NUNCA AME UMA

ASSASSINA

LETH CROSS

 

 

Parte 1

 

 

 

        Quando  as portas da Prisão do Estado da Califórnia  a deixaram passar, Jessie aspirou o ar do outro lado dos portões como se fosse mais puro e benéfico que o do outro lado do presídio. E como planejara tantas vezes, caminhou sem olhar para trás, como se isso a ajudasse a esquecer que havia passado dez anos de sua vida atrás daquelas grades.

 

        Sacudiu a cabeça, pensando que não era tão simples assim. Dez anos em uma prisão não se esquece jamais.

 

        Ali havia entrado como uma adolescente ingênua e agora saía como uma mulher vivida, conhecedora de toda podridão da sociedade. Convivera com ladras, vigaristas, toxicômonas e assassinas. Como podia esquecer o que havia visto e ouvido?

 

        Meteu a mão no bolso da calça jeans e tirou o envelope que o diretor da prisão havia dado à ela. Ali estava o endereço que devia procurar para tentar conseguir um trabalho. Dentro, uma carta. Será que ainda acharia um lugar para ela nesse mundo, para levar uma vida digna? Não queria voltar para a fazenda de sua família, depois de ter passado os dez anos sem uma visita ou carta de sua mãe. Ela devia estar envergonhada dela. Agora era uma ex-presidiária. Iria carregar esse rótulo para sempre, perante a sociedade. Era uma marca do passado que não se apagaria.

 

        Olhou em volta. Uma estrada poeirenta levava até à estrada principal. Quase não passava veículos por ali, mas havia sido informada que na estrada estadual passava um ônibus que a conduziria à cidade mais próxima. Podia tomá-lo, mas prefiria caminhar. Já havia ficado confinada por muito tempo, precisava tomar sol e sentir o vento em sua pele.

 

        Com essa decisão, foi caminhando pela estrada quase deserta que cortava a planície, sentindo o sol da manhã queimar seu rosto.

 

        Jessie Berlot. Vinte e oito anos, filha de um francês naturalizado, e de uma americana típica da Califórnia. Seu nome, suas origens, eram diferentes demais para dar certo naquele país. Já começara pelo pai, um homem violento e beberrão, que vivia xingando os costumes do país, a família da mulher e os vizinhos. Seu ódio derivava de sua frustração. Viera para a América com dezoito anos, pensando em enriquecer. Mas só conseguira empregos de cozinheiro e guardador de carros, pela sua pouca instrução. Para sair do quarto fétido que morava, havia se casado com Dayse, uma garçonete que tinha sua  sua família numa cidadezinha no estado da Califórnia. E ali vivera frustrado, odiando o lugar e tudo que o rodeava, bebendo e agredindo a mulher e os filhos.

 

Alta para sua idade, o corpo esguio, mas forte pelo serviço pesado na fazenda, olhos de um azul de cristal, traços perfeitos emoldurados por cabelos bastos e negros como ébano, reluzentes, tudo isso provocava suspiros nos garotos, quando passava.

 

        Jessie não dava impôrtancia a isso. Não era narcisista e tinha muitos problemas com o pai, para ligar-se no que os garotos pensavam ou sentiam por ela.

 

        Era fechada e arredia a qualquer amizade. Uma solitária, que só tinha como passatempo a leitura. Seu avô , ao morrer, deixara muitos livros jogados em um  baú. Jessie um dia os descobrira e passara a refugiar-se no celeiro, nas poucas horas de folga, e lia seus livros prediletos. Identificava-se com os personagens de Leon Tostoi e Dickens, sofridos como ela.

 

        Um passatempo bem incomum, naquela cidadezinha de pessoas simples, na qual as moças de sua idade preferiam se reunir em bailes do colégio, jogos ou pic-nics nos campos, aos domingos.

 

        Na prisão é que descobrira que era bonita e atraente e se iniciara na vida sexual. E descobrira que gostava do mesmo sexo. As garotas a disputavam até em brigas, podia escolher as mais bonitas, sem receio de ser rejeitada.

 

        Era gostoso e emocionante possuir uma mulher. Isso era uma coisa que jamais mudaria em si, mesmo tendo saído da prisão. Nunca amara alguém, mas o objeto do seu desejo já estava bem definido em sua mente : as mulheres.

