NUNCA AME UMA

ASSASSINA

 

 

PARTE 2

 

        Jessie foi percorrendo as ruas cheias de gente. Depois de tanto tempo presa em uma prisão, sentia o doce gosto da liberdade. Era gostoso andar pelas ruas movimentadas, poder ir onde quisesse. Entrou em uma loja de departamentos e escolheu algumas roupas. Provou-as e ficou satisfeita em ver que caíam muito bem em seu corpo esguio. Comprou um blazer azul-marinho e outro cinza e escolheu para combinar duas calças compridas de corte reto e duas blusas de algodão, de mangas compridas. E para completar, cinco calcinhas de lycra, três sutians, um desodorante, pasta dental, shampoo e um vidro de colônia. Dos quarentas dólares que sobraram, gastou vinte e cinco com um par de sapatos pretos, de salto baixo. Já era muito alta, com um metro e oitenta, para usar sapato de salto alto. E não gostava, nunca usara salto alto.

 

        Com duas sacolas de compras, lanchou no MacDonald e viu que o seu dinheiro estava chegando ao fim, só lhe restavam doze dólares. Não dava para alugar um quarto e nem ir para um hotel.

 

        Ficou desesperada. O que iria fazer? Não podia dormir em um banco de praça.

 

        Mary. O nome lhe veio à mente como uma tábua de salvação. Ela podia acolhê-la pelo menos uma noite. Mas isso, se a garçonete ainda quisesse falar com ela, depois de sua saída fria.

 

        Não tinha vontade de ver a garçonete novamente, mas não tinha alternativa. Ou ficava na casa dela, ou teria de dormir na rua.

 

        Ficou sentada em uma praça, olhando os pedestres com inveja. Eles tinham para onde ir. Ela, não. Se Mary não concordasse, teria de dormir na rua. Tinha de engolir o seu orgulho e procurá-la.

        Olhou para o relógio da praça. Mary já devia ter saído do trabalho. Tinha de ir procurá-la em casa. Sentia-se deprimida por ter de fazer isso, mas precisava.

 

        Tomou o ônibus e foi para a rua onde Mary morava, depois de informar-se sobre qual ônibus passava na estrada da cidade. Saltou próximo à rua e dirigiu-se para a casa de Mary com o coração apertado. Chegou à porta do apartamento e apertou a campainha, tensa.

 

        Mary não demorou a abrir a porta. Fitou-a surpresa.

 

        -Jessie!

 

        Jessie a fitou com ar desajeitado.

 

        -Olá, Mary...

 

        Os olhos de Mary demonstraram ter gostado da sua chegada.

 

        -Olá... não acredito que esteja aqui! Pensei que nunca mais iria vê-la!

 

        A voz dela traía sua emoção. Jessie deu um sorriso forçado.

 

        -Pensei melhor. Acho que fui muito rude com você – Disse.

 

        Mary sorriu e afastou-se para ela entrar.

 

        -Está desculpada. Entre!

 

        Jessie passou por ela e entrou, depositando as sacolas de compras no chão. Mary fechou a porta e olhou para as sacolas com curiosidade.

 

        -Comprei algumas roupas. Estava precisando.

 

        Os olhos de Mary se estreitaram, fitando-a .

 

        -A quem roubou, para comprar isso, Jessie? Sei que você estava com pouco dinheiro!

 

        Jessie ficou vermelha de raiva  com a suspeita dela. Fitou-a indignada.

        -Mary, eu matei uma pessoa numa briga. Mas nunca fui uma ladra! Essas roupas foram compradas com o dinheiro de um adiantamento que recebi  de um emprego que arranjei! Não sou uma ladra, nunca fui!

 

        Mary a olhou surpresa e enrubescida.

 

        -Oh... desculpe-me, Jessie... é que você saiu da prisão ontem, e já aparece assim, com compras... enganei-me. Mas, como arranjou um emprego tão rápido? Vai trabalhar em quê? Não é nada desonesto, é?

 

        Jessie respirou fundo, dominando sua raiva.

 

        -Não é nada desonesto! O diretor da penitênciária deu-me uma carta de apresentação, indicando-me à um amigo dele. Fui procurar o homem, que deu-me um emprego. Vou começar amanhã. É em um escritório de advocacia.

 

        Mary sorriu, desconsertada.

 

        -Desculpe-me mais uma vez. É que seu passado é bem... forte.

 

        -Está desculpada, mas não pense mais que sou uma ladra. Esse defeito eu nunca tive.

 

        Mary aproximou-se dela e a abraçou, olhando-a com desejo.

 

        -Estava morrendo de saudade de você, Jessie. Não consigo esquecer aqueles momentos que tivemos. Você é tão gostosa!

 

        Jessie a fitou nos olhos.

 

        -Posso dormir aqui?

 

        -Claro paixão... vamos comemorar seu novo emprego. Que bom, Jessie! Sabia que você não era uma qualquer!

 

        Jessie a fitou com ironia.

 

        -É, estou vendo... primeiro, achou que roubei, depois pensou que eu tinha arranjado um trabalho desonesto.

 

        Mary riu e beijou-a no queixo.

 

        -Ora, paixão, eu me enganei e já pedi desculpas. Vou fazer um jantar gostoso para você e depois...

 

        -Queria tomar um banho. Estou morrendo de calor.

 

 

        -Claro, meu bem... venha...

        Mary entrou no box com Jessie, com o pretexto de ensaboar suas costas. Mas no meio do banho, grudou-se nela e ofereceu a boca. Jessie a possuiu no banheiro, embaixo da água do chuveiro, fazendo-a gritar de prazer. Saíram do banheiro depois e continuaram no quarto. Mary parecia uma ninfomaníaca, gozando vezes sem conta. Somente bem mais tarde ela fez um jantar com ovos, presunto e panquecas.

 

        Jessie comeu com apetite. Estava faminta e nunca uma comida lhe pareceu tão saborosa. Ergueu os olhos do prato quando acabou e deu com o olhar de Mary, que a fitava embevecida.

