Nunca  Ame  Uma

ASSASSINA

 

 

PARTE 3

 

 

        Quinze dias se passaram. Jessie se mudou para a casa da irmã de Judy e estava agora confortavelmente instalada em um quarto, decorado com simplicidade, mas acolhedor.

 

        Jocelyn era uma senhora simpática como a irmã, que à princípio a havia recebido com certa reserva, talvez somente atendendo um pedido da irmã. Mas, com o passar dos dias, se descontraiu e já se sentavam na pequena varanda, conversando sobre vários assuntos e jogando cartas, bebendo deliciosos licores que Jocelyn era exímia em fazer.

 

 Ela era uma velha senhora solitária e estava gostando da companhia de Jessie, que a distraía com sua inteligência viva e parecia tão solitária quanto ela. Como a irmã, Jocelyn era discreta e não invadia a intimidade da vida de Jessie com perguntas que poderiam embaraçá-la . Devia saber que era uma ex-presidiária, mas nunca tocava nesse assunto e Jessie sentia-se grata.

 

        No escritório, já se tornara rotina Dale Benson aparecer na biblioteca, rebuscar os arquivos e ficar olhando-a disfarçadamente.

 

        Jessie percebia o pretexto e estava confusa. Dale Benson estava interessada nela, ou simplesmente a estava vigiando, à mando do pai? Acreditava mais na segunda hipótese. Não era possível que Dale Benson fosse como ela, propensa a  gostar do mesmo sexo. Era muito feminina, uma mulher com um nível social bem mais alto que o seu, para estar interessada nela. Mas muitas vezes a surpreendia olhando-a como que esquecida do que havia ido fazer ali, e sempre que isso acontecia, ficava vermelha e disfarçava, remexendo nos arquivos.

 

        Dale Benson não falava mais que o essencial, pedindo livros e cumprimentando-a quando entrava e saía da sala. Parecia um jogo, mas Jessie não sabia qual era.

 

        Na verdade, Dale estava fascinada por Jessie, e não resistia em procurá-la para vê-la, mesmo usando um subterfúgio tão evidente.

 

        Dale estava preocupada e desesperada com que sentia. Perguntava à si mesma que sentimento era aquele, que a atraía para uma mulher. Não se considerava homossexual, nunca olhara antes para uma mulher com interesse. Então, porque sentia aquela necessidade de ver Jessie? Por que sentia a falta da presença dela, aquele arrepio ao fitar aqueles olhos, e por que o seu pensamento estava completamente dominado por ela? Tinha que encontrar uma resposta.

 

        Essa manhã de sexta-feira, Dale estava mais preocupada que nunca, inquieta e deprimida.

 

        Como nos outros finais de semana, não haveria expediente e por conseguinte, não veria Jessie. E lembrava como ficava em casa,    pensando o que ela estaria fazendo, como e com quem estaria passando o final da semana.  Isso se tornara uma obssessão em sua mente.

 

        Ergueu-se da mesa. Estava resistindo há horas em ir à biblioteca, mas não agüentava mais. Queria vê-la .

 

        Abriu a porta da sala e foi ao encontro de Jessie.

 

***************  

 

        Jessie estava concentrada em seu trabalho, quando a porta abriu. Ela ergueu os olhos, esperando ver Dale, mas quem entrou foi a noiva de Benson, Lana.

 

Ela a olhou com um ligeiro sorriso, aproximando-se num andar sensual, mexendo os quadris. Estava belíssima com uma saia justa negra, que mostrava os contornos sensacionais de seu corpo. Jessie não a via desde o dia que ela intercedera para que Benson a admitisse.

 

        -Olá... está gostando do trabalho? – Perguntou ela, sentando-se sobre o tampo da mesa, sem cerimônia.

 

        Jessie sorriu, fechando o livro que tinha nas mãos.

 

        -Muito... e devo agradecer à senhorita a ajuda que me deu para isso.

 

        Os olhos de Lana mergulharam nos seus. Eram calorosos e belos.

 

        -Achei que merecia a chance. E sei que não estou enganada. Benson teve que admitir para mim que você está se saindo muito bem.

 

        Jessie continuou sorrindo, procurando não demonstrar muito sua admiração. Lana era belíssima! E o perfume delicioso que exalava provocava Jessie.

 

        -Obrigada...

 

        -Oh, não agradeça... quero agora um favor em troca... – riu Lana, inclinando-se para ela.

 

        -Pois peça, senhorita...

 

        -Senhorita, não... simplesmente, Lana...

 

        Lana estava com o rosto inclinado para ela, olhando-a nos olhos. Jessie a encarava com um sorriso, sentindo-se invadida por aquele olhar.

 

        -Diga... – Sua voz soou rouca.

 

        -Não sei se lhe disseram, mas estou terminando minha tese de mestrado e gostaria de sua colaboração.

 

        Jessie, fitou-a surpresa.

 

        -Minha colaboração? Em quê?