 

        Agora era uma mulher feita. Estava mais atraente, as curvas do corpo sinuosas, o corpo flexivel e forte, os traços do rosto mais marcantes. A blusa de malha não escondia seus seio eretos, sem sutian, a calça jeans desbotada moldava a cintura fina, os quadris arredondados, as coxas grossas e longas. Mas um vinco entre suas sombrancelhas denunciava seu pasado sofrido. Raramente sorria. Não tinha motivo para sorrir.

 

        Quando chegou à cidade, já passava de meio-dia. O sol quente fazia com que poucas pessoas se aventurassem na rua àquela hora, com o sol à pino.

 

        Suada e empoeirada, Jessie dirigiu-se para o primeiro hotel que viu, à beira da estrada. O hotel parecia ser bem humilde, um prédio velho com a pintura descascando. Aquele poderia pagar, com os poucos dólares que possuía.

 

        Quando entrou, o homem atrás do balcão a olhou com olhos sonolentos. Os negócios deviam ir mal.

 

        -O que deseja?

 

        -Um quarto com banheiro – respondeu, colocando a mochila velha sobre o balcão. Precisava desesperadamente tomar um banho. O suor e a poeira faziam seu rosto arder.

 

        -Todos os quartos têm banheiro – resmungou o homem – São dez dólares, sem café da manhã.

 

        -Está bem.

 

        O homem apanhou uma chave no escaninho e a olhou.

 

        -O pagamento é antecipado.

 

        Jessie assentiu. Tirou do bolso seu dinheiro, que perfazia cinquenta dólares no total, e separou os dez dólares para o homem.

 

-Voce poderia me arranjar dois sanduíches? – Perguntou, recebendo a chave.

 

        -Não. Esse hotel só é para viajantes, moça. Quando alguém chega aqui está muito cansado para comer. Só quer dormir. Eu servia comida antigamente, mas quase ninguém pedia. Tinha prejuízo e parei de servir. Mas perto daqui há muitas lanchonetes que servem sanduíches e bebidas, se é o que quer.

 

        E o homem voltou para sua cadeira atrás do balcão, apanhando um jornal para ler.

 

        Jessie guardou a chave no bolso, apanhou sua mochila e subiu para o quarto.

 

        A cama era pequena e estreita e o banheiro cheirava a mofo. Mas depois de dez anos em uma prisão, Jessie achou aquilo o céu. Finalmente, dormir em um quarto só seu, sem ouvir brigas e roncos, como na cela que dividia com duas prisioneiras. Um banheiro particular com água quente, ao invés do banheiro comunitário da prisão, com água gelada.

 

        Tirou as roupas suadas e tomou um banho prolongado. Enxugou-se com a toalha áspera do hotel e vestiu as únicas roupas que trazia na mochila, uma blusa de algodão branco e uma calcinha que ganhara de uma admiradora na prisão. A calça comprida, teve que vestir a mesma. Tinha que comprar roupas com urgência. Acabou de vestir-se, colocou o tênis velho e passou as mãos pelos cabelos curtos e rebeldes, que caíam em mechas na testa.

 

        Tornou a descer, saindo para  a rua. Olhou para os lados e viu uma lanchonete do outro lado da rua. Foi até lá.

 

        A lanchonete estava quase vazia. Foi até o balcão e viu a garçonete olhando-a aproximar-se .

 

        Jessie já conhecia aquele olhar. Na prisão, muitas mulheres a olhavam assim. Conhecia aquele olhar que identificava mulheres como ela. Era interessante como se identificavam apenas com um olhar.

 

        Ela sorriu-lhe, fitando-a nos olhos.

 

        -Olá... o que vai ser?

 

        -Uma coca-cola e um hamburguer.

 

        Ela anotou o pedido e passou-o para a cozinha. Apanhou uma garrafa de coca-cola e a depositou diante de Jessie, olhando-a com vivo interesse.

 

        Jessie apanhou a garrafa e tomou um gole. A garçonete não se afastou. Ficou olhando-a com um sorriso nos lábios pintados.

 

        -Está de passagem por aqui? Vi quando saiu do hotel.

 

        Jessie olhou-a com indiferença.

 

        -Estou chegando.

 

        -De onde está vindo?

 

        Jessie resolveu chocá-la.