 

        -Paixão, estou louca por você – confessou – você me deixa louca. Nunca trepei com alguém assim como você, tão gostosa, tão linda... quero que fique comigo.

 

        Jessie a fitou e viu que a tinha nas mãos. O ollhar de Mary parecia contemplar um presente que desejava muito. Jessie a encarou franzindo o cenho.

 

        -Não posso ficar aqui. Você não mora sozinha. E sua amiga pode não concordar em ter-me aqui.

 

        -Você não tem onde ficar, Jessie. Fique aqui, eu dou um jeito.

 

        -Bem, realmente, meu dinheiro acabou. E só vou receber no final da semana. Mas, que jeito vai dar?

 

        -Ouça: minha amiga só chega em casa pela manhã. Você pode dormir aqui toda noite, jantar... durante o dia, quando minha amiga está aqui, você estará trabalhando e não haverá problema, até você receber e arranjar um lugar. E posso lhe emprestar cinquenta dólares para lanchar e passagem durante a semana. Não é muito, mas é tudo que tenho guardado.

        Jessie parou de comer e segurou a mão dela.

 

        -Obrigado, Mary. Nunca esquecerei isso. Você é uma mulher e tanto.

 

        Ela riu, sentando-se em seu colo. Abraçou-a pelo pescoço.

 

        -É uma troca. Você me dá amor e eu a ajudo. É  interesse meu também.

 

        Jessie abriu sua blusa. Os seios fartos de Mary se mostraram com os bicos arrepiados.

 

        Jessie os alisou e beijou. Mary apertou seu rosto contar ela, gemendo.

 

        Foram para a cama. Mary agarrava-a alucinada, gritando de prazer, pedindo mais, mordiscando-a . Olhava para aquele rosto belo, com uma expressão quase selvagem, para o corpo forte e flexível que lhe fazia loucuras e delirava.

 

        Finalmente dormiram, exaustas.

 

        Jessie levantou-se cedo, tomou um banho e vestiu suas roupas novas. Olhou-se no espelho, admirada com sua própria aparência. Estava outra mulher, mais feminina, mais fina. Quem a olhasse agora, nem pensaria  que fôra uma ex-presidiária. Parecia uma mulher moderna, dessas executivas das propagandas veiculadas na tv.

 

        Somente o olhar e os gestos um tanto masculinos a tornavam uma mulher estranhamente diferente.

 

        Mary a olhou entusiasmada.

 

        -Meu Deus, você está linda! Parece uma mulher fina, chic! O que faz uma roupa!

 

Jessie franziu o cenho, séria.

 

        -Não exagere. Só estou mais decente.

 

        -Decente! Você está uma beldade, Jessie! – Riu Mary.

 

        -Não gosto deste termo. Parece coisa de idiota e narcisista.

 

        -Jessie, você é tão séria! Ok, não gostou, paciência. Mas você está linda!

 

        -Obrigada, Mary. Agora vou indo. Não quero chegar tarde em meu primeiro dia de trabalho.

 

        -À noite espero-a aqui. Cuide-se.

 

        Ela saiu, sentindo-se alegre e jovial. Finalmente ia começar uma vida decente. Os anos negros de sua vida haviam terminado.

 

        Eram oito e meia da manhã quando saltou do ônibus. Tomou um café num bar com o dinheiro que Mary lhe emprestara e olhou as manchetes nas bancas de jornais, para informar-se. Viu que naqueles anos passados na prisão as coisas no mundo só haviam piorado:

 

        “Franco atirador mata cinco em um bar”.

 

        “Máfia metralha juiz que iria julgar mafioso.”

 

        “Bush deseja ataque ao Iraque”.

 

        Saiu dali menos alegre. Subiu para o escritório. Estava ainda cedo, mas estava ansiosa para começar.

 

        Judy já havia chegado e tomava café sentada em sua mesa. Ela a viu entrar e franziu o cenho.

 

        -Ainda não abrimos, senhorita.

 

        Jessie riu, aproximando-se.

 

        -Judy! Sou eu, Jessie Berlot! Fiquei tão diferente assim?

 

        Judy a fitou boquiaberta. Ergueu-se, fitando-a de cima a baixo.

 

        -Jessie! Meu Deus, como está mudada! Nem a reconheci!

 

        Jessie parou diante dela, rindo.

        -Gostou da mudança? Estou aprovada?

 

        Ela sorriu, assentindo.

 

        -Está ótima! Parece uma executiva! Agora percebo que você é uma moça muito bonita!

 

        Jessie enrubesceu. A opinião de Judy era muito importante para ela.

 

        -Humm... por que não se maquiou também? Iria ficar ainda melhor – Disse judy, sorrindo.

 

        Jessie fitou-a quase em pânico. Não, isso não! Odiava maquiagem, e se fosse preciso usar, preferia perder o emprego.

 

        Judy riu de sua expressão.

 

        -Jessie, foi só uma sujestão! Não é obrigada a usar maquiagem!

 

        Jessie suspirou, aliviada.

 

        -Oh, Judy... odeio maquiagem. Nunca usei.

 

        -Tudo bem. Bem, já que chegou cedo, vou mostrar-lhe todo o escritório.

 

        Judy lhe mostrou quatro gabinetes mobiliados com móveis luxuosos, uma sala de reunião, sala de digitação, uma cozinha moderníssima, salão de refeições, e os banheiros, explicando:

 

        -O gabinete de Benson é o maior. O do lado direito é de sua filha, que trabalha também aqui. E os outros dois gabinetes são de seus assistentes. Todos têm banheiro privativo. Os banheiros que viu são para as digitadoras, eu, você e os visitantes. O salão de refeições só pode ser usado por Benson, sua filha e os assistentes. Nós almoçamos na rua.

 

        Jessie olhou para Judy surpresa.

 

        -Benson tem uma filha? Já foi casado?

        -Ele é divorciado da mãe de Dale. Ela tornou a casar-se e vive em Paris, com o marido milionário. Dale mora com o pai. É uma garota adorável, Jessie. Você vai gostar de trabalhar para ela.

