Nunca Ame Uma
PARTE 5
A fazenda estava
praticamente em ruínas. O mato crescia em volta, as cêrcas estavam apodrecidas
e a casa principal estava quase desabando.Só em chegar e saltar do carro,
Jessie pôde observar esses detalhes com consternação. Dale, ao seu lado, olhou
a paisagem desolada e voltou os olhos para Jessie, vendo sua reação.
-Há muita coisa a melhorar, não é ? –
Perguntou, suavemente.
Jessie a fitou. Seus olhos estavam
tristes.
-Tudo está em ruínas ! Muito pior do que
pensei!
-Mas tudo pode ser recuperado.
Jessie abaixou-se e pegou um punhado de
terra na mão e olhou-a . O barro vermelho estava seco pelo sol. Há muitos anos
a terra não era arada. Jogou-o no chão, olhando para a casa onde passara a
infância e adolescência.
-Vamos entrar na casa. Quero ver como
está.
Aproximaram-se, andando lentamente no
sol quente.
-Alto lá !
Dale e Jessie voltaram-se assustadas.
Jessie viu um homem esfarrapado, de
longa barba grisalha, apontando para elas um velho rifle.
-Estão invadindo uma propriedade
particular ! – gritou ele, com voz roufenha – Vão dando o fora logo !
Jessie contemplou aqueles olhos azuis, o
rosto enrugado, o corpo atarracado e sorriu.
-Bafly ! Não me reconhece ?
Ele a olhou atentamente. Um sorriso
surgiu em seu rosto castigado pelo sol.
-A pequena Jessie ? É você mesmo ?
-Eu mesmo, Bafly ! Abaixe essa arma,
homem !
Ele deu uma risada e abaixou a arma,
pousando-a no chão. Aproximou-se com a mão estendida.
-Ora, ora ! A garota cresceu muito, está
uma mulher !
Jessie apertou a mão dele, olhando-o
rindo. Bafly trabalhava na fazenda desde que sua mãe se casara. Era um homem
rude e beberrão, mas trabalhava duramente sem reclamar do baixo salário e
Jessie lhe devia o fato de ter lido bons livros em sua adolescência: ele quem
lhe mostrara o baú abandonado no celeiro cheio de livros. O seu pai o havia
mandado queimar, mas ele o escondera, achando o ordem absurda. Sempre havia
sido reservado, mas com ela ele se
descontraía e contava estórias. Ele quem a
ensinara a montar cavalos e a manejar o velho trator da fazenda.
-Bafly, você está ainda nesse lugar, sem
trabalho ? Por que não foi trabalhar em outra fazenda, homem ? – Jessie
perguntou, fitando-o sorrindo.
-Eu fiquei tomando conta das terras,
menina. Você não imagina quanta gente tentou se apossar disso aqui nesses
anos... mas eu os afugentei com o meu rifle. Eu sabia que um dia você ia
voltar. E fiquei esperando, tomando conta de suas terras.
Os olhos de Jessie encheram-se de
lágrimas. Não esperava aquilo. A lealdade de Bafly demonstrava o carinho que
ele tinha por ela.
-Bafly... – disse, com voz embargada de
emoção – Se eu tivesse tido um pai como você, nada teria acontecido.
Ele olhou-a desajeitado. Não sabia
expressar suas emoções.
-Hum... obrigado menina. Mas fiz o que
pude. As terras estão aí, para você. Mas a fazenda está caindo aos pedaços.
Falta material para consertar tudo, o trator quebrou e enferrujou...
-Iremos ver tudo isso, Bafly. Esta é
Dale Benson, ela vai nos ajudar a recuperar a fazenda.
Bafly apertou a mão de Dale, olhando-a
curioso.
-Prazer, dona. Não querem tomar um café ?
Dale riu, passando a mão no rosto.
-Com esse calor, prefiro um copo de água.
-Ah, tenho água boa do poço ! – Sorriu
Bafly – Venham, vamos sair desse sol .
Jessie e Dale o seguiram. Entraram na
casa. Por dentro, estava pior ainda. O assoalho com tábuas soltas, poeira para
todos os lados, os móveis de madeira rústica em mau estado. O único lugar mais
habitável era a cozinha. A grande pia de pedra estava limpa, as panelas de
cobre bem areadas e o fogão de lenha estava intacto.
Bafly abriu a velha geladeira e tirou um
litro de água. Apanhou dois copos na pia e os encheu, entregando-os a elas.
Jessie bebeu a água e olhou para Bafly.