 

        -Da prisão. Saí hoje.

 

        A garçonete pestanejou, surpresa. Jessie viu o alarme nos olhos dela. E o esforço que fez para continuar sorrindo.

 

        -Oh!... você não esconde o jogo, não é?

 

        Jessie encolheu os ombros, como se o julgamento da mulher à respeito dela fosse indiferente.E era mesmo. Tomou outro gole de refrigerante, olhando em volta.

 

        A garçonete afastou-se para apanhar o hamburguer, que havia ficado pronto. Jessie aproveitou para olhar para o corpo dela.  Não era mau. Tinha cintura fina , quadris redondos , pernas longas. E os cabelos ruivos, mesmo presos no boné com o logotipo da lanchonete, eram bem cuidados.

 

        Ela voltou e depositou o sanduíche sobre o balcão, olhando-a atentamente.

 

        -Posso... posso saber o que a fez ficar presa?

 

        Jessie a fitou com um olhar duro. Para quê aquela mulher queria saber disso? Devia ser uma fofoqueira. Pois iria chocá-la de vez, para que a deixasse em paz.

 

        -Assassinato – Declarou, com voz dura – Matei um homem numa briga.

 

        Mas ela não pareceu tão chocada. Até sorriu, com ar de entendimento.

 

        -Ah... crime passional... ninguém está livre disso... eu já tive vontade de matar o meu padrasto, quando apanhava dele. Só que nunca tive coragem. Fugi de casa e comecei a trabalhar. Mas você deve ser corajosa.

 

        Jessie mordeu o sanduíche. Não queria conversar e tentara espantar aquela mulher curiosa com a crueza de suas respostas. Mas ela resistia. Olhou-a com mais atenção. Tinha um rosto agradável. Sem aquele baton excessivamente vermelho, devia até ficar bonita. Pensou que ainda não possuíra uma mulher fora dos muros da prisão. Uma mulher que não cheirasse ao horrivel sabão da prisão. Se ela continuava puxando conversa, é porque estava interessada nela. Pois iria ver isso.

 

        -A que horas sai do trabalho? – Perguntou, de sopetão.

 

        Ela enrubesceu, mas sustentou seu olhar. Os olhos diziam que Jessie não se enganara em seu julgamento. O interesse dela, antes furtivo, mostrou-se claramente no olhar.

 

        -Vou largar dentro de quinze minutos. Só estou esperando a outra garçonete vir substituir-me.

 

        -Quer que eu a espere?

 

        Ela deu um largo sorriso.

 

        -Quero... sente-se lá na mesa e coma seus sanduíches. Meu nome é Mary.

 

        Jessie pegou o prato com o sanduíche e a garrafa, indo sentar-se à mesa. Comeu devagar, olhando para a rua através do vidro. O sol continuava forte, mas os pedestres o enfrentavam, andando nas calçadas protegidas pela sombra das árvores.

 

        Mary se aproximou com a conta,lhe sorrindo:

 

        -São quatro dólares. Não precisa me dar gorjeta.

 

        Jessie pegou o dinheiro e estendeu para ela. Mary sumiu por uma porta e voltou depois já sem uniforme. Os cabelos soltos lhe deram melhor aparência, com a blusa de malha preta e saia curta.

 

        Fez um sinal para Jessie seguí-la e saiu. Jessie ergueu-se e foi atrás dela, sem pressa.

 

        Ela a esperava afastada da lanchonete. Olhou-a sorridente.

 

        -Meu patrão não gosta que eu saia com os fregueses, tive de disfarçar.

 

        Jessie a olhou admirada.

 

        -Até com mulheres é proibida de sair!?

 

        Mary riu.

 

        -Principalmente! Uma vez uma mulher foi buscar-me lá no serviço e era muito masculinizada. Meu patrão ficou uma fera e quase me despediu. Tive que inventar que era uma prima. Mas, como é seu nome?

 

        -Jessie Berlot.

 

        -Berlot? Que nome incomum! É francês, não é?

 

        -Sim. Meu pai era francês.

 

        Caminhavam lado a lado. Mary era muito mais baixa que ela e tinha que erguer o rosto para olhá-la.

 

        -É um nome bonito como você. Você tem uma bela aparência, Jessie. Tem um quê masculino no modo de olhar,mas sua aparência fìsica é bem feminina, mesmo nessas roupas. Tem classe. Não é uma sapatona como as outras que conheço.