 

        -Explico melhor: estou fazendo doutorado em sociologia. Minha tese é sobre a influência do ambiente carcerário na personalidade das pessoas. Já entrevistei alguns presos, mas ainda não estou satisfeita com o resultado. Queria que aceitasse que eu a entrevistasse.

 

        -Oh... – Jessie desviou o olhar – Não sei... a prisão é algo que eu quero esquecer e não quero lembrar...

 

        -Acho que seria bom você jogar seus traumas para fora, falar sobre isso. Não aceita?

 

        Jessie tornou a fitá-la . Lana continuava inclinada para ela, olhando-a nos olhos. Aqueles olhos a pertubavam mais do que gostaria.

 

        Nesse instante, a porta abriu e Dale Benson entrou.

 

        Ela viu Lana inclinada para Jessie, olhando-a nos olhos bem de perto, e viu que Jessie também fitava Lana com um olhar direto, o rosto erguido com uma expressão atenta.

 

        Ao ouví-la entrar, Lana recuou e voltou-se com um olhar de quem é pêga em um momento bem íntimo.

 

        Jessie não recuou, mas a olhou com ar assustado.

 

        Dale ficou parada, olhando-as.

 

        Seu rosto habitualmente meigo se transformou em uma máscara gélida de indiferença. Mas por dentro, Dale sentiu um ciúme inaudito em vê-las assim, tão próximas, se fitando de um modo suspeito.  Jessie e Lana ! Uma associação que até então não lhe ocorrera.

 

        Lana desceu da mesa e a olhou com calma, cruzando os braços.

 

        -O que foi? Viu algum fantasma? – Perguntou, com certa ironia.

 

        Dale respirou fundo. Avançou, procurando ser natural. Mas em seu íntimo estava atordoada com a descoberta que fizera: estava apaixonada, louca de amor por Jessie! O ciúme que sentia ao vê-la junto com Lana lhe dera a resposta final ao sentimento que a dominava. Era como se um clarão tivesse iluminado sua mente.

 

        -Vim verificar uns processos – anunciou, dirigindo-se para os arquivos, sem olhá-las.

 

        Jessie ergueu-se. Notou a palidez de Dale, seu tom brusco e ficou olhando-a curiosa.

 

        -Quer ajuda, senhorita? – ofereceu-se.

 

        Sem se voltar, Dale respondeu, quase inaudivelmente:

 

        -Não.

 

        Jessie olhou para Lana. Ela a olhava com um modo analizador, com os braços cruzados. Ela sorriu-lhe novamente.

 

        -Então, aceita o convite?

 

        Jessie pensou rapidamente. Não podia recusar isso a Lana. Devia à ela o emprego.

 

        -Está bem, concordo.

 

        -Ótimo! Irei em sua casa, se me permitir.

 

        -Não, prefiro que seja em outro lugar.

 

        -Então, irá à minha casa. Amanhã, pela manhã, irei buscá-la  em sua casa. Vou apanhar seu endereço com Judy.

 

        -Está bem.

 

        Lana sorriu e se retirou com seu andar sensual.

 

        Jessie voltou-se para Dale. Ela permanecia imóvel, com as mãos na gaveta do arquivo. Jessie aproximou-se preocupada. Ela havia chegado esquisita, pálida, e agora estava como uma estátua. Parou atrás dela e perguntou suavemente:

 

        -Está se sentindo mal?

 

        Dale negou com a cabeça, sem olhá-la.

 

        A resposta não convenceu Jessie.

 

        -Então, por que está assim, senhorita?

 

        Dale voltou-se lentamente e Jessie viu naqueles olhos angústia, medo, raiva, tudo misturado em um coquetel de emoções. Ficou paralisada de surpresa, olhando-a .

 

        Dale estava bem próxima de Jessie. Podia sentir o seu cheiro, ouvir sua respiração, ver os olhos azuis bem de perto. Aqueles olhos magnéticos a fitavam surpresos.

 

        -Jessie!

 

        Foi um susurro exasperado, como uma queixa.

 

        Dale perdeu o controle de seus atos, sentindo-a tão perto e  encostou-se nela, fechando os olhos, pousando ao rosto no peito de Jessie, trêmula de emoção.

 

        Jessie ficou imóvel, surpresa demais para reagir.

 

        Dale afastou-se bruscamente e saiu da sala quase correndo.

 

        Jessie ficou ali, estática, olhando para a porta. Depois de uns minutos é que recuperou-se e se moveu, sentando em sua mesa.

 

        O que Dale fizera? Era incrível! Ela se colara ao seu corpo em uma entrega cheia de emoção. E o seu nome, dito por ela! Quanta paixão havia naquele sussurro! A verdade a fez ficar atordoada: Dale Benson a queria! Vira isso nos olhos, na voz, no contato trêmulo do corpo dela contra o seu. E não reagira, surpresa demais para fazer um gesto ao menos.

 

        Como nunca percebera nada? Agora entendia os olhares disfarçados, as idas dela à biblioteca. Como havia sido idiota! Dale a desejando, e imbecilmente pensando que ela a estava vigiando, à mando de Benson!