-Pelo menos ainda há água bastante na
fazenda, Bafly ?
-Ah, isso não falta ! O rio que passa na
fazenda está sempre com bom volume de água. E tem poço. Sabe que as terras são
boas, Jessie. Só precisam de trato. Infelizmente eu não dou conta do trabalho,
essas terras precisam de mais gente para cuidar delas.
-Muito bem. Viemos olhar toda a fazenda
e anotar o que precisa ser feito, os recursos que tem de água, o material necessário
para recuperá-la. Você nos ajudaria nisso, Bafly ?
-Claro ! E vou dar sugestões também !
-Então, vamos. Não quero perder tempo.
Vistoriaram a fazenda de ponta a ponta.
Dale tirou um noteboock do carro e passou a registrar tudo que Jessie e Bafly
inspecionavam, fazendo uma relação das obras de recuperação.
Foi um trabalho cansativo sob o sol
quente, mas Dale não se queixou em nenhum momento.
Interromperam o trabalho somente para
comer sanduíches que Dale havia levado com refrigerantes em uma caixa térmica.
Somente no final da tarde se despediram de Bafly e regressaram. Jessie prometeu
ao velho amigo que em uma semana voltaria para informá-lo sobre o que poderia
fazer pela recuperação da fazenda.Empoeiradas e suadas, chegaram na casa de Jessie.
Dale insistira para Jessie passar a
noite com ela em sua casa, mas Jessie achara melhor voltar para sua casa. Além
de ser perigoso, pois Benson poderia procurar Dale lá, ela tinha que trocar de
roupa para ir trabalhar no dia seguinte.Na porta da casa, Jessie olhou para
Dale, agradecida.
-Muito obrigada, Dale. Você foi
maravilhosa. Perdeu seu dia de descanso ajudando-me.
Dale sorriu, segurando sua mão e
apertando-a.
-Você irá pagar-me por esse trabalho
depois. Com muito amor e prazer.
Jessie riu, olhando para a boca vermelha
de Dale.
-Pagarei tudo, com imenso prazer, garota.
-Ótimo... amanhã falarei com um
construtor e veremos por quanto ficarão as reformas. Até amanhã, amor.
Inclinou-se para ela e beijou-a
impetuosamente na boca. Jessie desprendeu-se, preocupada com Jocelyn. Ela
poderia aparecer e seria vergonhoso se ela as visse.Dale olhou-a com desejo.
-Deixe eu entrar um pouco... só por
momentos...
-Jocelyn vai estranhar a filha de Benson
estar comigo. Pode comentar com Judy.
-Judy é muito discreta. Não falará para
ninguém, tenho certeza.
-Mas, como vou explicar minha amizade
com você ?
-Ora, nós trabalhamos juntas, Jessie !
-Dale... não acho bom isso...
-Não seja boba, Jessie. Vou entrar.
Quero ver onde dorme, a casa que mora.
Dale saltou do carro e Jessie a imitou,
contrariada. Mas não disse mais nada. Não queria discutir com Dale. Entraram na
casa e Jocelyn as olhou, sentada na sala vendo tv.
-Boa tarde! – disse Dale, sorrindo.
Jocelyn ergueu-se surpresa.
-Boa tarde ! Jessie, por que não me
avisou que teríamos visita para o jantar ?
-Ela resolveu entrar sem eu esperar, Jocelyn. Esta é Dale Benson.
Jocelyn olhou para Dale, impressionada.
-Oh! Muito prazer, miss Benson...
Dale apertou a mão de Jocelyn,
sorridente.
-Prazer, Jocelyn. Jessie a adora, pelo
que sei.
Jocelyn sorriu, radiante.
-É recíproco, miss Benson. Mas, estou
honrada com a visita, esteja à vontade.
-Chame-me simplesmente Dale, Jocelyn.
Nada de formalidades. Desculpe-me a invasão de sua casa, mas queria entrar um
pouco porque estou suada e com sede.
-Oh, se quiser, pode tomar um bom banho,
e vou preparar uma limonada !
-Gostaria muito, se não se importar –
Sorriu Dale.
-Claro que não ! Jessie, leve a garota
até o seu quarto, para ver se tem uma roupa para ela ! Vou fazer a limonada. E
está intimada a jantar conosco!
Dale riu, vendo Jocelyn ir apressada
para a cozinha. Olhou para Jessie, que a olhava com ar preocupado.
-Viu como foi simples ? – Segredou – Ela
gostou de mim.
