Nunca Ame Uma

ASSASSINA

 

Parte 6 

 

Somente viu Dale na hora da saída. Estava batendo o ponto, quando ela se aproximou pelo corredor e chamou-a.

 

Jessie parou e olhou-a, embaraçada. Os outros funcionários as olharam curiosos. Não sabiam ainda que elas eram amigas.

 

        -Sim, srta. Benson?

 

        Dale lhe sorriu, indiferente aos olhares.

 

        -Espere, vou dar a você uma carona em meu carro.

 

        -É muito gentil, srta. Benson – disse alto, fazendo questão que os outros ouvissem seu tratamento cerimonioso.

 

        Pegaram o elevador com os demais. Dale a olhava com ar amistoso. Jessie ficou séria, percebendo os olhares curiosos.

 

        Já na rua, ela olhou-a, rindo baixinho.

 

        -Achei tão engraçado você tratar-me com cerimônia! Não precisa mais disso, Jessie. Meu pai já sabe que é minha amiga. E os demais, não me importa o que pensem.

 

        -Mas eu me importo. Não quero que pensem que usufruo favores porque a conheço. E é verdade que não tenho isso. Nunca lhe pedi nada em meu emprego – Rebateu Jessie.

 

        Dale foi até o edifício-garagem e pegou seu carro, saindo com Jessie. Olhou-a então de relance, séria.

 

        -O que Lana queria com você?

 

        Jessie já esperava a pergunta. Respondeu prontamente:

 

        -Um livro para pesquisar.

 

        -Qual?

 

        -“A vida na prisão”, de Preston.

 

        -Ah... e não disse mais nada, depois que saí?

 

        -Não.

 

        -Jessie, não está escondendo-me nada, não?

 

        Jessie a fitou com falsa surpresa.

 

        -Eu? Esconder algo de você? Por que faria isso?

 

        -Lana não me engana... ela está interessada em você.

 

        -Por que acha isso?

 

        -Não sei. Farejo isso no ar.

 

        -Você está louca! – Riu, esforçando-se para ser natural – Lana mal fala comigo!

 

        -Hum... é bom que eu esteja errada, ou ela vai se dar mal.

 

        Jessie a olhou com tensão.

 

        -O que faria?

 

        -Nada... vamos mudar de assunto. Fale-me com quem estava, antes de começar sua relação comigo.

 

        -Ninguém importante. Uma garçonete de um bar.

 

        Ela a olhou vivamente.

 

        -Onde a conheceu?

 

        Jessie contou tudo. Ela a ouvia em silêncio, mas contraía as mãos no volante do carro. Quando acabou, ela comentou, com visível ciúme:

 

        -Que mulherzinha baixa! Então, foi ela quem a unhou...

 

        Jessie riu.

 

        -Foi, ela era uma gata brava e não perdoou a traição!

 

        -Você gostava de fazer sexo com ela, não?

 

        -Não era mau...

 

        -Você a amou?

 

        -Claro que não.

 

        -Mas ela ficou apaixonada por você...

 

        -É... parece...

 

        -Tem saudades dela?

 

        -Saudades? Não.

 

        -Sente raiva dela, agora?

       

        -Raiva? Não. Para ser franca, nem lembrava dela.

        -Mas ela a agrediu e insultou.

 

        -Foi uma reação normal, coitada. Tenho pena dela. E não esqueço que ajudou-me e me tratou com carinho.

 

        -Ah, Jessie! Como pode ter pena dessa piranha?

 

        Jessie a olhou surpresa. Dale falou com desprezo e raiva.

 

        -Dale! Não diga isso! Mary é apenas uma mulher só, que trabalha duramente para sobreviver!

 

        Dale a olhou com os olhos cheios de ciúmes.

 

        -Você a defende! Uma vagabunda que a expulsou!

 

        Jessie ficou chocada com a inesperada agressividade de Dale.

 

        -Dale! Por que essa raiva de Mary? Ela não lhe fez nada, nem a conhece! Pare com isso!

 

        Dale parou o carro no acostamento. Voltou-se para ela e a abraçou apertadamente, procurando sua boca. Beijou-a sofregamente, sugando sua língua. Afastou-se e a olhou. A ira havia passado. Agora seu olhar era ansioso, cheio de amor.

