Nunca Ame Uma

ASSASSINA

 

PARTE 5

 

                        A fazenda estava praticamente em ruínas. O mato crescia em volta, as cêrcas estavam apodrecidas e a casa principal estava quase desabando.Só em chegar e saltar do carro, Jessie pôde observar esses detalhes com consternação. Dale, ao seu lado, olhou a paisagem desolada e voltou os olhos para Jessie, vendo sua reação.

 

        -Há muita coisa a melhorar, não é ? – Perguntou, suavemente.

 

        Jessie a fitou. Seus olhos estavam tristes.

 

        -Tudo está em ruínas ! Muito pior do que pensei!

 

        -Mas tudo pode ser recuperado.

 

        Jessie abaixou-se e pegou um punhado de terra na mão e olhou-a . O barro vermelho estava seco pelo sol. Há muitos anos a terra não era arada. Jogou-o no chão, olhando para a casa onde passara a infância e adolescência.

 

        -Vamos entrar na casa. Quero ver como está.

 

        Aproximaram-se, andando lentamente no sol quente.

 

        -Alto lá !

 

        Dale e Jessie voltaram-se assustadas.

 

        Jessie viu um homem esfarrapado, de longa barba grisalha, apontando para elas um velho rifle.

 

        -Estão invadindo uma propriedade particular ! – gritou ele, com voz roufenha – Vão dando o fora logo !

 

        Jessie contemplou aqueles olhos azuis, o rosto enrugado, o corpo atarracado e sorriu.

 

        -Bafly ! Não me reconhece ?

 

        Ele a olhou atentamente. Um sorriso surgiu em seu rosto castigado pelo sol.

 

        -A pequena Jessie ? É você mesmo ?

 

        -Eu mesmo, Bafly ! Abaixe essa arma, homem !

 

        Ele deu uma risada e abaixou a arma, pousando-a no chão. Aproximou-se com a mão estendida.

 

        -Ora, ora ! A garota cresceu muito, está uma mulher !

 

        Jessie apertou a mão dele, olhando-o rindo. Bafly trabalhava na fazenda desde que sua mãe se casara. Era um homem rude e beberrão, mas trabalhava duramente sem reclamar do baixo salário e Jessie lhe devia o fato de ter lido bons livros em sua adolescência: ele quem lhe mostrara o baú abandonado no celeiro cheio de livros. O seu pai o havia mandado queimar, mas ele o escondera, achando o ordem absurda. Sempre havia sido  reservado, mas com ela ele se descontraía e contava estórias. Ele quem a  ensinara a montar cavalos e a manejar o velho trator da fazenda.

 

        -Bafly, você está ainda nesse lugar, sem trabalho ? Por que não foi trabalhar em outra fazenda, homem ? – Jessie perguntou, fitando-o sorrindo.

 

        -Eu fiquei tomando conta das terras, menina. Você não imagina quanta gente tentou se apossar disso aqui nesses anos... mas eu os afugentei com o meu rifle. Eu sabia que um dia você ia voltar. E fiquei esperando, tomando conta de suas terras.

 

        Os olhos de Jessie encheram-se de lágrimas. Não esperava aquilo. A lealdade de Bafly demonstrava o carinho que ele tinha por ela.

 

        -Bafly... – disse, com voz embargada de emoção – Se eu tivesse tido um pai como você, nada teria acontecido.

 

        Ele olhou-a desajeitado. Não sabia expressar suas emoções.

 

        -Hum... obrigado menina. Mas fiz o que pude. As terras estão aí, para você. Mas a fazenda está caindo aos pedaços. Falta material para consertar tudo, o trator quebrou e enferrujou...

 

        -Iremos ver tudo isso, Bafly. Esta é Dale Benson, ela vai nos ajudar a recuperar a fazenda.

 

        Bafly apertou a mão de Dale, olhando-a curioso.

 

        -Prazer, dona. Não querem tomar um café ?

 

        Dale riu, passando a mão no rosto.

 

        -Com esse calor, prefiro um copo de água.

 

        -Ah, tenho água boa do poço ! – Sorriu Bafly – Venham, vamos sair desse sol .

 

        Jessie e Dale o seguiram. Entraram na casa. Por dentro, estava pior ainda. O assoalho com tábuas soltas, poeira para todos os lados, os móveis de madeira rústica em mau estado. O único lugar mais habitável era a cozinha. A grande pia de pedra estava limpa, as panelas de cobre bem areadas e o fogão de lenha estava intacto.

 

        Bafly abriu a velha geladeira e tirou um litro de água. Apanhou dois copos na pia e os encheu, entregando-os a elas.

 

        Jessie bebeu  a água e olhou para Bafly.