 

        -Humm... ela estava aqui ontem?

 

        -Não. Dale está gripada e com febre. Só virá trabalhar quando se recuperar. Mas venha, vamos tomar um café. Pelo menos, para isso podemos utilizar a cozinha.

 

        Foram para a cozinha, onde dois homens trabalhavam. Um cortava carne e o outro preparava numa jarra suco de laranja. Judy os apresentou e serviu-se de duas canecas de café, entregando uma à Jessie. Estavam começando a tomá-las, quando chegaram duas moças e Judy as apresentou também.

 

        Norma e Thelma a fitaram com curiosidade. E elas notaram no olhar de Jessie algo intrigante, que não conseguiram definir. Jessie tinha um olhar pouco comum em uma mulher. Direto, prescutador, atrevido. Sentiram-se incomodadas por aquele olhar. E o aperto da mão! Forte demais, para uma mulher. Notaram os gestos secos, algo masculino na alta estatura, nos ombros largos, e isso as assustou. Cumprimentaram Jessie com reserva e se afastaram.

 

        Jessie notou a reserva delas e isso a perturbou. Ainda não havia sentido aquele tipo de preconceito pelo que era. Mas identificou nelas o mesmo repúdio que sofrera quando criança.

 

        Mordeu os lábios, sentindo raiva. Pois bem, mocinhas, se tinham algo contra ela, que se danassem! Trataria elas com distanciamento.

 

        Terminaram o café e foram para a sala de Judy. Preencheu sua ficha pessoal e ficou constrangida em dar como endereço o de Mary. Mas não pretendia ficar lá muito tempo.

 

        Judy a levou até a biblioteca, orientou-a sobre o serviço e a deixou só. Jessie começou a trabalhar, separando a pilha de livros que haviam sido usados para consulta, para voltar a guardá-los nas estantes, por código de classificação. Começou a gostar do trabalho. Gostava de livros. Alguns tinham títulos interessantes, como os de Direito Penal e Direitos do Cidadão. Quando tivesse algum momento de folga, os leria.

        Na hora do almoço, saiu com Judy e as duas moças. Elas começaram a fazer perguntas que a embaraçaram: onde morava, se tinha namorado, por que não se pintava, onde trabalhara antes, qual a sua formação.

 

        Judy percebeu seu embaraço e veio em seu socorro, respondendo que Jessie era nova na cidade e não conhecia ninguém. Elas então lhe indicaram onde comprar roupas por preços acessíveis.

 

        Jessie odiou aquele almoço. Não se sentia bem sob aqueles  olhares curiosos, que a fitavam como se fosse um bicho raro.

 

        No dia seguinte, deu uma desculpa para não ir almoçar com elas. E nos dois outros dias também. Judy a chamou em sua sala e perguntou o motivo daquelas desculpas, pois percebeu que eram inventadas. E Jessie então desabafou, achando melhor abrir-se com Judy:

 

        -Acho que aquelas garotas não foram com minha cara. E irão menos quando souberem que sou uma ex-presidiária.Notei que escondeu delas esse fato. E não quero ficar tecendo mentiras para depois ser desmascarada. Prefiro afastar-me.

 

        Judy a fitou com compreensão.

 

        -Jessie, você é uma moça perspicaz e inteligente. Sou forçada a concordar com você. Norma e Thelma são realmente puritanas e preconceituosas. Com certeza ficariam apavoradas em saber o seu passado. Mas quero que saiba que já me considero sua amiga, mesmo sabendo a verdade. Tenho observado sue comportamento aqui e acho você uma moça séria, sensata e muito dedicada ao trabalho. Gostaria de ter uma filha como você.

 

        Jessie fitou-a cheia de gratidão e emocionada. Judy já havia comentado com ela que era estéril e não pudera ter filhos. Era viúva e só tinha uma irmã.

 

        -Obrigado, Judy. E você é a mãe que eu gostaria de ter.

 

        Selaram a nova amizade com um sorriso recíproco.

 

 

 

 

*******************************      

       

 

        Na sexta-feira, Jessie recebeu o pagamento pela semana de trabalho. Foi para casa alegre e orgulhosa.

 

        Mary a esperava com o jantar pronto. Beijou-a com calor e a ajudou a tirar o blazer que usava.

 

        -Vá tomar seu banho. Vou arrumar a mesa – Disse Mary.

 

        Jessie sentou na velha poltrona da sala e a encarou sorrindo. Tirou o dinheiro da bolsa e separou uma nota de cinquenta dólares, estendendo para Mary.

 

        -O dinheiro que me emprestou.

 

        Mary sacudiu a cabeça.

 

        -Não preciso dele agora. Guarde.

 

        -Mas eu quero pagar agora. Mary, tenho que sair daqui. Durante a semana deu certo, mas não trabalho aos sábados e domingos. Sua amiga vai chegar amanhã e me encontrará aqui.

 

        -Mas eu já conversei com ela, Jessie! Kate sabe que você está aqui, ela viu suas roupas no armário. E ela quer conhecê-la, para decidir se concorda que more conosco.

 

        -Não dará certo, Mary.

 

        Mary a fitou suplicante.

 

        -Tente, Jessie! Tenho certeza que ela gostará de você! Eu... eu não quero que saia daqui.

 

        -Mary, não prometi que ficaria aqui indefinidamente. Quero ter o meu próprio espaço.

 

        Mary a fitou com lágimas nos olhos.

        -Você não precisa mais de mim e está me dando o fora – Choramingou.

 

        Jessie ergueu-se e a segurou pelos ombros.

 

        -Só porque quero sair daqui, diz isso? Está bem, vou ficar. Mas se houver qualquer problema, vou embora. Quero paz, Mary. Já chega o inferno que sofri na prisão.

 

        Ela a abraçou, olhando-a com abjeta adoração.

 

        -Sou louca por você, Jessie. Não quero que fique longe de mom. Por favor... não pense em me deixar...

 

        -Mary... não acho bom...