-Ela está impressionada. Uma Benson em
sua casa, é muito para uma pessoa simples como Jocelyn.
-Não vai me levar ao seu quarto ? –
Perguntou Dale, com um olhar insinuante.
-Vamos. Você já está aqui dentro,
mesmo...
Dale a seguiu, olhando em volta com
atenção. Jessie abriu a porta do quarto e ela entrou, olhando em volta com
curiosidade.
-Ah, é aqui que você dorme ! É um bom
quarto.
-Quer mesmo tomar um banho?
-Quero, Jessie. Estou morrendo de calor.
-Vou lhe emprestar uma roupa.
-Não, vestirei a mesma. Será estranho
chegar em casa com uma roupa que não é minha, não acha?
-Tem razão. Então, venha até o banheiro.
Dale a olhou com malícia.
-Por que não tomamos banho juntas?
Jessie a olhou séria. Dale não media
consequências.
-Está louca? Aqui, com Jocelyn por
perto? Não.
Dale a olhou com ar emburrado.
-Medrosa! E eu cheia de idéias...
-Guarde suas idéias para outro dia –
sorriu Jessie.
Levou-a até o banheiro. Deu-lhe uma
toalha e saiu. Voltou para o quarto, separou roupas para colocar e foi até a
cozinha. Jocelyn estava colocando gelo na jarra de limonada e olhou-a sorrindo.
-Jessie, você se tornou amiga da filha
de Benson?
-Sim ela é muito simples e comunicativa,
Jocelyn.
-Então, foi com ela que você foi ver sua
fazenda? Disse-me que ia com uma amiga.
-Sim. Ela se interessou em ajudar-me.
-Ajudá-la
como?
-Em conseguir um empréstimo para
recuperar a fazenda de minha família – mentiu, sentindo-se mal com isso.
-Ah, isso é ótimo! Muito bem, Jessie!
Precisa mesmo de amigas do quilate de Dale Benson. Pode deixar que vou ajudá-la
nisso! Dale Benson vai ser muito bem tratada aqui.
-Obrigada, Jocelyn. Na verdade, com uma
amiga como você, não preciso de outra.
-Não exagere, Jessie. Vá tomar um banho,
que está toda empoeirada e suada. O jantar já está pronto. Será que Dale vai
gostar de minha comida?
-Você é uma exelente cozinheira! Claro
que vai.
Jessie voltou ao quarto. Dale estava
olhando suas roupas, nua, e sorriu quando
Jessie entrou.
-Meu amor, precisa comprar mais roupas.
Você tem apenas cinco calças compridas e quatro blusas! Vamos providenciar isso
– Disse Dale, com voz doce.
Jessie fechou a porta e olhou para o
corpo dela, apreciativamente. Dale tinha um corpo lindo.
-Não quero mais roupas. Na fazenda, não
será necessário. As que tenho bastam.
Dale aproximou-se, com ar insinuante.
Abraçou-a, rodeando seu pescoço.
-Depois discutiremos isso. Agora,
beije-me.
Colou-se em seu corpo, apertando-se.
Jessie controlou-se para não agarrá-la e a jogar sobre a cama.
-Dale! Estou toda empoeirada,suada, e
você tomou banho!
Ela ergueu o rosto, fitando-a com desejo.
-Não ligo para esse detalhe. Adoro seu
cheiro de suor, é um cheiro selvagem, que me excita. Beije-me, sua boba...
Jessie desceu a boca, encontrando a de
Dale. Ela a beijou com ímpeto, apertando-se, as mãos puxando-a . Jessie sentiu
as mãos de Dale em seus seios, nas nádegas, a boca sugando a sua com
sofreguidão. Ela a puxou para a cama, sem se desgrudar de seu corpo. Deitou
transversalmente, as pernas abertas, pegou sua mão e levou-a ao sexo, que já
estava úmido de prazer. Jessie afastou a boca com esforço. Jocelyn podia entrar.
-Dale... aqui não... – sussurrou.
-Agora... agora... eu quero isso... –
disse, mexendo os quadris, provocando-a.
Lambeu seu rosto, seu pescoço, gemendo
baixinho. As mãos segurando-a, puxando-a contra si.
Jessie não resistiu mais. Pegou um seio
na mão, levando-o à boca. Sugou-o, lambeu, mordiscou, ouvindo Dale gemer. Ela
pediu alucinada, empurrando-a para baixo:
-Possua-me... daquele jeito... não
agüento mais...