 

        Jessie sorriu com ironia.

 

        -Eu, tenho classe? É uma piada? Uma mulher que ficou numa prisão dez anos?

 

        Mary a olhou com atenção, séria.

 

        -Você é uma ex-presidiária...sei disso porque falou-me... mas quem a olha sem saber disso, apenas nota que é uma mulher muito bonita e atraente. Tem uma fineza natural. E isso fez com que passasse pela prisão sem se contaminar com os modos delas.

 

        Jessie encolheu os ombros, meio constrangida com o elogio.

 

        -Para onde vamos? – Perguntou, mudando de assunto.

 

        -Quer ir até minha casa? Moro à dois quarteirões daqui. Na verdade, a casa é uma amiga. Mas ela trabalha à noite, como dançarina. E hoje saiu cedo.

 

        -Tudo bem.

 

        Caminharam o resto do trajeto em silêncio. Mary desistiu de puxar conversa com aquela moça de expressão fria, mas muito atraente. Sentia-se cada vez mais atraída por ela. Olhava a boca carnuda, a pele sedosa, o nariz reto, os negros cabelos caindo na testa,lhe dando um toque juvenil no rosto. Já transara com várias homossexuais, mas nunca uma  como aquela. Jessie era diferente. Linda, feminina, muito atraente. Queria que suas amigas a vissem com ela.Iriam morrer de inveja. Nenhuma tivera uma mulher como Jessie.

 

        Entraram em um prédio em mau estado. Subiram dois lances de escada e Mary parou diante de uma porta, abrindo-a . Olhou para Jessie sorrindo.

 

        -Entre.

 

        Jessie a seguiu. Entrou e ela fechou a porta, voltando-se para ela, que olhava em torno com um olhar curioso.

 

        -É um bom apartamento.

 

        Mary achou que Jessie estava brincando. O apartamento era atarracado e com mobília barata de segunda mão. Mas aquilo para Jessie era um palácio, depois da prisão.

 

        -Quer tomar uma cerveja?

 

        -Não.

 

        -Bem, vou tomar um banho. Espere-me aqui.

 

        -Ok.

 

        Ela sumiu por uma porta e Jessie sentou numa poltrona velha. Olhou em volta mais uma vez. Era uma sala pequena, com móveis velhos, mas muito limpa. E isso é que era importante . Estava cansada da sujeira da prisão.

 

        Mary voltou dez minutos depois, com um roupão curto e com um copo de cerveja na mão.

 

        -Não quer beber mesmo?

 

        -Não.

 

        -Pois eu estou com sede. Não posso beber no trabalho.

 

        Tomou a cerveja em longos goles, olhando-a . Colocou o copo vazio numa mesinha e estendeu-lhe a mão.

 

        -Venha...

 

        Jessie segurou a mão quente dela, seguindo-a até o quarto. Mary voltou-se para ela e abraçou-a, encostando o corpo no dela, erguendo o rosto.

 

        -Beije-me... estou louca para isso...

 

        Jessie apertou-a contra si. O cheiro de sabonete penetrou em suas narinas. Inclinou a cabeça e esmagou a boca nos lábios que esperavam, sentindo o desejo dominá-la. Abriu o roupão e caíram na cama.

 

        Quando Jessie se despiu, Mary olhou-a inebriada. Ela era linda! Os seios pequenos e eretos, os bicos róseos, a pele delicada, a cintura fina, o púbis de pêlos delicados, as coxas fortes. Os olhos azuis atraíam, a boca era sensual.

 

        Agarrou-se à ela, sentindo um prazer que nunca sentira antes, sentindo cada músculo e nervo responder ao toque daquelas mãos que a acariciavam.

 

        Horas depois, descansavam, fumando um cigarro.

 

        Mary olhava para Jessie e pensava em sua sorte. Nunca tivera nos braços alguém assim. Ela possuía todas as qualidades de uma amante perfeita: bela, atraente, exímia na arte de dar prazer. E insaciável. Tinha uma resistência para amar que a deixara esgotada.

 

        Sentia uma paixão fulminante dominá-la . Queria Jessie para ela. Mas Jessie ergueu-se de repente, apanhou as roupas e começou a vestir-se sem dizer nada.