        Dale, tão linda, tão fina, tão rica, era algo inatingível em sua cabeça, para olhá-la com outros olhos que não os de uma empregada para a filha do patrão.

 

        Mas agora, esse tabu havia sido destruído. Por Dale.

 

******************

 

        Dale estava em sua sala em pânico. Como se descontrolara àquele ponto? Tudo por causa do ciúme que sentira, em ver Jessie falando tão próxima de Lana, isso a descontrolara. E agora, Jessie sabia o que sentia! Não, ela devia estar sem entender nada, notara a surpresa dela. Ah, por que descobrira o que sentia justamente naquele momento, ao invés de ser uma descoberta mais calma, que lhe desse tempo para se controlar? Havia assustado Jessie. Ela devia estar achando que era louca. Como teria coragem de encará-la?

 

        Tinha que combater o que sentia! Aquilo não era certo. Ela não era uma homossexual, não era! Aquela paixão passaria com o tempo. Era só resistir, pensou tentando ainda negar o que sentia.

 

        Imbuída dessa idéia, sentou-se para trabalhar. Era isso. Nada melhor que concentrar-se no trabalho, para esquecer Jessie.

 

        Jessie esperou a tarde inteira que Dale voltasse. Mas ela não apareceu mais. O expediente encerrou e Jessie saiu do trabalho. Pegou o ônibus e foi para casa.

 

        Estava emocionada pelo que havia descoberto e preocupada com Dale. Ela devia estar arrependida de ter se revelado daquele jeito. Ela fugira em seguida e não aparecera mais.

 

        Mas Jessie não iria fingir que não havia acontecido nada. Dale havia despertado um sentimento em seu coracão com aquela revelação e agora iria até o fim para conquistá-la. A bela, doce Dale... como seria beijar aqueles lábios bem feitos? Abraçar aquele corpo esguio?

 

        Lembrou de Lana. Ela era belíssima, mas outro tipo, muito diferente de Dale. Uma mulher sensual, segura de si. Era muito mais o seu tipo. Mas ela era noiva de Benson.

 

        Sorriu. Benson tinha muito bom gosto. E a filha dele era linda... entre Dale e Lana, ficaria com as duas...

 

        Droga! Duas mulheres lindas, e ela completamente só. Tinha que mudar sua vida. Era uma mulher com o lado sexual exacerbado, não agüentava ficar muito tempo sem sexo. E já estava sem sexo há mais de vinte dias. Não gostava de masturbar-se para se satisfazer.

 

        Jocelyn a recebeu sorridente, anunciando que fizera uma torta de morangos e um assado.

 

        -Vá tomar um banho, enquanto coloco a mesa.

 

        Jessie sorriu, tirando o casaco.

 

        -Jocelyn, você não me deixa ajudá-la em nada! Está mimando-me, depois vou me acostumar...

 

        Jocelyn sorriu, olhando-a ternamente.

 

        -Sempre quis ter uma filha, Jessie. E você é agora como se fosse uma filha. Deixe-me mimá-la.

 

        Aquilo emocionou Jessie. A braçou a bondosa senhora, olhando-a com os olhos cheios de lágrimas.

 

        -Obrigada, Jocelyn... e você é a mãe que eu gostaria de ter.

 

        Jocelyn também emocionou-se. Mas desvencilhou-se, disfarçando a emoção com um sorriso.

 

        -Parecemos duas choronas sentimentais. Vá, vá tomar seu banho.

 

        Jessie subiu para seu quarto. Tomou um banho prolongado, vestiu-se. Agora tinha mais cinco blusas e quatro calças, que comprara em uma liquidação. Eram blusas de algodão e calças jeans, que usava fora do trabalho. Sentia-se melhor nelas que naqueles conjuntos de gabardine quentes.

 

        A janta estava excelente. Jessie comeu com apetite e elogiou a comida. Jocelyn sorria, orgulhosa.

 

        Acabaram a refeição e Jessie foi para a cozinha com Jocelyn. Ela lavava os pratos e Jessie enxugava.

 

        -Amanhã Lana Kincayd virá buscar-me para eu ir até sua casa – informou Jessie.

 

        Jocelyn a olhou atentamente.

 

        -Lana Kincayd ? Ela é a noiva de seu patrão.

 

        -Eu sei.

 

        -O que ela quer com você?

 

        -Quer entrevistar-me para um trabalho seu. Sua tese de doutorado em sociologia.

 

        -Hum... você então vai ajudá-la, não é ?

 

        -Sim, não posso recusar. Ela quem pressionou Benson para que me desse o emprego. Conhece-a ?

 

        Jocelym a olhou com seriedade.

 

        -Todos nessa cidade conhecem os Kincayd.

 

        Jessie ficou interessada. Olhou para Jocelyn curiosa.

 

        -Pode me contar o que sabe deles ? Gostaria de saber algo sobre Lana, afinal vou à casa dela.