 

        -Jessie, odeio saber que outra mulher a beijou, que você a possuiu! Morro de ciúmes! Ela pode procurá-la, ainda!

 

        Jessie a olhou surpresa.

 

        -Dale, você está aí se martirizando com meu passado, que não nos afeta mais! Isso é algo neurótico! Pare com isso, não suporto ciúmes doentios!

 

        Ela a olhou suplicante. Pareceu cair em si.

 

        -Está bem, amor... tem razão... não vou mais fazer isso. Prometo... – Disse, apaziguadora.

 

        -Vamos mudar de assunto, Dale.

 

        Ela saiu do acostamento e voltou à pista. Olhou para Jessie com um sorriso forçado, dominando seu mau humor.

 

        -Vamos lá para minha casa de campo?

 

        -Não. É muito longe e amanhã tenho que acordar cedo. Aliás, como farei para ir até o rancho de Benson?

        -Virei buscá-la amanhã. Você vai gostar, Jessie. O rancho é enorme, poderemos andar à cavalo, há inúmeros lugares onde poderemos nos amar.

 

        -Espero é não ter muito contato com seu pai.

 

        -Lana irá também.

 

        Jessie olhou-a com naturalidade.

 

        -Lana Kincayd me é indiferente.

 

        Dale sorriu. Parecia agora bem humorada.

 

        -Espero que sim! Ah, você vai gostar!

 

        Dale penetrou em uma viela estreita e Jessie a olhou sem entender.

 

        -Onde está indo?

 

        Ela sorriu, sem olhá-la.

 

        -Essa estrada vai até um local ideal para namorarmos um pouco.

 

        Jessie olhou-a com o cenho franzido.

 

        -Namorar? Agora?

 

        -Por que não? – perguntou, olhando-a – Não quer?

 

        -Não acha que estamos cansadas do trabalho, precisando descansar?

 

        Dale continuou sorrindo, agora com malícia.

 

        -Não estamos  tão cansadas assim. Acha que vou conseguir dormir sem matar essa fome que estou de sua boca?

 

        Jessie calou-se. Não podia colocar suspeitas na cabeça de Dale que não estava sentindo o mesmo desejo que ela. Estava com raiva dela. Dale decidia tudo sem consultá-la! Aquele fim de semana, o momento para namorar...

        Olhou-a . A raiva amenizou. Ela era tão linda, tão desejável! Ficava confusa com seus próprios sentimentos. Agora já estava querendo, ao contrário de um minuto atrás.

 

        Dale estacionou embaixo de uma árvore frondosa, perto de um bosque. Desligou o carro e voltou-se para ela. Seu olhar estava cheio de desejo.

 

        -Jessie... beije-me, que estou louca por isso... – sussurrou.

 

        Jessie abraçou-a . Dale grudou em sua boca, mordiscando-a entre gemidos, as mãos apertando seu rosto.

 

        Jessie desabotoou a blusa dela, apertou os seios, sugou-os com ímpeto sedento. Dale agora gemia alucinada, enterrando os dedos em seus cabelos.Ela apertou um botão e o encosto do banco ficou quase na horizontal. Jessie viu-a erguer as pernas e enlaçar seu corpo, olhando-a com loucura.

 

        -Venha... venha para mim...

 

        Jessie, com esforço, afastou-se um pouco e introduziu a mão dentro da calcinha de Dale. Ela já estava molhada de exitação. Forçou os dedos, alisando o ponto do prazer, fazendo-a estremecer e apertou-a com as mãos. Avançou mais, penetrando-a . Dale puxou-a contra si, gemendo alto, os olhos fechados. A boca alcançou a sua, alucinada. Beijou-a sofregamente, quase mordendo-a,  o corpo mexendo à procura do prazer.

 

        Momentos depois Dale retezou-se, gozando entre gritos abafados pelos beijos de Jessie. Mas não a soltou. As pernas envolveram Jessie, apertando-a mais.

 

        Jessie afastou-se e a fitou no rosto. Excitou-se.Ela era linda, com aquela expressão de desejo.

 

        -Abra as pernas... – Pediu, com voz rouca.

 

        Dale abriu, atendendo-a.  Jessie  puxou a calcinha com  um arranco,  rasgando-a . Colocou as coxas de Dale em seus ombros e começou a sugá-la, fazendo-a gritar de prazer..