 

        Mary a beijou com fome, interrompendo seu protesto. Jessie se exitou e foram para a cama.

 

        Ela dormia quando Kate chegou do trabalho, ao amanhecer. Kate entrou na cozinha e olhou para Mary, que fazia café, e sorriu com ironia. Kate era uma mulher de seus trinta e dois anos, com grandes seios, cintura fina e longas pernas, mostradas na saia curta e colante. Tinha cabelos longos e lisos, pintados de um ruivo agressivo.

 

        -Oh, a pobre Mary já de pé, cozinhando para sua queridinha! Qual, você não tem jeito! Onde está a grande mulher, que virou sua cabeça?

 

        Mary voltou-se sem jeito, sorrindo e colocando um dedo nos lábios, pedindo silêncio:

 

        -Shhh... fale baixo, ou vai acordá-la!

 

        -Ora, ora! Estou em minha casa, Mary! E ela vai ter que acordar mesmo, porque quero dormir! À menos que você a deixe sozinha no quarto comigo... – Completou, com malícia – Sabe que não tenho preconceitos... entre um homem e uma mulher, escolho os dois.

 

        E  Kate seguiu para o quarto com Mary no seu encalço, afobada. Ela abriu a porta com cuidado e viu Jessie completamente nua, dormindo de bruços. Kate contemplou o rosto de linhas marcantes, os cabelos negros em desalinho, as costas bem delineadas, os ombros largos, a cintura fina, as nádegas redondas, as coxas longas e fortes, as pernas bem torneadas. Era um corpo belo e atraente, que emanava vitalidade. Kate percebeu que ali estava uma mulher especial, com grande poder de sedução.

 

        Escancarou a porta, para deixar a claridade do corredor entrar, e disse baixinho;

 

        -Mary... onde a achou? Meu Deus, ela é um tesouro!

        Jessie acordou, sentindo a claridade nos olhos e um forte perfume de mulher. Abriu os olhos e viu a ruiva olhando-a . Sentou com agilidade na cama, fitando a mulher, confusa.

 

        Kate riu do evidente constrangimento dela.

 

        -Não precisa ficar envergonhada, eu trabalho com mulheres que dançam nuas e isso é muito comum para mim! Fique à vontade...

 

        Jessie ergueu-se e pegou sua calcinha jogada sobre a mesinha de cabeceira e a vestiu. Ainda constrangida, olhou para Kate.

 

        Mary as apresentou, procurando não mostrar o ciúme que sentia de Jessie:

 

        -Jessie, essa é Kate.

 

        Kate avançou, estendendo a mão, rebolando sensualmente os quadris. Seu olhar percorria o corpo de Jessie sem disfarces.

 

        -Oi, Jessie... Mary disse a verdade, você é um tesão...

 

        Jessie ficou vermelha. Sorriu desajeitada e depois de apertar a mão de Kate, foi para o banheiro quase correndo.

 

        Kate riu, olhando para Mary, que a fitava séria.

 

        -Como ela é tímida!

 

        Quando Jessie estava se enxugando, Mary entrou, olhando-a com um sorriso.

 

        -Kate gostou de você. Não se importa que você more aqui.

        Jessie a fitou calada. A sua experiência com mulheres era suficiente para perceber que Kate estava interessada nela. E isso cheirava a encrenca.

 

        -Não está contente, Jessie?

 

        -Hum, sim... traga minha roupa, não posso vestir-me no quarto, com ela lá. Escute, não gostei de ser surpreendida dormindo nua por sua amiga. Devia ter-me avisado que ela havia chegado.

 

        -Não deu tempo. E não ligue, aposto que ela gostou. Ela deva estar cheia de inveja de mim, meu tesão. Espere aí, vou apanhar suas roupas.

 

        Ela saiu e Jessie sacudiu a cabeça. A encrenca não demoraria. Tinha certeza que Kate estava interessada nela. E isso ia dar em confusão.

 

        Sua previsão se confirmou. Durante o café, Kate olhava-a disfarçadamente, com um sorriso de sedução, quando Mary se distraía. Jessie fingia não perceber nada, mas já estava ficando nervosa com a situação.

 

        Finalmente Kate foi dormir e Jessie chamou Mary para sair. Mas ela preferiu ficar vendo tv, abraçada com Jessie, acariciando-a . A mão dela passava pelo seu rosto, descia para os ombros, para a barriga, para as coxas e para barriga, para as coxas e para seu sexo, alisando-o por cima da calça comprida.

 

        Jessie procurava se concentrar no programa de entrevista, mas Mary desabotoou sua calça e enfiou a mão dentro, apertando seu sexo suavemente, a língua passando em sua orelha.

 

        Jessie a encarou. Ela sorriu maliciosamente, com a mão continuando seu trabalho em excitá-la.

 

        -Você é louca, Mary... Kate pode acordar e nos ver.

 

        -Que nada... ela está morta de cansaço...

 

        Jessie queria parar, mas o desejo já estava dominando-a . Tinha sangue nas veias! Arqueou o corpo, deixando-a puxar sua calça abaixo. Mary estava agora ofegante, seu olhar paralizado em seu sexo. E ela o cobriu com a boca, começando a sugá-lo com loucura.

        Jessie gemeu, apertando a cabeça dela contra o sexo. Movimentou-se contra a boca faminta e gozou em poucos minutos, rilhando os dentes.

 

        Mary afastou-se e tirou a calcinha, ofegante. Sentou em sua coxa, cavalgando-a com olhar de loucura, as mãos apertando-a .

 

        Jessie abriu a blusa com gestos bruscos, descobrindo os seios fartos. Tomou-os nas mãos, apertando-os, depois debruçando-se e sugando-os com força. Mary gostava disso. Ela se remexia gemendo, os dedos enfiados em seus cabelos. Jessie soltou um dos seios e enfiou a mão entre as coxas dela. Penetrou-a com três dedos, sentindo-a molhada e quente. Mary gemeu, fechando os olhos.

 

        -Sim... toda dentro...faça...com força, tesão...