Jessie desceu, louca para atender ao
pedido. Dale estremeceu violentamente, quando alcançou o sexo. Jessie a sugou,
meteu os dedos, empolgada com a reação de Dale. Ela remexia-se alucinada, as
mãos apertando seus ombros. Gozou em pouco tempo, apertando-se contra sua boca,
mordendo o pulso para não gritar. Jessie quis afastar-se, mas ela a segurou com
as coxas, sussurrando:
-Não... não pare...
Jessie continuou. Só depois de atingir o
êxtase mais duas vezes, ela relaxou, com os olhos fechados. Jessie ergueu-se e
a olhou, cansada.
-Agora vou tomar um banho, Dale... –
Anunciou, indo para o banheiro.
Jessie tomou um banho frio, que
refrescou seu corpo suado. Enxugou-se e voltou ao quarto. Dale já estava
vestida, esperando-a . Olhou para seu corpo nu e mordeu os lábios.
-Como você tem o corpo bonito, Jessie!
Posso... posso beijá-lo?
Jessie riu, apanhando uma calcinha na
cômoda e vestindo-a .
-Não, chega por hoje... Jocelyn vai
estranhar nossa demora – Negou, olhando-a com um sorriso malicioso.
-Quando morarmos juntas, vou acabar com
você... – sorriu ela – vamos fazer amor o dia inteiro...
-E que horas vamos trabalhar? –
Perguntou Jessie, com ar malicioso.
-Entre um trabalho e outro, vamos ter
tempo...
Jessie acabou de vestir-se rapidamente.
Penteou os cabelos molhados, perfumou-se, sob o olhar atento de Dale.
-Vamos descer, Dale. Estou faminta.
-Está bem...
O jantar transcorreu tranquilo, com
Jocelyn conversando animadamente com Dale. Jessie olhava-as com um sorriso,
percebendo que Dale havia encantado a velha senhora com sua classe e
simplicidade.
Quando Dale despediu-se, Jocelyn fez
questão de levá-la até o carro, fazendo um convite para que voltasse. Dale
acenou e partiu. Jocelyn olhou para Jessie, sorridente.
-Ela é encantadora! – Comentou Joceyn.
Jessie sorriu.
-Também acho – Disse, sinceramente.
Uma semana se passou. Dale levou para
Jessie um projeto de construção e reforma da fazenda, completo.O projeto previa
celeiro, estábulo, casa de trabalhadores, dois silos, irrigação para culturas,
uma granja moderna e reconstrução da casa principal.
Jessie olhou tudo com reservas.
-É mais do que eu quero, Dale. Pensei
apenas na reconstrução da casa principal e nas cêrcas. O resto eu vou fazer aos
poucos.
-Jessie, se vai remodelar a fazenda, tem
que fazer tudo que ela precisa.
-Mas é preciso muito dinheiro para isso!
Cem mil dólares não dará nem para a metade!
Dale sorriu-lhe.
-Hum... tenho que confessar que menti
para você. Não tenho apenas cem mil dólares no banco. Tenho também duzentos mil
dólares investidos em papéis resgatáveis a qualquer momento. Vou resgatá-los e
dinheiro não faltará.
-Dale! É muito dinheiro! Como vou lhe
pagar isso?
-Não vamos montar uma sociedade?
-Já não será mais sociedade, você será
proprietária!
-Não se preocupe. Sou advogada,
esqueceu? Vou redigir uma minuta dos termos da sociedade. Cinquenta por cento
será seu, cinquenta por cento meu. Se uma das partes resolver acabar a
sociedade, a fazenda será vendida e cada parte receberá cinquenta por cento da
venda. Com as reformas, sua fazenda valerá no mínimo cinco vezes mais. Não terá
nenhum prejuízo. Com o dinheiro, poderá comprar outra propriedade. E eu terei
meu lucro certo.
-Não sei... é muita grana em jogo...
Dale riu.
-Jessie, trezentos mil dólares não é
muito dinheiro para mim! Sabe que sou herdeira de meu pai. E a fortuna dele
está avaliada em vinte milhões de dólares!
Jessie ficou boquiaberta.
-Com mil demônios! Benson é tão rico
assim?!
-Papai é muito rico, Jessie. Só mantém
aquele escritório pelo prestígio que ele dá. E gosta do que faz. Então? Posso
mandar o construtor começar a implementar o projeto?
-Assim que fizermos a sociedade. Para
sua garantia.
-Ok, vou começar a redigir a minuta
agora! Bye, amor!