 

        Dale gozou mais duas vezes, até Jessie afastar-se. Ela abriu os olhos e sorriu-lhe, alisando seu rosto.

        -Que prazer maravilhoso me deu, amor... não quer também sentir o mesmo?

 

        Jessie sorriu. Estava excitada, mas conteve-se.

 

        -Não. Amanhã, está bem? Estou morrendo de calor. Estou ansiosa por um banho.

 

        Dale recompôs-se. Beijou-a e ligou o carro.

 

        -Amanhã será sua vez. Vou matá-la de prazer, ouviu? Não me escapará – disse sorrindo, alisando seu rosto.

 

        Dale deixou-a na porta de casa e seguiu. Jessie suspirou, cansada. Dale, com aquele rostinho ingênuo, era uma devoradora!

 

 

XXXXXXXXXXXXXXX

 

 

        Lana deu uma longa tragada no cigarro e olhou para o teto, pensativa. Benson estava para chegar e isso não a entusiasmava.

 

        Não estava feliz em sua vida, faltava algo que a arrebatasse, que a fizesse vibrar. Sua vida transcorria monótona, Benson já a estava entediando. Como se prendera à ele? Três anos juntos, noivos, mas ela não tinha vontade de ir avante com a concretização do casamento.

 

        Lembrou que se sentira grata quando ele a orientara quando acontecera a tragédia, como havia sido fora gentil, apanhando-a em casa, levando-a para vários lugares para distraí-la. Quando havia ido para New York morar com os tios, ele sempre a visitava com mil pretextos. Com o tempo, se distanciaram, ela teve vários namorados, até que com vinte e cinco anos resolveu voltar para Carson City. Entregou seus negócios para Benson administrar e isso os reaproximou. Ele continuava gentil e charmoso, e agora era divorciado. Começaram um caso que dera em noivado com o tempo, por insistência dele.

 

        Mais uma vez o rosto de Jessie Berlot veio à sua mente. Aqueles olhos diabólicos, azuis e profundos, aqueles lábios polpudos e vermelhos, atrevidos, que a haviam beijado...

 

        Maldita Jessie! Como conseguira se apoderar de seu pensamento? Tinha vontade de bater naquele rosto atrevido, diabolicamente lindo, ela iria acabar enlouquecendo-a, contagiando-a com sua loucura! Se já não estava...

 

        Aquele despeito que sentia por Jessie estar envolvida com Dale não era normal. A raiva de Jessie, uma inquietação, será que era ciúme? Não, não era possível! Ela, com ciúmes de uma mulher?

 

        Ergueu-se e andou pelo quarto, inquieta. Olhou-se no espelho. Sabia que era bonita e atraente. Os homens sempre lhe diziam isso, o espelho também. Será que Jessie a achava mais atraente que Dale?

 

        Claro que era! Dale era uma garota, ela era uma mulher feita! Mas... e se Jessie preferia o tipo de Dale? Não... ela estava com Dale, mas a pegara na biblioteca e a beijara com paixão!

 

        Sentiu um tremor percorrê-la. Estava controlando aquele desejo que a atormentava há dias, de entregar-se a Jessie.

 

        Esmagou o cigarro no cinzeiro, como se esmagasse o que sentia. Tornou a deitar-se.

 

        Jessie. Ela a desejava. O beijo dela lhe mostrara isso. Ah, tinha que resistir! Ela era uma safada, queria todas mulheres bonitas que a rodeavam. Ia mostrar à ela que não era idiota, que não se deixava vencer, como Dale.

 

        O desejo cresceu, ao pensar nela. Como fizera em outras vezes, masturbou-se pensando no beijo que Jessie lhe dera. O êxtase veio rápido, como uma onda. Mordeu os lábios, mas o gemido escapou , baixinho:

 

        -Jessie!

       

 

XXXXXXXXXXXXXXXXXX

               

Mary ouviu o toque da campainha. Largou a lata de cerveja em cima da pia e foi atender. Olhou pelo olho mágico. Não conhecia a mulher.

 

        Abriu a porta com cara fechada.

 

        -Escute, se veio vender alguma coisa, pode ir dando o fora, que não quero comprar nada!

 

        A moça sorriu. De capa marron, luvas, não tinha nenhuma maleta de vendedora.

 

        -Não quero vender nada. Quero falar com Mary.