 

        -Onde vai? – Perguntou Mary.

 

        Ela a fitou tranquilamente.

 

        -Vou embora. Já fiquei muito tempo aqui.

 

        -Por que não dorme aqui? Minha amiga só chega amanhã.

 

        Ela a olhou com indiferença, nem parecia aquela mulher que a possuíra cheia de paixão. Encolheu os ombros e continuou vestindo-se.

 

        Mary saiu da cama e a abraçou, colando-se ao corpo dela. Olhou-a com um resto de desejo.

 

        -Fique mais, garota... ainda temos tempo...

 

        Ela desprendeu-se do seus braços. Olhou-a friamente.

 

        -Não quero ficar mais. Preciso ir.

 

        -Mas... você não tem ninguém a esperá-la, pelo que sei. Está só. Por que precisa ir?

 

        -Já fizemos tudo que queríamos, uma na outra. Já a satisfiz e você à mim. Para quê ficar aqui? Tenho o hotel para passar a noite.

 

        Mary começou a ficar com raiva daquele raciocínio frio. A indiferença de Jessie a enfurecia. Como podia agir assim, sem o menor sentimento, depois de tanto amor? Ela a estava tratando como um objeto, um brinquedo do qual se cansa de brincar e se larga.

 

        -Ora, vá logo, então! Está se fazendo de difícil! – Gritou Mary, irritada.

 

        Jessie voltou as costas e saiu, abrindo a porta do quarto. Mary foi atrás dela, nervosa e ainda querendo prendê-la ali.

 

        -Jessie! Desculpe-me, não quis dizer isso! Só peço que fique mais um pouco!

 

        Jessie a olhou com a mão na maçaneta da porta da entrada. Deu um ligeiro sorriso e saiu, batendo a porta atrás dela.

 

        Ela voltou para o hotel aspirando o ar da noite com prazer. Haviam sido boas  as horas que passara com Mary. Mas depois do desejo aplacado, não sentira nenhuma vontade de permanecer naquele quarto pequeno, com uma estranha. Queria estar só, pensar em sua vida que reiniciava.

 

        Chegou ao seu quarto, tomou um banho, enxugou-se e foi dormir. O sono chegou rápido, depois do dia agitado que tivera. E numa cama bem mais macia que a da prisão, entregou-se depois de muitos anos à um sono tranqüilo, sem sobressaltos de gritos das prisioneiras brigando ou do ruído das botas soando no corredor.

 

               

 ************************

 

      Acordou por volta das nove horas da manhã seguinte. Vestiu-se rápido e saiu, antes que tivesse de pagar outra diária. Evitou passar perto da lanchonete. Mary poderia insistir em levá-la para sua casa novamente, e não queria mais nada com ela. Fora apenas uma aventura, não queria logo no início de sua liberdade ter uma mulher grudada nela, ainda mais sem estar apaixonada.

 

        Tomou o ônibus para o centro da cidade. A fazenda em que morava ficava há uma milha da cidade, mas não queria  ir l para lá, onde sua mãe provavelmente ainda vivia. Não queria chegar lá como uma derrotada, primeiro queria arranjar um emprego honesto, procurar sua mãe em condições de poder mostrar que havia prosseguido sua vida honestamente, mesmo tendo cumprido pena. Chegar como uma vencedora, não como uma ex-presidiária sem perspectivas de vida.

 

        Sua mãe nunca a havia visitado ou escrevido, mas Jessie entendera a atitude dela. Sabia como ela devia se sentir, em vê-la na prisão assumindo uma culpa que não era sua. Era melhor assim. Só voltaria para casa podendo levar uma nova esperança para sua mãe, não como mais um fardo para a sofrida mulher.

 

        A paisagem vista da janela distraiu sua atenção. Havia novas estradas, novas ruas com novas residências, nova urbanização. E ao chegar no centro da cidade, notou que  não ficara parada no tempo. Havia novos prédios, novos estabelecimentos comerciais, as ruas estavam cheias de carros que nem conhecia os modelos,  e com muito mais gente.

 

        Saltou numa das ruas principais e olhou indecisa para os lados. Não reconhecia aquela rua. Olhou para o papel em sua mão. Conhecia aquela rua, mas tinha de localizá-la. Perguntou à um transeunte onde era a rua e o homem lhe sorriu com ar divertido.