 

        Jocelyn continuou sua tarefa e falou:

 

        -Arnold Kincayd, o pai de Lana, era casado com uma mulher belíssima, Norma. Era dono de uma grande fortuna, possuía as melhores terras do lugar. Parecia uma família feliz, mas uma noite houve uma tragédia. Arnould assassinou a mulher com várias facadas e matou-se com um tiro no ouvido. Ninguém soube até hoje o motivo da tragédia. Lana era uma adolescente e ficou muito abalada. Foi criada por uma tia até completar a maioridade. Então, voltou para a casa dos pais e vive lá somente com uma governanta que a conhece desde pequena. Benson era administrador dos bens dos Kincayd e isso o aproximou de Lana. E agora são noivos.

 

        Jessie a ouviu em silêncio, entendendo o drama de Lana. Era bem parecido com o seu. E ela ultrapassara a tragédia, era uma mulher dinâmica, inteligente, que estava se formando, levando a vida em frente. Admirou-a .

 

        -Obrigada, Jocelyn. Agora tenho alguma informação para saber quem é Lana Kincayd,  agora conheço-a um pouco.

 

        -Ninguém a conhece, Jessie. Ela sempre foi muito reservada. Seus amigos são todos de New York, onde viveu depois da tragédia.

 

        -Tudo bem. Mas já é alguma coisa.

 

        -Espero que se dê bem com ela. Benson a ouve muito.

 

        -Vou fazer o possível.

 

        Jessie foi dormir ansiosa. Pela manhã, Lana viria buscá-la. Estava vivamente interessada nela. A tragédia dela a fazia sentir-se identificada com Lana. Uma mulher tão bela, forte, sensual, inteligente.

 

        Nem lembrava mais de Dale Benson.

 

        Dormiu profundamente e acordou cedo. Queria estar pronta quando Lana chegasse. Tomou um banho, vestiu calças jeans e blusa de algodão de mangas compridas. Colocou um par de tênis e olhou-se no espelho criticamente.Melhor não poderia estar.

 

        Ouviu uma busina diante da casa. Olhou pela janela. Era Lana, que olhava para cima debruçada na janela do carro, um Porsche negro. Ela acenou e Jessie gritou para que esperasse. Desceu o lance de escada correndo. Jocelyn estava na sala e riu, vendo-a afobada.

 

        -Até logo, Jocelyn! – Disse, abrindo a porta.

 

        Jessie saiu e caminhou para o carro. Ela abriu a porta e sentou ao lado de Lana, olhando-a. Estava linda, o rosto lavado, de cabelos presos, vestida com blusa branca decotada e bermuda cinza.

 

        -Bom dia – disse Lana, olhando-a sorridente – Espero que não a tenha acordado muito cedo.

 

        -Oh, não se preocupe, sou acostumada a levantar cedo – Respondeu Jessie, sorrindo -  Não gosto de ficar na cama depois de acordada. A menos...

 

        Lana a encarou maliciosamente, ligando o carro.

 

        -A menos... - repetiu.

 

        -A menos que esteja bem acompanhada... – completou.

       

        Lana riu e deu a partida. O Porsche saiu em velocidade moderada.

 

        -Já tomou o desjejum, Jessie ?

 

        -Não.

 

        -Então, tomará lá em casa.

 

        -Não se preocupe com isso.

 

        Lana olhou-a rapidamente.

 

        -Você é uma pessoa muito incomum, Jessie.

 

        -Incomum?! Como assim?

 

        -Não se enquadra a um padrão de comportamento.

 

        Jessie a olhou surpresa.

 

        -Eu não enquadro em que padrão? Por que diz isso?

 

        -Não vá se zangar. Mas andei investigando-a .

 

        Jessie olhou-a pasma.

 

        -Você o quê ?!

 

        -Andei investigando-a . Queria saber como é a vida de uma mulher que tenta se reintegrar à sociedade. Faz parte da tese que defendo.

 

        Jessie ficou vermelha. Pensou em Mary.

 

        -O que você investigou?

 

        -Fui à prisão onde você ficou e entrevistei suas... amigas. Elas me falaram algumas coisas. E outras,  eu percebi.

 

        Olhou-a com um sorriso  malicioso.

 

        -Fiquei impressionada com sua fama lá na prisão. Você deixou saudades no mulheril.

 

        Jessie ficou envergonhada com o comentário. Então, Lana sabia de sua vida sexual na prisão. Mas também revoltou-se:

 

        -Não acha que invadiu minha privacidade muito?

 

        -Desculpe, mas tinha de fazê-lo, Benson responsabilizou-me por você, enquanto trabalhar no escritório dele.

 

        Jessie olhou-a chocada.

 

        -Isso é um absurdo!

 

        -Também acho, mas foi a condição para você ficar lá. E aceitei isso por que confiei em você.

 

        Jessie sorriu com ironia.

 

        -Confiou, mas foi investigar-me.

 

        Lana ficou vermelha. Olhou-a de soslaio.

 

        -Desculpe, mas fiz isso mais pelo trabalho que estou fazendo. Quero traçar um perfil seu. Você é uma personalidade interessantíssima.