 

        -Pelo menos ainda há água bastante na fazenda, Bafly ?

 

        -Ah, isso não falta ! O rio que passa na fazenda está sempre com bom volume de água. E tem poço. Sabe que as terras são boas, Jessie. Só precisam de trato. Infelizmente eu não dou conta do trabalho, essas terras precisam de mais gente para cuidar delas.

        -Muito bem. Viemos olhar toda a fazenda e anotar o que precisa ser feito, os recursos que tem de água, o material necessário para recuperá-la. Você nos ajudaria nisso, Bafly ?

 

        -Claro ! E vou dar sugestões também !

 

        -Então, vamos. Não quero perder tempo.

 

        Vistoriaram a fazenda de ponta a ponta. Dale tirou um noteboock do carro e passou a registrar tudo que Jessie e Bafly inspecionavam, fazendo uma relação das obras de recuperação.

 

        Foi um trabalho cansativo sob o sol quente, mas Dale não se queixou em nenhum momento.

 

        Interromperam o trabalho somente para comer sanduíches que Dale havia levado com refrigerantes em uma caixa térmica. Somente no final da tarde se despediram de Bafly e regressaram. Jessie prometeu ao velho amigo que em uma semana voltaria para informá-lo sobre o que poderia fazer pela recuperação da fazenda.Empoeiradas e suadas, chegaram na casa de Jessie.

 

        Dale insistira para Jessie passar a noite com ela em sua casa, mas Jessie achara melhor voltar para sua casa. Além de ser perigoso, pois Benson poderia procurar Dale lá, ela tinha que trocar de roupa para ir trabalhar no dia seguinte.Na porta da casa, Jessie olhou para Dale, agradecida.

 

        -Muito obrigada, Dale. Você foi maravilhosa. Perdeu seu dia de descanso ajudando-me.

 

        Dale sorriu, segurando sua mão e apertando-a.

 

        -Você irá pagar-me por esse trabalho depois. Com muito amor e prazer.

 

        Jessie riu, olhando para a boca vermelha de Dale.

 

        -Pagarei tudo, com imenso prazer, garota.

 

        -Ótimo... amanhã falarei com um construtor e veremos por quanto ficarão as reformas. Até amanhã, amor.

        Inclinou-se para ela e beijou-a impetuosamente na boca. Jessie desprendeu-se, preocupada com Jocelyn. Ela poderia aparecer e seria vergonhoso se ela as visse.Dale olhou-a com desejo.

 

        -Deixe eu entrar um pouco... só por momentos...

 

        -Jocelyn vai estranhar a filha de Benson estar comigo. Pode comentar com Judy.

 

        -Judy é muito discreta. Não falará para ninguém, tenho certeza.

 

        -Mas, como vou explicar minha amizade com você ?

 

        -Ora, nós trabalhamos juntas, Jessie !

 

        -Dale... não acho bom isso...

 

        -Não seja boba, Jessie. Vou entrar. Quero ver onde dorme, a casa que mora.

 

        Dale saltou do carro e Jessie a imitou, contrariada. Mas não disse mais nada. Não queria discutir com Dale. Entraram na casa e Jocelyn as olhou, sentada na sala vendo tv.

 

        -Boa tarde! – disse Dale, sorrindo.

 

        Jocelyn ergueu-se surpresa.

 

        -Boa tarde ! Jessie, por que não me avisou que teríamos visita para o jantar ?

 

        -Ela resolveu entrar sem eu  esperar, Jocelyn. Esta é Dale Benson.

 

        Jocelyn olhou para Dale, impressionada.

 

        -Oh! Muito prazer, miss Benson...

 

        Dale apertou a mão de Jocelyn, sorridente.

 

        -Prazer, Jocelyn. Jessie a adora, pelo que sei.

 

        Jocelyn sorriu, radiante.

 

        -É recíproco, miss Benson. Mas, estou honrada com a visita, esteja à vontade.

 

        -Chame-me simplesmente Dale, Jocelyn. Nada de formalidades. Desculpe-me a invasão de sua casa, mas queria entrar um pouco porque estou suada e com sede.

 

        -Oh, se quiser, pode tomar um bom banho, e vou preparar uma limonada !

 

        -Gostaria muito, se não se importar – Sorriu Dale.

 

        -Claro que não ! Jessie, leve a garota até o seu quarto, para ver se tem uma roupa para ela ! Vou fazer a limonada. E está intimada a jantar conosco!

 

        Dale riu, vendo Jocelyn ir apressada para a cozinha. Olhou para Jessie, que a olhava com ar preocupado.

 

        -Viu como foi simples ? – Segredou – Ela gostou de mim.