 

        -Eu sou Mary. O que deseja? Não posso conversar muito, estou fazendo meu jantar.

 

        -Prazer, Mary. Vim lhe trazer uma encomenda de Jessie Berlot.

 

        Mary a olhou vivamente interessada.

 

        -É conhecida de Jessie? Como está ela?

 

        -Posso entrar?

 

        A moça sorria com simpatia. Mary escancarou a porta.

 

        -Entre.

 

        Ela pasou por Mary, exalando um perfume caro.

 

        Mary voltou-se, depois fechou a porta e a olhou com atenção. Ela a olhava de cima à baixo.

 

        -Bom, que encomenda ela mandou para mim? Por que não veio pessoalmente?

 

        -Ela achou melhor eu vir.

 

        -Quem é você?

 

        -Uma amiga de Jessie.

 

        Mary a contemplou com sarcasmo.

 

        -Amiga de Jessie! Como ela fez amizade rápido! Quando saiu da prisão, não tinha nenhuma amiga. Mas, dê-me a encomenda. Não tenho muito tempo.

 

        A moça tirou um cheque do bolso da capa e o mostrou a Mary, mas não o entregou. Em seus olhos agora havia desprezo.

 

        -Está em branco. Quanto quer para sumir da cidade?

 

        Mary ficou surpresa e contrariada. Olhou-a agressivamente.

 

        -Que diabo está me dizendo?!

 

        A moça ergueu o queixo. A voz saiu fria:

 

        -É isso. Jessie enviou-me para lhe fazer uma proposta. Dar-lhe dinheiro para sair da cidade e não voltar mais.

 

        -Jessie fez isso?! Ora, por quê? Nunca mais a vi! Por que quer que eu saia da cidade?

 

        -Não faça perguntas e aceite a proposta. Só tem a ganhar. Sairá daqui com dinheiro para recomeçar a vida tranquilamente. Vinte mil dólares está bom, para isso?

 

        Os olhos de Mary se estreitaram. A maldita granfina estava mentindo. Jessie jamais faria aquilo.

 

        -Escute, pensa que sou idiota? Vai me dar vinte mil dólares assim, à toa? Jessie nem tem esse dinheiro todo! Você é quem inventou isso. Deve ser uma armadilha! O que quer de mim? Desembuche logo!

 

        -Não é armadilha. Você vai embora daqui e leva o dinheiro. Simples.

 

        -Simples, uma ova! Ninguém dá dinheiro assim, sem motivo! É melhor me contar o seu plano, granfina metida! Não deve ser amiga de Jessie coisa nenhuma!

 

        -Está bem, vou falar claro: quero que saia da cidade e não procure Jessie nunca mais! Para isso, estou pagando.

 

        -Ah! Revelou-se! É a nova amante daquela vagabunda?

 

        Um brilho de ira luziu nos olhos da moça.

 

        -Jessie não é uma vagabunda! Vagabunda é você, sua cadela!

 

        -Ah! Vem na minha casa com uma proposta suja e eu que sou cadela! Aposto que Jessie não sabe do que fêz! Pois vou contar a ela sua proposta! Ela vai saber o que quis fazer!

 

        O rosto da moça empalideceu. Depois, transformou-se numa máscara de raiva.

 

        -Você não vai fazer isso, cadela!

 

        Mary olhou-a agressivamente, aproximando-se. Deu uma bofetada na moça, que tropeçou e cambaleou para trás, quase caindo.

 

        -Isso é para aprender a não insultar as pessoas decentes, sua vaca! – disse Mary, entredentes – E vai levar uma surra que nunca esquecerá!

 

        O rosto da moça agora estava vermelho de cólera. Ela meteu a mão no bolso da capa e tirou-a com uma pistola, apontando-a para Mary.

 

        -Você não vai fazernada, sua vagabunda...

 

        Mary recuou, os olhos arregalados.

 

        -Que é isso, moça! Baixe essa arma...

 

        A arma detonou. O tiro atingiu Mary no peito e ela caiu para trás com um grito abafado.

 

        A moça avançou e atirou mais duas vezes, acertando no rosto. Mary agora era apenas um corpo sem vida, caída no chão numa poça de sangue.

 

        A moça guardou a arma no bolso, olhando em volta, calmamente. Rodeou o corpo, alcançou a porta e saiu, fechando-a atrás de si.