 

        Jessie olhou para a frente, com irritação e ressentida.

 

        -É, sou um bicho raro que merece ser estudado e vigiado, porque sou muito perigosa.

 

        -Não, não é assim, Jessie! Só quis conhecê-la melhor para entendê-la.

 

        Jessie a olhou com desconfiança.

 

        -Para quê quer entender-me?

 

        -Para ajudá-la .

 

        -E por que quer ajudar-me? Não lhe pedi nada.

 

        Lana custou a responder. Parecia procurar a resposta dentro de si. Finalmente suspirou e falou baixinho:

 

        -Não sei...

 

        O carro correu um bom tempo sem que falassem nada. Jessie pensava em tudo que Lana dissera. Sentia-se magoada em saber que ela investigara sua vida.  E ódio de Benson, por saber da condição dele para que trabalhasse lá.

 

        O carro adentrou por uma alameda circundada por árvores e gramados. Parou diante de uma casa de pedra, com um vasto terraço debruçando-se para uma piscina. Uma casa moderna, imponente entre árvores frondosas.

 

        Lana parou diante da casa e voltou-se para Jessie, que olhava tudo impressionada.

 

        -Venha, vamos entrar.

 

        Jessie saltou e seguiu Lana. Ela atravessou um vasto jardim e abriu a porta principal, de mogno maciço. Entraram e Jessie contemplou uma vasta sala com uma parede de pedra com uma lareira, o teto de madeira apaneilada, sofás espalhados pela sala em L, uma vidraça tomando toda uma parede, dando para a frente da casa, esculturas de bronze, um tapete branco onde seus pés afundaram.

 

        Lana a olhou com um sorriso.

 

        -Quer conhecer a casa ?

 

        -Não. É tão grande, que tomaria muito seu tempo.

 

        Lana riu, jogando-se em um sofá.

 

        -Tenho muito tempo hoje, Jessie. Venha, sente-se aqui.

 

        Jessie caminhou lentamente e sentou-se diante dela.

 

        Lana fitou-a com atenção. Olhou-a nos olhos e sorriu.

 

        -Quer tomar alguma coisa ? Um uísque, vinho, cerveja ?

 

        -Ainda não tive o desjejum. Depois, talvez.

 

        Ela ergueu-se de um salto.

 

        -Oh, esqueci disso! Desculpe-me...

 

        Apanhou o telefone interno e apertou um botão, olhando-a .

 

        -Rachel ? Quer fazer o favor de trazer um desjejum completo até o living ? Obrigada.

 

        Desligou e tornou a sentar-se, com as pernas dobradas. Olhou-a com a mão apoiando o rosto , pensativa.

 

        -Você é uma mulher muito atraente, Jessie. Percebi isso logo que a vi. Tem um rosto muito marcante. Se tivesse nascido em New York, poderia ser uma manequim famosa.

 

        Jessie encolheu os ombros.

 

        -Mas não foi assim. Não dianta falar nisso.

 

        -A vida nos prega cada peça, não é, Jessie ?

 

        -É... sei que a sua também não foi fácil.

 

        Lana a olhou surpresa.

 

        -O que lhe disseram de mim ?

 

        Jessie a encarou.

 

        -Pouca coisa, mas dá para saber que temos algo em comum: a tragédia em nossa família.

 

        -Oh! Então, contaram a você... – suspirou, com o rosto tenso – É algo que não gosto de lembrar, Jessie.

 

        -Mas não me disse que é bom falar do meu problema, que é bom colocar para fora nossos traumas ?

 

        Lana percebeu a ironia de Jessie. Ia rebater, mas a governanta entrou com uma bandeja, que depositou na mesa de centro.

 

        -Obrigada, Rachel. Pode ir. Eu sirvo.

 

        A governanta sorriu para Jessie e afastou-se. Era uma senhora gorducha e simpática.

 

        Lana encheu a xícara de café e olhou para Jessie.

 

        -Açúcar ?

 

        -Sim. Dois cubos, por favor.

 

        -Com leite ? Creme?

 

        -Não.

 

        Estendeu a xícara para Jessie e sorriu-lhe.

 

        -Coma à vontade. Tem torradas, queijo, ovos e bacon.

 

        Jessie serviu-se de torradas e olhou para Lana, que a observava comer.

 

        -Quer começar a entrevista ?

 

        -Agora, não. Coma primeiro. E não tenha pressa.

 

        Jessie comeu pouco, sentindo o olhar analizador de Lana. Ele mexia com seus nervos. Lana era realmente uma tentação e com aquelas pernas sensacionais à mostra, Jessie quase se engasgava com o café.

 

        Comeu duas torradas e passou o guardanapo pelos lábios, olhando para Lana à espera das perguntas.

 

        Lana olhou-a surpresa.

 

        -Já acabou ?

 

        -Sim.

 

        -Mas não comeu quase nada !

 

        -Estou satisfeita.

 

        Lana sorriu, olhando-a nos olhos.