 

        Jessie moveu os dedos com força, vendo a mulher ficar frenética. Ela se mexia contra sua mão, com um sorriso de prazer, os olhos fechados. Começou a tremer e gozou dando um pequeno grito, que Jessie abafou com um beijo.

 

        Depois, ficaram imóveis, respirando em longos austos.

 

        Mary saiu de cima dela, sorrindo.

 

        -Nunca vou cansar de trepar com você, tesão. Meu Deus, você é muito gostosa...

 

Jessie ergueu-se e puxou as calças, vestindo-a . Pensou como o dia estava sendo tedioso. Fazer sexo com Mary já era rotina. Não a amava e depois de ter prazer, não tinha nada em comum com ela. Queria mesmo é sair. Ver bastante espaço em volta. E não ficar ali vendo tv com uma mulher que não a atraía muito.

       

       

 

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        Dale Benson passou perfume e, apressada, apanhou a pasta de anotações que levaria. Nove horas, já estava atrasada. Saiu do quarto e desceu as escadarias da mansão correndo.

 

        O mordono a olhou com um sorriso complacente. Vira-a crescer naquela casa e sentia-se um pouco pai de Dale.

 

        -Não vai tomar café, senhorita Dale?

 

        Ela passou por ele, apressada.

 

        -Não, Luigi. Não quero atrasar-me mais. Tchau!

 

        Abriu a porta, sem esperar o mordomo fazer isso, e saiu. Pegou seu carro, um Porsche vermelho, e atravessou os portões da mansão, dirigindo-se para o centro da cidade.

 

        Dale Benson herdara os traços finos da mãe. Cabelos louros cortados curtos, um corte moderno, olhos verdes e sonhadores, destacando na pele clara, lábios cheios e vermelhos, rosto lavado sem pintura, corpo esguio, mas com curvas harmoniosas.

 

        Uma figura delicada escondendo uma férrea força de vontade. Queria ser uma advogada brilhante e não media esforços para isso. Poderia ser uma garota que apenas desfrutasse a “dolce vita” com o dinheiro da família, que não lhe era regateado. Mas preferia lutar pelo que desejava, aprendendo a profissão escolhida no escritório do pai. Apesar de não gostar das mulheres que o cercavam, nunca se arrependera de ter preferido a companhia dele, quando ele se divorciara de sua mãe. Ele a adorava e sempre lhe demonstrara isso com atenção e carinho. Sua mãe era uma mulher neurótica e que se cercava de homens oportunistas.

 

        Chegou ao prédio do escritório e deixou o carro na garagem anexa, exclusiva dos executivos. Pegou o elevador e saltou no andar.

 

        Judy lhe sorriu quando entrou.

 

        -Que bom vê-la, miss Benson! Já está mesmo boa da gripe?

 

        -Estou ótima, Judy. Papai na verdade exagerou e não permitiu que eu trabalhasse. Tudo bem por aqui?

 

        -Tudo ótimo.

 

        Dale passou por Judy e dirigiu-se para sua sala. Abriu-a e entrou, dirigindo-se para a mesa. Sentou-se e se dispos a trabalhar. Abriu sua pasta e verificou as anotações que fizera. Tinha que consultar dois livros sobre leis sindicais.

 

        Ia ligar para a bibliotecária, quando lembrou que Susie havia pedido demissão. Podia pedir os livros a Judy, mas não achou certo. Ela não era bibliotecária e já trabalhava muito. Ela mesmo iria procurá-los.

 

        Ergueu-se e se dirigiu para a biblioteca.

 

        Abriu a porta e entrou.

 

        A mulher estava de costas, colocando um livro na estante. Voltou-se ao ouví-la entrar e parou, olhando-a .

 

        Dale olhou-a também, surpresa. Quem era ela? A nova bibliotecária?

 

        O olhar da mulher a atraiu. Além de ter belos olhos, de um azul de cristal, era um olhar direto e insinuante, um olhar que prendia, parecendo dizer mil coisas. Nunca vira uma mulher com um olhar tão magnetizante e misterioso. Um olhar que percorreu seu corpo e se fixou no seu, como uma seta.

 

        Era uma mulher atraente, alta e de uma beleza exótica. Ombros largos, o rosto de traços marcantes, ela exalava uma forte personalidade e Dale sentiu-se pela primeira vez intimidada com uma pessoa.

 

        Recuperou-se da surpresa e sorriu.

 

          a nova bibliotecária?

 

        -Sim, Jessie Berlot, senhorita...

 

        -Dale Benson. Muito prazer – disse, estendendo a mão, sentindo aquela voz rouca ainda ressoar nos ouvidos.

 

        Ela apertou sua mão e Dale sentiu um arrepio suspeito. Perturbada, puxou logo  mão. Deus, que era aquilo?

 

        -Deseja algum livro, miss Benson?

        -Sim – confirmou, sentindo-se vermelha e embaraçada – Dois livros para consulta.

 

        -Dê-me os nomes, por favor.

 

        Dale falou, com voz trêmula, sentindo-se uma idiota. Ela foi procurá-los e Dale ficou olhando-a atenta, observando os gestos seguros e precisos das mãos grandes, mas delicadas. Os cabelos negros caíam em sua testa, dando-lhe um ar juvenil. Mas os olhos eram sérios, o rosto compenetrado.

 

        Dale estava confusa, pensando porque aquela mulher lhe transmitia tão forte impressão. O que havia nela que a deixava assim, trêmula?

 

        -“Meu Deus, de onde veio essa mulher?” – pensou – Por que estou sentindo-me como uma mocinha idiota, admirando-a?”

 

        Ela lhe trouxe os livros e lhe sorriu. Dale achou o sorriso mais fascinante que havia visto.

 

        -Pronto, miss Benson, aqui estão.

 

        Dale desviou os olhos daqueles olhos azuis, que a olhavam diretos e impenetráveis. Agradeceu num sopro de voz e saiu.