 

 

XXXXXXXXXXXXXXXXXXX

   

 

 

        Jessie acordou contrariada. Aquela estória de ir passar o fim de semana com Benson e Lana não a agradava nem um pouco. Mas tinha que ir. Benson consideraria uma afronta a recusa do pedido dele. E Dale armara aquilo!

 

        De mau humor, tomou banho e vestiu-se. Colocou algumas peças de roupa na sua velha mochila, seu perfume e escova de dentes.

 

        Desceu e encontrou Jocelyn fritando ovos na cozinha. Ela lhe sorriu.

 

        -Bom dia, Jocelyn.

 

        -Bom dia! Sente-se, já estou acabando de fritar os ovos!

 

        Jessie sentou-se e colocou a mochila numa cadeira.

 

        Jocelyn colocou os ovos em um prato e aproximou-se, sentando diante dela.

 

        -Não a vi chegar ontem. Fui dormir cedo, estava com muita dor de cabeça – disse Jocelyn, servindo-a.

 

        -Eu cheguei e não quis acordá-la. Comi um sanduíche e fui dormir.

 

        -Oh, seu jantar estava no micoondas!

 

        -Não estava com muita fome.

 

        -Mas agora coma direitinho, minha filha.

 

        -Jocelyn, vou passar o fim de semana fora. Benson convidou-me e tenho que ir. Dale Benson virá buscar-me daqui a instantes.

 

        Jodelyn a olhou surpresa e risonha.

 

        -Jessie, então está muito amiga de Dale! Isso é ótimo! Ela é uma moça de classe, Jessie. Frequenta a alta sociedade local, tem amigos em vários estados do país. Poderá lhe apresentar um rapaz fino para você namorar.

 

        Jessie sorriu. Pobre Jocelyn! Como estava enganada com ela!

 

        Concentrou-se no desjejum, comendo ovos com torradas, o mingal de aveia, saboreou o café bem feito de Jocelyn, pensando que na casa de Benson não teria muito apetite.

 

        A busina do carro de Dale tocou insistentemente.

 

        Jessie ergueu-se sem pressa e pegou a mochila.

 

        -Bom fim de semana, Jessie. Aproveite bem.

 

        -Eu lhe telefonarei para saber se está bem, Jocelyn.

 

        -Ah, não precisa! Não se preocupe comigo, estou acostumada a ficar só. Vá, Dale está esperando-a!

 

        -Tchau, Jocelyn. Vou telefonar.

 

        Saiu da casa e avistou o carro de Dale, com ela debruçada na janela, olhando para a porta com ar ansioso. Ao vê-la sair, sorriu.

 

        -Vamos! Não fique parada aí , Jessie! – Gritou.

 

        Jessie aproximou-se, abriu a porta e sentou ao lado dela. Dale olhou-a sorrindo, mas Jessie achou o sorriso um tanto artificial. Os olhos estavam sombrios.

 

        -O que houve Dale? Está com uma expressão preocupada...

 

        Ela de partida no carro.

 

        -Nada, só probleminhas meus – disse, com firmeza.

 

        -Que tipo de problemas? Com seu pai?

 

        -Não.

 

        Jessie não insistiu mais. Não estava com vontade de esquentar mais ainda a cabeça. Já estava de mau humor e não queria ficar com mais ainda.

 

        -Está mau humorada porque vai para o rancho de meu pai? – Perguntou Dale, sem fitá-la.

 

        -O que você acha? – Respondeu Jessie, secamente.

 

        -Ok, não vou perguntar mais nada. Achei que iria gostar de ficar comigo, mas me enganei.

 

        Jessie sentiu o sangue fluir ao seu rosto. Olhou-a com ar aborrecido e falou com brusquidão:

 

        -Ouça, Dale! Você não me consultou em nada do que fez, não quis saber se eu gostaria ou não de estar sob o mesmo teto que Benson e Lana, só se preocupou com o que queria! Então, não se queixe!

 

        -Está bem, enganei-me! Mas você devia pensar que fiz isso pensando no melhor para você.

 

        -Pois enganou-se!

 

        Dale calou-se. Rodou vários quilômetros em silêncio. Jessie ficou olhando para a paisagem, esperando seu humor amenizar.