 

        -Ela está impressionada. Uma Benson em sua casa, é muito para uma pessoa simples como Jocelyn.

 

        -Não vai me levar ao seu quarto ? – Perguntou Dale, com um olhar insinuante.

 

        -Vamos. Você já está aqui dentro, mesmo...

 

        Dale a seguiu, olhando em volta com atenção. Jessie abriu a porta do quarto e ela entrou, olhando em volta com curiosidade.

 

        -Ah, é aqui que você dorme ! É um bom quarto.

 

        -Quer mesmo tomar um banho?

 

        -Quero, Jessie. Estou morrendo de calor.

 

        -Vou lhe emprestar uma roupa.

        -Não, vestirei a mesma. Será estranho chegar em casa com uma roupa que não é minha, não acha?

 

        -Tem razão. Então, venha até o banheiro.

 

        Dale a olhou com malícia.

 

        -Por que não tomamos banho juntas?

 

        Jessie a olhou séria. Dale não media consequências.

 

        -Está louca? Aqui, com Jocelyn por perto? Não.

 

        Dale a olhou com ar emburrado.

 

        -Medrosa! E eu cheia de idéias...

 

        -Guarde suas idéias para outro dia – sorriu Jessie.

 

        Levou-a até o banheiro. Deu-lhe uma toalha e saiu. Voltou para o quarto, separou roupas para colocar e foi até a cozinha. Jocelyn estava colocando gelo na jarra de limonada e olhou-a sorrindo.

 

        -Jessie, você se tornou amiga da filha de Benson?

 

        -Sim ela é muito simples e comunicativa, Jocelyn.

 

        -Então, foi com ela que você foi ver sua fazenda? Disse-me que ia com uma amiga.

 

        -Sim. Ela se interessou em ajudar-me.

 

        -Ajudá-la como?

 

        -Em conseguir um empréstimo para recuperar a fazenda de minha família – mentiu, sentindo-se mal com isso.

 

        -Ah, isso é ótimo! Muito bem, Jessie! Precisa mesmo de amigas do quilate de Dale Benson. Pode deixar que vou ajudá-la nisso! Dale Benson vai ser muito bem tratada aqui.

 

        -Obrigada, Jocelyn. Na verdade, com uma amiga como você, não preciso de outra.

 

        -Não exagere, Jessie. Vá tomar um banho, que está toda empoeirada e suada. O jantar já está pronto. Será que Dale vai gostar de minha comida?

 

        -Você é uma exelente cozinheira! Claro que vai.

 

        Jessie voltou ao quarto. Dale estava olhando suas roupas, nua, e sorriu quando  Jessie entrou.

 

        -Meu amor, precisa comprar mais roupas. Você tem apenas cinco calças compridas e quatro blusas! Vamos providenciar isso – Disse Dale, com voz doce.

 

        Jessie fechou a porta e olhou para o corpo dela, apreciativamente. Dale tinha um corpo lindo.

 

        -Não quero mais roupas. Na fazenda, não será necessário. As que tenho bastam.

 

        Dale aproximou-se, com ar insinuante. Abraçou-a, rodeando seu pescoço.

 

        -Depois discutiremos isso. Agora, beije-me.

 

        Colou-se em seu corpo, apertando-se. Jessie controlou-se para não agarrá-la e a jogar sobre a cama.

 

        -Dale! Estou toda empoeirada,suada, e você tomou banho!

 

        Ela ergueu o rosto, fitando-a com desejo.

 

        -Não ligo para esse detalhe. Adoro seu cheiro de suor, é um cheiro selvagem, que me excita. Beije-me, sua boba...

 

        Jessie desceu a boca, encontrando a de Dale. Ela a beijou com ímpeto, apertando-se, as mãos puxando-a . Jessie sentiu as mãos de Dale em seus seios, nas nádegas, a boca sugando a sua com sofreguidão. Ela a puxou para a cama, sem se desgrudar de seu corpo. Deitou transversalmente, as pernas abertas, pegou sua mão e levou-a ao sexo, que já estava úmido de prazer. Jessie afastou a boca com esforço. Jocelyn podia entrar.

 

        -Dale... aqui não... – sussurrou.

 

        -Agora... agora... eu quero isso... – disse, mexendo os quadris, provocando-a.

 

        Lambeu seu rosto, seu pescoço, gemendo baixinho. As mãos segurando-a, puxando-a contra si.

 

        Jessie não resistiu mais. Pegou um seio na mão, levando-o à boca. Sugou-o, lambeu, mordiscou, ouvindo Dale gemer. Ela pediu alucinada, empurrando-a  para baixo:

 

        -Possua-me... daquele jeito... não agüento mais...