 

        Voltou para sua sala e jogou os livros em cima da mesa. Sentou-se e ficou imóvel, esperando com isso voltar ao normal. Era incrível. Nunca ninguém, homem ou mulher, a impressionara tanto. E porque, justamente uma mulher, conseguira isso? Sempre encarava as pessoas que se aproximavam dela com indiferença e desconfiança. Sabia que era um bom partido, herdeira única do pai. E sabia que muita gente queria usá-la para conseguir as boas graças do pai. Então, sempre havia sido uma moça arredia a amizades e a se impressionar com alguém. E agora... tinha vontade de voltar naquela sala e perguntar a Jessie Berlot onde morava, do que gostava, enfim, saber tudo dela.

 

        Ficou com medo do que sentia. Isso não era uma coisa normal, ficar assim por uma mulher.

 

        Sacudiu a cabeça e pegou os livros. Abriu um e tentou concentrar-se no trabalho, mas as idéias fugiam e só via diante de si uns olhos azuis insinuantes e um sorriso muito branco.

 

 

        Jessie também estava perturbada. Pensava que nunca vira uma mulher como aquela. Traços aristocráticos, uns olhos doces e belos, uma mulher que transpirava classe e uma doce feminilidade. Bem diferente das mulheres que convivera na prisão e de Mary. Sentia-se atraída e isso a preocupava. Devia ter cuidado. Ela nem devia suspeitar do que lhe provocara. Sabia que era uma mulher que não conhecia esse tipo de amor e se percebesse alguma coisa, falaria para o pai e a colocariam na rua. Era melhor encarar Dale Benson apenas como a filha do patrão, com quem deveria ser solícita e gentil.

 

        Na hora do almoço, passou por Dale Benson no corredor. Ela a olhou e baixou a vista e Jessie procurou olhá-la com indiferença. Passou por ela e saiu para almoçar.

 

        Dale sentia o coração acelerado e isso a irritou, assim como o olhar indiferente de Jessie. Ela nem a cumprimentara! Sem educação! Os outros funcionários, quando a viam, procuravam lhe dar o melhor sorriso, chegavam até a bajulá-la. Quem Jessie Berlot pensava que era?

 

        Com o rosto contraído, foi para o salão de refeições. Seu pai a esperava, junto com os dois assistentes, sentados na imensa mesa redonda.

 

        -Sente-se perto de mim, minha garota – disse Benson, sorridente.

 

        Dale sentou ao lado dele.

 

        -Que carinha zangada é essa, Dale?

 

        Dale sorriu para ele.

 

        -Nada. Dor de cabeça.

 

        -Quer uma aspirina?

 

        -Não.

 

        Paul Shiver e Anton Askim lhe sorriram.

 

        -Está com ótimo aspecto, miss Benson – disse Paul - nem parece que esteve doente.

        -Sim, está encantadora, senhorita – fez coro Anton, com um sorriso meloso.

 

        Dale olhou-os com um leve sorriso. Os assistentes de seu pai não lhe poupavam elogios. Podia ir trabalhar como uma bruxa, que eles a elogiariam. Eram uns bajuladores. Tão diferentes de Jessie!

 

        A comida foi servida. Dale serviu-se de um medalhão com cogumelos e pensou no que Jessie estaria comendo.Provavelmente, um sanduíche. Não era justo isso.

 

        -Papai, temos uma nova bibliotecária, não? Quando começou?

 

        Benson olhou para a filha de cenho franzido.

 

        -Sim. Houve algo desagradável? Ela a tratou mal?

 

        Ela o fitou surpresa.

 

        -Não, absolutamente! Foi até muito solícita! Por que pergunta isso?

 

        -Cuidado com ela, Dale. Empreguei-a para atender a um amigo. Ela é uma ex-presidiária, uma assassina.

 

        Dale olhou-o atônita.

 

        -Uma assassina?!

 

        -Sim. Veio aqui com uma carta de apresentação do diretor do presídio de Sacramento. Lana estava comigo e insistiu para que lhe desse uma chance. Concordei para não negar um pedido de Lana.

 

        Dale sentiu profunda decepção. Uma assassina! Como era possível ? Uma mulher que parecia tão... fina. De classe. Como se enganara!

 

        -Mas... a quem ela matou?

 

        -Matou o pai em uma briga. Com um machado. Um crime brutal.

 

        Dale ficou mortificada. Matara o pai com um machado! Que horror! Era melhor tratá-la com distância. Não era preconceituosa e o seu curso de advogada lhe mostrara que muitas pessoas inocentes eram condenadas. Mas, seria o caso dela? Era um crime brutal.

 

        Concentrou-se na comida e tomou uma decisão. O melhor que poderia fazer era evitar Jessie Berlot.

 

        O almoço terminou e voltou para sua sala. Sentia-se estranhamente triste. E sabia que Jessie Berlot era a culpada disso.

 

        Concluiu seu trabalho e enviou os livros de volta por Judy. Queria verJessie Berlot o mínimo possível.

 

        Jessie achou melhor assim. Não queria estreitar conhecimento com a filha de Benson. Sua vida já estava muito complicada.

 

        Foi para casa pensativa. Não estava satisfeita em morar com Mary. Estava cheia dela. Ela era boazinha, mas burra e possessiva. E Kate iria lhe dar dor de cabeça.

 

        Chegou em casa e achou um bilhete de Mary. Iria chegar tarde, por que a substituta dela não havia ido trabalhar. A letra era de Kate. Naturalmente, ela recebera o recado e anotara.

 

        Foi para o quarto e tirou a roupa. Depois entrou no banheiro e tomou um banho longo. O dia estava quente.

 

        Quando voltou ao quarto, Kate estava lá.

 

        Jessie a olhou surpresa, completamente nua. Pegou a toalha que trazia no ombro e enrolou-se nela.

 

        Kate lhe sorriu, erguendo-se da cama, onde estava sentada. Seu sorriso era cheio de intenções.

 

        -Olá, Jessie.

 

        -Desculpe, pensei que não tivesse ninguém em casa. Não foi trabalhar?