 

        -Está nela, senhorita. Que número está procurando?

 

        -O número duzentos e trinta – Disse, desajeitada.

 

        -Esse número é de um edifício novo, mais à frente – Informou o homem, indicando com a mão.

 

        -Obrigada.

 

        Jessie foi andando na direção indicada, olhando os números. Era incrível como aquela rua estava mudada, não a reconhecera. Haviam vários edifícios agora,  bem como muitas lojas.

 

        O número procurado era de um edifício com vários andares, com uma entrada de luxo, com vidros fumê. Entrou hesitante e foi para os elevadores. Pediu o décimo andar ao cabineiro, indiferente aos olhares curiosos dos outros passageiros, todos de terno e gravata, naturalmente pensando o que aquela moça tão mal vestida estava fazendo ali. Desceu no andar que pedira e se viu em um corredor com apenas duas portas duplas de vidro, com letreiros dourados anunciando:

 

                              BENSON  -  ADVOGADO

 

        Jessie empurrou a porta e entrou. Seus tênis afundaram no espesso tapete cinza e viu numa mesa uma moça muito bem vestida, que a fitou com olhar especulativo.

 

        -O que deseja, senhorita? – Perguntou a moça, com certa frieza na voz.

 

        Jessie avançou dois passos.

 

        -Quero falar com o senhor Benson.

 

        -Tem hora marcada com ele?

 

        Jessie percebeu que ela perguntou isso duvidando de uma resposta afirmativa. Tirou do bolso o envelope que guardava e o estendeu para a moça.

 

        -Não. Mas tenho uma carta de recomendação do diretor da prisão estadual para entregar a ele.

 

        Ela pegou o envelope amarrotado como se fosse um papel imundo, com as pontas dos dedos. Mas ergueu-se e indicou um sofá de couro vermelho.

 

        -Sente-se aí, por favor. Vou ver se podem atendê-la .

 

        E entrou por uma porta de mogno, fechando-a atrás dela.

 

        Jessie preferiu não sentar. Sentia-se deslocada naquele ambiente luxuoso. Olhou em volta, com admiração. As paredes forradas de lambris exibiam quadros de bom gosto e os móveis eram requintados. Aproximou-se de um dos quadros, olhando-o atenta. Era uma pintura moderna. Não entendia de arte, mas gostou dos tons do quadro, com fundo cinza e círculos vermelhos, brancos e negros.

 

        Estava admirando a pintura quando a porta da entrada abriu.

 

        Jessie voltou-se ao ouvir a porta abrir e deparou com uma mulher, que estacou e a fitava com ar de surpresa.

        Jessie contemplou os olhos dourados, a boca provocante, os cabelos louríssimos caindo pelos ombros, os traços bem feitos. Desceu o olhar para o corpo vestido com um conjunto azul-marinho. Ela tinha um corpo espetacular, com pernas perfeitas envoltas em meias finas negras.

 

        A mulher recuperou-se da surpresa e prosseguiu, andando com modo provocante, ondulativo. Atravessou a sala e entrou pela mesma porta que a recepcionista entrara.

 

        Jessie passou a mão pelos cabelos, com um ligeiro sorriso.Que mulher! Nunca vira uma mulher assim. Linda, com uma classe impressa em cada milímetro do corpo.

 

        Os minutos passaram. Jessie estava impaciente, andando de um lado para o outro. Que diabo, se não queriam recebê-la, que dissessem logo! Iria embora sem insistir.

 

        A recepcionista voltou com uma mulher grisalha, que a fitou analizadoramente.

 

        -Senhorita, queira me acompanhar, por favor.

 

        Jessie a seguiu, entrando pela porta que ela conservou aberta. Passaram por uma sala com móveis modernos e computadores, e a mulher abriu uma porta almofadada, fazendo um gesto para ela entrar. Jessie passou por ela e entrou na sala.

 

        Um homem magro, de cabelos grisalhos, vestido com um terno impecável cinza, a olhou por cima da imponente mesa de mogno. Ao lado dele, de pé, estava a loura sensacional que vira chegar.

 

        O homem a olhou da cabeça aos pés com um olhar frio. A mulher a fitou com um olhar impenetrável.