 

        Jessie desceu, louca para atender ao pedido. Dale estremeceu violentamente, quando alcançou o sexo. Jessie a sugou, meteu os dedos, empolgada com a reação de Dale. Ela remexia-se alucinada, as mãos apertando seus ombros. Gozou em pouco tempo, apertando-se contra sua boca, mordendo o pulso para não gritar. Jessie quis afastar-se, mas ela a segurou com as coxas, sussurrando:

 

        -Não... não pare...

 

        Jessie continuou. Só depois de atingir o êxtase mais duas vezes, ela relaxou, com os olhos fechados. Jessie ergueu-se e a olhou, cansada.

 

        -Agora vou tomar um banho, Dale... – Anunciou, indo para o banheiro.

 

        Jessie tomou um banho frio, que refrescou seu corpo suado. Enxugou-se e voltou ao quarto. Dale já estava vestida, esperando-a . Olhou para seu corpo nu e mordeu os lábios.

 

        -Como você tem o corpo bonito, Jessie! Posso... posso beijá-lo?

 

        Jessie riu, apanhando uma calcinha na cômoda e vestindo-a .

 

        -Não, chega por hoje... Jocelyn vai estranhar nossa demora – Negou, olhando-a com um sorriso malicioso.

 

        -Quando morarmos juntas, vou acabar com você... – sorriu ela – vamos fazer amor o dia inteiro...

 

        -E que horas vamos trabalhar? – Perguntou  Jessie, com ar malicioso.

 

        -Entre um trabalho e outro, vamos ter tempo...

 

        Jessie acabou de vestir-se rapidamente. Penteou os cabelos molhados, perfumou-se, sob o olhar atento de Dale.

 

        -Vamos descer, Dale. Estou faminta.

 

        -Está bem...

 

        O jantar transcorreu tranquilo, com Jocelyn conversando animadamente com Dale. Jessie olhava-as com um sorriso, percebendo que Dale havia encantado a velha senhora com sua classe e simplicidade.

 

        Quando Dale despediu-se, Jocelyn fez questão de levá-la até o carro, fazendo um convite para que voltasse. Dale acenou e partiu. Jocelyn olhou para Jessie, sorridente.

 

        -Ela é encantadora! – Comentou Joceyn.

 

        Jessie sorriu.

 

        -Também acho – Disse, sinceramente.

 

 

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        Uma semana se passou. Dale levou para Jessie um projeto de construção e reforma da fazenda, completo.O projeto previa celeiro, estábulo, casa de trabalhadores, dois silos, irrigação para culturas, uma granja moderna e reconstrução da casa principal.

 

        Jessie olhou tudo com reservas.

 

        -É mais do que eu quero, Dale. Pensei apenas na reconstrução da casa principal e nas cêrcas. O resto eu vou fazer aos poucos.

 

        -Jessie, se vai remodelar a fazenda, tem que fazer tudo que  ela precisa.

 

        -Mas é preciso muito dinheiro para isso! Cem mil dólares não dará nem para a metade!

 

        Dale sorriu-lhe.

 

        -Hum... tenho que confessar que menti para você. Não tenho apenas cem mil dólares no banco. Tenho também duzentos mil dólares investidos em papéis resgatáveis a qualquer momento. Vou resgatá-los e dinheiro não faltará.

 

        -Dale! É muito dinheiro! Como vou lhe pagar isso?

 

        -Não vamos montar uma sociedade?

 

        -Já não será mais sociedade, você será proprietária!

 

        -Não se preocupe. Sou advogada, esqueceu? Vou redigir uma minuta dos termos da sociedade. Cinquenta por cento será seu, cinquenta por cento meu. Se uma das partes resolver acabar a sociedade, a fazenda será vendida e cada parte receberá cinquenta por cento da venda. Com as reformas, sua fazenda valerá no mínimo cinco vezes mais. Não terá nenhum prejuízo. Com o dinheiro, poderá comprar outra propriedade. E eu terei meu lucro certo.

 

        -Não sei... é muita grana em jogo...

 

        Dale riu.

 

        -Jessie, trezentos mil dólares não é muito dinheiro para mim! Sabe que sou herdeira de meu pai. E a fortuna dele está avaliada em vinte milhões de dólares!

 

        Jessie ficou boquiaberta.

 

        -Com mil demônios! Benson é tão rico assim?!

 

        -Papai é muito rico, Jessie. Só mantém aquele escritório pelo prestígio que ele dá. E gosta do que faz. Então? Posso mandar o construtor começar a implementar o projeto?

 

        -Assim que fizermos a sociedade. Para sua garantia.