 

        Ela a olhou da cabeça aos pés.

 

        -Não. Estava indisposta.

        Jessie desviou-se para o armário e apanhou uma calcinha. Kate aproximou-se lentamente e parou diante dela, olhando-a nos olhos, com as mãos na cintura.

 

        -Quero ver se você é tão boa quanto Mary diz.

 

        Jessie ficou vermelha.

 

        -Kate, não quero confusão.

 

        Ela pegou na toalha, puxando-a . Ergueu o rosto, sorrindo.

 

        -Nem eu. Quero é trepar com você.

 

        Jessie segurou a toalha e tentou cobrir-se novamente.

 

        -Kate, tenha juízo. Mary é sua amiga...

 

        Ela riu. Deu novo puxão na toalha, que caiu no chão. Olhou para seu corpo com malícia.

 

        -Hum... tem mesmo um corpo lindo... quero prová-lo.

 

        Estendeu a mão e espalmou-a em seu sexo. Bolinou com perícia, olhando-a nos olhos, sorrindo.

 

        Jessie arquejou, sentindo o desejo surgir. Maldita mulher! Ela não estava ligando para nada, além de sua vontade. E Jessie sentia que agora não podia recuar. A mão dela pegara a sua e a colocara dentro da sua calcinha, fazendo-a sentir o quanto estava excitada.

 

        -Isso, Jessie... humm,  mais...

 

        Jessie a olhou com raiva.

 

        -Você quer, não é? Está bem! Depois, não se queixe!

 

        Pegou-a pela cintura e jogou-a sobre a cama. Ela a olhou cheia de desejo.

 

        -Isso, paixão... gosto de um pouco de rudeza... seja dura comigo...

 

        Jessie puxou a blusa num arranco, rasgando-a. Os seios de Kate saltaram, cheios e de bicos enrigecidos.

 

Jessie despiu-se também e possuiu-a com rudeza. Ela gritava, gemia, arranhando suas costas com as unhas longas. Quando atingiu o êxtase, gritou como uma louca, apertando-a com força.

 

        Jessie ouviu a porta do quarto abrir. Voltou-se e deparou com Mary olhando-as, incrédula, as feições mudando para uma raiva profunda.

 

        Jessie pulou da cama, movida pelo seu instinto.

 

        Mary avançou para ela, possessa.

 

        -Miseráveis! E você, sua escrota! Me trair assim, dentro de casa!

 

        As unhas de Mary atingiram o rosto de Jessie, provocando dois vergões no lado.

 

        Ela empurrou-a com força e Mary caiu no chão, soluçando.

 

        -Eu a avisei que não ia dar certo eu morar aqui com você e sua amiga! – Gritou,  Jessie, com raiva – Agora aí está o resultado!

 

        Kate ergueu-se e olhou para Mary, dizendo cinicamente:

 

        -Eu não tive culpa! Ela me forçou! Veja a minha blusa rasgada!

 

        Jessie olhou-a com nojo.

 

        -Sua piranha, covarde! Fale a verdade!

 

        Kate começou a gritar:

 

        -Suma daqui! Você não presta, sua cadela!

 

        -Não precisa mandar! Vou com prazer!

 

        Jessie vestiu-se apressada, enfiou suas roupas em duas sacolas e saiu batendo a porta.

 

        Andou sem destino até acalmar-se. Depois, começou a procurar um hotel barato. Achou um perto do centro da cidade, uma espelunca cheia de baratas. Pagou dez dólares pela diária e pendurou sua roupa no armário, sentando-se na cama, pensativa.

 

        Que merda de vida! Que mulheres cínicas e sem-vergonhas! Faziam tudo para trepar e depois se fingiam de vítimas! Aborrecida, foi dormir sem jantar.

 

        No dia seguinte, ao aprontar-se para trabalhar, viu os vergões das unhas de Mary no rosto. Era impossível disfarçá-los. O jeito era ir trabalhar assim. Vestiu a blusa meio amarrotada, o conjunto sem passar e foi trabalhar.

 

        Judy a olhou espantada.

 

        -Jessie! O que houve? Parece que saiu de uma briga!

 

        Jessie sorriu sem jeito.

 

        -Foi mais ou menos isso, Judy.

 

        Ela a olhou curiosa.

 

        -Conte-me, talvez eu possa ajudá-la.

 

        Jessie odiava isso, mas não tinha alternativa. Contou a mentira que havia preparado:

 

        -Bem...quando cheguei aqui, fui morar com uma conhecida, uma garçonete, que divide apartamento com uma dançarina. Ontem elas brigaram e fui desapartar e fui  atingida pelas unhas de uma delas e fiquei com esses vergões. Fiquei com raiva, xinguei-as e acabei sendo expulsa do apartamento. Fui para um hotel e minhas roupas ficaram amarrotadas.

 

        -Oh, coitadinha... sozinha em um hotel...

 

        -Bem, já estive em uma prisão, que é bem pior.

 

        -Oh, mas já sofreu o bastante! Agora, é uma funcionária da Benson Advogados e deve morar em um lugar decente! Escute, tenho uma irmã viúva que vive sozinha. Os filhos já casaram. Os quartos dos meninos estão vagos. Vou pedir a ela para alugar-lhe um por poucos dólares. Ela irá gostar de ter companhia.

 

        Jessie fitou-a com gratidão.

 

        -Puxa! Seria maravilhoso, Judy!

 

        -Hoje à noite irei na casa dela conversar sobre isso.

 

        Nesse instante, Dale Benson chegou. Olhou para Jessie e notou os vergões no rosto, a roupa amarrotada. Deu um bom dia sêco e passou por ela e Judy.

 

        Jessie enrubesceu. Dale a olhara com desaprovação. Devia estar um lixo.

 

        Judy sorriu para ela.

 

        -Ficou envergonhada? Não se preocupe. Dale é uma moça discreta. Mas é melhor você ir logo para sua sala, para Benson não vê-la assim.