 

        -Presumo que seja a senhorita Berlot, não? – Perguntou o homem, com tom frio.

 

        Jessie o encarou sem sorrir. Antipatizou com aquele homem que a fitava como se fosse um inseto.

 

        -Sim, sou eu, Jessie Berlot.

 

        Ele indicou uma poltrona diante da mesa.

 

        -Sente-se, senhorita.

 

        Jessie aproximou-se e sentou, fitando-o em expectativa. Os olhos dele a fitavam com frieza.

 

        -Bem, sou Arthur Benson – Disse ele, com imponência – Vi aqui na carta do meu amigo Weaver que ele a recomenda para eu lhe arranjar um trabalho. O que sabe fazer, Jessie Berlot?

 

        -Na prisão aprendi a tomar conta dos arquivos da biblioteca. E aprendi a mexer no computador.

 

        -Hum... e o que mais sabe fazer?

 

        -Sei digitar cartas. Fazia isso para as presidiárias.

 

        -O que fazia antes de ser presa?

 

        -Tabalhava na fazenda de meus pais.

 

        -Hum... não tem muitas habilitações, senhorita Berlot.

 

        Jessie sentiu a má vontade do homem. Ergueu-se.

 

        -Se não tem serviço para mim, tudo bem.

 

        Ele a fitou com surpresa. Naturalmente, pensara que ela iria humilhar-se para conseguir um emprego.

 

        A loura pousou a mão no ombro do homem, olhando para Jessie.

 

        -Arthur, você não está precisando de uma bibliotécaria? Sei que Suzie pediu demissão, por causa do nascimento dos gêmeos!

 

        A voz dela impunha mais do que sugeria. Ele a fitou de cenho franzido.

 

        -Preciso de uma bibliotecária formada . Ela não é.

 

        -Ora, Arthur! A prática é melhor que a teoria! Por que não experimenta?

 

        Jessie olhava o diálogo aparentemente indiferente. Mas na verdade, queria desesperadamente o emprego. Sabia que sua ficha criminal lhe traria muitos problemas para conseguir trabalhar.

 

        Arthur Benson olhou para Jessie com mau humor.

 

        -Bem, vou testar você, garota. Mas aviso que tem que andar na linha. Ao menor deslize, será despedida. Vou atender o pedido de meu amigo e principalmente, de minha noiva, mas terá que corresponder à essa confiança.

 

        -Obrigada, senhor Benson – Disse Jessie, contendo sua alegria.

 

        -Outra pergunta: Qual foi o crime que cometeu?

 

        Jessie o fitou nos olhos.

 

        -Assassinato – Declarou, em voz baixa.

 

        Ela viu a surpresa da loura e o sorriso malicioso do homem.

 

        -Assassinato, heim? E a quem matou?

 

        Jessie baixou a cabeça.

 

        -Ao meu pai.

 

        Ouviu o suspiro do homem, deliciando-se com sua vergonha.

 

        -Seu pai? E em que circunstância?

 

        Jessie ergueu o rosto. Encarou o homem com um olhar angustiado.

 

        -Ele estava surrando minha mãe com um chicote. Interferi e tomei o chicote dele. Meu pai então pegou um machado e atacou-me. Lutamos, tomei o machado dele e o matei.

 

        A voz tremeu no fim do relato. A loura a fitou impressionada, o homem com um olhar de reprovação. Um silêncio pesado caiu na sala.

 

        Finalmente, o homem apertou um botão. A mulher grisalha que a encaminhara à sala entrou. Arthur Benson indicou Jessie com a mão.

 

        -Judy, essa moça vai trabalhar na biblioteca à partir de amanhã. Providencie os papéis de registro. O salário será de duzentos dólares semanais. Mostre à ela o que tem de fazer.

 

        A mulher pareceu admirada. Mas não disse nada.

 

        Jessie olhou para a loura. Ela quem forçara Arthur Benson a lhe dar o emprego. Queria agradecer, mas algo a fez ficar calada: os olhos frios de Benson. Ela era noiva dele e não sabia se Benson aprovaria ela se mostrar simpática à loura. À contragosto, estendeu a mão para ele.

 

        -Obrigada, doutor Benson.

 

        Benson ignorou a sua mão estendida. Olhou-a nos olhos e rosnou:

 

        -Pode se retirar, senhorita Berlot.