 

        -Ok, vou começar a redigir a minuta agora! Bye, amor!

 

        Dale saiu da biblioteca sorridente.

 

        Jessie ficou pensativa. Dale estava mesmo entusiasmada. Empregar tanto dinheiro na fazenda...

 

        Pensou que isso a estava prendendo mais à ela. Dale era esperta. Amor e negócios juntos, aprofundavam a relação delas. E ela própria, como se sentia com isso ?

 

        Seus pensamentos foram interrompidos pela entrada de Judy.

 

        -Benson mandou chamá-la.

 

        Jessie empalideceu. Benson tomara conhecimento de sua relação com Dale? No mínimo, ia despedí-la. Engoliu em seco.

 

        -Ele disse o que deseja?

 

        -Não. Só mandou chamá-la. Fique calma, Jessie. Não deve ser nada demais. Você não fez nada errado, pelo que sei.

 

        Engano seu, pensou Jessie, erguendo-se. Dirigiu-se para a sala dele pensando como reagir à acusação que ele lhe lançaria. Judy abriu a porta e ela entrou.

 

        Benson estava em pé, com Dale ao seu lado. Olhou-a com um olhar impenetrável. Dale piscou, sorrindo, como que tranquilizando-a .

 

        -Aqui estou, Dr. Benson. O que tem para falar-me? – Perguntou, tentando demonstrar uma calma que não sentia. Sua voz conseguiu sair firme.

 

        Benson a olhou com ar contrariado.

 

        -Minha filha disse-me que vocês se tornaram amigas.

 

        Jessie olhou para Dale com reprovação. Ela estava louca! Tornou a olhar para Benson. Não adiantava negar, como desejava.

 

        -É verdade. A senhorita Benson é muito simpática e fizemos  amizade,  trabalhando  juntas – justificou-se.

 

        Ele olhou-a avaliadoramente, com a mão no queixo.

 

        -Hum... ela disse-me uma coisa assim. Dale é o que mais prezo no mundo, srta. Berlot. E ela nunca teve amigas. Você é a primeira que consegue fazer amizade com ela. Confesso que não é exatamente o tipo de pessoa que aprovaria para ser amiga dela,  mas Dale convenceu-me a não recriminar essa amizade, pois disse que é muito só e sua companhia lhe é agradável, então...

 

        -Papai, você prometeu que não ia humilhar Jessie! – Protestou Dale, olhando-o vermelha de raiva – Não está cumprindo o que prometeu!

 

        Ele olhou para Dale com o cenho franzido.

 

        -Preciso dizer à ela essas coisas, Dale. Pelo passado de Jessie Berlot, tenho que alertá-la para que não pense jamais em induzí-la a fazer algo reprovável.

 

        -Pai, não seja preconceituoso! Jessie não é como você acha! E se vai continuar falando bobagens, vou me retirar!

 

        Ele olhou para Jessie, que comtemplava a discussão com ar tenso. Onde Benson queria chegar? Por que Dale havia contado a ele que eram amigas? Será que Lana havia comentado sua vida sexual na prisão à Benson?

 

        -Vejo que Dale se tornou muito sua amiga, srta. Berlot. Chega ao ponto de discutir comigo por sua causa! Está bem. Eu não vou interferir nisso. Mas, cuidado, Jessie Berlot! Se acontecer algo de mal à minha filha por sua culpa, você se verá comigo! – Ele disse, ameaçadoramente.

 

        Jessie o olhou nos olhos, friamente.

 

        -É só, mister Benson?

 

        -Não. Dale pediu-me que a convidasse para passar o fim de semana conosco. Nós vamos para um rancho descansar e ela disse que faz questão que você vá junto.

 

        -Agradeço muito, mas não aceito, mister Benson.

 

        Ele olhou para Dale, que o olhava com expressão furiosa.

 

        -Viu, Dale? Ela não quer ir.

 

        -Como podia aceitar, depois de tudo que disse? – Gritou Dale, explodindo – Você é muito cínico! Jessie, desculpe-me por ter lhe causado esses momentos desagradáveis! Mas eu acreditei que meu pai fosse mais humano e compreensivo! Venha, vamos sair daqui, essa cena já durou demais!

 

        -Dale! Não saia, me ouça! – Gritou Benson.

 

        Dale puxou Jessie pela mão. Jessie hesitou, mas achou melhor retirar-se. Olhou para Dale com os olhos brilhantes de indignação. Ela tivera uma idéia péssima e não a consultara.

 

        -Fique, Dale! Você e seu pai têm que conversar.Não quero ser motivo de discussão entre vocês!

 

        Desprendeu sua mão com um gesto brusco e saiu, fechando a porta atrás de si.