 

        Com mil demônios! Ia ser um inferno, aquele fim de semana. Ver Lana com Benson, aturar aquele homem antipático, que provavelmente a trataria com frieza. E Dale queria que estivesse de bom humor!

 

        -Jessie... vai ficar assim comigo, o dia inteiro?

 

        Jessie olhou-a. Dale tinha lágrimas nos olhos.

 

        Jessie suspirou. Pousou a mão sobre a dela, procurando mostrar-se menos zangada. Sua doce Dale...

 

        -Não. Já estou melhor de humor. Mas, dê-me tempo para isso passar.

 

        -Está bem... o tempo que quiser, amor.

 

        -Falta muito tempo para chegarmos?

 

        -Meia hora.

 

        Exatamente como Dale disse, meia hora depois chegaram ao rancho.

 

Circundada por muitas árvores, uma enorme casa de madeira e pedra incrustava-se entre duas colinas. Na frente, um vasto gramado com piscina, um bar, churrasqueira e cadeiras guardadas por parasóis.

 

Dale estacionou diante da casa e saltaram do carro.Dois empregados vieram ao encontro delas, com sorrisos nos lábios.

 

-Bom dia, miss Benson!

 

        -Bom dia, Bess ! – Disse Dale, para uma mulher magra que pegou sua maleta – Papai já chegou?

 

        -Já, está com miss Kincayd na sala de estar.

 

        O outro criado pegou a mochila de Jessie, olhando-a como se fosse um traste inútil.

 

        Dale avançou, voltando-se para Jessie:

 

        -Venha, vamos até eles.

 

        Jessie a seguiu com o rosto tenso.Ver Benson e Lana não a agradava nem um pouco. Os dois eram dignos um do outro, esnobes e arrogantes.

 

        Entraram na casa. Era decorada com muito bom gosto, os móveis de couro e mogno, o chão atapetado de peles, as paredes de madeira envernizada, com quadros de cenas campestres.

 

        Atravessaram o hall de entrada e entraram em um living imenso. Benson estava sentado com Lana em um sofá, com um copo de uísque na mão. Ele se ergueu ao vê-las entrar.

 

        Jessie olhou-o com atenção. Benson estava bem, de casaco de camurça e calça rancheira, completando o lay-out de fazendeiro com camisa xadrez e botas de cano longo.

 

        -Dale, demorou um pouco... – disse, beijando-a na testa – Acordou tarde, não é?

 

        -Sim, papai, estava cansada. Estudei um livro ontem.

 

        Ele olhou para Jessie e estendeu a mão com um sorriso gentil.

 

        -Como vai, Jessie? Gostou do lugar?

 

        Jessie apertou a mão dele com hesitação. Era mesmo um ator nato. Parecia apreciar sua vinda.

 

        -Acho uma casa muito linda, em um lugar previlegiado, Dr. Benson – Respondeu, formalmente.

 

        Ele riu, soltando sua mão.

 

        -Nada de doutor, aqui sou apenas Benson, Jessie. É amiga de minha filha e não precisa usar de cerimônia aqui.

 

        Ele voltou-se, indicando Lana com um gesto.

 

        -Espero que aprecie nossa companhia, não é, Lana?

 

        Lana olhou para Jessie com ar formal. Não sorriu.

 

        -Seja bem-vinda, Jessie. Faço minhas as palavras de meu noivo.

 

        Jessie a fitou com indiferença proposital. Iria mostrar à Lana que não estava ali para bajulá-la.

 

Obrigada pelas palavras gentis, miss Kincayd.

 

        Ela desviou o olhar, fingindo interessar-se por seu copo. Depois olhou para Dale, que as observava com atenção.

 

        -Dale querida, leve sua amiga até o quarto reservado para ela. Deve querer trocar de roupa, está muito calor. – disse, com uma leve ironia.

 

        Dale puxou Jessie pelo braço.

 

        -Certo, venha Jessie.

 

        Jessie a acompanhou, saindo do living.

 

        Benson sentou ao lado de Lana, com um olhar contrariado.

 

        -Maldição! Ter que aturar essa mulher dentro de minha casa! – Resmungou – Com tanta gente decente, Dale foi fazer amizade com uma assassina!

 

        Lana o olhou calmamente, tomando um gole de sua bebida.

 

        -Já lhe contei que Jessie não matou o pai. Foi a mãe dela. Assumiu a culpa para proteger a mãe.