 

        -Engraçado... você tem uns modos tão finos que acho incrível que tenha passado tantos anos numa prisão, em meio à... aquelas mulheres.

 

        -É simples. Prometi a mim mesma não assimilar os modos delas. Guiei-me sempre pelos modos de uma assistente social que trabalhava lá, uma mulher incrível, Sarah Meltman.

 

        Lana a olhou maliciosamente.

 

        -Um caso seu ?

 

        Jessie deu um de seus raros sorrisos.

 

        -Não. Sarah Meltson tem sessenta anos e é uma dama. Trabalha na prisão por idealismo. Ela quem me ensinou tudo que sei. Todas as presidiárias a adoram.

 

        -Sorte sua... assimilou bons modos...

 

        -Somente um pouco... sei que tenho gestos muito... decididos. Mas alguma influência eu tinha que ter, das minhas colegas.

 

        -Já observei isso. É mais sua postura. Tem um modo de andar e de olhar que são bem... masculinos. Mas isso em você é muito interessante. Combina com sua personalidade.

 

        Jessie enrubesceu. Lana falava olhando-a atentamente, e sua voz aveludada não soava em tom de crítica, mas de admiração.

 

        -Pronta para entrevista ? – sorriu Lana.

 

        -Sim . Vai gravar ?

 

        -Se importaria ? Prometo não mostrar a ninguém. E no meu trabalho, só vou citar suas iniciais.

 

        Jessie deu de ombros.

 

        -Não me importo. Já sabe quase tudo de mim.

 

        Lana foi até uma estante e apanhou um pequeno gravador e o depositou entre elas.

 

        -Quer me contar sua vida desde a tragédia que aconteceu ? Ou prefere falar à partir da vida na prisão ?

 

        Jessie encarou-a.

 

        -O crime você já sabe.

 

        -Mas não sei a sua motivação. Li os autos do processo, mas você não falou muito. Só disse que matou seu pai numa briga. Não justificou seu gesto, recusando-se a falar. Isso foi a causa de ter pegado uma pena tão longa. Não se defendeu.

 

        Jessie sentiu vir à sua mente tudo novamente. Os interrogatórios, o julgamento, a sentença. O rosto desesperado de sua mãe olhando-a lá da assistência, num mudo pedido de perdão.

 

        O peso do seu segredo a sufocou mais uma vez. Quantos anos o guardava, quantas vezes queria gritá-lo ! Mas não podia. Tinha que agüentar. Não sabia notícias de sua mãe. Ela nunca a visitara na prisão, nunca lhe escrevera. E Jessie aceitara isso passivamente. Sabia por que ela não fazia isso: vergonha.

 

        -Jessie, não gostaria de visitar a última morada de sua mãe ? Ou já esteve lá ?

 

        Jessie, que estava com o olhar perdido, olhou para Lana sem entender. Ela a olhava séria.

 

        -A última morada ? Então sabe onde ela está ? Deve ter saído da fazenda. Desde o crime e o julgamento, nunca mais a vi.

 

        -Jessie então, não sabe ?

 

        Lana se ergueu, com olhar alarmado.

 

        -Não sei o quê ?

 

        -Jessie ! – Ela se ajoelhou diante de si, segurando suas mãos. Olhava-a tensa – Sua mãe faleceu há vários anos !

 

        Jessie levou um choque. Ficou olhando-a atordoada. Não. Lana estava mentindo. Era um jogo para descontrolá-la.

 

        -Que invenção é essa ? – Perguntou, com voz trêmula.

 

Lana apertou suas mãos, nervosamente.

 

        -Jessie, depois que li os autos do processo, fui procurar sua mãe. Queria saber detalhes do que aconteceu, segundo ela. Estive na fazenda que vocês moravam. Está abandonada, só existe lá um velho, que cria meia dúzia de galinhas para sobreviver. Contou-me que sua mãe faleceu seis meses depois de sua condenação, de ataque cardíaco. Ninguém escreveu para você, contando isso ?

 

        Jessie olhou-a sentindo um gosto amargo na boca.

 

        -Não... não pode ser... não pode...

 

        Pegou Lana pelos ombros e a sacudiu, olhando-a desesperada. A revolta brilhava nos olhos de Jessie e Lana a fitava asustada. Jessie parecia à beira de um ataque de nervos.

 

        -Diga que é mentira o que disse! Diga!

 

        -É verdade, Jessie... ela está enterrada no cemitério da cidade... estive lá, para comprovar.

 

        Jessie a largou e deu alguns passos incertos, erguendo-se. Olhou para Lana com olhos marejados de lágrimas.

 

        -Deus ! Minha mãe, morta ! Eu a amava... queria voltar a vê-la quando tivesse condições de tirá-la daquele lugar ! – Disse, com um soluço.

 

        -Jessie ! Acalme-se, por favor ! Foi há tanto tempo !

 

        Jessie jogou-se no sofá, curvada, como se estivesse sob um grande peso nas costas. Apoiou o rosto nas mãos, olhando para o chão.

 

        -Tudo inútil... todos esses anos de sofrimento, inúteis... – Balbuciou, como para si mesma.