 

        Dale, sem poder controlar-se, começou a chorar. Benson a olhou surpreso. Tentou abraçá-la. Ela o empurrou e sentou-se em um sofá, soluçando.

 

        -Dale! Essa mulher a envolveu tanto assim? Não acredito! Você chorando, por causa dessa... dessa assassina!

 

        Dale o olhou entre lágrimas.

 

        -Oh, você não entende! Jessie é uma pessoa maravilhosa, minha única amiga! E você a humilhou! E ainda a chama de assassina! Ah, você decepcionou-me muito!

 

        -Calma, Dale querida... está bem, está bem... vou ser cordial com Jessie Berlot... é que não gosto que minha filha única seja amiga de uma assassina.

 

        -Você tem que esquecer isso! Jessie já pagou duramente o que fez! Admiro-me você, um advogado, condenar uma pessoa por um crime passional que praticou há tanto tempo! Jessie é uma pessoa doce, sentimental, honesta! – Protestou Dale, indignada.

 

        -Está bem, está bem! Você convenceu-me ! Vou falar com ela. Pare de chorar, minha querida... sabe que a adoro e não vou querer vê-la triste. Farei o que quer, mesmo com minhas reservas contra Jessie Berlot.

 

        -Agora ela não vai aceitar mais o convite! Você estragou tudo, dizendo aquelas coisas!

 

        -Calma! Eu vou falar com ela. Espere-me aqui.

 

        Benson saiu da sala e foi até à biblioteca. Respirou fundo e abriu a porta, colocando no rosto um sorriso.

 

        Jessie o viu entrar e ficou olhando-o imóvel, em sua mesa. O que era agora?

 

        Ele olhou em volta, sorrindo.

 

        -Há muito tempo não venho aqui. É um lugar tranquilo, não?

 

        Jessie o olhou séria.

 

        -É sim, mister Benson.

 

        -Jessie... quero desculpar-me pelas minhas palavras de há pouco. Eu reconheço que tenho sido muito severo com você.

 

        -Está desculpado, mister Benson – disse, friamente.

 

        -Não, não quero uma aceitação formal – Disse ele, sorrindo – Eu  estou sinceramente arrependido. Dale convenceu-me que formei uma idéia falsa de você. E realmente acho que me enganei, porque Dale não é uma pessoa que se deixa enganar. Ela é muito sensível e perspicaz. Quero que continue sua amizade com Dale. Não farei nenhuma restrição. E peço ancarecidamente que aceite nosso convite para o fim de semana. Se Dale fica feliz com isso, também ficarei.

 

        Jessie o ouviu atentamente. Viu porque Benson era um grande advogado. Suas palavras, o tom sincero da voz, o olhar cordial, tudo parecia autêntico. Qualquer um se convenceria da sinceridade dele. Mas ela, não. Porém, não podia recusar o convite, depois da atitude dele. Seria guerra declarada e só ela se prejudicaria. Pois bem. Faria o jogo dele.

 

        Sorriu e falou com cordialidade forçada:

 

        -Fico muito feliz que tenha chegado à essa conclusão, mister Benson. Está bem, aceito o convite.

 

        O sorriso dele se ampliou. Estendeu a mão para ela.

 

        -Amigos?

 

        Jessie apertou a mão dele, sentindo-se mal com tanto fingimento. Forçou um sorriso.

 

        -Amigos, mister Benson.

 

        O rosto dele adquiriu uma expressão vitoriosa. Era como uma causa que ganhara.

 

        -Ótimo! Combine com Dale como fará para nos acompanhar. Até logo, Jessie.

 

        -Até logo, mister Benson.

 

        Ele saiu e fechou a porta. Jessie ficou pensativa.

 

        Minutos depois, Dale entrou e a olhou com alegria.

 

        -Aceitou mesmo o convite de papai? Ficaram amigos? Ele pediu desculpas?

 

        Jessie a olhou com reprovação fria.

 

        -Ele pediu-me de um modo que não pude recusar.

 

        Ergueu-se e encarou Dale com raiva. Falou baixo, entredentes:

 

        -Você enlouqueceu? Como foi contar para ele que somos amigas, sem me consultar? Por que pediu para ele convidar-me?

 

        Dale tentou abraçá-la. Jessie desviou-se, olhando-a com raiva. Ela a olhou com ar medroso.

 

        -Jessie, ele mais cedo ou mais tarde iria saber que estamos saindo juntas. Foi melhor eu falar logo que somos amigas, para não ter que justificar-me depois e para ele não pensar que estava escondendo isso. Aí, seria bem pior.

 

        -Muito esperta! Mas devia ter me falado o que pretendia!

