas adorei. É uma delícia ser amada por você. É diferente, gostoso demais... – Declarou, com voz rouca de emoção.

 

         Adrian olhou-a embevecida. Agora, tinha certeza. Estava completamente apaixonada por Morgana. Queria-a como nunca quisera alguém na vida.

 

         -Morgana... eu a amo – Declarou, em um impulso incontido. Morgana liquidara seus propósitos puramente sexuais, virara pelo avesso seus sentimentos, desnudando sua verdadeira personalidade, que vivia até então encoberta pelo cinismo das conquistas fáceis e sem profundidade de sentimentos.

 

         Morgana a fitou com um sorriso divertido.

 

         -Não precisa mentir agora. Já me teve.

 

         Adrian a fitou decepcionada.

 

         -Não acredita em mim? Estou sendo sincera, Morgana.

 

         Ela sentou no chão atapetado, rodeando os joelhos com os braços. Fitou-a com certa ironia.

 

         -Olhe, não estou cobrando nada à você. Por que quer enganar-me até nisso? – Perguntou Morgana, com um tom amargo na voz.

 

         Adrian sentou-se, fitando-a ofendida.

 

         -Acha que estou enganando-a?

 

         Ela a fitou subitamente séria.

 

         -Vamos ser realmente sinceras? Sei que enganou-me desde que falou comigo. Seu nome não é Christine, mas sim Adrian. Não é nenhuma executiva, e sim vive apenas desfrutando da fortuna de seu pai. E não leva nenhuma conquista à sério, só quer divertir-se com as mulheres. E eu sou mais uma que tenta enganar.

 

         Adrian a ouviu asombrada, depois envergonhada. Tudo que ela dissera era verdade. Mas Morgana também havia fingido não conhecê-la. Fizera o seu jogo, mas agora jogava suas mentiras em sua cara.

 

         -Você sabia quem eu sou! E fingiu não ter me conhecido! Por que fez isso? Queria ter o prazer de jogar a verdade na minha cara? – Perguntou, revoltada.

 

         -Eu só queria ver se você ia revelar a verdade, mas vi que você não estava pensando nisso, e sim querendo enganar-me ainda mais. Mas, tudo bem. Aceitei o jogo. Mas não espere que eu acredite em nada que você disser para mim.

 

         Adrian a segurou pelos ombros, angustiada.

 

         -Mas não estou mentindo, quando digo que estou apaixonada por você! Eu pretendia revelar meu nome verdadeiro depois que a conhecesse melhor! Eu a amo, Morgana!

 

         Ela a fitou com um sorriso irônico.

 

         -Não precisa justificar-se tanto! Eu aceitei o seu jogo, porque queria realmente fazer amor com você. Estamos quites.

 

         -Morgana, não estou enganando-a mais! Eu quero você!

 

         -Não adianta, Adrian. Você não foi sincera comigo e agora é tarde demais para tentar fazer-me acreditar em você. Foi ótimo fazer amor com você, mas acabou.

 

         Adrian empalideceu, fitando-a com incredulidade.

 

         -Você não quer continuar a ver-me? Nosso conhecimento termina aqui? Não sente nada por mim?

 

         Ela desviou o olhar, levantando-se do tapete.

 

         -Adrian, não faça drama. É melhor assim. Temos que ser sensatas. Você tem sua vida, eu tenho a minha. Quer saber um detalhe importante? Eu tenho alguém. E não vou jogar tudo para o alto por uma mulher como você. Você é uma conquistadora e não posso acreditar em você.

 

         Adrian sentiu cada palavra ferí-la profundamente. O choque do desengano era até então inédito para ela. Sempre fora ela quem descartava as amantes, sem o menor remorso, em busca de novas emoções. E agora, chegara a sua vez de passar por um abandono!

 

         -Morgana... então só sentiu por mim atração sexual? Só quis ter comigo uma experiência? – Perguntou, com mágoa na voz.