 

        -O que quer dizer com isso, Jessie ?- Perguntou Lana, sentando-se ao lado dela – Estou sentindo-me culpada de seu sofrimento, mas eu não sabia que você ignorava a morte de sua mãe !

 

        -Você não pode entender... você não sabe sabe a verdade...

 

        -Que verdade, Jessie ?

 

        Ela a fitou angustiada.

 

        -O que vai adiantar agora eu falar ? É tarde demais !

 

        Lana a fitou nos olhos.

 

        -Fale, Jessie ! A verdade pode aliviar o que sente !

 

        Jessie a encarou e colocou para fora o segredo que queimava em seu íntimo durante anos:

 

        -Eu não matei meu pai. Foi minha mãe quem o matou. Eu assumi a culpa para que ela não fosse para cadeia – Revelou, com voz abatida – Ela já havia sofrido tanto, nas mãos dele ! Ela não suportaria passar por tudo que passei. E durante dez anos fiquei numa prisão, pacientemente, porque achava que estava preservando a liberdade de minha mãe. Agora sei que foi inútil, ela morreu ! Deus como isso dói !

 

        Lana a fitou boquiaberta. A revelação de Jessie a deixou estupefata.Então, Jessie não era uma assassina!...

 

        Jessie a olhou com um sorriso amargo.

 

        -Talvez você não acredite em mim. Mas foi o que aconteceu. Você não sabe o que é passar por uma assassina durante anos, ser apontada em um tribunal como a assassina do próprio pai !  Sentir no olhar das pessoas a repulsa por um crime tão brutal , ser julgada como uma assassina cruel e monstruosa ! – Completou, com a voz embargada.

 

        Ela recomeçou a chorar. Os soluços a sacudiam.

 

        Lana a olhava em silêncio. Impulsivamente, abraçou-a e a puxou contra si. Suas mãos acariciaram as faces molhadas, enxugando-as. A proximidade de Jessie a perturbava mais do que poderia admitir. Tinha vontade de abraçá-la mais, calar aqueles soluços com beijos.

 

        Jessie ergueu o rosto e olhou-a de muito perto.

 

        Ficaram se fitando nos olhos, em silêncio. Apenas um palmo separava seus lábios.

 

        Jessie aproximou mais o rosto. Lana recuou, sabia o que ela ia fazer. Uma parte de seu ser, o racional, não queria que aquilo acontecesse. Mas a parte emocional desejava, atiçava-a a provar aquele amor proibido.

 

        Jessie ergueu as mãos e espalmou em seu rosto. Como eram delicadas, como emitiam um calor delicioso ! Elas pareciam elétricas, sua pele se arrepiava como sentisse choques.

 

        Jessie puxou seu rosto lentamente, suavemente, olhando-a nos olhos profundamente, os lábios se entreabriram. Seus lábios se tocaram suavemente, Jessie movimentou o rosto, esfregando os lábios quentes nos seus.

 

        Lana não agüentou mais. Os arrepios que sentia eram intensos e lhe tiraram o resto da razão.

 

        Esmagou a boca  na de Jessie, abraçando-a pelo pescoço apertadamente. Sentiu a língua ávida dela procurar a sua, acariciar, sugar suavemente. Lana correspondeu frenéticamente, sentindo um desejo imenso que Jessie a pegasse, apertasse, fizesse o que bem entendesse.

 

        Os corpos unidos estremeciam em um mesmo desejo.

 

        As mãos de Jessie deslizaram para os seios de Lana, apertando-o suavemente, alisando-os.Lana gemeu contra sua boca.

 

        Jessie passou os lábios pelo pescoço macio, desprendendo da boca faminta de Lana. Seus dedos práticos desceram as alças da blusa e iam puxá-la para baixo, quando o telefone tocou estridentemente, despertando-as daquelas efusões.

 

        Lana empurrou-a, se desprendendo dos braços de Jessie.

 

        Olharam-se ofegantes. Lana a encarava com um olhar assustado. Recompôs-se e atendeu o telefone, com voz trêmula:

 

        -Alô.

 

        Escutou e respondeu com forçado entusiasmo:

 

        -É mesmo querido ? Oh, isso é ótimo ! Logo estarei aí ! Ok...ok... até já. Um beijo.

 

        Desligou e olhou para Jessie, que a observava expectante. Ergueu-se do sofá e a olhou com os lábios apertados.

 

        -Hum... acho que perdemos a cabeça, Jessie... deixei-me levar pelos meus nervos... ainda bem que paramos à tempo.

 

        Jessie a encarou com decepção.

 

        -Está mentindo. Você beijou-me com paixão, Lana. Você está é com medo do que sente. Mas sei que quer ser minha, esse beijo mostrou isso.

 

        Lana desviou o olhar, enrubescendo. Mas depois falou com convicção, olhando-a  de frente:

 

        -Nós nos envolvemos em um clima que se formou de repente e nos deixamos dominar por isso, mas o momento passou, Jessie. Eu não a amo e você não me ama. Seria um ato sem sentido. É melhor esquecermos isso e nos dedicarmos à entrevista, como duas pessoas sensatas.