 

        -Você não iria concordar.

 

        -E sabendo disso, agiu sem consultar-me! E essa droga de fim de semana com Benson! Isso foi um abuso seu, sabendo que não vou com a cara de seu pai! Colocou-me numa situação chata, ridícula!

 

        -Jessie, ele queria que eu o acompanhasse, como sempre fiz! Não tinha desculpa para recusar! E não queria ficar dois dias longe de você! Então, disse-lhe que havíamos nos tornado amigas e tínhamos planos para sair no fim de semana. Que eu poderia ir com ele, se a chamasse também.

 

        -Está bem, Dale, você já arrumou essa droga toda e só me resta ir, mas saiba que vou contrariada, não espere que eu me mostre simpática ao seu pai, nem fique de bom humor com você!

 

        -Jessie! Por favor, não fique com raiva de mim!

 

        A porta da biblioteca abriu e Lana Kincayd entrou. Parou, olhando para Jessie e Dale. Uma com  o olhar brilhante de raiva, a outra com expressão suplicante.

 

        Lana pareceu sentir a tensão reinante.

 

        -Posso saber o que está havendo? Estão com umas caras que demonstram estarem em uma  briga! – Perguntou, com ironia na voz, cruzando os braços, fitando-as.

 

        Dale mudou de expressão. Olhou para Lana com ciúmes  e raiva.

 

        -Meta-se com sua vida!

 

        Jessie olhou para Lana, temerosa e embaraçada. Lana iria perceber tudo.

 

        Lana sorriu com ironia.

 

        -Desculpem-me, não queria invadir a intimidade de vocês. Vou retirar-me e voltarei em outra hora oportuna.

 

        Jessie pensou rápido. Não podia deixá-la sair assim, com aquela impressão que vira algo demais. Ela poderia comentar com Benson. Tentou olhá-la com naturalidade.

 

        -Senhorita, não há motivo para sair. Deseja alguma coisa? Posso atendê-la agora.

 

        Ela ergueu as sombrancelhas perfeitas, fitando-a .

 

        -Pode mesmo? Isso, se Dale permitir...

 

        -Tenho certeza  que    atendi  a  senhorita Dale no que ela  desejava.  Estou  à  sua  disposição – disse, em tom formal.

 

        Dale olhou-as com os olhos brilhando e saiu, batendo a porta.

 

        Lana encarou Jessie, séria. Em seus olhos havia alarme.

 

        -Deus! Ela está com ciúmes de você! – Comentou.

 

        Jessie ficou rubra, mas falou com voz firme:

 

        -Lana Kincayd, está com a imaginação muito fértil! Não sou nenhuma conquistadora e Dale nem desconfia do que sou!

 

        -Jessie, não minta para mim, não sou uma idiota! Vocês, quando entrei, estavam discutindo! Ouvi Dale dizer para você não ficar com raiva dela! E Dale só pediria isso a alguém se estivesse muito apaixonada!

 

        -Você está enganada, Lana!

 

        -Não minta, Jessie! É inútil, percebi as expressões de vocês, quando entrei! Estavam brigando por quê? Ciúmes? Deus, você meteu-se com a filha de Benson!

 

        Jessie calou-se. Não conseguia prosseguir com negativas. Lana não era idiota. Percebera tudo. Ela a olhava agora com  um olhar acusador.

 

        -Você é louca! Não deu certo comigo e partiu para cima de Dale, não é?

 

        Jessie olhou-a de frente, desafiadoramente. Não ia demonstrar medo de Lana, mesmo que ela falasse tudo à Benson. Seu ressentimento de Lana não permitia mostrar medo.

 

        -Não dei em cima dela, Dale é quem me provocou. Eu a encarava com respeito e distância. Foi ela quem iniciou tudo, abraçando-me sem eu esperar – Se justificou.

 

        Lana a olhou com descrença.

 

        -Oh, sim, Dale vivia cantando as mulheres... – disse com deboche – isso não é novidade nela ...

 

        -Acredite se quiser! Não lhe devo satisfações, Lana Kincayd! Não pense que porque me repudiou, todas as mulheres fazem o mesmo! Dale gosta de mim, não pensa que sou um lixo, como você  acha!

 

        Ela a olhou surpresa.

 

        -Lixo? Nunca falei que você é isso!

 

        -Mas reagiu como se eu fosse!

 

        -Jessie, não a tratei como diz! Apenas não quis me envolver com você, porque sou noiva e não gosto de aventuras, ainda mais com uma mulher. Fui apenas sensata.