Dale saiu da biblioteca sorridente.
Jessie ficou pensativa. Dale estava
mesmo entusiasmada. Empregar tanto dinheiro na fazenda...
Pensou que isso a estava prendendo mais
à ela. Dale era esperta. Amor e negócios juntos, aprofundavam a relação delas.
E ela própria, como se sentia com isso ?
Seus pensamentos foram interrompidos
pela entrada de Judy.
-Benson mandou chamá-la.
Jessie empalideceu. Benson tomara
conhecimento de sua relação com Dale? No mínimo, ia despedí-la. Engoliu em seco.
-Ele disse o que deseja?
-Não. Só mandou chamá-la. Fique calma,
Jessie. Não deve ser nada demais. Você não fez nada errado, pelo que sei.
Engano seu, pensou Jessie, erguendo-se.
Dirigiu-se para a sala dele pensando como reagir à acusação que ele lhe
lançaria. Judy abriu a porta e ela entrou.
Benson estava em pé, com Dale ao seu
lado. Olhou-a com um olhar impenetrável. Dale piscou, sorrindo, como que
tranquilizando-a .
-Aqui estou, Dr. Benson. O que tem para
falar-me? – Perguntou, tentando demonstrar uma calma que não sentia. Sua voz
conseguiu sair firme.
Benson a olhou com ar contrariado.
-Minha filha disse-me que vocês se
tornaram amigas.
Jessie olhou para Dale com reprovação.
Ela estava louca! Tornou a olhar para Benson. Não adiantava negar, como
desejava.
-É verdade. A senhorita Benson é muito
simpática e fizemos amizade, trabalhando
juntas – justificou-se.
Ele olhou-a avaliadoramente, com a mão
no queixo.
-Hum... ela disse-me uma coisa assim.
Dale é o que mais prezo no mundo, srta. Berlot. E ela nunca teve amigas. Você é
a primeira que consegue fazer amizade com ela. Confesso que não é exatamente o
tipo de pessoa que aprovaria para ser amiga dela, mas Dale convenceu-me a não recriminar essa
amizade, pois disse que é muito só e sua companhia lhe é agradável, então...
-Papai, você prometeu que não ia
humilhar Jessie! – Protestou Dale, olhando-o vermelha de raiva – Não está
cumprindo o que prometeu!
Ele olhou para Dale com o cenho franzido.
-Preciso dizer à ela essas coisas, Dale.
Pelo passado de Jessie Berlot, tenho que alertá-la para que não pense jamais em
induzí-la a fazer algo reprovável.
-Pai, não seja preconceituoso! Jessie
não é como você acha! E se vai continuar falando bobagens, vou me retirar!
Ele olhou para Jessie, que comtemplava a
discussão com ar tenso. Onde Benson queria chegar? Por que Dale havia contado a
ele que eram amigas? Será que Lana havia comentado sua vida sexual na prisão à
Benson?
-Vejo que Dale se tornou muito sua
amiga, srta. Berlot. Chega ao ponto de discutir comigo por sua causa! Está bem.
Eu não vou interferir nisso. Mas, cuidado, Jessie Berlot! Se acontecer algo de
mal à minha filha por sua culpa, você se verá comigo! – Ele disse,
ameaçadoramente.
Jessie o olhou nos olhos, friamente.
-É só, mister Benson?
-Não. Dale pediu-me que a convidasse
para passar o fim de semana conosco. Nós vamos para um rancho descansar e ela
disse que faz questão que você vá junto.
-Agradeço muito, mas não aceito, mister
Benson.
Ele olhou para Dale, que o olhava com
expressão furiosa.
-Viu, Dale? Ela não quer ir.
-Como podia aceitar, depois de tudo que
disse? – Gritou Dale, explodindo – Você é muito cínico! Jessie, desculpe-me por
ter lhe causado esses momentos desagradáveis! Mas eu acreditei que meu pai
fosse mais humano e compreensivo! Venha, vamos sair daqui, essa cena já durou
demais!
-Dale! Não saia, me ouça! – Gritou
Benson.
Dale puxou Jessie pela mão. Jessie
hesitou, mas achou melhor retirar-se. Olhou para Dale com os olhos brilhantes
de indignação. Ela tivera uma idéia péssima e não a consultara.
-Fique, Dale! Você e seu pai têm que
conversar.Não quero ser motivo de discussão entre vocês!
Desprendeu sua mão com um gesto brusco e
saiu, fechando a porta atrás de si.