 

        Jessie a encarou com um brilho perigoso no olhar.

 

        -Não acredito em você, são desculpas de uma pessoa que quer justificar-se, mascarar o que sente ! Você sente uma atração por mim, mas não tem coragem de ir adiante ! Isso porque sou uma ex-presidiária, não é?

 

        -Não é nada disso ! – combateu Lana, olhando-a desafiadoramente – Sei muito bem o que quero, e tenho certeza que não desejo me meter em uma aventura com uma mulher !

 

        Jessie empalideceu visivelmente, ao ouvir essa declaração. Era a primeira vez que alguém a rejeitava. E logo aquela mulher que a fizera pensar pela primeira vez que estava se apaixonando, ao tê-la nos braços. Sentira uma grande emoção, mas agora a decepção feria seu íntimo dolorosamente.

 

        -Tudo bem, Lana. Você quer assim e vou atendê-la. Vou esquecer o que aconteceu. Realmente, não daria certo. Você é uma covarde e esse é um defeito que não aceito em ninguém. Continue com Benson, enganando a si mesma sobre quem você é.

 

        Falou entredentes, como se mastigasse cada palavra. Em seu  olhar transparecia a mágoa, a raiva que sentia. Encaminhou-se para a porta.

 

        Lana a olhou surpresa. Deu dois passos para ela, quando pousou a mão na maçaneta.

 

        -Jessie !

 

        Ela voltou-se e a olhou com um resto de esperança.

 

        -Não vai mais querer ser entrevistada ? – Perguntou Lana, com voz vacilante.

       

        Aquele brilho de esperança nos olhos de Jessie se apagou. Transformou-se em pura ira.

 

        -Vê se me esquece, ok ? Vá para o inferno! – gritou ela, abrindo a porta e saindo furiosa.

 

        Lana ficou ali imóvel. Pelas vidraças, viu-a afastando-se em passadas largas até sumir de suas vistas. Então, sentou-se no sofá, sentindo uma inexplicável tristeza.

 

        Não queria ter dito aquelas palavras tão duras a Jessie. Mas havia sido  o único meio que achou para mantê-la afastada, porque tinha medo de não resistir se ela a tomasse novamente nos braços. Não queria dar esse rumo à sua vida. Benson que era a pessoa certa para ela, ele a entendia. Sentia uma profunda atração por Jessie, mas aquilo passaria com o tempo.

 

        Suspirou. Talvez fosse mesmo uma covarde. Mas não queria amar nunca. Esse sentimento era para os idiotas. Por isso Benson lhe era perfeito. Satisfazia seu lado sexual, mas não  a envolvia em sentimentos perigosos.

 

*********************  

 

        Jessie chegou em casa tarde, já anoitecia. Havia andado a êsmo, parando em um bar e bebendo além da conta. Depois, havia saído meio aérea e havia sentado em um banco em um parque, onde várias crianças brincavam. Havia adormecido no banco e só acordou quando um guarda a abordou, dizendo que era proibido dormir ali. Levantou-se e foi para casa. Subiu silenciosamente para seu quarto e jogou-se na cama.

 

Estava com ódio de Benson, de Lana, de tudo que estava acontecendo com ela. Chorou, ali sozinha. E pensou nos anos que estivera presa, sem saber da morte da mãe.

 

 O mundo lhe pareceu cruel, sua vida estava vazia, sem sentido. Na prisão, pelo menos estava cercada de pessoas como ela, que não a olhavam com receio, que não a consideravam inferior. Fora da prisão, era uma pária, sem amigos, sem família, sem quem a amasse.

 

        Não... não era bem assim... Jocelyn gostava dela como à uma filha. E havia Judy, uma amiga maravilhosa, que a apoiava. Mas... elas continuariam gostando dela se soubessem de sua tendência sexual ? E Dale?  Ela a queria para um relacionamento sério, ou apenas queria usá-la para uma experiência e depois ignorá-la? Acreditava mais na segunda hipótese, à essa altura dos acontecimentos. Devia ser como Lana, queria provar do fruto proibido, mas o medo era maior. Não queriam se envolver com uma ex-presidiária, de nível sócio-econômico inferior, porque teriam vergonha desse relacionamento.

 

        Pois que Lana e Dale fossem para o inferno! – Pensou, intimamente ferida com esse pensamento – Será que Dale pensava mesmo como Lana? E se ela estivesse mesmo apaixonada?

 

        “Amanhã será outro dia”, dizia Scarlet O’Hara, em E o vento Levou. Jessie sorriu ao lembrar dessa frase. Cada dia na prisão a repetia em pensamento. E mais uma vez essa frase trouxe esperança ao seu coração .

 

        Revirou na cama, até que o sono a venceu.

 

continua na parte 4

 

 

Feedback: [email protected]

 

 

 

Leth       Uber      Home

 

 

       

Hosted by www.Geocities.ws

1