 

        -Ouça, vá para o diabo com a sua sensatez e deixe-me viver em paz! – Disse, com voz revoltada. Não conseguia deixar de sentir-se ferida em ouvir Lana alegar as razões de sua rejeição.

 

        Ela a olhou analizadoramente.

 

        -Porque essa revolta? Não sabe aceitar que alguém não a queira?

 

        Jessie sentiu-se provocada. Lana Kincayd ia engolir aquela postura arrogante e aquelas palavras!

 

        -Não me quer mesmo? Ou é somente medo de entregar-se ao que sente? Você é uma covarde, Lana. Tem medo de entregar-se à um sentimento que a sociedade não aceita. De romper com sua vida certinha!

 

        Lana a encarou com arrogância.

 

        -Como é pretenciosa! Não é medo, Jessie Berlot! É apenas indiferença! Você não me atrai nem um pouco! Não sou homossexual, ouviu bem?

 

        Jessie sorriu com deboche.

 

        -Dale também diz que não é, mas está louca por mim!

 

        -Problema dela! – disse, olhando-a como uma pantera prestes a dar o bote – Vocês duas que se danem, isso não me afeta!

 

        Encaravam-se com raiva e desafio no olhar, frente a frente. Jessie foi dominada por um desejo avassalador de provar que Lana a queria, para aplacar seu sentimento de rejeição.

 

        Pegou Lana pelos pulsos e a puxou contra si, bruscamente, sem ela esperar. Lana desequilibrou-se e teve que amparar-se nela, o corpo encostando-se no seu. Jessie desceu a boca impetuosamente e esmagou aqueles lábios carnudos, invadindo a boca com a língua, sugando-a, esfregando os lábios, dominada pela emoção de estar roubando um beijo de Lana.

 

        Ela quis afastar-se, mas Jessie deu um passo, espremendo-a contra a parede da sala. Seus corpos estremeceram juntos, como se uma descarga elétrica os percorresse.

 

        Lana tentou mais uma vez empurrá-la. Jessie passou um braço pela cintura dela, agarrando-a mais. Sem parar de beijá-la. Seu corpo se apertando, em um desejo poderoso, avassalador . Já não era apenas raiva e desafio que a movia. Era desejo que  a fazia tremer e ficar colada em Lana, naquele beijo voraz.

 

        Lana gemeu contra seus lábios. O corpo amoleceu. A mão livre mexeu-se, subindo, passando pelo seu pescoço, pelo rosto, enfiando os dedos tensos em seus cabelos. A língua veio de encontro à sua, começando a sugar também, beber sua saliva. Com seu resto de consciência, Jessie pensou que devia parar. Se alguém entrasse, estavam perdidas.

 

        Afastou a boca e largou Lana, empurrando-a. Ela a olhou ofegante, o rosto vermelho. Jessie não pôde deixar de dizer, numa doce vingança:

 

        -Ainda afirma que lhe sou indiferente? Que não a atraio em nada?

 

        Ela baixou o rosto, derrotada. Tornou a olhá-la como se tivesse abalada.

 

        -Você é um demônio! – ofegou – Deixe-me ir!

 

        Jessie riu, olhando-a com cinismo.

 

        -Pode ir... e vê se consegue matar o desejo que provoquei em você, com Benson!

 

        -Oh! Odeio-a, Jessie Berlot!

 

        Ela afastou-se em passos precipitados e saiu sem olhar para trás. Jessie jogou-se na cadeira, respirando fundo.

 

        Lana Kincayd, como era delicioso beijá-la! O perfume, o contato do corpo macio, a língua sensual à procura da sua, tudo a deixara louca! Não adiantava negar para si própria que estava louca para possuir Lana Kinkayd. Gostava de Dale, ela a amava, mas aquele desejo era muito forte para controlar. Desejava Lana com paixão, com raiva, com medo, com loucura!

 

Desejava-a loucamente, não suportava a rejeição que ela lhe jogara no rosto, não se conformava! Sabia que no fundo ela também a queria, a certeza viera com a forma com que  Lana se entregara ao beijo. Ela também não resistia ao seu contato. Ah, se ela não fosse noiva de Benson! Já teria mostrado à ela como uma mulher podia dar prazer à outra!

 

A imagem de Dale veio à sua mente e sentiu remorso pelo que havia feito com Lana. Dale não merecia isso. Mas Lana a havia provocado. Ela tinha o poder de despertar o lado pior de sua personalidade: a conquistadora que não aceitava um não como resposta, devido ao seu complexo de rejeição. Lana pressionava esse ponto dolorido de sua personalidade e a fazia reagir até com insensatez.

 

-Maldição, que dia! – Resmungou Jessie, voltando ao trabalho.

 

 

 
Continua na parte 6

 

 

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