Dale, sem poder controlar-se, começou a
chorar. Benson a olhou surpreso. Tentou abraçá-la. Ela o empurrou e sentou-se
em um sofá, soluçando.
-Dale! Essa mulher a envolveu tanto
assim? Não acredito! Você chorando, por causa dessa... dessa assassina!
Dale o olhou entre lágrimas.
-Oh, você não entende! Jessie é uma
pessoa maravilhosa, minha única amiga! E você a humilhou! E ainda a chama de
assassina! Ah, você decepcionou-me muito!
-Calma, Dale querida... está bem, está
bem... vou ser cordial com Jessie Berlot... é que não gosto que minha filha
única seja amiga de uma assassina.
-Você tem que esquecer isso! Jessie já
pagou duramente o que fez! Admiro-me você, um advogado, condenar uma pessoa por
um crime passional que praticou há tanto tempo! Jessie é uma pessoa doce,
sentimental, honesta! – Protestou Dale, indignada.
-Está bem, está bem! Você convenceu-me !
Vou falar com ela. Pare de chorar, minha querida... sabe que a adoro e não vou
querer vê-la triste. Farei o que quer, mesmo com minhas reservas contra Jessie
Berlot.
-Agora ela não vai aceitar mais o
convite! Você estragou tudo, dizendo aquelas coisas!
-Calma! Eu vou falar com ela. Espere-me
aqui.
Benson saiu da sala e foi até à
biblioteca. Respirou fundo e abriu a porta, colocando no rosto um sorriso.
Jessie o viu entrar e ficou olhando-o
imóvel, em sua mesa. O que era agora?
Ele olhou em volta, sorrindo.
-Há muito tempo não venho aqui. É um
lugar tranquilo, não?
Jessie o olhou séria.
-É sim, mister Benson.
-Jessie... quero desculpar-me pelas
minhas palavras de há pouco. Eu reconheço que tenho sido muito severo com você.
-Está desculpado, mister Benson – disse,
friamente.
-Não, não quero uma aceitação formal –
Disse ele, sorrindo – Eu estou
sinceramente arrependido. Dale convenceu-me que formei uma idéia falsa de você.
E realmente acho que me enganei, porque Dale não é uma pessoa que se deixa
enganar. Ela é muito sensível e perspicaz. Quero que continue sua amizade com
Dale. Não farei nenhuma restrição. E peço ancarecidamente que aceite nosso
convite para o fim de semana. Se Dale fica feliz com isso, também ficarei.
Jessie o ouviu atentamente. Viu porque
Benson era um grande advogado. Suas palavras, o tom sincero da voz, o olhar
cordial, tudo parecia autêntico. Qualquer um se convenceria da sinceridade
dele. Mas ela, não. Porém, não podia recusar o convite, depois da atitude dele.
Seria guerra declarada e só ela se prejudicaria. Pois bem. Faria o jogo dele.
Sorriu e falou com cordialidade forçada:
-Fico muito feliz que tenha chegado à
essa conclusão, mister Benson. Está bem, aceito o convite.
O sorriso dele se ampliou. Estendeu a
mão para ela.
-Amigos?
Jessie apertou a mão dele, sentindo-se
mal com tanto fingimento. Forçou um sorriso.
-Amigos, mister Benson.
O rosto dele adquiriu uma expressão
vitoriosa. Era como uma causa que ganhara.
-Ótimo! Combine com Dale como fará para
nos acompanhar. Até logo, Jessie.
-Até logo, mister Benson.
Ele saiu e fechou a porta. Jessie ficou
pensativa.
Minutos depois, Dale entrou e a olhou
com alegria.
-Aceitou mesmo o convite de papai?
Ficaram amigos? Ele pediu desculpas?
Jessie a olhou com reprovação fria.
-Ele pediu-me de um modo que não pude
recusar.
Ergueu-se e encarou Dale com raiva.
Falou baixo, entredentes:
-Você enlouqueceu? Como foi contar para ele
que somos amigas, sem me consultar? Por que pediu para ele convidar-me?
Dale tentou abraçá-la. Jessie
desviou-se, olhando-a com raiva. Ela a olhou com ar medroso.
-Jessie, ele mais cedo ou mais tarde
iria saber que estamos saindo juntas. Foi melhor eu falar logo que somos
amigas, para não ter que justificar-me depois e para ele não pensar que estava
escondendo isso. Aí, seria bem pior.
-Muito esperta! Mas devia ter me falado
o que pretendia!
-Você não iria concordar.