 

        Jessie ficou vermelha com a indelicadeza dele. Voltou-se e acompanhou  Judy.

 

        Judy, sabendo que ela ia trabalhar ali, se mostrou simpática. Mostrou a enorme biblioteca com livros de jurisprudência, os arquivos de pastas das causas defendidas por Benson e o computador para acessar as fichas de cada processo arquivado. Explicou o horário de trabalho e olhou para suas roupas com olhar crítico.

 

        -Jessie, não pode trabalhar aqui vestida assim. Terá de comprar roupas mais condizentes com o local de trabalho. Esse escritório é de categoria alta, Jessie. Só recebemos clientes importantes, que podem pagar os altos honorários que Benson cobra.

 

        Jessie a fitou encabulada.

 

        -Não tenho dinheiro para isso. Acabei de sair da prisão. Só tenho essa roupa.

 

        -Vou falar com o senhor Benson para lhe dar um adiantamento. Espere aqui.

 

        Voltou minutos depois com um cheque na mão. Sorriu para Jessie.

 

        -Você conseguiu uma coisa difícil. Quatrocentos dólares, para serem descontados em cinco vezes. Sujestão da senhorita Kincayd.

 

        -Quem é a senhorita Kincayd? -  Perguntou, já advinhando quem era.

 

        -A noiva de Benson. Aquela loura que estava com ele na sala. Ela quem o convenceu a dar o empréstimo.

 

        Jessie ficou calada. A noiva de Benson havia ido com sua cara... mas não devia nem olhar para ela, se queria conservar o emprego. Por Deus, aquele antipático do Benson era um cara de sorte! Que mulherão era a noiva dele! Linda, charmosa, fina!

 

        Sacudiu a cabeça, pesarosa. Aquela mulher não era para seu bico. Além de ser belíssima e fina, nem devia imaginar que outra mulher a olhara com interesse. E ainda mais uma ex-presidiária.

 

        -Seja gentil com a senhorita Kincayd, trate-a com deferência – continuou Judy – Benson a ouve muito, ela o domina. Se ela gostar de você, trabalhará aqui por muito tempo.

 

        Jessie olhou para Judy.

 

        -Sei disso. Só consegui o emprego porque ela praticamente obrigou Benson a contratar-me.

 

        -Oh, eu sabia que o senhor Benson não iria ajudá-la sem uma pressão, ele é muito esnobe e frio!  Agora entendi sua admisão! – Segredou Judy, com ar cúmplice.

 

        Jessie a fitou, percebendo que tinha uma aliada contra Benson. Mas, até que ponto?

 

        -E você, Judy? Gostará de trabalhar comigo?

 

        Judy sorriu, comovida com olhar temeroso de Jessie.

 

        -Acho que vamos nos dar bem.

 

        -Mesmo sabendo que sou uma ex-presidiária? Que fui condenada por matar um homem?

 

        -Jessie, o seu passado não me interessa. Você já pagou por ele.O que importa é como agirá daqui pra frente. Todos devem ter uma segunda chance, penso assim.

 

        Jessie fitou-a com gratidão. Judy era tão boa! Percebeu que era uma pessoa sincera, de bons sentimentos, em quem podia confiar.

 

        Ela a fez assinar um recibo e entregou-lhe o cheque.

 

        -Agora, vá  comprar suas roupas e amanhã se apresente aqui às nove horas, vestida de acordo. Seus dados pessoais e documentos, eu pego amanhã.

 

        Jessie deu um de seus raros sorrisos.

 

        -Até amanhã, Judy. E obrigada por tudo.

 

        Judy sorriu com simpatia.

 

        -Não tem de agradecer, Jessie. Apenas fiz o que devia fazer.

 

        Jessie saiu do edifício com uma nova disposição. O mundo lhe parecia, depois de muito tempo, menos ameaçador e injusto. Tinha um trabalho honesto. Viveria com dignidade. Sabia que Benson não fôra com sua cara. Mas provaria à ele que merecia essa chance. Trabalharia com dedicação, e nem olharia para a noiva dele, pelo seu bem. Aquela loura era um fruto proibido, noiva de seu patrão.

 

 

 

Continua na parte 2

 

 

Feedback: [email protected]

 

 

 

Leth       Uber      Home

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1