 

         Ela a fitou com um olhar indiferente, de braços cruzados.

 

         -O que esperava de mim, Adrian? Você mentiu para mim. E eu aceitei o jogo. De que se queixa?

 

         Adrian sentiu a raiva dominá-la. Morgana era fria, sem sentimentos. Só quis usá-la. Mas se achava que ia implorar, estava enganada. Tinha seu orgulho e auto-estima. Ergueu-se e a fitou com forçada indiferença.

 

         -Tudo bem. Se pensa isso de mim, não vou insistir mais. Vou tomar um banho e vestir-me. Fique tranquila, não vamos nos ver mais – Declarou, com forçada calma.

 

         Ela a fitou em silêncio. Sentou no sofá da sala e pegou um maço de cigarro na bolsa, acendendo um. Suas mãos tremiam, denunciando nervosismo.

 

         Adrian foi para o banheiro e abriu as torneiras da ducha. A água jorrou sobre ela. Ia começar a ensaboar-se quando Morgana entrou, olhando-a com uma expressão de desejo. Adrian a fitou surpresa e ficou mais ainda quando ela a agarrou, encostando o corpo no seu e beijando-a com sofreguidão.

 

         Adrian foi dominada por violenta emoção. Agarrou-a também e a possuiu no box,  arrancando gritos de prazer de Morgana . Depois, arrastaram-se para o quarto entre beijos loucos e continuaram a se amar na cama com fúria apaixonada. Morgana a mordiscava, lambia, apertava, gemendo e dizendo frases ardentes, numa loucura total, olhando-a com uma paixão que fazia Adrian emorcionar-se. Foi possuída e possuiu, com Morgana entregando-se com tanta alucinação que fez Adrian pensar que ela voltara atrás de sua decisão. Ela a queria também!

 

         Muito tempo depois, esgotadas, se entregaram a um sono profundo.

 

**************

 

         Adrian acordou quando a manhã já havia terminado há muito tempo. Passou a mão onde deveria estar o corpo de Morgana e sentiu o espaço vazio. Abriu os olhos sobressaltados e olhou para o lado. Morgana não estava.

 

         Levantou-se com um pulo e procurou-a por todo o apartamento. Não a encontrou. Arrasada, sentou na cama com ar desconsolado, contendo-se para não chorar. Ela se fora sem se despedir, sem deixar endereço ou telefone, imposibilitando qualquer contato.

 

         Olhou em volta, atordoada. Não, isso não podia ter acontecido! A única mulher que desejava com todo o seu ser, por quem se apaixonara pela primeira vez, a havia deixado sem a menor consideração!

 

         Começou a chorar, sentindo a dor da desilusão. Depois de certo tempo, a dor tranformou-se em raiva. Morgana fôra cruel, fria e calculista! Havia se entregado com loucura, mas o que fizera depois só reforçava a idéia que apenas queria satisfazer o seu fogo sexual. Havia sido usada por Morgana!

 

         Adrian levantou-se e começou a se vestir. Era inútil ficar ali. Ela não voltaria. Como fôra ingênua em pensar que ela ficaria com ela, depois de entregar-se pela segunda vez! Aquele rosto angelical escondia uma mulher fria e calculista!

 

         Jurou nunca mais gostar de alguém. Havia sido uma dura lição. As mulheres não prestavam! Eram todas umas putas, enganadoras e sem sentimentos, pensou revoltada. Pois seria ainda mais fria e as usaria sem o menor remorso!

 

         A revolta explodia em seu peito. Tinha vontade de agredir alguém, para desabafar aquela dor e ira que a dominava.  Mas sabia que isso não adiantaria nada. Não acabaria aquela dor de ter sido usada e abandonada. Não afogaria aquela mágoa de ter sido desacreditada do amor que sentia. O melhor a fazer era ir para sua casa e tentar esquecer aquela dolorosa experiência.

 

 

Continua na parte 2

 

 

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