-E sabendo disso, agiu sem consultar-me!
E essa droga de fim de semana com Benson! Isso foi um abuso seu, sabendo que
não vou com a cara de seu pai! Colocou-me numa situação chata, ridícula!
-Jessie, ele queria que eu o
acompanhasse, como sempre fiz! Não tinha desculpa para recusar! E não queria
ficar dois dias longe de você! Então, disse-lhe que havíamos nos tornado amigas
e tínhamos planos para sair no fim de semana. Que eu poderia ir com ele, se a
chamasse também.
-Está bem, Dale, você já arrumou essa
droga toda e só me resta ir, mas saiba que vou contrariada, não espere que eu
me mostre simpática ao seu pai, nem fique de bom humor com você!
-Jessie! Por favor, não fique com raiva
de mim!
A porta da biblioteca abriu e Lana
Kincayd entrou. Parou, olhando para Jessie e Dale. Uma com o olhar brilhante de raiva, a outra com
expressão suplicante.
Lana pareceu sentir a tensão reinante.
-Posso saber o que está havendo? Estão
com umas caras que demonstram estarem em uma
briga! – Perguntou, com ironia na voz, cruzando os braços, fitando-as.
Dale mudou de expressão. Olhou para Lana
com ciúmes e raiva.
-Meta-se com sua vida!
Jessie olhou para Lana, temerosa e
embaraçada. Lana iria perceber tudo.
Lana sorriu com ironia.
-Desculpem-me, não queria invadir a
intimidade de vocês. Vou retirar-me e voltarei em outra hora oportuna.
Jessie pensou rápido. Não podia deixá-la
sair assim, com aquela impressão que vira algo demais. Ela poderia comentar com
Benson. Tentou olhá-la com naturalidade.
-Senhorita, não há motivo para sair.
Deseja alguma coisa? Posso atendê-la agora.
Ela ergueu as sombrancelhas perfeitas,
fitando-a .
-Pode mesmo? Isso, se Dale permitir...
-Tenho certeza que
já atendi a
senhorita Dale no que ela
desejava. Estou à
sua disposição – disse, em tom
formal.
Dale olhou-as com os olhos brilhando e
saiu, batendo a porta.
Lana encarou Jessie, séria. Em seus
olhos havia alarme.
-Deus! Ela está com ciúmes de você! –
Comentou.
Jessie ficou rubra, mas falou com voz
firme:
-Lana Kincayd, está com a imaginação
muito fértil! Não sou nenhuma conquistadora e Dale nem desconfia do que sou!
-Jessie, não minta para mim, não sou uma
idiota! Vocês, quando entrei, estavam discutindo! Ouvi Dale dizer para você não
ficar com raiva dela! E Dale só pediria isso a alguém se estivesse muito
apaixonada!
-Você está enganada, Lana!
-Não minta, Jessie! É inútil, percebi as
expressões de vocês, quando entrei! Estavam brigando por quê? Ciúmes? Deus,
você meteu-se com a filha de Benson!
Jessie calou-se. Não conseguia
prosseguir com negativas. Lana não era idiota. Percebera tudo. Ela a olhava
agora com um olhar acusador.
-Você é louca! Não deu certo comigo e
partiu para cima de Dale, não é?
Jessie olhou-a de frente,
desafiadoramente. Não ia demonstrar medo de Lana, mesmo que ela falasse tudo à
Benson. Seu ressentimento de Lana não permitia mostrar medo.
-Não dei em cima dela, Dale é quem me
provocou. Eu a encarava com respeito e distância. Foi ela quem iniciou tudo,
abraçando-me sem eu esperar – Se justificou.
Lana a olhou com descrença.
-Oh, sim, Dale vivia cantando as
mulheres... – disse com deboche – isso não é novidade nela ...
-Acredite se quiser! Não lhe devo
satisfações, Lana Kincayd! Não pense que porque me repudiou, todas as mulheres
fazem o mesmo! Dale gosta de mim, não pensa que sou um lixo, como você acha!
Ela a olhou surpresa.
-Lixo? Nunca falei que você é isso!
-Mas reagiu como se eu fosse!
-Jessie, não a tratei como diz! Apenas
não quis me envolver com você, porque sou noiva e não gosto de aventuras, ainda
mais com uma mulher. Fui apenas sensata.
-Ouça, vá para o diabo com a sua
sensatez e deixe-me viver em paz! – Disse, com voz revoltada. Não conseguia
deixar de sentir-se ferida em ouvir Lana alegar as razões de sua rejeição.