 

        Jessie assentiu e foi para a biblioteca, envergonhada. Logo Dale a vira assim! Aqueles vergões demonstravam claramente que brigara com uma mulher. Que azar!

 

        Suspirou e começou a trabalhar.

 

        Dale sentou-se em sua cadeira, pensativa e com raiva de si própria. Não devia se importar se Jessie brigara com alguém ou com mil gatos. Mas aquilo a decepcionara. Jessie devia ser bem vulgar, para brigar com uma mulher daquele jeito. Devia morar com gente bem vulgar e baixa, para se atracarem em uma briga, pensou com desdém. Mas, o que esperava de uma ex-presidiária ? Finura, bons modos? E... por que se importava com a vida particular de Jessie Berlot? Que tinha com isso?

 

        Chamou Judy pelo interfone. Estava nervosa e irritada.

 

        Judy entrou sorridente. Dale gostava muito dela. Judy trabalhava para seu pai desde que ela era menina e ia ao escritório visitar o pai. Judy sempre a mimava, nessas visitas.

 

        -Em que posso serví-la, minha criança?

 

        Dale sorriu.

 

        -Não sou mais criança, Judy. Tenho 23 anos.

 

        -Para mim, sempre será.

 

        -Sente-se, Judy.

 

        Judy sentou-se diante dela e a fitou esperando.

 

        -Judy... sei que é uma mulher sensata, confio muito em você. Diga-me... acha que papai agiu certo em contratar essa moça... Jessie Berlot... para trabalhar aqui?

 

        Judy a olhou séria.

 

        -Fez muito bem. É uma moça inteligente e dedicada ao serviço, muito quieta.

 

        -Mas... ela é uma ex-presidiária... uma assassina. E hoje chegou com arranhões no rosto, como se estivesse brigando...

 

        -Dale,ão gosto de comentar a vida dos outros. Mas vou lhe contar o que houve, para que não pense coisas piores.

 

        Judy contou, Dale a ouviu em silêncio. E Judy completou, arrematando:

 

        -Ela estava envergonhada, coitada. Notou que você a olhou com desaprovação e ficou chateada.

 

        O coração de Dale deu um salto.

 

        -Oh... ela observou meu olhar de desaprovação? Ela comentou isso?

 

        -Não, eu notei. Ela ficou vermelha e cabisbaixa.

 

        Dale sentiu uma emoção desconhecida dominá-la. Ela se importara com sua opinião! Não era indiferente como pensava!

        Pobre Jessie! Expulsa pelas falsas amigas, morando em um hotel barato! Devia se sentir tão só! Sorriu para Judy. Ela a fizera ver Jessie com olhos menos rigorosos.

 

        -Tem razão, Judy, acho que estou sendo muito severa em meu julgamento de Jessie Berlot. Acho que ela merece ter uma chance, apesar do que fez.

 

        -Muito bem, garota. Quanto à mim, vou ver se consigo um lugar decente para ela morar. Vou falar com minha irmã hoje.

 

        Judy saiu e Dale ficou pensativa. Jessie ganhava um salário miserável e era só. Devia ter uma vida infeliz. Oh, como desejaria saber que ela era feliz!

 

        Movida por um impulso, foi à biblioteca.

 

        Jessie estava consultando o livro de códigos de arquivo e olhou-a surpresa, quando entrou.

 

        -Quero olhar o arquivo de causas de papai – disse, olhando-a de frente.

 

        Jessie ergueu e se aproximou de um dos vários arquivos. Olhou-a nos olhos.

 

        -Deseja algum caso  em especial?

 

        A voz parecia veludo, rouca e gostosa.

 

        -Não, vou pesquisar.

 

        Jessie abriu a primeira gaveta.

 

        -Fique à vontade, miss Benson.

 

        -Obrigada.

 

        Jessie tornou a sentar-se, voltando ao trabalho. Dale a olhou de soslaio. Tinha um belo perfil. A boca de lábios polpudos, o nariz reto, os olhos grandes, o queixo firme.

 

        Jessie pareceu sentir seu olhar. Voltou-se e pegou-a naquela muda contemplação.

 

        Dale enrubesceu violentamente e virou as costas para ela, fingindo rebuscar os arquivos. Jessie voltou à posição inicial, desconcertada porque ela a vira voltar-se para olhá-la .

 

        Dale demorou o tempo suficiente para justificar a sua ida ali. Saiu sem dizer nada. E Jessie não se atreveu a perguntar se ela achara o que procurava.

 

        À noite, Jessie dormiu no hotel mais uma vez. Custou a dormir, pensativa.

 

        Pensara que, saindo da prisão, sua vida seria bem melhor. Mas agora, via que quase tudo continuava como antes. Agora tinha a sonhada liberdade. Mas, fora isso, o que melhorara em sua vida? O que ganhava mal dava para sobreviver, não tinha uma moradia decente, se alimentava também mal, tinha poucas roupas. E o pior: estava mais só que nunca.

 

Na prisão, tinha várias mulheres que a disputavam e a agradavam com pequenas coisas, como um pedaço de carne que roubavam na cozinha, frutas, roupas que os parentes levavam, coisinhas que não havia na prisão. Lembrava de uma que lhe arrumava sabonete e pasta de dentes, outra que lhe dava um perfume... eram coisas mínimas, mas que a faziam senter-se querida. Lá na prisão era uma mulher importante para algumas, desejada. Aqui fora, era uma ninguém, olhada com desconfiança, totalmente só.

 

        Suspirou. Queria alguém para ela, uma mulher para ter com quem fazer amor, conversar, dividir seus problemas e alegrias. Mas, quem iria querer uma ex-presidiária?

 

        Pensou em Dale Benson. Estava atraída por ela. Era uma garota linda, fina,  charmosa... mas sabia que não era para ela. Deus, aquela garota era para um homem, e um homem do mesmo nível que ela. Conclusão: não devia nem pensar na mais remota possibilidade de conquistá-la .

 

        Diabos, o melhor a fazer era dormir e aguardar que algo mudasse sua rotina de vida insípida.

 

 

 

Continua na parte 3

 

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