 

        -Isso é o que ela diz! Quis impressionar você, se passando por heroína! Mas não acredito no que ela diz.

 

        Lana franziu o cenho.

 

        -Acho que ela disse a verdade, Benson. O desespero dela era autêntico, confessando-me. Não gosto dela, mas acreditei em sua inocência.

 

        -Ora, ela finge bem. E sendo ou não uma assasina, não a suporto! Por mim, já a teria despedido. É uma mulher presunçosa, que não conhece seu lugar! Fica com aquele ar superior, convivendo com Dale, em minha casa!

 

        -Você quem a convidou, Benson. Agora, não adianta reclamar. O melhor que tem a fazer é tratá-la cordialmente. Dale está muito amiga dela e ficará com raiva de você se tratá-la mal. Eu também não a suporto, mas tenho que esconder esse fato e sorrir para ela!

        -Você quem me fez aceitá-la no trabalho! Isso que não entendo! Se não gosta dela, por que pediu-me para contratá-la?

 

        -Ela poderá nos ser útil, Benson.

 

        Ele a olhou surpreso.

 

        -Útil ?! Em quê ?

 

        -Estou com um plano.

 

        -Que plano?

 

        -Calma, depois lhe direi. Chega de falar em Jessie, por hora. Relaxe, Benson !

 

        Benson a abraçou, fitando-a nos olhos.

 

        -Droga, tenho que aturá-la até aqui! Mas tem razão, querida... vamos esquecer essa mulher.

 

        Ele debruçou para ela e beijou-a.

 

        Lana recebeu o beijo passivamente, quase sem retribuir. Ultimamente, não sentia nada com o toque de Benson. Havia dormido com ele na noite passada, fizera sexo de várias formas, mas não conseguira ter o menor orgasmo. Isso a enfurecia e desesperava. Por que só em pensar em Jessie sentia-se exitada, enquanto com Benson não sentia mais prazer numa cama? E quando vira Jessie chegar com Dale, por que sentira tanto ciúme e uma vontade de agredí-las, sentindo algo como se Jessie a estivesse traindo? Como podia sentir-se assim, se não tinha nada com ela ?

 

        A conclusão abateu sobre ela: estava louca por Jessie, abjetamente apaixonada!

 

        Essa verdade chocou-a . Não queria isso, lutara contra, mas acontecera. E agora, o que faria? Iria disputá-la com Dale, ou continuaria a resistir à paixão que a consumia, tratando Jessie com frieza?

 

        Benson afastou-se, olhando-a contrariado.

 

        -Que frieza, Lana! Um cadáver sentiria mais que você meu beijo!

 

        Lana ergueu-se com irritação.

 

        -Deixe de ser bobo! Estou nervosa com essa situação! Vou subir e descansar um pouco.

 

        E sem esperar resposta, subiu para seu quarto. Passou perto da porta do quarto destinado a Jessie e não resistiu. Colou o ouvido na porta, escutando.

 

        -Vai ficar com essa cara de mau humor?- Ouviu a voz de Dale dizer, queixosa – Não vai beijar-me nem uma vez?

 

        Jessie respondeu com voz irritada:

 

        -Não estou com vontade de romancinho, Dale! Porque não vai se juntar ao seu pomposo pai e à insuportável Lana Kincayd?

 

        Lana empalideceu, decepcionada. Era isso que Jessie pensava dela? Falsa, falava mal dela e a cantava!

 

        -Acho que você fala mal de Lana para disfarçar! – Respondeu Dale, com voz irônica – Vi como a olhou, quando chegou. E agora, está aí fria e mau humorada! É porque está com ciúmes de Lana?

        -Não seja idiota! – Contestou Jessie, com voz alterada – Lana Kincayd me atrai tanto quanto uma boneca inflável!

 

        Lana não quis ouvir mais. Afastou-se decepcionada e com raiva, uma raiva quase irracional. Abriu a porta do seu quarto e entrou. Jogou-se na cama e desatou em um pranto revoltado, querendo vingar-se de Jessie por aquelas palavras.

 

        -Jessie, você vai engolir tudo que disse de mim! – sussurrou, parando de chorar. Um plano se formou em sua mente e ela sorriu. Era perfeito! Por que não havia pensado nisso antes?

 

 

 

Continua na parte 7

 

 

 

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