Ela a olhou analizadoramente.
-Porque essa revolta? Não sabe aceitar
que alguém não a queira?
Jessie sentiu-se provocada. Lana Kincayd
ia engolir aquela postura arrogante e aquelas palavras!
-Não me quer mesmo? Ou é somente medo de
entregar-se ao que sente? Você é uma covarde, Lana. Tem medo de entregar-se à
um sentimento que a sociedade não aceita. De romper com sua vida certinha!
Lana a encarou com arrogância.
-Como é pretenciosa! Não é medo, Jessie
Berlot! É apenas indiferença! Você não me atrai nem um pouco! Não sou
homossexual, ouviu bem?
Jessie sorriu com deboche.
-Dale também diz que não é, mas está
louca por mim!
-Problema dela! – disse, olhando-a como
uma pantera prestes a dar o bote – Vocês duas que se danem, isso não me afeta!
Encaravam-se com raiva e desafio no
olhar, frente a frente. Jessie foi dominada por um desejo avassalador de provar
que Lana a queria, para aplacar seu sentimento de rejeição.
Pegou Lana pelos pulsos e a puxou contra
si, bruscamente, sem ela esperar. Lana desequilibrou-se e teve que amparar-se
nela, o corpo encostando-se no seu. Jessie desceu a boca impetuosamente e
esmagou aqueles lábios carnudos, invadindo a boca com a língua, sugando-a,
esfregando os lábios, dominada pela emoção de estar roubando um beijo de Lana.
Ela quis afastar-se, mas Jessie deu um
passo, espremendo-a contra a parede da sala. Seus corpos estremeceram juntos,
como se uma descarga elétrica os percorresse.
Lana tentou mais uma vez empurrá-la.
Jessie passou um braço pela cintura dela, agarrando-a mais. Sem parar de
beijá-la. Seu corpo se apertando, em um desejo poderoso, avassalador . Já não
era apenas raiva e desafio que a movia. Era desejo que a fazia tremer e ficar colada em Lana,
naquele beijo voraz.
Lana gemeu contra seus lábios. O corpo
amoleceu. A mão livre mexeu-se, subindo, passando pelo seu pescoço, pelo rosto,
enfiando os dedos tensos em seus cabelos. A língua veio de encontro à sua,
começando a sugar também, beber sua saliva. Com seu resto de consciência,
Jessie pensou que devia parar. Se alguém entrasse, estavam perdidas.
Afastou a boca e largou Lana,
empurrando-a. Ela a olhou ofegante, o rosto vermelho. Jessie não pôde deixar de
dizer, numa doce vingança:
-Ainda afirma que lhe sou indiferente?
Que não a atraio em nada?
Ela baixou o rosto, derrotada. Tornou a
olhá-la como se tivesse abalada.
-Você é um demônio! – ofegou – Deixe-me
ir!
Jessie riu, olhando-a com cinismo.
-Pode ir... e vê se consegue matar o
desejo que provoquei em você, com Benson!
-Oh! Odeio-a, Jessie Berlot!
Ela afastou-se em passos precipitados e
saiu sem olhar para trás. Jessie jogou-se na cadeira, respirando fundo.
Lana Kincayd, como era delicioso
beijá-la! O perfume, o contato do corpo macio, a língua sensual à procura da
sua, tudo a deixara louca! Não adiantava negar para si própria que estava louca
para possuir Lana Kinkayd. Gostava de Dale, ela a amava, mas aquele desejo era
muito forte para controlar. Desejava Lana com paixão, com raiva, com medo, com
loucura!
Desejava-a loucamente, não suportava a rejeição que
ela lhe jogara no rosto, não se conformava! Sabia que no fundo ela também a
queria, a certeza viera com a forma com que
Lana se entregara ao beijo. Ela também não resistia ao seu contato. Ah,
se ela não fosse noiva de Benson! Já teria mostrado à ela como uma mulher podia
dar prazer à outra!
A imagem de Dale veio à sua mente e sentiu remorso
pelo que havia feito com Lana. Dale não merecia isso. Mas Lana a havia
provocado. Ela tinha o poder de despertar o lado pior de sua personalidade: a
conquistadora que não aceitava um não como resposta, devido ao seu complexo de
rejeição. Lana pressionava esse ponto dolorido de sua personalidade e a fazia
reagir até com insensatez.
-Maldição, que dia! – Resmungou Jessie, voltando ao
trabalho.
Feedback: [email protected]